Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 2 de dezembro de 2023

Sérgio Vieira de Mello é figura que inspira a atuar em novas crises

Vinte anos após a morte de Sérgio Vieira de Mello, a família aposta em manter viva a sua memória alargando os meios, as abordagens e ressaltando como a sua atuação pode adaptar-se aos novos tempos.

O sobrinho e afilhado André Simões faz parte da Fundação Sérgio Vieira de Mello e revela facetas do funcionário de carreira da ONU que ainda inspiram. Ele perdeu a vida na explosão no complexo da ONU com um grupo de colegas em Bagdad, no Iraque.


Legado do Sérgio ficou através de filmes e livros

Em entrevista ao Podcast ONU News, em Nova Iorque, André Simões destacou que Sérgio não atuou nem morreu sozinho. Ele ressalta que toda a preservação de sua memória deve recordar os feitos sem perder o sentido coletivo.

“É muito importante lembrar dos 22 colegas, entre eles o Sérgio. Não foi só o Sérgio, foi uma equipa da ONU, a família de vocês. O legado do Sérgio ficou através de filmes e de livros. Você pode aprender assistindo os filmes, lendo os livros e tendo ideias como a que eu tive na pandemia. Eu estava a fazer o projeto “Sem Fome”. Começou na pandemia, no Rio de Janeiro, no centro da cidade, onde estava deserto. Tudo estava fechado e os moradores de rua estavam lá sem ter o que comer, porque os restaurantes estavam fechados e ninguém tinha comida para dar.”

Para André, novos meios surgem e os acontecimentos que marcam os últimos anos não deixam de inspirar a dar ajuda como defendia o Sérgio.

Parentes e amigos ainda atuam descobrindo, financiando e facilitando a preservação do legado do destacado funcionário humanitário brasileiro.

Projeto 'Sem Fome'

“Eu identifiquei aquilo como um campo de refugiados. Eu cresci vendo o Sérgio nos campos de refugiados pelo mundo. Então, eu falei ‘bom é a chance de fazer alguma coisa’ e passar à minha filha o que ele ensinou. Começámos o projeto “Sem Fome” distribuindo 200 refeições e 200 águas, todos os dias, pelas ruas do centro do Rio. Era muito interessante que as filas eram grandes, com 70 ou 80 pessoas, e numa praça. De repente, uma pessoa chegava e olhava para você falava assim: ‘só quero água’. E aí você olhava ‘guarda para de noite, porque você vai ter fome.”

André Simões disse que segue incentivando o apoio às necessidades dos mais carentes, arrecadando alimentos e oferecendo assistência em crises ou situações extraordinárias, como as humanitárias.

Ele defende, no entanto, que um mundo confrontado com crises deve atuar em conjunto e retribuir o papel dos que levam auxílio a comunidades e pessoas que sofrem.

“São pessoas iluminadas e que vêm para ajudar e para arriscar sua vida. A situação tem crescido e melhorado sim, mas mais do que crescer a ajuda humanitária a gente tem que diminuir a dependência da ajuda humanitária. Tem que evitar que aconteça para não ter trabalhar na ajuda humanitária. A gente tem que buscar essa ideia, não sei se é pela inteligência artificial ou não sei se é porque o ser humano tem esse defeito.”

Conforto pessoal

Simões disse que a lição para a humanidade é aprender com os conflitos, com foco em evitar este tipo de crise. Ele concluiu com uma homenagem para quem sacrifica o conforto pessoal pagando com a vida, em favor de ajudar os necessitados.

“É um defeito ter que reagir, ter de contra-atacar. Uma atrocidade não pode acontecer. Então, temos que evitar que aconteçam novos genocídios e novos tempos difíceis. (E como promover novos ‘Sérgios’?). Ele está em todos nós, todos vocês. Então, Sérgio é o lado bom das pessoas.” ONU News – Nações Unidas


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Recordando Sérgio Vieira de Mello, o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos

Diante de tantas mortes e convulsões provocadas por mais uma guerra no Oriente Médio, cujo estopim foi um enorme e amplo atentado cometido por uma organização terrorista (não entro nas discussões sobre bom e mal atentado), me lembrei de outro atentado, cometido há 20 anos em Bagdá, no começo da guerra do Iraque, contra a sede das Nações Unidas em Bagdá. Nele morreu o Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos.

No começo deste século, eu não dispunha de muito tempo para escrever comentários, vivia correndo como repórter freelancer para jornais, rádios e mesmo para as próprias organizações ligadas à ONU, quando, numa viagem, num evento especial, precisavam de um jornalista de língua portuguesa. Foi assim que conheci Sérgio Vieira de Mello. Ia com frequência à sede do Alto Comissariado, devo ter feito algumas viagens com ele, que era alguém bastante comunicativo e social.

A morte de Vieira de Mello, em um atentado, foi um choque em Genebra. Ainda jovem, com 54 anos, formado em filosofia na Sorbonne, ativo, preocupado com os povos desamparados e desorientados, vivendo na miséria depois de cataclismas e guerras, Sérgio, como era chamado em Genebra, sabia das dificuldades da ONU para impedir e solucionar conflitos. Depois de ter agido em missão especial no Camboja, Bangladesh, Kosovo e Sudão, Sérgio tinha sido administrador, por três anos da ONU no Timor-Leste.

Pouco antes da crise no Iraque, Sérgio havia desenvolvido a tese de que havia uma relação direta entre a segurança mundial e o respeito aos direitos humanos. A violação flagrante dos direitos humanos é a detonadora das crises internas nos países e as crises internacionais.

Os que conheceram Sérgio e seus projetos para tornar a organização internacional mais eficaz não têm dúvida de que hoje o alto-comissário brasileiro teria chegado ao posto de secretário-geral da ONU. Não era um político e nem um funcionário de carreira, mas uma personalidade marcante preocupada em construir a paz com justiça.

Facto raro, a morte de Sérgio Vieira de Mello foi seguida da publicação de diversos livros escritos por jornalistas que acompanhavam suas atividades e projetos em Genebra.

Um dos livros mais conhecidos é “Chasing the Flame”, de Samantha Power, jornalista norte-americana de origem irlandesa, defensora dos direitos humanos, cujos estudos em Harvard, militância política e carreira universitária a levaram ao cargo de embaixadora junto às Nações Unidas, cargo que deixou após a eleição de Donald Trump. O livro se transformou, em 2020, num filme com o título “Sérgio: a luta de um homem para salvar o mundo”, com Wagner Moura no papel principal.

Na exibição do filme, a revista Veja publicou texto sobre o que teria precedido o atentado no Hotel Canal, onde funcionava a ONU: o objetivo da missão diplomática de Vieira de Mello era conduzir o Iraque a eleições democráticas, depois de anos da ditadura de Saddam Hussein, a partir de uma Constituição escrita por iraquianos. A intervenção norte-americana, vista 20 anos depois, foi catastrófica e provocou a ascensão do Estado islâmico.

Outro livro importante – “Sérgio, uma esperança explodida” – foi o de Jean-Claude Bührer com Claude B. Levenson, ambos jornalistas em Genebra à época, no qual José Ramos-Horta, Prêmio Nobel a paz em 1996, e ministro das Relações Exteriores do Timor-Leste, comentou: O atentado contra a sede da ONU em Bagdá, que custou a vida do brasileiro, enviado por Kofi Annan, não só deixou o Iraque cair lentamente na violência como decapitou o alto Comissariado pelos Direitos Humanos.

Ainda em 2016, a porta-voz de Sérgio na ONU, Annick Stevenson, publicou, junto com um ex-Alto-Comissário para Refugiados, George Gordon-Lennox, o livro “Sérgio Vieira de Mello, um homem excepcional”. Para eles, Sérgio é o único ícone que jamais teve a ONU. Sua morte trágica significou que a própria ONU tinha também se tornado alvo de atentados. Sérgio foi a Bagdá, por mandato do Conselho de Segurança, com um projeto: evitar que a invasão e ocupação americana transformassem o Iraque numa anarquia e desestabilizassem o Oriente Médio.

Hoje, vinte anos depois, embora numa situação e quadros diferentes, a pergunta é a mesma: como irão viver amanhã os palestinos de Gaza e Cisjordânia com seus vizinhos israelenses? Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Timor-Leste - Presidência da República abre candidaturas para Prémio Sérgio Vieira de Mello

 


Díli – A Presidência da República abriu candidaturas para o Prémio Direitos Humanos Sérgio Vieira de Mello, podendo candidatar-se cidadãos e organizações nacionais ou internacionais.

“Os cidadãos e organizações que se dedicaram a promover, proteger e difundir os direitos humanos em Timor-Leste podem apresentar a sua candidatura, que arrancou no dia 19 de outubro e termina a 18 de novembro deste ano”, diz hoje o comunicado de imprensa a que a Tatoli teve acesso.

Segundo a nota, o Presidente da República, Francisco Guterres Lú Olo, atribui anualmente o Prémio Direitos Humanos Sérgio Vieira de Mello a 10 de dezembro, data que assinala o Dia Internacional da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O prémio é um reconhecimento do Estado a todos os que contribuíram, cidadãos timorenses e estrangeiros ou organizações governamentais e não governamentais, para a promoção, proteção e divulgação dos direitos humanos em solo timorense.

O documento refere ainda que qualquer cidadão e organização que tenha ajudado a promover e a disseminar os direitos humanos poderá apresentar a sua candidatura, sendo o prémio de 10 mil dólares americanos por categoria.

Este prémio será atribuído por diversas categorias associadas aos direitos civis e políticos e é dirigido a quem deu provas no terreno em matéria dos direitos humanos e direitos sociais, económicos e culturais, nomeadamente no combate à pobreza, promoção da educação, saúde, e proteção do meio ambiente e da solidariedade social.

A nota sublinha ainda que todas as instituições que foram galardoadas com o Prémio Sérgio Vieira de Mello nos últimos cinco anos estão impedidas de apresentar a sua candidatura.

O Prémio Direitos Humanos Sérgio Vieira de Mello é regulamentado pelo Decreto-Lei n 15/2009 de18 de março e atribuído anualmente pelo Chefe de Estado e tem como objetivo destacar as atividades levadas a cabo por cidadãos timorenses e estrangeiros. In “Tatoli” – Timor-Leste

 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Timor-Leste - Cidadãos e uma organização recebem Prémios Sérgio Vieira de Mello

O Presidente da República galardoou quatro cidadãos e uma organização, que atuam na educação, nos media, e no setor ambiental, com a edição de 2019 do Prémio Direitos Humanos Sérgio Vieira de Mello



José Amaral Guterres, Marcelina dos Santos da Cruz e a organização Konservasaun Flora & Fauna são os vencedores na categoria de Direitos Sociais, Económicos e Culturais, enquanto na categoria de Direitos Civis e Políticos foram premiados José Luís de Oliveira e Virgílio da Silva Guterres Lamukan.

“Quero felicitar os galardoados bem como os seus familiares que aceitaram e apoiam a vossa dedicação aos direitos humanos, e ainda pedir que continueis a trabalhar para a promoção, proteção e divulgação dos direitos humanos em Timor-Leste”, disse Francisco Guterres Lu-Olo, na cerimónia de entrega dos prémios.

“Este prémio não é um fim em si mesmo. Enquanto existirem pessoas neste mundo haverá sempre trabalho na área da promoção, proteção e divulgação dos direitos humanos, bem como desafios. Espero, por isso, que este prémio motive e encoraje os vencedores a continuarem a demonstrar o seu ativismo na área dos direitos humanos”, afirmou.

Na edição deste ano foram apresentadas 85 candidaturas, 16 na categoria de Direitos Civis e Políticos, e 69 na categoria de Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

José Amaral Guterres, “professor durante largos anos em áreas remotas do posto administrativo de Ossu”, mostrou-se “incansável no seu trabalho com as crianças do ensino básico, sensibilizando as famílias para a importância da escola”.

Com grande contributo ao processo de criação das escolas, percorria longas distâncias com um “voluntarismo que merece ser destacado”, usando muitas vezes recursos próprios para apoiar o ensino de crianças.

Marcelina dos Santos da Cruz, professora voluntária do ensino pré-primário e primário em várias escolas há mais de dez anos, foi outra das galardoadas na edição deste ano dos prémios.

“Mesmo sem remuneração, Marcelina da Cruz continua a dar o seu contributo ao setor da educação. As longas distâncias que tem de percorrer nunca foram fator de impedimento”, disse.

O chefe de Estado galardoou ainda a organização nacional Konservasaun Flora & Fauna que tem feito “um trabalho extraordinário para a preservação e conservação da flora e fauna”, com especial destaque para trabalho nos mangais, bancos de corais e no ambiente marinho em geral.

Na cerimónia de hoje foi ainda reconhecido José Luís de Oliveira, que Lu-Olo considerou “um exemplo de consistência, com trabalho há vários anos na área dos direitos humanos”.

Oliveira “criou e é membro de várias organizações que trabalham para os direitos humanos”, ajudando a promover e estimular uma cidadania ativa, “condição sine qua non para a democracia”.

Finalmente foi reconhecido Virgílio da Silva Guterres que “tem dado um contributo ativo ao longo dos últimos anos para a criação de uma sociedade que respeita os direitos humanos, especialmente na área jornalística”.

“É um defensor intrépido da liberdade de expressão, não apenas dos jornalistas, mas de todos os cidadãos. Continua a lutar por uma imprensa livre no nosso país e a defender o direito dos cidadãos à informação”, referiu.

Os prémios, no valor de 10 mil dólares cada, reconhecem cidadãos timorenses e estrangeiros, organizações governamentais e não-governamentais que se destaquem na promoção, defesa e divulgação dos direitos humanos em Timor-Leste.

Foram criados a 18 de março de 2009 pelo então chefe de Estado timorense, José Ramos-Horta, e visam igualmente assinalar, anualmente, o Dia dos Direitos Humanos.

A iniciativa tem ainda como objetivo reconhecer o trabalho realizado pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello enquanto chefe da Missão da ONU de Administração Transitória de Timor-Leste, entre novembro de 1999 e maio de 2002.

O diplomata brasileiro morreu em 19 de agosto de 2003, vítima de um atentado no Iraque. In “Sapo Timor-Leste” com “Lusa”

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sabóia

No Itamaraty, um diplomata merecedor do honroso legado de coragem do mártir Sérgio Vieira De Mello.

Sérgio Vieira de Mello


O nome dele: Eduardo SABÓIA, diplomata brasileiro, daquele famoso Itamaraty, o Ministério de Relações Externas do Brasil, que produz os melhores diplomatas do Mundo. Conheci o pai dele, o Embaixador Gilberto Sabóia, diplomata agora jubilado, que foi o Representante do Brasil em Genebra durante muitos anos. Um senhor alto, magro, muito reservado, discreto. Assim me lembro dele e me lembro como ele esteve sempre do lado da nossa luta pelos direitos humanos, pela vida, pela dignidade.

Assim quando ouvi falar sobre o incidente envolvendo um diplomata Brasileiro de nome Saboia, que em plena noite e de muita chuva, assumindo riscos, resgatou um político Boliviano, refugiado na Embaixada do Brasil em La Paz durante 450 dias, transportando-o para A Terra de Ipiranga, esse grande Brasil, pensei que seria alguém relacionado com aquele Embaixador alto, magro, elegante, discreto, simples que conheci. Vim a saber que era filho.

Não conheço os detalhes do antecedente, isto e, o dossier do senador Boliviano. Mas sei que o Brasil não recebe ninguém na Embaixada sem justa causa, sendo os Brasileiros tão prudentes, muito meticulosos como sempre são na gestão de dossiers complexos e delicados.

A coragem do diplomata Eduardo Sabóia fez-me lembrar o Cônsul Português Sousa Mendes, em Bordéus, França, o qual com extraordinária coragem salvou a vida de 30 mil Judeus durante o período da II Grande Guerra, emitindo-lhes passaportes contra as instruções do ditador provinciano Oliveira Salazar.


Eduardo Sabóia


Eduardo Sabóia revela ser um continuador corajoso do legado de coragem do Mártir Brasileiro, Mártir da ONU, Sérgio Vieira De Mello, cuja morte ha 10 anos num atentado terrorista em Bagdade, nos celebramos no Rio no dia 19 de Agosto. Ramos-Horta - Timor Leste in “ramoshorta.com”