Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Associação Cultural da Taipa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Associação Cultural da Taipa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Macau - James Chu apresenta sete anos de trabalho artístico no Lisboeta Macau

Sete anos de um mesmo gesto diário transformaram-se em escultura, instalação e matéria. A Associação Cultural da Taipa apresenta a partir de 16 de Setembro, no Lisboeta Macau, a exposição “A Prática do Tempo”, do artista James Chu. A mostra reúne obras que partem da caligrafia repetida ao longo do tempo sobre papel tridimensional e se expandem para outras linguagens, num percurso que cruza o património artesanal com a instalação contemporânea


O que acontece quando um gesto diário se repete durante sete anos? Se o tempo é, por definição, algo que escapa à fixação, James Chu encontrou uma forma de o capturar. Nesse lapso temporal, dedicou-se a uma labuta diária: escrever à mão textos em caligrafia chinesa durante 2556 dias. A nova colecção de trabalhos, que ocupa a galeria R70 do Lisboeta Macau até ao final de Novembro, procura concentrar o pensamento nesse gesto repetitivo do ofício e devolvê-lo ao público em formato físico. Esse exercício, aparentemente simples, está no centro da mostra que a Associação Cultural da Taipa apresenta a partir de 16 de Setembro.

A obra principal, uma escultura de papel tridimensional, materializa a passagem do tempo em apenas 260 caracteres, projectados em todas as direções. As páginas escritas ao longo dos mais de dois mil dias foram sobrepostas, transformando um texto breve numa estrutura física imponente, onde a linguagem se torna matéria para uma escultura. Na contínua repetição, o gesto tornou-se ritual, deixando de ser apenas escrita para ser lida. A disciplina Zen e a contrectação metódica, transformou o acto num registo visual sobre a própria passagem do tempo.

A exposição, que reúne caligrafia, escultura, instalação, técnicas mistas, luz e sombra, leva o visitante por uma proposta de contemplação. O percurso expositivo inclui várias obras criadas nos últimos 7 anos que ocupam o espaço de forma a “abrandar” o olhar.

João Ó, curador da exposição, explica que a mostra “considera como uma prática criativa contínua pode transformar um gesto simples numa experiência física e contemplativa”. Cada peça parece exigir tempo, e o tempo, por sua vez, parece dilatar-se perante a repetição e o detalhe. É nesse espaço entre o gesto e a sua repetição que a obra de James Chu encontra a sua força. A curadoria sublinha ainda que, em vez de apresentar as formas históricas da escrita e da criação como tradições fixas, a exposição aborda-as como “linguagens visuais em evolução”, onde a memória, o material, o tempo e a contemplação convergem.

Para lá da obra central escultórica, a exposição desdobra-se em suportes artísticos como grandes figuras em papel e mãos em escala ampliada, que foram produzidas recorrendo a técnicas artesanais tradicionais de património cultural imaterial, que dialogam com a linguagem contemporânea da instalação escrita. Os textos manuscritos são iluminados de forma a revelar a relação “entre a escrita, a transparência, a sombra e o espaço”. Noutras peças, também são utilizadas técnicas de pintura sobre tela e tijolos recuperados de construções antigas que cruzam-se com a delicadeza da obra mais recente, numa camada extra de leitura sobre o que é o tempo acumulado.

James Chu, natural de Macau, estudou gravura na Academia de Artes Visuais de Macau nos anos 90 e completou um mestrado em Estudos Culturais na Universidade de Lingnan, em Hong Kong, em 2008. A sua carreira inclui dez exposições individuais e mais de cem colectivas em vários países. Foi o artista seleccionado para representar Macau no Pavilhão de Macau da 54.ª Bienal de Veneza, em 2011, e já recebeu mais de 50 prémios internacionais. As suas obras fazem parte de colecções como a Fundação Macau, a Fundação Oriente, o Museu de Arte de Macau e a Philippe Charriol Foundation.

Para além da criação artística, Chu tem um papel activo na dinamização da cena cultural de Macau, sendo um dos fundadores do Macau Design Centre e coordenador do Macau Art Garden, e tem contribuído para a organização de mais de uma centena de exposições em cidades como Lisboa, Nova Iorque, Paris e Tóquio.

James Chu já tinha deixado pistas sobre a sua filosofia de trabalho. “Ser criativo todos os dias é difícil, mas ao mesmo tempo, gosto de desafios. […] Não esperes demasiado dos outros, pergunta sempre a ti mesmo primeiro. Tudo deve começar de dentro”, afirmou o artista em entrevista à Macau Lifestyle em 2016, resumindo a atitude que parece atravessar toda a sua prática, culminando neste trabalho actual.

A abertura oficial da exposição “A Prática do Tempo” está marcada para as 17h30 do dia 18 de Setembro. Fica patente até 27 de Novembro, com entrada livre, no piso L1 da R70, no Lisboeta Macau. O horário é das 12h00 às 20h00. Mais informações podem ser encontradas na página oficial da Associação Cultural da Taipa. A mostra leva consultoria artística da Impromptu Projects e conta com o patrocínio do Fundo de Desenvolvimento Cultural. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”