Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 2 de fevereiro de 2020

França - Deverá avançar um curso de língua portuguesa para empresários e quadros de empresas

A secretária de Estado das Comunidades Portuguesas disse que a procura pelo Português em França está a aumentar e que ainda este ano deverá arrancar um curso de língua portuguesa naquele país para empresários e quadros de empresas

«Há uma procura grande do Português em França. Foi o que concluí da reunião que tivemos. E estando a aumentar essa procura, Portugal também está a fazer um esforço maior de investimento, a aumentar o número de professores", afirmou em entrevista à Lusa por telefone Berta Nunes, que iniciou na sexta-feira uma visita de dois dias a França.

Berta Nunes considerou que várias iniciativas interessantes estão a nascer e apontou como uma delas a do curso de Português mais virado para os negócios.

Com a Câmara de Comércio Franco-Portuguesa, entidade com a qual se reuniu na sexta-feira à tarde (31 de janeiro), a secretária de Estado das Comunidades Portuguesas (SECP) apontou «há já algum trabalho em desenvolvimento» para a criação de «cursos direcionados para empresários ou quadros de empresas que queiram aprender o Português mais direcionado para os negócios».

«Isso é importante, uma vez que estamos a trabalhar para a atração de investimento para Portugal. E o facto de a língua portuguesa ser cada vez mais falada no hemisfério sul e em vários continentes faz com que haja também uma procura na área dos negócios», salientou.

A preparação daquele curso está a ser feita entre o Camões -- Instituto da Cooperação e da Língua, a Câmara de Comércio Franco-Portuguesa e a Coordenação do Ensino do Português em França.

Berta Nunes disse esperar «em breve» ter alguma coisa mais concreto em termos do curriculum do curso e sobre a forma como esse vai ser dado, «porque uma parte poderá ser presencial e uma parte pode ser à distância, uma vez que isso pode ser mais adequado para o tipo de público».

«Esta é uma novidade e uma forma interessante de juntar a língua aos negócios e, por essa via, poder atrair investimento e internacionalizar também os nossos produtos», destacou.

A Câmara de Comércio fez esta proposta à Coordenação do Português e ao instituto Camões, por verificar que há procura por parte de empresários e de quadros de empresas, referiu.

Segundo a secretária de Estado, talvez ainda durante este ano o Governo «possa anunciar que esse curso para a área de negócios, de Português vai avançar aqui em França», concluiu.

Berta Nunes, que na passada sexta-feira teve reuniões em Paris com a Coordenação do Ensino do Português em França, com a Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa e com o presidente do Portugal Business Club de Lyon, terminou o primeiro dia de visita àquele país num jantar solidário da Coordenação das Coletividades Portuguesas de França, cujas verbas revertem a favor de uma instituição cabo-verdiana de apoio a crianças.

Ontem (1 de fevereiro), a secretária de Estado reuniu-se de manhã com a direção da Associação Portuguesa Cultural e Social de Pontault-Combault e com autarcas deste município, que tem um gabinete de apoio à comunidade portuguesa.

O objetivo da deslocação a França centrou-se no diálogo sobre o Plano Nacional de Apoio ao Investimento da Diáspora, referiu Berta Nunes.

«O objetivo é que as câmaras de comércio, os clubes de empresários e as associações empresariais possam trabalhar connosco os conteúdos desse programa, nos façam sugestões e nos ajudem na sua divulgação e implementação», disse a secretária de Estado. In “Revista Port. Com” – Portugal com “Lusa”

São Tomé e Príncipe - Instituto Camões apoia educação

O Instituto Camões vai apoiar o ensino de língua portuguesa em São Tomé e Príncipe, de acordo com um programa de três anos avaliado em três milhões de euros, e que foi lançado na capital são-tomense

O presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Luís Faro Ramos, apresentou o Programa de Apoio Integrado ao Sistema Educativo (PAISE-STP), tendo ainda assinado um protocolo de cooperação para o ensino da língua portuguesa com a Universidade de São Tomé e Príncipe.

“Nós temos aqui [na Universidade de São Tomé] a funcionar um centro de língua portuguesa e basicamente o que o protocolo contempla é institucionalizar as obrigações de uma parte e da outra, naquilo que diz respeito ao ensino da língua portuguesa através do nosso leitorado e o nosso centro de língua aqui na universidade”, explicou o diplomata português.

O presidente do Camões, organismo público português dedicado à cooperação e promoção da língua, lembrou que as duas partes já tinham um protocolo anterior datado dos anos de 2008 “e agora tratou de oficializar uma união de facto que já vinha de há alguns anos”.

Quanto ao Programa de Apoio Integrado ao Sistema Educativo, o responsável português considerou-o como “um programa ambicioso, um programa integrado de apoio ao setor da educação em São Tomé e Príncipe, em que o Camões dá um investimento de cerca de três milhões de euros em três anos”.

Luís Faro Ramos lembrou que nos últimos 10 anos, o Camões investiu em São Tomé e Príncipe cerca de 40 milhões de euros, na área da educação.

Este novo programa vai ser executado em parceria com o Instituto Marquês de Valle Flor e as universidades portuguesas de Aveiro e Évora, parceiras neste projeto.

“É um projeto ambicioso e integrado. Não abrange só o ensino secundário, abrange também o ensino superior. Paralelamente nós estamos a trabalhar com a Direção Geral do Ensino Superior de São Tomé e Príncipe para colocar uma assessoria portuguesa nos domínios que interessam a essa direção geral”, explicou Luís Faro Ramos.

O responsável português deslocou-se a São Tomé para uma visita de pouco mais de 24 horas durante a qual participou na abertura das oitavas jornadas de Otorrinolaringologia e proferiu uma palestra sobre “A Língua Portuguesa, Hoje e Amanhã” na Escola Portuguesa de São Tomé.

Participou igualmente na inauguração do serviço de dermatologia do Hospital Ayres de Menezes, cuja reabilitação e equipamento contou com o financiamento da embaixada da Hungria e da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia.

“É uma visita curta mas muito intensa”, afirmou Faro Ramos, que salientou que a cooperação com São Tomé e Príncipe “é muito completa”.

“Temos a cooperação bilateral com projetos na área da saúde, educação e outros, temos uma cooperação multilateral, delegada da União Europeia com projetos que ou têm relação exclusiva com São Tomé, nomeadamente das fileiras agrícolas ou têm relação com todos os países africanos de língua portuguesa e Timor-Leste, como é o projeto Procultura, e ainda temos a cooperação triangular com a Colômbia na área do agroturismo e do cacau”, concluiu. In “África 21” – Brasil com “Lusa”

Saudade














Vamos aprender português, cantando


Quando abro
a minha mente e te digo tudo o que sinto
a verdade é que até tento mas sabes que nunca minto
esta mente e o coração em união por nós dois
uma pura ligação que nos faz viver depois
e eu vivo cada dia com um sorriso que é teu
resultado da magia desse teu amor que é só meu
um amor que a distância insiste em separar
dois corpos afastados com tendência a se juntar

Não vou tentar esquecer-me de nós

Por isso vá
leva-me pra longe, para ao pé de ti
pode não ser hoje, mas quero voltar a sentir
aquele calor de te ver sorrir
poder dar-te o meu amor
e não te deixar cair, cair...
deixar cair, cair...

E o silêncio predomina no caos da minha confusão
ele abusa e contamina a minha forma e perceção
uma forma protestante, incapaz de conter
e a promessa permanece mesmo se tu não vieres

Por isso vá
leva-me pra longe, para ao pé de ti
pode não ser hoje, mas quero voltar a sentir
aquele calor de te ver sorrir
poder dar-te o meu amor
e não te deixar cair, cair...
deixar cair, cair...

Saudade
Saudade
Saudade
Saudade

Francisco Murta - Portugal


sábado, 1 de fevereiro de 2020

Cabo Verde - Proposta sobre mobilidade na CPLP está pronta

A proposta sobre a mobilidade dos cidadãos lusófonos está concluída, devendo ser discutida em Abril pelos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), disse sexta-feira o representante permanente de Cabo Verde junto da organização


 "Nós [Cabo Verde] cumprimos o mandato, porque de facto já chegámos ao fim de um texto, e consensualizámos todo o texto em conformidade com as orientações gerais políticas que recebemos dos chefes de Estado e de Governo, e também do Conselho de Ministros", afirmou Eurico Monteiro, à margem do final da V reunião técnica conjunta, que terminou ontem, em Lisboa.

O embaixador assinalou que se trata de um projecto "aprovado a nível técnico" para o desenvolvimento da mobilidade entre os Estados da CPLP, estabelecendo uma "convenção-quadro" que permite aos países da organização desenvolverem parcerias consoante os seus interesses.

"Temos uma variedade de soluções que podem ser incorporadas nas parcerias específicas e, claro também a escolha de parceiro. Um Estado pode escolher um parceiro e ir numa mobilidade a 100%, e, com um outro parceiro, uma mobilidade a meio-termo ou até simplesmente ficar no mínimo. Adapta-se às diversas circunstâncias e sobretudo adapta as soluções às realidades internas dos Estados", defendeu Eurico Monteiro.

O diplomata apontou também que este acordo "tem o mínimo de vinculação".

"Este acordo tem o mínimo de vinculação, ou seja, todos os Estados-membros que fizerem parte, que assinarem, e ratificarem este acordo ficam logo desde logo obrigados a permitir que todos os agentes públicos que tenham passaportes diplomáticos, de serviços ou passaportes especiais possam circular livremente no território das partes por um período de 90 dias", explicou Eurico Monteiro, acrescentando que há outro compromisso.

Segundo o documento agora concluído, os Estados-membros devem procurar "criar as condições para, progressivamente, ir avançando para níveis mais elevados de mobilidade".

A proposta consagra ainda modalidades variáveis "de modo a que os Estados possam adaptar o modelo da mobilidade e velocidade de um plano de implementação em conformidade com a sua realidade", acrescentou o embaixador.

Da mesma forma, a proposta irá possibilitar uma selecção dos tipos de passaportes que podem dar entrada num Estado-membro.

"Um Estado poderá dizer 'Eu vou escolher agora por exemplo a circulação permitindo que as pessoas possam entrar de 30 dias ou 60 dias ou 90 dias no meu território', ou então vão permitir que apenas os homens de cultura possam entrar, ou então apenas os empresários, ou então só os docentes, investigadores e técnicos", vincou o diplomata cabo-verdiano.

Eurico Monteiro acrescentou que espera que todos os Estados-membros da CPLP assinem a convenção, mas que "depois há o processo interno da ratificação".

"Nunca poderemos garantir que todos os Estados vão ratificar e, sobretudo, não vão ratificar ao mesmo tempo. Alguns Estados poderão ponderar (...) e isso não significa que vai entrar em vigor abrangendo logo automaticamente todos os Estados", disse.

Questionado sobre o caso da Guiné Equatorial, um dos países de maior dificuldade de acesso em África, o embaixador referiu que o Estado-membro, que integra a CPLP desde 2014, "tomou parte tanto na Conferência de Chefes de Estado [cimeira de Santa Maria, em 2018], como também no Conselho de Ministros de São Vicente [Julho de 2019]", numa referência a reuniões da organização que aprovaram documentos sobre a mobilidade.

Além disso, sublinhou, nesta reunião de três dias, que terminou hoje em Lisboa, a Guiné Equatorial fez-se representar por "uma delegação muito significativa".

"Tem colaborado com propostas, com sugestões várias e, portanto, o mínimo que nós podemos dizer é que a Guiné Equatorial dá sinais de estar perfeitamente engajada neste processo", referiu o embaixador, mas que sublinhou que, "até à ratificação, ainda há um caminho a percorrer".

A proposta deverá agora ser apresentada numa reunião extraordinária do Conselho de Ministros, em Cabo Verde, que detém a presidência da CPLP, em "17 e 18 de Abril", provavelmente.

Consoante a aprovação desta proposta no Conselho de Ministros extraordinário, esta deverá ser apreciada na Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, marcada para Setembro, em Luanda.

A CPLP é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. In “Expresso das Ilhas” – Cabo Verde com “Lusa”

Macau - Reinício das aulas em Macau adiado para data a definir

O Governo de Macau decidiu que o reinício das aulas no território vai ser adiado novamente e a data será anunciada uma semana antes da reabertura das instituições de ensino superior e não superior.

Na conferência de imprensa diária do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, o representante da direcção dos Serviços de Educação e Juventude indicou que esta medida inclui “várias instituições de ensino superior e não superior (ensinos secundário, primário e infantil)” e o recomeço de actividades nos “centros de apoio pedagógico complementar particulares e nas instituições de educação contínua”.

Sem adiantar uma data, Kong Ngai acrescentou que durante a suspensão as escolas “devem usar meios à distância” para trabalhar e acompanhar os alunos.

O mesmo responsável adiantou que os alunos da China em instituições do ensino superior em Macau e os alunos transfronteiriços “não precisam de se deslocar a Macau” e “devem ficar em casa, até ao recomeço das aulas”.

As escolas “devem cooperar” com o Governo de Macau e evitar a aglomeração de pessoas e diminuir o risco de propagação do coronavírus.

O director dos Serviços de Saúde de Macau, Lei Chin Ion, sublinhou que “a situação é uma grande incógnita” e é difícil adiantar quando as aulas ou as atividades sociais normais serão retomadas. O primeiro adiamento do recomeço das aulas foi anunciado pelas autoridades de Macau em 24 de janeiro. Nessa altura, a direcção dos Serviços de Educação e Juventude tinha indicado a data de 10 de fevereiro para o regresso às escolas, admitindo já então um novo adiamento.

Por outro lado, as autoridades sanitárias de Macau afirmaram que os mais recentes casos de coronavírus em Zhuhai são de pessoas que estiveram no território, estando a ser verificados os percursos desses doentes.

O chefe do Centro de Prevenção e Controlo de Doença acrescentou que os casos registados em Zhuhai, cidade chinesa adjacente a Macau, são comunicados às autoridades do território.

Os doentes mais recentes estiveram em Macau e as autoridades estão a “verificar o percurso dessas pessoas” no território, indicou Lam Chong. In “Hoje Macau” - Macau

Moçambique – O segundo país mais vulnerável aos efeitos das alterações climáticas

A estação de chuvas, que começou em dezembro em Moçambique, está a trazer fortes tempestades ao país. O alerta é da chefe das Nações Unidas em Moçambique, Myrta Kaulard.

Em entrevista à ONU News, de Maputo, ela afirma que a organização está a preparar-se para responder a uma estação de ciclones “muito forte” nos próximos meses.

Idai e Kenneth

A notícia chega poucos meses antes de a nação africana marcar o primeiro aniversário de um dos maiores desastres naturais da sua história: os ciclones Idai e Kenneth, que arrasaram Moçambique em março e abril passados.

Juntos, eles causaram mais de 640 mortos a afetaram pelo menos 2,2 milhões de pessoas.

Myrta Kaulard conta que o início das chuvas tem sido “muito intenso” e que os desastres naturais do ano passado dificultam a resposta.

“Isto torna estas populações muito mais vulneráveis do que em anos passados. Estamos muito preocupados. As previsões são de mais chuvas nas próximas semanas e isto é um desafio muito forte. Estamos então muito preocupados.”

Os últimos dados do Escritório de Assistência Humanitária da ONU, Ocha, revelam que as chuvas já afetaram perto de 68 mil pessoas, causando 45 mortos e 67 feridos.

Mais de 3,1 mil casas foram destruídas e 1,1 mil salas de aula danificadas, bem como 10 centros de saúde. Em resposta, as agências da ONU prestaram ajuda alimentar a mais de 82 mil famílias nas províncias de Gaza e Inhambane.

Secas

Por outro lado, no sul do país, as chuvas estão muito abaixo do normal, com um problema de seca que causa insegurança alimentar. Segundo a coordenadora residente, a ONU e os parceiros estão apoiando “várias centenas de milhares de pessoas.”

Myrta Kaulard diz que “as Nações Unidas estão a colaborar de forma muito próxima com as instituições nacionais”, que “estão a trabalhar muito bem”, evacuando pessoas que vivem em zonas de risco para evitar perdas de vidas.

Segundo a coordenadora, devido às secas e às chuvas, os stocks de emergência já estão sendo utilizados, ainda antes do pico da época dos ciclones. Afirma que isso é “uma fonte de preocupação.”

Neste momento, 2,5 milhões de moçambicanos precisam de ajuda humanitária urgente. Cerca de 1,9 milhão de pessoas necessitam de ajuda alimentar, 765 mil famílias precisam de kits sanitários e mais de 115 mil famílias necessitam de abrigos.

“As prioridades das próximas oito semanas são alimentação, abrigos, água e saneamento. Estes são os elementos básico para poder salvar vidas e poder apoiar as necessidades primarias das populações.”

Myrta Kaulard afirma que a ONU está “correndo contra o tempo para mobilizar recursos, para comprar mais alimentos, mais abrigos e mais material para posicionar” antes da chegada da época dos ciclones.

Financiamento

O maior obstáculo a esse trabalho é o financiamento. A coordenadora diz que a ONU não tem, neste momento, os recursos necessários. O Plano de Resposta Humanitária para o país detalha uma necessidade urgente de US$ 120 milhões. Dentro deste total, US$ 25 milhões são necessários imediatamente.

“Deixo um pedido à comunidade internacional de sustentar o trabalho das Nações Unidas e das instituições moçambicanas para poder ajudar a população que pode ser afetada por chuvas, por secas e por ciclones nos próximos meses. “

Segundo a coordenadora residente, “as capacidades das instituições nacionais são limitadas” e, por isso, a comunidade internacional “tem uma responsabilidade de ajudar.” ONU News – Nações Unidas


Orlando da Costa, o escritor perseguido

                                                            I
Quem quiser saber a fundo o que foi o reino de trevas do regime salazarista (1933-1974) não pode deixar de conhecer a obra do romancista, teatrólogo e poeta Orlando da Costa (1929-2006), que, nascido na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, em Moçambique, numa família goesa de brâmanes católicos, e criado em Margão, na Índia, viveu em Lisboa desde os 18 anos de idade, tendo exercido a profissão de redator publicitário. E que ainda hoje tem o seu nome ligado à história de Portugal, pois é seu filho António Costa, primeiro-ministro do governo português desde 2015 e secretário-geral do Partido Socialista desde 2014.

Militante comunista desde os anos da juventude, sua produção como literato sempre esteve ligada umbilicalmente àquela ideologia, embora seus versos, romances e peças de teatro arte e ideologia “resolvam-se num corpo único, harmônico”, parafraseando-se aqui uma observação da ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki (1940-2011), professora universitária radicada por muitos anos em Portugal, sobre o seu fazer poético.

Para homenagear o que seria o 90º aniversário desse notável escritor, a Revista Vértice, de Lisboa, publicou, em seu número 192, de julho-agosto-setembro de 2019,  um dossier sobre a vida e a obra de Orlando da Costa, reunindo seis ensaios e sete prefácios e posfácios às obras do escritor, além de uma entrevista (pouco conhecida) dada por escrito ao padre goês Eufemiano de Jesus Miranda em 1988 e que veio a ser publicada em Oriente e Ocidente na Literatura Goesa: Realidade, Ficção, História e Imaginação (Goa, 2012).

Como introdução há o texto “Podem chamar-lhe Orlando”, do investigador brasileiro Everton V. Machado, doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Paris-Sorbonne/Paris IV (2008) e professor auxiliar da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, profundo conhecedor da literatura indo-portuguesa, que faz uma apresentação dos demais textos.

                                                II
Em 1961, Orlando da Costa publicou o seu primeiro romance, O Signo da Ira, que recebeu o Prêmio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa. À época, os exemplares foram apreendidos pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (Pide), organismo estatal de inspiração fascista do regime salazarista, tal como tinha acontecido com três livros de poesia anteriores: A Estrada e a Voz (1951), Os Olhos sem Fronteira (1953) e Sete Odes do Canto Comum (1955), reunidos depois em Canto Civil (1979).

De Signo da Ira, Maria Alzira Seixo, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, diz, em seu ensaio “A ficção de Orlando da Costa: inscrições narrativas da terra e do humano”, que este é talvez o grande romance da ex-Índia portuguesa na História literária portuguesa. “É um romance de amor à terra e de amores na terra, cantando a juventude e a inocência, deplorando o agro perdido e o vigor da criação estiolada, devido ao sofrimento e à maldade gananciosa”, diz.

Como observa Hélder Garmes, professor livre-docente da Universidade de São Paulo, no ensaio “Colonialismo e conflito cultural em O Signo da Ira de Orlando da Costa”, o romance trata dos curumbins, que, em termos de castas, equivaleria aos sudras, isto é, uma casta que se caracteriza por executar trabalhos braçais pesados na lavoura, trabalhos de limpeza, entre outras atividades pouco prestigiadas socialmente”.

                                                III
O mesmo trágico destino viria a ter o romance Podem Chamar-me Eurídice, concluído em 1963 e publicado em 1964, apreendido pela Pide dois meses depois de lançado. O livro, que reflete a experiência de vida do autor na década de 1950, seu tempo na universidade, constitui “o retrato de uma situação típica dos anos 60, a repressão contra a chamada subversão universitária, levada até à violência extrema do assassinato pelos agentes da Pide”, como observou o crítico e historiador Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999) no ensaio “Os imprescindíveis nexos “mito-realidade” e “morte-transfiguração” num notável romance do underground antifascista português”, publicado à guisa de prefácio na terceira edição do livro (1985) e reproduzido no dossier de Vértice.

O terceiro romance de Orlando da Costa, Os Netos de Norton (1994), igualmente reconstitui as lutas políticas em Lisboa, desta vez abordando a geração que lutou contra os estertores salazaristas da campanha de Humberto Delgado (1906-1965), o “general sem medo”, que foi derrotado nas urnas em 1958 num processo eleitoral considerado fraudulento, passando pela “primavera marcelista”, liderada por Marcello Caetano (1906-1980), último presidente do regime salazarista, até o 25 de Abril, movimento que derrubou o Estado Novo, vigente desde 1933. Este livro lhe valeu o Prémio Eça de Queiroz, da Câmara Municipal de Lisboa.

Para Maria Alzira Seixo, estes romances já seriam suficientes para consagrar Orlando da Costa, mas o autor publicou ainda O Último Olhar de Manú Miranda (2000), que “exibe elevado grau de complexidade narrativa-descritiva (em simultâneo) que não tem sido assim tão frequente na ficção portuguesa”.  É um livro que narra a vida de Manú Miranda, que seria um alter ego do autor, mostrando como viviam e se relacionavam goeses e visitantes, a partir de uma saga familiar que passa pela colonização britânica, pela luta do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) e a Segunda Guerra Mundial, seus costumes, crenças e idiossincrasias e preconceitos, como observa Maria Alzira Seixo, para quem a obra pode ser considerada uma espécie de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (1509-1583), o livro de viagens português mais conhecido no mundo.

                                                          IV
Filho do goês Luís Afonso Maria da Costa e de Amélia Maria Fréchaut Fernandes, nascida em Moçambique de mãe francesa, Orlando casou-se primeira vez com a jornalista Maria Antónia de Assis dos Santos, com quem teve uma filha, Isabel dos Santos da Costa (1957-1960), que morreu num acidente de viação, e um filho, o político António Costa. Divorciaram-se em 1962. Orlando casou-se segunda vez com Inácia Martins Ramalho de Paiva, da qual teve um filho, o jornalista Ricardo Costa.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não conseguiu estabelecer-se como professor porque a Pide emitiu parecer negativo. Como publicitário, integrou durante vários anos a agência Marca, onde chegou a diretor-geral. Trabalhou, entre outras marcas, com a Ford, Volkswagen, Nestlé e Páginas Amarelas.

Durante a ditadura, chegou a apoiar a candidatura do general Norton de Matos (1867-1955) em 1949, mas desistiu antes das eleições em razão da falta de liberdade e de possíveis fraudes eleitorais. Por sua militância, foi preso três vezes pela Pide, tendo permanecido, na última vez, na cadeia de Caxias durante cinco meses. Militou no Movimento de Unidade Democrática (MUD) Juvenil e no Partido Comunista Português, organismo que serviu de 1954 até a data de sua morte.

Poucos dias antes de falecer, a 5 de janeiro de 2006, recebeu das mãos do presidente Jorge Sampaio o grau de Comendador da Ordem da Liberdade. É autor ainda das peças de teatro A como estão os cravos hoje? (1984) e Sem Flores nem Coroas (1971). Esta última peça igualmente remete para as memórias da presença colonial portuguesa no Estado da Índia, como observa Filomena Gomes Rodrigues, doutora em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta em ensaio também publicado neste número especial de Vértice. O dossier inclui ainda textos de Mário de Carvalho, Daniela Spina, José Manuel Mendes, Luiz Francisco Rebello, Gonçalo M. Tavares, Rosa Maria Peres e Ana Margarida de Carvalho, além de um posfácio do próprio Orlando de Carvalho para o seu livro Podem Chamar-me Eurídice (1974). Adelto Gonçalves - Brasil

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Revista Vértice, Lisboa, série II, nº 192, julho-setembro de 2019, 144 páginas, 8,50 euros. E-mail: assinaturas@paginaapagina.pt Site: www.paginaapagina.pt
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. 
E-mail: marilizadelto@uol.com.br