Sete anos de um mesmo gesto diário transformaram-se em escultura, instalação e matéria. A Associação Cultural da Taipa apresenta a partir de 16 de Setembro, no Lisboeta Macau, a exposição “A Prática do Tempo”, do artista James Chu. A mostra reúne obras que partem da caligrafia repetida ao longo do tempo sobre papel tridimensional e se expandem para outras linguagens, num percurso que cruza o património artesanal com a instalação contemporânea
O que acontece quando um gesto diário
se repete durante sete anos? Se o tempo é, por definição, algo que escapa à
fixação, James Chu encontrou uma forma de o capturar. Nesse lapso temporal,
dedicou-se a uma labuta diária: escrever à mão textos em caligrafia chinesa
durante 2556 dias. A nova colecção de trabalhos, que ocupa a galeria R70 do
Lisboeta Macau até ao final de Novembro, procura concentrar o pensamento nesse
gesto repetitivo do ofício e devolvê-lo ao público em formato físico. Esse
exercício, aparentemente simples, está no centro da mostra que a Associação
Cultural da Taipa apresenta a partir de 16 de Setembro.
A obra principal, uma escultura de papel tridimensional,
materializa a passagem do tempo em apenas 260 caracteres, projectados em todas
as direções. As páginas escritas ao longo dos mais de dois mil dias foram
sobrepostas, transformando um texto breve numa estrutura física imponente, onde
a linguagem se torna matéria para uma escultura. Na contínua repetição, o gesto
tornou-se ritual, deixando de ser apenas escrita para ser lida. A disciplina
Zen e a contrectação metódica, transformou o acto num registo visual sobre a
própria passagem do tempo.
A exposição, que reúne caligrafia, escultura, instalação,
técnicas mistas, luz e sombra, leva o visitante por uma proposta de
contemplação. O percurso expositivo inclui várias obras criadas nos últimos 7
anos que ocupam o espaço de forma a “abrandar” o olhar.
João Ó, curador da exposição, explica que a mostra
“considera como uma prática criativa contínua pode transformar um gesto simples
numa experiência física e contemplativa”. Cada peça parece exigir tempo, e o
tempo, por sua vez, parece dilatar-se perante a repetição e o detalhe. É nesse
espaço entre o gesto e a sua repetição que a obra de James Chu encontra a sua
força. A curadoria sublinha ainda que, em vez de apresentar as formas
históricas da escrita e da criação como tradições fixas, a exposição aborda-as
como “linguagens visuais em evolução”, onde a memória, o material, o tempo e a
contemplação convergem.
Para lá da obra central escultórica, a exposição
desdobra-se em suportes artísticos como grandes figuras em papel e mãos em
escala ampliada, que foram produzidas recorrendo a técnicas artesanais
tradicionais de património cultural imaterial, que dialogam com a linguagem
contemporânea da instalação escrita. Os textos manuscritos são iluminados de
forma a revelar a relação “entre a escrita, a transparência, a sombra e o
espaço”. Noutras peças, também são utilizadas técnicas de pintura sobre tela e
tijolos recuperados de construções antigas que cruzam-se com a delicadeza da
obra mais recente, numa camada extra de leitura sobre o que é o tempo
acumulado.
James Chu, natural de Macau, estudou gravura na Academia
de Artes Visuais de Macau nos anos 90 e completou um mestrado em Estudos
Culturais na Universidade de Lingnan, em Hong Kong, em 2008. A sua carreira
inclui dez exposições individuais e mais de cem colectivas em vários países.
Foi o artista seleccionado para representar Macau no Pavilhão de Macau da 54.ª
Bienal de Veneza, em 2011, e já recebeu mais de 50 prémios internacionais. As
suas obras fazem parte de colecções como a Fundação Macau, a Fundação Oriente,
o Museu de Arte de Macau e a Philippe Charriol Foundation.
Para além da criação artística, Chu tem um papel activo
na dinamização da cena cultural de Macau, sendo um dos fundadores do Macau
Design Centre e coordenador do Macau Art Garden, e tem contribuído para a
organização de mais de uma centena de exposições em cidades como Lisboa, Nova
Iorque, Paris e Tóquio.
James Chu já tinha deixado pistas sobre a sua filosofia
de trabalho. “Ser criativo todos os dias é difícil, mas ao mesmo tempo, gosto
de desafios. […] Não esperes demasiado dos outros, pergunta sempre a ti mesmo
primeiro. Tudo deve começar de dentro”, afirmou o artista em entrevista à Macau
Lifestyle em 2016, resumindo a atitude que parece atravessar toda a sua
prática, culminando neste trabalho actual.
A abertura oficial da exposição “A Prática do Tempo” está
marcada para as 17h30 do dia 18 de Setembro. Fica patente até 27 de Novembro,
com entrada livre, no piso L1 da R70, no Lisboeta Macau. O horário é das 12h00
às 20h00. Mais informações podem ser encontradas na página oficial da
Associação Cultural da Taipa. A mostra leva consultoria artística da Impromptu
Projects e conta com o patrocínio do Fundo de Desenvolvimento Cultural. Elói
Carvalho – Macau in “Ponto Final”