Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Timor-Leste - “Senhor da Chuva”, novo livro sobre a ligação de Ruy Cinatti ao país

“Senhor da Chuva” é o título de um novo livro ilustrado editado em Díli sobre a ligação do poeta e antropólogo português Ruy Cinatti a Timor-Leste, vincada com ‘pactos de sangue’ com duas famílias de chefes tradicionais


“Quando falava do Cinatti às pessoas, parecia estar a falar de uma lenda. Via a curiosidade que as pessoas tinham e daí esta ideia de um livro, que não pretende ser uma biografia, mas é sim uma exploração dessa rica ligação a Timor-Leste”, disse a autora Mara Bernardes de Sá à Lusa. “É mais um ponto de partida para descobrir Cinatti, um tributo. Um projeto que depois o artista Bosco Alves abraçou e que agora é publicado”, afirmou.

O livro de Mara Bernardes de Sá, em Timor-Leste desde 2015, está ‘pintado’ com telas desenhadas propositadamente para o projecto pelo pintor timorense Bosco Alves, atualmente um dos mais conceituados do país.

O primeiro exemplar foi entregue ao Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, aquando da visita a Timor-Leste e o lançamento oficial da obra decorreu no Centro Cultural Português.

A autora explicou à Lusa que a ligação a Cinatti é praticamente tão antiga quanto a ligação a Timor-Leste, já que na primeira viagem ao país recebeu o livro “Condição Humana em Ruy Cinatti” de Peter Stilwell. “Foi a minha ligação a Ruy Cinatti e a Timor-Leste, lia como se ouvisse o poeta e estava encantada com a ilha, quando viajava levava comigo recortes de poemas e fotografias de Ruy Cinatti que deixava em lugares que sentia terem significado”, explicou.

Depois, mais tarde, percebeu o vinco ainda mais forte do poeta e agrónomo português ao país, em virtude de dois pactos de sangue celebrados com Adelino Ximenes, então ‘liurai’ [chefe tradicional] de Loré, e Armando Barreto, ‘liurai’ de Ai-Assa.

Natural de Chaves, Mara Bernardes de Sá tem obras publicadas, incluindo na antologia de poesia “Mouth Ogres”, em várias edições de autor de alguns livros infantis e com textos em livros, como “Timor Ruguranga” e “Olhares que falam”.

Da nova obra e da exposição que a acompanha, fazem parte quatro telas pintadas especialmente para o livro por Bosco Alves, de 57 anos, artista que fez a primeira exposição, em Timor-Leste, em 2000, e já com obras em coleções privadas em vários países.

A par da apresentação do livro, está patente uma exposição de vários documentos relacionados com Ruy Cinatti, espólio do Arquivo Nacional de Timor-Leste, incluindo vários livros, na maioria em primeiras edições e fotografias da vida do poeta.

Natural de Londres, onde nasceu em 1915, Ruy Cinatti era agrónomo e poeta, dividindo-se entre as ciências humanísticas e as ciências naturais. Chegou a Timor-Leste, pela primeira vez, em julho de 1946, como secretário do então governador Oscar Ruas, e no ano seguinte, com o país a recuperar das marcas da invasão japonesa, percorreu o território, realizando um primeiro estudo.

O estudo sobre Timor englobou temas tão diversos como a botânica, a meteorologia, a etnologia e a arqueologia, tendo no pacto de sangue, alcançado uma ligação eterna aos rituais mais sagrados do país.

Cinatti, que nunca deixou de viver essa ligação de “irmão” timorense, é autor do que se pensa ser o primeiro plano de fomento agrário do país e deixou uma vasta obra ainda hoje referência essencial para estudiosos de Timor-Leste. Vencedor de vários prémios literários, incluindo o Prémio Nacional de Poesia, viveu uma forte ligação com Timor-Leste.

Em 2015, num evento alusivo ao centenário de Cinatti, na Escola Portuguesa de Díli, a que ‘emprestou’ o nome, os herdeiros dos dois ‘liurais timorenses’, Cornélio Ximenes (Mau-Nana), filho de Adelino Ximenes, e Saturnino Barreto, bisneto de Armando Barreto, recordaram os pactos de sangue. “Tinha 10 anos quando se fez o pacto de sangue. O pacto de sangue foi feito num lugar sagrado entre o meu pai e o Ruy Cinatti, de forma privada. Com esse pacto ficam como irmãos gémeos. Havia lá uma casa onde ele viveu e onde ainda há pinturas feitas por um velhote que ainda está vivo”, afirmou Cornélio Ximenes.

Mau Nana, como também é conhecido, disse que Cinatti pediu ao ‘liurai’, “que tinha nove mulheres”, para dar o seu nome a um filho e, por isso “hoje há por aí montes de Cinattis”.  Saturnino Barreto, por seu lado, lembrou ter sido feito, em Ai-Assa, além do pacto de sangue, uma “cerimónia de bandeira de segunda linha”, tendo sido distribuídas bandeiras de Portugal aos 18 chefes de ‘suco’ da região. “Sete dos chefes de ‘suco’ foram com o ‘liurai’ de Ai-Assa e com o saudoso Ruy Cinatti para Ai-Assa onde houve uma festa de um dia e uma noite. De manhã, os sete concentraram-se num lugar sagrado para testemunhar o pacto de sangue”, disse. “A informação que o meu pai me deu não explica o objetivo da cerimónia. O sítio onde foi feito o pacto de sangue é sagrado. E não é qualquer pessoa que lá pode ir”, disse.

O livro é editado pela Plural Editores, do grupo Porto Editora, e a iniciativa é apoiada pela Embaixada de Portugal em Díli, Escola Portuguesa de Díli, Fundação Oriente, Camões-Instituto da Cooperação e da Língua e Arquivo e Museu da Resistência.

O representante da Plural Editores disse à Lusa que “uma parte da missão da Plural é o apoio e incentivo à edição, criação e publicação de livros relacionados com Timor-Leste”. “Desde 2014 que se publicam livros sobre Timor-Leste, com um acervo interessante, de todo o tipo. Livros ligados à política, à economia, biografias de figuras relevantes no país e fotografia”, considerou Paulo Calhau, notando que há “outros projetos na calha”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”

Poemas de Ruy Cinatti publicados no blogue “Baía da Lusofonia”: 

Recordação

Rumo


quarta-feira, 1 de junho de 2022

Baía da Lusofonia – Uma década ao serviço do conhecimento, da cultura, das relações internacionais, da sociedade, do entretenimento em língua portuguesa

Passados dez anos o blogue “Baía da Lusofonia” continua a navegar por águas serenas procurando levar a bom porto notícias em língua portuguesa. Neste período, verificámos que os portos por onde acostámos foram muito mais do que no início era expectável. De algumas (poucas) centenas de visitas mensais no início da viagem, chegámos a 2022 com milhares de visitantes a procurarem informação em língua portuguesa todos os meses, com origem em praticamente todos os países do mundo. A média nestes 120 meses já é superior a 11000/mês.

Já afirmámos que são os dirigentes das antigas colónias portuguesas quem mais procuram dar uma identidade de língua de ciência, que falta nos faz Amílcar Cabral, mas infelizmente onde está o conhecimento, Portugal e Brasil, continuam a não estarem vocacionados para criar um sítio onde todos os trabalhos científicos, obrigatoriamente sejam publicados em língua portuguesa e não em língua inglesa sem a respectiva tradução e não ficarmos por meras sinopses com a ligação a artigos publicados na língua que não é a nossa. Como é possível organismos públicos portugueses publicarem artigos em língua inglesa sem a correspondente tradução em português?

O presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, João Ribeiro de Almeida, anotou no Dia Mundial da Língua Portuguesa, o lançamento da 61ª cátedra de português no mundo, a cátedra José Saramago, na Universidade do Paraná, no Brasil e salientou “tenho pugnado muito no Camões pela criação de cátedras a nível do ensino superior. Porque isso é que faz com que a língua portuguesa se diferencie como língua de conhecimento, de investigação, de inovação” e acrescentou “numa altura em que as comunicações científicas estão completamente dominadas pelo inglês”.

Podemos aqui afirmar que a língua portuguesa é universal, pois um blogue editado em Portugal tem apenas 4% de visitantes deste país, 2% do Brasil e 1% de Moçambique, os três países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) com maior número de leitores no “Baía da Lusofonia”, estando os restantes 93% em todos os lugares do globo.

Música

Em 2014 lançámos a rubrica “Vamos aprender português cantando” que já há alguns anos é publicada todos os domingos. Hoje, só nós é que sabemos, é um título com uma procura extraordinária. Com visitas a caírem dos mais diversos pontos do mundo, mal a música é editada, mostrando que os cantores em língua portuguesa têm um mercado do tamanho do Universo, não necessitando de procurarem uma outra língua para ganharem mercado internacional.

Colaboração

Agradecemos a todos os que colaboram com o blogue “Baía da Lusofonia” enviando artigos para publicação, estamos sempre abertos a todos os que pretendam cooperar, transmitindo conhecimento. Podemos dizer que temos um acervo de quase 9000 artigos que têm sido procurados por leitores que não pesquisam apenas as últimas publicações, mas que continuam a investigar o que por aqui foi editado desde o ano de 2012. Baía da Lusofonia   


Portugal - Investigadores da Universidade do Porto premiados por estudo na área da Energia do Mar

Novo conceito de fundações para eólicas offshore, desenvolvido por equipa do CIIMAR e da FEUP, já resultou na submissão de um pedido provisório de patente

Uma equipa de investigadores do grupo Marine Energy do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR-UP) e da Secção de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) acaba de ser distinguido com o Haclrow Prize, atribuído pela prestigiada Institution of Civil Engineers (Reino Unido), por um estudo inovador em fundações para estruturas eólicas em alto mar.

Com a ambição de desenvolver um tipo de fundação inovadora para as fundações de eólicas em zonas offshore (alto mar), o grupo de investigadores do CIIMAR e da FEUP, em colaboração com o Indian Institute of Technology Delhi, desenvolveu um sistema que utiliza cabos pré-tensionados para oferecer estabilidade adicional à estrutura, permitindo que seja utilizado até 50 metros de profundidade, numa solução de baixo custo.

A fundação do tipo monopilar que tipicamente é usada nas eólicas offshore apenas permite a sua colocação em zonas com profundidades até 30 metros. Até agora, a única possibilidade de aplicação destas eólicas a profundidades superiores passava pelo aumento do diâmetro das fundações, o que implicava valores que são financeiramente incomportáveis.

Segundo o investigador Tiago Ferradosa, coautor deste estudo, “nestas profundidades, a grande maioria dos conceitos de fundações fixas no fundo do mar ou de fundações flutuantes acabam por ter custos demasiado elevados.”

A solução apresentada pelos investigadores Tiago Ferradosa, Paulo Rosa Santos e Francisco Taveira Pinto no artigo “Bottom-supported tension leg towers with inclined tethers for offshore wind turbines”, publicado em dezembro de 2021, na revista “Maritime Engineering”, da ICE, passa por combinar um sistema de cabos pré-tensionados com a fundação monopilar standard, oferecendo assim estabilidade adicional à fundação da eólica offshore.

Dependendo da geometria e configuração usada, esta adaptação permite que os monopilares convencionais passem a poder ser utilizados até aos 50 m de profundidade, sempre que a profundidade de água não permita a aplicação do monopilar standard e onde as fundações do tipo flutuante não sejam economicamente competitivas.

Testes à escala real

Este tipo de fundação inovador, testado numericamente para diferentes condições de agitação marítima e diferentes configurações geométricas, encontra-se validado numericamente para os 50 metros de profundidade.

Os investigadores pretendem agora avançar para estudos de modelação física que permitam perceber melhor qual a viabilidade da solução à escala real. A equipa vai ainda estudar outros aspetos importantes para o dimensionamento, como é o caso da erosão no sopé da estrutura ou do colapso por fadiga, entre outros fenómenos relevantes que podem determinar a sua utilização caso a caso.

Neste momento já se iniciaram esforços para que o conceito seja testado em modelo físico com diferentes escalas no Laboratório de Hidráulica da FEUP. Mas o impacto no futuro é muito promissor pelo que, este ano, o grupo de trabalho já fez o pedido provisório de patente relativo a este conceito.

“No caminho certo para fazer mais e melhor”

Instituído em 1960, em homenagem a Sir William Halcrow (1883-1958), presidente da Institution of Civil Engineers entre 1946 e 1947, o Halcrow Prize distingue anualmente os melhores artigos publicados nas revistas da ICE  nos domínios das Docas e Portos ou outras obras marinhas, Túneis, e Energia hidroeléctrica ou energia de outras fontes naturais renováveis.

O galardão vem por isso reforçar a importância das linhas de investigação que o Marine Energy Group do CIIMAR tem vindo a desenvolver, nomeadamente, no que respeita à promoção e desenvolvimento das energias renováveis marinhas.

“Além de ser sempre um motivo de alegria e motivação para o grupo, é também um prémio atribuído pelo ICE que é uma instituição de renome em diversos domínios da Engenharia Civil. Estamos muito satisfeitos e convictos que estamos no caminho certo para fazer mais e melhor”, congratula-se Tiago Ferradosa.

Sobre a Institution of Civil Engineers

Fundada em 1818, a Institution of Civil Engineers (ICE) é uma associação profissional independente de engenheiros civis, sediada em Londres.

Com mais de 92000 membros espalhados por cerca de 150 países, a ICE tem como missão apoiar a profissão de engenheiro civil, oferecendo qualificação profissional, promovendo a educação, mantendo a ética profissional, e estabelecendo ligações com a indústria, academia e governo. Eunice Sousa e Mafalda Leite – Portugal in “Universidade do Porto”


Adriano Moreira: um jovem centenário


O Restelo, em Lisboa, mantém viva a historicidade portuguesa, ao acolher a figura gigantesca de Adriano Moreira em sua invejável senectude centenária, a distribuir conhecimentos aos seus circundantes e amigos, que têm o privilégio e a honra cívica de merecer suas atenções.

Em 6 de setembro próximo estará a completar 100 anos de vida – um século!

Ao chegar de Brasília, fomos abraçá-lo em seu recanto de viver, em companhia do Presidente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa – Almirante António Carlos Rebelo Duarte.

A Capital Federal e a sua Academia de Letras de Brasília, várias vezes, o receberam com a fraternidade que une brasileiros e portugueses, verdadeira seiva que alimenta as raízes profundas e históricas de nossos processos civilizatórios.

Adriano Moreira é um integrador de pessoas e mundos.

A lucidez, aliada à extraordinária vastidão de seus conhecimentos, permite que este longevo transmontano, em seu recolhimento de vida, continue a espargir ensinamentos a todos aqueles que o circundam, a feitio de um oráculo grego.

A sua extraordinária capacidade de antevisão geopolítica, aliada a um invejável tirocínio mundial, especialmente neste período em que a ONU está a envelhecer, após a Segunda Guerra Mundial, enquanto que o Projeto da ilha de Ventotene, atualmente, tem o seu curso, estruturado nos ditames do Livro Branco, é algo fantasmagórico.

Um momento mágico para ouvir sabedoria!

Há alguns anos, proferiu-se comunicação na Academia de Ciências de Lisboa, à qual pertencemos, abrangendo temática indicada pelo culto Presidente Artur Anselmo, presente Adriano Moreira,  intitulada: “O futuro da União Europeia passará, também, pelo Brasil?”, que mais tarde redundou num livro de idêntica nominação.

A Europa atual é uma colcha de retalhos de 26 países, fruto lamentável das duas Guerras Mundiais, enfeixada numa só moeda e delimitada pelo Espaço Shengen, que eliminou fronteiras, a gerar distorções migratórias incontornáveis.

A Inglaterra, todavia, continuou com sua tradicional libra, a coparticipar da União Europeia, até aos limites do Brexit e a manter seu hermetismo grupal da Commonwealth, a reunir 53 países independentes do Império Britânico.

A velha Albion tem tradição.

Os processos migratórios no mundo sempre derivaram de tragédias e de movimentações populacionais para centros vivenciais, onde a cultura, o poder temporal e novas oportunidades fixaram grandezas de toda ordem.

A migração é uma realidade e seus processos civilizacionais, irreversíveis, pois apresenta parâmetros nos limites societários de suas fronteiras. Tem como marco gregário as respectivas órbitas da Segurança Nacional, sob a égide da ideação daquilo que os povos chamam de soberania.

A Europa, multifária, politicamente, racial e geneticamente multifacetada, vai sofrendo mutações com as migrações diversas, que o orbe movimenta com quase seus 8 bilhões de seres, à procura de melhores condições de vida.

É pura realidade geopolítica, independente dos avanços da inteligência artificial, que mantém descompassos geográficos, continentais.

Escreve-se, também, há anos, a demonstrar que a França, por exemplo, brevemente, será uma comunidade árabe. As migrações de seguidores de Alá, reproduzem-se geometricamente, enquanto que os franceses, procriam-se, aritmeticamente.

A nova geração ocidental dá mais valor aos cães do que a um filho!

O próprio Papa, lá de seus redutos vaticanos, do saudoso Latrão, promove o proselitismo migratório sob a égide da religiosidade midiática, evangelizadora. Verdadeira festa com o chapéu dos outros, consoante provérbio de antanho, quando os homens, usavam-no.

Aqueles que vão a Paris e a Veneza, deveriam visitar, também, Marseille, atualmente, verdadeiras realidades árabes, onde as burkas e os véus muçulmanos competem com as máscaras covidianas.

É uma simples constatação, nada mais!

Recentemente, o Fórum Econômico de Davos, que centraliza os poderosos do mundo, examinou a temática dos custos de recuperação econômica da Ucrânia, ainda em fase de aniquilamento nacional, como se as pessoas fossem meros objetos indesejáveis.

Os centros de poder deveriam examinar, tempestivamente, a questão da migração mundial com a importância devida, sob pena de uma hecatombe famélica.

A geopolítica da fome é uma realidade inevitável e deve ser tratada, permanentemente.

Há carência de estadistas. Há falta de líderes mundiais.

Pensa-se que o mundo está a precisar de mais Adrianos Moreiras com suas reflexões futuristas, visionárias, que somente aos sábios pertencem. José Gentili – Brasil in “Blog de São João del-Rei”

José Carlos Gentili, jornalista e escritor


 

Moçambique - Maria de Lurdes Mutola organiza légua para evocar centenário de José Craveirinha


Uma grande figura, uma homenagem à sua dimensão. No ano em que se assinala o centenário do nascimento do poeta José Craveirinha (passado dia 28 de Maio), Maria de Lurdes Mutola não ficou indiferente à efeméride.

Influenciada pelo primeiro moçambicano a vencer o Prémio Camões e que a desviou do futebol para o atletismo, modalidade em que viria a brilhar e tornar-se campeã olímpica, Lurdes Mutola não quis deixar passar este momento de evocação ao poeta-mor.

É neste sentido que, no próximo dia 16 de Julho, a Fundação Lurdes Mutola, da qual é patrona, vai organizar uma légua que terá como ponto de partida e chegada a Praça da Independência.

E porque José Craveirinha teve “olho de lince” ao descobri-la e lançá-la para o atletismo pela mão do filho Stélio Craveirinha, a campeã olímpica e mundial dos 800 metros faz mesmo questão de participar activamente nesta légua como uma das corredoras.

A apresentação deste evento, que se espera que seja de grande dimensão, está prevista para esta quinta-feira, 2 de Junho, na capital do país.

Mutola, de resto, não deixou de recordar o papel fundamental que José Craveirinha teve para a sua afirmação ao nível mundial. Falando na I Conferência Internacional Centenário José Craveirinha, evento promovido pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Lurdes Mutola, visivelmente emocionada, recordou: “Craveirinha não foi só poeta, mas alguém que serviu de pai e tutor e que, sem o qual eu não teria todo este sucesso”.

Craveirinha identificou, desde logo, no bairro do Chamanculo, talento na menina de ouro. Fez, por isso, as démarches para que deixasse o atletismo e abraçasse o futebol. Mutola acenou positivamente, mas quis desistir devido às exigências da modalidade. Todavia, Craveirinha insistiu-a e teve um grande papel na ascensão da única atleta moçambicana a conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos.

“Quando o vi, não acreditei e, a partir daquele momento, mudei de mentalidade. Fomos à minha casa para falar com o meu pai e explicar o que pretendia, assim, foi-lhe dada a liberdade de ser meu tutor. Comecei a entender que, afinal de contas, parece que tenho um pouco de talento e dediquei-me até chegar ao topo”, recordou Lurdes Mutola.

De resto, como Renato Caldeira, o decano do jornalismo desportivo moçambicano, retratou em palavras ao “O País”, Stélio Craveirinha sentenciou: “Esta menina que me trouxeste é ouro, pai! Logo nos primeiros treinos, obteve marcas que não estão ao alcance de qualquer uma!”, lê-se no artigo publicado a 12 de Outubro de 2020.

Caldeira, que acompanhou a carreira de Lurdes Mutola, refere que foi a partir desta constatação feita por Stélio, então treinador do Desportivo, que surgiu, por parte do pai, a insistência para que Mutola optasse e apostasse no atletismo. A partir daí, ela participou em maratonas locais, colocando-se, muitas vezes, à frente de atletas masculinos. Depois ganhou algumas provas na nossa Zona.

Sempre com Stélio a orientar, foi à Olimpíada de Seul, em 1988, ainda sem grande notoriedade. Seguiu-se o desafio norte-americano, a partir do qual Lurdes venceu marcas e medos.

Stélio, com a paixão de sempre, abraçou outros projectos, na primeira linha dos quais surgiu uma outra estrela: Argentina da Glória. No Mundial de Estugarda, Alemanha, 1993, não fosse um tropeção desta e tê-la-íamos no pódio, para além do ouro de Mutola, uma outra medalha para o nosso país, tal era a forma e o momento da nova coqueluche nacional. In “O País” - Moçambique


 

Portugal - Telejornais: Saudades do jornalismo e de noticiários informativos

O problema da forma como nas televisões é noticiada a atual guerra não reside, contudo, e apenas, na indisfarçável simpatia dos comunicadores pelas posições de uma das partes – isso, dadas as circunstâncias, até pode ser compreensível –, o problema consiste em várias outras ordens de razões de cariz mais profissional

Durante muitos anos, desde adolescente, que me habituei, mal me levantava, a ligar a rádio para ouvir as notícias.

Até à noite, à hora de jantar, nunca ligava a televisão.

Essa era a hora especial em que via os telejornais.

Primeiro, apenas um, ou dois; depois, vários e até de vários países.

Os telejornais sempre foram maiores que os jornais da rádio e, de certo modo, associavam às notícias funções de entretenimento que aqueles não proporcionavam.

Cumprindo missões diferentes, nenhum noticiário me dava, contudo, mais gozo do que o da rádio, de manhã.

Os telejornais tinham outra vantagem: serviam mais para a discussão e comentário, em família, do que se passava no país e no mundo, pois decorriam à hora de jantar, quando todos estávamos reunidos.

Por tal razão, cumpriam a função de me permitir perscrutar a opinião dos meus filhos e a de os ir procurando educar moral, cívica e politicamente.

Em certas ocasiões, eles suscitavam discussões acesas em que nós - eu, a minha mulher e os nossos filhos e, porventura algum visitante mais chegado - procurávamos com alguma veemência, e mesmo com algum ruído, impor os nossos pontos de vista.

Também isso fazia parte da praxe do jantar, mesmo que alguns convidados menos habituais se espantassem com a liberdade dos discursos e, até, com os decibéis que neles empregávamos.

Tudo isso foi possível enquanto – mesmo que sempre orientados – os telejornais não se tornaram, como agora, puras, obsessivas e enfadonhas máquinas de propaganda: da pandemia, da guerra, dos escândalos de cada momento.

Com a guerra recente, os telejornais – quase todos, salvando-se, ainda assim, o do segundo canal - ultrapassaram, de vez, o limite do tolerável.

Sempre e em todas as circunstâncias – não é de agora - pivots, jornalistas, repórteres e comentadores deixaram, inevitavelmente, antever as suas simpatias.

Hoje, contudo, o que se passa é diferente de tudo o que tínhamos assistido.

Minto, de tudo não; em pequeno, lembro-me, havia, já não sei em que estação da rádio, um programa em tudo semelhante, mas esse, ao menos, não escondia ao que vinha: chamava-se «Rádio Moscovo não fala verdade».

O problema da forma como, nas televisões, é noticiada a atual guerra não reside, contudo, e apenas, na indisfarçável simpatia dos comunicadores pelas posições de uma das partes – isso, dadas as circunstâncias, até pode ser compreensível – o problema consiste em várias outras ordens de razões de cariz mais profissional.

De um lado, a pequeníssima fiabilidade e racionalidade das notícias resultantes das permanentes contradições dos números de vítimas apontadas a um e ao outro lado.

Quem não ouviu já, por exemplo, que, depois de um qualquer bombardeamento esmagador, resultou apenas uma vítima de idade, numa escola de crianças.

De outro, o esmagamento sucessivo com pequenas – mesmo que impressionantes e revoltantes – estórias pessoais, que nos são transmitidas sem qualquer tratamento jornalístico sério e sem, aparentemente, alguma tentativa de comprovação ou contraditório.

Por fim, o tempo desmesurado que esse somatório de repetitivos episódios – uns mais interessantes, outros, obviamente, apenas coadjuvantes da narrativa dominante – gasta aos telejornais, que, assim, quase deixaram de dar relevo às notícias nacionais ou de outros lados.

O nosso mundo parece assim, inevitavelmente, como um quase paraíso, mesmo que, num e noutro lugar ainda menos evidente, comecem já a cheirar mal as maçãs podres que para lá vão sendo lançadas, sem que delas tenhamos conhecimento suficiente.

Sinceramente, e relativamente ao período antes da guerra, gostava de saber quais a medições de audiência que tais telejornais têm: se têm diminuído ou aumentado.

No que me diz respeito, por mais impressionado que possa ficar – e fico - com o horror desta guerra, injustificável em todas as suas reais circunstâncias e, mais ainda, em torno do pobre e mediático argumentário de «bons e maus» com que a vão explicando, passei a saltar por cima dos telejornais.

Falta-lhes uma elucidação esforçada para o que acontece e por que acontece, e uma informação sintética, realista e objetiva sobre a evolução do teatro de guerra.

Procuro, ainda assim, no canal dois, obter alguma informação - sempre mais rápida e, por isso, mais assética – para, depois, poder ver alguma das séries que aí passam e que, por norma, espevitam a inteligência do espetador.

Na verdade, ninguém gosta de ser tratado como estúpido, mesmo que alguns se prestem demasiado a isso.

Não deixo, porém, de ter pena de - primeiro por causa da pandemia, agora por causa do tédio que a guerra, tal como relatada, acaba por provocar-me ir desinteressando de tantas coisas que sempre me motivaram.

Talvez seja esse, afinal, o objetivo.

Ou, se calhar, o problema é meu: é mesmo da idade e do conhecimento mais penetrante que ela nos dá das coisas. António Cluny – Portugal in Jornal I Digital

 

António Cluny - Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Representante de Portugal na Eurojust - Unidade Europeia de Cooperação Judiciária- e na MEDEL - Associação de Magistrados Europeus pela Democracia e Liberdade.

Nomeado, por diversas vezes, Procurador da República em diferentes círculos judiciais.

Procurador-Geral Adjunto, colocado em substituição do Procurador-Geral da República nos Tribunais Supremos e no Tribunal de Contas em 22/6/98.

Perito do GRECO (Grupo de Estados Contra a Corrupção – comité especializado do Conselho da Europa), tendo participado nas equipas que avaliaram os sistemas públicos e de justiça do Mónaco e do Luxemburgo na perspetiva da luta contra a corrupção.

Em representação da Federação Internacional do Direitos Humanos (FIDH ) dirigiu no local uma missão na Amazónia (Belém do Pará) para investigar a morte de uma freira católica Norte-americana, cujo relatório apresentou em Genebra na Reunião Anual do Comité das Nações Unidas para defesa dos Direitos Humanos.

Participante em Washington e S. Francisco em conferências e iniciativas cívicas de luta contra Pena de Morte a convite da International Commission Against the Death Penalty e da Death Penalty Focus, tendo intervindo no Clube de Imprensa daquela primeira cidade.

Alguns livros e artigos:

Pensar o Ministério Público Hoje – Ed. Cosmos, Outubro de 1997.

Responsabilidade Financeira e Tribunal de Contas, Coimbra Editora, Dezembro de 2001.

O Ministério Público, o Estado de Direito Social e a Nova Criminalidade Organizada que reproduz uma intervenção num colóquio realizado em Bruxelas em 12, 13 Dezembro de 1997, pela MEDEL e a União Europeia subordinado ao tema «La Justice entravée – corruption et criminalité économique internationale» – RMP, n.º 72, 1997.

O Ministério Público e o princípio constitucional da igualdade – Caderno n.º 10 da RMP – Ed. Cosmos, Lisboa 2000.

Reflexões e Dúvidas no 25.º Aniversário do Estatuto do Ministério Público – RMP, n.º 95, 2003.

Démocratie et rôle de l’associationnisme judiciaire au Portugal – incluído na obra : La formation des magistrats en Europe et le role des syndicats et des associations profissionelles / Quelle formation, pour quelle Justice, dans quelle société - CEDAM, Padova, 1992.

Criminalidade em Tempo de Crise – O Cidadão (1995) III, 9-10: 23-28.


Internacional - Estudo conclui que a ação humana afeta severamente rios e ribeiros à escala global


Ações como a regularização das linhas de água, urbanização, agricultura ou descarga de águas residuais estão a afetar severamente os rios e ribeiros à escala global, conclui um estudo internacional no qual participou a Universidade de Coimbra (UC).

Neste estudo, publicado na revista científica Global Change Biology, pela primeira vez, os efeitos de diferentes impactos humanos em várias funções dos rios e ribeiros (como capacidade de autodepuração, decomposição de matéria vegetal, produção de organismos aquáticos) à escala global com base em evidência científica publicada, visando compreender quais os impactos com efeitos mais fortes e quais as funções ecossistémicas mais sensíveis.

Coordenado por Mario Brauns, do Department of River Ecology do Helmholtz Centre for Environmental Research-UFZ, na Alemanha, o projeto reuniu 10 investigadores peritos nas várias funções ecossistémicas consideradas, entre eles Verónica Ferreira, do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Segundo a investigadora da FCTUC, a maior parte dos impactos humanos avaliados «tiveram efeitos negativos no funcionamento dos rios e ribeiros, como a redução na sua capacidade de autodepuração (na sua capacidade de consumir nutrientes), cadeias alimentares simplificadas e menos produtivas», salientando que a redução na capacidade de autodepuração de rios e ribeiros «é especialmente preocupante, já que altas concentrações de nutrientes na água são muitas vezes responsáveis por “blooms” de algas nocivos».

No entanto, esclarece «é importante considerar o contexto regional dos rios e ribeiros, pois há cenários onde os impactos humanos podem ser especialmente gravosos, por exemplo, os efeitos de efluentes de estações de tratamento de águas residuais na produção primária são mais fortes a latitudes mais baixas do que a latitudes mais elevadas (considerando o intervalo 35ºN – 53ºN). Também é necessário considerar várias funções ecossistémicas na avaliação do funcionamento de rios e ribeiros, já que um dado impacto humano pode ter efeitos em algumas funções, mas não em outras».


Os resultados do estudo mostram que os impactos humanos «afetam o funcionamento de rios e ribeiros tanto quanto afetam a biodiversidade. No entanto, a gestão destes ecossistemas não leva isso em conta, uma vez que a biomonitorização das linhas de água está centrada na avaliação de aspetos relacionados com a biodiversidade. É necessário incorporar a avaliação de funções ecossistémicas nos programas de biomonitorização para termos uma avaliação integrada da condição ecológica do ecossistema», frisa Verónica Ferreira.

Nesta meta-análise, a equipa avaliou a literatura que investiga os efeitos de stressores humanos nas funções ecológicas de rios e ribeiros, compilando o conhecimento atual da investigação sobre esta temática a nível global. «No total, foram encontrados 125 estudos, o que não é muito, dada a escala global, e mostra quão pouca investigação foi feita até agora nesta área», observa o coordenador do estudo.

Os ribeiros e rios são a força vital do nosso planeta, «“hotspots” de biodiversidade e essenciais para a vida humana: fornecem água potável, oferecem proteção contra enchentes e são usados para irrigar áreas agrícolas. Mas as atividades humanas estão a causar fortes impactos nos ecossistemas de água doce e nas suas funções ecológicas através de ações como a regularização das linhas de água, agricultura ou descarga de águas residuais, o que leva a uma variedade de efeitos ecológicos adversos», afirmam os autores do estudo.

A avaliação dos dados revelou que a eficiência com que os ribeiros retêm nitratos é quase cinco vezes menor para ribeiros que drenam bacias agrícolas do que para ribeiros em bacias com baixa atividade agrícola, o que, segundo os autores do estudo, é «surpreendente».

Outro resultado importante do estudo prende-se com a análise comparativa dos diferentes fatores de stress, ou seja, os fatores que têm o maior impacto em todas as funções ecológicas. «As águas residuais ocupam o primeiro lugar e são seguidas pela agricultura e urbanização, indicando que são áreas onde se deve tomar medidas urgentes», consideram os cientistas.

A participação da investigadora da FCTUC neste estudo foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito do projeto SYSTAQUA – SYSTematic reviews in AQUAtic sciences: synthetizing research to produce general conclusions, analyze the causes of variation in research results and provide evidence-based management support (Revisões sistemáticas em ciências aquáticas: sintetizando o conhecimento científico para produzir conclusões gerais, analisar as causas da variação nos resultados da investigação e fornecer suporte para uma gestão baseada em evidências científicas). Universidade de Coimbra - Portugal