Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Guiné-Bissau - Comissão Nacional de Eleições denuncia confisco de actas eleitorais

A Comissão Nacional de Eleições da Guiné-Bissau (CNE) anunciou, esta terça-feira, que não existem condições para prosseguir com o processo eleitoral devido ao confisco de equipamentos e actas por parte de homens armados no passado dia 26 deste mês

De acordo com a Lusa, que cita o porta-voz do presidente da Comissão Nacional de Eleições da Guiné-Bissau, Idriça Djaló, a CNE reconhece a impossibilidade de continuar e concluir o processo eleitoral.

As declarações foram transmitidas pelos órgãos de comunicação social e difundidas nas redes sociais, refere a mesma fonte. In “Jornal de Angola” – Angola com “Lusa”


Moçambique - Fundação Carlos Morgado apresenta obra “Moçambique na Guerra e Paz” em conversa pública no Ler é uma Festa

A Fundação Carlos Morgado promove, na próxima Quarta-feira, 03 de Novembro, às 18h00, na Fundação Fernando Leite Couto, a apresentação do livro Moçambique na Guerra e Paz, inserida no programa da 7.ª edição do festival literário Ler é uma Festa.


A sessão contará com a presença da autora e editora Paula Ferreira, seguida de uma conversa com três figuras que representam diferentes gerações da reflexão histórica moçambicana: Óscar Monteiro, enquanto voz do passado; Tomás Vieira Mário, enquanto voz do presente; e Eduardo Quive, como voz do futuro.

A obra, composta por três volumes, reúne cerca de 150 entrevistas realizadas entre 2014 e 2018 a protagonistas e testemunhas da história recente da África Austral. Entre os entrevistados estão políticos, diplomatas, académicos, jornalistas, antropólogos, psicólogos e militares de Moçambique, Zimbabwe, Angola, Namíbia, África do Sul, Estados Unidos, Portugal, Itália, entre outros.

O trabalho revisita o impacto da Guerra Fria na região entre 1974 e 1994, com foco especial na guerra civil moçambicana e no processo de construção da paz. Através de depoimentos em discurso direto, a obra oferece um mosaico de memórias que iluminam os caminhos, tensões e dilemas vividos durante esse período.

Entre os testemunhos marcantes incluídos na obra, destaca-se a reflexão do psicólogo Bóia Júnior, que sublinha a relação entre paz e justiça social: “A paz não é o objectivo principal. O objectivo é a justiça social.”

Com o propósito de preservar a memória colectiva, estimular o debate público e promover uma cultura de responsabilidade histórica, Moçambique na Guerra e Paz surge como um contributo essencial para a compreensão do passado recente do país. As receitas da venda do livro revertem integralmente para as actividades da Fundação Carlos Morgado, que actua nas áreas de educação, cidadania e desenvolvimento social.

O evento encerra com um cocktail de convívio, criando um espaço informal para diálogo entre autores, leitores e participantes. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


Portugal - Investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde premiada por criar tecidos humanos vascularizados em laboratório

Trabalho pioneiro valeu a Cristina Barrias o Prémio Crioestaminal & Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC) em Medicina Regenerativa


A investigadora Cristina Barrias, líder do grupo “Bioengineered 3D Microenvironments” do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), foi recentemente distinguida com o Prémio Crioestaminal & Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC) em Medicina Regenerativa. O galardão destaca o trabalho pioneiro da investigadora na criação de tecidos humanos vascularizados em laboratório, um dos principais desafios da medicina regenerativa.

A investigação premiada, desenvolvida no i3S no âmbito do doutoramento de Iasmim Orge e já publicada na revista Bioactive Materials, aborda um dos maiores obstáculos da medicina regenerativa: a formação de redes vasculares funcionais capazes de sustentar tecidos vivos. Através da combinação de “unidades vasculares”, microtecidos formados por células humanas, foi possível gerar redes de microvasos auto-organizadas, dando origem a tecidos vascularizados criados em laboratório.

Esta tecnologia representa uma plataforma versátil, com potencial de aplicação tanto na regeneração de tecidos e órgãos, como na criação de modelos humanos avançados para o estudo de doenças e teste de novas terapias. O trabalho abre, assim, caminho para estratégias terapêuticas mais personalizadas e eficazes, aproximando a medicina regenerativa da prática clínica.

Para Cristina Barrias, que coordenou toda a investigação, “este prémio representa um reconhecimento extremamente importante para toda a equipa, que tem trabalhado com grande dedicação para ultrapassar um dos maiores desafios da medicina regenerativa: promover, através de abordagens de bioengenharia avançada, a criação de redes microvasculares funcionais em tecidos humanos, com aplicações que vão desde a terapia celular ao desenvolvimento de órgãos artificiais”.

Ver este trabalho distinguido, continua a investigadora, “reforça o valor da ciência feita em Portugal e motiva-nos a continuar a apostar na transformação do conhecimento em soluções terapêuticas com impacto real na vida dos pacientes”.

Segundo Liliana Bernardino, Presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC), a atribuição do prémio a este trabalho “reconhece não só a excelência científica desta investigação, mas também o seu potencial transformador para o futuro da saúde, ao avançar no desenvolvimento de redes de microvasos auto-organizadas aplicáveis à regeneração de tecidos e à descoberta de novas terapias”. A SPCE-TC, em parceria com a Crioestaminal, “congratula-se por distinguir um trabalho que coloca Portugal na vanguarda da inovação e reforça a importância de redes colaborativas capazes de gerar avanços científicos relevantes com impacto na saúde”, acrescenta.

“Estamos convictos de que Portugal dispõe de um potencial excecional para se afirmar como um polo de excelência científica, apoiado na competência dos seus investigadores e na qualidade das suas instituições. A Crioestaminal orgulha-se de apoiar iniciativas que constituem um contributo relevante para a melhoria da qualidade de vida das populações e reforça a importância da estreita ligação entre saúde e ciência na procura de novas terapias», sublinha Mónica Brito, CEO da Crioestaminal.

Sobre o prémio

O Prémio Crioestaminal & Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC) em Medicina Regenerativa tem como objetivo a promoção da investigação na área da Medicina Regenerativa, distinguindo para tal a melhor publicação de índole básica ou aplicada na área designada, da autoria de investigadores nacionais ou estrangeiros, total ou parcialmente realizada em instituições portuguesas no ano anterior à sua atribuição (2024).

O prémio consiste na atribuição de um valor pecuniário de 2.000 euros e na inscrição na Reunião Internacional da SPCE-TC 2025, no Porto, onde o trabalho foi apresentado.

Para mais informações, consultar a página do prémio. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

França - Apresentação de livro destaca percursos de portugueses fora do país

A apresentação do livro Caminhos Globais, de Marta Henriques Pereira, reuniu no dia 25, nos Salões Eça de Queirós, o embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, e várias personalidades ligadas à diáspora, num encontro dedicado à “reflexão sobre oportunidades e percursos fora de Portugal”


A moderação ficou a cargo do representante permanente adjunto de Portugal junto da OCDE, Pedro Solano de Almeida.

A sessão, concebida como um momento de reflexão sobre desafios e oportunidades, pretendeu “inspirar jovens e profissionais interessados em seguir percursos internacionais”, segundo o Consulado-Geral de Portugal em Paris.

O encontro foi organizado em parceria com a Delegação Permanente de Portugal junto da OCDE e com a Delegação Permanente de Portugal junto da UNESCO. “O evento destacou o percurso e as experiências de portugueses com carreiras internacionais, nomeadamente das oradoras convidadas Mathilde Stoleroff (UNESCO) e Ana Paula Fernandes (OCDE), bem como o papel das instituições multilaterais”. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




Moçambique - Reino Unido retira-se de projeto petrolífero em Cabo Delgado

O Governo do Reino Unido comunicou ao parlamento britânico a saída do país do financiamento ao megaprojeto de Gás Natural Liquefeito (GNL) Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies em Cabo Delgado, norte de Moçambique



Em causa está um financiamento de 1150 milhões de dólares (988 milhões de euros) pelo Fundo de Financiamento de Exportações do Reino Unido (UKEF), confirmado em 2020 pelo Governo britânico, um ano antes dos ataques terroristas em Palma que levaram a TotalEnergies e invocar ‘força maior’ e a suspender o projeto, de 20 mil milhões de dólares (17,2 mil milhões de euros), entretanto levantada, em outubro passado.

“Na preparação para a retoma do projeto, o UKEF recebeu uma proposta para alterar os termos de financiamento originalmente acordados (…). Após uma análise detalhada, o Governo do Reino Unido decidiu encerrar a participação do UKEF no projeto”, disse, numa declaração no parlamento, o secretário de Estado de Negócios, Comércio e Trabalho, Peter Kyle, acrescentando que após avaliação o executivo considera que os “riscos aumentaram desde 2020”.

“Esta opinião baseia-se numa avaliação abrangente do projeto e nos interesses dos contribuintes britânicos, que são melhor atendidos com o encerramento da nossa participação no projeto neste momento. Embora essas decisões nunca sejam fáceis, o governo acredita que o financiamento britânico deste projeto não contribuirá para os interesses do nosso país”, acrescentou.

“A UKEF reembolsará o projeto pelo prémio pago, refletindo o fim da exposição ao risco do departamento no projeto”, disse Kyle.

O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, classificou sábado como falsas as acusações de violação dos direitos humanos no megaprojeto de gás da TotalEnergies.

“Quando começaram a aparecer as desinformações e a manipulação da opinião pública a nível nacional e internacional sobre o respeito aos direitos humanos em Cabo Delgado, o que nós fizemos primeiro foi enviar a Comissão Nacional de Direitos Humanos [CNDH] para Cabo Delgado, que fez um trabalho profundo, extraordinário, em toda a província ,(…) e não constataram as questões que os jornais e alguns que se fazem de investigadores a nível internacional estão a evocar”, disse Chapo.

Garantiu que não há evidências – na investigação daquela instituição – das acusações de violação dos direitos humanos, que levaram uma organização europeia a apresentar uma queixa-crime contra a TotalEnergies por “crimes de guerra”.

A organização jurídica europeia ECCHR apresentou em 17 de novembro, em França, uma queixa-crime acusando a TotalEnergies de “cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimento forçado” de populares naquele megaprojeto de gás. Acusou então a multinacional de “ter financiado diretamente e apoiado materialmente a Força-Tarefa Conjunta, composta pelas forças armadas moçambicanas, que, entre julho e setembro de 2021, terá detido, torturado e assassinado dezenas de civis nas instalações de gás da TotalEnergies”.

A ECCHR referiu que submeteu esta queixa na Procuradoria Nacional Antiterrorismo (PNAT) francesa e que a “denúncia centra-se no chamado ‘massacre dos contentores’ nas instalações da empresa”, em Cabo Delgado, alegações que foram inicialmente divulgadas pelo jornal Político, em setembro de 2024.

Segundo o mais recente relatório, com dados até 23 de novembro, da organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês), dos 2270 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, um total de 2107 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM), provocaram 6341 mortos.

O Governo moçambicano deu 30 dias à TotalEnergies para apresentar o cronograma para retoma do megaprojeto de gás, que não deve esperar, acrescenta, pelas conclusões da auditoria exigida aos custos incorridos no período de ‘força maior’.

Numa resolução de 19 de novembro, do Conselho de Ministros, noticiada então pela Lusa, é definido que “a retoma e a implementação do projeto”, que esteve suspenso quatro anos e meio devido aos ataques terroristas, “não devem estar condicionadas à conclusão e submissão da apresentação do relatório de auditoria” aos custos nesse período. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Suíça – Num país verdadeiramente democrático, os cidadãos responderam não, em referendo, às propostas sobre um imposto sobre heranças e ao cumprimento de serviço cívico

A Suíça pronunciou-se de forma inequívoca neste domingo, rejeitando amplamente tanto o imposto sobre grandes heranças quanto à criação de um dever cívico para todos os cidadãos


Cerca de 84,1% dos eleitores rejeitaram a proposta do dever cívico, enquanto 78,3% rejeitaram a iniciativa do imposto sobre heranças. A participação eleitoral no domingo foi de 43%. Todos os cantões votaram em peso contra as duas iniciativas.

A proposta de um sistema de serviço cívico obrigatório a ser cumprido por todos os cidadãos sofreu uma derrota particularmente contundente. Há apenas seis semanas, cerca de 48% dos entrevistados pelo instituto de pesquisa gfs.bern afirmaram que apoiariam a proposta. Esse número caiu para 32% dez dias antes da votação do domingo.

“A ideia de dever cívico não morreu”

“Nunca acaba – a batalha continua”, disse Noémie Roten, membro do comité da iniciativa do dever cívico, à televisão pública suíça RTS. “Estamos orgulhosos de ter trazido temas importantes” para o debate nacional, acrescentou ela, citando temas como igualdade de género, responsabilidade cívica e segurança nacional levantados pela proposta.

A iniciativa “Por uma Suíça engajada” pedia uma reforma do sistema atual de serviço obrigatório, que se limita aos homens que servem no exército, na defesa civil ou no serviço civil. A iniciativa queria estender esse sistema às mulheres, que atualmente podem alistar-se voluntariamente, e incluir uma gama mais ampla de tarefas que beneficiam a sociedade, como proteger o meio ambiente e ajudar pessoas vulneráveis. O serviço cívico seria voluntário para os cidadãos suíços que vivem no exterior, como é o caso atualmente do serviço militar.

Roten disse que a ideia do dever cívico para todos pode estar apenas à frente do seu tempo.

“Grandes projetos sociais muitas vezes precisam de várias tentativas nas urnas”, disse ela, citando o direito das mulheres ao voto na Suíça como exemplo. “Por isso, a ideia do dever cívico não está morta.”

O apoio à proposta claramente diminuiu nas últimas semanas da campanha, disse Lukas Golder, da gfs.bern. Alguns membros do Partido Verde Liberal, do centro, e dos Liberais Radicais, de centro-direita, inicialmente apoiaram a iniciativa, “mas com o tempo, as fraquezas tornaram-se cada vez mais evidentes” e esse apoio desmoronou, disse Golder à televisão pública suíça SRF.

Os defensores da iniciativa alegaram que o conceito promoveria a igualdade de género, juntamente com a coesão social e o engajamento cívico. Mas o argumento da igualdade acabou não convencendo os eleitores, que também foram influenciados por preocupações com os custos administrativos relacionados.

“Custo enorme para nada”

“Não foi medo do novo – teria sido um custo enorme para nada”, disse a senadora Andrea Gmür, do Partido do Centro, à SRF. Gmür argumentou que a iniciativa não representaria um avanço em termos de igualdade, já que as mulheres já assumem grande parte do trabalho de cuidados na sociedade. “Esse dever cívico só teria levantado mais questões do que respondido”, disse.

O Grupo por uma Suíça sem Exército também acolheu o resultado e afirmou que continuará a sua luta contra as tentativas do exército de aumentar o seu efetivo. Os defensores da iniciativa alegaram que o serviço cívico garantiria forças suficientes para a defesa civil e o exército, que prevê uma escassez de pessoal treinado até 2029.

Apesar do resultado, o comité da iniciativa planeia seguir em frente com o seu recurso contra os documentos oficiais de votação que o governo suíço enviou aos eleitores. O comité havia solicitado correções nas informações sobre a iniciativa do serviço cívico. “Na nossa opinião”, disse Roten, “os cidadãos deste país não tiveram informações objetivas, completas, transparentes e proporcionais que lhes permitissem formar uma opinião imparcial”.

Imposto sobre heranças: a esquerda contra todos

Para os defensores de uma proposta de imposto nacional sobre grandes heranças, a derrota também foi mais pesada do que o esperado: a rejeição por 78,3% dos eleitores é mais acentuada do que as pesquisas de opinião previam e também superior aos 71% que disseram não a uma iniciativa semelhante há dez anos. Como aconteceu há uma década, nenhum cantão aceitou a proposta no domingo.

A ideia, de uma taxa de 50% sobre heranças acima de CHF 50 milhões (US$ 61,8 milhões) isentos de impostos, foi apresentada pelo partido Jovens Socialistas (JUSO), que visava tanto a crescente desigualdade de renda quanto o papel dos super-ricos na contribuição para as mudanças climáticas. Se a iniciativa tivesse sido aprovada, a receita do imposto teria sido destinada a projetos climáticos.

No entanto, o projeto da esquerda enfrentou forte oposição do governo, da maioria dos partidos políticos e de uma campanha bem financiada que alertou para um êxodo de contribuintes ricos e problemas para as empresas familiares em obter o capital necessário para pagar o imposto.

Preocupações económicas

Benjamin Mühlemann, co-líder dos Liberais Radicais, afirmou no domingo que a campanha mostrou aos eleitores que a iniciativa significaria uma “destruição da nossa economia e prosperidade”, além de uma perda generalizada de empregos.

Entretanto, mesmo que a desigualdade de riqueza tenha aumentado na Suíça, a prosperidade geral tem crescido para todos os grupos de rendimento no país, disse Mühlemann à SRF.

“Boas ideias levam tempo”

Por sua vez, os defensores da iniciativa admitiram que o resultado não foi uma surpresa. Em comunicado divulgado no domingo, a JUSO afirmou que a campanha da oposição, com um orçamento elevado, utilizou táticas de “difamação” para desviar a atenção do conteúdo da proposta, incluindo a questão climática. A presidente da JUSO, Mirjam Hostetmann, criticou anteriormente as aparições na mídia de indivíduos ricos, ameaçando mudar-se para o exterior para evitar o imposto, como “uma campanha de medo”.

Cédric Wermuth, copresidente dos social-democratas, disse à SRF que “boas ideias levam tempo” e que o combate à desigualdade continua sendo um tema preocupante para a população em meio ao aumento dos custos de itens como seguro saúde. Essa maneira específica de lidar com a questão não foi popular, mas “vamos encontrar uma melhor”, disse ele.

De facto, a votação de domingo não foi a primeira vez nos últimos anos que os eleitores suíços se pronunciaram sobre a tributação dos ricos. Uma iniciativa de 2021 para tributar ganhos de capital e uma tentativa anterior em 2015 de introduzir um imposto nacional sobre heranças também fracassaram – mais uma vez, em grande parte devido aos temores de perda de empregos e perturbações nos negócios.

Monika Rühl, da federação empresarial Economiesuisse, acrescentou que o resultado foi um sinal a favor das “empresas familiares fortes” e que, após uma iniciativa semelhante fracassada em 2015, agora deve ficar claro que “os eleitores suíços não querem um imposto sobre heranças a nível nacional”. In “Swissinfo” - Suíça


“Mil Corações Solitários”: O Silêncio que Respira

O título do romance de Hugo Almeida não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas


Comecei a ler Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida, como quem se aproxima de uma casa antiga – uma casa feita de ecos e memória, onde o ar carrega vozes que nunca deixaram de falar. Antes mesmo da primeira página, senti que havia um ritmo próprio: algo na linguagem respirava. Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a pele; livros cuja matéria é silêncio e cuja vibração se sustenta nas pausas. O romance de Hugo Almeida pertence a essa linhagem rara: obras que escutam. 

Desde as primeiras linhas, percebe-se que há um subterrâneo sustentando cada gesto do enredo. Não se trata apenas de personagens, mas de pulsações. Hugo escreve com o ar entre os verbos, confiando na força das suspensões, dos intervalos em que o sentido se forma antes de ser dito. Sua escrita entende que o silêncio não é ausência, mas presença que excede a palavra; e que, às vezes, é o silêncio que conduz o leitor.

Níobe, a figura central, encarna esse modo de existir. Suas cartas à mãe não são confissões, nem busca de explicação – são respiração. Escrever, para ela, é um modo de impedir que o tempo a dissolva. Há uma coragem particular na forma como tenta sustentar a própria vida através da linguagem; como transforma o gesto da escrita em contenção e sobrevivência. A carta, para Níobe, é abrigo e limite: o mesmo movimento que a ampara é o que a aprisiona dentro de si. Hugo captura essa ambivalência com precisão sutil, sem dramatização: apenas deixando que a dor se mova na página sem ser violentada pelo excesso.

À volta dela, Gamaliel – personagem construído com uma delicadeza ética rara. Seu silêncio não é indiferença, mas impossibilidade. Um silêncio que pesa, que guarda uma densidade própria, que devolve a Níobe uma sombra de si mesma. Entre os dois há um amor suspenso, feito de gestos que quase se completam, de presenças que se roçam sem se fundir. Hugo trata essa relação com pudor narrativo: não invade, não explica demais, apenas observa com compaixão.

A estrutura epistolar cumpre, no romance, uma função dupla e profunda. Ao mesmo tempo em que cria um espaço íntimo, expõe aquilo que só a solidão pode formular. As cartas de Níobe ecoam tradições distintas – Flaubert, Clarice Lispector, Raduan Nassar – mas Hugo desvia desses modelos ao não usar a carta como descoberta interior. Aqui, a carta é o próprio lugar onde o sujeito continua existindo. Níobe não escreve para compreender o que sente, mas para continuar sentindo; sua escrita é o gesto que impede o apagamento. 

Existe, em todo o romance, uma contenção formal que o dignifica. Hugo não desperdiça sílabas: escolhe cada palavra como quem escolhe uma pedra para não romper o silêncio da água. Seu texto se aproxima de uma música de câmara: pausas calculadas, nuances mínimas, ecos que se entrelaçam. Essa contenção é estética, mas também ética – não invadir o interior dos personagens é tratá-los com respeito.

O título – Mil Corações Solitários – não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas: fragmentos de vidas que batem em ritmos distintos, mas que se reconhecem no silêncio. Cada personagem carrega uma possibilidade interrompida, um rumor de vida que poderia ter sido outra. E é nesse rumor que reside a beleza do romance: a melancolia que se sustenta não na dor explícita, mas naquilo que resta. 

Níobe atravessa a narrativa como tempo encarnado. Sua escrita percorre o passado e o presente, tentando recompor uma memória ameaçada pela ausência. Há nela uma sabedoria antiga: a de quem compreende que o amor, para durar, precisa aprender a existir mesmo quando não há reciprocidade imediata. Suas cartas são mapas íntimos, tentativa de manter viva a chama de uma existência muitas vezes invisível. 

E é justamente essa invisibilidade que o romance ilumina: a solidão como condição de escuta. Hugo propõe que só quem aprendeu a estar só consegue ouvir verdadeiramente. Seu livro aposta na lentidão, na presença, na atenção – e essa aposta é política, no melhor sentido. Em tempos de cacofonia, escrever com silêncio é um gesto de resistência.

Há uma dimensão corpórea na leitura. Em certo ponto, percebi que não lia mais com os olhos: lia com a pele. O texto altera a respiração do leitor, desacelera o olhar, reorganiza o espaço interno. Poucas obras conseguem produzir esse efeito – o de transformar o estado de consciência de quem lê. Neste romance, o silêncio não é apenas tema: é método, é atmosfera, é corpo. 

Quando a narrativa chega ao fim, o silêncio que permanece não é vazio. É um silêncio pleno, como o que fica após uma confidência verdadeira. O leitor sai do livro não com respostas, mas com uma companhia. O romance continua respirando depois de fechado; permanece como uma presença que não se impõe, mas que não se retira. 

Mil Corações Solitários é um livro raro: delicado sem ser frágil, rigoroso sem ser árido, emocional sem ser sentimentalista. Acredita no amor como forma de lucidez – e talvez seja essa a sua grande revelação. Quando o amor se torna lucidez, o silêncio se torna luz. Lara Vaz-Tostes - Brasil

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida. 4ª edição. São Paulo: Editora Sinete, 228 páginas, R$ 65,00, 2025. Site: https://www.editorasinete.com.br ; E-mail: editorasinete@gmail.com

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Lara Passini Vaz-Tostes – Natural de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, onde nasceu a 04 de Maio de 1998, é escritora, advogada pela UFMG (2022) e pesquisadora. Autora de O Lugar que Não Existe (mas sou eu) (Minimalismos, 2025) e Por dentro, onde os nomes nascem (Terra da Garoa, 2025) e outros livros. Desenvolve pesquisas nas interseções entre literatura, ética e escuta, com ênfase em Dostoiévski e filosofia da linguagem. Publica poesia, contos e ensaios críticos em revistas e portais literários.