Uma onda de medicamentos para emagrecer está prestes a transformar a luta global contra a obesidade, com a Índia a preparar-se para lançar versões genéricas de baixo custo de injecções como o Ozempic. A medida irá alargar drasticamente o acesso a tratamentos que há muito são considerados um luxo, especialmente nos países de rendimento médio, onde a crescente procura destes medicamentos choca com os preços elevados.
Nas clínicas de toda a cidade de Bombaim, os médicos
notam um aumento do número de pacientes. Mais de 50 pessoas procuram o
consultório do endocrinologista Nadeem Rais todas as semanas em busca de
injecções para emagrecer.
“Temos cerca de 70 a 80 doentes em tratamento activo
neste momento. Quando os genéricos forem lançados e os preços descerem, este
número poderá facilmente chegar aos 200”, disse.
Segundo a sua colega, a Dra. Sunera Ghai, a procura é
“muito elevada”, mas muitos “provavelmente não estão a consumir porque, neste
momento, é realmente um artigo de luxo”.
A descoberta surge após a expiração da patente da
semaglutida – princípio activo de medicamentos como o Ozempic e o Wegovy – na
Índia, maior fornecedor mundial de medicamentos genéricos. Até ao final de
2026, as principais patentes da semaglutida expirarão em 10 países que
representam 48% da carga global de obesidade, de acordo com um estudo publicado
no início de Março por investigadores. Estes países incluem Brasil, China,
África do Sul, Turquia e Canadá.
Para os gigantes farmacêuticos indianos, isto marca o
início de uma nova e agressiva corrida. Pelo menos quatro grandes empresas já
prepararam injecções genéricas de semaglutida, de acordo com os registos
regulamentares e os documentos de conformidade.
Algumas, incluindo a Zydus Lifesciences,
anunciaram lançamentos “no primeiro dia”, sugerindo que as versões genéricas
poderão estar disponíveis já esta semana na Índia.
A empresa de estudos Pharmarack estima que o
mercado indiano será em breve inundado de opções. “Mais de 50 marcas serão
lançadas no mercado e mais de 40 empresas estarão a lançar estes medicamentos”,
disse Sheetal Sapale, vice-presidente da Pharmarack.
O momento coincide com a mudança do panorama da saúde na
Índia. Embora, segundo a Organização Mundial de Saúde, o país ainda represente
um terço da subnutrição mundial, o aumento dos rendimentos e o estilo de vida
urbano impulsionaram drasticamente as taxas de obesidade. Dados governamentais
divulgados em Março de 2025 mostram que 24% das mulheres e 23% dos homens têm
excesso de peso ou são obesos na Índia.
“Quando uma pessoa começa a ganhar dinheiro, torna-se
mais sedentária”, disse o cirurgião Sanjay Borude, assinalando que “em
contraste, no Primeiro Mundo, quando as pessoas ganham mais dinheiro, tornam-se
mais activas e também dedicam mais tempo à saúde”.
Esta inversão da dinâmica económica tem sido muito
benéfica para grandes empresas farmacêuticas como a Eli Lilly e a Novo Nordisk,
que têm lucrado bastante com o mercado.
As vendas de medicamentos para emagrecer na Índia
cresceram 10 vezes em cinco anos, atingindo 153 milhões de dólares em 2026, e a
projecção é de que ultrapassem os 500 mil milhões até 2030.
Mas o uso destes medicamentos pode causar efeitos
secundários, incluindo náuseas e problemas gastrointestinais. O Mounjaro, da
Eli Lilly, tornou-se o medicamento mais vendido na Índia em 2025, ultrapassando
mesmo os antibióticos comuns.
Ainda assim, os preços elevados – frequentemente entre 15.000 e 22.000 rupias (1300 a 1900
patacas) por mês – limitam o acesso, afirma a Dra. Swati Pradhan, que gere uma
clínica de emagrecimento em Bombaim e que prevê um aumento do número de doentes
quando os genéricos reduzirem o custo do tratamento para perto de 5000 rupias
por mês.
O impacto internacional pode ser ainda mais profundo. A
Índia fornece mais de metade dos medicamentos genéricos de África, e a
semaglutida mais barata pode tornar-se uma tábua de salvação para os países
onde a obesidade está a aumentar rapidamente.
“A semaglutida a um custo mais baixo pode expandir
significativamente o acesso a um tratamento eficaz, particularmente nos países
de rendimento médio, onde o preço tem sido uma grande barreira”, afirmou Simon
Barquera, presidente da Federação Mundial da Obesidade, observando que “os
medicamentos genéricos são um passo importante para quebrar a barreira de
acesso, agora que a barreira científica foi ultrapassada”.
As empresas indianas serão uma força motriz fundamental,
com a Reddy’s Laboratories a planear lançar a sua versão da semaglutida no
Canadá até Maio de 2026.
Para doentes como Sukant Mangal, de 46 anos, que perdeu
quase 14 kg em oito meses, um acesso mais alargado ao medicamento não podia
chegar em melhor altura. Muitas pessoas que ele conhece simplesmente
abandonaram o tratamento a meio quando perceberam que teriam de gastar 20.000 rupias por mês
durante sete a oito meses.
“Se fosse mais barato, teria sido muito mais fácil obter
o medicamento”, concluiu à agência AFP. In “Jornal
Tribuna de Macau” – Macau com “AFP”