Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 29 de maio de 2024

Angola - Parque Nacional do Iona ainda está longe dos congéneres da região

Apesar das enormes diferenças entre os serviços disponíveis dentro do Iona e nos tradicionais parques naturais e zonas de conservação da Namíbia ou África do Sul, a província do Namibe apresenta vantagens comparativas, ao nível do acesso e dos preços das viagens, para os turistas angolanos


Apesar da gestão privada, que assumiu as rédeas em Fevereiro de 2020, quando foi concretizada a parceria entre o Governo e a ONG African Parks, factores como a pandemia e a ausência de infra-estruturas turísticas e de lazer têm atrasado a recuperação dos 15 150 quilómetros quadrados de reserva e dificultado o fomento da actividade económica no interior do Parque Nacional do Iona, onde actualmente vivem cerca de 7000 pessoas, naquela que é uma realidade ainda distante dos maiores parques naturais da região Austral.

Tanto no Parque Nacional de Etosha, na Namíbia, como no famoso Parque Kruger, na África do Sul, a oferta de safaris (passeios guiados para observar a vida animal) e de alternativas dentro das reservas para acomodação dos turistas é vasta e inclui diversas possibilidades para casais, famílias, empresas e outros grupos de visitantes.

Para os turistas internos, a grande vantagem do Parque Nacional do Iona está na proximidade e no preço - uma viagem de avião entre Luanda e Moçâmedes ronda os 100 mil Kz por pessoa, menos de um terço da ligação para Windhoek (Namíbia) e cerca de 15% do bilhete para Joanesburgo (África do Sul) -, para além da possibilidade de (re)descobrir o País. Em 2022, a reserva recebeu 998 visitantes.

"A vertente económica da nossa gestão é a que está mais atrasada. Mas antes de olharmos para o turismo precisávamos de ter tudo o resto a funcionar", justifica Pedro Monterroso, director do Parque Nacional do Iona, em conversa com o Expansão.

A abordagem geral da African Parks é sustentada em três vertentes: conservação da biodiversidade, desenvolvimento comunitário e geração de receitas e de oportunidades económicas. No último caso, as acções de cariz económico são importantes para sustentar e encaminhar recursos financeiros para a conservação, melhoria das condições de vida e de trabalho no interior dos parques.

O objectivo da organização "passa por valorizar aquilo que o Iona tem" e por "criar fontes de financiamento com a mínima dependência do Estado", explica Pedro Monterroso, que anunciou o início de um período de transição para que seja possível cobrar as taxas de acesso aos parques nacionais definidas recentemente. No futuro, o Iona deve ter uma tabela de acesso com preços específicos.

"O parque está aberto ao público e recebe visitantes com regularidade. Aconselhamos apenas que os visitantes contactem os nossos serviços com alguns dias de antecedência para adiantar e facilitar o processo de entrada no parque. Em termos de estadia, o acampamento é, por enquanto, a única possibilidade", descreve o responsável recrutado pela African Parks.

Nos próximos meses também está prevista a realização de obras de benfeitoria para melhorar as zonas de campismo e a identificação de possíveis parceiros para a construção de lodges no interior do Parque Nacional do Iona, ainda que o modelo de trabalho para concretizar estes investimentos não esteja totalmente definido.

"Estamos em conversações com o Governo para encontrar a melhor solução. Tipicamente, a African Parks identifica parceiros para investir na vertente mais turística, mas também pode avançar para um lodge próprio. Ou até desenvolver as duas possibilidades: investir nas suas instalações em determinada zona da reserva, enquanto outros investidores apostam noutras áreas dentro do parque", sublinha Pedro Monterroso.

História e números

A renovada base, que foi inaugurada com a presença de João Lourenço no último fim-de-semana, vai servir apenas a African Parks e as equipas de gestão do empreendimento. Naquela ocasião, Monterroso divulgou que desde o início da gestão privada já foram investidos mais de 10 milhões USD em infra-estruturas para o parque, recrutamento de pessoal, entre outras actividades.

De acordo com o relatório anual da ONG relativo a 2022, desde o início da parceria - o acordo firmado com o Ministério do Ambiente tem a duração de 20 anos - as despesas operacionais e de capital aumentaram 66% e os custos com os trabalhadores subiram 71%. Neste formato de parceria público-privada, o Estado (via Ministério do Ambiente e Instituto Nacional da Biodiversidade e Conservação) mantém a titularidade da reserva, mas assume um modelo de co-gestão operacional e financeira com a entidade privada. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


sábado, 1 de abril de 2023

Angola - Fome no sul do país das “piores do mundo” em 2022

A insegurança alimentar nas províncias angolanas do Cunene, Huíla e Namibe em 2022 foi das “piores do mundo”, alertou esta terça-feira (28) a Amnistia Internacional (AI), sublinhando que o historial de Angola quanto a direitos humanos continua a ser “terrível”


No relatório sobre o estado dos direitos humanos no mundo em 2022, a AI denuncia que a fome afetou “cerca de 1,58 milhões de pessoas” naquelas províncias do sul de Angola, sem que houvesse a intervenção necessária do Governo.

“Milhares de pessoas caminharam para a Namíbia a pé, sem comida e água, algumas delas doentes e desnutridas; muitas morreram durante a viagem”, relata a organização de defesa dos direitos humanos.

“O governo da Namíbia e a Cruz Vermelha fizeram esforços visíveis para fornecer ajuda aos refugiados” enquanto do lado angolano “havia pouco alívio governamental para os que permaneceram em Angola”, de tal forma que “a fome obrigou muitos dos que tinham sido repatriados a regressar” ao país vizinho.

Cerca de 400 mil crianças foram classificadas como “gravemente desnutridas” em 2022, de acordo com o fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

A Amnistia Internacional acusa também as autoridades angolanas de repressão do direito à reunião pacífica e ao protesto, detenção e tortura de ativistas, sobretudo nos períodos, “mergulhados” em violações dos direitos humanos, pré e pós-eleições, realizadas a 24 de agosto.

Embora não tenham sido comunicadas violações dos direitos humanos nas mesas de voto no dia das eleições, as situações sucederam-se antes e depois e “os agentes de segurança ficarem impunes por estes crimes”, refere a Amnistia Internacional.

Entre outros casos, refere o ocorrido em março, quando agentes do Serviço de Investigação Criminal (SIC) detiveram e “submeteram a tortura durante a detenção“, 10 ativistas cívicos por planearem um seminário sobre desenvolvimento regional sustentável na escola Agostinho Neto, na província de Malanje.

As sucessivas detenções de António Tuma, adjunto para a informação do Movimento Independentista de Cabinda (MIC) e outros ativistas desta estrutura são também denunciadas no relatório, que documenta com vários casos como as autoridades “reforçaram o controlo sobre o direito à liberdade de associação, impedindo reuniões da sociedade civil antes das eleições”.

Após a eleição, “procederam a detenções em massa”, acrescenta a AI, recordando, entre outros, os casos no Lobito, a 26 de agosto, quando a polícia nacional dispersou uma manifestação e deteve oito ativistas e 11 outras pessoas, e mais 20 no dia seguinte, durante um protesto em que contestavam o resultado das eleições.

A organização de defesa dos direitos humanos relata ainda outras violações, como a expropriação de pastagens comunais, agravando a já difícil situação destas comunidades, para pecuária comercial no sul de Angola.

Em outubro, exemplifica, a polícia incendiou 16 casas e objetos pessoais numa operação para expulsar a comunidade Mucubai das suas terras, na província do Namibe. In “Milénio Stadium” - Canadá