Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

França - Joana Vasconcelos condecorada pelo Governo

A artista portuguesa Joana Vasconcelos vai ser condecorada, pelo Governo francês, com a Ordem das Artes e das Letras, numa cerimónia na sexta-feira, na Embaixada de França, em Lisboa


Num comunicado hoje divulgado, o ‘atelier’ de Joana Vasconcelos lembra que “a Ordem das Artes e das Letras, atribuída pelo ministério da Cultura francês agracia as pessoas que se distinguiram pela sua criação no campo artístico ou literário ou pela contribuição que deram à influência das artes e das letras na França e no mundo”.

A cerimónia de entrega das insígnias, pela embaixadora de França em Portugal, Florence Mangin, está marcada para sexta-feira na Embaixada de França, em Lisboa.

No comunicado hoje divulgado, recorda-se que, “sem nunca deixar de assumir a cultura e a tradição portuguesas como pilares fundamentais e inspirações predominantes para a sua criação artística, Joana Vasconcelos também desenvolveu uma relação de grande proximidade com os valores do pensamento e da cultura francesa”.

Joana Vasconcelos nasceu em Paris em 1971, filha de pais portugueses, “no exílio por força da ditadura”. A artista portuguesa “cedo aprendeu a expressar-se em língua francesa, e estudou no Liceu Francês, em Lisboa, onde a família regressou quando tinha 3 anos”.

A artista portuguesa começou a expor na década de 1990, tendo o seu trabalho começado a tornar-se conhecido internacionalmente em 2005, ano em que participou na Bienal de Veneza com a peça “A Noiva”, um lustre monumental composto por tampões de higiene íntima feminina.

Em 2012, tornou-se na primeira mulher e artista mais jovem a expor obras no Palácio de Versalhes, em Paris.

Este ano, Joana Vasconcelos integra a Temporada Cruzada entre Portugal e França, que começa no dia 14 de fevereiro e estende-se até outubro.

“Nesse âmbito, e a convite do ‘Centre des Monuments Nationaux’ [Centro dos Monumentos Nacionais, em português], com a curadoria de Jean-François Chougnet, a artista plástica encontra-se a preparar uma monumental escultura têxtil para a Capela do Castelo de Vincennes em Paris”, lê-se no comunicado.

“Árvore da Vida” é uma peça “inspirada na Dafne de Bernini e presta tributo à autodeterminação da mulher, também materializada na figura de Catarina de Medicis, que após a morte do marido Henrique II, se empenhou na finalização da capela, contribuindo para estabelecer a ligação entre a terra e o céu”.

Ao longo dos anos, a obra de Joana Vasconcelos foi exibida em várias galerias e museus franceses, integrando, por exemplo, a Coleção Pinault e a da Fundação Louis Vuitton.

Além disso, “duas das suas criações para o espaço público encontram-se em território francês em permanência desde 2018: ‘Fruitée’ em Ferber, Nice (Côte d’Azur) e ‘Coeur de Paris’ na Porte de Clignancourt (Ville de Paris)”.

O ‘atelier’ de Joana Vasconcelos destaca ainda “a colaboração com Le Bon Marché, para o qual a artista criou uma peça da sua série das Valquírias, em homenagem a grandes mulheres francesas: Simone (2019) de Beauvoir, (Simone) Veil e (Simone) Signoret”, bem como outras parcerias com marcas francesas como a Dior, a Chanel, a Vogue, a Roche Bobois ou a Flammarion. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Costa Rica – Instituto Camões promove ensino da língua portuguesa na América Central

O Instituto Camões e a Universidade de Costa Rica assinaram, no final do mês de janeiro, um acordo que permite a criação do primeiro leitorado de língua portuguesa na América Central


O acordo foi assinado pelo embaixador de Portugal no Panamá, Gonçalo Teles Gomes, e a reitora interina da Universidad de Costa Rica (UCR), Maria Laura Arias Echandi.

Este vai ser o primeiro Leitorado de Português em toda a América Central e é “uma importante aposta de Portugal na promoção do ensino da língua portuguesa na região, respondendo assim ao crescente interesse na aprendizagem do idioma que se tem verificado na Costa Rica”.

“A leitora deverá chegar a São José [capital da Costa Rica] já na primeira semana de fevereiro de 2022”, acrescenta o comunicado.

Um leitor é um docente universitário encarregado de ensinar a língua do seu país em universidades de países estrangeiros.

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua promove externamente a língua e cultura portuguesas estabelecendo programas de apoio à criação de departamentos de português ou estruturas equivalentes em universidades estrangeiras e escolas e à contratação local de docentes.

Promove, coordena e desenvolve também a realização de cursos de língua portuguesa e outros conteúdos culturais, coordenando a atividade dos leitorados de língua e cultura portuguesas.

É missão deste instituto assegurar o ensino da língua e cultura portuguesas, ao nível do ensino superior, em diversos países, através da sua rede de leitorados, em cooperação com instituições de ensino superior e organizações internacionais.

Atualmente, Portugal conta com mais de 50 leitorados no mundo e mais de 80 centros de língua portuguesa. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Timor-Leste - ONU reforça apoio às eleições presidenciais em tempos de covid-19

A prioridade é garantir maior segurança e resiliência no processo em tempos de pandemia. A parceria entre Nações Unidas e autoridades timorenses adapta materiais e amplia instalações durante pleito, as ações incluem capacitação e inclusão de jovens, mulheres e pessoas com deficiência

As Nações Unidas prestam apoio local a Timor-Leste na preparação para as eleições presidenciais de 19 de março de 2022.

Um dos passos essenciais do processo será a adoção do calendário eleitoral definitivo pelo Secretariado Técnico de Administração Eleitoral, STAE.


Candidatos

Espera-se que a apresentação de candidaturas seja feita no início de fevereiro. Já a campanha eleitoral deverá acontecer entre 2 e 16 de março.

Se for necessário, uma segunda volta terá lugar um mês depois da primeira votação. Segundo a lei timorense, participam os dois primeiros candidatos, se nenhum deles receber mais de 50% dos votos.

O coordenador residente das Nações Unidas em Timor-Leste, Roy Trivedy, expressou o desejo de que as eleições sejam realizadas de forma segura, inclusiva, livre e transparente. Mas lembrou que nos últimos dois anos, o país foi marcado pela covid-19 e por inundações.

Formação

Para o próximo pleito, o representante destacou que a assistência eleitoral está adaptada às atuais circunstâncias da pandemia.

Com a experiência e as capacidades colocadas ao dispor das autoridades, a ONU tem oferecido apoio técnico em áreas como assessoria.

A assistência estende-se a áreas como administração, planeamento eleitoral, recenseamento, orçamento, logística e compras, bem como o uso de tecnologia, formação e educação cívica e eleitoral.

Roy Trivedy contou que em resposta a um pedido feito pelo governo, em 2019, a organização opera por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, num “projeto sobre eleições resilientes à covid-19 em Timor-Leste, financiado pelo Governo do Japão”.

Municípios

O coordenador residente da ONU em Timor-Leste enfatizou a assistência dada ao país “na realização de pesquisas resilientes, informadas e inclusivas” sobre a pandemia nos níveis nacional e municipal. A meta é garantir que “as medidas de segurança sejam incorporadas ao quadro eleitoral legal.”

Para promover maiores medidas de segurança em tempos de pandemia, o projeto produziu e divulgou material de informação, educação e comunicação com foco na consciencialização e nos procedimentos eleitorais.

O PNUD também ajudou a adquirir materiais, tanto para garantir segurança à saúde como na transparência do processo eleitoral, incluindo tinta permanente.

A agência vai melhorar sete escritórios e construir outros espaços para os Órgãos de Gestão Eleitoral em vários municípios do país.

As novas instalações passarão a ter elementos de resiliência contra a pandemia nos projetos arquitetónicos e nas construções.

Processos

O chefe da ONU em Timor-Leste ressalta que a mídia desempenha um papel vital no fortalecimento da participação dos eleitores, especialmente de mulheres, jovens e pessoas com deficiência, para promover uma representação igualitária e inclusiva.

Trivedy ressalta que o PNUD e a ONU Mulheres colaboraram com o Conselho Nacional de Imprensa para fornecer apoio diverso.

A assistência inclui a capacitação para jornalistas em reportagens e o aumento da participação de novos eleitores, mulheres e jovens por meio de mídias sociais, TV e rádio.

Trivedy contou que houve também “medidas específicas para garantir que as Pessoas com Deficiência sejam incluídas e as suas vozes sejam ouvidas nos processos eleitorais.”

A agência da ONU formou 170 pessoas com deficiências físicas e visuais na primeira capacitação em braille realizada em Díli.

O chefe da ONU em Timor-Leste reiterou o compromisso em apoiar os esforços do país para consolidar os ganhos democráticos e às autoridades eleitorais “para proporcionar um ambiente seguro para as eleições, bem como proteger e defender os direitos humanos durante todo o processo eleitoral”.

Observadores

Um dos objetivos da Unidade de Direitos Humanos do Gabinete do Coordenador Residente é “apoiar a Provedoria de Direitos Humanos e Justiça e organizações da sociedade civil para que os eleitores, incluindo mulheres, jovens e idosos, possam exercer o seu direito à participação política de forma igualitária.”

As eleições em Timor-Leste poderão ser acompanhadas por observadores internacionais da Austrália, Indonésia, ASEAN, Europa e outros lugares para as eleições.

Um número considerável de cidadãos e entidades nacionais também participarão nessas ações.

Os candidatos presidenciais concorrem formalmente como independentes, mas geralmente recebem o apoio dos partidos políticos.

Este ano, o atual presidente Francisco “Lu Olo” Guterres e o ex-chefe de Estado José Ramos-Horta confirmaram que estarão entre os candidatos.

Democracia

No sistema semipresidencialista timorense, o chefe de Estado é eleito diretamente por voto popular e desempenha um papel fundamental na nomeação do governo após as eleições parlamentares e na dissolução do Parlamento quando necessário.

 Os poderes executivos, no entanto, são assumidos pelo primeiro-ministro e o seu governo. As próximas eleições parlamentares estão marcadas para 2023.

As Nações Unidas em Timor-Leste reiteram o apoio à democracia no país “promovendo os direitos humanos, o desenvolvimento, a paz e a segurança”.

A organização presente no país há mais de duas décadas atua através do PNUD, do Gabinete do Alto Comissariado dos Direitos Humanos, da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Género e o Empoderamento das Mulheres, ONU Mulheres, entre outras agências. ONU News – Nações Unidas


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Portugal - Sétima edição do Coimbra World Piano com a presença de jovens nacionais, brasileiros e italianos, entre outros



A sétima edição do Coimbra World Piano Meeting, que junta jovens pianistas nacionais e estrangeiros, vai dividir-se pela primeira vez em dois momentos, no inverno e no verão, anunciou a organização.

A edição de 2022 vai ter início entre 02 e 06 de fevereiro, com Coimbra a ser palco do “melhor talento jovem nacional e internacional na área da música”, anunciou hoje a Academia Internacional de Música Aquiles Dele Vigne, que organiza o evento.

Este ano, o programa divide-se em dois períodos, este primeiro, no inverno, “com dimensão adaptada ao contexto pandémico”, e outro no verão, “onde o certame regressa à sua dimensão intercontinental, envolvendo a participação de talentos mundiais”, explicou a organização.

Segundo o diretor artístico da academia, Manuel Araújo, a sessão que decorre agora terá acima de tudo jovens nacionais, mas “também alguns do Brasil e de Itália”, havendo concertos e também algumas ‘masterclasses’ dadas pelo próprio.

“No Verão, a maioria dos participantes serão jovens músicos estrangeiros”, disse à agência Lusa o responsável, salientando que nessa altura também estarão concentradas as aulas dadas por professores estrangeiros.

O encontro arranca na quarta-feira, com um concerto de abertura, que vai decorrer no Seminário Maior de Coimbra, pelas 21:30, em que vão tocar Eliseu Silva (violino) e Manuel Araújo (piano).

Durante este primeiro momento, haverá um concerto de Jovens Talentos, a 05 de fevereiro, no Seminário Maior, e um concerto de encerramento, no dia 06, no Convento São Francisco, com a participação da Orquestra Clássica do Centro, conduzida pelo maestro Constantin Grigore.

Com a exceção do concerto de encerramento, todos os restantes eventos são de entrada livre, sendo obrigatória a apresentação de certificado digital. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


 

Cabo Verde - Património Mundial: Presidente da República advoga discriminação positiva a favor de Ribeira Grande de Santiago

Cidade da Praia – O Presidente da República, José Maria Neves, advogou hoje, na Cidade Velha, uma discriminação positiva para o município de Ribeira Grande de Santiago, já que ser Património Mundial da Humanidade, compreende as suas vantagens e custos.

Segundo José Maria Neves que presidia à sessão solene do Dia do Município de Ribeira Grande de Santiago, na Cidade Velha, que completa 17 anos, esses custos são essencialmente relacionados com as restrições impostas às edificações dentro do Sítio Histórico e com a restauração e preservação do património construído.

“São os chamados “Custos de Patrimonialidade”. Por esta razão, advogo uma discriminação a favor deste município, de forma a conseguir mitigar os efeitos das restrições e criar novas oportunidades de crescimento económico, de criação de emprego e de melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes, disse.

Para ele, se for conjugada “uma certa compensação”, através do Estatuto Especial do Património, com os esforços com vista a preservar o sítio Património Mundial da Humanidade, era possível um “casamento perfeito”, reconhecendo tratar-se de uma grande empreitada e uma grande ambição para um município da dimensão da Ribeira Grande de Santiago, quando estão em causa as tão sonhadas obras de remodelação da Sé Catedral e a requalificação do Sítio Histórico.

“Paralelamente, e quando se deseja um incremento do número de visitantes, há necessidades que se tornam prementes, como parece ser o caso de um Museu Cultural. Outros espaços, existentes, já se revelam acanhados, como é o caso do Centro Cultural da Cidade Velha”, apontou.

No entender de José Maria Neves, para que o Sítio Histórico seja cada vez mais atractivo, deve ser apetrechado de equipamentos sociais e culturais que respondam adequadamente à demanda actual e à prevista a curto e médio prazos.

“Se é verdade que Ribeira Grande de Santiago conheceu, no passado, o seu apogeu, a que se seguiu o declínio, fruto de vicissitudes históricas, de há muito que a cidade, hoje Património Mundial da Humanidade e uma das Sete Maravilhas do Mundo de origem Portuguesa, acordou dessa longa letargia e tem dado sinais de vitalidade que devem ser valorizadas, acarinhadas e apoiadas”, frisou.

Para o Presidente da República, o município de Ribeira Grande de Santiago tem ambição, garantindo que ele confia na sua capacidade para enfrentar com sucesso os próximos desafios, prosseguindo a sua caminhada na estrada do desenvolvimento e do progresso.

Na sessão solene dos 17 anos da criação do município, discursaram os líderes das bancadas municipais do Movimento para a Democracia (MpD), António Monteiro, e do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) Odair Sequeira, os presidentes da câmara e da assembleia municipais, Nelson Moreira e José Gomes da Veiga, respectivamente. In “Inforpress” – Cabo Verde

 

‘Transpenumbra do Armagedom’: distopia depois de uma hecatombe

                                                                 I

Autor de livros polêmicos e diferenciados, Silas Corrêa Leite (1952), depois de publicar Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial), em 2018, O Marceneiro: a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu), em 2019, e Cavalos selvagens (Taubaté, Letra Selvagem; Curitiba, Kotter Editorial), em 2021, surpreende seus leitores com Transpenumbra do Armagedom (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021), obra em que, mais uma vez, mistura gêneros e estilos, fazendo com que a crítica fique em dificuldades para defini-la.

Na verdade, trata-se de uma reunião de textos que vão do romance de ficção científica a contos futuristas e crônicas minimalistas, passando por poemas de cunho libertário. Enfim, uma obra que traz uma visão épica e fantástica de um futuro que se desenha para o planeta Terra e que se avizinha como assustador.

O autor reconhece que procurou fazer uma literatura de ficção futurista baseado na new weird fiction, (que pode ser traduzida como “ficção esquisita”), estilo que produz criaturas mutantes, personagens que não são totalmente humanos, que surgiu na década de 1990 com a ideia de subverter conceitos, combinando elementos da ficção científica, horror e fantasia, não seguindo convenções ou exemplos estereotipados. Um gênero que anuncia a chegada da distopia, também denominada cacotopia ou antiutopia, que representa a antítese do que se lê em Utopia, do escritor inglês Thomas Morus (1480-1535), onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz.

Ou seja, distopia é qualquer representação ou descrição, organizacional ou social, de uma utopia negativa, às avessas. No caso da obra de Silas Corrêa Leite, o termo procura reconstituir um lugar, época ou estado imaginário em que se vive sob condições de extrema opressão, desespero ou privação, prenunciando o que seria o pós-mundo governado por regimes totalitários e vivido por populações degradadas e submetidas ao controle de uma tecnologia voltada apenas para o mal.

Em outras palavras: aos elementos tradicionais da ficção científica, esse novo gênero procura agregar romance histórico, personagens reais, faroeste, diários de viagem, novela policial noir, com o objetivo de libertar a literatura fantástica dos clichês que infestam hoje as prateleiras das livrarias que restam. Apesar de toda essa bizarrice, as descrições que são vistas na new weird fiction se utilizam de palavras estranhas, termos inventados e analogias bizarras, como se fossem reproduzidas de um pesadelo. Perfeitamente adaptado a esse novo gênero, nesta obra, seu primeiro livro de fantástica ficção científica, o autor consumiu mais de dez anos.

 

                                                                II

Como observa o editor Claudinei Vieira, “o mundo de Silas Corrêa Leite é um amálgama de cenários pós-apocalípticos, alta tecnologia e limites morais, sociais, sexuais completamente indefinidos, interligados, complexados. “É um universo muito distante. E, ao mesmo tempo, definitivamente próximo e reconhecível”, diz. E acrescenta: “Posso não saber como classificá-lo, mas uma coisa sei com certeza: é um livro espetacular. Uma viagem intrincada, vertiginosa, imperdível”.

Como exemplo, leia-se este trecho: “(...) São esses supermercados subterrâneos, essas igrejinhas nos ares, esses farmaciassítios, esses açougues de almas, e esses soberbos condomínios de burgueses hostis que bancam e financiam o câncer desse governo sectário, fascista e tendencioso, por conta de antropoides especuladores do sórdido capital sujo. – Fale baixo, Penélope, fale baixo, que você, com essa cara de Celly Campelo com dengue, ainda vai ver seu disquinho historial sofrer adulteração raqueada. E você vai ter que rebolar e arrumar outro codinome para parecer meia porção de gente, com essa sua siliconada bundinha murcha de câmera de bola de futebol. E vai ter que pentear macacos no laboratório de inseminação de símios treinados para serem serviçais de agentes carniças que não são desse mundo (...)”.

Ou ainda este trecho surreal: “(...) Altas tecnologias de ponta e todas top de linha, só para suntuosas cidades satélites de ricaços residentes. Eles que são elos. Nós aqui estamos e somos os novos campos tipo Auschwitiz e Treblinka, para dizer o mínimo.... – Pois é, mas volta e meia, a gente bota fogo na canjica, sobe clandestinamente e camuflado para as altas bordas, num Cavalo de Troia ou não, vai lá de supetão e traz um refém posudo e pimpão, um burguês macarrônico. E então negocia uma felação premiada, uma devolução calculada no muque como bagre cego no mercado das pulgas, e consegue um novo reator, um plug atípico, um chip quizilento, um torno, uma muda de laranja negra, uma válvula hidrante do tempo dos cardumes, um piloto gerador, um desfibrilador de úteros rompidos. Um pendrive de suturas... E assim vamos montando nossos jipes Nirvanas, nossas naves secretas de rebelião assistida (...)”.

Por aqui se vê que a literatura fantástica de ficção científica de Silas Corrêa Leite, com a presença de neologismos, palavras estranhas, termos inventados ou tirados do dia a dia da atual onda informática, busca romper todas as regras e tradições de um modelo de se escrever romances ou contos. E procura anunciar um fim de mundo que parece estar cada vez mais próximo. Ao incrédulo leitor só resta conferir.

 

                                                                III

Nascido em Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, no Paraná, e tendo vivido sua juventude na mítica cidade paulista de Itararé, localizada na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, Silas Corrêa Leite é poeta, romancista, letrista, professor, desenhista, jornalista, resenhista, ensaísta, conselheiro diplomado em Direitos Humanos e membro da União Brasileira de Escritores (UBE), além de blogueiro e ciberpoeta.

Tendo começado a escrever aos 16 anos, migrou em 1970 para São Paulo, onde se formou em Direito e Geografia, sendo especialista em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de ter cursado extensões e pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação, curso este que fez na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

Nos últimos tempos, o romancista lançou também Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do Rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013), romance pós-moderno, considerado a sua melhor obra; Tibete, de quando você não quiser ser gente, romance (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); e O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019), romance social,  

Como poeta e ficcionista, consta de mais de 100 antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, Christmas Anthology, de Ohio, Estados Unidos, e Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Seu texto “O estatuto do poeta” foi vertido para o espanhol, inglês, francês e russo.  

É autor do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice, que reúne onze ficções, cada uma com três finais, um feliz, um de tragédia e um terceiro politicamente incorreto, que virou tema de tese de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e de doutoramento na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Foi finalista do Prêmio Telecom, em Portugal, em 2007. É autor ainda, entre outros, de Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print) e Campo de trigo com corvos, contos (Joinville-SC, Editora Design, 2005), obra finalista do prêmio Telecom, Portugal 2007, e O homem que virou cerveja, crônicas hilárias de um poeta boêmio (São Paulo, Giz Editorial, 2009), livro ganhador do Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador-Bahia, 2009. Adelto Gonçalves - Brasil

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Transpenumbra do Armagedom, de Silas Corrêa Leite. São Paulo: Desconcertos Editora, 146 páginas, R$ 50,00, 2021. Site: www.desconcertoseditora.com.br E-mail: desconcertos@gmail.com Site do autor: poetasilascorrealeite.com.br E-mail do autor: poesilas@terra.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




Moçambique - Grupo francês Total quer retomar este ano projeto de gás em Cabo Delgado

A Totalenergies, do grupo francês Total, pretende retomar este ano o projeto de gás natural em Cabo Delgado, norte de Moçambique, suspenso em março de 2021 após um ataque armado, anunciou o presidente executivo da empresa, Patrick Pouyanné

“O meu objetivo é que [o projeto] recomece em 2022, mas não estou sozinho. Nós estamos prontos”, referiu no edifício da Presidência da República em Maputo, após um encontro, segunda-feira (31), com o chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi.

A construção da fábrica de liquefação de gás, extraído do fundo do mar (cerca de 40 quilómetros ao largo) é o maior investimento privado financiado atualmente em África e foi suspenso em março de 2021.

Um ataque armado à vila de Palma, que acolhia as empresas subempreiteiras e muitos dos trabalhadores do projeto, fez com que fosse invocada “force majeure” (termo contratual para ‘força maior’, em que nenhuma das partes pode ser responsabilizada) para travar todos os trabalhos em curso.

“Estou otimista”, disse Pouyanné, sobre a retoma dos trabalhos, embora sem compromissos.

O CEO da Totalenergies disse que quando voltar a Moçambique quer poder ir “a Palma, Mocímboa da Praia e Mueda: quando vir que a vida está de volta ao normal, com serviços do Estado e população, aí o projeto pode recomeçar”, referiu.

Patrick Pouyanné disse que “muitos progressos já foram feitos e quero dar os parabéns às autoridades moçambicanas que juntamente com o Ruanda e SADC [Comunidade de Desenvolvimento da África Austral] conseguiram que muita coisa fosse feita”.

Uma força militar conjunta tem combatido os grupos insurgentes na região.

Pouyanné fez referência a dois pontos cruciais, Mocímboa da Praia e Palma, apontando-os agora como sítios seguros.

“Mas há ainda algum progresso por fazer para termos uma segurança sustentada. Queremos ver a população e as vilas a voltar as suas vidas normais”, destacou.

Pouyanné assinou hoje com as autoridades moçambicanas um acordo para ações de formação de 2500 jovens de Cabo Delgado, com vista a criar oportunidades de trabalho decorrentes dos investimentos em curso.

Um tema que, referiu, está ligado às questões de segurança.

“A normalização da vida social é parte da segurança, não é só um assunto das forças armadas”, referiu.

O Presidente moçambicano disse que a petrolífera “não saiu porque quis”.

De igual modo, a população “saiu porque foi atacada, mas vai voltar”, à medida que a normalidade for retomada, referiu, recordando um pedido que lhe foi feito durante uma visita a Palma: ser possível viajar tranquilamente na província.

Satisfeito com o avanço militar sobre a insurgência, o chefe de Estado espera ver essa tranquilidade reinar em toda a província, em breve.

“Não é por cantar vitórias, mas estamos a trabalhar e a gostar do trabalho que os jovens [militares] estão a fazer”, sublinhou.

Sobre a presença de Pouyanné em Maputo, Nyusi comentou que “esta visita foi importante para se avaliar o que está a acontecer” e prometeu trabalho conjunto.

“Uma das coisas que vamos fazer rapidamente, juntos, é tentar trazer a tranquilidade à vida” de Cabo Delgado, disse o Presidente aos jornalistas no final do encontro com o líder da Totalenergies.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

O conflito já provocou mais de 3100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas onde havia presença de rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020. In “África 21 Digital” – Brasil com “Lusa”