Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Malásia - Encontro entre culturas “deve ser perpetuado”

Segundo Maria José de Freitas, Macau poderia “ter um papel mais activo” no encontro e na fusão de culturas com heranças ultramarinas, em particular aquelas com legado português, como o assentamento lusitano que ainda subsiste em Malaca. A este jornal, a presidente do Comité Científico Internacional para o Património Construído Partilhado falou do exemplo do patuá e dos esforços envidados pelos Dóci Papiaçám, na preservação cultural, e sobre como as iniciativas culturais poderiam aproximar comunidades de diferentes origens


Macau tem condições para se posicionar como um centro cultural para as comunidades com heranças ultramarinas, em particular aquelas com história ligada a Portugal, de acordo com a presidente do Comité Científico Internacional para o Património Construído Partilhado (ISC-SBH) do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS). Maria José de Freitas esteve na 22.ª Assembleia-Geral do ICOMOS, onde foi discutido o tema do próximo trienal da organização, “património em movimento”, que vigorará já a partir de 2027 e no âmbito do qual a investigadora acredita que “Macau está especialmente bem colocado”.

O encontro dos membros do ICOMOS teve lugar em Kuching, na Malásia, “uma cidade portuária tal como Macau” e que “foi formada na altura dos grandes impérios do século XIX”, começou por realçar Maria José de Freitas ao Jornal Tribuna de Macau. Durante o périplo, os membros também visitaram Malaca, partilhou a arquitecta, um assentamento com “uma herança muito rica de influência portuguesa, onde diversos residentes ainda falam o ‘papiá kristáng’”, dialecto baseado na língua de Camões.

Contudo, segundo a presidente do ISC-SBH, e apesar de as ruas “ainda terem nomes portugueses”, a comunidade sente-se algo abandonada pelas autoridades de Portugal, em virtude da distância. “Eles também cultivam a religiosidade, a procissão por altura da Páscoa”, detalha. “As gerações mais velhas ainda falam o ‘papiá kristáng’, mas os mais novos já não estão muito interessados nisso”, lamentou.

“Aquilo que vemos em Macau e que acontece, por exemplo, com o patuá é um excelente exemplo”, elogiou Maria José de Freitas. “Lembro-me sempre dos ‘[Dóci] Papiaçám’ de Macau, que, através do teatro, conseguem transmitir uma coesão, uma ideia de conjunto, e que às camadas mais novas também vai interessando”, descreve.

“Creio que em Malaca isso não acontece, pelo menos foi o que nos foi transmitido, e julgo que poderia haver uma colaboração mais evidente nesse aspecto, dada a proximidade. Estamos relativamente perto de Malaca, e poderia haver uma colaboração mais intensa nesse sentido”, reiterou, acrescentando o exemplo da já existente colaboração com Goa.

Porém, assegurou que “em Malaca, esse sentido de pertença [à cultura portuguesa] ainda é visível, porque estas gerações antigas mantêm e conversam entre eles em ‘papiá kristáng’, que é muito parecido com o patuá”. “Estive lá há 10 anos. E notei que, hoje em dia, o património de influência portuguesa, a célebre Porta [de Santiago] está mais arranjada. A própria Igreja de São Paulo está mais arranjada. À volta, a configuração está mais organizada. E há maior orgulho patenteado nesses monumentos, porque não estão abandonados”, enaltece.

“Os monumentos portugueses são monumentos com uma antiguidade evidente, estão mais contextualizados, mais tratados”, reconheceu Maria José de Freitas. Por outro lado, acautelou que “não há placas, nem há documentação que seja disponibilizada a quem visita, que retrate essa história que foi tão importante naquela altura”.

Na sua perspectiva, “é necessário um maior diálogo”. “Através de produções conjuntas no campo do teatro”, propôs. “Porque não os próprios ‘Papiaçám’ de Macau integrarem alguns elementos de Malaca? E também de Goa. Julgo que esta fusão cultural pode interessar a Macau, no sentido de veicular ou divulgar Macau como uma plataforma para o mundo, que penso ser também interesse do próprio Governo”.

“Penso que seria interessante, como há estas raízes comuns. Perceber quanto é que conseguem contribuir para mostrar esta fusão cultural que houve noutros tempos”. “Macau poderia, se calhar até deveria dinamizar estas situações ou ter um papel mais activo”, asseverou.

“E diria que não é só com os países de língua portuguesa. Seria também com os países da América Latina. Tive a oportunidade de falar com vários representantes do ICOMOS, ligados à América Latina, e encontrámos muitos pontos comuns, que vamos também aprofundar neste contexto do novo triénio”, antecipou.

“As rotas marítimas ibéricas tiveram muitos pontos comuns”, continuou. “E porque há património de origem chinesa, nesses locais da América Latina, também ligado ao património ibérico”. “Trata-se de ter umas perspectivas e uma abordagem conjunta, para melhor perspectivar esta harmonia que se pretende para o futuro”, justificou a líder do ISC-SBH. “No passado houve encontro. No futuro, esse encontro deve ser também perpetuado. A ideia é essa”, rematou. Pedro Milheirão – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Macau - Paula Carion quer levar a língua crioula a novos públicos em oficina de Patuá

A Associação de Estudantes Luso-Macaense (AELM) organiza este sábado, 8 de Agosto, um workshop dedicado ao Patuá, o crioulo que resulta do encontro de Portugal com a Ásia. A sessão, que terá lugar no Instituto Internacional de Macau, entre as 16h e as 18h, será conduzida por Paula Carion, vice-presidente da Associação dos Jovens Macaenses e membro dos Dóci Papiaçám di Macau, grupo de teatro em Patuá. O objectivo é sensibilizar a comunidade para a importância de uma língua que, apesar de reconhecida como património cultural imaterial, continua a ser desconhecida para muitos


As línguas só se mantém vivas enquanto houver quem as fale, quem as ouça e quem as ensine. Uma convicção que traz Paula Carion, figura recorrente no âmbito cultural macaense, a realizar mais um workshop dedicado ao Patuá, o crioulo de Macau que, desde 2021, integra a lista representativa do património cultural imaterial nacional da China. O evento, organizado pela Associação de Estudantes Luso-Macaense (AELM) e com a coorganização da Associação dos Jovens Macaenses, do Instituto Internacional de Macau (IIM) e dos Dóci Papiaçám di Macau, terá lugar este sábado, dia 8 de Agosto, nas instalações do IMM.

Em conversa com o Ponto Final, Paula Carion explica que este é o décimo workshop que realiza desde 2023, após ter passado por escolas, associações e até pela Universidade Chinesa de Hong Kong. O formato é interactivo e divide-se em duas partes: a primeira é uma introdução ao povo macaense, à sua cultura e à língua crioula; já a segunda aborda as festividades de Macau que mantêm influência da cultura portuguesa, tais como o teatro e o Chá Gordo.

A oradora diz que o público-alvo inclui membros da AELM, estudantes que frequentam ou frequentaram cursos relacionados com o português. Mas não só, também está aberto a todos os que manifestem interesse pela cultura macaense. A inscrição tem um custo simbólico de 30 patacas, e cerca de 30 participantes já garantiram lugar.

Quando questionada sobre a importância deste fenómeno linguístico de Macau, Paula Carion diz que o Patuá não deve ser apenas observado como um património exclusivo da comunidade macaense, mas como um “producto de Macau”. A sua preservação, defende Carion, “deve ser tão importante como a preservação, por exemplo, das Ruínas de São Paulo ou do Templo da Barra”. O objectivo do workshop, sublinha, não é ensinar a língua de forma exaustiva, mas sim sensibilizar a comunidade para a sua existência e valor cultural. “Espero que, através da apresentação, o público se interesse mais pelo Patuá e procure mais respostas para as suas questões”, afirma.

Já quanto à importância do reconhecimento do teatro em Patuá como património cultural imaterial nacional, Carion mostra-se pragmática. “O meu objectivo é começar aqui em Macau. Só quando mais pessoas locais estiverem mais familiarizadas com o Patuá é que poderemos promovê-lo na China ou mesmo no estrangeiro”. A oradora alerta ainda para o risco de desinformação, numa altura em que a língua continua a evoluir e a distanciar-se do crioulo original que chegou a Macau há três séculos.

O workshop é também uma oportunidade para sonhar. Carion confessa que descobriu recentemente que o Papiamento, um crioulo muito semelhante ao Patuá, foi reconhecido como língua oficial em Aruba, Bonaire e Curaçau. Embora saiba que um cenário semelhante para Macau seja improvável, admite que “se um dia, mesmo que seja um pequeno grupo de pessoas, pudesse conversar diariamente em Patuá, isso seria provavelmente o realizar de um sonho”.

O workshop “História de Macau – Workshop de Patuá” realiza-se no dia 8 de Agosto, das 16h às 18h, nas instalações do IIM.  As vagas são limitadas, pelo que se aconselha a visitar a página oficial do IMM para marcar presença mediante o pagamento. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Cabo Verde e Martinica: Duas identidades no itinerário da crioulidade

O itinerário dos povos de língua crioula trouxe a martiniquesa Victória Elizabeth até Cabo Verde, com a sua equipa de reportagem. O objectivo é contar este percurso tão comum, através da língua materna, da sua música, dança, uso diário, profissões diversas, unindo os pontos de uma herança colonial e afirmação identitária. A aventura começa por Cabo Verde, que tem o crioulo mais falado em África, e segue depois por mais 11 países, neste continente e nas Caraíbas



Em 2018, Victória Elizabeth, natural da Martinica, nas Caraíbas, começou a delinear um projecto que tinha tudo que ver com a sua cultura  ao mesmo tempo crioula e insular. E quando punha as primeiras ideias no papel, para a criação da sua Associação F’Kréyol (associação para a promoção das línguas e culturas crioulas, através de uma abordagem educacional, artística e digital) e procurava no mapa os locais do mundo onde as populações falavam uma língua crioula, viu as ilhas de Cabo Verde. Disse então para si que um dia viria até cá para visitá-las. E o ano passado, desembarcou na Praia para a primeira recolha de informações, a ‘réperage’ dos locais para a sua equipa filmar.

Ao mesmo tempo, procurava financiamento para o projecto sobre a língua crioula e as suas populações falantes, enviando o projecto a várias instituições e organizações. Este ano chegou com a sua equipa para mais tempo, dois meses, até o final do mês de Agosto.

O projecto consiste em abordar o itinerário da língua crioula pelo mundo, o seu uso profissional, a ligação entre as danças e a tradição, a transmissão entre as mulheres e a língua crioula. Incorpora, ainda, artistas, cantores, bailarinos, rappers, mas também jornalistas, advogados, ateliers pedagógicos para vários públicos.

“O objectivo é que quando subirem ao palco, no espectáculo, apresentem uma forma de expressão artística, uma actividade na sua língua crioula”, explica Victória.

Mas a sua ligação a Cabo Verde é mais remota. “Quando era estudante, na Martinica, tive uma professora cabo-verdiana, Maria da Silva, que me falava muito de Cabo Verde e da cultura das suas ilhas e na altura fiquei entusiasmada”, lembra.

E foi a vinda a Cabo Verde, pela primeira vez, que a levou a pensar o projecto de forma mais abrangente. “Na época, ainda estava circunscrito à Martinica e a Guadalupe. A minha vinda a Cabo Verde motivou-me a fazer tudo para conseguir esse objectivo, de visitar 12 países: quatro africanos (Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau e o Benim), nove da zona das Caraíbas Trinidad e Tobago, Saint Martin, Santa Lucia, Dominica, Martinica, Guadalupe, Haiti e a Guiana) e começámos por Cabo Verde.

Diferenças e semelhanças

E as diferenças entre as ilhas de Cabo Verde e estas duas ilhas das Antilhas Francesas, Martinica e Guadalupe não são muitas, como ela explica: “Nós temos um clima tropical com duas estações, das chuvas, a ‘ivernage’, e a seca; mas temos também furacões, claro. Temos a mesma capacidade de resiliência e de adaptação. Mas o que me impressionou muito em Cabo Verde é que são 10 ilhas num só país. Nas Caraíbas há umas 15 ilhas de maior dimensão, mas cada uma delas é um país diferente, cada uma fala uma língua e encontramos também um crioulo em cada uma delas. E apesar das diferenças, conseguimos entender-nos em crioulo, mesmo os não de base francesa, porque estão muito misturados.”

Victória ainda não compreende tudo no crioulo de Cabo Verde, mas compreende a maneira de ser das pessoas e a ‘prosadie’: a entoação, o ritmo, a musicalidade, a intensidade e as pausas, na linguagem. “Algumas palavras são muito próximas e o facto de habitarem em ilhas levou a que estes povos desenvolvessem contextos semelhantes: estamos próximos do mar, mas também fazemos a agricultura, temos a ambição de sermos autossuficientes, porque de um momento para o outro podemos ficar isolados do mundo e é preciso haver uma capacidade de resiliência para sobreviver nestas condições”.

A martiniquesa adianta ainda o facto de os antepassados comuns terem sido traficados, trazidos para estes territórios insulares, antes da miscigenação com outros povos, “o que faz com que o dia a dia destes povos ilhéus sejam semelhantes aos de Cabo Verde, as suas rotinas… ainda há pouco estive com um grupo de pescadores aqui de Santiago e vi que eles cozinham o peixe e fazem um molho muito parecido com o nosso, na Martinica e nas Caraíbas; mas também partilhamos outros aspectos, a música, por exemplo; podemos apreciar as músicas, o batuko, o funaná, o zouk”.

Victória formou-se em ciência política e letras modernas, com mestrado em gestão de empresas. Questionada sobre as origens deste projecto ambicioso, recorda como em casa, quando era pequena, a mãe falava crioulo e ela respondia em crioulo. “Mas agora o contexto é outro, é diferente. Quando ia à escola, não era permitido falar o crioulo. E foi preciso um grande militantismo envolvendo várias gerações, para, a pouco e pouco, o crioulo ser introduzido nas escolas, nos programas escolares. Hoje, as aulas são em francês, mas temos aulas em crioulo também.”

Crioulo versus língua de colono

E quando descobre a realidade cabo-verdiana, o impasse e a discussão nacional em volta da língua materna, Victória responde que o problema da escrita, na Martinica, foi há muito ultrapassado, assim como nas outras ilhas. Mas, para as ilhas das Caraíbas, o crioulo do Haiti exerce uma pressão e atracção muito grandes, pois representa 12 milhões de falantes, o maior país ‘crioulo’ do mundo.

“Cada uma delas tem o seu sistema fonético, o seu dicionário, mas também não existe um consenso no sentido de alguma ‘uniformização’. Cada uma faz o seu trabalho, a luta pelo reconhecimento institucional da sua variante, estando elas em diferentes fases do processo, este não está finalizado, muito pelo contrário.”

Outra diferença entre Cabo Verde e a sua ilha de origem, a Martinica, é a convivência entre os seus crioulos e as línguas francesa e portuguesa. “Quando confrontada entre a perda de terreno do português face ao crioulo, em Cabo Verde, e a implantação desta língua materna, a nível nacional, de forma efectiva, sobretudo depois da independência, na Martinica é bem diferente.

“No nosso caso, o problema é inverso, o combate é no sentido de impor o crioulo, há cada vez mais uma forma ‘afrancesada’ de falar o crioulo, há cada vez mais palavras francesas no nosso crioulo, o francês ocupa cada vez mais espaço na sociedade, e a luta é para colocar o crioulo ao mesmo nível que o francês”, explica Victória.

No outro lado oposto está também o Haiti, em que o crioulo quase afastou o francês. Mas ela defende que o ensino de línguas diferentes não pode ser visto como um problema. “Antes pelo contrário, quanto mais línguas uma criança aprender melhor para ela e elas têm essa capacidade de aprendizagem e devem ser estimuladas nesse sentido”.

A admiração de Victória Elizabeth por Cabo Verde leva ainda a perguntar se não foi a garantia das transferências do orçamento de Paris, para estas ilhas, que desencorajou logo à partida qualquer ideia independentista. E, já agora, se o recente acordo assinado entre a Nova Caledónia e o governo francês, de uma progressão aberta da autonomia para um Estado independente, não cria entusiasmo nas Antilhas francesas. “Se foi a economia, não sei, mas esse argumento hoje não tem qualquer sustentação. Hoje os salários na Martinica são muito mais baixos que no ‘hexágono’ (França continental), os preços dos mesmos produtos são três vezes mais caros.

Estamos a sair de um período de forte contestação social, de reivindicações, houve tumultos a que se seguiram negociações. A vida na ilha é demasiado cara e a população exige estar ao mesmo nível que os outros franceses”, afirma.

O projecto sobre os povos de língua crioula começou em 2019 e hoje Victória tem a sua equipa de três elementos. Em Cabo Verde e nos restantes países irão realizar quatro filmes documentários e o objectivo, segundo ela, é a “valorização desta cultura e, se puder mostrar os filmes em cada um desses países”.

Depois de Cabo Verde, segue-se o Senegal, a Guiné Bissau e o Benim. São Tomé e Príncipe fica de fora, dada a dificuldade dos transportes. Para este itinerário da língua crioula pelo mundo, serão contempladas as áreas da música, dança, da língua, sua utilização ao nível profissional, a relação das mulheres com a língua. “Outras ilhas do arquipélago serão também contempladas, logo que tenhamos os nossos passaportes com o visto que solicitámos”, conclui. Joaquim Arena – Cabo Verde in “A Nação”