Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 3 de abril de 2023

Um romance que desvenda a utopia soviética

“Tchevengur” procura recriar o mundo ideal que teria existido, se a revolução comunista de 1917 tivesse dado certo

                                                                

                                                                      I

O comunismo – talvez os nazifascistas bolsonaristas não saibam disso, já que ainda sonham pegar em armas para combatê-lo (risos) – é uma teoria louvável, que imagina um mundo ideal, semelhante ao celestial. Por isso mesmo, não é aplicável ao mundo dos vivos, idealizado talvez para uma geração extraterrestre, nunca para a espécie humana. Mais ideal ainda é o anarquismo, igualmente inaplicável, mas que, ao longo dos anos, atraiu muitas pessoas de bom coração, que imaginavam que seria aceitável sacrificar-se para garantir um futuro melhor para as gerações vindouras.

Quem visita a Rússia de hoje lamenta que o regime que se autointitulava comunista tenha deixado como herança apenas prédios velhos, com os encanamentos de fora, escadas rolantes do metrô que não funcionam, como se vê largamente em Moscou, ou trens de segunda classe que mais se assemelham aos que se veem em filmes sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), enquanto a beleza arquitetônica que se admira é aquela deixada pelos czares em São Petersburgo. Em Moscou, não são muitos os locais que merecem ser vistos: a Praça Vermelha, o Teatro Bolshoi e mais um ou outro edifício.

Este introito vem a propósito da leitura de Tchevengur (Belo Horizonte, editora Ars et Vita, 2021), romance de Andrei Platônov (1899-1951), escrito entre 1927 e 1929 e agora traduzido pela primeira vez para o português por Maria Vragova e Graziela Schneider, obra que discute dialeticamente a utopia soviética naquela década. Porque não agradava aos censores da época do stalinismo, o livro só foi completamente publicado em 1978, em inglês, com tradução de Anthony Olcott (1950-2018), mas apenas em 1988 é que os leitores da antiga União Soviética tiveram acesso à obra, por meio da publicação do romance na revista literária A Amizade dos Povos, a um tempo em que o regime soviético já agonizava.

Ou seja, até o final da vida, Platônov não teve a ventura de ver o seu volumoso trabalho publicado, embora, em 1928, tenham saído à luz dois fragmentos da primeira parte do romance. Em 1929, esses textos seriam também publicados como novela sob o título A origem de um mestre, embora tenham sofrido alterações exigidas pela censura, especialmente trechos que faziam alusões à sexualidade, e outras feitas pelo autor, como se lê no prefácio escrito por Maria Vragova, uma das tradutoras do texto para o português.

É de se lembrar que este romance é da mesma época de Coração de cachorro, de Mikhail Bulgakov (1891-1940), que, escrito em 1925, só seria publicado em 1987, depois de estar apreendido por décadas, e que igualmente constitui uma sátira à chamada “ditadura do proletariado”. No Brasil, faz parte da coletânea Coração de cachorro e outras novelas (São Paulo, Editora Edusp, 2010), com tradução de Homero Freitas de Andrade. Em Portugal, saiu em 2014, com o título Coração de cão (Lisboa, editora Aletheia), com tradução de Silvia Valentina. O mesmo livro, com o título Coração de cachorro, saiu em 2019 em formato e-book, com tradução de Alex Zuchi.


                                                         II

O livro de Platônov conta a história de Aleksandr Dvánov, filho de um suicida, e Stepán Kopienkin, acompanhado por seu rocim Força Proletária, que seguem pela estepe russa em busca do éden comunista e acabam em uma cidadezinha alucinante, Tchevengur, que dá título ao livro. Naquele lugarejo, seres humanos belos e possessos imaginam o inconcebível paraíso comunista, que nunca existiu na Terra, mas apenas na cabeça dos mais ingênuos, enquanto os mais hábeis e de moral mais elástica brigavam entre si pelos melhores cargos no Partido Comunista e nas empresas estatais, repetindo as iniquidades tão comuns no mundo capitalista. 


Intitulado, a princípio, Construtores da primavera, este espesso romance procura construir, de forma quixotesca, a vida que poderia ter sido – e que não foi, para se repetir aqui um trecho de um poema de Manuel Bandeira (1886-1968). Por isso, muitas vezes beira o absurdo ao expressar as ideias “ultrarrevolucionárias” das personagens cujas contradições são expostas na própria língua, ou nas várias línguas que povoam a paisagem platonoviana. Como se lê no romance, no vilarejo de Tchenvengur, o verdadeiro comunismo é implantado, já que lá ninguém teria trabalho ou ocupações, pois “o sol, que tinha sido declarado proletário universal, trabalhava por todos e por cada um”.

Como observa a tradutora Maria Vragova, “considerar Tchevengur um romance comunista ou anticomunista seria reduzir o pensamento platonoviano: ele não dá respostas, mas, sobretudo, questiona a natureza, o significado e o futuro do projeto revolucionário”. Na verdade, os verdadeiros ideais revolucionários sempre estiveram com Platônov e os velhos bolcheviques que nunca concordaram com a doutrina e a prática política adotada pelo Partido Comunista que só levavam em conta os interesses e os privilégios da troika e dos burocratas. Basta notar que dos líderes da revolução de 1917, apenas três morreram de morte natural – Lenin (1870-1924), Josef Stalin (1878-1953) e Yankel Sverdlov (1885-1919) –, enquanto os demais foram assassinados.

Por isso, os personagens deste romance parecem mais messiânicos do que revolucionários, pois imaginam a criação de um mundo ideal, tal como aquele que algumas igrejas cristãs sugerem que há de vir depois do retorno de Cristo, mas que estaria reservado apenas aos que se mantiverem fiéis à doutrina até o último dia de sua vida. Já esse comunismo messiânico sugeriria a criação do paraíso na terra, ideia que coincidia com o chamado quiliasmo, doutrina do reino milenar que era seguida por muitos camponeses ao final do século XIX e início do século XX na Rússia e que afirma que os predestinados ficariam ainda na Terra durante mil anos após o julgamento final, no gozo de todos os prazeres.

No vilarejo de Tchevengur, até mesmo o trabalho seria abolido, já que fomentava a origem da propriedade, que, por sua vez, causava a opressão de um cidadão sobre outros. E no comunismo lá adotado até mesmo a família deixaria de existir, pois o casamento entre homem e mulher seria abolido, ideia que era defendida por um dos primeiros profetas sectários da Rússia, Daníla Filippovitch, em meados do século XVII, como observa Maria Vragova.

Munido de uma linguagem paródica-poética e ao mesmo tempo devastadora, o autor construiu um mundo mítico, que não caberia nos moldes que hoje conhecemos e que tampouco são aceitáveis por quem pensa um pouco além, pois só têm estimulado guerras e morticínios que podem até levar a espécie humana ao desaparecimento.  Seja como for, Platônov acabou por escrever um romance único que ocupa uma posição de destaque não só na literatura russa como na universal. E que, de certo modo, antecipa o drama que se vive hoje na Ucrânia, onde, por culpa de ambos os lados em conflito, muitas vidas inocentes têm sido ceifadas e a cultura histórica destruída.


                                                        III

No prefácio, a tradutora Maria Vragova faz um resumo da biografia de Platônov, lembrando que o autor nasceu nos arredores de Voronezh, no centro da Rússia europeia, cidade fundada em 1586 no reinado do czar Teodoro (1557-1598). Era filho de um mecânico ferroviário e de uma mulher profundamente religiosa, que teria transmitido ao filho uma concepção cristã do mundo.  Platônov começou a trabalhar aos 14 anos, como entregador, fundidor em uma fábrica de tubos e ajudante de maquinista e, depois da revolução de 1917, ingressou no departamento eletrotécnico da politécnica ferroviária. Esse universo ferroviário revolucionário teria grande influência em sua obra literária.

Entusiasmado com os novos rumos, Platônov chegou a participar da União Comunista de Jornalistas e passou a publicar artigos, contos e poemas em jornais e revistas de Voronezh. Em 1920, representou aquela entidade no Congresso de Escritores Proletários, em Moscou. Por pouco tempo, fez parte do Partido Comunista, mas as suas ideias libertárias não encontravam eco entre aqueles que se acomodavam à ditadura leninista, à época da Nova Política Econômica, o que resultou em sua expulsão em 1921, pois foi considerado “elemento instável e inconstante”. Como observa Maria Vragova, neste mesmo ano, ele publicou Eletrificação e, em 1922, o seu primeiro livro de poemas A profundeza azul.

A partir de então, passou a dedicar-se quase integralmente à engenharia. Em 1927, transferiu-se para Moscou, onde, naquele mesmo ano, escreveu as novelas O cidadão estatal e Makar, o duvidoso, que não passariam pelo crivo da censura stalinista. Aliás, o próprio ditador Stalin teria lido os originais e desaprovado o que já havia sido visto pelos críticos oficiais como ambiguidade ideológica e anarquismo do autor. O escritor Maksim Gorki (1868-1936), dramaturgo, poeta e fundador da literatura do realismo socialista, teria até reconhecido os méritos de Platônov, mas concluído o que o seu espírito anárquico o prejudicava e tornava os seus escritos absolutamente inaceitáveis pelos critérios da censura stalinista.

Ainda ao final daquela década, o romancista iria conhecer várias propriedades agrícolas estatais, recolhendo material para escrever a novela A escavação, concluída em 1930. No ano seguinte, publicaria a novela De reserva, que seria vista como uma calúnia contra o “novo homem” que a sociedade comunista procurava criar e um ataque ao Partido Comunista.

Isolado, Platônov teve de fazer uma autocrítica em carta encaminhada aos jornais oficiais. Apesar disso, não deixou de escrever, tendo trabalhado em Quatorze isbás vermelhas, tragédia popular que narra a fome na província russa, e na novela O mar juvenil, inspirada nas viagens que fizera por propriedades agrícolas coletivas mantidas pelo Estado. A propósito, isbás é o nome que se dá na Rússia a habitações camponesas típicas. Mais tarde, em 1934, Platônov publicou O rio Potudán, numa época que coincide com o grande terror que culminou com a execução de mais de 700 mil pessoas que seriam consideradas “inimigos do povo”. Por pouco, Platônov teria escapado da repressão.

Plotônov ainda escreveu os livros As reflexões de um leitor e Nikolai Ostróvski, que não seriam publicados e seus originais destruídos pelos censores do Partido Comunista. Depois disso, o autor limitou-se a escrever livros infantis. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou no front como correspondente do jornal A Estrela Vermelha, período em que escreveu quatro livros de prosa militar. Produziu outros livros de contos que foram repudiados pela censura, acusado de caluniar o soldado-herói russo. Tuberculoso, morreu sem ver suas principais obras publicadas.

 

                                                        IV

A tradutora Maria Vragova, diretora da editora Ars et Vita, especialista em literatura russa, tem-se destacado também como produtora cultural em numerosos projetos culturais e artísticos nas mais diversas linguagens: exposições de artes visuais, mostras de cinema, espetáculos de artes cênicas e projetos editoriais. Em 2007, foi responsável pela organização dos eventos dedicados ao aniversário da Catedral Ortodoxa de São Pedro e São Paulo, em Karlovy Vary, na República Checa.

Em 2007, organizou a primeira retrospectiva do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), no Museu de Arquitetura de Moscou, na ocasião do seu centenário de nascimento, e, em 2008, no mesmo local, a exposição do arquiteto português Álvaro Siza Vieira. Convidada por Serguey Gordeev, senador da região de Perm, na Rússia, colaborou em um projeto de urbanização de Perm e na criação de um novo plano diretor para a cidade, em parceria com a cidade de Curitiba e com o ex-prefeito Jaime Lerner (1937-2021).

Em 2009, participou da organização do Progetto Argerich, em Lugano, na Suíça, com 35 artistas de vários países do mundo. Realizou a produção da exposição Antanas Sutkus: um olhar livre, que percorreu 16 cidades brasileiras; da exposição Vladimir Lagrange: Assim Vivíamos, da exposição A União Soviética Através da Câmera e da Mostra de Cinema Russo Contemporâneo, entre outras. É responsável pela coordenação do Festival Internacional de Artes de Tiradentes-MG. Adelto Gonçalves - Brasil

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Tchevengur, de Andrei Platônov, tradução de Maria Vragova e Graziela Schneider, com ilustrações da artista russa Svetlana Filippova, texto de apresentação de Irineu Franco Perpetuo, prefácio de Maria Vragova e posfácio de Francisco de Araújo. Belo Horizonte: editora Ars et Vita, 584 páginas, R$ 96,90, 2021. Site: www.arsetvita.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

 

                            



 

                                                       





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

A poesia como reflexo de um cenário de perdas

Segundo livro da poeta israelense Tal Nitzán publicado no Brasil traz poemas que constituem libelos em favor da paz no Oriente Médio

                                                                            

                                                                     I

Pessoa extremamente sensível, que coloca a sobrevivência da espécie humana acima de todas as possíveis divergências étnicas ou políticas, o que a leva a lutar há anos pelo fim do domínio de Israel sobre as terras conquistadas na guerra de 1967, a poeta israelense Tal Nitzán (1961) acaba de ter publicado o seu segundo livro no Brasil, Atlântida (Belo Horizonte, Ars et Vita Editora, 2022), que reúne 40 poemas tirados de obras já publicadas, majoritariamente traduzidos pelo jornalista Moacir Amâncio, doutor em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP) e professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) daquela instituição. Com esse livro, a autora conquistou o Prêmio da Universidade de Bar-Ilan (Tel Aviv), em Israel.

Dos 69 poemas reunidos na antologia, 31 foram traduzidos por Moacir Amâncio e os demais por Gustavo Carvalho, Flavio Britto, Luca Argel, Maria João Cantinho, Maria Teresa Mota e Guilherme Gontijo Flores, também autor do prefácio. Desses, onze peças traduzidas por Luiz Gustavo Carvalho e duas por Luca Argel contaram com a participação da autora, profunda conhecedora da Literatura Espanhola e Hispano-americana e que também conhece o idioma português. Aliás, sua participação nas traduções já havia ocorrido por ocasião da publicação de seu livro de estreia no Brasil, O ponto da ternura (São Paulo, Editora Lumme, 2013), que teve 28 textos traduzidos por Moacir Amâncio e versões adicionais traduzidas por Maria Teresa Mota, Flávio Britto, Maria João Cantinho, Luiz Gustavo Carvalho e Luca Argel (as duas últimas com participação da autora).

Tal Nitzán já publicou sete livros de poesia: Doméstica (2002), Uma noite comum (2006), Café soleil blu (2007), A primeira a esquecer (2009), Olhar a mesma nuvem duas vezes (2012), Até o átrio interior (2015), em parceria com o artista israelense Tsibi Geva, e Atlântida (2019), que ganha agora sua versão em português.

É romancista, tradutora e editora. Nasceu em Jaffa, mas, filha de pais diplomatas, já morou em Bogotá, Buenos Aires e Nova York e, agora, reside em Tel Aviv. É bacharel em História da Arte e Estudos Latino-Americanos e mestre em Literatura pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Recebeu diversos prêmios por sua obra, entre os quais o Prêmio Mulheres Escritoras, o Prêmio Ministro da Cultura de Israel para Jovens e Livro de Estreia, o Prêmio de Poesia da Universidade Hebraica e o Prêmio do Primeiro-Ministro de Israel para Escritores. Traduziu para o hebraico obras de Jorge Luis Borges (1899-1986), Pablo Neruda (1904-1973), Octavio Paz (1914-1998) e Federico García Lorca (1898-1936), entre outros.

 

                                                        II

Da poesia de Tal Natzán, o que se pode dizer é que constitui uma das vozes mais expressivas da literatura escrita em hebraico hoje. E que não perde a sua força e beleza lírica quando traduzida para outros idiomas. Trata-se de uma poesia que “nos atinge em português com essa lâmina de beleza”, como observa no prefácio o professor, poeta, tradutor e ensaísta Guilherme Gontijo Flores, doutor em Letras Clássicas pela USP, ao destacar que os seus poemas “têm um impacto maciço e sólido, um baque verdadeiro de linguagem sobre o corpo”.

É o que se pode comprovar no poema “Tesouro”: No inverno os guardas arrancaram o cobertor da / pele dos habitantes do jardim. Um deles não verá o dia. / Na primavera foram lançadas garrafas cegas / nas casas assinaladas, que se incendiaram. À noite busquei refúgio em teu corpo / como um menino se abriga na amoreira. / Ouvir somente a tua respiração / apoiar-me em ti da cabeça aos pés e por um instante / não ver nuvens de veneno e de ocaso / acumulando-se pesadas. /  Que mais te direi. / Que és na minha pobreza o tesouro oculto / que a mão deles não alcançará. / Que eu seja na tua pobreza o tesouro oculto / que o saber deles não alcançará.

De fato, em quase todos os poemas de Tal Nitzán o que transparece é um cenário de perdas. Inconformada com a intransigência dos homens em não buscar um diálogo que faça do Oriente Médio um território de paz, a poeta mostra-se sempre uma testemunha veraz da instabilidade em que se vive na região, a ponto de ninguém saber se, daqui a alguns minutos, será vítima de um míssil ou de um desmoronamento provocado por bombas ou de uma bala perdida. Como ativista política, mostra-se apenas a favor dos fracos e oprimidos, sem tomar partido de dirigentes israelenses ou palestinos. Tanto que já organizou o livro Com caneta de ferro: poesia de protesto israelense 1984-2004, antologia que reúne textos que se opõem à invasão por Israel do território palestino.

Esse dia a dia terrível de quem vive no Oriente Médio pode-se respirar, por exemplo, através dos versos de “Khan Yunis” (título que remete a um subúrbio de Gaza, zona de conflito quase permanente): (...) Orgulho da família! Só tem dois anos / e já sabe gritar para a mamãe que se abaixe / quando os tiros voarem para dentro de casa. / ‘A janela da qual virá o vento, fecha e deita para descansar’, / tu citas, mas nossas balas eficientes, / atravessam portas, paredes, vidraças. Ao vento, oscila agora / a placa eivada de tiros / com tua advertência ingênua: / Atenção! Famílias moram aqui! Attention! Families live here! / E dos reservatórios furados / a água escorre pelas faces da casa.

Essa preocupação com o futuro dos inocentes também se sente em versos como os do poema “Cobertura”, no qual a poeta mergulha com olhos e alma na vertigem de um mundo alucinado e sua voz traduz a ânsia e o tormento de uma população que não sabe se o fim de sua existência pode estar logo ali, no fim da rua: Nesta hora escura / todas as crianças são iguais. Nesta treva basta a palavra “crianças” / para que se encolha de medo. / A boca do caminhão se escancara, Salima / Matria procura tesouros na imundície, / já estará enterrado no monte de lixo / cobertura, a mão busca os cobertores / enrolados em sua candidez, / cobertores que nem tinham caído. / Ahmed Zar´uma não subirá mais / no brinquedo do grande blindado, / seu coração agita-se no peito magro / sob o alvo do fuzil. Assim, com os pulsos sobre a cabeça, / o amor está amarrado ao terror.

 

                                                        III

Tal Natzán publicou também seis livros infantis e é autora de dois romances: Cada e toda criança (Achuzat Bayit, 2015) e O último passageiro (Am Oved, 2020). Editou três antologias de poesia: duas são seleções de poesia latino-americana e uma, With an Iron Pen, coleção de poesia hebraica de protesto, que também saiu na Espanha, França e Estados Unidos. Seus poemas foram traduzidos para mais de vinte idiomas e várias seleções de seu trabalho publicadas em inglês, alemão, espanhol, francês, português, italiano, lituano e macedônio. Adaptou ainda versões do romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), e peças de William Shakespeare (1564-1616) para jovens leitores.

É considerada a maior tradutora de literatura hispânica para o hebraico, trabalho que foi reconhecido com o Prêmio Tchernychovski de Tradução e a Medalha de Honra da Presidência do Chile por suas versões de poemas de Pablo Neruda. Traduziu para o hebraico também obras em prosa publicadas em inglês. Foi editora de Latino, uma série de literatura latino-americana de traduções para o hebraico, e de Mekomi, que significa Local em hebraico, uma série livros de prosa hebraica original. Editou ainda a revista literária independente Orot (que quer dizer Luzes em hebraico). É fundadora e editora da revista literária online Ha-Mussach, que significa A Garagem, da Biblioteca Nacional de Israel. Adelto Gonçalves - Brasil

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Atlântida, de Tal Nitzán, com prefácio de Guilherme Gontijo Flores. Belo Horizonte: Editora Ars et Vita, 94 págs., R$ 45,00, 2022. E-mail: contato@artsetvita.com Site: www.arsetvita.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br