Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

China – Abre a primeira faculdade dedicada á língua portuguesa

«É um passo natural, que nos permitirá ter mais recursos, mais possibilidades e mais alunos e professores», explicou a diretora da recém-formada Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim



A primeira faculdade dedicada ao português na China continental quer complementar o ensino da língua com conhecimentos «mais aprofundados» sobre os países lusófonos e «aumentar o intercâmbio internacional», revelou à agência Lusa a diretora.

«É um passo natural, que nos permitirá ter mais recursos, mais possibilidades e mais alunos e professores», explicou a diretora da recém-formada Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim (Beiwai).

A nova instituição nasce da elevação do estatuto do mais antigo departamento de ensino do português na China continental, aberto em 1961, implicando um aumento do orçamento para contratação de corpo docente e organização de atividades e palestras.

Até 1999, apenas a Beiwai e a Universidade de Estudos Internacionais de Xangai ofereciam licenciaturas em português.

Desde então, as instituições de ensino superior da China continental a incluir licenciaturas em português aumentaram de três para 25. No total, mais de 1500 estudantes chineses frequentam agora cursos em português.

O estabelecimento de uma faculdade permitirá, no entanto, «construir um sistema de conhecimento mais aprofundado, mais sistemático», sobre a lusofonia, detalhou Patrícia Jin.

«Com esta evolução, abriremos mais cadeiras, em cinco área de estudo: linguística, tradução, literatura, ciência política, economia e comércio», explicou.

«Os alunos terão uma parte obrigatória e central, ensinada em português, mas também acesso aos cursos de outras faculdades», disse.

A instituição abarcará quatro centros, incluindo o Centro Beiwai – Universidade de Lisboa -Instituto Camões; uma fundação e uma editora de manuais de ensino da língua.

A aposta da ‘beiwai’ reflete a crescente necessidade da China em formar melhores quadros para trabalhar com os países de língua portuguesa, face à evolução das trocas comerciais, que só em 2018 se cifraram em 147 354 milhões de dólares (131 206 milhões de euros), um aumento de 25,31%, em termos homólogos.

O destaque vai sobretudo para Angola e Brasil, cujas trocas com a China compõem a maioria deste comércio. In “Revista Port. Com” – Portugal com “Lusa”

domingo, 2 de junho de 2019

Jenifer


















Vamos aprender português, cantando


Mas ela veio me xingando, enchendo o saco e perguntando
quem é essa perua aí?
Mas espera aí! Mas espera aí!
Você não paga as minhas contas, já não é da sua conta o que eu tô fazendo aqui
mas mesmo assim vou te explicaaaaar

O nome dela é Jenifer
eu encontrei ela no Tinder
não é minha namorada
mas poderia ser

O nome dela é Jenifer
eu encontrei ela no Tinder
mas ela faz umas paradas
que eu não faço com você

Mas ela veio me xingando, enchendo o saco e perguntando
quem é essa perua aí?
Mas espera aí! Mas espera aí!
Você não paga as minhas contas, já não é da sua conta o que eu tô fazendo aqui
mas mesmo assim vou te explicaaaaar

O nome dela é Jenifer
eu encontrei ela no Tinder
não é minha namorada
mas poderia ser

O nome dela é Jenifer
eu encontrei ela no Tinder
mas ela faz umas paradas
que eu não faço com você

O nome dela é Jenifer
eu encontrei ela no Tinder
não é minha namorada
mas poderia ser

O nome dela é Jenifer
eu encontrei ela no Tinder
mas ela faz umas paradas
que eu não faço com você

O nome dela é Jenifer

José Gabriel de Souza Diniz – Brasil

(Campo Grande, 18 de outubro de 1990 — Estância, 27 de maio de 2019)



sábado, 1 de junho de 2019

Lusofonia – Entrevista de José Ramos Horta ao jornal de Macau “Ponto Final”

José Ramos Horta é uma das figuras de proa da lusofonia, um pragmático que nos últimos tempos tem defendido uma maior proximidade económica de Timor-Leste à China, para combater a dependência da Indonésia. Em entrevista ao Ponto Final, diz que ninguém dará a Pequim lições sobre o sistema político a adoptar. E prefere olhar para o que os chineses conquistaram, e não tanto para o que ainda não têm



Aos 69 anos, José Ramos Horta diz que está cansado, apesar da aparente excelente forma física. As viagens de um lado para o outro, principalmente as transcontinentais, já pesam. Mas logo de seguida, enumera quatro ou cinco deslocações só num mês. “São todas aqui perto”, desvaloriza. Para a Europa, garante que cancela todas. A última saída de Timor foi para visitar Macau, onde estará até amanhã para depois seguir para a China interior. Depois de já ter exercido os mais altos cargos políticos em Timor-Leste, actualmente é conselheiro de Estado, e é nessas funções que participa no 10º Fórum Internacional sobre o Investimento e Construção de Infra-estruturas, que trouxe à RAEM milhares de convidados para uma mega-feira que decorre até hoje no Venetian. Em entrevista ao Ponto Final, o Prémio Nobel da Paz não foge às questões relacionadas com a China e pergunta em forma de desafio: “Como é que alguém pode criticar o regime que têm, num país com 1,4 mil milhões de pessoas?” Em relação a Timor, enaltece “o salto brutal” dado nos últimos 20 anos, mas confessa que ainda se está muito longe do que é desejável. Sublinha que foram feitos avanços notáveis na área da saúde e da educação, mas perante os números da subnutrição que assolam o país exclama: “São inaceitáveis!”. Aponta as responsabilidades para a falta de qualidade da gestão, e dos quadros da administração pública, que apesar de terem melhorado, estão longe do que se exige. Ramos Horta diz que Portugal, mesmo com todos os incidentes recentes, é o “nosso melhor amigo”. E acrescenta que a língua portuguesa nunca foi tão falada em Timor. Para Macau só há elogios, e estende a passadeira para que possa haver investimento macaense. O dinheiro da RAEM é preciso e desejável, defende o homem que foi a voz de Timor no estrangeiro durante os anos de luta contra a ocupação indonésia.

Em Portugal começámos a olhar primeiro para si como um activista, um elemento da resistência. Depois os anos passaram, e tornou-se político, posteriormente orador em conferências pelo mundo inteiro, e também conselheiro de muitos líderes mundiais. Em que o Ramos Horta mudou nas últimas décadas?

Primeiro, sinto alguma satisfação por ter contribuído para a independência de Timor-Leste, e nos últimos 17 anos, desde a independência, ter participado na promoção da paz, da estabilidade, da conciliação, e na consolidação da nossa democracia, que, hoje em dia, é classificada pelo “think tank” conservador “Freedoom House” como a melhor democracia do Sudeste asiático. Também a instituição que monitoriza a liberdade de imprensa, em Bruxelas, põe o nosso país como o que dispõe de maior liberdade de imprensa da região, e é mesmo uma das melhores do mundo neste aspecto. Contribuí, não só como ministro dos Negócios Estrangeiros, em que impulsionei o país a rectificar todos os tratados internacionais relativos aos direitos humanos, mas também para que a nossa constituição proibisse a pena de morte e a prisão perpétua. E, por fim, promovi a reconciliação nacional. Nesse aspecto, não mudei nada em relação às minhas convicções antes da independência e durante a luta.

Nada se transformou?

Hoje tenho muitas actividades internacionais, mas estou a reduzi-las, porque exigem demasiadas viagens. Vim a Macau, e vou agora a Chongqing. Há duas semanas estive em Xangai, mas porque é relativamente perto. Cancelei muitas viagens para a Europa.

Está cansado?

Sim, as viagens transcontinentais são muito complicadas. Antes até viajava em classe económica, agora desculpem, mas não o faço. Prefiro ficar em casa.

Sente-se menos romântico e ideológico, mas mais pragmático?

Num livro escrito sobre Timor, já em 1975, havia um capítulo todo dedicado a mim, com o título “Ramos Horta, o pragmático”. O texto até era lisonjeador em 80% da sua extensão, o resto não o era necessariamente. Não será um retrato fiel de mim, mas é a opinião de quem escreveu, e que não tem de ser simpático. Mas continuo a acreditar nos grandes princípios da solidariedade, de liberdade e de justiça, e que com maior ou menor esforço vamos criar num mundo melhor, e que podemos converter todos os que estão de um lado que nós acreditamos ser errado, incluindo alguns regimes autocráticos…. Mas como é que alguém pode criticar a China de ter o regime que têm, um país com 1,4 mil milhões de pessoas? Se começassem a inventar uma democracia à europeia, onde é que estaria a China, realisticamente?

Acha, portanto, impossível que a China tenha uma democracia ocidental, e que o país seja dessa forma governável?

Eu diria que a China tem que ter o regime e o sistema político que eles entendam. Os chineses sabem, pela sua experiência milenar, o que é melhor para a China em termos da sua estabilidade e da sua prosperidade.

Mas essa assunção não põe em causa alguns dos direitos humanos plasmados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que o Ramos Horta diz defender?

Pode pôr em causa, mas é impressionante o que este país conseguiu fazer sobretudo a partir da iniciativa de modernização lançada pelo Deng Xiaoping — que libertou centenas de milhões de chineses da extrema pobreza — ao restaurar a dignidade e o orgulho da China enquanto nação no mundo. Foram invadidos por todos: franceses, norte-americanos, ingleses, que impuseram duas guerras de ópio, e pelo Japão também. As maiores barbaridades foram perpetradas contra os chineses pelas grandes civilizações cristãs europeias. E milhões morreram às mãos da pobreza, morreram a construir outros países — os que foram erguer caminhos-de-ferro nos Estados Unidos, ou os que procuraram melhores vidas na América Latina e em África.

Mas todo o desenvolvimento social e económico que está a ter, não obrigará a outros passos a nível político, e a própria população não se tornará mais exigente?

Eu conheço a China desde 1976, quando pela primeira vez fui a Pequim. Daí para cá houve evolução política, na altura, por razões económicas mas também políticas, não havia um chinês a viajar individualmente pelo mundo. Hoje são dezenas de milhões que o fazem livremente, como turistas. São milhões a estudar no exterior, nos Estados Unidos, na Europa, na Austrália, na América Latina. A livre circulação é uma liberdade fundamental. Há um fenómeno que não vejo citado, nem referido: se a China fosse um regime tão fechado, tão totalitário, não havia milhões a viajarem, e a reciclar os dólares americanos e a beneficiar outros países. Em segundo lugar, esses milhões de chineses não regressariam ao país. A percentagem dos que estudam em universidades americanas, europeias ou na Austrália, e que lá ficam, é mínima para não dizer nula. Se não se sentissem livres e satisfeitos com o que têm na China, não voltariam como acontece em tantos outros países. Aqui regressam todos.

Portanto, o facto de a China não ser uma democracia, para si, neste contexto, não é um problema?

Não me preocupa rigorosamente nada. Porquê? A China evoluiu politicamente. Hoje há muito mais escrutínio da elite no poder, e o sistema tem alternância. O Presidente chinês exerce um mandato durante dez anos. Talvez agora Xi Jinping possa prolongá-lo, mas não é nada de novo em relação a outros países democráticos, em que os presidentes querem ir além do limite constitucional. Eles têm um consenso de escrutínio político muito rigoroso.

Disse há pouco que o definiam como um pragmático, e, segundo me parece, vê-se dessa forma. É essa característica que faz com que se levante contra as vozes que em Timor contestam a cada vez maior presença de investimento chinês?

A crítica é mínima, e vem de alguma ONG habitual. Respeito-as, mas esses indivíduos da sociedade civil, antes de entrarem na política e de serem governantes apresentam as soluções mais milagrosas para os desafios no país. Muitos deles estão hoje no Governo, e já se esqueceram dessas soluções milagrosas que advogavam nas plateias da sociedade civil. Conheço-os a todos. Isso não acontece só em Timor. Algumas ONG nunca seriam eleitas para poder nenhum, só são bons a fazer análises e críticas. Mas é sempre útil, vamos ler o que dizem os relatórios deles.

Todavia, não lhes atribui importância? No seu entender, não há um sentimento popular de receio em relação à entrada da China em sectores nevrálgicos da economia timorense como as infra-estruturas e a energia?

Não me preocupa, nem a mim, nem à esmagadora maioria dos timorenses, porque não é só a China que está presente em Timor. A Indonésia tem uma presença muito maior, há muitos mais indonésios desde a independência, estamos muito mais dependentes da Indonésia do que de qualquer outro investidor. O país defende a diversificação das suas relações: hoje, 70% do nosso comércio é com a Indonésia. Quero ver esse valor diminuir, actualmente estamos totalmente dependentes das companhias aéreas e de agências de viagens indonésias.

Essa é a dependência que mais o preocupa?

Somos muito mais dependentes da Indonésia do que da China. Se a China tiver mais presença, com companhias de aviação a voar para Timor, e operadores turísticos, ajudam-nos a estar menos dependentes da Indonésia e da Austrália.

Contribui para a diversificação das fontes de financiamento.

Para a diversificação não só da economia, mas também das relações regionais.

A economia timorense continua a ser monocultural?

O petróleo e o gás são a verdadeira riqueza de Timor, e o café depois destes dois, mas muito abaixo. O Governo tem feito pouco para melhorar a cultura do café. Falamos muito dele, muito de agricultura, mas pouco temos feito. Estamos muito dependentes do petróleo, e não há razão para que hoje em dia não tenhamos duplicado a produção e exportação de café. É um grande falhanço do Governo. Também não há nada que justifique, que sejamos, actualmente, um grande importador de arroz. Mas atenção, noutras áreas fizemos progressos. Conheço mais de 100 países do mundo, e há lugares com 50 anos de independência e que estão piores do que Timor.

Porque diz isso?

Basta ver o relatório de desenvolvimento humano das Nações Unidas, que é o melhor que há, em termos da avaliação do estado económico e social do desenvolvimento de cada país. Aí estamos acima de todos os países africanos subsarianos, à excepção da África do Sul e de Cabo Verde.

Mudando de tema, passam agora 20 anos desde a proclamação da independência de Timor. Quando estava na resistência a lutar por um país livre, é aquele que existe hoje com que sonhava?

Os nossos sonhos… (pausa) realizaram-se em relação a ter um país digno, soberano, que não fosse esmagado por qualquer potência estrangeira. Esse era o maior sonho. Quanto a dar ao povo os bens materiais, que são os dividendos da independência, creio que fizemos muito: em 2002, havia 19 médicos, hoje há mil; nesse ano não havia nenhum hospital regional moderno, agora, além do hospital nacional, temos cinco hospitais regionais, apesar de não se compararem aos que existem em Portugal e em Macau, mas é melhor do que o que não existia. Em 2002, dizia-se que não havia quadros timorenses. Agora temos centenas de mestres e doutores, não apenas em Timor, mas em Portugal, Austrália, Tailândia, Filipinas, Indonésia, Singapura, Estados Unidos, Brasil. Há 15 anos, se fosse ao Ministério das Finanças estavam entre 50 a 100 estrangeiros, agora não há um único. No nosso Banco Central, que é muito credibilizado internacionalmente, não vê um único estrangeiro a trabalhar, apenas alguns consultores.

Portanto, o salto foi brutal?

Foi brutal. Ainda assim, a nossa administração pública apesar de não ser das melhores do mundo, desenvolveu-se nos últimos 20 anos. A nossa produtividade é das mais baixas da região, seja na agricultura, seja na Função Pública, mas também melhorou bastante. A corrupção aumentou, não escapamos a essa tentação, que aprendemos com a vizinha Indonésia, mestre na corrupção, aprendemos com a Tailândia e com as Filipinas. Mas uma vez mandei um e-mail a um amigo, e, comentando a corrupção no Brasil, disse: “Os timorenses e os portugueses comparados com os nossos irmãos brasileiros, são uns trouxas”. (risos) Em Timor, temos uma justiça que não brinca com a corrupção, e às vezes exagera. Não acredito que em Portugal, e em qualquer país da Ásia, haja tantos altos funcionários, e políticos a cumprir pena de prisão por corrupção.

Por outro lado, em Timor-Leste, quase metade das crianças com menos de cinco anos sofrem de fome e dois terços apresentam sinais de anemia. Cerca de um quarto das mulheres apresentam peso a menos (dados da União Europeia e da Oxfam Australia). Este é o retrato de um país com graves problemas, o que é que tem falhado?

Esses números que cita são exagerados. Não sei se estão correctos. Que as crianças passem fome é falso, podem dizer que há subnutrição. Não há fome em Timor. São coisas diferentes. Há 30 a 40% da população com subnutrição em Timor [em 2017, a Unicef falava de 58,1% da população a sofrer subnutrição moderada e severa]. A extrema pobreza ainda existe, e isso são dados inaceitáveis. Em 17 anos de independência, com os recursos que temos, mesmo sem qualquer ajuda internacional, já não devia haver subnutrição, nem extrema pobreza.

O país tem vivido momentos de grande instabilidade política, referida como uma debilidade de Timor por instituições internacionais como o Banco Mundial. No ano passado, a dificuldade de união para a formação de Governo, levou-o a fazer um apelo directo a Xanana Gusmão. Como está a sua relação com ele?

Continuo a ter muito boas relações com ele e a admirá-lo. Ao longo dos anos, o Xanana demonstrou ser uma pessoa fenomenal, de uma inteligência fenomenal. Ele arriscou e apostou no combate pela fronteira marítima permanente de Timor com a Austrália. Teve de acreditar piamente que Timor tinha esse direito, à luz das convenções internacionais, e da convicção passar à acção. Eu não assumiria a responsabilidade de desafiar a Austrália no quadro do Direito internacional, e no contexto da nossa situação. Ele mal teve uma oportunidade — que resultou da descoberta de que a Austrália fazia espionagem com equipamento electrónico nos nossos escritórios, o que só por si podia não valer no tribunal internacional — e a Austrália cedeu. Temos a fronteira marítima exactamente como nós queríamos. Isto é 100% responsabilidade do génio do Xanana e da coragem dele. Não quer dizer é que tenha sempre razão.

Então a que se deve esta instabilidade política quase permanente no país?

Vou responder o que já disse numa resposta a muitos jovens que me fizeram perguntas sobre isso. Não foram os norte-americanos ou os portugueses que nos impingiram esta Constituição. Foram políticos timorenses que a fizeram orgulhosamente: primeiro o multipartidarismo, com certos poderes alocados ao Presidente da República. Não bastava o Parlamento para fiscalizar o Governo, deu-se ao Presidente outros poderes que levam, às vezes, a que possa vetar o orçamento de Estado, ou a entrada de membros do Governo. Eu não concordo com isto, o povo elege o partido maioritário, o partido governa, deve nomear o primeiro-ministro, e depois caberá aos tribunais julgar, se os ministros forem acusados de crimes graves.

Esses poderes do Presidente da República vieram do sistema português…

Exacto, foi uma cópia da Constituição Portuguesa…

Mas é raro em Portugal o Presidente da República não aceitar a nomeação de ministros…

Em Portugal funciona, é país há 800 anos. Tem maior maturidade e maior experiência democrática.

É contra o multipartidarismo?

Não, não. Mas disse a esses jovens que era mais fácil se tivéssemos o partido único como na Coreia do Norte. E perguntei: ‘É isso que querem?’ Todos disseram que não. Então temos de saber viver dentro da modalidade política que escolhemos. Mas uma coisa é certa, apesar da dita instabilidade, os orçamentos passaram, em 2018 e 2019. Não tem havido um único caso de violência política em Timor.

Essa tensão política tem correspondência social, ou é apenas luta de poder?

Não tem nada a haver com clivagens, nem sociais, nem étnicas, nem religiosas. É apenas luta pelo poder. Mas independentemente disso, não há violência política no nosso país, até o índice de criminalidade é muito baixo. Não temos crime organizado como há em Macau ou Hong Kong, Indonésia e Tailândia.

Então porque é que isso acontece?

Má gestão, mau planeamento, má execução.

Pelos governantes?

Sim, um dos casos é na agricultura. É a base para combater a subnutrição e melhorar a segurança alimentar. É a prioridade política e ética, número um. Temos obrigação de dar ao povo água potável e saneamento.

Mas Timor tem apresentado crescimentos do PIB quase todos os anos, e para este ano prevê-se que o produto cresça 3,9%, e no seguinte 4,9%. Há uma má distribuição da riqueza?

O problema é a melhor definição das prioridades, mas não é só isso. É necessário atribuir recursos a essas prioridades. O problema é a falta de recursos humanos, de competência. Uma coisa é alguém ter o grau académico, recentemente adquirido, porque alguém com um mestrado ou um MBA em Harvard não se converte automaticamente num grande executivo que soluciona problemas. Se assim fosse, com centenas e milhares de MBA saídos das universidades mundiais, já não devia haver falhanços nas economias do mundo. Um falhanço comum em países do terceiro mundo é não conseguirmos ter uma administração competente, dedicada e honesta. Podemos ter um primeiro-ministro com grande visão, elementos do Governo altamente qualificados, mas sem uma administração pública que lhes dê corpo, podem ter todas as visões mais românticas e aplaudidas, mas não chegam.

As personalidades políticas em Timor são as mesmas de há 20 ou 30 anos. Há dificuldade de haver uma renovação geracional no poder?

Não. Isso é uma “betise” [estupidez] dos respeitados e estimados jornalistas e dos respeitados e estimados académicos (risos). Basta que saibam contar de um até dez, e vai perceber quantos da velha geração estão no Governo hoje. Não há nenhum. Alkatiri está fora, o Xanana é responsável pelo petróleo, o primeiro-ministro é da nova geração. No Governo não há ninguém da geração de 75. E no parlamento também não. O poder judicial ainda é mais jovem. Mas também é verdade que estando no poder ou não, há uma grande influência da geração de 75, por duas razões: temos uma legitimidade que vem das eleições, mas principalmente do lastro histórico. Em Timor respeita-se muito a idade. Os elementos das novas gerações têm medo de assumir responsabilidades. Eles reclamam, mas no fim estão sempre à espera do Xanana e do Mari Alkatiri.    

A Papua, um povo pobre e com condições de saúde débeis, quer separar-se da Indonésia. O Ramos Horta defendeu o diálogo, o que parece não jogar com aquele que foi o passado de Timor. Porque é que acha que esta é uma luta diferente da dos timorenses?

Há lutas que são parecidas, mas pelo facto de serem similares, podem não se aplicar as mesmas coisas. Desde 1975 que dizemos que Timor foi uma colónia de Portugal, durante 500 anos, todas as outras províncias indonésias, que compõem a grande nação indonésia, resultam da colonização holandesa. Papua foi parte desse processo. A Indonésia nunca reclamou Timor por ser território português. Neste caso, fui convidado por Jacarta a visitar a Papua. Depois de ir, partilhei com as entidades indonésias o meu ponto de vista, que não é nada do outro mundo. A Indonésia é um país multi-étnico, multi-racial e multi-religioso, embora seja o maior país de maioria muçulmana no mundo. Cabe aos indonésios fazer sentir, em particular às minorias étnicas — caso queiram manter a unidade e integridade territorial —, que fazem parte dessa nação, e dessa grande sociedade.

Isso não está a acontecer na Papua.

Jacarta está a fazer um enorme esforço para desenvolver o território. O orçamento de 2017 para a Papua, que tem quatro milhões de habitantes, foi de dez biliões de dólares. No entanto, disse aos meus amigos indonésios que há problemas na sociedade que não são apenas resolvidos com dinheiro. As questões da alma e do coração não se solucionam assim. Aquela comunidade tribal com milhares de anos reclama outras coisas, não necessariamente a independência, como muitos pensam. A Indonésia atribuiu autonomia genuína às províncias. Papua tem um governo local eleito, um governador eleito, e o comandante de toda a marinha indonésia é da Papua. Cabe à Indonésia estudar qual a melhor forma de autonomia para a região.

Portanto, não se compara à luta de Timor?

Não tem comparação nem no quadro histórico, nem no Direito internacional.

Falemos agora das relações com Portugal, o caso de Tiago e Fong Fong Guerra (julgados e condenados a oito anos de cadeia e a quem a embaixada portuguesa local deu dois passaportes para saírem do país) marcou muito a relação recente entre Portugal e Timor, ou essa ligação histórica, no seu entender, permanece forte?

As relações entre Portugal e Timor continuam excepcionais. Portugal é o nosso melhor amigo, embora não vizinho. Mesmo nas situações difíceis do passado, em que do nosso lado houve erros na abordagem dos problemas, como na expulsão de juízes, aprendi ao ver como do lado de Portugal se geriu essa situação. O meu respeito pelos governantes portugueses só subiu, tal foi a elegância, a “finesse”, a calma e a serenidade com que lidaram com uma questão tão delicada. Quanto aos dois cidadãos condenados por lavagem de dinheiro, não comento a substância do caso, porque respeito o nosso Procurador Geral da República e os juízes. Não concordei com a pena atribuída, como não concordo com penas, no nosso país, a certos casos de corrupção.

Mas não foi apenas a aplicação da pena, o próprio Mari Alkatiri considerou grave a acção de Portugal.

Houve um detalhe do nosso lado, nunca foi clarificado a Portugal, enquanto decorria o processo, que não podia emitir os passaportes. São cidadãos, pediram o documento e ele foi emitido.

Foi um erro processual da justiça timorense?

Foi o que me constou. Mas não concordo com as penas excessivas, em casos de corrupção, que têm sido aplicadas a cidadãos timorenses, incluído governantes. Acima de tudo, para mim, tem de haver compaixão e proporcionalidade. Uma coisa é alguém roubar 100 mil dólares, que até podem ser recuperados, outro é matar alguém cuja vida não é recuperável. Aplicar cinco anos de prisão a uma ministra num caso de quatro mil e tal dólares? Se fossem 100 mil apanharia perpétua? Um milhão, seria fuzilamento? Tem de haver proporcionalidade. Ainda por cima uma mulher, e doente. Porque não uma pena suspensa e recuperava-se os quatro mil dólares? Em Portugal, vocês são muito mais benevolentes, o pessoal do BES está livre e alegre. (risos)

Há poucos meses, uma deputada do partido Khunto, um dos três da coligação do Governo timorense, defendeu que se deveria excluir definitivamente o uso do português nos debates parlamentares, para facilitar a compreensão dos deputados. Isto é só um episódio ou uma tendência?

Não sei se essa deputada fala tétum, sequer. As duas línguas funcionam no parlamento. Se calhar a frustração dela é porque não fala nenhuma das duas línguas. Nunca foi problema no nosso parlamento. Há sondagens feitas recentemente em que a maioria dos jovens timorenses pensa que o português é importante para a nossa identidade. Em 2019, temos mais timorenses a falar a língua do que em 1975, último ano da gloriosa colonização portuguesa. Nessa altura, eram apenas 7% a falá-la.  Agora estamos em 30%.

Sentem que é importante na ligação ao mundo?

O português não é uma língua como o inglês ou o francês, mas faz parte da identidade timorense. E essa está assente em alguns pilares: o catolicismo, 98% professam essa religião, e a língua tétum, que foi espalhada pelo país pelos missionários portugueses. Hoje, em cada 10 palavras do tétum, sete derivam do português. Qualquer português que chega a Timor e ouve o tétum, consegue entender. Pode-se comparar com a facilidade que vocês têm de perceber espanhol.

Para terminar, o Ramos Horta conhece bem Macau, já veio diversas vezes ao território nas últimas décadas, quais são as diferenças que nota na RAEM?

Penso que o Governo Central da China, de forma inteligente e estratégica, investiu socialmente e economicamente em Macau. Este é um pequeno território, é pouco maior do que a minha residência em Dili, que eu comprei em 2011 por menos de 10 mil dólares. Na altura dos portugueses, Macau tinha 16 quilómetros quadrados. O facto de a China permitir a abertura de mais casinos e de chineses a apostar — são 80 a 90% da clientela — é uma estratégia deliberada de fazer desta região um grande interposto financeiro e comercial, e fazer com que não seja tão subalterna em relação a Hong Kong, ou tenha um complexo de inferioridade. A China tem todo o interesse em desenvolver Macau. Parabéns também aos chefes do Executivo deste território, que foram sempre bem escolhidos pela população de Macau, e sancionados pela China, que souberam fazer uso da determinação do Governo Central.

A relação de Macau e Timor está tão aprofundada como queria?

Gostaria de ver Macau, dado o seu estatuto de grande autonomia, e dado o “superávit” que tem, pudesse apadrinhar projectos concretos em Timor-Leste.

Não há investimento directo de Macau?

Não. Apenas um investidor privado com acções na Timor Telecom. Fora disso, não há.

Mas porque é que isso não sucede?

Em parte, por falhanço nosso, por não apresentarmos ideias e propostas de como Macau pode patrocinar iniciativas em Timor. Há milhares de timorenses que vieram para Macau, mas hoje gostávamos de ter uma casa de Macau no nosso país, e que esta pudesse ser o guarda-chuva para financiar projectos de saúde, de combate à subnutrição, e que fosse um ponto activo para atrair investimento da RAEM e do resto da China. Não está a acontecer, por não aproveitarmos a boa vontade que existe em Macau. João C Malta – Macau in “Ponto Final”

Península Ibérica - Projeto prepara áreas para serem 'casas' de lince-ibérico em Portugal e Espanha

Em plena luz do dia, não há coelhos-bravos à vista, porque, devido aos hábitos noturnos, estão recolhidos nas tocas artificiais existentes num dos cercados de reprodução da espécie na Herdade da Coitadinha, no concelho de Barrancos, no Alentejo



No cercado, protegidos de predadores e com alimentação, água e vacinação garantidas, vivem exemplares de coelho-bravo, espécie quase ameaçada e que é a presa principal e a base de alimentação do lince-ibérico.

A reprodução de coelho-bravo na Coitadinha é uma das ações do projeto Pro-Iberlinx – Proteção e Conservação do Lince-Ibérico, que envolve sete entidades portuguesas e espanholas e um investimento de 1,3 milhões de euros, cofinanciado em 75% pelo Programa de Cooperação INTERREG V A Espanha – Portugal (POCTEP) 2014-2020 e em 25% pelos parceiros.

O Pro-Iberlinx pretende dar um contributo para que o lince-ibérico, espécie com o estatuto de conservação de “criticamente em perigo” em Portugal e Espanha, possa vir “a andar aí de outra maneira e com um risco menor”, explica à agência Lusa o coordenador do projeto, Diogo Nascimento, após uma visita ao cercado.

Em Portugal, precisa, o projeto desenvolve ações de preparação, gestão e melhoria de habitat em áreas nos concelhos de Barrancos e Moura, distrito de Beja, e de Monchique e Silves, distrito de Faro, para poderem ser ‘casas’ de lince-ibérico, ou seja, territórios de soltas na natureza e de fixação de exemplares libertados noutros locais, caso dispersem para aquelas zonas.

Em Espanha, o projeto, além de desenvolver ações de preparação, gestão e melhoria de habitat, segue e monitoriza a população de lince-ibérico que vive na natureza na região da Extremadura.

Segundo Diogo Nascimento, “há registos de linces que dispersaram para muitos lugares da península Ibérica e depois vão ter de se fixar em algum território”.

“Se tivermos os territórios adaptados e preparados, tanto melhor, para evitar que essas deslocações sejam muito longas, porque, nesses percursos que os linces fazem, há sempre o risco de atropelamento, que é a principal causa de morte do lince e é de evitar”, explica.

Por outro lado, as soltas de lince-ibérico na natureza realizadas desde 2014 em Portugal têm decorrido no vale do Guadiana, sobretudo no concelho de Mértola, distrito de Beja, a cargo do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, que segue e monitoriza a população a viver em liberdade.

“Mas, para efetivamente conseguirmos inverter a tendência do risco de extinção da espécie, temos de encontrar outras zonas preparadas e adaptadas para que próximas soltas possam ocorrer noutros locais” em Portugal, defendeu Diogo Nascimento.

Segundo o coordenador, as ações desenvolvidas através do projeto são “múltiplas” e dependem “do estado de desenvolvimento de cada um dos territórios”.

Nas herdades da Coitadinha e da Contenda, que são as áreas abrangidas nos concelhos de Barrancos e Moura, respetivamente, uma das ações é a reprodução de coelho-bravo para aumentar a população e há vários cercados onde vivem exemplares da espécie.

Durante a visita de Diogo a um dos cercados que existem na Coitadinha, propriedade da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), apenas se conseguiu avistar um coelho-bravo, que apareceu tão rápido como desapareceu no meio da vegetação.

“Apesar de ter uma taxa de reprodução muito rápida”, o coelho-bravo “é suscetível a algumas doenças”, como a mixomatose e a doença hemorrágica viral, e, por isso, “a população tem tendência a oscilar muito ao longo do tempo”, conta Diogo.

Nos cercados, são dadas “condições de refúgio, alimentação e vacinação” aos coelhos para que “possam ser resistentes às doenças” e, assim, conseguir-se “aumentar” a densidade da espécie.

“É preciso conhecer em pormenor quais as densidades de coelho que o território tem”, porque “só com as densidades mínimas adequadas é que se poderá pensar num território que seja capaz de receber uma população de lince”, frisa o coordenador.

Há registos de presença de lince-ibérico na Coitadinha em 2009 e a herdade, por questões históricas e pelas suas características, é território “propício para que as populações [de lince-ibérico] se possam fixar”.

Já na Contenda, a densidade de coelho-bravo foi “altíssima” e “favorável” à presença de lince no passado, mas atualmente é “reduzidíssima”, conta à Lusa João Cordovil, o diretor da herdade, propriedade da Câmara de Moura.

Por isso, frisa João, o aumento da densidade de coelho-bravo na Contenda é “uma prioridade absoluta”.

À medida que há densidades “significativas” nos cercados, alguns coelhos-bravos são transferidos para parques de adaptação ou libertados em áreas abertas das herdades onde também há tocas artificiais e é distribuída alimentação regularmente, explica João.

“Ainda falta um bocadinho” para haver densidades de coelho-bravo que permitam que a Coitadinha e a Contenda possam ser territórios “a considerar” para futuras soltas de lince-ibérico, diz Diogo.

Além da reprodução de coelho-bravo, o projeto inclui ações de sensibilização da comunidade e outras medidas de melhoria de habitat em áreas abrangidas, como desmatações, sementeiras de culturas para fauna e plantações de árvores para criar áreas de refúgio.

Os parceiros portugueses do Pro-Iberlinx são a EDIA, a Empresa Municipal Herdade da Contenda, a Câmara de Barrancos e a empresa Águas do Algarve.

Os municípios de Oliva de la Frontera e Valencia de Mombuey e a Junta da Extremadura são os parceiros espanhóis.

No processo de reintrodução do lince-ibérico, a colaboração entre Portugal e Espanha é “fundamental” e, no caso português, “a situação ideal é a expansão de zonas” preparadas para soltas e fixação da espécie e “com muito boa articulação com as zonas” existentes em território espanhol, defende João.

Através do Pro-Iberlinx, “preparámos a casa e se o lince aqui chegar ao território de Barrancos e à Herdade da Coitadinha será muito bem-vindo”, remata o coordenador. In “Sapo 24” com “Lusa”

Portugal - O primeiro país da zona do euro a emitir “títulos panda” no mercado chinês


A emissão destas obrigações com um prazo de 3 anos teve uma forte procura por parte dos investidores



Portugal tornou-se o primeiro país da zona do euro, na passada quinta-feira, a emitir dívida em yuan no mercado chinês.

Através da Agência Portuguesa de Gestão de Tesouraria e Dívida Pública (IGCP), Lisboa emitiu os denominados “panda bonds” no valor de 2 mil milhões de yuan (aproximadamente 289 milhões de dólares) com um prazo de 3 anos.

"Esta é a primeira emissão de “panda bonds” por um país da zona do euro e o terceiro soberano europeu a entrar no mercado 'onshore' da China", disse o IGCP num comunicado. Além disso, destaca que a colocação das obrigações foi fortemente procurada pelos investidores, o que superou a oferta em 3,16 vezes, permitindo que a taxa marginal inicial fosse reduzida de 4,35% para 4,09%.

Em declarações para o canal americano CNBC, o ministro das Finanças Português, Mário Centeno afirmou que esta emissão é um "passo positivo na gestão da dívida externa do país no médio prazo," e que esta operação permitirá a Lisboa expandir a sua base de investidores.

Portugal é um dos países europeus com o maior nível de investimento chinês. Entre 2011 e 2014, esta nação teve que pedir um resgate internacional durante o auge da crise da dívida na zona do euro. Desde então, a economia portuguesa voltou a ter números positivos de crescimento e as agências de notação de crédito também se mostraram optimistas em relação ao país. Na semana passada, a Fitch elevou o rating de Portugal de "estável" para "positivo", abrindo as portas para uma melhoria nos ratings ainda este ano.

Os “panda bonds” não são os primeiros dentro da União Europeia, já que a Polônia emitiu títulos estaduais no mercado chinês em 2016 e a Hungria em 2018. In “RT” - Rússia


Macau - Cooperação com a China na base do encontro entre os bancos lusófonos

Estiveram reunidos, em Macau, mais de uma centena de profissionais das áreas económica e financeira do interior da China, Macau e dos países de língua portuguesa. No encontro, que contou com a presença do secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, foi firmado um acordo de cooperação entre os bancos comerciais dos países lusófonos. Macau, diz o secretário, poderá servir de base a investimentos na China



Foi firmado o acordo para a Iniciativa do Avanço da Cooperação entre Bancos Comerciais dos Países de Língua Portuguesa e de Macau. O encontro, contou com mais de uma centena de profissionais das áreas económica e financeira do interior da China, dos países de língua portuguesa e de Macau. No evento, o secretário Lionel Leong explicou que o encontro serviu também para serem discutidas “formas de cooperação entre os bancos comerciais locais e os seus congéneres dos países de língua portuguesa”.

No discurso, Lionel Leong lembrou que, “nos últimos anos”, teve encontros com vários especialistas de países de língua portuguesa que tinham o propósito de se envolver no desenvolvimento do interior da China através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” e da construção da Grande Baía. Assim, “creio que Macau pode potencializar as suas funções conferidas pelo Estado, no que respeita ao papel de ‘Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa’”, referiu o governante, acrescentando que, “com base nas vantagens que advêm da sua posição regional e no suporte das diversas políticas nacionais, serão prestados apoios a empresas ou investidores que revelem interesse na exploração de negócios no mercado do Interior da China”. Além disso, os mesmos mecanismos poderão “assistir as empresas e os investidores do interior da China, na expansão das suas actividades nos mercados dos países de língua portuguesa”.

Wang Xiquan, presidente do Conselho de Supervisão do Banco da China, explicou que “esta proposta de cooperação consiste em fortalecer a força financeira e promover a construção da plataforma China-países de língua portuguesa”. O responsável do banco enumerou ainda duas iniciativas “importantes” da entidade: criar uma plataforma de financiamento com características próprias, em que uma das funções é participar profundamente nos países de língua portuguesa e criar um mecanismo de colaboração empresarial e financeira das empresas de língua portuguesa. Wang Xiquan informou ainda que o Banco da China assinou um acordo de cooperação com o Governo de Macau para a integração na Grande Baía.

Por sua vez, Li Guang, presidente da Associação de Bancos de Macau, disse no seu discurso que “através da assinatura da referida iniciativa, serão promovidas cooperações mais íntimas entre os bancos comerciais de Macau e dos países de língua portuguesa”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


Portugal - Dois séculos de história da guitarra portuguesa em exposição em Lisboa



De instrumento popular a objeto de arte, a história da guitarra portuguesa é contada numa exposição comissariada pelo músico Pedro Caldeira Cabral e que foi inaugurada na passada quinta-feira no Museu do Fado, em Lisboa.

“Ao concebermos e organizarmos esta exposição pensamos sobretudo na oportunidade de trazer uma nova perspetiva crítica sobre a cítara portuguesa”, afirma Pedro Caldeira Cabral num texto de apresentação de “O Som da Saudade – A Cítara Portuguesa”.

A exposição apresenta 50 instrumentos, alguns com mais de 200 anos e que são mostrados pela primeira vez, oriundos de coleções públicas e privadas, como as do Museu do Fado e de Pedro Caldeira Cabral, do Museu Nacional da Música e do Museu Nacional de Etnologia.

Até 29 de setembro, a exposição pretende traçar uma história deste cordofone que, em Portugal, já teve várias designações, de cítola, no período medieval, a guitarra portuguesa, na atualidade.

“Na verdade, a mudança na designação do instrumento correspondeu à necessidade de revalorização social do mesmo, um fenômeno que ocorreu mais tarde em Portugal com a rabeca que passou a ser designada oficialmente por Violino ou, já na década de 1950, com o violão ou viola francesa, renomeada guitarra clássica”, lê-se no catálogo que acompanha a exposição.

Pedro Caldeira Cabral, colecionador e estudioso deste instrumento, recorda que a cítara portuguesa foi “quase sempre olhada como instrumento subsidiário da prática musical específica do Fado” e raramente “encarada como objeto de arte e repositório de artes aplicadas e saberes múltiplos”.

No percurso expositivo é possível perceber as diferenças físicas de cada um dos cordofones, influenciados pela época em que subsistiram, pela dimensão, pela madeira nobre, leve ou robusta utilizada para a construção, pelas famílias de construtores, pela tipologia de ornamentos e estilizações.

No mesmo catálogo produzido, a diretora do Museu do Fado, Sara Pereira, sublinha que a exposição reúne “informação histórica sem precedentes”, um estudo organológico e “uma reflexão crítica sobre o percurso evolutivo, a decoração, os acessórios, a iconografia”.

Pedro Caldeira Cabral juntou ainda um “extenso inventário dos Violeiros Portugueses do século XV ao início do século XX resgatando, de um longo anonimato, muitos daqueles que construíram a história da guitarra portuguesa”.

Na exposição estão ainda instrumentos cedidos pelo Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria, do Museu Carlos Machado e das coleções privadas de André Boita, José Aurélio e Fernando Camelo. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”