Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Brasil - Em busca de biomarcadores para diagnosticar malária placentária

Formas mais eficientes de diagnosticar a doença em gestantes podem ajudar a evitar abortos, partos prematuros e baixo peso ao nascer


Um projeto desenvolvido no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP tem o objetivo de buscar marcadores para o diagnóstico da malária placentária, forma específica de infecção em que o parasita causador da doença se aloja na placenta da gestante. A malária é uma doença parasitária causada pelos protozoários Plasmodium vivax e P. falciparum. É transmitida aos seres humanos através da picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles. Porém, ao nascer, os mosquitos não carregam em si os plasmódios. Eles se infectam ao picar uma pessoa já infectada e que não está em tratamento.

A pesquisa é desenvolvida pela pós-doutoranda do ICB Jamille Gregório Dombrowski, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo ela, o trabalho surgiu da necessidade de busca de formas mais eficientes de diagnosticar a doença em grávidas. “Quando o parasita infecta a gestante e atinge a placenta, o diagnóstico para malária placentária só poderá ser feito no momento do parto. Quando chega a esse ponto, não há muita margem para ação: o bebê já nasceu com baixo peso, ou a mulher teve um aborto, ou um parto prematuro”, explica a pesquisadora. Dessa forma, a pesquisa é focada em identificar novos biomarcadores para diagnosticar a doença ainda durante a gestação.

O projeto Identification of Predictive Biomarkers of Placental Dysfunction in Malaria é desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro, sob supervisão do professor Claudio Marinho, do Departamento de Parasitologia do ICB. Durante a última edição do Congresso de Pós-doutorandos da USP, que ocorreu nos dias 17, 18 e 19 de outubro, a pesquisadora recebeu menção honrosa no Prêmio Pós-Doc USP, na categoria Ciências da Saúde. O projeto premiado é fruto de trabalhos anteriores da pesquisadora com a malária durante a gravidez.

Uma consequência adversa grave da malária gestacional, a malária placentária ocorre quando o protozoário causador da doença deixa de circular apenas no sangue periférico e se aloja na placenta da gestante, atingindo também esse órgão. Apesar de não representar todos os casos, a infecção é frequente — estudos mostram que ela pode afetar mais de 50% das gestantes infectadas.

A pós-doutoranda explica a diferença entre os parasitas. O Plasmodium vivax, prevalente aqui no Brasil, não adere ao tecido placentário, ao contrário do Plasmodium falciparum, espécie que gera manifestações mais graves. “O parasita fica aderido ao tecido placentário, o que dificulta a sua eliminação e pode causar um intenso processo inflamatório, o principal motivo dos efeitos adversos que nós observamos nesses quadros.”

Sobre a incidência atual da malária no Brasil, Jamile Dombrowski menciona um estudo publicado pelo grupo na revista Lancet Americas, que apresenta um levantamento realizado entre 2004 e 2018, o qual demonstra que a grande maioria dos casos de malária gestacional no Brasil se concentra na região amazônica. “Sabemos que é uma região com poucos recursos e, apesar de já termos o diagnóstico e o tratamento de forma precoce nas infecções convencionais, estamos observando que ainda há esses efeitos adversos nas gestantes, que representam cerca de 5,8% dos casos de malária entre as mulheres em idade fértil no Brasil”, esclarece.

O diagnóstico funciona de duas maneiras. No caso da malária gestacional, o exame é idêntico ao das pessoas em geral: por microscopia (gota espessa – padrão ouro) através da coleta de sangue por punção digital da paciente. No caso da malária placentária, o exame é feito com a coleta do sangue placentário para análise por microscopia e confirmado por histologia — análise do tecido afetado —, e necessita de um profissional altamente qualificado para realizar a coleta adequada de uma amostra da placenta logo após o parto, conservá-la e analisá-la em laboratório. Há também a opção de diagnóstico por biologia molecular. Esta alternativa, contudo, é inviável nas regiões mais afetadas pela doença, por ser uma técnica de alto custo, que necessita de infraestrutura especializada.

Biomarcadores

Uma possibilidade, investigada pela pesquisadora no trabalho premiado, seria buscar no próprio sangue periférico das gestantes proteínas que indiquem alterações, causadas pela infecção, na formação e desenvolvimento da placenta. O estudo acompanhou 600 mulheres durante todo o período gestacional, concentrando-se na primeira infecção, quando esta ocorre no primeiro ou no segundo trimestre da gravidez. Após coletado o sangue, foi feita a separação do plasma, que foi analisado utilizando técnicas diversas para detecção de biomarcadores. “A ideia, ao final, é encontrar e padronizar um conjunto de biomarcadores que possam ser facilmente mensurados durante os exames de pré-natal, utilizando os equipamentos encontrados na rede pública de saúde, para o diagnóstico precoce das alterações ou lesões placentárias associadas à infecção na gestação”, explica.

Do painel de 30 biomarcadores, já foram obtidos os resultados de 15. O objetivo é reduzir o escopo a uma combinação de até cinco, com base em parâmetros diversificados de alterações e lesões placentárias, e por fim utilizá-los no diagnóstico. A mensuração deve ser concluída até o fim deste ano, e o estudo, até maio do ano que vem.

A pesquisadora destaca a importância das atividades do congresso, que viu como uma oportunidade para “sair da bolha” e conhecer o que outros pós-doutorandos estão fazendo. Sobre as atividades, ela ressalta as que tiveram como tema o financiamento de pesquisa e a mobilidade na carreira. “Foi muito bom ter entendido que a nossa carreira pode seguir por diversos caminhos. Também gostei das apresentações sobre as formas de financiamento de pesquisa no Brasil, e da oportunidade de ouvir, num mesmo ambiente, representantes das principais agências de fomento e canais de financiamento da ciência.” Felipe Parlato – Brasil in “Jornal da Universidade de São Paulo”


domingo, 12 de junho de 2022

Internacional - Investigadores da Universidade do Algarve lideram estudo que revela novo biomarcador do cancro da mama

Estamos na era de "personalizar" os tratamentos do cancro, o que só poderá acontecer se compreendermos melhor o modo como os tumores se desenvolvem e comportam durante a terapêutica. Seguindo esta linha de raciocínio, um grupo de investigadores, liderado por Ana Teresa Maia, docente da UAlg e investigadora do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), acaba de publicar um artigo na revista "npj Breast Cancer" que identifica um novo biomarcador para prognóstico em pacientes com cancro da mama

Este biomarcador está associado às mutações mais comuns do cancro da mama e poderá ajudar a identificar o tratamento mais adequado para cada paciente.

A investigadora Ana Teresa Maia refere: “Neste trabalho olhámos para o gene PIK3CA, que é o mais frequentemente mutado em tumores da mama, e tentámos perceber a sua importância clínica, que até agora era bastante elusiva”. Os investigadores descobriram que quando avaliam estas mutações de modo diferente do que é feito atualmente elas têm um carácter clínico importante, sendo indicadoras do prognóstico de cada paciente. “É como se olhássemos a mesma coisa, mas com óculos diferentes”, refere a investigadora. Ana Teresa Maia explica ainda: “Das várias moléculas que existem numa célula, o ADN contém a informação básica acerca do funcionamento celular, incluindo as mutações responsáveis pelos tumores. Mas o ARN revela a expressão dessa informação, ou seja, representa a forma como a informação é lida. Foi ao olhar para o ARN de tumores de diversos centros clínicos que identificámos uma relação entre a expressão das mutações e a probabilidade de sobrevivência destas pacientes, as características clínicas e moleculares dos tumores, assim como os mecanismos que pensamos estar subjacentes a estas associações.”

Este trabalho contou com a colaboração de parceiros da University of Cambridge e do Netherlands Cancer Institute, entre outros.

Questionada sobre o impacto que esta descoberta poderá vir a ter na comunidade ou na vida das pessoas, Ana Teresa Maia explica que “desde o ano passado que foi aprovado o uso de um fármaco específico para tratamento de tumores com estas mutações. Nós acreditamos que estudos como o nosso vêm ajudar a identificar com alta precisão as pacientes que podem beneficiar deste tratamento inovador”.

Os resultados alcançados são cruciais para pacientes e médicos. “As pacientes porque veem melhorias na compreensão da doença e na sua gestão clínica, o que leva a um aumento da qualidade de vida e das chances de sobrevivência. Os médicos, porque vão ter mais uma peça do puzzle nas mãos, que lhes vai aumentar a confiança nas suas decisões clínicas”, conclui a investigadora.

Este trabalho já deu origem a um pedido de patente para o desenvolvimento de testes para integração na prática clínica e foi também premiado pela Agência Nacional de Inovação (ANI), através do concurso Born from Knowledge (BfK) Ideas, que pretende promover uma cultura de valorização do conhecimento científico e tecnológico em Portugal. Atualmente, foi criada uma spin-off instalada na UALG TEC START, incubadora da UAlg, para licenciamento e desenvolvimento da tecnologia. In “Universidade do Algarve” - Portugal