Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Sahara Ocidental - Terminou a Minurso, mantém-se o direito inalienável do povo saharaui à autodeterminação

Anteontem, dia 1 de Novembro de 2026, cessaram as operações da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), criada em 1991 por decisão de ambas as partes, a Frente Polisário e o Reino de Marrocos, sob mediação da ONU e da União Africana, com o apoio unânime do Conselho de Segurança.


Tendo visto sucessivamente renovado o seu mandato ao longo dos últimos 35 anos, que atravessou diferentes fases do processo de ocupação militar marroquino, foi a falta de luz verde para a sua continuação, por parte do mesmo Conselho de Segurança, que determinou o seu fim abrupto.

O que se passou? No dia 30 de Outubro, os Estados Unidos apresentaram a votação uma proposta de resolução que preconizava, entre outras, as seguintes medidas: alterar a denominação da MINURSO para MINUSO, ou seja, abolir a palavra “referendo” e, em conformidade, redefinir os objectivos e estrutura da Missão; aceitar a proposta marroquina de autonomia para o território (cujo texto nunca foi tornado público até agora) como a única base de referência para as negociações, excluindo assim qualquer outra possibilidade de solução e impondo, na prática, ao povo saharaui, um futuro sob a soberania marroquina.

Registaram-se 11 votos a favor (Bahrein, Colômbia, Dinamarca, EUA, França, Grécia, Letónia, Libéria, Panamá, Reino Unido, República Democrática do Congo), 3 abstenções (China, Paquistão e Somália) e a Federação Russa utilizou o seu direito de veto, salientando «o facto de que o Conselho de Segurança não pode predeterminar automaticamente questões relacionadas com a soberania. Não temos o direito de retirar a questão do Sahara Ocidental da agenda da descolonização apenas com base em conclusões teóricas sobre a existência de um plano alegadamente realista para a resolução [do conflito]. (…) O Conselho de Segurança não deve dar o seu aval a uma abordagem tão unilateral.»

Seguiu-se a votação de «um projecto de resolução conciso para a prorrogação técnica do mandato» [da MINURSO], «para que possa continuar a operar», apresentado pela Rússia. Obteve 3 votos a favor (Rússia, China e Somália), 11 abstenções e o veto dos EUA. De qualquer modo, sendo necessários sempre nove votos favoráveis para que uma resolução seja aprovada, esta contra-proposta não atingiria esse objectivo, mesmo que não houvesse nenhum voto contra.

Não tendo havido nenhuma movimentação diplomática que levasse à convocação de uma reunião de última hora do Conselho de Segurança, o mandato da MINURSO terminou às 24 horas do dia 31 de Outubro de 2026, como estipulado desde o voto de 2025.

No dia 1 de Novembro, o Secretário-geral da ONU, António Guterres, através do seu porta-voz, Stéphane Dujarric, afirmou: «A MINURSO foi criada para proteger e servir o povo do Sahara Ocidental, em particular para lhe permitir exercer o seu direito inalienável à autodeterminação. O Secretário-geral sublinha que a saída da MINURSO não revoga esses direitos inalienáveis e apela a todas as partes para que respeitem e promovam os direitos do povo do Sahara Ocidental. (…). O Secretário-geral reafirma o compromisso das Nações Unidas em apoiar as partes para que cheguem a uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável, que garanta a autodeterminação do povo do Sahara Ocidental.»

Algumas horas depois, o Representante da Frente Polisário junto das Nações Unidas em Nova Iorque, Sidi Omar, reagiu num comunicado, dizendo: «A Frente Polisário salienta que o povo saharaui continua firmemente empenhado no seu direito inalienável, não negociável e imprescritível à autodeterminação e à independência, bem como na defesa dos seus direitos por todos os meios legítimos, tal como consagrado nas resoluções pertinentes da ONU. (…) a Frente Polisário reafirma o seu firme empenho em cooperar com os esforços do Secretário-geral da ONU e do Conselho de Segurança da ONU na procura de uma solução justa, duradoura e definitiva para a descolonização do Sahara Ocidental, a última colónia em África.»

Neste contexto, mantém-se o quadro legal de referência existente desde 1963: o Sahara Ocidental é um território não-autónomo, pendente de descolonização, com direito à autodeterminação, como explicitamente afirmado pelo Tribunal Internacional de Justiça em 1975. O que acabou de ser reconhecido pela Assembleia Geral da ONU, no dia 15 de Outubro, por votação a favor de 152 Estados, com sete abstenções e dois votos contra (Estados Unidos e Israel). Será neste âmbito que poderão ser retomadas as negociações políticas.

Quase em simultâneo com estes acontecimentos, o regime marroquino deportou de El Aiún, capital do Sahara Ocidental ocupado, dois jovens estudantes de 22 anos, que tinham viajado da Noruega para conhecerem as e os defensores de direitos humanos saharauis. Pouco depois de uma visita a casa de um reconhecido ex-preso político, onde estavam familiares de actuais presos políticos, forças de segurança à paisana apresentaram-se no hotel e obrigaram-nos a seguir até Agadir e a abandonar Marrocos. Esta é uma política sistemática: desde 2014 foram expulsas do Sahara Ocidental ocupado, pelo menos, 330 pessoas.

Também na sede da ONU, onde foi instalada no dia 27 de Outubro a exposição «50 Anos, 50 Rostos: o Exílio Saharaui - Uma Vida de Resistência», do fotógrafo saharaui Adad Ammi, organizada pela Oxfam, em colaboração com as Missões permanentes da Argélia, Belize, Namíbia, África do Sul, Timor-Leste e Uganda, a diplomacia marroquina exerceu o seu poder e a mostra foi desmontada dois dias depois. No entanto, no dia 30, foi reposta e prolongada até 4 de Novembro, dando origem a uma segunda cerimónia inaugural.

Independentemente de uma análise política mais detalhada deste momento que abre uma nova fase de luta para o povo saharaui, que a AAPSO pretende fazer e divulgar, deixamos duas ideias fundamentais:

  • a MINURSO vai fazer falta, mas a aprovação da resolução apresentada pelos EUA consagraria a decisão do Conselho de Segurança de reconhecer a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental, esvaziando o conteúdo do direito à autodeterminação do povo saharaui, garantido pela Carta das Nações Unidas, por inúmeras resoluções de vários órgãos judiciais internacionais e nunca abertamente contestada;
  • nesta manobra concertada entre os EUA e Marrocos, tiveram responsabilidades 11 membros do Conselho de Segurança, com destaque para os governos europeus, que levaram até ao fim a sua capacidade de defender valores e praticar exactamente o seu contrário, colaborando activamente no aprofundamento do desprestígio das instituições e na criação do caos internacional.

Lembramos que Portugal tomará o seu lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança em Janeiro de 2027.

A luta do povo saharaui é também a nossa luta, a de todos os povos, que querem que a justiça e a paz prevaleçam sobre os negócios, a ganância, a hipocrisia e o poder sem controlo. O processo de descolonização não está completo, continua a haver uma colónia em África. A solidariedade é o nosso compromisso com a liberdade. Associação de Amizade Portugal – Sahara Ocidental


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