Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Cabo Verde - Djam Neguin lança novo trabalho “Ka Bu Skeci Tradison” nas plataformas digitais

Cidade da Praia – O artista cabo-verdiano Djam Neguin disponibilizou na plataforma “Muzka”, o seu novo trabalho intitulado “Ka Bu Skeci Tradison” (não esqueças a tradição), em pré-lançamento.

O lançamento oficial deste novo ‘vídeo-single’ aconteceu ontem, dia 04 de Fevereiro, avançou Djam Neguin salientando que o pré-lançamento aconteceu na plataforma” Muzka” como forma de divulgar, potencializar e valorizar a plataforma cabo-verdiana.

“‘Ka Bu Skeci Tradison’ é um exercício de regressar às nossas origens, à nossa ancestralidade, à nossa mais particular tradição, que nos distingue de outras pessoas e de outros grupos no mundo inteiro”, explicou o artista.

Na sua explanação Djam Neguim acrescentou que o video-clip, que é uma proposta estética diferente que se enquadra num conceito denominado CV-Futurismo, subtraído do Afro-Futurismo que reside na ideia de “como se pode criar um movimento para imaginar o povo negro no futuro”.

“Neste caso, aplicando a Cabo Verde como seria o cabo-verdiano do futuro, como seria o Cabo Verde do futuro, e é um exercício de imaginação, de criação, de invenção de um colectivo que podemos vir a ser”, elucidou o também promotor e produtor cultural.

A seu ver, o futuro é um exercício, sobretudo de imaginação. O movimento, sublinhou, faz parte da constatação de que todo o movimento futurista ocorrido no mundo, que é uma proposta estética, filosófica e intelectual, aconteceu dentro do contexto de branquitude.

“Nos filmes, por exemplo de ficção científica, todo o conjunto de produção cultural que imagina o futuro, há pouco ou quase nenhuma presença de negros, o que nos leva a questionar onde existimos, se não estamos representados”, questionou.

Daí que, defendeu o músico, há a necessidade de começar um movimento que imagina a raça negra no futuro, propondo como “queremos ser” e por não existir ainda, há a possibilidade de criar novas linguagens, visto que, em seu entender, cultura é “invenção”.

E, aclarou, “Ka Bu Skeci Tradison” é precisamente porque tudo começa no passado, da valorização dos nossos ancestrais. “No entanto, a história conta que eram escravos como se não tivessem um passado antes disso, então a ideia é olhar para as nossas origens”, salientou, Djam Neguim.

Conforme revelou, “Ka Bu Skeci Tradison”, consta do seu novo EP de cinco faixas, intitulado “autofagias”, cujo lançamento está previsto para o primeiro semestre deste ano, seguindo a ideia acima narrada, através de vários temas.

“Autofagias, resumidamente, é um processo pelo qual o seu corpo alimenta-se de si mesmo”, apontou perspectivando que as pessoas adiram e se identifiquem com o EP no qual promete explorar e experimentar novas sonoridades, trazendo outras vibrações para a música cabo-verdiana.

“A proposta é viver o CV-Futurismo não só na música, mas no audiovisual, na moda, começar a assumir uma identidade mais africana e uma nova estética visual, inclusive, pegar os elementos que caíram em desuso ou que não tem uma função prática e colocá-la num âmbito estético”, prognosticou.

O artista revelou, igualmente, que está a caminho de Lisboa para participar num espectáculo de música, dança e teatro sobre Pantera, a decorrer no mês de Março, e vai aproveitar para divulgar também todo o trabalho que tem vindo a desenvolver na comunidade internacional. In “Inforpress” – Cabo Verde

 



Ka Bu Skeci Tradison

 

Ó tempo

quebra o teu feitiço e vem ouvir

 

Ó mar

leva-me contigo por aí

 

Benson di bai djes dan

antis di sai es flan

so ka bu skeci tradison

ma ka bu skeci tradison

 

Spritu di luz guian

bentu di mar lembran

so ka bu skeci tradison

  

Ai ai ai ai ai ai ai

Ai ai ai ai

Ka bu skeci tradison

 

É ó mocinho la di Santiago

leba na bu petu raiz di bu povo

zimbron lenha ku txabeta

txeru caldo pexi

uril ku funaná

 

Ai ai ai ai ai ai ai

Ai ai ai ai

Ka bu skeci tradison

 

Vem

vai

sem esquecer

vem

vai sem temer

 

É ó mocinho la di Santiago

leba na bu petu raiz di bu povo

zimbron lenha ku txabeta

txeru caldo pexi

uril ku funaná

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Galiza – Lusofonia

Apesar da sua história milenária como língua de seu, não há muitos anos o galego era considerado em Espanha um castelhano mal falado, fala de ignorantes e incultos, fala marginal num estado que tinha como única língua oficial o castelhano


Esta imposição de séculos esquecia não só que o galego era a língua maioritária falada pelo povo galego, mas que possuía uma riqueza literária milenária afogada pelo império de Castela, e que tivera uma riquíssima produção escrita nas últimas décadas do século XIX, e sobretudo na criação literária nos primeiros trinta anos do XX.

Mas é um feito ignorado por muitos e negado por outros que a língua galega faz parte da grande família lusófona, sem desdouro da sua identidade. Um vencelho familiar conflituoso dentro e fora da Galiza. Particularmente na vizinha Portugal; e muito mais no resto dos países lusófonos: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé-Príncipe e Timor-Leste.

Há anos escrevia o filólogo Martinho Montero: “Por muito que aos galegos nos doa, não podemos negar que os demais falantes da nossa língua nos consideram como um mundo à parte” (em Por um Galego Extenso e Útil. Leituras da Língua de Aquém e de Além 2009). Galiza é uma “filha pródiga” da lusofonia: “Dentro do conjunto de países lusófonos a Galiza é, no melhor dos casos —continua Martinho—, considerada como um membro não já de segunda categoria (como podem ser os países africanos…) mas de terceira classe”. Até o ponto que a maioria de portugueses nem sequer sabem que a Galiza é um país lusófono, considerando os galegos como “espanhóis”.

Esta atitude não tem que ver, ou pouco, com motivos de índole linguística; nem com essa atmosfera coletiva de desdém dos galegos cara aos portugueses e vice-versa: estes são para muitos galegos “sujos e miseráveis”, e os galegos são para eles “grosseiros e incivis”. Senão mais bem com a nossa história de dependência com respeito à Espanha, e a sua consequência no terreno linguístico: o espanhol foi a única língua oficial da Galiza até há poucos anos; e agora, apesar de ser co-oficial com o galego, continua, de facto, a desfrutar de muitas vantagens sobre a língua nativa. Victorino Prieto – Galiza in “Portal Galego da Língua” com “Nós Diario

Victorino Pérez Prieto - (Hospital de Órbigo-León, 1954) é professor de universidade reformado, escritor, teólogo e pensador. Especialista em temas de cultura galega; em particular na Geraçom "Nós" e Prisciliano. Também em Raimon Panikkar, sobre quem fez as Teses de Doutoramento em Filosofia (USC) e Teologia (UPSA). Colaborador habitual em jornais (atualmente em Nós Diario) e revistas galegas (Encrucillada, Grial, A Nosa Terra...) e internacionais (Iglesia viva, Dialogal, Theologica Xaveriana, CIRPIT review, Complessitá...). Publicou mais de vinte livros individuais (A geraçom "Nós", Do teu verdor cinguido, Contra a síndrome N.N.A.Unha aposta pola esperanza, Más allá de la fragmentación de la teología el saber y la vida. Raimon Panikkar, Prisciliano na cultura galega, Prisciliano. Um cristâo livre, La búsqueda de la armonía en la diversidad...). E mais de cinquenta em colaboraçom (Diccionario Enciclopedia do Pensamento Galego, O Pensamento Luso-Galaico-Brasileiro 1850-2000, Galegos Universais...).


Singapura - Entregue graneleiro bicombustível fabricado na China para dobrar rota Brasil-China

O primeiro navio graneleiro gigante construído na China capaz de usar dois tipos de combustível foi entregue para serviço entre o Brasil e a China, informa a CGTN.

A emissora de televisão estatal chinesa diz que os motores podem queimar gás natural liquefeito ou óleo combustível convencional, e que o navio pode completar uma viagem de volta entre a China e o Brasil com uma carga de GNL.

O relatório diz que as emissões de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa do navio são estimadas em 41% menos do que os padrões internacionais permitem.

O navio de 210 mil toneladas foi entregue ao seu proprietário na semana passada, diz a CGTN.

Separadamente, o sítio New Ships Orderbook diz que o navio foi construído pela estatal chinesa Shanghai Waigaoqiao Shipbuilding Co. Ltd para a Eastern Pacific Shipping Pte de Singapura. In “Fórum de Macau” - Macau

 

Cabo Verde - Receita bruta gerada pelo único casino do país aumentou 122% em 2021

A receita bruta do jogo gerado pelo único casino cabo-verdiano aumentou mais de 122% em 2021, face ao ano anterior, fortemente marcado pela pandemia de covid-19, ultrapassando um milhão de euros, segundo dados do Ministério do Turismo

De acordo com dados do Ministério do Turismo, a Inspecção Geral de Jogos (IGJ) tinha registado em 2020 uma receita bruta do jogo em casino – o único no país funciona na ilha do Sal – equivalente a 477.758 euros. Tratou-se de uma quebra de 67% face ao recorde de 1.468.198 euros em 2019, explicada com os oito meses de paralisação da atividade em 2020, devido às restrições nacionais e internacionais para conter a pandemia de covid-19.

Em 2021, com a retoma do turismo, a IGJ viu a receita bruta aumentar 122,6%, face ao ano anterior, para 1.063.39 euros, correspondente por seu turno a um volume de jogo superior a 6,2 milhões de euros. Da receita bruta, 10% corresponde ao pagamento dos concessionários do imposto especial sobre o jogo.

Cabo Verde atribuiu até 2021 duas concessões, para a zona jogo do Sal e outra para a zona de jogo de Santiago, no âmbito da lei de jogos, que define cinco zonas permanentes do jogo, em Santiago, São Vicente, Sal, Boavista e Maio. Contudo, o único casino em funcionamento em Cabo Verde localiza-se em Santa Maria, ilha do Sal, a mais turística do arquipélago.

O ministro do Turismo, Carlos Santos, afirmou em 2020 à Lusa que o Governo definiu na estratégia até 2030 a necessidade de um “desenvolvimento sustentável do turismo” em Cabo Verde, mantendo “produtos âncora”, como o sol e praia, reforçando a aposta nos cruzeiros e no turismo de natureza, mas também no jogo. “O jogo é um sector em que queremos continuar a apostar, respeitando todas a regras e boas práticas internacionais, porque atrai um tipo de cliente que tem um poder de compra muito razoável”, assumiu o governante.

O mais emblemático projecto nesta área é o hotel-casino que o grupo Macau Legend está a construir na Praia, num projecto de 250 milhões de euros, mas com sucessivos adiamentos na conclusão e poucos avanços visíveis na obra nos últimos anos.

Carlos Santos garantiu na altura que tal como o empreendimento que o grupo do empresário David Chow está a implantar entre o ilhéu de Santa Maria e a marginal da Praia, os grandes investimentos no setor turístico em Cabo Verde não foram colocados em causa pelos promotores, apesar das consequências da covid-19. “Creio que não. E nem temos tido sinais nesse sentido. Aliás, digo que a esmagadora maioria dos investidores que estão a fazer investimentos em Cabo Verde, antes da pandemia, imediatamente com a realização dos voos de repatriamento solicitaram ao Governo cabo-verdiano autorização para fazerem chegar os seus técnicos a Cabo Verde para dar continuidade aos projetos”, afirmou.

Em 2015, David Chow assinou com o Governo cabo-verdiano um acordo para a construção do hotel-casino, tendo sido lançada a primeira pedra do projeto em fevereiro de 2016. Trata-se de um dos maiores empreendimentos turístico de Cabo Verde, com um investimento global previsto de 250 milhões de euros – cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) cabo-verdiano – para a construção de uma estância turística no ilhéu de Santa Maria, que cobrirá uma área de 152.700 metros quadrados.

A obra envolve a construção de um hotel com ‘boutique casino’, de 250 quartos, uma grande piscina e várias instalações para restaurantes, bares e estabelecimentos comerciais, além de uma marina.

Contudo, uma minuta de adenda ao acordo entre a empresa e o Governo cabo-verdiano, de Abril de 2019, refere que, “considerando que, face à evolução da envolvente nacional do empreendimento nos últimos dois anos, o promotor sugeriu, e o Governo entendeu aceitar, uma proposta de realização do projeto de investimento por fases”. Assim, nesta primeira fase do projecto, que deveria então estar concluída dentro de 22 meses, serão investidos 90 milhões de euros.

David Chow recebeu uma licença de 25 anos do Governo de Cabo Verde, 15 dos quais em regime de exclusividade na ilha de Santiago. Esta concessão de jogo custou à CV Entertaiment Co., subsidiária da Macau Legend, o equivalente a cerca de 1,2 milhões de euros. A promotora recebeu também uma licença especial para explorar, em exclusividade, jogo ‘online’ em todo o país e o mercado de apostas desportivas durante dez anos. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


Macau - Ho Iat Seng quer maior contribuição do Fórum de Macau na cooperação com os Países de Língua Portuguesa

O Chefe do Executivo espera uma maior contribuição do Fórum de Macau para “os contactos económicos e comerciais não governamentais entre a China e os países lusófonos”. A declaração foi proferida num encontro, que decorreu na quinta-feira, entre Ho Iat Seng e o novo secretário-geral do Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), Ji Xianzheng.

O líder de Macau indicou ser possível verificar que, desde a criação há 18 anos do Fórum, “através do volume de negócios” entre a China e os países de língua portuguesa, o território “tem desempenhado, em pleno, o papel de plataforma”, salientando esperar que “o Secretariado venha a contribuir ainda mais para os contactos económicos e comerciais não governamentais entre a China e os países lusófonos”, consta num comunicado.

“O governo irá continuar a apoiar totalmente o Fórum”, prometeu Ho, sublinhando que, no futuro, irá empenhar-se “no desenvolvimento da diversificação económica”.

Ainda de acordo com Ho, a pandemia da covid-19 permitiu ao governo “perceber, claramente, que Macau dependia demasiado do sector de turismo e entretenimento” e que agora a RAEM tem um espaço “alargado” para diversificar no âmbito do “Projecto Geral de Construção da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”.

O secretário-geral do Fórum, em funções desde 10 de Janeiro, afirmou que a organização continua empenhada em apoiar “as várias partes participantes na recuperação estável da economia”, em promover a cooperação económica e comercial entre a China e os países lusófonos “para um novo patamar”, e em “contribuir ainda mais para a diversificação económica adequada de Macau”. In “Hoje Macau” - Macau

 

Macau - Nova presidente do Instituto Cultural quer reforçar laços com a lusofonia

A nova presidente do Instituto Cultural (IC), Leong Wai Man, prometeu transformar a região num “centro de intercâmbio cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.

Na cerimónia de posse, Leong Wai Man afirmou que o IC vai continuar a promover “os encantos culturais” da cidade no exterior e trabalhar para cumprir o papel definido pelas autoridades para Macau: “uma base de cooperação e intercâmbio para a promoção da coexistência multicultural, com predominância da cultura chinesa”.

A região tem “características culturais singulares” e “continua a ser uma ponte importante, servindo como uma plataforma de intercâmbio cultural entre a China e o Ocidente”, defendeu Leong Wai Man, de acordo com um comunicado divulgado pelo Governo de Macau.

A presidente do IC disse que vai empenhar-se na salvaguarda e gestão do Centro Histórico de Macau, que inclui vários edifícios e monumentos de raiz portuguesa, incluindo o ex-líbris da cidade, as Ruínas de São Paulo.

Leong Wai Man prometeu também valorizar o património cultural tangível e intangível da região, cuja lista inclui a Procissão de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, a Procissão de Nossa Senhora de Fátima, o teatro em patuá, o crioulo de Macau de base portuguesa, e a gastronomia da comunidade macaense, com ascendência luso-chinesa.

A nomeação de Leong Wai Man, na vice-presidência do IC desde 2018, foi anunciada em 26 de janeiro, uma semana depois da transferência da até então presidente Mok Ian Ian para presidir ao conselho de administração do Centro de Ciência de Macau.

Mok Ian Ian, especialista em teatro tradicional chinês, foi nomeada diretora do IC em janeiro de 2018, substituindo Cecilia Tse Heng Sai, que se demitiu menos de dois meses após assumir a posição, por motivos de saúde.

O nome de Mok Ian Ian foi proposto para a liderança do IC em 2018 por Alexis Tam Chon Weng, antigo secretário para os Assuntos Sociais e Cultura e atual representante da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa. In “Hoje Macau” - Macau

 

‘Certos casais’: contos escritos com raro talento

                                                                 I

Com textos que misturam diálogo, descrição, fluxo de consciência, vozes cruzadas e, às vezes, a combinação disso tudo, Hugo Almeida (1952) chega ao seu quarto livro de contos, Certos casais (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), dentro de uma extensa obra que inclui livros dos gêneros infantil e juvenil, romance, ensaios e uma tese de doutoramento, além da organização de coletâneas de contos e ensaios. Dividido em duas partes, Livro I e Livro II, Certos casais reúne nove contos inéditos, alguns escritos há duas ou três décadas, mas que receberam ajustes para esta publicação.

O livro está dividido em duas partes distintas, mas os oito contos da primeira podem ser lidos como uma espécie de romance ou minirromance porque as personagens fazem parte de três gerações de uma mesma família. Seja como for, os relatos podem ser lidos separadamente, sem que haja dependência de um texto para outro.

O livro abre com o conto “O sono do vulcão”, que põe o personagem Gil a colocar em dúvida um episódio erótico que teria ocorrido durante um voo noturno, quando, inadvertidamente, trocara carícias com uma desconhecida. Escrito com frases curtas, o texto exibe uma técnica talvez inédita em que o autor coloca frases insinuantes ou ditas em sussurros e que aparecem com letras em corpo menor e outras em itálico, como a chamar a atenção do leitor.

Como esse conto de abertura, os demais também recorrem ao discurso indireto-livre, por meio do qual as personagens expõem suas dúvidas e anseios. É o que se vê no segundo conto, “Outra vida para dona Olímpia”, de 1991, que, escrito em primeira pessoa, permite ao leitor acompanhar a breve trajetória de uma viúva numa igreja da cidade de Diamantina, em Minas Gerais, à época da Semana Santa. Ela fica de olho no procedimento de um jovem padre que, fora do confessionário, pousa sua mão-boba no braço de uma adolescente que se confessa ao lado do altar. E mostra-se igualmente muito solícito, quando aparece outra moça para fazer a confissão, mas que imediatamente muda de postura, assumindo um semblante pesado, quando a próxima serva de Deus a ser atendida é uma “senhora negra, humilde”, da mesma idade da viúva observadora. E o padre faz a mulher se sentir mais culpada ainda por seus pecados veniais.

Eis um trecho do conto: “(...) Chega ao meu lado um senhor bem-vestido, banho recém-tomado, cabelos úmidos, barba recém-feita, óculos grandes. Esse tem grana. Quer saber se há fila para confissão. Digo-lhe que ali ao meu lado, não, mas do outro, sim. O próximo é um rapaz negro, pobre, quase mendigo, bem malvestido, deve ser sua roupa mais limpa e nova. A mulher se ergue. O padre olha para os bancos (os de lá. Não há mais nenhuma moça. O próximo será o pobre negro – pobre – ou mulato) e se levanta, estica o corpo, ai que cansaço (...).    

  

                                                                 II

No conto “A brisa na varanda”, lê-se a história de um casal que, sem a possibilidade de ter filhos, adota um bebê, a Tâmara, que viria a mudar a sua vida insossa. César, o marido, muito se empenharia para ajudar a criar a menina com todo o conforto. Os problemas viriam quando a Tâ, como a chamavam, tornar-se-ia uma adolescente rebelde. Eis um trecho que constitui um fluxo de consciência da mãe adotiva: “(...) César não aceitava, de nenhuma forma, que Tâ namorasse. Mato quem se atrever, eu mato, repetia. Era sério ou loucura? Tive ódio, muito ódio, ele que sempre me prendeu, me sufocou, agora queria tolher a menina. (...) Quase enlouqueci. Tâmara era aplicada nos estudos, entrou fácil na faculdade, logo conseguiu um bom estágio. Aí, conheceu Gilberto, agora meu genro. Parecia um rapaz de ouro, o companheiro que ela merecia e nunca tive. Se César se atrevesse a impedir o casamento, ah, eu o teria matado, mataria sim, sem dó (...).

Por aqui se vê a habilidade de Hugo Almeida em trabalhar com a linguagem e ser fiel aos pensamentos da personagem. Na impossibilidade de se resumir os demais contos, diga-se que em todos se observa a capacidade rara do autor de alternar os narradores, caracterizando cada um com suas peculiaridades, hábitos e manias.

 Já a segunda parte do livro, “Amor radioativo”, é uma narrativa que reconstitui a trágica história de um famoso casal de cientistas, Pierre Curie (1859-1906) e Marya Sklodowska (1867-1934), uma polonesa que ficaria mais conhecida como madame Curie, depois de ganhar o Prêmio Nobel de Química em 1911, cuja vida ficaria também marcada pela perda do marido, em 1906, atropelado por uma carroça numa rua de Paris. Como observa o escritor Francisco de Morais Mendes, no texto escrito para a contracapa, a rigor, este conto trata-se de “uma biografia que o talento de Hugo Almeida converte em pura literatura”.

 

                                                                 III

Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952), doutor em Letras na área de Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Mil corações solitários (São Paulo, Editora Scipione, 1988), que conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987, com o título de Carta de navegação.

Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira, Hugo Almeida nasceu em Nanuque-MG, mas deixou a cidade natal antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011, e um ano em Alagoinhas, na Bahia. Aos 9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde se formou em Comunicação Social na área de Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1976. Viveu 22 anos em Belo Horizonte, onde estreou com Globo da morte, contos (Edição Alternativa), em 1975.

Publicou ainda os livros juvenis Porto Seguro, outra história, novela (São Paulo, Nankin Editorial, 2005) e Que dia será o dia, novela (Nankin Editorial, 2007), e os infantis Mais rápido do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1993), Todo mundo é diferente (São Paulo, Lê Editora, 1996) e Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo, Editora Ícone, 2000), além da novela Meu  nome é Fogo (Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009), do livro infantojuvenil Cinquenta metros para esquecer (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e do romance Minha estreia no crime - Estação 111 (São Paulo, Lê Editora, 1997), inspirado do massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São Paulo.

Autor de tese de doutoramento na USP sobre a obra A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins (1924-1978), organizou (e prefaciou) Osman Lins: o sopro na argila, ensaios, 2004), e, com Rosângela Felício dos Santos, Quero falar de sonhos (2014), artigos deste escritor. Organizou ainda as coletâneas de contos Nove, novena: variações (São Paulo, Olho d´Água, 2016), que reúne narrativas inspiradas na obra de Osman Lins, e Feliz aniversário, Clarice: contos inspirados em Laços de família (Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020), obra da romancista e contista Clarice Lispector (1920-1977).  Profissionalmente, sempre trabalhou como jornalista, com longa carreira na redação do jornal O Estado de S.Paulo. Adelto Gonçalves - Brasil

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Certos casais, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Laranja Original, 112 páginas, R$ 45,00, 2021. Site: www. laranjaoriginal.com.br E-mail: contato@laranjaoriginal.com.br 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br