Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Educação para os novos tempos

                                                           I

Nesta época de profunda degradação moral em que está mergulhada a Nação brasileira, a publicação de um livro como Educação em um mundo globalizado (Belo Horizonte: O Lutador, 2014), dos professores Sílvio Firmo do Nascimento e Kennedy Alemar da Silva, ganha redobrada importância, pois discute como educar e formar educadores para essa sociedade que se desenha para o século XXI.
Como observa o professor José Maurício de Carvalho, na época da publicação da obra, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ-MG), no prefácio que escreveu para esta obra, os autores consideram essencial a construção de uma nova pedagogia para enfrentar os desafios da sociedade tecnológica. De fato, esse é um desafio de proporções ciclópicas, pois a questão da degradação moral vem da própria família brasileira que, ao longo do tempo, deixou de discutir e incutir em seus pósteros os valores morais mais essenciais, deixando a tarefa para a escola que, por sua vez, não tem condições materiais nem espirituais para desenvolver esse trabalho.
O professor de Língua Portuguesa sabe muito bem como chegam os alunos, em grande parte, ao primeiro ano de qualquer curso universitário: não só sem o domínio da técnica de escrever como sem valores morais. Por isso, pedir aos alunos que escrevam uma resenha de algum livro ou um artigo sobre qualquer assunto é preparar-se para receber uma avalanche de textos tirados da Internet e apresentados como se fossem de sua própria autoria.
Quer dizer, a maior parte dos alunos comete o crime do plágio sem a menor cerimônia. E não se pode dizer que, geralmente, são alunos mal saídos da adolescência porque, não raro, também os mais maduros cometem com facilidade esse tipo de crime. Ou seja, como muitos deles são pais de família, é de se imaginar os valores morais que passam para os filhos.
Para combater essa epidemia de desonestidade, o professor precisa sacrificar boa parte do seu tempo fora da classe para pesquisar no Google a fim de comprovar o plágio. Diante de classes superlotadas – com mais de 80 alunos –, já que as universidades privadas estão preocupadas prioritariamente com seus lucros, não poucos professores desistem da carreira. Os que insistem e tentam ensinar como fazer as citações de textos alheios, muitas vezes, pregam no deserto porque muito mais fácil é “copiar e colar”. Não é à toa que, de vez em quando, estouram (não só no Brasil como também no Primeiro Mundo) escândalos em que figuras eminentes são acusadas de publicar livros com extensas citações de textos alheios sem o devido crédito. Às vezes, o livro que teve trechos amplamente copiados está citado apenas na bibliografia. E os autores acreditam que isso resolve tudo.

Aos docentes que permanecem só resta remar contra a corrente e procurar contribuir para a formação da pessoa humana, tentando passar aos alunos o domínio da escrita e leitura, a capacidade de analisar, interpretar e sintetizar dados e compreender e atuar no meio social, como ressaltam os autores de Educação em um mundo globalizado.


                                               II
Para mudar esse quadro, Nascimento e Silva defendem a presença de professores cada vez mais qualificados e com atualização permanente, em vez de docentes que apenas transmitam conhecimento acadêmico. Mas observam que é preciso também que a escola mude, pois o professor sozinho não será capaz de dar conta dos desafios educacionais que se impõem neste começo de século. Obviamente, a escola não pode mudar sozinha, o que significa que a mudança deveria ser acompanhada pelo Estado e pela sociedade. Eis aqui um ideal quase inatingível. Afinal, neste mundo globalizado, os interesses políticos se encontram sempre subordinados aos interesses mercadológicos.
No último capítulo, Nascimento e Silva discutem o impacto da tecnologia na educação, admitindo como irreversível o ensino a distância, que seria mais uma tecnologia colocada a serviço da demanda social. Para os autores, o ensino a distância seria “mais eficaz que o presencial devido ao seu maior alcance, sua melhor razão custo e benefício, sua maior flexibilidade (tanto para docentes como aprendizes) e seu maior potencial de personalização e mesmo individualização”.
Para os estudiosos, a tarefa de discutir, analisar, avaliar e aplicar as informações a tarefas práticas será realizada, mais e mais, não através da escola, mas através de grupos virtuais de discussão, no quais cada um se alterna no papel de ensinar e de aprender. “Se a escola puder se reinventar e tornar-se um ambiente de aprendizagem desse tipo, ela pode sobreviver. Mas a Internet, a Web, correio eletrônico, bate-papos, discussões baseadas em texto (grupos de discussão), videoconferências etc. precisarão estar no centro dela e se tornar parte de sua rotina. O que aqui é dito da escola aplica-se a escolas de todos os níveis, inclusive às universidades”, garantem.
Como diz o professor José Maurício de Carvalho, se esse é o novo paradigma da educação, é preciso criar então uma nova forma de ensinar, e isso nos coloca diante da necessidade de pensar a formação do educador que deve ser preparado para essa nova realidade. Por isso, com base nas ideias do sociólogo suíço Philippe Perrenoud, os autores concluem que “o professor deverá se dotar de conhecimentos, habilidades e atitudes para tornar-se um profissional reflexivo ou investigador, com o objetivo de aprender a interpretar, compreender e refletir sobre a realidade social e a própria docência”.
Esse é o grande desafio da Humanidade hoje, pois não há como discordar de Nascimento e Silva quando dizem que a educação é um dos caminhos importantes para superar a crise do nosso tempo.

                                               III
Silvio Firmo do Nascimento (1956) é graduado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ - 1987) e em Estudos Sociais e Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque-SC (1983), mestrado em Filosofia pela UFJF-MG (1992) e doutorado em Filosofia pela Universidade Gama Filho-RJ (2001). É professor de Filosofia e editor da revista Saberes Interdisciplinares do Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves (IPTAN) e membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei-MG.

É autor de Teses morais do tradicionalismo do século XIX (Londrina-PR: Humanidades, 2004), A Igreja em Minas Gerais na República Velha (Curitiba: Juruá, 2008), A religião no Brasil após o Vaticano II: uma concepção democrática da religião (Barbacena-MG: UNIPAC, 2005), O homem diante do sagrado: alguns elementos de antropologia da religião (Londrina: Edições Humanidades, 2008), A pessoa humana segundo Erich Fromm (Curitiba: Juruá, 2010), A centralidade da eucaristia na vida da humanidade (Guarapuava-PR: Pão e Vinho, 2001) e Gotas de sabedoria (Curitiba: Instituto Memória, 2012). Desenvolve o trabalho religioso de pároco em Ibituruna-MG e de assessoria bíblica na Diocese de São João del-Rei-MG. 
Kennedy Alemar da Silva (1972) é mestre em Educação pela Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC), de Barbacena-MG, licenciado em Filosofia e especialista em História de Minas Gerais no século XIX pela UFJF-MG. É professor na Fundação Educacional de Lavras-MG e na rede estadual de Minas Gerais na cidade de Itutinga, onde reside. Foi secretário municipal de Educação em Itutinga. Adelto Gonçalves – Brasil

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Educação em um mundo globalizado, de Sílvio Firmo do Nascimento e Kennedy Alemar da Silva, com prefácio de José Maurício de Carvalho. Belo Horizonte: Gráfica e Editora O Lutador, 164 págs., 2014.
E-mails: silviofirmodonascimento@gmail.com
kennedy.silva@unilavras.edu.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A religião como fato cultural

I
Algumas teorias políticas, como as do comunismo e do anarquismo, atraíram multidões não só porque pregavam a igualdade entre os homens como prometiam aos descrentes em mudanças graduais a revolução dos costumes e o fim dos privilégios e das classes sociais, ou seja, o paraíso na Terra. O anarquismo esgotou-se logo porque defendia que não existia ditadura do proletariado, mas apenas ditadura de um partido ou de meia-dúzia de espertalhões. Mas o comunismo durou décadas e levou muitos jovens idealistas que não acreditavam mais nas religiões a sacrificar a própria vida em favor de um futuro que não existiria.

Apesar do fracasso dessas teorias, volta e meia, ainda existem demagogos que se aproveitam da chamada democracia burguesa para empolgar as massas com promessas mirabolantes. Como mostra a experiência, essas aventuras invariavelmente acabam em desastres, pois, quando chegam ao poder, os demagogos precisam não só cuidar dos negócios particulares e dos de sua família como favorecer apaniguados, pois o que mais desejam é se locupletar com os recursos públicos ou com as mamatas que os negócios feitos à sombra frondosa do Estado sempre propiciam.

Tudo isso resulta em decepção para as massas, que continuam famélicas e errantes, ao menos nos países do Terceiro Mundo. Diante dessa situação de caos, as religiões ressurgem periodicamente porque, de certa maneira, respondem às ameaças que são feitas cotidianamente, colocando em risco a sobrevivência da humanidade. E trazem solidariedade às vítimas, o que nunca se viu nos regimes que defendiam que a vida dos homens se esgotava no âmbito da animalidade.

É o que mostra o professor e sacerdote Silvio Firmo do Nascimento em O homem diante do Sagrado: Alguns elementos da antropologia das religiões (Londrina: Humanidades, 2008), livro que não discute uma religião específica, mas que trata da religião como obra humana edificada em torno do sublime, como diz o filósofo José Maurício de Carvalho, que foi professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e, atualmente, do Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves (Iptan), no percuciente prefácio que escreveu para este trabalho. Segundo Maurício de Carvalho, neste livro, a religião é examinada como fato cultural, “produto da nossa ação transformadora do mundo, ainda que esse fato não invalide o reconhecimento da inspiração divina” (NASCIMENTO, 2008, p. 9).

                                                                   II
De fato, num tempo como o de hoje em que a precariedade humana é tão presente no dia-a-dia da população, depois do fracasso das experiências totalitárias, as religiões, sejam as tradicionais ou as chamadas pentecostais, ainda cumprem o seu papel fundamental, que é o de infundir esperança e alimentar os sonhos de amor e paz, ou seja, manter o homem vivo, para se repetir aqui uma expressão do poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956).

Depois de discutir a conceituação de antropologia, de religião e de antropologia da religião, Firmo do Nascimento avalia as teorias psicológicas e sociológicas que falam da origem da religião, analisando as hipóteses do sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), do neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), criador da Psicanálise, e do filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903), sem deixar de penetrar na obra do poeta e filósofo latino Tito Lucrécio Caro (Ca.99aC-143).

“Estarrecidos pelos males provocados na humanidade em nome da religião – guerras, divisões, imposições, sacrifícios humanos, explorações, conquistas, matanças –, alguns pensadores antigos e modernos desconfiaram da seriedade da religião e quiseram ver a sua origem na maldade do coração ou na perversão da mente”, diz o professor, adicionando entre os pensadores modernos adeptos dessas teorias o filósofo britânico Bertrand Russel (1872-1970) e o escritor e dramaturgo argelino Albert Camus (1913-1960).

Em suas considerações finais, Firmo do Nascimento (2008, p. 124) defende não podemos ficar restritos à expressão “só Jesus salva”, mas acreditar e agir como seres verdadeiramente humanos comprometidos com a verdade através do homem bom: zeloso, sigiloso, honesto e objetivo. “A fé precisa descer das altas esferas transcendentes para ocupar-se com o homem como habitação divina. Noutras palavras: não se pode separar a experiência religiosa das outras experiências humanas”, diz (idem), acrescentando que “a religião possui essência libertadora e deve questionar o imperialismo cultural europeu e norte-americano” (idem).

Enfim, o leitor que adentrar este livro, com certeza, sairá dele diferente, mais fortalecido espiritualmente, pois, como diz o autor, em suas derradeiras palavras, o homem precisa da harmonia consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus, para viver humanamente o sentido da vida. Ou seja: “a experiência da solidão leva-nos à solidariedade, da fraternidade à comunhão, da finitude ao infinito e da consciência do limite dos bens naturais à revalorização da natureza” (NASCIMENTO, 2008, p. 128).

                                                         III
Sílvio Firmo do Nascimento (1956), sacerdote diocesano em São João del-Rei, Minas Gerais, é doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro (2001), mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais (1992), bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio de Janeiro (1987), e fez Licenciatura Plena em Estudos Sociais e Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque, Santa Catarina, hoje Faculdade Dehoniana (1983).

É autor dos livros Teses morais do tradicionalismo do século XIX (Londrina: Edições Humanidades, 2004), A religião no Brasil após o Vaticano II: uma concepção democrática da religião (Barbacena: Unipac, 2005), A Igreja em Minas Gerais na República Velha (Curitiba: Juruá, 2008), A pessoa humana segundo Erich Fromm (Curitiba: Juruá, 2010), A centralidade da eucaristia na vida da humanidade (Garapuava: Pão e Vinho, 2011), Gotas de sabedoria (Curitiba: Instituto Memória, 2012), A educação em um mundo globalizado, em coautoria com o professor Kennedy Alemar da Silva (Belo Horizonte: O Lutador, 2014) e Pressupostos epistemológicos e antropológicos da ética do tradicionalismo (Curitiba: CRV, 2ª ed., 2016), além de artigos sobre filosofia, ética, educação e religião.

Atuou como docente na Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac), de Barbacena, Minas Gerais, de 1992 até 2008. Atualmente, é membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Unipac, membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei e docente do Iptan, de São João del-Rei. Atua como editor da Revista Saberes Interdisciplinares, periódico semestral multidisciplinar do Iptan. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Filosofia da Educação, atuando principalmente com os seguintes temas: liberdade- propriedade-educação, tradicionalismo, educação, catolicismo e ética. Adelto Gonçalves - Brasil

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O homem diante do Sagrado: Alguns elementos da antropologia das religiões, de Sílvio Firmo do Nascimento, com prefácio de José Maurício de Carvalho. Londrina: Edições Humanidades, 126 págs., R$ 40,00, 2008. E-mail: silviofirmodonascimento@gmail.com Site: www.iptan.edu.br


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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br