A exposição contemporânea “Gen Love-Disabled”, que abre no próximo dia 20 de Agosto no Albergue SCM, reúne artistas de Pequim, Taipé e Macau para explorar uma questão que define a nossa era: o que acontece à conexão humana quando a inteligência artificial pode simular companhia, ouvir, responder e até antecipar desejos? O projecto, apresentado pela Associação de Desenvolvimento da Nova Mulher de Macau e com curadoria de Kathine Cheong, propõe uma reflexão sobre a crescente incapacidade de amar, mesmo quando se está hiperligado
Há uma imagem que persiste nos dias de
hoje: a de uma pessoa que, depois de passar horas a deslizar o polegar sobre um
ecrã, se sente estranhamente mais só. É a contradição presente numa geração que
anseia por ser amada, mas que parece ter desaprendido a amar que a exposição
“Gen Love-Disabled” coloca em cima da mesa. A mostra, que se estreia na próxima
semana no Albergue SCM, reúne três artistas oriundos de Pequim, Taipé e Macau,
cada um a responder, à sua maneira, a uma pergunta que se tornou inquietantemente
actual. Estará a tecnologia a transformar a nossa intimidade num algoritmo?
O ponto de partida da exposição é a constatação de que a
tecnologia deixou de ser apenas um mediador das relações para se tornar, ela
própria, um participante activo. Se Zygmunt Bauman, o sociólogo que cunhou o
termo “modernidade líquida”, descreveu um mundo onde as relações se tornam
frágeis e descartáveis, a era digital aprofundou esse fenómeno. Agora, a
inteligência artificial não se limita a ligar pessoas, começa a substituir-se a
elas, segundo a curadoria desta exposição. A pergunta que a curadora Kathine
Cheong coloca ao público é directa e incómoda: “Quando o amor é escrito em
código, quando as plataformas sociais e os companheiros virtuais nos parecem
mais próximos do que as pessoas reais, o que acontece à nossa capacidade de
sustentar uma relação?”.
Kathine Cheong, que assina a curadoria do projecto,
resume o paradoxo da exposição. “Ser ‘love-disabled’ não significa ausência de
sentimento. Por mais frágil e volátil que o amor possa ser nos nossos tempos,
ele nunca deixa de ser desejado. Através desta exposição, espero que os
espectadores possam, no meio do fluxo e das contradições desta geração entre o
virtual e o real, encontrar a coragem para enfrentar a tensão da ambiguidade e
libertar-se do dilema do nosso tempo”.
As obras que compõem o programa dão corpo a essa tensão.
Lu Shan, artista radicado em Pequim e Qingdao e distinguido pela Nvidia como um
dos 100 artistas a seguir, apresenta “Island Man”, um vídeo gerado por
inteligência artificial que explora a solidão digital e a forma como a IA
reconfigura a identidade, a memória e o isolamento. O trabalho transporta o
espectador para uma paisagem de algoritmos onde o indivíduo aparece como uma
ilha, ligada a tudo, mas fundamentalmente só.
Do outro lado do espectro tecnológico, o colectivo de
Taiwan, Simple Noodle Art, distinguido em 2023 com uma menção honrosa no Ars
Electronica, apresenta “Exploration and Exploitation”, uma instalação
interactiva que utiliza reconhecimento facial de emoções em tempo real para
reescrever a narrativa do público, expondo como a intimidade é consumida e
vigiada sob o capitalismo de plataforma. É um “alerta sobre a forma como os
nossos afectos são transformados em dados”.
Em contraste com a precisão fria dos algoritmos, a
artista de Macau Solène Su Cheng traz uma abordagem mais orgânica e visceral.
As suas séries “Knives”, que já haviam sido inauguradas antes no espaço Butter
Room, captam através de fotografia e um livro de poesia, a psicologia do apego
fraturado, o impulso simultâneo de se aproximar e de se proteger. A fotografia
torna-se aqui uma forma de registar a vulnerabilidade física e emocional, um
contraponto necessário ao mundo “pixelizado” das outras obras.
Como explicou a curadoria, a exposição não se limita a
exibir objectos, mas procura transformar o Albergue SCM num espaço de reflexão.
A programação paralela, que inclui uma mesa-redonda de abertura com o artista
Lu Shan e o grupo Simple Noodle Art, uma oficina de consciência somática com
embaixadoras da lululemon, e uma sessão de leitura sobre amor, desejo e
tecnologia conduzida por Chung Yi Ting, directora do Ex LAB Taiwan, alarga a
experiência para além do espaço expositivo, inserindo o público na participação
activa da discussão sobre amar e ser amado. Em última linha, surge Carol Li,
presidente da associação organizadora, que exemplifica o objectivo deste
trabalho curatorial e artístico como o de “guiar o público da receção passiva
para um envolvimento presente”.
“Gen Love-Disabled” estará patente de 20 de Agosto a 7 de
Setembro no Albergue SCM. A cerimónia de abertura realiza-se às 18h30, seguida
de uma visita guiada e de um painel de discussão com os artistas. A entrada é
livre. As inscrições para os programas paralelos estão disponíveis nas redes
sociais da associação organizadora. Elói Carvalho – Macau in “Ponto
Final”