Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Venezuela - 4 em 10 deslocados por terremotos estão nas ruas ou espaços públicos

Fome, disseminação de doenças e falta de abrigo adequado são algumas das ameaças após os tremores do último dia 24. Os serviços de saúde e necrotérios estão em estado de colapso, a ONU intensifica apoio às vítimas e serviços de resgate


As operações de busca e resgate continuaram na Venezuela nesta terça-feira, enquanto milhares de sobreviventes do terremoto tentam encontrar abrigo após terem perdido as suas casas.

Na segunda-feira, as autoridades venezuelanas confirmaram 1719 mortes, pelo menos 5034 feridos e 15.866 pessoas afetadas ou deslocadas pelos tremores consecutivos, de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter.

Comida em falta

Seis dias após os sismos, "a escassez de alimentos é generalizada" em La Guaira, o estado mais afetado, segundo a agência da ONU para refugiados, Acnur.

A porta-voz da entidade, Carlotta Wolf, afirmou nesta terça-feira que “os serviços básicos entraram em colapso e a conectividade foi amplamente interrompida”.

Ela ressaltou que as tensões dentro das comunidades estão a aumentar devido à dificuldade de acesso à assistência.

Abrigos abaixo do padrão

Uma avaliação rápida das necessidades realizada pelo Acnur nos estados de La Guaira, Distrito Capital, Miranda, Aragua e Carabobo mostrou que metade dos entrevistados estava abrigada com vizinhos ou parentes após o desastre.

Além disso, quase quatro em cada 10 estão a viver nas ruas e espaços públicos, e outros em igrejas, escolas ou instalações improvisadas.

Carlotta Wolf alertou que “esses abrigos improvisados ​​não atendem aos padrões mínimos de proteção”, em termos de privacidade, espaços seguros e níveis básicos de higiene e conforto.

A porta-voz do Acnur também expressou preocupação com a presença de crianças desacompanhadas e separadas das famílias.

Caos no sistema de saúde

Já o porta-voz da Organização Mundial da Saúde, OMS, Christian Lindmeier, disse que “os serviços de saúde estão sob extrema pressão neste momento”.

Segundo ele, o aumento nos casos de trauma ultrapassa a capacidade das instalações de saúde.

No sábado, a OMS analisou dados de 21 unidades de saúde em Caracas, La Guaira, Miranda e Falcón, concluindo que três estão "em estado crítico", seis apresentam danos estruturais ou estão parcialmente funcionais e as restantes "permanecem operacionais sob grande pressão".

Lindmeier alertou para a “prestação de serviços caótica” e fluxos de pacientes, marcados por superlotação, crescentes atrasos cirúrgicos, falha nas medidas de biossegurança e equipa severamente estressada.

O porta-voz da OMS também destacou "lacunas críticas" na prestação de cuidados de saúde, incluindo o colapso dos serviços forenses e de necrotérios, bem como o registo inadequado de vítimas e de pessoas desaparecidas.

Doenças podem espalhar-se

A OMS afirma ainda que há um risco de surtos de doenças preveníveis por vacinação, como sarampo, difteria, coqueluche, além de febre amarela e outras doenças transmitidas por vetores e pela água, incluindo dengue, chikungunya, zika, oropouche e malária.

Lindmeier explicou que muitos dos deslocados estão sob alto risco, devido à baixa cobertura vacinal antes do terremoto e ao acesso limitado às vacinas atualmente.

Ele adicionou que vários profissionais de saúde em La Guaira continuam desaparecidos, incluindo os responsáveis ​​por cuidados maternos na região, o que criou uma lacuna crítica na assistência obstétrica.

A resposta da ONU em números

  • Libertou US$ 15 milhões do Fundo Central de Resposta a Emergências
  • Estabeleceu três centros de atendimento em La Guaira para famílias que perderam as suas casas
  • O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários, Ocha, está a coordenar a mobilização de 27 países e mais de 40 equipas de busca e salvamento
  • O Programa Mundial de Alimentos, WFP, tem mais de 3 mil toneladas de alimentos em stock no país, quantidade suficiente para alimentar cerca de 10 mil famílias por dois meses.
  • A Unicef mobilizou pessoal e suprimentos adicionais para atender cerca de 650 mil pessoas, incluindo 234 mil crianças. Para viabilizar uma resposta imediata, alocou US$ 1,5 milhão dos seus recursos internos e US$ 1 milhão do Fundo Temático Humanitário Global
  • A Organização Internacional para as Migrações, OIM, está se preparando para distribuir os seus suprimentos nas áreas de maior necessidade
  • A Organização Mundial da Saúde, OMS, por meio da Organização Pan-Americana da saúde, Opas, já avaliou as condições de sete unidades de saúde, determinando necessidades de medicamentos, oxigénio, combustível e outros consumíveis essenciais. Além disso, está a mobilizar equipas médicas especializadas. ONU News – Nações Unidas


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Venezuela - “Há cada vez mais portugueses carenciados”, afirma organização Heróis do Mar

O presidente da organização Heróis do Mar alertou que há cada vez mais portugueses carenciados na Venezuela, um país onde as pessoas têm vergonha que se saiba que são pobres



“Cada dia mais se justifica a solidariedade, porque cada dia há mais carenciados, inclusive na nossa comunidade, que muita gente desconhece, porque existe muita vergonha escondida (…) nós ajudamos as famílias todos os meses, mas cada dia há mais pessoas a bater-nos à porta”, disse à agência Lusa Simão Rocha, em Tanaguarenas, no estado de La Guaira, 45 quilómetros a norte de Caracas.

Heróis do Mar é um grupo composto por duas centenas de portugueses que desde há 20 anos realiza almoços para reunir fundos para ajudar a comunidade portuguesa carenciada.

Simão Rocha explicou que cada membro do grupo pode apresentar algum caso de carenciados que conheça e todos ajudam, acrescentando que “é lamentável porque cada dia há mais necessidade” na comunidade portuguesa.

“Começámos há 20 anos, numa carpintaria em Mariche (leste de Caracas). Inicialmente não tínhamos a pretensão de ser um grupo de beneficência, mas a circunstância do país obrigou-nos a estarmos atentos às pessoas da nossa comunidade que necessitam de nós”, disse.

Explicou ainda que começaram por cozinhar à sexta-feira à tarde e que o lema inicial era “à volta de uma mesa, à boa maneira portuguesa, cultivar a amizade”.

“É importante o lema de à volta de uma mesa, à boa maneira portuguesa, porque sem a mesa não existe ajuda e porque mantemos a comunidade unida e solidária com os carenciados”, frisou.

Apesar de o grupo ser composto por 200 pessoas, participam em média, em cada almoço, entre 70 e 80 membros, não havendo nenhuma obrigação de participar.

“Quem puder participa. É um grupo muito generoso. Somos uma equipa de trabalho. Todos trabalhamos pela mesma causa. Estou orgulhosíssimo dos Heróis do Mar”, disse.

Simão Rocha explicou ainda que ao longo dos 20 anos dos Heróis do Mar aprendeu “a conviver com as diferenças dos outros de uma maneira impressionante”, a conviver, a respeitar, porque há “várias gerações pessoas de 22 a 92 anos no grupo”.

Os almoços realizam-se uma vez ao mês e há ainda os convívios familiares e o grupo está aberto a novos colaboradores.

Na Venezuela reside uma importante comunidade portuguesa, que ronda as 600.000 pessoas.

No entanto, a própria comunidade estima ser mais de 1,5 milhões, incluindo os lusodescendentes sem nacionalidade portuguesa.

A crise política, económica e social, obrigou mais de 7,7 milhões de pessoas a abandonarem a Venezuela nos últimos anos à procura de melhores condições de vida, a maioria para países da região. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”