Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Uma visão do mundo luso-brasileiro

Nova obra de Aristóteles Drummond reúne artigos publicados em Portugal sobre as relações entre os dois países nos últimos 200 anos 

                                                                                   

                                                          I

As relações luso-brasileiras e da comunidade das letras e das artes de Brasil e Portugal constituem a maior parte dos 64 artigos do jornalista e empresário brasileiro Aristóteles Drummond publicados de abril de 2018 a janeiro de 2023 no semanário impresso O Diabo, de Lisboa, agora reunidos em Cartas de LisboaUma visão da direita esclarecida sobre a história luso-brasileira (São Luís-Coimbra, Livraria Resistência Cultural Editora, 2023). Da obra, faz parte também uma entrevista que o autor deu à jornalista Ana Taborda e que saiu na revista semanal portuguesa Sábado, de Lisboa, em 9/10/2021.

Publicados com destaque num jornal independente assumidamente de orientação direitista, que, porém, agrega cronistas de várias vertentes ideológicas, alguns desses artigos são também essencialmente políticos e reproduzem o pensamento de um intelectual de princípios conservadores, mas essencialmente civilizado, para quem a política constitui a arte da boa convivência, inclusive com os contrários, o que já o levou a definir-se como “antibolsonarista”.

Como observa o historiador, professor e escritor português Jaime Nogueira Pinto no prefácio, estes artigos “têm o mérito de serem, na sua variedade temática, um espelho dos 200 anos de História do Brasil, desde os reinados dos imperadores d. Pedro I (1798-1834) e d. Pedro II (1825-1891) e da regência da princesa Isabel (1846-1921), até a República proclamada pelos militares, pelos cafeeiros, descontentes com a libertação dos escravos”.

Como o autor conhece bem a literatura portuguesa e brasileira, o leitor irá encontrar nestas páginas muitas referências sobre a vida e a obra de escritores como Machado de Assis (1839-1908), Eça de Queirós (1845-1900), Gilberto Freyre, (1900-1987), Pedro Calmon (1902-1985), Rachel de Queiroz (1910-2003) e Nélida Piñon (1934-2022), além de passagens sobre a atuação de  embaixadores que muito bem representaram o Brasil em Portugal, como Negrão de Lima (1901-1981), Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010), José Aparecido de Oliveira (1929-2007) e Alberto da Costa e Silva (1931-2023).

Sem contar as passagens sobre personagens históricos, como Marcello Caetano (1905-1980), último presidente do Conselho do Estado Novo salazarista, Américo Thomaz (1894-1987) e António de Spínola (1910-1986), ex-presidentes de Portugal, Giscard d´Estaing (1926-2020), ex-presidente francês, e membros da família imperial brasileira, com os quais conviveu. Aliás, de Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputado federal e descendente de d. Pedro II, há um texto de apresentação numa das abas do livro.

 

                                                          II

Em nota de autor, Drummond observa que, embora esta seja uma época que tanto exala a liberdade de pensamento e de imprensa, o pluralismo não anda muito presente. “O mundo da literatura, do jornalismo e das artes privilegia ideais e autores de esquerda, tratando de ocultar o pensamento da maioria silenciosa, que é a que trabalha, estuda e reza. E é essencialmente conservadora”, diz para, logo adiante, no artigo de abertura da coletânea, pedir para que se tenha cuidado com os que se arvoram em defensores do povo. E faz um alerta: “Estes não amam os pobres – apenas não gostam dos ricos, que, no final, são os geradores de empregos e de riquezas”.

De ideal monarquista, o autor não esconde que a monarquia brasileira foi derrubada por um golpe militar – dos vários que haveriam de infelicitar a Nação –, ao se referir à cordialidade que marcou a amizade de Eça de Queirós com Eduardo Prado (1860-1901), fundador da Academia Brasileira de Letras, filho de oligarcas rurais e autor de A Ilusão Americana (1893), obra ainda atual porque denunciava um perigo hoje presente, ou seja, a situação de sujeição que a ditadura inaugurada com a proclamação da República deixava o Brasil em relação às forças de dominação do sistema capitalista norte-americano.

Num dos artigos, Drummond lembra que tudo indica que Jacinto de Thormes, personagem de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, tenha sido inspirado no escritor paulista, já que o romancista português teria sido habitué do apartamento de três andares em que Eduardo Prado vivia nas Arcadas da Rue de Rivoli, em Paris.

Em outro artigo, que leva o título “Visões da esquerda”, o autor condena a campanha de descrédito das monarquias ocidentais, “apesar da sua estabilidade institucional e da aceitação popular”. E critica o escritor e jornalista Laurentino Gomes, a quem considera “pesquisador de alguma qualidade, mas equivocado como historiador”, que lançara, em 2022, o terceiro e último volume da trilogia EscravidãoDa Independência do Brasil à Lei Áurea (Rio de Janeiro, Editora Globo Livros).

Para Drummond, Gomes nega a importância da princesa Isabel no processo de abolição da escravatura e a sua passagem pela Regência. Em seguida, o autor lembra que o imperador d. Pedro II, embora a Abolição se tenha dado em 1888, não dispunha de escravos desde 1838 e que a legislação, ao longo de mais de 30 anos, promovia a libertação dos nascidos de escravos e dos escravos que atingissem os 60 anos de idade, assim como a alforria para aqueles que haviam lutado na Guerra do Paraguai (1864-1870).

Depois de assinalar que, em 1888, os cativos seriam cerca de 20% da população negra, o autor recorda que havia a presença de negros no Parlamento e até entre os nobres. “O barão de Guaraciaba (1826-1901) era negro e, como importante produtor de café no Rio de Janeiro, possuía mais de mil escravos”, ressalta, lembrando que os irmãos Antônio (1839-1874) e André Rebouças (1838-1898) foram os primeiros engenheiros negros e participaram das grandes obras de sua época. E que o pai deles, o advogado autodidata Antônio Pereira Rebouças (1798-1880), foi deputado pela Bahia e conselheiro de d. Pedro II.

 

                                                         III

Nascido em 1944, no Rio de Janeiro, Aristóteles Drummond é jornalista, escritor, ensaísta, memorialista, político e empresário. Filho de família tradicional, é neto do historiador mineiro Augusto de Lima Júnior (1889-1970) e bisneto de Antônio Augusto de Lima (1859-1934), poeta, magistrado, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-presidente de Minas Gerais (1891), época em que idealizou a transferência da capital do Estado de Ouro Preto para Belo Horizonte.

Começou no jornalismo nos Diários Associados, em 1964, e foi articulista de O Jornal (RJ), O Estado de Minas, Jornal do Commercio (RJ), O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa e Correio Brasiliense. Foi também diretor em Brasília do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil.

Além de colaborar com o semanário lisboeta O Diabo, atualmente, assina colunas em jornais impressos de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo e em vários sites da Internet. Foi âncora do programa Brasil é Isso, exibido, durante muitos anos, na Rede Vida, e do programa Rio em Ação, na Rádio Catedral, no Rio de Janeiro. É colunista das revistas Foco (DF) e Encontro (MG), e dos jornais Hoje em Dia (MG), O Dia (RJ), Diário de Petrópolis (RJ), Correio da Serra (MG), Jornal Inconfidência (MG), Diário de Barretos (SP), Midiamaxo jornal eletrônico do Mato Grosso do Sul, Jornal do Comércio, de Lisboa, e do semanário Sol, de Oeiras, Portugal.

Exerceu funções na administração pública em empresas como Light, Companhia Vale do Rio Doce, Cemig e Eletronorte. Atuou no setor energético, em 1979, como assessor do ministro das Minas e Energia e foi delegado desse Ministério no Rio de Janeiro. Em dezembro de 1984, foi empossado como diretor de administração da Light. Logo em seguida, foi requisitado pela Casa Civil da presidência da República e, posteriormente, para o Ministério da Indústria e Comércio, assumindo o cargo de delegado, no Rio de Janeiro.

Em 1987, retornou à Light, sendo designado diretor, ficando no cargo até julho de 1996, com a privatização da empresa. Ocupou também os conselhos da Petrofértil, antiga subsidiária da Petrobrás, e da Associação Comercial do Rio de Janeiro e fez parte da comitiva oficial, como assessor do ministro César Cals (1926-1991), na viagem do presidente João Figueiredo (1918-1999) à França, em 1981. É vice-presidente e grande benemérito da Associação Comercial do Rio de Janeiro, além de cavaleiro comendador da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém.

É autor também de A Revolução Conservadoratestemunhos e análise (1990, Minas (2002), Um Conservador Integralrelatos da vida (2009), Um Caldeirão chamado 1964: depoimento de um revolucionário (2013), e Memóriasfatos e fotos de uma vida (2021), entre outros. Organizou Vila Rica do Ouro Pretosíntese histórica e descritiva (1996), São Francisco de Assispoemas de Augusto de Lima (2000), O Homem mais Lúcido do Brasilas melhores frases de Roberto Campos (2013), e O Homem mais Realista do Brasilas melhores frases de Delfim Netto (2016). Adelto Gonçalves - Brasil

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Cartas de Lisboa – Uma visão da direita esclarecida sobre a história luso-brasileira, de Aristóteles Drummond. São Luís, Maranhão/Coimbra, Livraria Resistência Cultural Editora, 212 páginas, R$ 42,75, 2023. E-mail: contato@resistenciacultural.com.br E-mail do autor: ari.drummond@mls.com.br  Site: www.aristotelesdrummond.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Lard, editor, 2024), lançado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br



segunda-feira, 11 de agosto de 2025

A imagem mítica de Antígona revivida

Obra da atriz e doutora em Letras Flávia Resende discute a influência da peça de Sófocles em contextos pós-conflitos

                                                                                                                

                                                           I

Decifrar a imagem mítica de quatro Antígonas – duas europeias, duas latino-americanas, todas escritas num contexto de estado de exceção e, obviamente, totalitário – é o que busca a professora e atriz Flávia Almeida Vieira Resende em AntígonasApropriações políticas do imaginário mítico (Belo Horizonte, Editora da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, 2023), originalmente apresentado como tese de doutoramento na Faculdade de Letras da UFMG, em 2017.

A partir do texto fundador do dramaturgo grego Sófocles (497/496a.C-406/405a.C.), um dos mais importantes escritores de tragédia ao lado de Ésquilo (525/524a.C-456/455a.C) e Eurípedes (ca.480 a.C-406a.C.), a autora procura analisar as formas de organização do imaginário mítico de Antígona (em grego Ἀντιγόνη), figura da mitologia grega, irmã de Ismênia, Polinice e Etéocles, todos filhos do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta.

Para quem desconhece o mito, é preciso dizer que esta versão clássica sobre a Antígona é uma das três obras que compõem o que ficou conhecido como Trilogia Tebana, da qual também fazem parte Édipo Rei e Édipo em Colono. Essas três peças foram unidas posteriormente e não faziam parte da mesma trilogia quando Sófocles as escreveu. Como se sabe, a linhagem de Antígona está marcada por grande selvageria, já que Édipo, numa guerra, sem saber, mata o próprio pai e casa-se com a própria mãe.

Filha de Édipo e Jocasta, Antígona é um exemplo do amor fraternal, pois foi a única filha que não abandonou Édipo quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos. Seu irmão, Polinice, tentou convencê-la a não partir do reino, enquanto Etéocles manteve-se indiferente. Antígona acompanhou o pai em seu exílio até sua morte e, quando voltou a Tebas, seus irmãos brigavam pelo trono. Ao seu retorno, desafiaria a proibição do rei Creonte de enterrar seu irmão Polinice, que foi considerado um traidor. Creonte, então, encaminha Antígona para a morte e Hemon, seu filho e noivo de Antígona, tenta alertar o pai para o ato tirânico, mas sem sucesso, o que o leva ao suicídio, ao constatar a morte de Antígona. Em resumo:  o tema central da peça é um confronto entre leis humanas e leis divinas, ou entre o direito positivo e o direito natural.

 

                                                 II

Bem pesquisada e escrita em linguagem erudita, a obra como projeto surgiu quando a autora ensaiava a peça Klássico (com K), do Mayombe Grupo de Teatro, em Belo Horizonte, em 2012, como atriz no papel de Antígona. “Já naquele momento, a escolha da personagem foi motivada por uma inquietação que ela me provocava, especificamente por sua capacidade de resistência política”, conta na introdução.

Ainda neste texto de abertura, ao explicar a razão da escolha por um tema extremamente difícil, a autora diz que as versões que surgiram a partir da apropriação desse mito trágico suscitaram novos recortes “com imagens que adquiriram um sentido de resistência em sua própria época”.

Como se lê na contracapa, as imagens construídas em cada uma das peças analisadas assumem uma posição por meio “do que se diz e do que se cala, do que é mostrado e do que é ocultado em relação à primeira imagem mítica”. Desse modo, a autora trata de analisar “quais são essas formas de organização do imaginário mítico de Antígona e como este é utilizado para pensar as formas de organização política de determinados espaços e tempos”.

 

                                                III

O trabalho de Flávia Resende está dividido em três partes. A primeira, “Antígona desde a Grécia Antiga”, contempla o imaginário mítico inicial criado em torno de Antígona, a partir, especialmente, da tragédia de Sófocles, trabalhando as bases sobre as quais se funda. “Passamos, inicialmente, pelos contornos históricos e míticos da tragédia sofocliana, e pelos principais pontos que a configuram: o embate entre Antígona e Creonte, a relação entre irmãos”, explica a autora. A partir daí, ela procura estabelecer o fundamento trágico em Antígona que está por trás das peças que tratou de analisar em seu trabalho.

Na segunda parte, no capítulo 2, “Antígona no contexto da Segunda Guerra Mundial”, apresenta a personagem no contexto europeu do final daquele conflito (1939-1945), mais especificamente com Antígona, de Jean Anouilh (1910-1987), texto de 1944 que, embora seja considerado símbolo da Resistência Francesa, por ser aberto e maleável, agradou aos resistentes e aos colaboracionistas, a ponto de passar pela censura alemã. Escrito à época da estadia da autora na França, foi resultado de várias consultas a estudiosos, especialmente à professora Ariane Eissen, da Université de Poitiers.   

No terceiro capítulo, Flávia Resende trata da Antígona de Sófocles, de Bertold Brecht (1898-1956), peça escrita três anos após o término da Segunda Guerra Mundial, quando o dramaturgo voltava do exílio. “O que Brecht propõe, a nosso ver, é a inserção de causas e responsabilidades históricas pelos sofrimentos de Antígona e da população tebana naquele momento de guerra”, diz. E acrescenta: “Assim, ele pôde aproximar a tragédia sofocliana da tragédia do povo alemão, em um sentido próximo ao que Raymond Williams (1921-1988) entende por tragédia: acontecimentos e padecimentos irreversíveis, mas que, no entanto, poderiam ter sido evitados”.

 

                                                IV

A terceira parte, “Antígona na América Latina”, traz reescrituras de Antígona nos contextos latino-americanos de ditadura militar na Argentina e no Peru. A primeira peça analisada é a da escritora argentina Griselda Gambaro, Antígona furiosa, na qual “é a mulher quem dá a última palavra”. Nessa peça, de 1986, com a ditadura já terminada, há o drama dos corpos insepultos, em meio a diversos decretos que procuram normalizar a impunidade e conceder anistia também aos torturadores e assassinos. “A referência às “loucas” das Madres de la Plaza de Mayo pode ser vista nos julgamentos que os outros personagens fazem de Antígona, mas também na força de resistência dessa personagem”, observa a autora.

O último capítulo trata da peça Antígona, trabalho coletivo do poeta peruano José Watanabe (1945-2007) e do grupo de teatro Yuyachkani, escrito em 2000 e que contextualiza o período do conflito armado ocorrido no Peru entre 1980 e 2000, em que o grupo Sendero Luminoso, o Movimento Revolucionário Tupac Amaru e as Forças Armadas criaram um fogo cruzado que atingiu especialmente a população rural e indígena (de fala quéchua), dizimando mais de 69 mil pessoas.

Em resumo: tanto na peça argentina como na peruana, a personagem Antígona, ao desafiar a ordem estabelecida por Creonte para enterrar seu irmão Polinices, é utilizada como símbolo de resistência contra a tirania e a injustiça, sendo invocada em contextos de luta por liberdade e direitos.                            

Nas considerações finais, Flávia Resende observa que o que a fez unir as versões europeias e latino-americanas do mito é que “todos os contextos de reescritas de Antígona tinham em comum a proximidade com a instauração de estados de exceção, de governos totalitários, em que era preciso criar forças de oposição”.

Por fim, a autora anexou à análise entrevista que fez, em 2015, com Teresa Ralli, atriz, escritora, diretora de teatro e professora da Pontifícia Universidad Católica del Perú, que foi quem deu início ao projeto da Antígona peruana, que seria depois acolhido pelo grupo Yuyachkani e pelo diretor Miguel Rubio Zapata e, posteriormente, pelo poeta José Watanabe.

 

             V

Flávia Almeida Veira Resende é doutora em Literaturas Modernas e Contemporâneas pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG, com período sanduíche (Capes/PDSE) na Université de Poitiers (França) e na Pontificia Universidad Católica del Perú (Lima), com tese premiada como a melhor do ano.  É mestre em Teoria da Literatura pelo mesmo programa (bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais – Fapemig) e graduada em Letras pela UFMG (2010). É também atriz formada pelo Centro de Formação Artística (Cefar) – Palácio das Artes, de Belo Horizonte.

Realizou pós-doutorado na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Mato Grosso do Sul (MS), com pesquisa sobre a relação entre arte e ditadura na América Latina atual. Tem experiência nas áreas de Literatura e Artes, com ênfase em dramaturgia, atuando principalmente nos seguintes temas: atualização de textos clássicos, teatro político, teatro brasileiro e dramaturgia contemporânea. Atualmente, faz pós-doutorado na UFMG, com bolsa da Fapemig, sobre reescritas de Antígona no Brasil. Adelto Gonçalves – Brasil 

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AntígonasApropriações políticas do imaginário mítico, de Flávia Almeida Vieira Resende. Belo Horizonte: Incipit Linguística, Letras e Artes/Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 290 páginas, R$ 40,00, 2023. Site: www.editoraufmg.com.br E-mail: editora@ufmg.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Uma vida consagrada ao ensino das Letras

                                                            I
Duvidar de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C) é sempre necessário, ainda que seja, para mais tarde, concordar com ele. Essa frase ouvi em 1994 do professor Massaud Moisés (1928-2018), quando, ao lhe fazer um relatório verbal de minhas pesquisas nos arquivos de Portugal sobre a vida e a obra de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mostrei-lhe a fotocópia de um documento que consta do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, que provava que o lisboeta Alexandre Roberto Mascarenhas morrera em 1793, no mesmo ano do casamento de sua filha com o poeta.

Portanto, ao casar com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos de idade, Gonzaga não teria tido a oportunidade de ajudar o sogro a aumentar sua fortuna, como afiançara o professor e filólogo português M. Rodrigues Lapa (1897-1989), para quem o poeta casara “com a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócios de escravatura” e ainda consagrara “as horas vagas ao comércio de escravos”.

Morto aos 42 anos de idade, Mascarenhas, que era escrivão do juízo na provedoria-mor da fazenda de defuntos e ausentes e subordinado do promotor Gonzaga, nunca se envolveria no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa à Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) na Cabaceira Grande, no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.

O pequeno número de escravos que tinha seria para o trabalho no luane (casa senhorial e seus anexos), mas não para o tráfico, pois os grandes traficantes sempre aparecem na documentação da época como proprietários de centenas. Ou seja, o casamento pode ter representado um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado.

Mas, claro, colocar em xeque o que o doutor Rodrigues Lapa, professor catedrático da Universidade de Lisboa, deixara escrito era uma responsabilidade muito grande. E o apoio do professor doutor Massaud foi decisivo para que o meu trabalho de doutoramento em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) alcançasse êxito. Lembro isto porque, há pouco tempo, dia 11 de abril, deu-se o falecimento do meu antigo orientador, vítima de acidente vascular cerebral (AVC), dois dias depois de completar 90 anos de idade.

                                                           II
A minha atividade acadêmica sob a orientação segura, mas desta vez informal, do professor Massaud Moisés continuou, quando, em 1998, decidi pedir à Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) uma bolsa de pós-doutoramento para pesquisar a vida e a obra do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de que resultaria a biografia Bocage: o Perfil Perdido, publicada em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa.

À época, seu bom senso e equilíbrio foram fundamentais para a concessão da bolsa, pois, contrariado com uma colocação despropositada de um parecerista, redigi uma resposta contundente que, fatalmente, o teria levado a recomendar que meu pedido fosse denegado.  Por sugestão do professor Massaud, optei por uma resposta polida e contemporizadora. Mais: por indicação dele, contei em Portugal com a supervisão do professor Fernando Cristóvão, professor catedrático de Filologia Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que me faria boas indicações e sugestões de leitura e pesquisa, além de, mais tarde, escrever o prefácio do livro.

                                                           III
Um dos mais eminentes professores e pesquisadores nas áreas de teoria literária, de literatura portuguesa e de literatura brasileira, igualmente reconhecido em Portugal e demais países de língua portuguesa, Massaud Moisés teve uma existência quase exclusivamente consagrada às Letras. A rigor, sua vida acadêmica teve início em março de 1952, quando começou sua atividade docente nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras da USP e da Universidade Mackenzie. A par de sua atividade em sala de aula, foi autor de ensaios didáticos fundamentais para quem pretende se aprofundar no estudo das letras lusófonas.

É de se lembrar que os estudos de Literatura Portuguesa foram introduzidos na USP a partir do final da década de 1930 pelas mãos do professor português Fidelino de Figueiredo (1888-1967), que foi sucedido pelo professor Antônio Soares Amora (1917-1999), que havia sido seu discípulo. O trabalho de pesquisa de ambos, de certo modo, seria continuado por Massaud Moisés, discípulo de Figueiredo e Amora.

Desde então, o professor levantou com seus numerosos alunos as questões mais candentes da problemática literária e passou suas reflexões para mais de 20 livros, quase todos na área didática. Num país caracterizado por seus altos índices de analfabetismo funcional, foi um autor bafejado por sucessivas edições. Só A Literatura Portuguesa Através dos Textos, lançado em 1968 pela Editora Cultrix, de São Paulo, já havia chegado a sua 33ª edição em 2012, adotado, praticamente de maneira unânime, por todos os professores de Literatura Portuguesa do ensino médio e universitário, muitos deles ex-alunos do mestre. Nas mesmas pegadas, A Literatura Brasileira Através dos Textos, de 1971, da mesma editora, alcançou a sua 29ª edição em 2012.

Outro campeão de vendas, o livro A Criação Literária, lançado em 1967 pela Editora Melhoramentos, de São Paulo, foi depois dividido em dois volumes dedicados à prosa e um à poesia e chegou a 20ª edição em 2006 pela Cultrix, tendo sido novamente unificado em 2012, quando alcançou a segunda edição nesse formato. Já o Dicionário de Termos Literários, obra que este articulista consulta sempre que tem a oportunidade de escrever recensão de algum livro de poesia, publicada pela primeira vez em 1974 pela Cultrix, alcançou a sua 16ª edição em 2013.

Massaud Moisés foi ainda autor de outros livros nas áreas de literatura portuguesa e brasileira e de teoria literária, como A Literatura Portuguesa (1960);  Literatura: Mundo e Forma (1982); a monumental História de Literatura Brasileira, em cinco volumes, lançada entre 1983 e 1989 e reeditada em 2001, em que se encontram capítulos sobre o Romantismo, o Realismo, o Simbolismo e o Modernismo; o Guia Prático de Análise Literária (1969), obra fundamental para quem pretende se lançar ao trabalho de análise de um texto literário, que, a partir das quarta edição, passou a se chamar apenas Análise Literária; e o Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira (1967), que chegou à 7ª edição em 2008, obra coletiva organizada ao lado do poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta José Paulo Paes (1926-1998). 

Sem esquecer de O Conto Português (1975), Fernando Pessoa: o Espelho e a Esfinge (1988), O Guardador de Rebanhos e Outras Poemas de Fernando Pessoa (1988), As Estéticas Literárias em Portugal (1997-2000), em dois volumes, abrangendo do século XIV ao XIX, e Machado de Assis: Ficção e Utopia (2001), entre outros.

                                               IV
A carreira acadêmica de Massaud Moisés seguiu até 1995, quando ele se aposentou e deixou de dar aulas na graduação no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Mas isso não significou o fim de sua dedicação à atividade docente. Pelo contrário. Continuou a oferecer seus conhecimentos aos alunos de pós-graduação e aprofundou-se ainda mais em seus estudos literários, de que resultaram os livros Estéticas Literárias em Portugal, para o qual fez pesquisas na Biblioteca Nacional de Lisboa em 1999, e Machado de Assis: Ficção e Utopia. Foi ainda professor-visitante nas universidades de Wisconsin, Indiana, Vanderbilt, Texas e Califórnia, nos Estados Unidos, e Santigo de Compostela, na Espanha.

Suas aulas eram também lições de Pedagogia, pois sabia como prender a atenção dos alunos, a ponto de não se ouvir na classe nenhum som, exceto a sua voz, que se tornava ainda mais canora quando recitava, por exemplo, os versos do poema “Hora Absurda”, de Fernando Pessoa (1888-1935): O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas... / Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso... / E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas  / Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Era igualmente um orador de méritos indiscutíveis, como mostrou aquando de minha defesa de tese de doutoramento, em 1997, ao lado de outro orador irrepreensível, o diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador Alberto da Costa e Silva, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2002-2003 e embaixador do Brasil em Portugal de 1989 a 1992, que fez parte da banca juntamente com os professores Fábio Lucas, Francisco Maciel Silveira e Lênia Márcia de Medeiros Mongelli. A tese de doutorado sairia em livro em 1999 pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, com o título Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, sugestão do professor Massaud, prontamente aceita, e prefácio de Costa e Silva.

                                                V
Nascido em São Paulo, oriundo de uma família de imigrantes  libaneses, Massaud (Massô, na pronúncia francesa) dizia-se agnóstico, mas, embora não acreditasse na vida eterna, carregava uma alma cristã, como sabem quantos com ele conviveram. Generoso, quando percebeu que o fim de sua trajetória se aproximava, doou sua vasta biblioteca para a Casa de Portugal, de São Paulo, que agora a disponibiliza ao público. Antes, quando a biblioteca começou a conquistar espaços de sua casa, adquiriu o apartamento acima do seu e lá instalou seus livros e seu escritório, sem deixar de mandar colocar uma escada interna helicoidal para ligá-los.

Casado em segundas núpcias com Antonieta, foi pai de Ana Cândida, Beatriz, Cláudia, Maurício e Rodrigo, para os quais dedicou alguns de seus livros.   Membro da Academia Paulista de Letras (APL), nunca se empenhou em conseguir uma vaga na ABL, que, por motivações políticas, já abriu suas portas para figuras bem menos representativas. Obviamente, quem perdeu foi a ABL porque ninguém reconstituiu a História da Literatura Brasileira com tamanha profundidade como Massaud Moisés. O professor foi ainda coordenador literário no Brasil da revista Colóquio/Letras, de Lisboa. E, a 26 de novembro de 1987, recebeu a comenda da Ordem do Infante D. Henrique do governo de Portugal. Adelto Gonçalves - Brasil

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br