Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Brasil - Violência nas rodovias

SÃO PAULO – Não bastassem a alta carga tributária, os elevados encargos trabalhistas, os juros elevados, o baixo nível de investimento, o alto custo da energia, a desastrosa política de comércio exterior e a falta de investimentos em infraestrutura que caracterizaram os últimos 15 anos, mais um fator aparece para tirar a competitividade da economia: o crescimento acelerado dos níveis de roubo de cargas. Nas rodovias do Estado de São Paulo, por exemplo, o roubo de cargas, especialmente de alimentos, bebidas, eletrodomésticos e remédios, cresceu de forma assustadora, registrando seguidas altas desde abril de 2016.

Segundo dados da Secretaria estadual de Segurança Pública, de janeiro a junho deste ano, foram registrados 5417 crimes dessa natureza, um número 23% superior ao do mesmo período de 2016. No País, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), os ocorrências de roubo de carga subiram 86% nos últimos seis anos, deixando um rastro de prejuízos avaliados em mais de R$ 6 bilhões desde 2011.

Como se sabe, os números de roubo de carga estão diretamente ligados aos desafios do comércio mundial e constituem um dos maiores fatores que elevam os custos logísticos no País, pois não basta computar apenas as perdas, mas a vulnerabilidade do transporte que acaba por aumentar sobremaneira o seguro. Além disso, a violência nas estradas acaba por provocar prejuízos para toda a população, pois as empresas são obrigadas a aumentar o preço dos seus produtos para compensar as perdas e os gastos com a proteção de seus caminhões e motoristas.

A falta de infraestrutura adequada para a armazenagem da safra brasileira de grãos também contribui para o aumento da criminalidade nas estradas, pois, sem armazéns em número suficiente, os produtores são obrigados a despachar a um só tempo toda a sua safra, o que acaba por congestionar portos e rodovias. Ou seja, a colheita de grãos acaba ficando armazenada em caminhões estacionados à beira das estradas. Tudo isso acaba por tumultuar o tráfego nas rodovias, prejudicando também as atividades das demais empresas que dependem do comércio internacional.

Para piorar, desde pelo menos 2013, as autoridades estaduais e municipais vêm discutindo ações efetivas de combate à criminalidade e violência nas rodovias, mas até agora poucas ações práticas saíram do papel, sendo notórios não só a fragilidade do policiamento nas estradas como os poucos resultados obtidos no combate à receptação das mercadorias roubadas. Afinal, se os criminosos não tivessem tanta facilidade para “desovar” o produto do roubo, não haveria tanta violência nas rodovias. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Brasil – Missão a África para promover negócios internacionais

As dez empresas e quatro associações brasileiras que foram à Missão Ministerial Comercial à África Ocidental, ocorrida entre 6 e 10 de agosto, na Nigéria e em Gana, estão comemorando o resultado de negócios obtido durante o evento. A expectativa total de negócios ficou em torno de US$ 66,8 milhões, entre os que foram fechados na hora e os que devem se concretizar nos próximos 12 meses.

A participação das empresas foi coordenada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), que preparou pesquisas de identificação e seleção de potenciais compradores e organizou seminários de negócios e visitas técnicas em parceria com o Ministério das Relações Exteriores.

Em Lagos, capital da Nigéria, ocorreram 205 reuniões entre as empresas brasileiras e os compradores africanos, com US$ 1,5 milhão em negócios gerados a curto prazo e mais US$ 41,2 milhão para os próximos doze meses. Já na capital de Gana, Acra, foram 159 reuniões com US$ 2,1 milhões em negócios imediatos e US$ 22 milhões para os próximos 12 meses.

O objetivo da missão foi reunir empresas brasileiras e compradores africanos, para promover negócios internacionais e fomentar parcerias estratégicas. Também foram realizados seminários e visitas técnicas em ambos os países. A ação contou com empresas brasileiras dos setores de autopeças, etanol, balas e confeitos, café, calçados, carnes, frutas, móveis, entre outros. In “Apex-Brasil” - Brasil

domingo, 20 de agosto de 2017

Nuvem passageira


















Vamos aprender português, cantando


Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai

Não adianta escrever meu nome numa pedra
pois esta pedra em pó vai se transformar
você não vê que a vida corre contra o tempo
sou um castelo de areia na beira do mar....

Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai

A lua cheia convida para um longo beijo
mas o relógio te cobra o dia de amanhã
estou sozinho, perdido e louco no meu leito
e a namorada analisada por sobre o divã....

Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai

Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
não quero nem saber de me fazer ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
sou um castelo de areia na beira do mar...

Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai

Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai

Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai

Eu sou nuvem passageira
que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito
que se quebra quando cai


Hermes Aquino - Brasil


(Poeta, publicitário, músico, compositor e cantor)

Timor-Leste - Comemoração do 42.º aniversário das FALINTIL

Hoje, 20 de agosto de 2017, comemora-se o 42.º aniversário das FALINTIL, Forças Armadas para a Libertação Nacional de Timor-Leste.

O Governo expressa o seu profundo respeito e gratidão às FALINTIL e honra todos os Combatentes da Libertação Nacional que, com coragem e sacrifício, durante 24 anos de luta, conduziram a um Timor-Leste livre e independente.

Entre os dias 7 e 18 de agosto, foram organizados vários eventos no âmbito da celebração do dia das FALINTIL. A competição desportiva “Taça FALINTIL”, com jogos entre equipas dos vários ministérios, decorreu no Campo de Futsal, em Fatuhada, Díli. No sábado, dia 19 de agosto, realizou-se uma Missa de Ação de Graçasna Igreja de Santo António (Motael), em honra aos heróis nacionais, seguida de uma Cerimónia de colocação de coroas de flores no Jardim dos Herós, em Metinaro.

Hoje tem lugar a cerimónia principal no Quartel-General das F-FDTL, em Fatuhada. Entre os convidados contam-se altos representantes militares de Portugal e da Austrália e pessoal militar, veteranos e diplomatas de todo o mundo.

O programa oficial inclui a cerimónia do Içar da Bandeira, paradas militares e atribuição de prémios e promoções militares. Haverá ainda discursos do Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, Francisco Guterres Lú Olo, e do Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, Major-General Lere Anan Timur.

A cerimónia termina com uma apresentação dos alunos que participaram na marcha entre Ainaro e Díli, em homenagem ao 42.º aniversário, seguida de uma apresentação musical e uma demonstração militar.

O Porta-Voz do VI Governo Constitucional, o Ministro de Estado Agio Pereira, referiu que "nestes próximos dias lembraremos as FALINTIL e todos aqueles que serviram nas suas fileiras. Hoje, o Sol nasce e põe-se sobre um Timor-Leste livre e em paz devido ao seu sacrifício e coragem. Nós os honramos. É com o espírito das FALINTIL que sabemos o que é amar e servir e, inspirados pela sua dignidade e determinação, avançamos, trabalhando juntos para construir a nossa Nação." Governo de Timor-Leste

sábado, 19 de agosto de 2017

China – Futebol e o intercâmbio intercultural

A cidade de Shijiazhuang, capital da província de Hebei, foi o palco da segunda edição do Torneio Amigável de Futebol para Alunos do Ensino Médio Brasil-China, uma competição que visa o intercâmbio cultural entre estudantes brasileiros de mandarim e alunos chineses de escolas locais

Depois do sucesso que marcou a iniciativa lançada no ano passado, o Torneio Amigável de Futebol para Alunos do Ensino Médio Brasil-China voltou a decorrer este ano, em Shijiazhuang, na província de Hebei. Para a organização, o evento pretende não apenas incentivar os alunos brasileiros a interagir com os locais, aprofundando os seus conhecimentos sobre a cultura chinesa, como também proporcionar aos alunos chineses uma porta de acesso ao universo futebolístico e cultura do Brasil.

Focando-se no intercâmbio cultural e no desenvolvimento do futebol nacional, o Instituto de Desporto da Universidade Normal de Hebei (UNH), em parceria com a Shijiazhuang Danqiur Sports&Communication Co. Ltd, decidiu avançar para a organização da segunda edição do torneio. Neste ano participaram duas equipas do ensino médio do Instituto Intercultural Brasil-China (uma masculina e outra feminina), do Rio de Janeiro, e equipas representantes de nove escolas locais.

Huang Dawei, director do Departamento do Ensino e Pesquisa da UNH, defende que, apesar das barreiras linguísticas existentes entre os participantes, “a linguagem do futebol é universal, ajudando a eliminar a sensação de distanciamento entre as duas nacionalidades e promovendo a comunicação intercultural”, referiu o responsável, citado pelo Diário do Povo.

Salientando a importância de aparecerem talentos nacionais e estrangeiros bilingues, Huang espera que sejam criados programas de acolhimento que permitam aos alunos brasileiros viver na China, com famílias chinesas, de modo a garantir o “aprimoramento linguístico e a compreensão cultural, tal como a partilha de conhecimentos de artes marciais, ping-pong, futebol e até de samba”.

A par do plano de desenvolvimento da capacidade futebolística do país asiático, “cada vez mais treinadores brasileiros pretendem vir para a China para ensinar e treinar. Contudo, a língua continua a ser um enorme obstáculo”, acrescentou.

Oriundos do Colégio Estadual Matemático Joaquim Gomes de Sousa, também conhecido como Instituto Intercultural Brasil-China — instituição co-fundada em 2015 pelo governo do estado do Rio de Janeiro e a UNH — 26 alunos integrantes do projecto que envolve a aprendizagem de futebol e mandarim deslocaram-se até Shijiazhuang, acompanhados por treinador e professores.

João Kelis, de 15 anos, capitão da equipa masculina, e Ana Beatriz, 16 anos, jogadora da equipa feminina, decidiram estudar mandarim pelas oportunidades que a língua chinesa lhes poderá proporcionar no futuro, considerando o idioma uma mais-valia no currículo. “As coisas mais difíceis rendem melhores frutos. Se me esforçar mais para aprender o mandarim, melhor será o meu futuro”, considera João, que espera ter a oportunidade de estudar na China.

Ambos descrevem a China como um país organizado, não só pela forma como o trânsito está organizado nas ruas, como também pela metodologia aplicada ao futebol. Apesar do choque cultural, os dois estudantes não deixaram de salientar pela positiva outros aspectos, como a grandiosidade dos monumentos, a extravagância gastronómica ou a simpatia do povo chinês. “O Brasil deve fazer um investimento maior na educação para criar mais possibilidades de intercâmbio como esta, que nos permite vir aqui desfrutar da cultura chinesa, e os chineses da nossa também”, defendeu João.

Cativar os alunos com o desporto

Acompanhando os alunos, quer na aprendizagem, quer durante a deslocação, Ana Qiao, directora do Instituto Confúcio da Pontifícia Universidade Católica (PUC), afirmou que “a competição, ou o futebol, não são o objectivo principal” desta actividade. “Esperamos que através do futebol possamos vir a cultivar o interesse dos alunos”, apontou.

O Instituto Intercultural Brasil-China é a primeira escola a tempo inteiro com ensino bilingue, almejando cultivar talentos com capacidades linguísticas e conhecimentos culturais sobre a China. “Também ajudamos os alunos a dominar outras capacidades, a criar a noção de organização e disciplina”, explicou Ana, nutrindo a esperança de que, no futuro, possa vir a testemunhar o aumento do número de alunos brasileiros com a possibilidade de se deslocarem à China para estudar.

Lucas Cordeiro Alcantara, de 26 anos, foi o treinador de ambas as equipas e estuda mandarim desde 2016. “Apesar de ainda saber muito pouco, o estudo da língua chinesa proporcionou-me um maior conhecimento da cultura. Quanto mais procuro, mais encantado fico”, afirmou.

Descrevendo o torneio como uma actividade importante de intercâmbio cultural, o treinador espera que “o Brasil esteja a focar-se mais sobre esse aspecto [investimento na educação e no intercâmbio]. Acho que a China deve apostar também, porque vão aparecer bons resultados”.

Procurando o desenvolvimento de uma metodologia centrada no desenvolvimento dos jogadores como atletas e cidadãos, Lucas prevê um futuro auspicioso no que diz respeito ao cumprimento dos objectivos que a China traçou para o futuro. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau

O cruel realismo do cais do porto: Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves

                                                            I
Mais de uma vez se chamou a atenção do público-leitor para uma curiosa contradição que parece ter-se instalado de maneira sólida e obstinada no universo literário brasileiro, a qual não nos custa repetir: enquanto a recente produção literária nacional revela-se impressionantemente criativa, ela recebe, em contrapartida, um tratamento incompatível com sua qualidade estética, principalmente nos meios de comunicação e nos canais de divulgação artística, isto quando não são relegadas ao completo ostracismo, resultado de um silêncio ao mesmo tempo pérfido e cruel. Tal constatação procura, antes de mais nada, colocar por terra a propalada tese de que a literatura nacional estaria vivendo uma grave e crônica crise criativa, opinião assentada antes sobre um imponderado exercício de impressionismo crítico, do que sobre uma análise imparcial da atual realidade estética de nosso país.

Exemplo claro, entre outros, de uma literatura em muitos aspectos reveladora – e, sintomaticamente, pouco lembrada pela crítica – é a obra literária do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, que com o seu premiado romance Os Vira-latas da Madrugada (1981) está por merecer um lugar de destaque dentro da mais recente produção literária nacional. Natural da litorânea cidade de Santos e tendo dedicado grande parte de sua atividade profissional ao jornalismo, Adelto Gonçalves é um típico exemplo do descaso que a crítica literária contemporânea tem devotado aos mais novos escritores.

Tal descaso, contudo, revela-se de todo injustificado: manipulando basicamente duas categorias universais distintas – o homem e o meio –, Adelto Gonçalves procura, em seu romance, retratar o embate travado entre ser e espaço, entre o físico e o humano, embate este marcado por uma forte carga emotiva e realista. Neste sentido, não nos parece demasiado exagero afirmar que o autor se coloca, embora em menor grau, entre alguns dos continuadores da tradição literária que reconhece no espaço um componente privilegiado do romance, elemento no qual o ser alcançaria sua plena realização ou a sua mais absoluta decadência.

Assim, poder-se-ia inserir sua obra, feitas as devidas ressalvas, na categoria do que a teoria literária convencionou chamar de “romance de espaço”1, em que talvez pudéssemos introduzir nomes tão relevantes como os de José Eustasio Rivera (La Vorágine), Euclides da Cunha (Os Sertões) e Rómulo Gallegos (Doña Bárbara), para ficarmos apenas nos latino-americanos. Logicamente, semelhante observação não busca dar ao romance de Adelto Gonçalves o mesmo grau de importância desses que, indubitavelmente, podem ser considerados verdadeiros clássicos da Literatura Latino-Americana, mas apenas revelá-lo como mais um dos originais herdeiros de tão fecunda tradição.

Deste modo, se nas obras aqui citadas o que se verifica, acima de tudo e num primeiro instante, é a disputa que acirradamente trava o homem e a floresta (Rivera), o homem e o sertão (Cunha) e o homem e a planície (Gallegos), em Os Vira-latas da Madrugada o mesmo embate pode ser percebido entre o homem e o cais do porto, um espaço, como todos os demais aqui aludidos, marcado por características peculiares, por normas e leis próprias, por uma realidade singular.

                                                           II

O romance de Adelto Gonçalves desenvolve-se em Paquetá, bairro da zona portuária de Santos, onde aliás o autor viveu a maior parte de sua vida. É um romance de muitas personagens, embora com pouco destaque para elas, já que, como fora aludido, é o componente espacial que ganha maior relevo no decorrer dos acontecimentos; a existência trágica, o sofrimento cotidiano, a luta homérica contra um meio físico subversivo parecem ser o elo inexorável que liga figurantes e personagens a um destino comum. No rastro desses elementos, o autor procura dar aos acontecimentos um caráter documental, seja por vários de seus episódios estarem assentados em fatos do cotidiano, trazidos à tona por meio das reminiscências do próprio autor (“eu era muito pequeno, quando algumas destas histórias aconteceram”)2, seja pela tentativa confessada do autor em colocar em seu romance personagens que um dia existiram de fato. Não obstante o romance tender ao documental, Adelto Gonçalves não hesita em rechaçar qualquer intenção em fazê-lo histórico (“não pretende este livro uma imagem de histórico”, p.31).

Analisando o cenário em que os episódios se desenrolam, percebe-se que, com uma habilidade inquestionável, Adelto Gonçalves desloca a narrativa de cenário tradicional, caracterizada pela dicotomia cidade/campo, para uma realidade totalmente nova e diferente – o cais do porto. Sem ser campo, mas também sem chegar a ser completamente cidade, o cais do porto parece situar-se numa zona limítrofe, num indefinível meio-termo, universo norteado por uma espécie curiosa de natural dicotomia: contém, ao mesmo tempo – e numa mistura que apenas um espaço com características tão originais poderia conter –, particularidades tanto do campo quanto da cidade, o que nos permite reformular nossa afirmação anterior: para além de ser uma região dicotômica, o cais do porto é, sobretudo, um espaço híbrido.

Por ser híbrido, ele também agrupa em si o arcaico e o moderno, trazendo consigo todas as infinitas contradições que esta mistura pode acarretar: excessos, desvios e, principalmente, injustiças. Caberia, a esta altura, perguntar em que o meio físico do cais, stricto sensu, se difere dos demais. Em que, realmente, ele é peculiar? Uma simples análise da descrição que o autor faz do local parece-nos suficiente para que estas peculiaridades aflorem em definitivo:

“mais adiante, viu novamente os armazéns das docas, uma locomotiva passando rápida, solitária, os guindastes que se sobressaíam além do teto dos armazéns. De vez em quando, um caminhão passava, em meio aos buracos, espirrando lama das poças fétidas – um cheiro de mistério como o de todos os portos do mundo. E perdeu-se na zona do Golfo: à esquerda, um sem-fim de armazéns amarelos, sujos, descaiados – cargas em fileiras nas ruas, cobertas por encerados, um policial adiante –, à direita, uma longa fila de botequins – mulheres desenxabidas sentadas às portas, olhando a chuva batendo nas pedras das ruas, nas latas vazias” (p. 21).

                                                           III
Guindastes e botequins, lama e prostitutas, música e locomotiva: tudo parece contribuir de maneira inusitada para a composição de um cenário francamente grotesco; a conformar sua paisagem, há ainda a presença sugestiva de morcegos e ratos, da densa lama a se espalhar continuadamente por todo o cais, da atmosfera decadente do local, além de sua aparentemente natural subversão.3

No limite, contudo, é o elemento humano que faz do cais o que ele realmente é, fisicamente ou não: um mundo à parte, marcado pela violência e pela injustiça, pela extrema individualidade e absurda inconsequência, pela trágica fatalidade a se refletir nos olhos dos homens e pela contundente tristeza a dissimular-se no sorriso acanhado das mulheres:

“mas igual a este beira-cais, como dizem os velhos marinheiros, não existe lugar em outra parte do mundo. Aqui é onde as mulheres das ruas já não brigam mais por causa da traição do amante, mas porque a outra lhe roubou o freguês; onde os moleques, vira-latas da madrugada, percorrem a noite inteira em busca de um otário, roubam os bêbados caídos nas calçados, dormem com os pederastas e vivem de pequenos furtos (...); onde os pretos esfarrapados se deitam nos vãos de porta e dormem com o cuspe grosso de cachaça escorrendo no canto da boca e sonham com a família que não tiveram e com a moça loira que anuncia Coca-cola (...); onde as pessoas têm a cor do rosto amarelada, pálida, os olhos fundos, o cabelo ensebado, a pele macilenta como a dos jogadores de sinuca” (p. 33).

E assim chegamos ao outro pólo do embate que – ao lado do espaço romanesco – a obra de Adelto Gonçalves procura retratar: o humano. Em Os Vira-latas da Madrugada, as cenas como que se desprendem das páginas do livro para preencher um espaço na mente do leitor: não são cenas simples, comuns, mas antes passagens dotadas de uma intensa complexidade existencial, que se esconde por detrás de cada ato realizado ou de cada palavra proferida.

Uma questão social se impõe logo de início: Os Vira-latas da Madrugada são um romance dos marginalizados. Em suas páginas, prolifera-se todo um universo por meio do qual o autor procura revelar a crua e violenta realidade do cais, onde bêbados e prostitutas disputam um espaço nos botequins, onde meninos de rua partem em busca de algum dinheiro fácil, onde trabalhadores tristes e solitários – embrutecidos pelo ofício duro e desvalorizado – pervagam sem destino pelas ruas enlameadas. Assim, temos um quadro de relações sociais completamente subvertidas nesse mundo em que reinam a malandragem, o poder perverso e a exploração.

Entre o patético e o selvagem, há a dura realidade – seja ela a realidade da prostituição, seja ela a realidade do poder. Assim, aos olhos de Sula, a realidade de uma existência prostituída – mais do que a de um corpo prostituído – mistura-se melancolicamente com o seu passado ideal, agora, mais do que nunca, distanciado do presente; e esta é apenas mais uma das muitas mulheres que cumprem rigorosamente um destino marcado pela humilhação, pela violência e pela tragédia pessoal. No que diz respeito à realidade do poder, também pode-se perceber no romance todas as suas perversões, todos os seus desvios, quer se trate do poder político constituído, do poder policial-repressor ou do poder da coerção social.

O que sobra de tudo isso é uma compreensão profundamente pessimista da realidade, a qual é compartilhada por quase todas as personagens do romance, mas particularmente por Marambaia.

Também o leitor é tomado, de certa maneira, pelo clima pessimista que logo se impõe: acompanhando de perto a narração dos acontecimentos no cais, ele passa, involuntariamente, a sofrer com as personagens da história, compartilhando de seus anseios e angústias, de suas tristezas e desgostos, de seus tormentos e aflições.

As últimas palavras do autor marcam o encerramento do romance, mas também atam as duas pontas de um fio narrativo que vinha percorrendo toda a obra. Sua conclusão revela-se particularmente constrangedora – como o próprio autor faz-nos perceber, trata-se de uma autêntica confissão, onde se pode facilmente distinguir a mescla de dor e revolta que a conforma:

“as vozes que me trouxeram até aqui já não ouço mais. Estão mortas, estão assassinadas. Este irregular relato é só uma homenagem a essas vozes que se calaram cansadas de testemunhar tanta ignorância e violência em nome de valores morais que a ambição já desmoralizou há muito tempo” (p. 163).

Suas cruéis histórias, por isso, são tão mais cruéis quanto mais reais se tornam com o tempo. Maurício Silva - Brasil


Notas
1 KAYSER, Wolfgang. Análise e Interpretação da Obra Literária. Introdução à Ciência da Literatura. Coimbra, Arménio Amado, 1976.
2 GONÇALVES, Adelto. Os Vira-latas da Madrugada. Rio de Janeiro, José Olympio, 1981. Todas as referências a esta obra serão retiradas desta edição, doravante aparecendo apenas o número da(s) página(s) em que se encontram.
3 Para uma definição sucinta do grotesco, consultar: MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo, Cultrix, 1978, e KAISER, Wolfgang. O Grotesco. São Paulo, Perspectiva, 1976.


Publicado em Sentidos Secretos – Ensaios de Literatura Brasileira (São Paulo, Editora Altana, 2005, págs. 137-144) e em Leopoldianum. Revista de Estudos e Comunicações, Santos, vol. XX, nº 56: 144-149, abr. 1994.

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Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, 2ª edição, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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Maurício Silva possui doutorado e pós-doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo; é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação, na Universidade Nove de Julho (São Paulo); atuou como pesquisador da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 2012 a 2013 e, atualmente, é pesquisador residente da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo; é autor de A Hélade e o Subúrbio. Confrontos Literários na Belle Époque Carioca (São Paulo, Edusp, 2006), A Resignação dos Humildes. Estética e Combate na Ficção de Lima Barreto (São Paulo, Annablume, 2011), e O Sorriso da Sociedade. Literatura e Academicismo no Brasil da Virada do Século (1890-1920) (São Paulo, Alameda, 2012), entre outros.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Moçambique - Cartão vermelho ao trabalho infantil

O vice-ministro do Trabalho, Emprego e Segurança Social, Oswaldo Petersburgo, instou a todos os estratos da sociedade moçambicana a levantarem bem alto o cartão vermelho contra as piores formas do trabalho infantil.

Segundo o governante, as piores formas de trabalho infantil ocorrem em locais que escapam ao controlo das autoridades, citando como exemplo ambientes informais e no seio familiar, em que a sociedade só se dá conta da sua existência quando ocorrem maus tratos e violência.

Segundo Petersburgo, este facto chama à atenção para a necessidade de envolvimento directo e activo das famílias, das confissões religiosas e das comunidades, onde as crianças estão inseridas, para uma acção conjunta e vigorosa que contribua para a mitigação e eliminação deste mal.

“Não há dinheiro que adie ou pague o sonho de uma criança! Lutemos contra o trabalho infantil! Não deixemos que as crianças parem de sonhar e viver a sua infância! Levantemos bem alto o cartão vermelho contra as piores formas do trabalho Infantil”, alertou o vice-ministro.

Petersburgo fez este pronunciamento durante a sessão do Parlamento Infantil, realizado entre os dias 14 e 15 do corrente mês na cidade de Maputo, tendo referido que, como forma de delinear medidas conducentes ao combate às piores formas de trabalho infantil, o Governo preparou uma proposta de Plano de Acção de Combate às Piores Formas do Trabalho Infantil, bem como a proposta da Lista de actividades que não podem ser exercidas pelas crianças.

O referido Plano de Acção e a Lista de Trabalhos Perigosos, segundo Petersburgo, foram recentemente validados na Conferência Nacional, onde participaram, para além, dos parceiros sociais, forças vivas da sociedade civil em representação de todo o país, com grande destaque para a participação activa do Parlamento Infantil.

“É através desse instrumento que o Governo, os parceiros sociais, a própria criança, terão uma plataforma contendo medidas e acções concertadas para a prevenção e combate às Piores Formas de Trabalho Infantil”, disse.

Ajuntou que o Plano de Acção contempla medidas que concorrem para assegurar o acesso à Educação da criança, acções que visem a retenção da criança na escola e a melhoria do ambiente escolar.

O vice-ministro apontou o fortalecimento da capacidade familiar de criação de renda, através de programas sustentáveis e integrados de empoderamento das famílias afectadas como uma das formas de combate ao trabalho infantil.

“É preciso também fortalecer as instituições e o quadro legal, onde se preveja uma melhor e maior coordenação das instituições que lidam com o bem-estar da criança, a revisão do quadro jurídico referente ao trabalho de menores e aplicação consequente e vigorosa da legislação que protege a criança, como meios para estancar o mal”, concluiu. In “Olá Moçambique” - Moçambique