Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 28 de agosto de 2021

Lusofonia - Árvore da Poesia


A Árvore da Poesia, uma árvore dinâmica que alberga na sua copa poetas mulheres e homens de hoje e de todos os continentes, escrevendo em Português, expressando aquilo que nos vai na alma a todos, dos mais fundos medos às mais elevadas esperanças (e não é esse o seu papel?) faz a mesma pergunta que eles fazem: e agora?! Victor Gama – Angola

Victor Gama estará em Évora amanhã, 29 de agosto, com o concerto VELA6911 - Diário da Antártida''. Contra o pano de fundo da geopolítica da guerra fria, o trauma das atrocidades do apartheid e uma profunda crise existencial, uma jovem militar viaja para a Antártida como parte de um polémico teste nuclear secreto realizado em 1979 pelo governo do apartheid da África do Sul em colaboração com Israel. Vela 6911 é uma história dramática de intriga política e destruição ecológica, filtrada pela paisagem agreste, fria e bela, carregada de uma reverência transbordante pelo que significa estar vivo na Terra, ou mesmo estar vivo com a Terra.

Victor Gama, N'dalatando, Angola - Árvore da Poesia é uma criação de Victor Gama para Oeiras Valley - Município de Oeiras e Cultura Oeiras dedicada à poesia que se faz hoje nos países de língua oficial portuguesa. Gama tem vindo a desenvolver arte pública com aplicativos interativos que promovem o conhecimento, criatividade e inovação.

Como compositor, designer e investigador a sua prática combina metodologias científicas e tecnologias digitais com tradições e sistemas de conhecimento não ocidentais, muitas vezes do seu país de origem.

Mestrado em Organologia e Tecnologia da Música pela faculdade Sir John Cass of Art, Architecture and Design da Universidade Metropolitana de Londres e doutorando na Universidade de Gent/KASK & Conservatorium na Bélgica, as suas composições musicais são obras expansivas que recorrem a diversos meios como o desenho e construção de instrumentos musicais contemporâneos, espacialização sonora, vídeo, fotografia e gravação de campo.

É frequentemente convidado a colaborar com Institutos e Universidades como o Center for Computer Research in Music and Acoustics da Universidade de Stanford, o Center for Arts Science and Technology do MIT ou o Institute for International Study da Universidade de Indiana.

Gama tem vindo a atraír encomendas para compor para alguns dos ensambles e instituições de prestígio mundial como a Chicago Symphony Orchestra, os Kronos Quartet, a National Symphony Orchestra / Kennedy Center, a Prince Claus Fonds, o Amsterdam Fonds for the Arts ou a Fundação Calouste Gulbenkian e apresentou-se em centros como o Carnegie Hall de Nova Iorque, o Concertgebouw em Amesterdão, o Kennedy Center for the Performing Arts em Washington D.C., a House of World Cultures Berlin entre outros.

Desenhou instrumentos e instalações para o National Museums of Scotland, o Tenement Museum de Nova Iorque, a Royal Opera House de Londres, o Clay Center for Science and the Performing Arts de West Virginia entre outros.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Portugal – Entrevista a Isabel Lindim sobre as alterações climáticas

Dias após a publicação de um relatório de cientistas da ONU em que se confirma que o mundo está a aquecer muito depressa, o Contacto falou com Isabel Lindim, autora de Portugal, ano 2071. O livro editado em fevereiro é uma pesquisa jornalística sobre como pode um dos países europeus mais vulneráveis preparar-se para as alterações climáticas. Atualmente, Isabel Lindim é editora no novo projeto de jornalismo de investigação Setenta e Quatro

No relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa) “Alterações Climáticas 2021: A base da Ciência Física”, saído dia 9, define-se que sem cortes rápidos e grandes nas emissões de gases com efeito de estufa os eventos extremos serão catastróficos. Qual é o seu ponto de vista sobre o relatório?

Há cada vez mais dados tanto da atmosfera quanto geológicos. O relatório confirma o que se tem vindo a dizer, e agora com mais certeza. Mas ainda só li o sumário. O relatório do IPCC também serve para provar que é preciso acabar com a exploração de combustíveis fósseis que, no entanto, todos os anos atingem novos máximos.

Está de férias em Cacela, no Algarve. Viu o incêndio que se alastrou a partir de Castro Marim?

O cenário que vimos da praia era apocalíptico. Ontem vivi aqui temperaturas que nunca tinha vivido, não sei se por causa do incêndio. Se o aumento da temperatura em relação à era pré-industrial for de 1,5º C ou 2º, como o relatório prevê, antes de 2050, isso significa que o aumento da temperatura aqui no sul de Portugal vai ser muito maior. Assim como nas cidades. Uma coisa que sempre me preocupou muito é como vamos conseguir sobreviver às temperaturas nas cidades e aos incêndios florestais. O que percebi nas entrevistas que fiz para o livro é que a grande preocupação é que não se sabe como o corpo humano se vai fisicamente adaptar a estas temperaturas extremas.  E temos mesmo que nos preparar para isso.

Mas o futuro não faz parte do discurso político atual...

Em termos de território e de biodiversidade, tem que se começar a pensar no futuro. Ainda se pensa muito só no presente e em crescimento económico. 98% do território português é privado e sempre foi tratado muitas vezes na perspetiva da exploração. Sendo que muitas vezes temos a exploração e depois o abandono. É o exemplo dos pinhais, dos eucaliptos, ou de culturas intensivas como o trigo. Os cientistas já podem provar é que quanto mais trabalharmos no sentido de criar zonas de agrofloresta e zonas intensas verdes – onde eu me encontro agora, por exemplo – mais fácil é criar temperaturas amenas. Venho muitas vezes para esta zona de Olhão, e é sempre muito árido. Mas houve um grupo de pessoas que foi plantando aqui esta zona e que me permite estar aqui ao ar livre e sentir fresco. Isto é bom não só para nos humanos, como para o próprio solo. E este género de preocupação tem que ser constante.

Uma preocupação que ainda não entrou na política.

Não sei se a atual geração de decisores políticos pensa nesse futuro, mas tenho esperança que as próximas gerações sim. Já há um enorme conhecimento, não só dos investigadores do IPCC como dos cientistas que trabalham especificamente nas áreas da adaptação. E o setor que mais me preocupa é o da agricultura.

Continua a insistir-se muito na agricultura intensiva de regadio, que consome muita água?

Recentemente estive a escrever sobre recursos hídricos só na zona de Odemira, mas sei que no resto do Alentejo e Algarve também é uma questão preocupante. Tecnologicamente o regadio tem avançado bastante, mas é preciso ver que a agricultura consome 75% da água que se gasta em Portugal. Ao mesmo tempo não há avanços para que toda a população tenha acesso à rede pública de água. Em Odemira, 30 % da população está fora da rede pública de água e tem que furar – e fazer furos pode ser muito complicado, não há garantias que se consiga água de um depósito subterrâneo no futuro porque a chuva vai diminuir. Os aquíferos que temos têm que ser muito bem geridos. A questão da água tem dois aspetos que me parecem muito graves. Em primeiro lugar, toda a população tem que ter acesso à água. E depois as infraestruturas que existem não são suficientes quer para saneamento quer para utilização das águas. Isto vai ser um problema muito grande.

Porque não se assegura os mínimos para as populações?

O Ministério da Agricultura permite que os projetos que consomem muita água aconteçam mesmo sabendo que a água é um recurso que vai ficar escasso. No Algarve, uma pessoa pode comprar um terreno e plantar abacates. Não pode construir uma casa, mas pode plantar 100 hectares de abacates e ninguém dizer nada. E mesmo em reserva natural isto acontece. E aí, quando a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) verifica uma situação ilegal, já é tarde demais. Acaba por ir para tribunal onde as coisas arrastam-se anos. Seria mais burocracia, mas devia haver um controle do que vai ser plantado. Devia haver uma “task force” entre Ministério da Agricultura e Ministério do Ambiente para averiguar se é possível fazer aquele cultivo. E isso não existe. É uma das questões em que vemos que não há diálogo entre os dois ministérios. Há até um certo atrito. A APA é autoridade máxima sobre as águas e faz parte do Ministério do Ambiente. O Ministério da Agricultura parte do princípio de que a água vai estar sempre disponível. E depois também dizem, como já ouvi o ministro do Ambiente dizer, quando se fala que as barragens e as albufeiras estão a descer, que as albufeiras foram feitas para a agricultura. Muito bem, mas isso foi antes de termos esta situação de escassez de água. O que está em primeiro lugar? Tem que ser a população. E tem que se pensar se as estufas de produção intensiva devem existir.

O discurso do ministro do Ambiente é que está tudo muito bem, Portugal está na linha da frente. Não é isso o que se deduz da leitura do seu livro.

Fala-se nisso por uma razão apenas: é que em relação às emissões de gases com efeito de estufa Portugal reduziu bastante. A transição energética é a grande bandeira e no que diz respeito às energias renováveis, de facto Portugal está a melhorar bastante. E também na melhoria dos transportes públicos, por exemplo. Mas em relação à adaptação e em relação à gestão dos recursos hídricos vivemos numa situação caótica que não sei como vai ser resolvida. É possível dentro de pouco tempo as pessoas abrirem a torneira e não terem água.

Isso pode acontecer daqui a quanto tempo?

Na região de Odemira isso até pode ser daqui a dois ou três anos, para algumas populações. É essa a perspetiva dos ambientalistas. O acesso à água é um terreno super pantanoso e confuso. Vai haver agora um estudo da APA que vai mostrar região a região qual a escassez. Mas isso é uma coisa que já devia ter sido feita. E vai haver a disputa entre a água para a agricultura – e isso vê-se sobretudo a sul do Tejo – e para consumo humano. É por isso que a agricultura tem que ser desenvolvida no sentido da agrofloresta, para o ciclo da água se manter e não ser tão necessário recorrer à água das albufeiras e dos furos.

É o que acontece no caso de que fala da Herdade do Freixo do Meio.

Exatamente. Era uma exploração intensiva de trigo. Quando um ano corria mal, não havia nada. E ao mesmo tempo estava-se a destruir o solo. E desde 1995, o Alfredo Sendim, o dono da herdade, conseguiu converter a propriedade numa zona de agrofloresta. É um exemplo. Era uma questão de ter uma terra mais rica e de isso o proteger de más colheitas, de maus anos.  É o que financeiramente faz mais sentido, diversificando muito as colheiras, num sistema mais complexo, mas que ao mesmo tempo já estava a adaptar-se às alterações climáticas. Claro que ele tem muito mais resultado que outros vizinhos que fazem um cultivo intensivo ou pecuário. A Herdade do Freixo do Meio tem animais, mas que andam à solta e prestam o seu serviço num ciclo completo de natureza. É um ambiente saudável que foi sendo criado e que pode ser replicado por toda a região sul.

No seu livro há uma citação do filósofo e ambientalista Viriato Soromenho Marques em que ele diz que o comum dos mortais não faz a mais pequena ideia da gravidade do que se passa. Acha que mudava alguma coisa se as pessoas tivessem uma ideia mais correta da gravidade das alterações climáticas e da falta de preparação? A falta de conhecimento da população é um risco?

Acho que sim. Essa informação podia ser dada de forma a permitir que as pessoas visualizassem o futuro. Porque em relação às alterações climáticas, é difícil para a população em geral sentir o que vai acontecer. Não é palpável ainda. As pessoas acham normal que haja uma onda de calor. Se conseguissem transpor para 30 ou 50 anos iam ver o que vai acontecer e iriam exigir mais medidas públicas. Na área privada já há decisores que percebem o que é preciso fazer, mas em relação aos decisores públicos que têm acesso a estes relatórios, como o que foi publicado agora, esses são mais lentos a reagir.

Mas como disse no livro, a investigação científica em Portugal está bastante desenvolvida.

Antes da covid começámos a ver mais notícias em relação às alterações climáticas, sobretudo a nível mundial. Mas há muitos estudos feitos cá. E os estudos são cada vez mais localizados, por área, por regiões. Eu fiquei muito surpreendida com o nível de investigação que se faz em Portugal e com o acesso à informação que as câmaras, por exemplo, têm. E vivermos num país pequenino tem a vantagem de os municípios trabalharem por iniciativa própria. Primeiro houve o Climadapt.local e depois o adapt-local.pt , que consiste  num trabalho em rede muito grande que começou em 2015, e onde os municípios têm acesso a muita informação e começam a tomar medidas concretas. Acho que tem que ser por aí. Não podem ter que estar à espera que as decisões sejam a nível central. No Algarve, o presidente da câmara e o município de Loulé trabalham muito nesse sentido. Não é fácil, porque temos um turismo muito virado para o golfe e com as explorações agrícolas intensivas a instalarem-se. Mas a nível local pode começar-se a trabalhar, e as pessoas encarregues na área do ambiente têm que estar informadas.

E estão suficientemente informadas?

A maior parte dos investigadores com quem falei fizeram workshops e ações de formação nos municípios. Claro que encontraram muita iliteracia, mas há muito trabalho a ser feito. E muitos investigadores têm muito prazer nisso. Porque vão ao encontro de situações específicas e encontram muitas pessoas nos municípios que são muito abertas a isso. A Luísa Schmidt (uma investigadora e comunicadora na área do ambiente) teve contatos com a população e ela foi uma das pessoas que andaram de município em município. E ela passou-me essa noção de que estas pessoas podem ser facilmente instruídas e fazer a mudança, porque até já têm poder para o fazer. E ao nível do poder local pode-se também desenvolver uma ação mais pedagógica nas escolas.  Se as crianças tiverem mais consciência ambiental vai ser muito diferente o que vão fazer, já está dentro delas o amor pela natureza. Tenho esperança que as gerações futuras sejam mais ativas.

As cheias, os incêndios e as ondas de calor deste ano já são suficientes para as pessoas terem noção dos impactos de um mundo mais quente?

Há muitas pessoas que ainda acham normal isto acontecer de vez em quando. Mas também há muita gente que em relação a estas cheias na Europa já percebeu, porque os media estão a dar a entender isso. Porque se nós vamos ter menos chuva, os países do norte da Europa vão ter muito mais e podem acontecer estas desgraças. Em Portugal vamos ter as marés vivas. E quando tivermos as primeiras que entram por um estuário é que as pessoas vão ver quão graves as alterações climáticas são. O que neste verão aconteceu na Europa mostra que a população tem que acordar para uma situação mundial.

Portugal é um dos países da Europa mais vulneráveis às alterações climáticas e que, ao mesmo tempo, é um dos países que mais pode recuperar em termos de biodiversidade uma vez que teve uma industrialização atrasada e portanto menos destrutiva. Acha que o seu livro conseguiu mobilizar as pessoas para que se envolvam?

Espero que sim, tenho recebido um feedback ótimo. E há muitas pessoas atentas e informadas que desconheciam muitas das coisas que relatei. Foi esse também o grande objetivo, dar esta informação de forma acessível. Perceber que não se pode construir mais ao pé da água e que tem que se proteger a população junta à costa, por exemplo, é um dos desafios. Mas a adaptação só é possível com políticas públicas. Telma Miguel – Luxemburgo in “Contacto” 

Isabel Lindim nasceu em Lisboa e é jornalista. Colaborou em publicações como Grande Reportagem, Elle, Luz ou Visão e em programas como Pop-Up, da RTP. O seu interesse pelo Ambiente e o futuro do Planeta acentuou-se significativamente depois de trabalhar no programa À Descoberta Com..., emitido pela SIC e dedicado à conservação das espécies e dos ecossistemas naturais. Desde então abraçou um dos grandes desafios do jornalismo atual: entender a crise ambiental em que vivemos ouvindo os cientistas e transformando essa informação numa linguagem rigorosa mas acessível a todos. WOOK


China - “Os departamentos de português estão a ganhar maturidade”

Carlos André esteve seis anos em Macau, onde liderou o Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau (IPM). Agora, à distância, Carlos André faz uma retrospectiva dos avanços do ensino da língua portuguesa na China. Em entrevista ao Ponto Final, o professor honorário do IPM destaca o ritmo de crescimento do ensino do português na China e diz esperar que se façam mais parcerias de natureza científica


“O ensino do português na China está num ritmo de crescimento que me impressiona”, comenta Carlos André em entrevista ao Ponto Final. O antigo director do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau (IPM), actualmente em funções como professor honorário da instituição, destaca os resultados dos esforços para a disseminação da língua portuguesa na China. Carlos André esteve seis anos em Macau, tendo regressado a Portugal há dois anos e meio. À distância, o membro da Academia das Ciências de Lisboa comenta que “tem de haver mais parcerias de natureza científica” entre Portugal e a China. Para Carlos André, os projectos chineses da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e “Uma Faixa, Uma Rota” vão impulsionar ainda mais o interesse na língua portuguesa.

Já deixou o cargo de director do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau há quase três anos. Como tem acompanhado a evolução do ensino da língua portuguesa em Macau desde que saiu?

Tenho mantido uma relação estreita com o IPM, do qual sou professor honorário, além de ser amigo das pessoas que trabalham lá. Além disso, sou orientador de uns alunos de doutoramento do IPM, portanto mantenho uma relação estreita com o IPM e também mantenho uma relação estreita com a China, porque, desde que saí daí, todos os anos tenho dado um mês de aulas em Xangai.

Em Macau esteve cerca de seis anos. O que é que destaca no ensino do português ao longo deste período?

Há uma coisa que é inequívoca. Neste momento, o ensino do português na China está num ritmo de crescimento que me impressiona. Mas há uma coisa que é preciso dizer: o impulso que o IPM deu a esse desenvolvimento foi imprescindível e não é comparável com nada que tenha sido feito seja por quem for. É único.

A que nível, na prática?

Terei de falar da actividade do IPM, especialmente – mas não só – da actividade do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa. Vejamos que o CPCLP fez dezenas de acções de formação de professores nas universidades da China, o que era uma coisa inimaginável antes. Foi um projecto que concebemos e que conseguimos executar. Fomos de universidade em universidade e fizemos acções de formação de professores para os docentes dessas universidades mas também para os docentes das universidades que se situavam mais ou menos dentro daquela área regional. Por outro lado, foram produzidos 25 ou 26 livros, alguns deles particularmente importantes, não apenas materiais de natureza pedagógica, mas fizemos também outros livros de outra natureza, sobre o ensino de textos, lexicologia, sobre tradução, sobre questões gramaticais, todas as áreas fundamentais para o ensino de uma língua, nós fizemos isso. As acções de formação, sobretudo as acções de formação e produção de materiais e a aplicação “Diz Lá”, uma aplicação para telemóvel que ainda continua a ser um sucesso na China, são de facto passos importantíssimos. O CPCLP não montou a rede do português na China, mas o que o CPCLP fez foi pegar na corda de que se fez a rede. A rede viria a existir e foi montada pelas próprias universidades chinesas, mas nós ajudámos a que elas se reunissem todas. Fizemos isso, inclusive, antes das próprias instituições governamentais portuguesas, nós fomos pioneiros, andámos à frente. Isso foi inigualável, não houve ninguém que fizesse o que o IPM fez.

Dois anos e meio depois de ter saído, como é que vê os esforços no ensino do português em Macau e na China?

No que diz respeito à China, foi lançada a estratégia e os alicerces, e agora o processo desenvolve-se naturalmente. É preciso termos em conta as mutações que sucederam entretanto do ponto de vista dos recursos humanos. Em 2013, haveria 12 ou 13 universidades com o português no interior da China. Quando saí, em 2018, havia já 44 universidades com português no interior da China. Neste momento são mais de 55. Este é um crescimento brutal. Durante este tempo, os jovens docentes chineses foram fazendo as suas formações, fizeram mestrados e começaram os seus doutoramentos. Quando eu deixei Macau, em 2018, deveria haver, no interior da China, três ou quatro docentes de português com doutoramento. Neste momento, já lhe perdi a conta. Quase todos os meses tenho notícias de que há professores que conheço que se doutoraram numa universidade portuguesa, ou de Macau ou brasileira. Este processo cresceu brutalmente, e isto significa que as instituições de ensino superior da China e os seus departamentos de português criaram condições para eles próprios se desenvolverem. A grande mudança é esta, é a maturidade. Os departamentos de português estão a ganhar maturidade na China. Se deixar de haver interesse pelo português na China, obviamente que isto cai, mas eu não acredito que deixe de haver porque os países de língua portuguesa representam um peso enormíssimo no plano internacional. Na próxima década, África vai ter um crescimento populacional superior a qualquer outra parte do mundo. Angola e Moçambique vão ser dois países enormes daqui a 2050. Com o crescimento do mundo de língua portuguesa, e esperemos que com a estabilização do Brasil, obviamente que haverá mais interesse pelo português no interior da China, porque obviamente esse interesse não é só cultural, mas é material.

Isso insere-se também no projecto chinês “Uma Faixa, Uma Rota”…

Há dois projectos na China que de certeza vão abraçar esta causa. O “Uma Faixa, Uma Rota” e outro é o projecto da Grande Baía. Este projecto da Grande Baía é fortíssimo do ponto de vista económico e quer manter relações com os países de língua portuguesa. É preciso ter em conta que Cantão é uma cidade muito procurada pelo mercado africano. À medida que evolui o diálogo com países como Angola, Moçambique ou Brasil, obviamente que vai acontecer a necessidade do português.

Que tipo de parcerias para o ensino do português poderiam ser feitas no interior da China?

Eu sei que há parcerias neste momento entre instituições chinesas e instituições de países de língua portuguesa, particularmente portuguesas e brasileiras. Durante algum tempo, essas parcerias eram consubstanciadas muito através do IPM, hoje já são muito directas. A Universidade de Dalian, no interior da China, tem uma parceria fortíssima com a Universidade de Aveiro, onde foi criado um Instituto Confúcio. Essa parceria está a traduzir-se num crescimento brutal, seja do chinês na universidade de Aveiro, seja do português na Universidade de Dalian. Também estão a acontecer algumas parcerias entre a Universidade de Xangai e a Universidade de Lisboa, isto vai-se traduzir num crescimento dos dois lados. Mas eu acho que ainda tem de haver mais, tem de haver parcerias de natureza científica e dessas só conheço entre a Universidade de Xangai e a Universidade de Lisboa.

O que é que essas parcerias poderão trazer em relação à língua?

Não é só à língua. É à língua e à cultura. Nós não podemos dissociar. Podem aumentar os estudos sobre a cultura portuguesa na China e a cultura chinesa em Portugal. Isso não está suficientemente estudado. O que acontece com os estudos da cultura portuguesa na China tem muito a ver com a presença dos jesuítas, por exemplo, que produziram muita obra que está escrita. Ela não pode ser estudada só por portugueses. Esse estudo será sempre incompleto enquanto não for feito simultaneamente por quem conhece a realidade local, ou seja, a história chinesa. Há um embrião de parcerias nesse sentido que têm de ser desenvolvidas. Não é apenas uma questão de língua, é uma questão de um diálogo cultural mais intenso que passe para além da língua.


Esses diálogos culturais o que é que podem trazer a Portugal e à China?

Temos de conhecer muito bem como é que aconteceu a presença do Ocidente na China durante os séculos XVI e XVII. Os arquivos chineses estão cheios de material desta natureza que só podem ser estudados por investigadores chineses. As nossas bibliotecas em Portugal estão cheias de livros escritos essencialmente em latim que podem ser estudados por portugueses, mas a realidade local tem de ser vista por chineses. As questões interculturais são questões que não podem ser só trabalhadas por um dos lados, têm de ser trabalhadas em parcerias dos dois lados. Isso vai levar a uma descoberta mais aprofundada tanto nossa como da China. A China não chega ao mundo em que nós vivemos só no século XX e nem nós chegámos à China só no século XX. Há uma presença mútua durante três ou quatro séculos. Presença essa que, do meu ponto de vista, não está suficientemente estudada. A língua é apenas uma parte disso. O que tem acontecido é que se têm separado as coisas e nós temos de começar a juntá-las.

Que lugar cabe à língua portuguesa em Macau? Tem desempenhado bem o papel de plataforma?

Macau tem de saber muito bem ter o seu lugar, que é um lugar especial do ponto de vista da presença da cultura portuguesa no Oriente. Isto é uma questão importante. O que Macau faz e tem de fazer não pode ser só encarado do ponto de vista político, tem de ser encarado do ponto de vista da identidade histórica. Macau foi sempre China, ilude-se quem pensar de forma diferente. Macau nunca foi outra coisa se não um território chinês de cultura chinesa. Para mim, é inequívoco. Macau sofreu, durante séculos, uma miscigenação num diálogo muito tranquilo entre a cultura chinesa e a cultura ocidental através da cultura portuguesa. Mas será uma ilusão pensar que Macau alguma vez foi cultura portuguesa. Teve a presença da cultura portuguesa, o que é um pouco diferente. Essa identidade histórica de um diálogo que vem desde o século XVI dá a Macau uma configuração especial para olhar para este seu papel de mediador. Se Macau assumir sempre a sua identidade assumirá sempre a mediação. A República Popular da China deseja-o e a cultura portuguesa deve também desejá-lo. O que Macau tem feito é administrado bem essa situação através das suas instituições. A língua portuguesa continua a ser uma das duas línguas oficiais de Macau, não é mais do que isso, porque em Macau não se fala português, para se falar português era preciso que houvesse muito mais pessoas a falá-lo e não há, como se sabe. Apesar de tudo, há uma vontade política para manter a língua portuguesa na situação que tem até este momento e que resulta da Lei Básica.

No futuro a longo prazo, acredita que essa vontade se vai manter?

Nenhum de nós sabe fazer futurologia a esse nível. Nós somos portugueses, as decisões, no que diz respeito a Macau e à China e à relação entre Macau e o interior da China, dizem respeito aos chineses e não dizem respeito aos portugueses. Nós somos estrangeiros em Macau e, portanto, nós não só não temos de fazer futurologia, como não temos de condicionar essa evolução. Essa evolução é definida por quem tem toda a legitimidade para o fazer, os responsáveis de Macau e da República Popular da China. Eu acredito que, se o xadrez internacional se mantiver como está, se as projecções demográficas para África se mantiverem, eu não tenho dúvidas de que Macau procurará manter esta sua identidade porque isso lhe dará um lugar especial nesse xadrez.

E em Portugal há a noção de que existe este interesse tão grande da China na língua portuguesa? É valorizado esse interesse?

Começa a ser cada vez mais. Do ponto de vista das instituições académicas, eu sei que universidades como Coimbra, Aveiro, Porto e Lisboa têm um fortíssimo empenhamento na relação com instituições universitárias chinesas e isso para mim é evidente. As instituições que gerem o português no mundo estão preocupadas e empenhadas com o ensino do português na China. Tanto quanto sei, continua um fortíssimo empenhamento por parte do Governo português no apoio à Escola Portuguesa de Macau e no que diz respeito ao Instituto Português do Oriente. E depois há as instituições chinesas e aí, continuo a dizer, aquela que mais tem feito até este momento pelo português tem sido o IPM, mas a Universidade de Macau também tem tido uma fortíssima actividade neste domínio. Eu tenho uma perspectiva muito optimista em relação ao que vai acontecer. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”




Portugal - Universidade do Minho lidera pedidos de patentes de invenções nacionais no primeiro semestre


A Universidade do Minho liderou no primeiro semestre em número de pedidos de invenções nacionais com 13, seguida de Rui Manuel Dias Ferreira (11) e pela Universidade do Porto (10), segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

De acordo com o relatório estatístico do primeiro semestre, entre os cinco maiores requerentes de patentes aparecem ainda uma empresa, a japonesa Yazaki Corporation (nove), e António Jorge de Oliveira Rodrigues (sete).

No que toca ao ranking das empresas, além da Yazaki Corporation, destacam-se as portuguesas Fravizel – Equipamentos Metalomecânicos, com sete pedidos, e a Hovione Farmaciencia, com seis.

Neste período, o instituto recebeu 407 pedidos de invenção, menos 31,1% face ao mesmo período de 2020, quando foram verificados 591.

Por região, entre janeiro e junho, 120 pedidos (35,1%) tiveram origem na região Norte, 115 (33,6%) na Área Metropolitana de Lisboa e 79 (23,1%) no Centro.

Já na Madeira verificaram-se dois pedidos (0,6%), enquanto nos Açores não houve qualquer solicitação de patente.

No primeiro semestre de 2021, dos pedidos de invenções nacionais de origem portuguesa, 41,8% foram apresentados por inventores independentes (143), 29,8% por pessoas coletivas (102), 20,5% por instituições de ensino superior (70) e apenas 7,9% por instituições de investigação (27), lê-se no documento.

O INPI concedeu 166 patentes no primeiro semestre, mais 56,6% do que no período homólogo.

Por modalidade de Direitos de Propriedade Industrial (DPI), entre janeiro e junho, os pedidos de marcas, logótipos e dos Outros Sinais Distintivos de Comércio (OSDC) foram os que tiveram maior procura junto do instituto, com uma subida de 34,8% para 13930, contra os 10330 verificados no primeiro semestre do ano anterior.

No total, foram concedidas 10179 marcas e OSDC nacionais, um aumento de 26% em comparação com os primeiros seis meses do ano anterior.

Por sua vez, a via nacional do design caiu, no período em causa, em número de pedidos, 4,4%, “apresentando um volume total de 642 objetos para 152 pedidos”.

Contabilizaram-se ainda 114 concessões de design nacional para 516 objetos concedidos, ou seja, um recuo de 70,8%.

Criado em 1976, o INPI dedica-se a registar e proteger os direitos de propriedade industrial, marcas, patentes e designs em Portugal, promovendo a respetiva proteção no estrangeiro, segundo informação disponível na sua página ‘online’. In “O Minho” - Portugal


 

Madeira - Recebe campeonato do mundo de fotografia e vídeo subaquático


O Campeonato do Mundo de Fotografia e Vídeo Subaquático, que decorre no Porto Santo em setembro, conta com a participação de 130 atletas de 22 países, e envolve a realização de 700 mergulhos, indicou o Governo da Madeira.

“É a primeira vez que o campeonato se realiza em Portugal, e a escolha do Porto Santo fica a dever-se ao empenho do executivo madeirense e da Associação de Natação, que querem catapultar a Madeira para um nicho de mercado cada vez mais influente na área do turismo e desenvolvimento da economia azul”, refere a Secretaria do Mar e Pescas, em comunicado.

O campeonato decorre entre 04 e 09 de setembro.

“O Governo Regional apoia este evento com cerca de 60 mil euros do Orçamento da região, por entender que este campeonato do mundo irá proporcionar uma grande promoção da Madeira e do Porto Santo numa área que tem cada vez mais adeptos, como é o mergulho subaquático”, refere o secretário da tutela, Teófilo Cunha, citado no comunicado.

Para o efeito, o executivo regional estabeleceu um protocolo de cooperação com a Associação de Natação da Madeira.

O comunicado cita também o presidente desta associação, Avelino Silva, que sublinha que o campeonato de Fotografia e Vídeo Subaquático constitui um “excelente veículo” para promover a região no exterior, vincando que a escolha do Porto Santo ficou a dever-se à “qualidade das águas e das reservas” ao dispor.

A Secretaria de Mar e Pescas indica que, além da prova oficial, o evento reserva espaço para atividades destinadas à população mais jovem do Porto Santo, ‘workshops’, literacia dos oceanos e batismos de mergulho. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Macau - Lançados manuais de história em português e inglês

Apesar de ser uma versão experimental, a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude vai lançar manuais de História nas línguas portuguesa e inglesa para o ensino secundário no ano lectivo de 2021/2022. Serão disponibilizados manuais em língua chinesa sobre a Lei Básica da RAEM e a Constituição chinesa

No ano lectivo 2021/2022, serão lançados, pela primeira vez, manuais de História nas línguas portuguesa e inglesa para o ensino secundário, adiantou a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ). Segundo o organismo, o novo ano lectivo marcará a concretização da passagem da História a disciplina independente e obrigatória.

Em relação aos trabalhos de elaboração de manuais escolares próprios de Macau, serão lançados ainda manuais em língua chinesa para o ensino primário e de conhecimentos comuns. O plano contempla ainda manuais complementares sobre a Lei Básica da RAEM e a Constituição da China para o ensino primário e secundário.

Na mesma nota de imprensa, a DSEDJ indicou que, ao abrigo da legislação vigente no território, as escolas devem respeitar determinadas regras no uso e exibição da bandeira, precisando também de ter cuidado quando é cantado o hino nacional. Nesse sentido, foram elaboradas novas directrizes por forma a que as escolas sigam os procedimentos correctos.

Tendo em conta o contexto da pandemia, a DSEDJ alertou ainda que foram actualizadas as normas de funcionamento das escolas do ensino superior e não superior, sendo que os estabelecimentos devem estar atentos à evolução epidémica para a eventualidade de terem de ajustar as medidas de prevenção. O organismo instou ainda as escolas a evitarem a organização de actividades que possam motivar aglomerações de pessoas, e recordou que serão iniciados os trabalhos da campanha do programa de vacinação.

Por outro lado, prometeu continuar os trabalhos de fiscalização para reduzir o peso das mochilas dos alunos. As escolas devem realizar pelo menos duas inspecções por ano lectivo aos pesos das mochilas e submeter o respectivo relatório ao Governo.

De acordo com os dados estatísticos da DSEDJ, no ano lectivo de 2021/2022 estarão em funcionamento 77 escolas e 121 unidades escolares, incluindo 112 de educação regular e 107 integradas no sistema de escolaridade gratuita. A taxa de cobertura atinge 95,5%, beneficiando cerca de 75 mil alunos.

Recorde-se que os alunos do ensino não superior iniciarão as aulas a 1 de Setembro como previsto. Por sua vez, o ensino superior poderá retomar as aulas presenciais a 6 de Setembro.

Na terça-feira, a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego, o Corpo de Polícia de Segurança Pública, a DSEDJ e as operadoras de autocarros reuniram-se para discutir medidas de trânsito relacionadas com o regresso às aulas. A fim de aliviar o fluxo de passageiros nos primeiros dias do ano lectivo, as companhias de autocarros vão aumentar o pessoal e a frequência de partidas. Viviana Chan – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

Guiné-Bissau – Vai acolher o 19º encontro dos Procuradores Gerais da República da CPLP em 2022

Bissau – A Guiné-Bissau vai acolher em 2022, o décimo nono encontro dos Procuradores Gerais da República da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP).

O anúncio consta numa nota à imprensa do Ministério Público, enviada à ANG, segundo a qual, o engajamento para o efeito foi assumido pelo Procurador-geral da República, Fernando Gomes na Décima Oitava Reunião dos Procuradores Gerais da CPLP, que decorreu esta semana em São Tomé e Príncipe.

“Com a excepção de Timor Leste, por razões de força maior, durante dois dias, os Procuradores Gerais da República da Guiné-Bissau, Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e, pela primeira vez, a Guiné Equatorial, abordaram os temas como: “O Ministério Público e o Estado de Direito Democrático, a Recuperação de Activos, a Cooperação Jurídica na CPLP e o Combate a Corrupção”, disse a nota.

O documento refere que o encontro de Procuradores Gerais dos países membros da CPLP junta, anualmente, os responsáveis máximos dos Ministérios Públicos dos respectivos Estados para, nomeadamente, promover soluções de problemas judiciários de interesse comum.

A Guiné-Bissau esteve representada ao mais alto nível nessa reunião pelo Procurador Geral da República, Fernando Gomes. In “Agência de Notícias da Guiné” – Guiné-Bissau