Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Portugal - Investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inovam no estudo das doenças inflamatórias do intestino

Sofia Barros e Inês Alves vão receber duas ECCO Grant de 80 mil euros para desenvolverem projetos focados na Doença de Crohn, entre outras patologias


As investigadoras Sofia Barros e Inês Alves, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) foram distinguidas com duas ECCO Grant, atribuídas pela European Crohn’s and Colitis Organisation (ECCO). As duas cientistas vão receber um financiamento de 80 mil euros, cada uma, para desenvolverem projetos inovadores focados na Doença de Crohn e nos mecanismos imunológicos associados à Doença Inflamatória Intestinal.

O projeto de Sofia Barros propõe uma abordagem terapêutica inovadora para o tratamento da Doença de Crohn, uma doença inflamatória crónica que pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal.

A investigação assenta no desenvolvimento de uma terapia oral de dupla ação, combinando dois fármacos – budesonida, para o controlo da inflamação, e teduglutida, para promover a regeneração epitelial – administrados através de nanopartículas responsivas a espécies reativas de oxigénio. Este sistema permite a libertação localizada dos fármacos nas zonas de inflamação intestinal, aumentando a eficácia terapêutica e reduzindo os efeitos secundários.

“Esta distinção representa o reconhecimento do trabalho que tenho vindo a desenvolver e dá-me condições para consolidar a minha linha de investigação em novas abordagens terapêuticas para a Doença de Crohn”, sublinha Sofia Barros, do grupo «Nanomedicines & Translational Drug Delivery», liderado por Bruno Sarmento.

Já o projeto de Inês Alves centra-se na compreensão dos mecanismos imunológicos precoces que conduzem ao desenvolvimento da Doença Inflamatória Intestinal, que inclui Doença de Crohn e Colite Ulcerosa.

Resultados recentes obtidos pelo grupo «Immunology, Cancer & Glycomedicine» do i3S, liderado por Salomé Pinho, demonstram que alterações específicas nos açúcares presentes à superfície das células intestinais (glicanos) podem desencadear respostas imunes prejudiciais vários anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas clínicos da doença.

Com esta ECCO Grant, Inês Alves pretende identificar quais as células imunes responsáveis pelo reconhecimento desses açúcares e caracterizar os anticorpos envolvidos nesse processo, abrindo caminho à identificação de novos biomarcadores no sangue, que permitam uma deteção mais precoce da doença, a monitorização da sua progressão ou mesmo a sua prevenção.

“Esta distinção representa uma oportunidade única para aprofundar o conhecimento da Doença de Crohn e desenvolver novas abordagens de diagnóstico e prevenção, com impacto direto na qualidade de vida dos doentes”, destaca a investigadora. Universidade do Porto - Portugal


Decomposição dos “nós” de todos nós

O novo livro de Eltânia André cativa e encanta do primeiro ao último conto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, com alto apuro literário


Que ninguém se deixe enganar com o título, a ilustração da capa, nem com a estreita lombada do novo livro de Eltânia André (Cataguases, MG, 1966; vive em Portugal desde 2017), Decomposição dos pássaros. A exemplo de seus trabalhos anteriores, a experiente psicóloga e premiada escritora, autora de contos e romances notáveis, explora, com maestria, as angústias, incertezas, memórias e os mistérios da vida e da mente humanas, nas densas, substanciosas 96 páginas dessas 10 histórias recentes. Trata-se de uma profunda, inquietante e destemida incursão nos problemas, nos nós, nas questões interiores, de todos nós, e da civilização em perigo. Com alto apuro literário, estilo elegante, sóbrio, limpo e bonito. O coração na alma, a razão na História.

O texto de Eltânia não tem nada dos cacoetes mecânicos de aplicados alunos de oficinas literárias e pouca leitura, não segue as lições de manuais de como se escreve um conto. Ao contrário, a escritora imprime a suas histórias um veio próprio, rico, sinuoso, mas plausível e claro. Por isso Decomposição dos pássaros é original, cativa e encanta do primeiro ao último texto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, de casas desoladas, de tragédias, do cotidiano e dos bastidores doméstico e histórico, o mundo em permanente conflito, em decomposição. Uma ebulição de pessoas iguais a cada um de nós em momentos de aflição e desafio, tudo enriquecido por referências literárias, musicais, cinematográficas, em harmonia com a história narrada.

Diante de um livro de prosa, poemas ou ensaio, um leitor bem formado e de bom gosto percebe o embate tentativa versus êxito na fatura literária. Vê com nitidez a diferença entre os vacilos e defeitos e a segurança, o controle, o esmero estético de um texto literário, sem prejuízo das questões socioeconômicas e da experiência humana na Terra. O leitor dos contos de Eltânia André – que escreve sem a dor da pressa, na expressão de Fernando Pessoa, e sem cair no psicologismo – não terá dúvida de ter diante dos olhos histórias inesquecíveis. Temas e texto em tensão e harmonia. Um palimpsesto de deleite e inquietação, pontuado de humor e riso, às vezes apaziguadores. Pedagogia de fraterna sensibilidade. A razão é simples: quem nos traz os contos de Decomposição dos pássaros, narrados em primeira pessoa, seja voz masculina ou feminina, de jovem, adulto ou idoso, é autora singular, de estilo e enredos irmanados: sonho, pesadelo, realidade – arte.

Suas epígrafes compõem um elo forte, diálogo preciso, entre o título e o texto de cada conto, desde a primeira história, “Pluma e osso”, em que João Melo anuncia “um mundo puro e inocente” e “tempos das grandes labaredas e das fomes imensas”. Nessa narrativa de sabor clássico, conhecemos a sofrida vida de Ellen, acossada pelo criador de gansos para a produção de patê de fígado, o repugnante Breno Galvão, patrão do pai da moça. Depois ainda aparece o doutor Louçã, o mandachuva da Forceluz de Cataguases que emprega pai e filha. Mais não se pode dizer, que o leitor conheça as agruras da família e como a Guerra de Troia e Penélope entram na vida de Ellen.

“Tudo o que o mestre mandar”, o segundo conto, traz a história de Valtinho e Vando, que ganhou o apelido de Van Gogh depois que teve uma orelha decepada pela mordida do irmão. Na epígrafe, Ana Martins Marques afirma que na infância “cometemos nosso primeiro crime”. Com um inusitado método, Ilda, mãe dos garotos, consegue tornar os garotos amigos inseparáveis. Angústia e alegria. Obra-prima.

“Os relógios estão na eternidade”, avisa Orides Fontela na epígrafe de “A última música: 2 minutos e 35 segundos”, belíssima e triste história de Antônio Relojoeiro, narrada pelo filho Beto, xará do Guedes, autor da instrumental “Belo Horizonte”, música evocada no título e fundamental no enredo. A intertextualidade surge no primeiro parágrafo do conto: “Vim porque aqui nasceu e viveu o meu pai”, frase que lembra o início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Antes de ser internado, na ausência do filho, o protagonista, “sócio de Cronos”, “guardião das horas”, silenciou todos os relógios da loja e disse algo tão singelo quanto comovente a um vizinho: “Acredito piamente nisto: foram os egípcios que inventaram o relógio do sol”. Adulto, “expectativa e espectador”, Beto recorda as coisas simples que teria construído com o pai: um remendo numa rede de pescaria, um pião talhado a canivete, uma aeronave ou um barco de papel. Roteiro para um belo curta-metragem.

Também bonito e poético, “Márrio-Riomar: um nome todo água”, história de temor e solidão, é precedido pelo conhecido trecho de Jorge Luis Borges que termina assim: “O rio me arrebata e eu sou esse rio”. Narrativa primorosa, de final tão admirável quanto o início e o percurso caudaloso, ao som de samba, pagode e Pink Floyd.

Em “Céu na boca”, de sentido duplo, a epígrafe de Brecht alerta para a luta, por vezes hipócrita, para se ganhar o pão de cada dia. No admirável primeiro parágrafo, já vemos que o megalomaníaco, mentiroso Edmundo Fontes, com sonhos de voar, encarna esse tipo. No meio da história, a narradora alerta o sujeito, já em desgraça na ambiciosa carreira, com um conselho de Churchill: “Se você vai passar pelo inferno, não pare de andar”. Do início ao último parágrafo, um lapidado texto, que poderia se chamar “O triste fim de Edmundo Fontes”, personagem tão diverso de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

Na epígrafe do conto-título, outro de extração clássica e o mais curto do volume, Nuno Júdice mostra como ajustar os olhos que procuram pássaros, metáfora das buscas de Josué, homônimo do destemido personagem bíblico na conquista da Terra Prometida. Ainda que um pequeno pardal participe da história, o que lemos é uma paráfrase do êxodo. “Iria embora de casa ao completar a maioridade, abarrotaria a mala de lembranças (poço sem fundo) com as imagens que recolheria em suas andanças (ou exílio?).” Quando alguém, no início do terceiro milênio, organizar uma antologia de contos brasileiros do século 21, incluirá esse “Decomposição dos pássaros”.

“Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho” é a única história do livro sem epígrafe, dispensável pela evocação de seu guia no título. Curiosa e divertida trajetória do errático e picaresco Astrogildo (“ou Walter, como preferirem”) acompanhado de Dersu Uzala, do filme de Kurosawa. Ele pensou em escrever um livro com o diabo como protagonista, mas desistiu por não “encontrar humor” no demo, concordou com a historiador francês Georges Minois (“Deus foi sarcástico ao considerar o hipopótamo o ápice de sua criação”), não concluiu a leitura de Os miseráveis, de Victor Hugo, mas nunca se esqueceu do protagonista Jean Valjean, que a “salvou de poucas e boas [...] mas não da solidão”, e antes de terminar seus dias tocava “na gaita a trilha sonora” de O dólar furado. Não à toa, portanto, que seu enterro foi acompanhado ao som de Gianni Ferrio, autor da trilha sonora do faroeste. A frase final é um arremate de mestre, une Jesus, nome do motorista do carro fúnebre, e o despontar da lua na Ásia, de Campos de Carvalho. Conto também antológico.

O verso “Amei todas as perdas”, do espanhol Antonio Gamoneda, dá o tom de “Construção”. Entremeado dos ruídos de instrumentos em uma construção, é a história de perdas e danos, de decomposição, da família de uma anciã de memória surpreendente. “Era um tiquinho de gente, assim ó, mas não esqueço nada.” Deliciosas frases da oralidade, sobretudo mineira, marcam a fala da mulher. Uns exemplos: “Igual eu já te falei...”; “...foi embora caçar um lugar pra ficar”; “...ele fazia birra e tacava o pão duro longe”. No fim, esmerado parágrafo, nem na hora do almoço dos trabalhadores da construção há silêncio total: ao som de colheres rapando o fundo das marmitas somam-se o grito de um casal de maritacas no ar e outro ruído, trágico, do choque de uma cadeira de rodas “com o madeirame da porta roído por cupim”).

“Sob o som das matracas”, depois das maritacas e da matriarca, uma história terrível, versos de Hilda Hilst a nos alertar: “É crua a vida/ alça de tripa e metal”. Um homem conta a um primo detalhes cruéis, em versões ausentes dos livros, da participação do avô, herói anônimo e sem pensão da Revolução de 32, o “fiasco nacional, brasileiro matando brasileiro”. Também aqui Eltânia contrapõe a descrição sem filtro de corpos dilacerados (“toda guerra é um horror”) com expressões populares, como “cavoucou com a unha e cuspiu a bala” e “você é bobo de tão manso”. História pungente que não deixa nenhum coração de pedra insensível.

Campos de Carvalho, “terrivelmente bíblico”, liga o título de “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” ao conto, em que conhecemos semelhanças (ambas perderam a visão “às vésperas de completar doze anos”) entre a mística búlgara Vangelia Pandeva Surcheva (1911-1996) e a baiana Evangelina Augusta da Silva (1940-2021), que teve nascimento difícil (uma beleza a descrição do penoso e obstinado trabalho da parteira Hipólita). Há outras passagens pungentes: “A mãe, já recomposta, com a filha aconchegada ao peito, é imagem da qual Hipólita nunca se esquecerá. Sabia de antemão, pelos arrepios na nuca, do destino da menina”. Logo na frase depois dessa, uma de fino humor metalinguístico: “O barulho dos copos se quebrando e o cheio da aguardente deram sinais da volta da normalidade e a parteira não tinha mais o que fazer lá (nem aqui)”.

Eltânia conta assim um encontro entre a profetiza e a autora de A hora da estrela: “Acredita-se que no remanso da noite, Clarice Lispector [...] encontrou-se com Evangelina, a nossa Baba Vanga [...] A escritora entrou sozinha e saiu de braços dados com Macabeia”. No conto, Eltânia André homenageia outras mulheres, como Marielle Franco e Dandara dos Palmares, assassinadas, e Margarida Maria Alves, que preferiu a morte à escravidão. Mescla de realidade e ficção, o conto, antológico, é um cântico em defesa da fraternidade, da justiça social e da “divisão do pão, do peixe”.

Os dez contos de Decomposição dos pássaros, leitura de inquieto e por vezes assombroso arrebatamento, destilam esplendores e misérias da vida humana. Um livro que vai atravessar o século. Eltânia André precisa ser mais lida e divulgada. Hugo Almeida - Brasil

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Decomposição dos pássaros, contos, de Eltânia André, Editora Urutau, 2025, 96 páginas, R$ 55,00. https://editoraurutau.com/titulo/decomposicao-dos-passaros 

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Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor dos romances Vale das ameixas e Mil corações solitários e do ensaio A voz dos sinos (sobre a obra de Osman Lins), todos publicados pela Editora Sinete. https://editorasinete.com.br/ Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Internacional - Cientistas estabelecem diagnóstico mais antigo de doença genética utilizando ADN de indivíduo pré-histórico de há mais de 12 mil anos

Um novo estudo, liderado por Daniel Fernandes, investigador do Centro de Investigação de Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), relata o diagnóstico mais antigo de uma doença genética em seres humanos anatomicamente modernos — e redefine a nossa visão sobre doenças raras na pré-história.

Através da combinação de técnicas de vanguarda na análise de ADN antigo e genética clínica contemporânea, uma equipa de investigação internacional e multidisciplinar estabeleceu o diagnóstico de ADN mais antigo de uma patologia genética num indivíduo pré-histórico, datado de há mais de 12 mil anos.

Publicado na revista New England Journal of Medicine, o estudo demonstra que os avanços nas técnicas de ADN antigo vão além do mapeamento de populações e migrações humanas, permitindo, igualmente, estabelecer diagnósticos genéticos raros em restos ósseos de indivíduos que viveram há vários milénios.

Esta investigação centra-se num notável enterramento do Paleolítico Superior, com mais de 12 mil anos, descoberto em 1963 na Grotta del Romito, uma gruta no sul de Itália. Dois indivíduos foram depositados em conjunto, num abraço. Um adolescente com encurtamento severo dos membros (Romito 2), jazia envolvido pelos braços de um adulto (Romito 1).

De acordo com os investigadores, não foram encontrados sinais de trauma em nenhum dos esqueletos. O esqueleto de Romito 2 apresentava uma estatura severamente reduzida (110 cm), sugerindo uma patologia esquelética rara denominada displasia acromesomélica. Contudo, tal diagnóstico não poderia ser confirmado de forma definitiva apenas através da análise osteológica. Curiosamente, a estatura da adulta Romito 1 (145 cm) era também inferior à média da altura adulta daquela era.

A equipa extraiu ADN do ouvido interno, uma das fontes mais fiáveis de preservação de ADN em esqueletos antigos. As evidências genéticas esclareceram, inicialmente, duas questões fulcrais. Contrariamente às hipóteses anteriores, comprovou-se que tanto Romito 1 como Romito 2 eram do sexo feminino. Num achado que acrescenta uma perspetiva crucial à interpretação do enterramento, a análise de ADN revelou, também, que eram familiares de primeiro grau — possivelmente, mãe e filha.

Em Romito 2, foi identificada uma variante homozigótica (duas cópias) no gene NPR2, que desempenha um papel vital no crescimento ósseo. Este achado genético confirmou o diagnóstico de displasia acromesomélica do tipo Maroteaux, uma condição hereditária raríssima caracterizada por uma deficiência de crescimento severa e um encurtamento acentuado dos membros.

Os dados de Romito 1 sugerem que esta era possivelmente portadora de uma cópia anómala do gene NPR2, o que constitui uma causa genética de baixa estatura moderada. Estas descobertas em indivíduos pré-históricos coincidem perfeitamente com as características clínicas de doentes modernos com uma ou duas cópias anómalas do referido gene.

«Podemos agora aplicar a ciência da análise de ADN antigo para confirmar mutações específicas e, por extensão, variantes genéticas particulares. Esta abordagem e estes métodos podem não só fornecer uma cronologia confirmada para a idade mínima de certas condições genéticas raras, como também levar à descoberta de variantes anteriormente desconhecidas. Espero que este seja o início de um novo campo de investigação que combine a especialização da genética médica, da paleogenómica e da antropologia biológica», considera Ron Pinhasi, investigador da Universidade de Viena, Áustria.

Daniel Fernandes, investigador do CIAS/FCTUC e primeiro autor do estudo, ressalva que «revelar que estes indivíduos eram ambos do sexo feminino e familiares de primeiro grau transforma este enterramento num estudo genético familiar. Embora a cobertura de ADN para o indivíduo mais velho fosse limitada, a sua estatura mais baixa reflete provavelmente um estado heterozigótico da mutação NPR2 — proporcionando uma perspetiva rara sobre como um único gene afetou diferentes membros da mesma família pré-histórica».

Do ponto de vista médico, os resultados lançam uma nova luz sobre o campo das doenças raras na história humana. Para além do feito técnico, as descobertas transmitem uma mensagem humana. Apesar das severas limitações físicas, Romito 2 sobreviveu até ao final da adolescência ou idade adulta — sugerindo cuidados sociais contínuos numa comunidade de caçadores-recoletores há mais de doze milénios.

O estudo destaca como as ferramentas desenvolvidas para a genética clínica moderna podem iluminar a história humana, unindo a medicina, a genómica e a arqueologia — e lembrando-nos de que as doenças raras, e as pessoas que com elas vivem, sempre fizeram parte da narrativa humana. Universidade de Coimbra - Portugal


Moçambique - Universidade Pedagógica de Maputo garante que modernização do sistema académico não vai prejudicar estudantes

A Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo) assegura que o processo de modernização do seu Sistema Integrado de Gestão Universitária não vai trazer prejuízos aos estudantes, apesar dos constrangimentos registados nos últimos dias no acesso às notas, à situação financeira e aos pedidos de declarações académicas. A garantia foi dada pelo Diretor do Registo Académico da instituição, Célio Sengo, durante uma entrevista concedida à STV, na sequência do crescente descontentamento manifestado pela classe académica.


A intervenção do responsável surge num momento em que vários estudantes, sobretudo do regime pós-laboral, relataram dificuldades no acesso à plataforma digital da universidade, situação que gerou dúvidas, reclamações nas redes sociais e receios quanto a uma eventual perda de dados académicos. Segundo Célio Sengo, os problemas estão associados ao processo de migração de dados do sistema antigo para uma nova plataforma tecnológica, concebida para responder às atuais exigências da instituição.

“Estamos a migrar os dados do sistema antigo para um novo sistema, mais moderno e ajustado à realidade atual da universidade. Isso não significa perda de informação nem prejuízo para os estudantes”, afirmou, esclarecendo que a atualização resulta da evolução institucional, da introdução de novos planos curriculares e da necessidade de alinhar o sistema académico ao plano estratégico da UP-Maputo.

O diretor reconheceu que a transição gerou dificuldades pontuais, sobretudo no acesso inicial ao novo sistema, que passou a exigir regras mais rigorosas de segurança, como a criação obrigatória de senhas fortes. “Alguns estudantes tiveram dificuldades nesse processo, outros não conseguiam visualizar de imediato a situação financeira, mas são situações que já estamos a resolver”, explicou.

Para minimizar os impactos, a universidade optou por manter, em simultâneo, o sistema antigo e o novo, permitindo que os estudantes continuem a aceder aos serviços académicos sem interrupções. “O sistema anterior continua ativo. Quem tiver dificuldades no novo pode recorrer ao antigo sem qualquer problema”, garantiu Célio Sengo, sublinhando que a migração está a ser feita de forma gradual e acompanhada pelo feedback dos utilizadores.

O responsável atribui parte do alarme gerado nos últimos dias ao facto de muitos estudantes terem acedido diretamente à nova plataforma, sem perceberem que o sistema antigo permanecia operacional. Ainda assim, considera legítimas as preocupações. “É normal que haja receios quando se introduz um novo sistema. Essas preocupações ajudam-nos a identificar falhas e a melhorar”, disse.

Uma das questões mais sensíveis abordadas na entrevista prende-se com a situação dos estudantes que estão afastados da universidade há vários anos ou que concluíram as cadeiras, mas ainda não defenderam os seus trabalhos finais. Questionado sobre este grupo, o diretor foi taxativo ao afastar qualquer risco de perda de notas ou do histórico académico. “Todos os dados estão salvaguardados. Migração significa transportar toda a informação do sistema antigo para o novo, incluindo estudantes antigos”, assegurou.

Célio Sengo explicou ainda que, mesmo após a desativação definitiva do sistema antigo, este continuará acessível internamente para consultas específicas, reforçando que a integridade dos dados académicos está garantida. O maior risco, segundo referiu, não está ligado ao sistema, mas ao cumprimento dos prazos regulamentares de duração dos cursos, situação que pode obrigar alguns estudantes a solicitar a reintegração.

Quanto ao calendário, a UP-Maputo não avança com uma data exata para a conclusão do processo, mas aponta o presente semestre como período de transição, com a expectativa de iniciar o segundo semestre já com o novo sistema plenamente funcional. “Tudo vai depender do volume de reclamações e sugestões que formos recebendo. Os estudantes é que orientam este processo”, afirmou.

Relativamente às inscrições, o Diretor do Registo Académico anunciou que os estudantes internos deverão iniciar o processo na segunda semana de fevereiro, em data a ser comunicada oficialmente. Já os novos ingressos deverão inscrever-se a partir de março, após a divulgação dos resultados dos exames de admissão, estando ainda em análise a plataforma que será utilizada.

Com estes esclarecimentos, a Universidade Pedagógica de Maputo procura acalmar os ânimos e reafirmar que a transição tecnológica, apesar dos percalços iniciais, está a ser conduzida com salvaguarda dos direitos e do percurso académico dos estudantes. Laves Macatane – Moçambique in “O País”


Angola - Governo tem até Abril para aprovar mega-projecto do Brasil para agricultura

Os produtores brasileiros comprometem-se a produzir grãos, cereais e sementes em Angola, mas exigem segurança jurídica e apoio financeiro também das instituições nacionais, como o Fundo Soberano e a banca. Fase piloto do programa está avaliada em mais de 124 milhões USD, com 45% de financiamento brasileiro


Angola tem pouco mais de 2 meses para responder a uma proposta do Brasil para apoiar o desenvolvimento do agronegócio, que pode trazer cerca de 20 empresários de grande dimensão e experiência para investir no agronegócio. A pressão é motivada pelo calendário eleitoral nos dois países, mas sobretudo no Brasil, que realiza as eleições presidenciais no mês de Outubro.

Uma missão técnica nacional irá ao Brasil, na primeira semana de Março, para agilizar o processo. De acordo com um documento obtido pelo Expansão, a proposta brasileira (que foi pré-negociada com Angola e, por isso, está alinhada com os interesses das duas partes) indica a necessidade de ceder 500 mil hectares de terras, mais especificamente no planalto de Camabatela (Cuanza Norte), autorizar a utilização de sementes geneticamente modificadas, emitir garantias via Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), entre outras exigências.

O maior perigo identificado pelos empresários é a desvalorização cambial e a parte brasileira solicitou que o BDA assumisse esse risco, o que pode levantar dúvidas devido à falta de dinheiro que afecta a gestão daquela instituição nacional. Do lado brasileiro, o governo compromete-se a disponibilizar recursos financeiros através do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) e do Banco do Brasil (através do Programa de Fomento às Exportações). "Estes recursos já estão disponíveis", disse fonte do Expansão. O financiamento, a ser utilizado, vai servir para a importação de máquinas, veículos de carga e sistemas de armazenamento de grãos.

O processo eleitoral tem impacto directo nas conversações oficiais entre os dois países porque a lei brasileira impõe restrições aos governantes que se candidatam a posições relevantes, como é o caso do actual ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Carlos Fávaro, que vai concorrer ao lugar de senador pelo estado de Mato Grosso e terá de deixar o ministério já em Abril.

Estas movimentações, que se estendem a outros sectores do governo brasileiro, podem ter impacto directo na acção governativa e na concretização de acordos de cooperação. Aliás, Fávaro esteve em Angola por diversas vezes, incluindo uma visita oficial (em Dezembro de 2024), e não viajou para outros países africanos desde que assumiu, em Janeiro de 2023, a pasta da Agricultura e Pecuária do actual governo liderado por Lula da Silva.

As eleições em Angola, que vão realizar-se em 2027, também podem ter algum efeito nas negociações, mas neste caso mais pela necessidade de o Governo mostrar serviço e promover novos empreendimentos que promovam a criação de empregos e a divulgação de "boas notícias" sobre o País. Caso seja aprovado pelo Governo, o programa também estará aberto a empresários angolanos. Os grupos empresariais brasileiros interessados em investir em Angola são provenientes dos estados de Mato Grosso e Bahia. Um grupo de investidores brasileiros que actua em Angola também demonstrou interesse em aderir. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


Lisboa – 1971










A Ovídio Martins e Oswaldo Osório

 

Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

 

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos

no meio de guardas e aviões da Portela

 

Em verdade éramos o gado mais pobre

d’África trazido àquele lugar

e como folhas varridas pela vassoura do vento

nossos paramentos de presunção e de casta.

 

E quando mais tarde surpreendemos o espanto

da mulher que vendia maçãs

e queria saber d’onde… ao que vínhamos

descobrimos o logro a circular no coração do Império.

 

Porém o desencanto, que desce ao peito

e trepa a montanha,

necessita da levedura que o tempo fornece.

 

E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,

fomos seguindo nosso destino

naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d’inverno.

 

Arménio Vieira – Cabo Verde

In Poemas, (1981, Lisboa, África Editora)

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Arménio Adroaldo Vieira e Silva – Há 3 dias comemorou o seu 85.º aniversário, pois nasceu na cidade da Praia na ilha de Santiago a 29 de janeiro de 1941. Começou a sua atividade literária na década de 1960, nas revistas SELO, Voz de Povo, Boletim de Cabo Verde, Vértice em Coimbra, Portugal, Raízes, Ponto & Vírgula e Fragmentos, Sopinha de Alfabeto, entre outras.

Publicou, entre outros títulos, Safras de um Triste Outono (2021); Silvenius – Antologia Poética (2016); Fantasmas e Fantasias do Brumário (2014); O Brumário e Derivações do Brumário (2013); que acabou com um interregno de três anos, quando Arménio Vieira publicou O Poema, a Viagem, o Sonho (2009), sequência lógica da mistura da poesia de Poemas (1981) e MITOGrafias (2006), da novela O Eleito do Sol (1990) e do romance No Inferno (1999).

Em 2009, tornou-se o primeiro escritor cabo-verdiano a obter o Prémio Camões, a mais importante distinção literária na língua portuguesa.

“Sou um poeta, apenas isso”, reagiu então. In “Expresso das Ilhas” 

Oração ao Tempo











Vamos aprender português, cantando

 

Oração ao Tempo

 

És um senhor tão bonito

quanto a cara do meu filho

tempo, tempo, tempo, tempo

vou te fazer um pedido

tempo, tempo, tempo, tempo

 

Compositor de destinos

tambor de todos os ritmos

tempo, tempo, tempo, tempo

entro num acordo contigo

tempo, tempo, tempo, tempo

 

Por seres tão inventivo

e pareceres contínuo

tempo, tempo, tempo, tempo

és um dos deuses mais lindos

tempo, tempo, tempo, tempo

 

Que sejas ainda mais vivo

no som do meu estribilho

tempo, tempo, tempo, tempo

ouve bem o que te digo

tempo, tempo, tempo, tempo

 

Peço-te o prazer legítimo

e o movimento preciso

tempo, tempo, tempo, tempo

quando o tempo for propício

tempo, tempo, tempo, tempo

 

De modo que o meu espírito

ganhe um brilho definido

tempo, tempo, tempo, tempo

e eu espalhe benefícios

tempo, tempo, tempo, tempo

 

O que usaremos pra isso

fica guardado em sigilo

tempo, tempo, tempo, tempo

apenas contigo e 'migo

tempo, tempo, tempo, tempo

 

E quando eu tiver saído

para fora do teu círculo

tempo, tempo, tempo, tempo

não serei, nem terás sido

tempo, tempo, tempo, tempo

 

Ainda assim, acredito

ser possível reunirmo-nos

tempo, tempo, tempo, tempo

num outro nível de vínculo

tempo, tempo, tempo, tempo

 

Portanto, peço-te aquilo

e te ofereço elogios

tempo, tempo, tempo, tempo

nas rimas do meu estilo

tempo, tempo, tempo, tempo

 

António Zambujo – Portugal

Caetano Veloso - Brasil