Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Brasil - Supremo Tribunal Federal: Dois bicudos não se beijam

A aposentadoria antecipada do ministro Barroso do STF criou a inesperada e rara oportunidade para Lula conquistar parte do eleitorado evangélico e, ao mesmo tempo, dispor da maneira como neutralizar o atual ministro André Mendonça, que deixará de ser a única "voz de Deus" dentro do STF, representativa de 30% da população.

Mendonça não terá mais a exclusividade de representar o ungido de Deus, o Messias Bolsonaro, segundo a doutrina evangélica da Teologia do Domínio, cujo objetivo é o de submeter a vida pública ao controle religioso, numa versão atualizada ao nosso tempo de uma teocracia.

Na hipótese de Jorge Messias ser escolhido por Lula e aprovado pelo Senado, não haverá, para comemorar, a presença da Michelle saltitante falando língua estranha à maneira dos pentecostais. Embora o Messias Jorge seja chamado de evangélico, sua denominação batista, vinda do ramo europeu protestante da Reforma, é mais comportada, mesmo sendo também missionários norte-americanos que a trouxeram ao Brasil.

Embora o Messias Bolsonaro tenha sido eleito e seja ainda apoiado pelos neopentecostais evangélicos, seu representante no Supremo Tribunal Federal, o advogado e pastor André Mendonça também pertence a uma denominação protestante vinda da Reforma calvinista, ele é presbiteriano. Entretanto, os presbiterianos foram os primeiros a apoiar o golpe militar de 1964, quando o pastor Boanerges Ribeiro ocupava o posto de presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil.

A provável escolha de Jorge Messias para ocupar o lugar do ministro Barroso no STF, ao contrário do imaginável, não provocou entusiasmo na chamada Bancada Evangélica, liderada pelo pastor fundamentalista evangélico da Assembleia de Deus, Sóstenes Cavalcante, segundo apurou a CBN.

O jornal Valor Econômico deu um título bem elucidativo ao tratar da possibilidade Jorge Messias para o STF: republicanamente evangélico e terrivelmente democrático, numa alusão ao terrivelmente evangélico André Mendonça, para o qual não houve tentativa de golpe no 8 de janeiro.

A senadora Damares Alves, que frequenta em Brasília a mesma igreja onde Jorge Messias é diácono, não vê com bons olhos a indicação de Messias para o STF, por ser esquerdista, embora Messias seja considerado um cristão conservador pelos que o conhecem, como o pastor Sérgio Carazza, da Igreja Batista Cristã em Brasília.

Até que ponto, Jorge Messias é um batista conservador? Bastante revelador de sua abertura de espírito foi sua intervenção, como advogado da união, AGU, junto a um hospital recomendando a realização do aborto em uma mulher engravidada depois de ser vítima de um estupro.

Lula escolherá Jorge Messias? Provavelmente, e assim criará condições para se acabar com a oposição de uma parte da população evangélica ao Supremo Tribunal Federal. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Brasil - É tolerável uma intervenção estrangeira no Supremo Tribunal Federal?

Os ataques do bilionário Elon Musk, dono da rede social Twitter, agora X, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes provocaram uma crise no Brasil, qualificada nas redes sociais como uma nova tentativa de golpe do clã Bolsonaro, desta vez apelando a uma intervenção estrangeira. Essa crise teve repercussão internacional e revelou as dimensões incontroláveis do canadense-sul-africano, cuja ambição parece a de ser dono do mundo.

Teria o sul-africano Elon Musk lido demais histórias em quadrinhos, quando adolescente, a ponto de se julgar agora um super-herói capaz de impor a liberdade no mundo, ou muito ao contrário, um super-vilão empenhado em impor sua vontade no mundo das high techs, e de iniciar mesmo a colonização do nosso sistema planetário e, a seguir, das galáxias?

Faz algum tempo, lendo nos jornais e revistas o surgimento e as ambições do filho de Errol Musk, promotor imobiliário que ficou milionário com sua participação na exploração de minas de esmeraldas na Zâmbia, me veio essa imagem de Musk, o dono do mundo. Bem no estilo dos comics e seus super-heróis, nos gibis ou revistas de histórias em quadrinhos, nos tempos já remotos das bancas de jornais.

Imagino o jovem vivendo sua infância e juventude nos condomínios fechados com os afrikaners sul africanos. Seria conivente ou contrário à exploração dos negros pelo apartheid? Em todo o caso, suas leituras aumentaram seu desejo por aventuras e foi isso que o levou a se expatriar para o país de sua mãe, o Canadá, ao terminar o colégio. De lá para os EUA foi um pulo, com a vantagem de se livrar do serviço militar. A riqueza não impediu seu interesse pelos estudos e seu currículo é excelente.

Mas, em 1995, Musk toma consciência do rápido desenvolvimento da internete e deixa de lado uma bolsa de estudos para um doutorado, em Stanford, nos EUA, sobre física energética, para lançar sua primeira empresa. Esforçado, interessado em tudo, ambicioso, isso e mais algumas coisas, Musk era desde criança. Com apenas 12 anos tinha imaginado um vídeo-game ou jogo de tiros, no estilo de Invasores do espaço, vendido para uma revista especializada em computadores e tecnologia.

Começa uma série de empreendimentos de sucesso na área de logiciais, computadores, banco on-line e se lança no setor de mísseis e foguetes com vistas ao transporte para o planeta Marte, onde sonha em iniciar a colonização e nutre a ambição de começar viagens espaciais. Seus projetos audaciosos incluem carros elétricos e inteligência artificial. E sua compra do Twitter, agora X, foi dentro dessa ambição de interligar o mundo e suas populações. Nessa área criativa de projetos audaciosos, Musk é imbatível.

Mas, infelizmente, nobody is perfect - ninguém é perfeito, e Musk, na vida real, não é nenhum Superman ou Capitain Marvel das revistas em quadrinhos. Essas personagens míticas, surgidas a partir da Primeira Grande Guerra, numa fase de depressão e descrença, embora sejam irreais, supriam o desejo ou a necessidade humana de crer em seres superpoderosos, com atributos antes só atribuídos a Deus.

Por falar nisso, esses super-heróis eram de esquerda ou de direita? Fui procurar uma resposta na imprensa francesa, considerada uma das mais cultas de formação e das mais independentes. E encontrei dois especialistas - Camille Baurin, autora de uma tese sobre os super-heróis contemporâneos, e William Blanc, autor do livro Super-heróis, uma história política!

William Blanc nos conta terem sido imigrantes judeus os criadores desses super-heróis. Os criadores de Superman foram os judeus Siegel e Shuster "não para fazer um super-homem, mas para dizer sobretudo que um dia a humanidade chegará a um homem melhor, graças à ciência e tecnologia, meio social, meio político e essa utopia é encarnada no Superman." Por sua vez, para Camille Baurian, o herói Batman é reacionário, enquanto tem a máscara, mas como Bruce Wayne, tem uma consciência social mais desenvolvida. "Capitão América que foi combater os nazistas, antes mesmo dos EUA entrarem em guerra, personifica os patriotas", mas que patriotas? Donald Trump e seus seguidores? 

Porém, voltando a Elon Musk, talvez a constatação de ser dotado provavelmente de um alto QI (Quociente de Inteligência), o que lhe dá uma sensação de autossuficiência e superioridade sobre a maioria, além de possuir uma das maiores fortunas no planeta, pode lhe dar a sensação de ter sempre razão quando diz alguma coisa e de ter dificuldade em aceitar ser contrariado ou retorquido. Mas isso não lhe transforma num super-herói, embora possa querer agir como se fosse. Aqui é importante lembrar o publicado faz três anos pelo jornal francês Le Figaro, com base no Washington Post - "Elon Musk, revela que tem o síndrome de Asperger, uma forma de autismo, declarando: Eu sei muito bem que, às vezes, eu digo ou publico coisas estranhas, mas essa é a maneira como trabalha meu cérebro". A revista francesa Le Point completou que Musk "lamenta que seus dizeres possam ser, às vezes, mal interpretados".

Seria o caso das críticas feitas por Musk ao ministro Alexandre de Moraes, repercutidas com as respostas do ministro brasileiro? Não, essas críticas foram de fundo político e revelam convicção pessoal. E muita gente tomou um susto ao ver o jornalista Glenn Greenwald concordar com parte das críticas de Musk ao ministro do STF, numa entrevista no começo da semana no Uol.

Ora, Greenwald não é de esquerda e, pelo jeito, não percebeu a diferença fundamental entre a estrutura política judiciária norte-americana, onde Donald Trump, considerado responsável pela tentativa de golpe do 6 de janeiro no Capitólio e alvo de diversos processos, pode continuar como candidato à presidência dos EUA. Mesmo porque Trump, enquanto presidente, colocou na Corte Suprema norte-americana três ministros conservadores, que lhe são fiéis. Ou seja, os EUA terão provavelmente a reeleição de um presidente not clean, cuja provável vitória assusta a União Européia. No caso de obrigatoriedade de processos antes de decisões de Alexandre de Moraes, como defende Greenwald, os bolsonaristas e Elon Musk, o Brasil teria vivido um caos antes e depois do 8 de janeiro, e talvez vivêssemos hoje uma ditadura bolsonarista.

Enfim, é aceitável o dono de uma high tech, Elon Musk, insatisfeito com intervenções nas redes sociais do X, ex-Twitter, divulgadoras de fake news, insultos e ameaças, tentar intervir na política e no judiciário do Brasil, incitando bolsonaristas a pedirem, no senado, o impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes? Que poder pensa ter Elon Musk? Elon Musk, considerado pela revista Jeune Afrique "como o porta-voz da extrema-direita europeia", definição seguida pela imprensa européia.

Pior ainda - é aceitável a moção de aplauso e louvor ao empresário Elon Musk, da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados, aceitando e se curvando diante de uma intervenção estrangeira num órgão de representação política brasileira? é aceitável o Senado debater com o interventor estrangeiro sobre as medidas adotadas pelo STF? Entre as muitas reações na imprensa, Reinaldo Azevedo no Uol considerou essas duas decisões vergonhosas e se reportou ao marechal Pétain na França do governo de Vichy, invadida e dominada pelo nazismo, como exemplo de sujeição e de vassalagem. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.