Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 5 de outubro de 2021

Estados Unidos da América - Comprimido contra a covid? Pode estar para breve

A primeira pílula oral para tratar doentes covid-19, aos primeiros sintomas, poderá estar disponível a curto prazo. Desenvolvida pela Merck este fármaco demonstrou reduzir para metade os internamentos. Vai agora ser pedida a sua autorização de uso à FDA

A vacinação anti-covid conseguiu desacelerar a pandemia e diminuir mortes e hospitalizações pelo mundo. Esta é uma arma única eficaz desde que a covid-19 surgiu, há 19 meses atrás.

Contudo, a pandemia ainda não acabou como fazem questão de lembrar todos os especialistas, a ONU e pelo mundo político. Desde dezembro de 2019 que o novo coronavírus já matou quase cinco milhões de pessoas no planeta e infetou mais de 235 milhões. E continuar a morrer doentes.

Por isso, as farmacêuticas concentram esforços para melhorar vacinas e descobrir outros medicamentos que podem diminuir o impacto da covid-19 na saúde individual e nas populações.

E o primeiro comprimido oral contra uma doença da covid-19 pode, em breve, ser aprovado, segundo anunciou a farmacêutica Merck que divulgou este fármaco de toma fácil para pessoas infetadas com o SARS-Cov-2 e os resultados dos ensaios clínicos são “bastante promissores”.

Como o comprimido para uma gripe

O novo fármaco não substitui a vacina que continua a ser a solução principal para prevenir a doença. O antiviral comprimido é destinado a quem foi contagiado pelo novo coronavírus e deve ser tomado na fase inicial da infecção, quando surgem os primeiros sintomas. Como os medicamentos para outras infeções causadas por vírus como a gripe ou o herpes.

Os ensaios clínicos realizados pela farmacêutica Merck e pela Ridgeback Biotherapeutics com este novo fármaco em pacientes com covid-19, com sintomas moderados ou ligeiros, demonstraram que ele reduz para metade dos internamentos e as mortes.

Por isso, a Merck anunciou que vai solicitar à agência do medicamento dos Estados Unidos, a FDA, a autorização com caractere emergência para o comprimido antiviral usado em pacientes de covid-19, naquele país.

Caso seja aprovado pela FDA, o governo dos Estados Unidos já se comprometeu a adquirir 1,7 milhões de doses da pílula oral, dado que continua a ser o país do mundo com mais mortes causadas pela pandemia.

Como atua o fármaco?

E como atua o novo comprimido, chamado molnupiravir? Nos primeiros cinco dias de sintomas devem ser tomados quatro comprimidos, duas vezes por dia, durante estes dias. Os ensaios clínicos realizados junto com 775 pacientes covid-19 revelaram que não se registou uma única morte entre os pacientes a quem foi dado o comprimido, indicou a Merck.

O que o molnupiravir faz é parar o processo de replicação dos vírus dentro das células do organismo de modo que a doença não se agrave. “Impedir que o vírus se multiplique é importante porque quanto mais se reproduz, destruindo após célula, mais doente uma pessoa fica”, explicou Waleed Javaid, epidemiologista e diretor de prevenção e controle de infeções no Monte Sinai Downtown, em Nova Iorque, ao site Geografia nacional.

Mudança no "jogo"

"Um antiviral oral que pode diminuir o risco de hospitalização é uma mudança no jogo", declarou Amesh Adalja, professor de Segurança de Saúde no Centro Johns Hopkins, à agência Reuters.

As opções de tratamento atuais contra a covid são administradas unicamente pelos hospitais e por via intravenosa. Um comprido oral capaz de curar uma infecção da covid-19 será bem obtida. As terapêuticas existentes são "complicadas e logisticamente difíceis de administrar. Uma simples pílula oral seria o oposto disso", frisou Adalja.

“Excedeu o que eu penso que uma droga poderia ser capaz de fazer neste ensaio clínico”, assumiu Dean Li, o vice-presidente de pesquisa da Merck, citado pelo The Guardian. “Quando se vê uma redução de 50% na hospitalização ou morte, é um impacto clínico substancial.”

Perante os bons resultados, o grupo independente de especialistas que monitorizou o estudo recomendou a interrupção dos ensaios uma vez que ficou fornecida que o fármaco funciona de modo a que a farmacêutica pode pedir já permissão para a entrada no mercado do medicamento.

Comprar sem receita

Atualmente há outras pilulas contra a covid a serem também já testadas, mas o comprimido da Merck é o primeiro com ensaios concluídos. Para os cientistas que trabalham noutros antivirais o resultado dos ensaios da Merck são vistos com entusiasmo. “Muito empolgante”, disse Jane Scott, da Universidade de Glasgow que coordena um estudo com outro comprimido oral contra a covid-19. “O ideal é que no futuro tenhamos um medicamento bem tolerado que as pessoas possam comprar sem receita e tomar na primeira suspeita de infeção, antes mesmo de terem o resultado do teste de volta, para que possamos tratar a Covid-19 mais cedo”, perspetivou esta cientista ao The Guardian.

Ao mesmo tempo que a Merck espera o sinal verde da FDA para comercializar o comprimido de toma fácil, a Agência Europeia do Medicamento, a EMA, acaba de considerar "segura e eficaz" uma dose de reforço da vacina Pfizer para uma população em geral, pelo menos seis meses após uma segunda dose, mas sem adiantar datas para a terceira vacina anti-covid. Contudo, a EMA admite que, neste momento, não pode fazer uma recomendação precisa quanto à data e quem se destina uma terceira dose da vacina. Cada país deve decidir sobre a aplicação deste reforço, indicou a EMA. Paula Ferreira – Luxemburgo in “Contacto”


terça-feira, 23 de março de 2021

Portugal - Nanopartícula para combate ao cancro desenvolvida na Universidade de Coimbra obtém designação de “medicamento órfão”

Uma nanopartícula de nova geração de base lipídica para combate ao cancro, PEGASEMP, desenvolvida na Universidade de Coimbra (UC), obteve o estatuto de “medicamento órfão” da Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla inglesa) e da autoridade reguladora americana Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento do mesotelioma maligno, um tipo de cancro raro que resulta da exposição a amianto. Este estatuto constitui fator facilitador de realização de ensaio clínico em doentes.

Os “medicamentos órfãos” são fármacos orientados para o diagnóstico ou tratamento de doenças raras graves, apontadas como doenças órfãs, que afetam um reduzido número de pessoas em comparação com a população em geral.

A atribuição da EMA e da FDA é o resultado de diversos e complexos estudos realizados ao longo de vários anos no Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra (UC), em colaboração com centros de investigação nacionais e estrangeiros, sob a liderança de João Nuno Moreira, docente e investigador do CNC e da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC).

No mais recente trabalho, cujos resultados acabam de ser publicados na revista científica Nano Today, especializada na divulgação dos trabalhos mais influentes e inovadores em nanociência e tecnologia, a equipa de João Nuno Moreira desenvolveu e testou um protótipo de produção industrial da tecnologia PEGASEMP em condições GMP (do inglês, Boas Práticas de Fabrico), extensamente caracterizado em termos de propriedades físicas e químicas, demonstrando a segurança e eficácia antitumoral deste sistema de entrega de medicamentos.

Antecipando já o potencial uso em humanos, experiências muito detalhadas foram realizadas em diferentes espécies animais. «Avaliou-se a segurança da nanopartícula em murganhos, ratos e cães de acordo com as normas de desenvolvimento de novos medicamentos para tratamento oncológico. A sua segurança foi efetivamente demonstrada», relata o líder da equipa.

Basicamente, o produto PEGASEMP pode ser descrito como uma bolha de gordura (de natureza lipídica), contendo no seu interior um composto anticancerígeno, que acede a tumores sólidos através de uma nova porta de entrada, bloqueando o crescimento e a invasão tumoral.

«Neste trabalho foi possível demonstrar em modelo animal de cancro, pela primeira vez, a existência de uma nova porta de entrada que permite o acesso facilitado da nanopartícula desenvolvida a tumores sólidos, difíceis de tratar. Este acesso facilitado traduziu-se na inibição significativa do crescimento tumoral em modelo animal de mesotelioma humano, relativamente ao tratamento de primeira linha usado clinicamente nestes doentes (combinação de quimioterapia convencional)», assinala o investigador.

Os resultados obtidos no estudo agora publicado poderão ter impacto a vários níveis. Em primeiro lugar, destaca João Nuno Moreira, «o nível de maturidade tecnológica do PEGASEMP assim como o conjunto de dados alcançados permitiram a obtenção da designação de medicamento órfão para tratamento do mesotelioma, passo importante para o desenvolvimento translacional do PEGASEMP, ou seja, para aplicação clínica».

Em segundo lugar, prossegue, este trabalho mostra que «a entrega de fármacos encapsulados em sistemas de base nanotecnológica, através do direcionamento para a nucleolina e consequentemente à vasculatura tumoral, é um mecanismo inovador e disruptivo, que tenta ir além dos dogmas tradicionais da entrega de fármacos ao nível de tumores sólidos. Como tal, tem o potencial de ser aplicado de forma transversal a outras nanopartículas que não de natureza lipídica, assim como a outros fármacos, e em simultâneo estendido a diferentes tipos de tumores, podendo daí advir um efeito terapêutico associado a melhor segurança».

Por último, «é um contributo fundamental rumo à era da terapia personalizada e com impacto direto na qualidade de vida dos doentes», afirma o coordenador do estudo, adiantando ainda que o passo seguinte da investigação incidirá na «realização de ensaios clínicos», mas para isso é necessário encontrar financiamento.

Este estudo foi financiado por vários programas europeus, pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Rede Nacional de Espetrometria de Massa, tecnológica TREAT U, SA, farmacêutica Bluepharma e Portugal Ventures, SA. Universidade de Coimbra - Portugal