Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 2 de março de 2024

Cabo Verde - Mário Lúcio e orquestra da Gulbenkian juntos em novo álbum “Cretcheu”

“Cretcheu” é o título do novo álbum discográfico do autor/compositor e intérprete Mário Lúcio, que conta com a participação do prestigiado Coro e Orquestra Gulbenkian, Portugal. O trabalho foi lançado esta sexta-feira, 1 de Março, nas plataformas digitais, mas está disponíbel em CD e vinil, também


O disco, também disponível em CD e vinil, será apresentado em Cabo Verde na segunda fase da tour ML 60 (60 anos), que decorrerá em Maio, conforme avançou a assessoria do artista.

O álbum traz dez temas, cinco do autor e cinco mornas que ele intitula de “ícones”, dos compositores Abílio Duarte, Eugénio Tavares, B. Leza, Djirga e Ano Nobo.

“Cretcheu”, que entrelaça as sonoridades de Mário Lúcio com o Coro e a Orquestra Gulbenkian, é fruto de um encontro entre o artista cabo-verdiano e uma das mais prestigiadas orquestras europeias – a Gulbenkian – que resultou em dois concertos realizados em Lisboa na Grande Sala da Fundação Calouste Gulbenkian, nos dias 8 e 9 de Junho de 2022. O trabalho está agora assim disponível ao público do mundo inteiro.

Enlace e confluência entre o tradicional e o sinfónico

“Esteticamente, projectei este disco de modo a que o ambiente, a toada e o sentimento da minha música, a tradicional e a autoral, encontrassem a música do Outro. A minha música vem de muitas músicas, muitas músicas têm também da minha. A proposta não é trazer a música tradicional, ou popular, para o ambiente sinfónico, nem o inverso, mas, sim, conseguir uma confluência, um enlace”, estiliza Mário Lúcio sobre a génese deste trabalho.

Reconhecido como um dos grandes compositores de Cabo Verde, Mário Lúcio Sousa está a celebrar 60 anos com um tour mundial, tendo já actuado no Tarrafal, sua terra natal, onde deu o pontapé de saída, seguindo-se Praia, Mindelo, entre outros destinos e palcos, que tem vindo a pisar ao longo dos últimos anos, num encontro de sons e culturas que tanto tem privilegiado.

O seu portfólio como artista musical e escritor é imenso e marcado por uma carreira de sucesso. Gisela Coelho – Cabo Verde in “A Nação”


PALOP – Concurso de Banda Desenhada aberto até 15 de Março em Angola, Cabo Verde e Moçambique

Cidade da Praia – O terceiro Concurso Banda Desenhada PALOP (BDPALOP) está aberto até 15 de Março e visa fomentar, dinamizar e consolidar o interesse na criação e consumo de banda desenhada em Moçambique, Angola e Cabo Verde.


A informação foi avançada à Inforpress, em comunicado de imprensa, pela organização Futuros Criativos, que indicou que o vencedor irá ganhar uma bolsa de 5 000 Euros (cerca de 550 mil escudos), receber formações e mentorias, e terá a oportunidade de ver a sua obra publicada em cinco países.

O projeto BDPALOP é apoiado pelo PROCULTURA e irá beneficiar amantes de Banda Desenhada de Moçambique, Angola e Cabo Verde, propondo uma série de actividades de apoio, capacitação e acesso aos mercados internacionais, que irão contribuir para o aumento da empregabilidade e geração de renda nos sectores das indústrias culturais e criativas, tal como para o aumento da literacia entre as camadas mais jovens.

Conforme a mesma fonte, umas das suas iniciativas é a atribuição de uma Bolsa Literária de Criação de Banda Desenhada a 18 bolseiros destes países, apoiando financeiramente, com formações e mentorias a produção de nove obras de banda desenhada anualmente.

As candidaturas deverão ser submetidas apenas através do preenchimento do formulário online disponibilizado no website da BDPALOP - https://bdpalop.com/.

BDPALOP dá oportunidade aos criadores de banda desenhada de desenvolverem as suas obras de forma sustentada, garantindo o acesso aos mercados internacionais.

A visão da iniciativa é transformar a BDPALOP num negócio comercial sustentável e em crescimento, colocando a marca como uma referência internacional na produção de banda desenhada em África, e garantindo que artistas e profissionais do meio tenham acesso a mais oportunidades.

A BDPALOP é um projeto implementado por quatro parceiros constituintes, o Estúdio Criativo Anima (Moçambique), a Bomcomix Estúdios (Angola), a JOVEMTUDO (Cabo Verde) e A Seita (Portugal).

O projeto BDPALOP é apoiado pelo PROCULTURA, promoção do emprego e actividades geradoras de rendimento no setor cultural dos PALOP e Timor-Leste, ação do programa PALOP–TL e UE, financiado pela União Europeia, cofinanciado e gerido pelo Camões, I. In “Inforpress” – Cabo Verde



sexta-feira, 1 de março de 2024

Brasil – Avenida Paulista, um misto de circo, igreja e muita cafonalha

Pela televisão, no celular ou ao vivo, a atração permanece: o povo brasileiro gosta de circo, mesmo se os atores e o palhaço não estão fantasiados. Bom mesmo é o circo com trapézio e picadeiro, mas mesmo em cima de uma jamanta, fechando o trânsito num domingo pode atrair muita gente. E ir ao circo vestido de canarinho excede de longe toda beleza da cafonagem.

A palhaçada da mulher saltitante, do homem que chora, de outros que berram, todos indo e vindo em cima da palco restrito e elevado para saudar o público, como animais encurralados num quadrado de grades (seria premonição?), é melhor do que Morte e Vida Severina no Municipal. Não há mugidos, mas a longa e larga avenida parece um curral.

É mais do que ridículo, grotesco e insano ouvir a periquita Michele Bolsonaro, mas poderia até ser blasfêmia, falar na perseguição sofrida por ter um marido perseguido por exaltar e colocar Deus e acima de tudo! Tudo parece pacífico, mas - poucos crentes devem ter percebido - ali não se fala em mensagem cristã de amor mas no Deus potente e guerreiro do Velho Testamento bíblico, ao qual se deve entregar a política do país. Uma maneira discreta de se semear a perigosa ideia de uma teocracia evangélica.

Nessa altura, o circo já se transformou também em show e igreja, no estilo importado norte-americano, sem procissão mas com oração. Tudo parece irreal, nada do que Michele falou se refere às reais necessidades do povo, são apenas palavras, invocações e glórias, como se o povo sofrido só precisasse mesmo de céu...

A apoteose veio com o pastor Malafaia, cujos gritos a ponto de provocar-lhe uma rouquidão, se confundiam com acessos histéricos de santo ódio, no seu desafio ao poder temporal constitucional e judicial. Seriam assim os gritos de Antônio Conselheiro levando à destruição o crédulo povo em Canudos?

Qual o papel do grito num discurso ou numa pregação? Intimida o ouvinte e provoca o acordo e a adesão? Desejoso de ser preso, imaginando assim se tornar um símbolo e líder, Malafaia lança o desafio a Moraes e ao STF para que venham prendê-lo. Machão ou farsante? Com essa linguagem de ódio, seria um mensageiro de Deus ou do Capeta? Ou de um profeta enfurecido? Seria uma versão soft do Rasputin?

O tom baixa com Bolsonaro fazendo uma confissão golpista e decidido a propor o entendimento e a pacificação, até com Moraes! e mesmo uma anistia geral... Para quem? Para os condenados às duras penas por envolvimento no quebra-quebra de prédios dos Três Poderes. Mas principalmente e por tabela, essa anistia seria para ele mesmo, diante do risco crescente e próximo de prisão.

Terminado o show, vê-se que a força da extrema-direita bolsonarista não acabou, talvez nem tenha diminuído. As últimas declarações de Lula sobre Gaza foram muito exploradas por seus inimigos e parecem ter revitalizado os evangélicos. E custado até uma fatia no eleitorado de Lula.

Durante a queda do comunismo na URSS, alguns líderes procuraram amenizar o discurso anticlerical, porém o resultado foi um fortalecimento da igreja ortodoxa russa dentro de um quadro semelhante ao brasileiro - devoção religiosa com nacionalismo.

Quantos canarinhos encheram algumas quadras da avenida Paulista? Muitos. De acordo com um método e tecnologia usados pela Universidade de São Paulo, implicando uso de drones, fotos dos quarteirões e um software para contar cabeças, havia 185 mil pessoas. A metodologia usada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, dirigida pelo bolsonarista Guilherme Derrit, o temido ex-comandante do Pelotão da Rota, aponta um resultado exagerado de 750 mil.

Depois de terminada a manifestação, menor do que a esperada pelos bolsonaristas (eles esperavam mais de milhão), apareceu numa rede social anti-bolsonaro uma perigosa hipótese para 2026: Silas Malafaia e Michele Bolsonaro para presidente e vice, com a missão de anistiarem o ex-presidente Bolsonaro e trazerem o Reino de Deus e a teocracia para o Brasil. Com o apoio de Donald Trump, que, nessa altura, já seria de novo presidente.

Depois do circo, show de igreja, oração, gritaria, canarinhos e cafonalha, seria a hora para se sentar e ver a versão apocalíptica de um filme de terror! Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

Macau - Rota das Letras regressa para celebrar Camões, Li Bai e o 25 de Abril

Começa já no dia 8 de Março a 13.ª edição do Festival Literário Rota das Letras. Este é um regresso do evento à Primavera, depois de três anos em que se realizou no Outono. Nesta edição, o Rota das Letras assinala os 500 anos de Luís de Camões, celebra a obra poética de Li Bai e destaca o 50.º aniversário do 25 de Abril, por exemplo. Entre os convidados, estão o chinês Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun de Literatura, e o norte-americano Chang-rae Lee, finalista do Pulitzer, entre outros


Depois de três edições no Outono, o Festival Literário Rota das Letras está de volta à Primavera. Começa já daqui a uma semana, dia 8 de Março, e prolonga-se até dia 17. Entre as várias sessões que se vão realizar na Casa Garden, o evento vai celebrar Camões, Li Bai e o 25 de Abril, por exemplo.

Este regresso à Primavera é explicado por Ricardo Pinto, director do Rota das Letras, pelo facto de esta ser “uma época do ano com menor sobrecarga de eventos”. “Daí que, à primeira oportunidade, e depois de várias edições realizadas nos meses de Outubro e Novembro, por força da pandemia, tenhamos decidido fazê-lo regressar à sua data original”, explica, citado no comunicado enviado ontem às redacções.

Camões e Li Bai em foco

Os 500 anos do nascimento de Luís de Camões serão assinalados na Casa Garden com a presença de Kenneth David Jackson, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos da América, e autor de vários estudos sobre o poeta português. Além disso, também o ilustrador brasileiro Fido Nesti irá evocar Camões numa adaptação de “Os Lusíadas” para crianças.

Li Bai será também lembrado no Rota das Letras através de uma exposição de fotografia de Xu Peiwu, artista chinês que, ao longo da última década, percorreu os mesmos caminhos por onde andou o poeta há mais de mil anos. João Miguel Barros, curador da exposição, descreve as imagens como sendo “de uma enorme beleza e densidade, que nos permitem contemplar uma China despida e cativante”. Li Bai será também o protagonista da sessão inaugural do Festival Literário, com Carlos Morais José, responsável da editora Livros do Meio, a apresentar o livro “Li Bai – A Vida do Imortal”, de António Izidro.

No primeiro fim-de-semana do festival, de 8 a 10 de Março, vão ser apresentadas várias obras: San San, jovem escritora chinesa premiada, dará a conhecer “Primavera Tardia”, uma antologia de contos que esteve entre os candidatos ao Prémio literário de 2023 da rede social Douban; James Zimmerman, advogado norte-americano que reside em Pequim há mais de 25 anos, vai apresentar “The Peking Express”, um trabalho de investigação que conta com a história do Grande Assalto Ferroviário de 1923, considerado o maior da história da China e um factor determinante da evolução da guerra civil chinesa; e Ian Gill irá falar de “Searching for Billie”, em que o escritor neo-zelandês fruto da relação entre dois prisioneiros de guerra em Hong Kong tenta compreender o passado da sua mãe, o que o leva a descobrir uma China desaparecida. Ma Ka Fai, escritor e cineasta de Hong Kong, virá a Macau falar sobre “Once Upon a Time in Hong Kong”, o seu romance de estreia.

Celebrar os 50 anos do 25 de Abril

Este ano comemoram-se os 50 anos do 25 de Abril e o Rota das Letras vai aproveitar a efeméride para apresentar em Macau a obra de João Céu e Silva “O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses Antes dos Capitães”, a história de como o General António Spínola fez cair o regime. Ainda no âmbito da revolução de 1974, será inaugurada na Livraria Portuguesa uma exposição sobre os 50 anos de carreira de António Mil-Homens.

O segundo fim-de-semana do festival vai começar com a gastronomia de Macau. Na sexta-feira, 15 de Março, Graça Pacheco Jorge e Annabel Jackson irão acompanhar Barrie Sherwood, da Universidade de Singapura, numa reflexão sobre o momento presente da gastronomia macaense e as questões de identidade cultural que lhe estão associadas. Sherwood apresentará também o livro “The Macanese Pro-Wrestler’s Cookbook”.

Dong Xi e Chang-rae Lee marcam presença

O dia seguinte será dominado pela escrita no feminino, que reunirá autoras de Macau, Hong Kong e da China Continental. Nesse sábado estará presente também Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun e do Prémio Lu Xun, que irá partilhar a sua experiência literária com vários autores de Macau. Yao Jingming, subdirector do festival, descreve Dong Xi como “um dos escritores mais representativos da actualidade”, sendo “reconhecido pela sua invulgar capacidade de contar estórias numa linguagem narrativa própria”.

No mesmo dia, Chang-rae Lee, escritor norte-americano de origem coreana e professor de escrita criativa na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, apresentará o seu mais recente romance, intitulado “My Year Abroad”, cuja acção decorre parcialmente em Macau. A escrita de Chang-rae Lee, que recebeu o Prémio da Fundação Hemingway pelo seu romance “Native Speaker”, explora temas como a imigração, a assimilação, a história da Coreia, a experiência dos americanos com raízes asiáticas numa América distópica.

Ainda no sábado, o programa encerra com o concerto de Marta Pereira da Costa, intérprete de guitarra portuguesa, que será acompanhada em palco por João José Pita. Outras performances serão promovidas numa colaboração entre o Rota das Letras e a livraria independente de Hong Kong Bookand.

Espaço às artes visuais

Domingo, dia 17 de Março, será o último dia do festival e, como vem sendo tradição, será dedicado à apresentação de obras do domínio das artes visuais e, em particular, à fotografia. João Miguel Barros e a associação de fotografia Halftone irão dar a conhecer as suas últimas realizações. A associação irá também apresentar no festival a mais recente edição da sua revista.

Duarte Drumond Braga vem a Macau apresentar o seu estudo sobre a “China e Macau”, de Camilo Pessanha, recentemente lançado em Portugal. Além disso, Peter Rose, advogado norte-americano, fará aqui o lançamento do seu primeiro romance, “The Good War of Consul Reeves”, que tem como pano de fundo o período da Guerra do Pacífico em Macau e a acção do diplomata britânico que soube tirar partido da neutralidade portuguesa para sobreviver à constante ameaça do inimigo japonês. A publicação desta obra é uma iniciativa da editora de Hong Kong Blacksmith Books. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


“Não há Macau sem Camões, nem há Camões sem Macau”

Após o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, que se realizou no fim-de-semana passado, Felipe de Saavedra, coordenador da Rede Camões na Ásia & África, que organizou o evento, apontou as ligações do poeta à região, afirmando que “Macau está medularmente presente na obra e na vida de Luís de Camões”. Ao Ponto Final, propôs que o poeta seja considerado como um “símbolo e marca registada de Macau”, de forma a estar mais presente no território, e, além disso, sugeriu o estabelecimento de um centro interpretativo e a geminação entre a Gruta de Camões em Macau e a Casa de Camões em Moçambique


“Não há Macau sem Camões, nem há Camões sem Macau”, afirmou Felipe de Saavedra, coordenador da Rede Camões na Ásia & África, que organizou o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões em Macau, no fim do evento que decorreu no fim-de-semana passado.

Fazendo um balanço da iniciativa, lembrou, em declarações ao Ponto Final, que “Macau está medularmente presente na obra e na vida de Luís de Camões”. O poeta chegou ao território em 1563, “o período mais fecundo do seu labor criativo”. “Foi este pequeno porto luso-chinês que lhe proporcionou a serenidade e o necessário distanciamento das situações procelosas que antes vivera, como as das expedições ao Mar Vermelho no início do seu périplo asiático, ou a da Guerra Luso-Ternatesa na qual ia perdendo a vida, e que estalou precisamente quando Camões foi enviado, possivelmente como punição, para as ilhas indonésias de Maluku, em 1556”, assinalou.

“Aqui em Macau ele veio encontrar não a guerra, mas o amor da bela Dinamene, não a efervescência e as intrigas da corte vicerreinal de Goa, mas um emprego bem remunerado: a provedoria dos defuntos e ausentes”, completou, chamando a atenção para o facto de o poeta ter escrito parte de “Os Lusíadas” na região, bem como sonetos e outras peças literárias.

Sugerida projecção de Camões em Macau

Então, que ideias saíram deste congresso? Saavedra assinalou inicialmente que foi sugerido o estabelecimento de um roteiro de turismo cultural com base numa Rede de Localidades Camonianas a constituir, com pontos principais em Macau, Goa, Ternate e a Ilha de Moçambique.

Por outro lado, apelou-se a que Luís de Camões se transforme num símbolo e numa “marca registada” de Macau, de forma a estar mais visível no espaço público e no turismo e marketing da região. Deste congresso sai também a ideia da geminação entre a Gruta de Camões em Macau e a Casa de Camões em Moçambique. Além disso, foi proposta também a criação de um centro interpretativo sobre Luís de Camões em Macau.

Estabeleceram-se ainda “parcerias muito importantes”, nomeadamente quanto à realização dos próximos congressos em Moçambique e em Goa, que se seguirão aos já realizados em Ternate e em Macau. O evento sugeriu também aos detentores dos direitos a reedição das obras de Luís Gonzaga Gomes e de Graciete Batalha sobre Camões em Macau.

Por fim, Felipe de Saavedra diz que o congresso suscitará a compra de edições antigas das obras de Camões, “algo que a Universidade de Macau, um dos nossos parceiros no Congresso, já iniciou por nossa sugestão, tendo em vista a constituição de uma biblioteca de estudos camonianos na cidade”. Recorde-se que a Universidade de Macau anunciou recentemente a aquisição de uma edição de 1613 de “Os Lusíadas” – esta será a edição mais antiga que existe em Macau. Além disso, a obra conta com comentários e é a primeira a contar com uma biografia de Luís de Camões.

Camões em análise profunda

Aquele que é considerado pela organização como o primeiro congresso mundial sobre os 500 anos de Camões juntou no território 17 congressistas de oito países.

Felipe de Saavedra lembrou que Rafael Custódio Marques, cônsul-geral de Moçambique em Macau, abriu os trabalhos, “destacando que falar de Luís de Camões é, hoje, falar simultaneamente de vários povos, do moçambicano tanto quanto do chinês”. “O universalismo do poeta abarca o imenso espaço geográfico e cultural do Índico e do Oriente”.

Por outro lado, o comandante Rui Pereira, nascido e criado em Moçambique, salientou “o potencial turístico que a ilha tem, com a sua riquíssima herança arquitectónica, hoje património mundial, na qual se destaca a Casa de Camões e a estátua do poeta, que atraem inúmeros visitantes para aquele que foi o primeiro local de contacto dos portugueses com os povos do Índico, e também o lugar onde tem início a narração da viagem de Vasco da Gama em ‘Os Lusíadas'”.

Já Lourenço Rosário “desenhou um triângulo da memória que Camões simboliza, com os seus vértices na China (Macau), na Índia (Goa) e em África (Ilha de Moçambique), configurando o espaço marítimo do imaginário do império português do Oriente, hoje unindo e irmanando estes povos numa herança comum”.

Lurdes Rodrigues ocupou-se da presença de Camões na educação em Moçambique e Danny Susanto, da Universidade da Indonésia, falou sobre as ilhas do Maluku, ou ilhas das especiarias, onde Camões viveu no triénio 1556-58.

José Carlos Canoa centrou a sua apresentação nos trabalhos de Luís Gonzaga Gomes. O maestro Fábio Vianna Peres, que tem pesquisado as possibilidades que os cancioneiros musicais da época de Camões oferecem para a recuperação da componente musical das suas cantigas populares, ofereceu um exemplo dos resultados da sua investigação, finalizando com uma interpretação de uma cantiga de Camões a três vozes.

O tradutor Zhang Weimin, que há mais de 40 anos vem traduzindo a obra de Camões para língua chinesa, partilhou com o auditório alguns exemplos das dificuldades com que se enfrentou nesse labor, e anunciou os trabalhos de que se ocupa presentemente, nomeadamente a tradução das odes de Camões, que também estão em curso de tradução para inglês por Spencer Low, que historiou as versões inglesas da obra de Camões, e em especial das odes.

Felipe de Saavedra apresentou a edição das odes que tem em preparação, referindo a utilidade de paráfrases dos versos de Camões em prosa moderna para auxílio dos tradutores estrangeiros de uma obra “tão fecunda e estimulante como exigente em termos de talento e competências”, diz o próprio.

Telmo Verdelho apresentou ao Congresso alguns factos sobre a língua portuguesa usada por Camões, e sobre o impacto de Camões na língua portuguesa, enquanto Luiza Nóbrega, autora de estudos sobre a semântica em “Os Lusíadas”, salientou a importância do Oriente para o imaginário camoniano, e nomeadamente da personagem Baco.

Por fim, Seabra Pereira reportou-se à poética do desafogo em Camões. Loraine Alberto e Irene Silveira, ambas de Goa, referiram aspectos da tradução de “Os Lusíadas” para concanim pelo tradutor goês já falecido Olivinho Gomes, e o historiador Eduardo Ribeiro reafirmou as provas históricas da presença de Camões em Macau. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


Fundação Calouste Gulbenkian - Lançamento de Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos


Para marcar o lançamento do livro Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos, de David Eltis e David Richardson, editado pela Imprensa da Universidade de Lisboa, o presente evento conta com a presença do autor David Eltis e do Professor José da Silva Horta.


Portugal foi, a par de Espanha, um grande dominador do comércio transatlântico de escravos em África e nas Américas. Às potências ibéricas, juntaram-se holandeses, britânicos, franceses, dinamarqueses, suecos, brasileiros e norte-americanos, forças de mercado que determinavam quantos escravos africanos podiam ser amontoados e acorrentados no porão de um navio, rodeados de fezes e urina, para satisfazer a produção de açúcar, rum, tabaco, algodão, café e outros bens de luxo.

Para compreender a magnitude desumana da escravatura, os autores de Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos reuniram neste volume 189 mapas que ilustram mais de 30 000 viagens de navios negreiros rigorosamente documentadas. As setas dos mapas ligam pontos de partida e pontos de chegada e as tabelas que os acompanham traçam uma estimativa do número real de escravos transportados. Estima-se que, ao longo de 366 anos ininterruptos de escravatura, desde 1501 até 1867, tenham sido retirados de África 12,5 milhões de pessoas, numa das maiores migrações forçadas da história.

«Como este livro demonstra em pormenores impressionantes, os portos de embarque e desembarque eram às centenas. Num sentido importante, a história e o significado do comércio atlântico de escravos estão ligados à geografia, portanto, à mistura e colisão de povos, culturas e imperativos económicos, encontros impulsionados pela ganância, império, correntes oceânicas e desejo de converter os corpos dos seres humanos em culturas comerciais. O poder, até a beleza, dos mapas deste livro oculta o horror do comércio, mesmo quando elucidam as suas fontes, os seus destinos, o seu escopo: a implacável e surpreendente conquista de tempo e espaço na água e na terra.»

— do Posfácio de David W. Blight. Fundação Calouste Gulbenkian – Portugal 

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David Eltis – É professor emérito de História na Universidade de Emory, em Atlanta, Estados Unidos da América. As suas temáticas de investigação têm incidido sobre o mundo atlântico moderno, migrações e escravatura.

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José da Silva Horta – É professor Associado com Agregação em História de África na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa. É diretor e investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa. 




 

Alemanha - Berlim, será menos político com mais paetês e glamour

Terminou a 74.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, saem seus diretores por cinco anos Carlo Chatrian e Mariette Rissembee. O traço principal da Berlinale, como é também chamado o Festival, sempre foi de uma seriedade bem alemã e com preocupações políticas e sociais, na escolha dos filmes.

O cinema brasileiro sempre se beneficiou desse clima. Presenciei a conquista do Urso de Ouro, no 48.º Festival de Berlim com Central do Brasil de Walter Salles e me tornei assíduo, entrevistando, durante esses anos, realizadores e atores brasileiros e criticando seus filmes.

De certa forma, acompanhei a carreira de Carlo Chatrian, até domingo seu diretor artístico. Conheci Chatrian como diretor do Festival de Cinema de Locarno, onde sou assíduo há uns trinta anos. Por isso, fui dos muitos que se surpreenderam com a decisão da ministra alemã da Cultura, Claudia Roth, de provocar sua demissão.

O término desta Berlinale talvez tenha sido o mais político desde sua criação, com realizadores e atores premiados utilizando o momento de receber seu prêmio para fazer declarações sobre a situação em Gaza, provocando reações do próprio prefeito de Berlim, Kei Wegner, dizendo ter havido antissemitismo nas declarações.

O realizador norte-americano Ben Russell falou em genocídio e outros criticaram os bombardeios na Faixa de Gaza. Com isso, roubaram as luzes do Urso de Ouro conquistado pelo filme Dahomey, da franco-senegalesa Mati Diop.

Antes mesmo de toda confusão criada no sábado, na entrega de prémios da Berlinale, a ministra Claudia Roth já havia declarado que a nova fase da Berlinale deverá ter mais paetês e mais glamour no tapete vermelho. Em outras palavras, deverá ser menos político e mais “people”. Veremos se a nova diretora, a norte-americana Trícia Tuttle irá seguir nessa linha.

Curta-metragem ganhou Menção Especial


A curta-metragem brasileira Lapso, da realizadora mineira Carolina Cavalcanti, selecionado entre centenas para a mostra juvenil Geração, do 74.º Festival Internacional de Cinema de Berlim e competindo com outros 12 filmes, recebeu a Menção Especial do júri, às vésperas do encerramento do Festival.

A realizadora tem deficiência auditiva, assim como a atriz e seu filme se baseia também nessa experiência pessoal de surdez. Além do problema social da juventude que vive na periferia das cidades.

O filme conta a história de dois adolescentes da periferia de Belo Horizonte, cumprindo pena socioeducativa por terem praticado atos de vandalismo

Lapso tem como atores Beatriz Oliveira e Juan Queiroz

O júri explicou sua escolha num texto divulgado pelo Festival.

"Este filme é uma história de amor poderosa, mas única, de dois adolescentes. O que realmente brilha é a capacidade de inspirar o espectador a ter empatia por dois personagens que têm circunstâncias e desafios muito diferentes. Junto com eles, embarcamos numa jornada de aprendizagem que proporciona um vislumbre íntimo da vida de duas pessoas que o mundo não teve tempo de compreender. O filme é verdadeiramente uma celebração de como a coragem de compreender pode ser imensamente poderosa e superar barreiras". Rui Martins – Suíça

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Rui Martins – Direto da Suíça – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.