Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Portugal – Um mal nunca vem só

Javalis, veados e outros animais arrasam culturas



Javalis, veados e corços regressaram aos antigos ‘habitat’ da região Centro, onde agora se multiplicam e arrasam culturas, levando as famílias a desistir das explorações.

Os incêndios de 2017, em que morreram 116 pessoas e extensas áreas florestais foram destruídas, agravaram a situação, com milhares de animais com valor cinegético a rondarem as povoações em busca de alimento.

Nas serras da Lousã e de Sicó, nos distritos de Coimbra e Leiria, onde persistem marcas físicas e a memória dramática do fogo, até a raposa se aproxima das habitações. Sempre que pode, assalta os galinheiros.

Mas há casos em que o canídeo devora os gatos domésticos ou mesmo se afeiçoa às pessoas.

A raposa chega a entrar descontraidamente nas casas, como acontece no Talasnal, lugar do concelho da Lousã que integra a rede turística Aldeias do Xisto.

Reintroduzidos há 25 anos na serra da Lousã, também os veados e corços foram descendo, acabando por dizimar jovens plantações de espécies florestais autóctones, como carvalhos e castanheiros, além de vinhas e outras culturas agrícolas.

Penela, Miranda do Corvo e Condeixa-a-Nova são municípios onde sobretudo os javalis causam prejuízos elevados, o que faz esmorecer os agricultores.

Muitos abandonam a atividade por falta de resposta do Estado.

Às portas de Penela, Manuel Bernardino, de 71 anos, e a irmã sentem-se desalentados com a situação.

“Semeei uns tremoços e os javalis estragaram tudo para andarem a foçar”, afirma o homem à agência Lusa.

Nas últimas semanas, “derreteram tudo” num terreno junto ao IC3, corrobora Lucília Oliveira, explicando, contudo, que “eles não comem o tremoço por ser amargo”.

Batatais, vinhas e campos de milho têm sido igualmente alvo da fúria dos javalis.

“Este ano, já lá foram várias noites”, lamenta Manuel Bernardino.

A Lusa quis saber se fez alguma participação às entidades públicas competentes: “Para quê?”, responde.



Manuel Alegre, outro agricultor, integrou as ações que a Confederação Nacional da (CNA) e a Associação Distrital dos Agricultores de Coimbra (ADACO) promoveram este ano a exigir que os lesados sejam ressarcidos pelos danos dos diversos ungulados.

“Há terras à beira das casas completamente abandonadas. Hoje, o javali está mais protegido pelos governantes do que os sem-abrigo das cidades”, critica o agricultor.

Ele e o coordenador da ADACO, Isménio Oliveira, guiam uma visita à Lusa a locais de Penela e Condeixa-a-Nova onde a investida dos javalis tem sido impiedosa.

“Não podemos cultivar nada”, relata Manuel Alegre, apontando para uma vinha onde esperava colher 60 poceiros de uvas e encheu apenas seis, em setembro, já que os porcos do mato consumiram a maior parte dos cachos.

O homem mostra ainda uma horta de couve troncha, que pertence a Manuel Brásio, totalmente devastada.

Este proprietário reclamou junto do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), do qual recebeu há dias resposta que não o conforma. “Sacodem a chuva”, resume.

Na carta do ICNF, a que a Lusa teve acesso, a diretora regional do instituto refere que as terras em causa integram a Zona de Caça Associativa (ZCA) gerida pela Associação de Caçadores de Penela.

“A par das várias ações de correção de densidade, o javali tem sido explorado todos os anos pelos processos de espera e montaria, com uma média de abates que ronda os 10 animais por época venatória”, contribuindo a associação para “minimizar e prevenir a ocorrência dos prejuízos”, alega Teresa Fidélis.

Ao abrigo da lei em vigor, “não havendo entendimento entre as partes, as indemnizações podem ser fixadas por um tribunal arbitral”, acrescenta.

Em qualquer caso, segundo a responsável, “caberá também ao proprietário agrícola zelar pela proteção do seu património”, instalando cercas ou outros dispositivos.

No Rabaçal, arredores de Penela, três explorações de caracóis foram destruídas pelos javalis, mas os donos nunca foram ressarcidos.

“Há um sacudir de responsabilidades”, confirma à Lusa Nelson Moita, residente em Condeixa-a-Velha, que perdeu duas estufas onde produziu caracóis durante seis anos.

Por um lado, as ZCA “dizem que não têm capacidade” para indemnizar os lesados, mas também o ICNF “descarta as responsabilidades”, acentua.

“O Governo não pode continuar a lavar as mãos como Pilatos, perante prejuízos que são brutais”, exige Isménio Oliveira, que é também dirigente da CNA.

Após os fogos de 2017, a situação agravou-se e “tem levado ao abandono da agricultura familiar”, lamentou.

“O que os preços baixos e a falta de escoamento não conseguiram estão agora os animais selvagens a fazê-lo”, acusa.

Entre lama e pedras revolvidas pelos javalis, Manuel Alegre escolhe o melhor caminho para as estufas.

Ali jazem milhares de conchas vazias e as couves que alimentavam os caracóis secaram.

O abandono é total. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

República Checa - Detectados elevados índices de radiação nos javalis selvagens

Trinta anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, continuam a aparecer vestígios de radiação nos locais mais inesperados. Desta vez, foram detectados elevados índices de radiação nos javalis selvagens que vagueiam nas florestas e montanhas da República Checa – a 1600 km da central nuclear



A República Checa enfrenta este inverno um problema invulgar com a sua carne de javali, ingrediente principal da sua iguaria nacional. Os javalis estão radioactivos.

Segundo a agência Reuters, a súbita radioactividade registada nos javalis checos é devida à dieta alimentar a que foram forçados este ano. Um inverno invulgarmente frio e nevoso obrigou os javalis a comer uma espécie de cogumelos subterrâneos comum nos montes Sumava, situados entre a República Checa, Alemanha e Áustria.

Estes fungos absorvem elevadas concentrações de césio-137, isótopo radioactivo libertado em grandes quantidades há quase 31 anos durante a catástrofe de 26 de abril de 1986 em Chernobyl – que, aparentemente, vagueou na atmosfera até chegar aos montes Sumava, onde foi absorvido pelos referidos cogumelos.

“Este inverno, forçados a comer os cogumelos radioactivos, os javalis ingeriram césio-137 e ficaram com a sua carne radioactiva também”, explica à Reuters Jiri Drapal, responsável da Administração Veterinária Estatal do país.

“É um problema mais ou menos sazonal”, diz Drapal.

Mas, infelizmente, a época vai ser muito longa. A meia-vida do césio-137, isto é, o tempo que leva a radioactividade de uma dada quantidade de césio-137 a ficar reduzida a metade, é de cerca de 30 anos. E depois, mais 30 para se reduzir a 25%…

Ou seja, daqui a 100 anos, os javalis dos montes Sumava não estarão propriamente a brilhar no escuro, mas ainda terão cerca de 10% dos níveis de radioactividade que apresentam hoje.

Não é a primeira vez que são encontrados elevados níveis de radiação em javalis. Em 2014, um em cada três javalis selvagens das florestas da Saxónia, na Alemanha, apresentavam elevados níveis de radiação. Segundo o The Telegraph, também neste caso a radioactividade foi um legado de Chernobyl.

Em abril do ano passado, havia javalis selvagens radioactivos à solta em todo o norte do Japão, contaminados pelo desastre de Fukushima.

Mas o problema, na República Checa, é que o javali é um dos pratos mais populares no país, onde aparece como ingrediente principal em inúmeras receitas tradicionais – nomeadamente no goulash, o famoso guisado de carne e vegetais com paprika.

Um pouco de césio-137 não transforma os javalis em leitões ninja mutantes adolescentes… mas tampouco os deixa propriamente saborosos.

Mas segundo Jiri Drapal, todos os javalis (e quaisquer outros animais) abatidos para consumo são analisados, e os que apresentam radioactividade são excluídos, pelo que o goulash checo continua a ser completamente seguro.

Além disso, diz Drapal, “teríamos que comer javali radioactivo várias vezes por semana, durante uns quantos meses, até começarmos e sentir-nos doentes“. In “ZAP.aeiou” - Portugal