Estudo da Universidade de
Coimbra publicado na revista Astronomy & Astrophysics ajuda a explicar a
reduzida presença de sistemas de estrelas binárias junto ao buraco negro
supermassivo no centro da nossa galáxia
No
centro da Via Láctea, a escassos anos-luz de distância, um conjunto de estrelas
muito jovens orbita Sagittarius A*, o buraco negro supermassivo da nossa
galáxia. A presença destas estrelas num ambiente de forças gravitacionais
extremas tem intrigado a comunidade científica.
Um novo estudo desenvolvido por investigadores da
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em
parceria com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a
Universidade de Amsterdão, revela agora que a influência gravitacional do
próprio buraco negro é responsável por destruir e alterar uma grande parte dos
sistemas estelares duplos (sistemas binários) naquela região.
O
trabalho, liderado por Rodrigo Silva, investigador e aluno de doutoramento da
FCTUC (vinculado ao CFisUC e CENTRA), foi publicado na conceituada revista
científica internacional Astronomy & Astrophysics (Letter).
As
estrelas que orbitam Sagittarius A*, conhecidas como aglomerado S, são
maioritariamente estrelas do tipo B, com idades de alguns milhões de anos. A
sua presença nas proximidades de um buraco negro supermassivo constitui um
desafio para a Astrofísica, uma vez que as intensas forças gravitacionais nesta
região dificultam os processos habituais de formação estelar. Este problema é
conhecido como «paradoxo da juventude».
Uma
das hipóteses propostas para explicar a origem destas estrelas é a de que se
tenham formado no próprio local onde hoje são observadas, a partir da
fragmentação de uma camada de gás denso. Neste cenário, compreender a proporção
de estrelas que integram sistemas binários pode ajudar a esclarecer as
condições em que se formaram e a evolução que tiveram desde então.
Para
testar esta hipótese, os investigadores recorreram a simulações numéricas que
permitem acompanhar a evolução de sistemas binários sob a influência
gravitacional de Sagittarius A*. Os resultados mostram que este ambiente pode
alterar significativamente a população inicial de estrelas binárias: cerca de
20% dos sistemas simulados são separados pelas forças de maré do buraco negro,
18% acabam por se fundir e 62% sobrevivem como sistemas binários.
Partindo
de uma proporção inicial de sistemas binários semelhante à observada noutras
populações de estrelas massivas, as simulações apontam para uma proporção final
de cerca de 38%. Este valor é compatível com a estimativa observacional de
aproximadamente 43%, obtida pelos investigadores para o aglomerado S. A
concordância entre os dois valores constitui o principal resultado do estudo e
mostra que a reduzida proporção de sistemas binários nesta região pode ser
explicada, pelo menos em parte, pelas interações gravitacionais com o buraco
negro.
A
estimativa observacional foi refinada com a inclusão do sistema D9,
identificado em 2024 e considerado o primeiro sistema binário conhecido no
aglomerado S. A sua descoberta permitiu melhorar as restrições observacionais
utilizadas pelos investigadores para calcular a proporção destes sistemas na
região central da Galáxia.
As
simulações revelam ainda que a proporção de sistemas binários aumenta com a
distância a Sagittarius A*, à medida que diminui a intensidade das forças de
maré exercidas pelo buraco negro. Esta tendência é também compatível com os
limites observa cionais obtidos em estudos anteriores para diferentes
distâncias do centro galáctico.
Os
resultados apoiam, assim, o cenário de formação no próprio local para as
estrelas do aglomerado S. De acordo com esta interpretação, as estrelas poderão
ter-se formado nas proximidades de Sagittarius A* e, ao longo do tempo, as
interações gravitacionais terão alterado a proporção de sistemas binários
inicialmente existente.
O
episódio de formação estelar considerado neste cenário pelos autores poderá
ainda estar associado a uma fase de atividade do centro galáctico que terá dado
origem às bolhas de Fermi, enormes estruturas observadas em raios gama que se
estendem acima e abaixo do plano da Via Láctea. Esta possível ligação constitui
uma pista adicional para compreender a história de atividade do centro da nossa
Galáxia, embora careça de confirmação.
Ao
estudar a evolução dos sistemas binários num dos ambientes mais extremos da Via
Láctea, os investigadores da FCTUC e FEUP contribuem para compreender melhor
não só o comportamento das estrelas nas proximidades de um buraco negro
supermassivo, mas também a sua possível origem e a história de formação estelar
no centro galáctico. Universidade de Coimbra - Portugal
