Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Brasil - Cultivo de erva-mate é eleito Património Agrícola Mundial

Espécie consumida como chimarrão, tereré ou mate alia manejo florestal sustentável e continuidade cultural; plantio em florestas de araucária, no Paraná, ajuda a proteger a biodiversidade ameaçada. A comercialização do produto oferece emprego rural digno e conecta produtores por meio de cooperativas



O cultivo de erva-mate no sul do Brasil entrou para a lista do Património de Sistemas Agrícolas de Importância Global, Giahs. O anúncio foi feito nesta quarta-feira pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO.

A agência também incluiu na lista outros cinco sítios, localizados na China, no México e na Espanha. Com as novas adições, a rede mundial de património agrícola agora conta com 95 sistemas em 28 países.

Manejo sustentável e continuidade cultural

No caso do Brasil, o título foi concedido para o cultivo de erva-mate em sistemas agroflorestais sombreados nas florestas de araucária no Estado do Paraná.

As folhas da espécie nativa são tradicionalmente consumidas como chimarrão, tereré ou mate, inclusive noutros países como Argentina, Uruguai e Paraguai.

O sistema tradicional de plantio remonta a práticas ancestrais de povos indígenas e comunidades tradicionais do sul do Brasil, que existem há mais de cinco séculos. Para a FAO, as técnicas usadas representam um modelo globalmente significativo de manejo florestal sustentável e continuidade cultural.

A agência destaca que o cultivo fortalece a biodiversidade, a soberania alimentar e a identidade cultural. Além disso, ajuda a conservar a floresta de araucária, um dos berços de biodiversidade mais ameaçados do planeta.

Numa região fortemente impactada pelo desmatamento, onde resta apenas 1% da floresta original, este sistema oferece um raro exemplo de práticas agrícolas que preservam a cobertura florestal e, ao mesmo tempo, apoiam os meios de subsistência e o património cultural.

Emprego rural digno

Mais de 100 espécies de plantas coexistem com a erva-mate. Muitos produtores conservam intencionalmente árvores frutíferas nativas, plantas medicinais e espécies forrageiras, apoiando tanto as funções ecológicas quanto o uso humano.

Esses agroecossistemas também preservam parentes selvagens de espécies cultivadas e diversidade genética dentro das populações de erva-mate, oferecendo potencial adaptativo diante das alterações climáticas e pragas emergentes.

Nesse sentido, a produção de erva-mate contribui com compromissos globais ligados à restauração de ecossistemas e resiliência climática.

A comercialização do produto, principalmente por meio de cooperativas e mercados solidários, oferece emprego rural digno e conecta produtores a cadeias de valor regionais e nacionais.

Coletores de flores “sempre-vivas” em Minas-Gerais

Este foi o segundo património brasileiro incluído na lista da FAO, ao lado do sistema agrícola tradicional na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais.

O local é considerado a savana mais biodiversa do planeta, com um papel muito importante na regulação das chuvas da região.

Os agricultores locais desenvolveram um complexo sistema agrícola denominado "coletores de flores sempre-vivas", com base no seu profundo conhecimento dos ciclos naturais, ecossistemas e manejo da flora nativa, alcançando uma grande harmonia com o meio ambiente.

Os outros itens que passaram a integrar a lista do património da FAO são o cultivo de mexilhões perolados, chá branco e peras na China, um sistema que preserva mais de 140 espécies nativas no México e um conjunto de práticas agrícolas nas areias vulcânicas da ilha de Lanzarote, na Espanha. ONU News – Nações Unidas


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Cabo Verde – Investigador lança novas técnicas de cultivo onde a chuva escasseia

Raphael Collici, investigador e autor de obras em defesa da biodiversidade, ganhou notoriedade na Europa e agora está a lançar um novo projeto na ilha do Maio, Cabo Verde


Depois de, em França, preservar “Frutos esquecidos” na “Quinta que sonha” — títulos que deu às suas obras –, quer desenvolver técnicas de cultivo onde a chuva escasseia.

“Cada gota conta”, é o lema da Maioasis, entidade estabelecida nos terrenos de uma antiga cooperativa de plantas ornamentais da Calheta, aldeia a poente da ilha, com pouco mais de mil habitantes.

O proprietário daquele espaço fechou o projeto e 120 pessoas que ali trabalhavam tiveram de procurar outras ocupações — algumas emigraram –, até que Raphael Collici comprou o espaço, em outubro de 2022.

“Foi uma oportunidade” de concretizar um sonho antigo de pôr o pé em Cabo Verde, que foi cultivando ao longo de 50 anos de atividade agrícola em campos da Europa e África.

De enxada na mão, pelo terreno abaixo, abre uma vala e no fundo, a todo o comprimento, faz uma caminha de ramos e arbustos secos misturados com uma matéria igualmente seca e esponjosa.

“É caca [excrementos] de vaca”, explica, numa amálgama de francês, italiano e espanhol.

“Da água que vai para o solo, 80% foge”, por ser território arenoso, permeável, pelo que, antes de plantar árvores naquela vala, Raphael usa uma das 20 técnicas que quer demonstrar em Cabo Verde: usar uma base orgânica absorvente para reter toda a humidade.

Assim, o fundo daquela vala vai segurar a água e vai ser solo vivo, com bactérias, tal como é necessário para tudo crescer.

No terreno já se veem bananeiras, palmeiras, calabaceiras, papaeiras e uma árvore de noni: Rapahel aproxima-se desta e explica que dali é possível obter uma fruta com alto teor antioxidante, muito procurada nos mercados ocidentais (como Estados Unidos da América e Europa), onde atingem preços muito aliciantes para o produtor – um litro de sumo de noni pode custar mais de 20 euros.

“Aqui, podes plantar tudo”, diz, desde que cada árvore ocupe o seu lugar, consoante a altura, para aproveitar cada gota de orvalho: por cima ficam as palmeiras, de onde as gotas escorrem pelas folhas para as mangueiras, mais abaixo os abacateiros, depois as papaeiras, até chegarem às plantas de café e cacau, na base, debaixo de toda a outra folhagem.

É como imaginar uma cascata, refere o defensor da biodiversidade que encontrou em Cabo Verde uma forma completar os seus sonhos iniciados na Europa: quer escrever um novo livro e estudar formas de dar formação.

“Gosto do povo. É um sonho antigo” que se segue a outras incursões em África, que até já lhe valeram sustos, como acordar ameaçado por grupos armados num deserto do Senegal.

“É o meu suor que paga o trabalho aqui. Ainda vou a França e volto. Quando posso, invisto aqui. Um pouco aqui e lá”, descreve, sob o alpendre de uma casa branca de alvenaria de onde se avista quase todo-o-terreno, onde uma melancia carnuda aberta na mesa ajuda a suportar o sol abrasador.

Quando questionado sobre os lucros que espera fazer, encolhe os ombros.

Fez amigos nos campos de lavoura ao longo da vida, mas diz que alguns “aburguesaram-se”, “o que é pena”, porque “conheciam boas técnicas de retenção de água” e esse é o desafio que agora enfrenta no Maio — como muitos cientistas dizem que será o desafio global, devido às alterações climáticas.

Jaen-Luc, braço direito de Rapahel na Maioasis, chegou ao Maio no início do ano e aponta para o céu para explicar o seu otimismo: “todos os dias vejo nuvens”.

“Sei que há humidade no ar e, já fiz prospeção, há lençóis de água no subsolo. Por isso, estou otimista”.

Ao lado, Diza Tavares, 40 anos, e Sandro Fernandes, 19 anos, residentes da ilha do Maio, colaboram com o projeto: tratam de áreas de cultivo, rega e outros detalhes do dia-a-dia, num projeto que veem como uma nova oportunidade, numa ilha que tem vindo a perder população e procura projetos que detenham quem ali ainda vive — hoje são pouco mais de seis mil habitantes. In “MadreMedia” – Portugal com “Lusa”