Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A minha história de Abril de 1974

O protagonista ausente

Naquela manhã de 22 de Abril de 1974, segunda-feira, o dia seria igual a muitos outros que nos últimos tempos iam ocorrendo de quinze em quinze dias. Pela manhã bem cedo, apresentei-me mais uma vez no quartel da Administração Militar ao Campo Grande, para obter um passaporte militar que me garantia a presença em casa por mais uns dias e a redução da despesa por parte do Estado em alimentação da minha pessoa e mais cerca de 160 militares.

Estávamos todos numa amena cavaqueira na parada do quartel, aguardando que os serviços administrativos abrissem para recebermos o passaporte que nos permitia circular no exterior por um tempo determinado, uma, duas semanas. No serviço militar não é permitido distracções, mas a interessante conversa da altura levou-me a ficar distraído e a ficar de esguelha precisamente para o Comandante do quartel.

O meu cabelo estava ligeiramente comprido para um militar, nada que fosse um exagero, mas para o Comandante foi o suficiente para me interpelar em plena parada do quartel do Campo Grande e perguntar-me porque não estava eu com o cabelo cortado?

A interpelação foi justamente em frente à barbearia que existia naquele quartel e como estava encerrada, a minha resposta foi lesta ao afirmar que aguardava que a barbearia abrisse.

Não satisfeito com a resposta o Comandante questionou-me qual a razão que eu não tinha cortado o cabelo num cabeleireiro no exterior. Respondi rapidamente que auferia apenas 90 escudos mensais, o que não me permitia cortar o cabelo num estabelecimento onde qualquer comum cortava. O meu vencimento de trabalhador antes de entrar no serviço militar era de três mil e cem escudos.

O Comandante de seu nome Barros, Major Barros, não gostou da minha resposta e fez-me mais duas perguntas que eu respondi prontamente, o que não o satisfez e de imediato me deu voz de prisão até à data de embarque para a colónia de Moçambique, que estava prevista para 18 de Junho de 1974, como efectivamente veio a acontecer.

Chamou o Tenente, comandante da companhia de intendência e mandou-me deter num quarto da ala de sargentos do quartel. Acompanhei calmamente o Tenente que foi à procura de um quarto disponível para cumprir a ordem, pois apenas os soldados podiam ser detidos na prisão.

A área de sargentos estava esgotada, pois estavam muitos militares em trânsito para as áreas de combate para onde tinham sido designados e foi essa a informação que o Tenente foi transmitir ao Comandante.

Entretanto o Major Barros foi verificando que o meu caso não era único e decidiu voltar atrás na decisão de prisão e marcou uma revista para duas horas depois para a verificação do atavio.

No Campo Grande junto à Avenida do Brasil havia uma barbearia, perto da pequena capela que por lá ainda existe e eu tive a honra de ser o primeiro a cortar o cabelo, pois o desenrolar do acontecimento tinha sido observado pelos outros 160 colegas.

Duas horas depois, formou-se a companhia, 4 pelotões, cada um com cerca de 40 jovens militares, um aspirante a comandar cada pelotão e o Tenente da companhia de intendência.

Não apareceu o Comandante Barros, mas sim o 2º Comandante, o Major Queiroz de Azevedo, que iniciou a revista por uma ponta do primeiro pelotão, formados em U alargado e, quando chegou ao terceiro pelotão, mesmo por trás da minha pessoa, mandou-me para a frente da companhia, começou a fazer o elogio do atavio de um militar e por fim pediu o meu número mecanográfico, para me dar um louvor, isto tudo debaixo de um sorriso escondido de toda a companhia incluindo o Tenente que duas horas antes tinha andado à procura de um quarto para me deter.

Este dia 22 de Abril de 1974, foi o meu dia, parece que os Deuses resolveram brincar comigo.

Três dias depois dava-se o 25 de Abril de 1974, estava em casa e em casa fiquei, pois tinha a mulher grávida, esperávamos um filho para Maio, que os nervos fizeram antecipar para o dia 26 de Abril de 1974, quando nasceu a minha filha.

Na segunda-feira dia 29 de Abril de 1974 regressei ao quartel, o ambiente era outro, havia festa por todo o lado e todos aqueles que tinham presenciado a minha cena na semana anterior corriam para mim e diziam: “Seixas, tu é que devias ter cá estado para levares o Barros preso para o Lumiar!”

O que tinha acontecido naquela quinta-feira, 25 de Abril de 1974, no quartel do Campo Grande foi que o Comandante, Major Barros, não aderiu ao Movimento das Forças Armadas e o 2º Comandante, o Major Queiroz de Azevedo, que aderiu passou a comandar o quartel. O Major Barros foi levado num “jeep” detido acompanhado por colegas meus e preso no quartel da Escola Prática de Administração Militar (EPAM) no Lumiar.

Penso que o tal louvor nunca chegou a sair no diário da unidade, o que eu sei e continuo hoje a dizer, que a única pessoa que até agora me deu voz de prisão, três dias depois estava preso e por isso e apenas isso, me considero o protagonista ausente. Que nunca mais, uma pessoa por seu arbítrio decida deter um cidadão. João Seixas - Portugal

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Macau celebra 40 anos de Abril

As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril vão ser assinaladas em Macau com várias manifestações culturais e recreativas, tendo como ponto alto um concerto de Rui Veloso.

Sob a organização da associação Casa de Portugal em Macau, e com o patrocínio da Fundação Macau e apoio institucional do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, o conjunto de iniciativas estende-se entre amanhã e domingo.

A companhia de dança portuguesa Amalgama abre o programa de comemorações, ao apresentar o espectáculo “Diáspora” no casino Sands Macau, amanhã.

Na véspera do aniversário da Revolução dos Cravos é inaugurada a exposição do concurso de arte da Casa de Portugal em Macau “Prémio 25 de Abril”, na sede da associação.

Para a tarde de 25 de Abril, sexta-feira, está reservada a inauguração da mostra fotográfica “25 de Abril Sempre. 40 fotos com 40 anos”, dos irmãos José e Álvaro Tavares. A exposição, co-organizada pela Comissão Ad Hoc 25 de Abril, vai estar patente na galeria Comendador Ho Yin do Clube Militar.

Já nessa noite, o músico Rui Veloso sobe ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau para um concerto co-organizado pela Fundação Oriente.

O dia seguinte traz ao território o historiador e ex-secretário de Estado da Cultura António Reis para uma palestra, em mais uma iniciativa co-organizada pela Comissão Ad Hoc 25 de Abril no Clube Militar. Subordinada ao tema “A Revolução do 25 de Abril”, a conferência dará lugar a um concerto de música de câmara pelo grupo Caixa de Pandora, seguido de jantar com música ao vivo pela também banda portuguesa 80 & Tal.

O filme “Águas Mil”, do realizador português residente em Macau, Ivo Ferreira, é projectado no Cinema Alegria, na tarde de domingo. A iniciativa, co-organizada pela produtora cultural Babel, encerra as comemorações alusivas aos 40 anos da revolução portuguesa. in “Ponto Final” - Macau

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Porto de Maputo apetrecha-se

Moçambique: Porto de Maputo tem mais dois rebocadores

A Companhia de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC) lançou à água na passada semana dois rebocadores com 1750 cavalos-vapor cada para melhorar as condições de funcionamento do porto. Segundo o presidente executivo da MPDC, Osório Lucas, os dois rebocadores – Sereia e Bulani – foram especificamente construídos para funcionamento no porto de Maputo tendo custado 15 milhões de dólares.

Os dois rebocadores são operados pela P&O Maritime, empresa que em 2012 ganhou o contracto para fornecer serviços navais incluindo pilotagem, atracação e fornecimento de equipagens e de manutenção dos rebocadores e dos navios dos pilotos.

Estas duas novas embarcações fazem parte de um plano director que contempla investimentos de 1,8 mil milhões de dólares para aumentar a capacidade de processamento do porto para 50 milhões de toneladas até 2033.

A carga processada no porto tem vindo a crescer de forma constante ao longo da última década, tendo aumentado de 5 milhões de toneladas em 2003 para 15 milhões de toneladas em 2012 e 17 milhões de toneladas no ano passado.


A MPDC é uma parceria entre a estatal Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (49%) e a parceria privada Portus Indico (51%), que reúne a DP World do Dubai, Grindrod da África do Sul e a empresa moçambicana Moçambique gestores. In “Cargo  edições” - Portugal

Daniel Cohn-Bendit

Daniel Cohn-Bendit – Um homem da sua época

O eurodeputado franco-alemão, Daniel Cohn-Bendit, anunciou no Parlamento Europeu a decisão de pôr fim à sua já longa carreira política, no final de cerca de 46 anos de activismo e enorme mediatização pública. O ponto mais alto dessa mediatização ocorreu precisamente há 46 anos, quando emergiu como o rosto mais visível do movimento do protesto estudantil que explodiu em França e que passou para a história com o nome de Maio de 68 – marco de um protesto que, depois, se espalhou por largas partes do mundo, especialmente na Europa e na América Latina.

Para as gerações actuais, quer na Europa, quer em outras partes do mundo, o nome de Daniel Cohn-Bendit não quererá dizer nada ou quase nada. Para a minha geração, ele foi o contestador mais famoso de uma época que exigia profundas mudanças, muitas das quais ficaram apenas pelo sonho…

Fazendo uma análise retrospectiva, vejo que a contestação social de 1968, de que Daniel Cohn-Bendit se tornou o grande emblema, resultou dos fenómenos contraditórios emergentes do desenvolvimento do modelo capitalista na Europa – e um pouco por todo o mundo – assim como dos decorrentes da implantação do “socialismo real” no chamado Bloco do Leste europeu. Decidi, por isso, revisitar esse período histórico. Vamos, pois, ao relato, mesmo que sucinto, do acontecido.

Tudo começou com a eclosão de greves em algumas universidades e escolas de ensino secundário em Paris, após confrontos com a administração e a polícia. À repressão policial, os estudantes franceses responderam com a convocação de uma greve geral que foi acompanhada por boa parte dos trabalhadores que também decidiram pela ocupação de fábricas em toda a França.

O envolvimento da classe trabalhadora deu outra dimensão ao movimento de contestação iniciado pelos estudantes, pondo em causa o poder do general Charles De Gaulle, então Presidente francês.

Os líderes estudantis reivindicavam o fim dos valores da “velha sociedade”, e o surgimento de novas regras de funcionamento no sistema educativo, o abandono dos velhos conceitos sobre a sexualidade e o prazer. Tiveram, assim, o apoio explícito de renomados pensadores da época, mesmo que alguns, como o filósofo Jean-Paul Sartre, tenham posteriormente declarado não ter entendido bem o que realmente queriam aqueles jovens contestatários, tal era a heterogeneidade do movimento…

A contestação juvenil aderida inicialmente pela classe trabalhadora foi todavia vista com alguma relutância quer pelos sindicatos dos operários, quer pelo Partido Comunista Francês, na época muito próximo dos cânones do Stalinismo.

O general Charles De Gaulle decidiu, então, realizar eleições, e satisfazer algumas das principais reivindicações dos trabalhadores – como, por exemplo, aumentos salariais e melhores condições de trabalho – provocando, assim, a corrosão e a desmobilização do movimento de contestação que estava a pôr em causa o seu poder.

Embora se tenham travado combates de rua entre estudantes e forças policiais, as reivindicações estudantis eram assumidas, sobretudo, pela exibição de cartazes onde se podiam ler frases como: “A imaginação ao poder”, “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo!”, “É proibido proibir”, etc. Havia aqui, pois, uma mescla de esquerdismo com anarquismo, deixando também de sobreaviso os próprios líderes do Bloco Comunista Europeu.

O grande inspirador da chamada Nova Esquerda, Herbert Marcuse, transformou-se num dos principais apoiantes dos estudantes revolucionários que tiveram igualmente a adesão de outros intelectuais, entre os quais cineastas famosos como François Truffaut e Jean Luc-Godard. Inspiraram ainda músicos como os Beatles - através de “Revolution” - e os Rolling Stones – que compuseram “Street Fighting man”.

O movimento insurreccional ganhou adesão no próprio espaço político dominado pela então União Soviética, de que resultou a chamada “Primavera de Praga”, de Alexansder Dubcek, com a implantação do seu “socialismo humano”, reprimido pelos tanques de guerra do então Pacto de Varsóvia. E foi para além da Europa, para o Brasil e para o México.

De certa forma, a minha geração política e académica é também tributária desse movimento de contestação que nasceu nos meios estudantis da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e que rapidamente mereceu a adesão da Sorbonne, estendendo-se até mesmo para universidades no Japão.

O pano de fundo de tudo isso era a insatisfação de uma geração de novos actores sociais que estimularam a acção posterior de movimentos ambientalistas, defensores dos direitos humanos, lutadores pelos direitos das minorias, a luta contra a segregação racial e outras formas de discriminação.

Fazendo hoje um balanço, é justo dizer que o movimento reivindicativo que teve em Daniel Cohn-Bendit o seu rosto mais visível deixou marcas indeléveis no percurso da nossa história moderna – mesmo que os historiadores de agora lhe reconheçam a falta de um ideário bem estruturado.

É justo, pois, o modo como o Parlamento Europeu lhe rendeu homenagem, ao reconhecer a validade do papel que desempenhou ao longo destes anos – vinte dos quais como euro deputado.

Por mim, e pelos que comigo comungaram os ideais de liberdade, aqui vai o nosso abraço fraterno, quando decides, agora, colocar ponto final a mais uma fase da tua luta por um mundo melhor. Pinto de Andrade – Angola in “jpintodeandrade.blogspot.pt”

terça-feira, 22 de abril de 2014

Guiné Equatorial - Empresários brasileiros de visita

A convite do Dr. Benigno Tang, embaixador da Guiné Equatorial no Brasil, desloca-se a Malabo, capital do Guiné Equatorial, uma missão de empresários brasileiros que vão fazer uma prospecção do mercado local, estando a partida prevista para o próximo dia 27 de Abril e o regresso a 03 de Maio de 2014.

Segundo a Afrochamber, Câmara de Comércio Afro-Brasileira, durante a missão serão realizadas “Rodadas de Negócios” com representantes dos sectores público e privado, bem como uma programação de interação com os líderes da Cemac – Comunidade Económica e Monetária da África Central. A Afrochamber recorda que a Guiné Equatorial é o país africano com maior rendimento per capita e o terceiro maior produtor africano de petróleo da África subsaariana. Atualmente com o desenvolvimento das infraestruturas promovidos pelo governo da Guiné Equatorial abrem-se oportunidades de cooperação comercial por empresas dos mais variados segmentos.

Entretanto a embaixadora do Brasil na Guiné Equatorial, Eliana da Costa, foi recebida na Câmara de Comércio de Bioko onde manteve uma reunião com o respetivo presidente, Gregorio Boho Camo, para preparar os pormenores da visita.

Segundo a embaixadora Eliana da Costa o sector que abre as portas nos dois sentidos é o do comércio bilateral e que podem contribuir para o desenvolvimento dos dois países. Nas áreas que a Guiné Equatorial pretende desenvolver, a embaixadora identificou os setores da construção, da alimentação, maquinaria para a indústria e formação profissional.

Para melhor conhecer o programa da visita da missão empresarial aceda aqui. Baía da Lusofonia

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Guiné Equatorial e a Espanha

Rajoy e Obiang

O encontro, ou melhor, o desencontro entre os líderes da Espanha, o presidente do governo Mariano Rajoy com o presidente da República da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, durante a recente Cimeira África - União Europeia realizada em Bruxelas, são um ponto para refletir sobre a política externa espanhola e a necessidade de a reorientar para a retomada do diálogo com a cultura latino-americano no mundo. Uma coisa foi certa: enquanto Rajoy desprezava a foto no seu encontro com o seu homólogo africano, muitos outros presidentes tentaram sentar-se à mesa de Obiang e ocupar o espaço deixado pela Espanha nas suas relações com a Guiné Equatorial. A presença americana ou chinesa ocupam agora um espaço primordial no país africano.

A recente Cimeira África - União Europeia que decorreu em Bruxelas e que reuniu os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus e africanos para abordar os problemas Norte-Sul, tem atraído a atenção incomum em torno dos líderes e das propostas. O primeiro-ministro espanhol, o conservador Mariano Rajoy, conseguiu que a sua proposta de agenda para resolver o problema da imigração ilegal que assedia quase diariamente a fronteira espanhola nos enclaves africanos de Ceuta e Melilla fossem incluídas, mas não se chegou a qualquer decisão para resolver este problema que cerca as fronteiras da UE por terra e mar.

Mas o que tem atraído mais atenção tem sido a resistência de Mariano Rajoy para deixar-se ser fotografado com Teodoro Obiang Nguema, presidente da Guiné Equatorial, uma antiga colónia espanhola que teve a sorte de encontrar grandes depósitos de petróleo e gás no subsolo da plataforma continental das suas águas territoriais. Obiang aproveitou a sua viagem à Europa e pode também tomar parte no funeral pelo falecimento do ex-presidente espanhol Adolfo Suarez, impulsionador da transição espanhola após a morte de Franco, em 1975, mas Rajoy e os ministros espanhóis evitaram o contato com o presidente da Guiné Equatorial para não "sentirem-se contaminados" nos meios da comunicação social.

Ao fim ao cabo, não deixa de ser irónico que o mesmo Obiang Nguema nascido como espanhol em 1942, e que inclusivamente chegou a formar-se como militar na Escola de Oficiais do Exército que a Espanha ainda tem em Saragoça, donde saiu como Tenente. Hoje em Espanha Obiang é tratado como um pária, mas não agem como outros países que viram na Guiné Equatorial uma oportunidade de negócio.

O sentimento do equatoguineano frente aos seus homólogos espanhóis é como o pai que abandonou seu filho: dor pelo abandono e indiferença, mas o orgulho pela independência alcançada. A República da Guiné Equatorial é hoje um país de contrastes, como pode-se observar no decorrer do “Fórum Emerging Guiné Equatorial”, realizado em Malabo nos passados dias 3 e 4 de Fevereiro de 2014, com uma forte representação de autoridades financeiras e monetárias de todo o mundo, investidores internacionais e diversas autoridades. Mas também chamou a atenção os reconhecimentos que brindam hoje a Guiné Equatorial e o seu presidente Obiang, pelos países africanos, especialmente do Golfo da Guiné, velhos rivais, que reconhecem na Guiné Equatorial uma evolução, não só no económico ou nos investimentos, mas também no social e no político.

Obiang é mais um militar que um político, e sua orientação está sempre focada em atingir metas e objectivos concretos. A Guiné Equatorial deixou muito rapidamente de ser considerado um país com um baixo índice de desenvolvimento humano (IDH), para ser considerado como médio, com um IDH de 0,55, e os especialistas acreditam que, durante os próximos cinco anos possa atingir a categoria de alto desenvolvimento com IDH acima de 0,70. Boa parte destes evidentes sucessos e o crescimento exponencial que está acontecendo no país deve-se à sorte granjeada pelas suas reservas de petróleo.

Embora neste contexto, a situação da Espanha com respeito à Guiné Equatorial é inconcebível para muitos, pois questiona um dos poucos líderes africanos que é neste momento respeitado tanto pela China, os EUA ou a França. A Espanha continua em recessão nesta área do mundo, como acontece em muitas outras, mas aqui é percebido com um sentimento emocional que não é apreendido no resto. A Guiné Equatorial é hoje o único país de África onde se fala espanhol, mas este idioma também está em declínio em favor do inglês ou francês. O “Fórum Emerging Guiné Equatorial” foi um bom exemplo: escassas foram as empresas espanholas que estiveram presentes, frente a um aluvião de investidores e empresas francesas ou americanas: os uísques bebidos, após o términus das sessões realizadas, nos bares e hotéis eram num diálogo em língua inglesa.

Os pecados da Espanha com a Guiné Equatorial vêm de há muito tempo: A Hispanoil abandonou as explorações petrolíferas e, simultaneamente as empresas retiraram-se das explorações pesqueiras ou do negócio do cacau. É por isso que é incrível como a Espanha e o seu governo ignora todos os que tiveram a ver com o seu passado numa dinâmica de um salto para a frente: enquanto Rajoy não quer sentar-se à mesa com o mandatário da Guiné Equatorial há dezenas de dignitários de todo o mundo que estão ansiosos para ter a oportunidade de sentar-se ao lado de Obiang e de tratar de negócios, da mesma maneira como fazem os franceses e os americanos. Se a Espanha já foi o primeiro parceiro económico da Guiné Equatorial, hoje esse espaço foi cedido para o terceiro lugar para o benefício dos Estados Unidos e da China. E a distância continua a crescer.

A Guiné Equatorial soube ganhar a pulso um crescente reconhecimento na esfera das relações externas centro-africanas, e não tem sido precisamente com a ajuda da Espanha. Os avanços na electrificação, água corrente ou na habitação social são notórios, sendo um dos países da região que mais rapidamente tem avançado nos últimos anos. É também o único que conseguiu controlar as epidemias como a malária, ou que atingiu uma elevada cota da escolarização infantil. A Guiné Equatorial enfrenta um futuro promissor para um país que reúne um pouco mais de 700 mil pessoas num território relativamente pequeno.

E a confiança que merece o investidor estrangeiro é precisamente o da segurança que garante a presença de numerosas empresas estrangeiras, num ambiente estável e de crescimento constante. Para muitos dirigentes africanos, a Guiné Equatorial passou por Bruxelas como um exemplo, um modelo invejável e a seguir por todos aqueles que quiserem parecer-se. José Barceló – Espanha in “El Mundo Financiero”

Tradução: Baía da Lusofonia

domingo, 20 de abril de 2014

Páscoa

 Vi Jesus Cristo Descer à Terra

 Num meio-dia de fim de primavera
 tive um sonho como uma fotografia.
 Vi Jesus Cristo descer à terra.
 Veio pela encosta de um monte
 tornado outra vez menino,
 a correr e a rolar-se pela erva
 e a arrancar flores para as deitar fora
 e a rir de modo a ouvir-se de longe.

 Tinha fugido do céu.
 era nosso demais para fingir
 de segunda pessoa da Trindade.
 No céu era tudo falso, tudo em desacordo
 com flores e árvores e pedras.
 No céu tinha que estar sempre sério
 e de vez em quando de se tornar outra vez homem
 e subir para a cruz, e estar sempre a morrer
 com uma coroa toda à roda de espinhos
 e os pés espetados por um prego com cabeça,
 e até com um trapo à roda da cintura
 como os pretos nas ilustrações.
 Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
 como as outras crianças.
 O seu pai era duas pessoas
 um velho chamado José, que era carpinteiro,
 e que não era pai dele;
 E o outro pai era uma pomba estúpida,
 a única pomba feia do mundo
 porque não era do mundo nem era pomba.
 E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
 Não era mulher: era uma mala
 em que ele tinha vindo do céu.
 E queriam que ele, que só nascera da mãe,
 e nunca tivera pai para amar com respeito,
 pregasse a bondade e a justiça!

 Um dia que Deus estava a dormir
 e o Espírito Santo andava a voar,
 ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
 Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha
 fugido.
 Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
 Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
 e deixou-o pregado na cruz que há no céu
 e serve de modelo às outras.
 Depois fugiu para o sol
 e desceu pelo primeiro raio que apanhou.
 Hoje vive na minha aldeia comigo.
 É uma criança bonita de riso e natural.
 Limpa o nariz ao braço direito,
 chapinha nas poças de água,
 colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
 Atira pedras aos burros,
 rouba a fruta dos pomares
 e foge a chorar e a gritar dos cães.
 E, porque sabe que elas não gostam
 e que toda a gente acha graça,
 corre atrás das raparigas pelas estradas
 que vão em ranchos pelas estradas
 com as bilhas às cabeças
 e levanta-lhes as saias.

 A mim ensinou-me tudo.
 Ensinou-me a olhar para as cousas.
 Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
 Mostra-me como as pedras são engraçadas
 quando a gente as tem na mão
 e olha devagar para elas.

 Diz-me muito mal de Deus.
 Diz que ele é um velho estúpido e doente,
 sempre a escarrar no chão
 E a dizer indecências.
 A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
 E o Espírito Santo coça-se com o bico
 e empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
 Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
 Diz-me que Deus não percebe nada
 das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
 mas os seres não cantam nada.
 Se cantassem seriam cantores.
 Os seres existem e mais nada,
 e por isso se chamam seres."
 E depois, cansados de dizer mal de Deus,
 o Menino Jesus adormece nos meus braços
 e eu levo-o ao colo para casa.

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 Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
 Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
 Ele é o humano que é natural,
 ele é o divino que sorri e que brinca.
 E por isso é que eu sei com toda a certeza
 que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

 E a criança tão humana que é divina
 é esta minha quotidiana vida de poeta,
 e é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta
 sempre,
 e que o meu mínimo olhar
 me enche de sensação,
 e o mais pequeno som, seja do que for,
 parece falar comigo.

 A Criança Nova que habita onde vivo
 dá-me uma mão a mim
 e a outra a tudo que existe
 e assim vamos os três pelo caminho que houver,
 saltando e cantando e rindo
 e gozando o nosso segredo comum
 que é o de saber por toda a parte
 que não há mistério no mundo
 e que tudo vale a pena.

 A Criança Eterna acompanha-me sempre.
 A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
 O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
 são as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
 Damo-nos tão bem um com o outro
 na companhia de tudo
 que nunca pensamos um no outro,
 mas vivemos juntos e dois
 com um acordo íntimo
 como a mão direita e a esquerda.

 Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
 no degrau da porta de casa,
 graves como convém a um deus e a um poeta,
 e como se cada pedra
 fosse todo um universo
 e fosse por isso um grande perigo para ela
 deixá-la cair no chão.

 Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
 e ele sorri, porque tudo é incrível.
 Ri dos reis e dos que não são reis,
 e tem pena de ouvir falar das guerras,
 e dos comércios, e dos navios
 que ficam fumo no ar dos altos-mares.
 Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
 que uma flor tem ao florescer
 e que anda com a luz do sol
 a variar os montes e os vales,
 e a fazer doer nos olhos os muros caiados.

 Depois ele adormece e eu deito-o.
 Levo-o ao colo para dentro de casa
 e deito-o, despindo-o lentamente
 e como seguindo um ritual muito limpo
 e todo materno até ele estar nu.
 Ele dorme dentro da minha alma
 e às vezes acorda de noite
 e brinca com os meus sonhos.
 Vira uns de pernas para o ar,
 põe uns em cima dos outros
 e bate as palmas sozinho
 sorrindo para o meu sono.

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 Quando eu morrer, filhinho,
 seja eu a criança, o mais pequeno.
 Pega-me tu ao colo
 e leva-me para dentro da tua casa.
 Despe o meu ser cansado e humano
 e deita-me na tua cama.
 E conta-me histórias, caso eu acorde,
 para eu tornar a adormecer.
 E dá-me sonhos teus para eu brincar
 até que nasça qualquer dia
 que tu sabes qual é.

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 Esta é a história do meu Menino Jesus.
 Por que razão que se perceba
 não há de ser ela mais verdadeira
 que tudo quanto os filósofos pensam
 e tudo quanto as religiões ensinam?

Fernando Pessoa - Portugal

in "O Guardador de Rebanhos - Poema VIII" com o heterónimo Alberto Caeiro