Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Timor-Leste - Olandina Caeiro: uma vida inteira a erguer a voz das mulheres timorenses

Resistente, mãe, ativista incansável. Olandina Caeiro enfrentou a prisão, a tortura e o exílio sem nunca desistir da luta por Timor-Leste e pelos direitos das mulheres. A sua voz continua viva na memória de quem com ela caminhou



Foi presa, torturada, separada da família e perdeu o emprego e a casa. Mas nem por um instante desistiu de lutar por Timor-Leste e pelos direitos das mulheres. Olandina Caeiro resistiu com coragem durante a ocupação indonésia, defendeu a liberdade quando poucos ousavam falar e, depois da independência, tornou-se uma figura incontornável na construção do Estado e da igualdade de género.

Faleceu a 31 de março de 2025, aos 73 anos, vítima de cancro, no Hospital Prince Court Medical Center, na Malásia. Mas o legado que deixa vai muito além de datas e cargos: é o de uma mulher que, em todas as frentes — da rádio clandestina às mesas de negociação, das manifestações às embaixadas — nunca deixou de fazer ouvir a sua voz.

Maria Olandina Isabel Caeiro Alves nasceu a 02 de novembro de 1951, em Ermera. Professora do ensino primário de formação, cedo mostrou que o seu lugar era na linha da frente. Em 1975, foi uma das fundadoras do Voz de Timor, um dos primeiros jornais do país, e também deu voz à resistência na Rádio Maubere — duas plataformas essenciais para a comunicação com a população durante os dias sombrios da ocupação.

Ainda nesse ano, foi capturada pelos militares indonésios e levada para Kupang. Estava grávida. Deu à luz na prisão, mas nunca mais voltou a ver o marido, combatente das FALINTIL. Libertada quatro anos depois, carregava no corpo e na memória as marcas da tortura. E, ainda assim, continuou.

Entre a sobrevivência e a luta 

Durante os anos 80, ocupou vários cargos na administração pública, mesmo sob domínio indonésio. Em Baucau, em 1989, foi funcionária pública do sistema indonésio, mas nunca deixou de estar ativa na causa da independência. Voltaria a ser presa em 1992, perdendo o emprego e a casa. Recomeçou do zero, abrindo um restaurante em Díli.

Olandina nunca se afastou das lutas sociais. Em 1998, enquanto presidente da organização East Timorese Women Against Violence (ETWAVE), organizou uma manifestação contra a violência de género — numa altura em que poucas ousavam confrontar esse problema em público.

Foi também membro da Comissão Nacional sobre Violência contra as Mulheres, na Indonésia, e integrou o Parlamento Provincial entre 1997 e 1999. As causas sociais, em particular os direitos das mulheres, estiveram sempre no centro da sua atuação.

Após o referendo de 1999, Olandina intensificou a participação política. Em 2001, já durante a administração transitória, foi nomeada comissária da Comissão da Função Pública, contribuindo para a organização do novo aparelho do Estado timorense. No mesmo período, integrou também a Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), que documentou as violações de direitos humanos cometidas durante a ocupação.

A sua ação não se limitou às instituições. Foi presidente da Rede Feto em 2003, fundou a Academia do Café de Timor-Leste e, entre 2011 e 2015, desempenhou funções como primeira Cônsul-Geral de Timor-Leste em Denpasar, na Indonésia. Mais tarde, foi embaixadora na Malásia (2017) e no Vietname (2021).

A mulher a quem se recorria nos momentos difíceis

Para muitos, Olandina foi mais do que uma líder: foi um porto seguro. Virgílio Guterres, Provedor dos Direitos Humanos e Justiça, jornalista e seu companheiro na resistência, recorda-a como “um refúgio, um lugar onde podíamos restaurar forças e esperança”. Quando a repressão apertava, era nela que os jornalistas e ativistas encontravam confiança para continuar. “Ela era uma perda fundamental de esperança. Nos momentos de desespero, recorria a ela para restaurar a minha confiança na busca por fontes”, recorda.

No final dos anos 1990, quando a perseguição se intensificou, Olandina refugiou-se em Lisboa. Mas mesmo longe, não parou de defender Timor-Leste.

“O primeiro ensinamento que ela nos deixou foi dar voz às mulheres”, afirmou Virgílio Guterres. Olandina acreditava que nenhuma transformação social seria verdadeira se não incluísse as mulheres. Incentivou-as a ocupar espaços de liderança e combateu o silêncio imposto ao género feminino.

A sua vida foi feita de ruturas e reconstruções. Mas em todas elas, esteve sempre o mesmo princípio: justiça e dignidade para o povo timorense — com as mulheres no centro dessa mudança.

Memória viva entre companheiras de luta 

A história de Olandina Caeiro continua a ecoar na voz de quem com ela partilhou o caminho da resistência. Maria Domingas Alves, conhecida como “Micato”, companheira de luta desde os tempos da clandestinidade, recorda-a como uma mulher de força inabalável.

“Olandina foi uma mulher determinada, com um objetivo claro: garantir o bem-estar do seu único filho, mesmo nas condições mais adversas. Lutámos juntas pela libertação nacional, colaborámos na Fokupers, na Rede Feto e, mais tarde, trabalhámos também na Função Pública, entre 2015 e 2017”, relembra Micato, emocionada.

Para além do vínculo pessoal, Micato destaca o espírito incansável de Olandina. “Ela nunca parou de aprender para melhorar o seu trabalho. Durante a resistência clandestina, cada uma tinha a sua rede de contactos, mas reencontrámo-nos no final de 1997, quando a Fokupers começou a ter um papel fundamental na luta contra a violência de género. Participámos juntas numa manifestação histórica a 25 de novembro. Vi nela uma mulher verdadeiramente comprometida.”

A luta de Olandina não se limitou a Timor-Leste. Também representou as mulheres timorenses em conferências internacionais, nomeadamente em Jacarta, e, após a independência, ajudou a consolidar a Rede Feto, sempre com um sonho em mente: alcançar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

A notícia da sua morte abalou profundamente aqueles que a conheceram. Fora do país no momento do falecimento, Micato lamenta não ter podido participar no funeral. “Fiquei comovida ao ver um vídeo onde ela cantava, já doente, aceitando com serenidade a doença que Deus lhe deu. Desejo muita força ao seu filho e às netinhas — que sigam o exemplo desta mulher forte, enquanto mãe e avó.”

Também ela, como tantas outras mulheres timorenses, pagou um preço elevado pela luta: foi presa, torturada e queimada com cigarros durante a ocupação indonésia. “A resistência feminina mostrou ao inimigo que não nos calávamos. Denunciámos as violações e as torturas. Muitas de nós, como a mana Olandina, mesmo trabalhando como funcionárias públicas do sistema indonésio, nunca deixámos de lutar pela independência”, sublinha Micato.

Antes de concluir, deixa um apelo: “A história de mulheres como a Olandina, a Rosa Muki Bonaparte ou a Merita Alves não pode cair no esquecimento. As novas gerações, especialmente as mulheres jovens, precisam de conhecer o passado e dar continuidade à luta pela igualdade.” Joana Silva – Timor-Leste” in Diligente


Cabo Verde e Portugal descartam necessidade de rever acordo cambial

O Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, e o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, afirmaram não ver necessidade de rever o acordo cambial entre os dois países e enfatizaram a sua importância para a estabilidade e confiança na economia cabo-verdiana



Em declarações à imprensa antes do lançamento do livro “Literacia Financeira em Crioulo Cabo-verdiano”, numa cerimónia no Banco de Cabo Verde.

Segundo Ulisses Correia e Silva, o acordo cambial estabelecido em 1998 tem sido um factor determinante da estabilidade e da confiança da economia cabo-verdiana.

O governante realçou ainda que o país beneficiou da previsibilidade nas operações comerciais e de investimento com a Europa e que o compromisso com a estabilidade macroeconómica tem sido essencial para a manutenção da paridade.

Questionado sobre a necessidade de rever o acordo, Ulisses Correia e Silva afastou essa hipótese, defendendo antes um aprofundamento da cooperação. “Esse acordo depois estendeu-se à própria relação com a União Europeia. A relação entre os bancos centrais é muito abrangente no sector económico e financeiro. Agora, na última cimeira, reforçamos com um conjunto de novos acordos”, explicou.

Para o Primeiro-ministro, a relação com Portugal é excelente e com tendência de se reforçar cada vez mais.

Por sua vez, o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno manifestou satisfação com o estado da cooperação financeira entre os dois países.

“Nós temos uma relação de cooperação com o Banco de Cabo Verde única, a mais intensa com qualquer outra instituição, bancos centrais do mundo”, afirmou.

Uma das peças fundamentais dessa cooperação é, segundo Mário Centeno, o acordo cambial, que tem funcionado e que permitiu a ancoragem de muitas variáveis “importantes” para a vida das pessoas, como a inflação, os desequilíbrios externos e a constituição de reservas.

Para o governador do Banco de Portugal, Cabo Verde tem conseguido projectar-se no mundo com elevados níveis de estabilidade.

“Algo que não observamos em muitos sítios”, disse.

Sobre eventuais revisões do acordo, Centeno não identificou necessidades urgentes.

“Claro que estes acordos são sempre possíveis de aprofundar, de melhorar em aspectos que se possam considerar importantes. Neste momento, essa avaliação é feita quase em contínuo e sempre que é necessário acontece, mas eu não acho que tenhamos neste momento uma necessidade de olhar para aspectos muito específicos do acordo”, concluiu. Sheilla Ribeiro – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


São Tomé e Príncipe - Cultura em Risco: O grito de alerta do Presidente da República

O Presidente da República, Carlos Vila Nova lançou o desafio para preservação e promoção da cultura nacional

O chefe de estado fez este lançamento na cerimónia de abertura do mês da cultura nacional quando enfatizava a urgência da preservação do património cultural são-tomense e lançou desafios para um maior compromisso do Estado e da sociedade na valorização da identidade nacional.

Com a presença de altas figuras do Estado, Primeiro-Ministro e membros do Governo, líderes parlamentares e representantes do sector cultural, o Presidente alertou para os riscos de desaparecimento de várias expressões culturais e reforçou a necessidade de acções concretas para a sua revitalização.

Sem rodeios, Carlos Vila Nova denunciou que muitas das manifestações culturais do país estão à beira da extinção. “A cultura é a alma de uma nação. A perda de qualquer um dos nossos elementos culturais não seria apenas uma perda para nós, mas para a humanidade”, declarou.

O Presidente citou exemplos preocupantes de tradições quase desaparecidas, como Lumbu, Alimandade, Soya Kutu Damala e Soya Lombo Kumukantan, assim como danças tradicionais da Ilha do Príncipe, como Toluja e Bêlélé. “Se nada for feito, corremos o risco de apagar séculos de história e identidade”, alertou.

Ao mesmo tempo em que sublinhou a necessidade de preservar a tradição, Carlos Vila Nova destacou o potencial económico da cultura. “Os recursos culturais, quando bem aproveitados, são activos económicos valiosos. Eles nunca foram causa de guerras, mas sim de prosperidade”, sublinhou.

O Chefe de Estado defendeu uma estratégia de promoção cultural que inclua festivais, exposições e intercâmbios, colocando a cultura como peça-chave para impulsionar o turismo. “Temos uma riqueza única que pode diferenciar São Tomé e Príncipe no mapa turístico mundial. Devemos transformar essa riqueza cultural em valor económico e identidade nacional fortalecida”, avançou.

Num tom desafiador, Vila Nova propôs que, por ocasião dos 50 anos da Independência Nacional, o país promova espaços de reflexão sobre a cultura e aproveite o momento histórico para exaltar e resgatar as tradições santomenses. “Este cinquentenário não pode ser apenas uma celebração. Deve ser um compromisso renovado com a nossa identidade e um passo decisivo na valorização da nossa cultura”, concluiu, lançando um repto aos decisores políticos, artistas, comunidades e juventude: “A cultura é um organismo vivo. Cabe-nos garantir que ela não morra, mas floresça e evolua. Se queremos um país com identidade e orgulho das suas raízes, devemos agir agora.”

A solenidade no Pavilhão D. Alda Espírito Santo, do Liceu Nacional, seguiu com apresentações culturais que reforçaram a diversidade e a riqueza da cultura são-tomense, dando o tom do que promete ser um mês de celebração, mas também de reflexão e acção concreta para o futuro cultural do país.

A ministra da Educação, Cultura, Ciências e Ensino Superior, Isabel Abreu, destacou a importância da cultura como pilar da identidade nacional e do desenvolvimento económico de São Tomé e Príncipe.

Diante de um público repleto de autoridades, intelectuais e fazedores da cultura, a ministra exaltou o legado dos grandes vultos santomenses e apontou caminhos para a valorização e dinamização do sector cultural.

A escolha de Abril para esta celebração não foi aleatória, enfatizou Isabel Abreu. O mês é marcado pelo nascimento de figuras emblemáticas, como José de Almada Negreiros, José Viana da Mota, Caetano da Costa Alegre e Alda Espírito Santo, cuja memória será o centro das comemorações deste ano. “Alda Espírito Santo não foi apenas uma poetisa, mas uma guardiã dos valores e da luta do povo santomense. Dedicamos este mês à sua memória e ao seu legado inestimável”, reforçou.

A ministra salientou que a cultura vai além das artes e da literatura, sendo um vector essencial da economia, do turismo e da projecção internacional do arquipélago. “A cultura une, impulsiona o turismo e fortalece a nossa presença no cenário global”, apontou.

Com um tom firme, Isabel Abreu referiu que o 19º governo constitucional tem tomado medidas concretas para fortalecer o sector, desde a actualização da Carta da Política Cultural até a submissão de bens culturais à UNESCO para reconhecimento como Património Mundial.

“Não basta celebrar, precisamos agir. A cultura não pode ser apenas um elemento decorativo do nosso país, mas uma força activa no nosso desenvolvimento”, enfatizou.

A ministra também alertou para a necessidade de preservar as tradições e saberes ancestrais, garantindo que sejam transmitidos às gerações futuras. “Perder um traço da nossa cultura é perder um pedaço da nossa identidade”, frisou.

Entre as iniciativas programadas para este mês, Isabel Abreu anunciou a realização da Primeira Conferência Nacional sobre Alda Espírito Santo, nos dias 29 e 30 de Abril. O evento será um espaço de reflexão sobre o impacto e a influência da poetisa na cultura santomense e africana.

“Acreditamos que esta conferência será um marco na valorização da nossa literatura e um incentivo para as novas gerações a explorarem e preservarem a nossa história”, contou.

Isabel Abreu fez também um apelo para que toda a sociedade se envolva activamente nas actividades do Mês da Cultura. “A cultura não se faz sozinha. Ela precisa de todos nós, do nosso compromisso e do nosso empenho. Que este mês seja um reflexo da nossa diversidade e da nossa força enquanto nação”, concluiu.

A cerimónia de abertura foi marcada por apresentações artísticas e culturais que reforçaram a riqueza e a autenticidade da identidade santomense, dando início a um mês de celebrações e reflexões sobre o futuro cultural do país. Waley Quaresma – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”


França - A "tirania dos juízes"

A França tem também juiz detestado pela extrema-direita tanto quanto o Alexandre de Moraes. Com algumas diferenças: trata-se de uma juíza não da Suprema Corte mas de primeira instância, seu nome Bénédicte de Perthuis, presidenta da 11a.Vara Criminal de Paris. Foi ela quem assinou, junto com a procuradora Luise Neyton e o procurador Nicolas Barret, a condenação da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen.

E aqui surge uma semelhança com o primeiro processo do ex-presidente Jair Bolsonaro: a sentença de condenação de Marine Le Pen inclui uma inelegibilidade por cinco anos que a impede de disputar pela quinta vez a presidência da França. Mas aqui aparece uma diferença: os advogados de Marine Le Pen recorreram, tão logo foi pronunciada a condenação de Marine, e conseguiram, em tempo recorde e um tanto raro, um novo julgamento incluindo a inelegibilidade para junho de 2026.

Caso seja absolvida, nesse segundo julgamento, da acusação de ter utilizado dinheiro público para financiar assistentes fictícios dos nove deputados franceses do Rassemblement National, extrema-direita, no Parlamento Europeu, Marine Le Pen deixará de ser inelegível e ainda haverá tempo para se candidatar e fazer campanha para ocupar o lugar do presidente Emmanuel Macron em maio de 2027. As sondagens lhe são favoráveis e lhe dão 35% de opiniões favoráveis na frente de Jean-Luc Melenchon da França Insubmissa e dos socialistas ainda sem candidato.

Diante da condenação - que inclui quatro meses de prisão, dois em liberdade usando pulseira eletrônica, e multa de cem mil euros - o partido Rassemblement National, ex-Frente Nacional criado pelo extremista de direita Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, reagiu como agem os bolsonaristas brasileiros atacando a Justiça e denunciando a "tirania dos juízes".

Assim como ocorre com o magistrado Alexandre de Moraes do STF, a juíza Bénédicte de Perthuis foi e é alvo de ameaças e insultos pelas redes sociais da Internet. Por medida de segurança, a juíza, que condenou Marine por desvios de fundos da UE, foi colocada sob proteção policial, diante das ameaças de morte a ela dirigidas.

Logo depois de pronunciada sua condenação, Marine Le Pen reforçou a acusação de "tirania dos juízes", lançada por seu partido, com uma mensagem colocada na plataforma X:"dizem ser uma decisão judicial mas é um decisão política!". As ameaças à juíza e os ataques à Justiça obrigaram o alto magistrado francês Rémy Heitz a intervir e denunciar as acusações como "inaceitáveis".

Ainda fazendo lembrar Bolsonaro, o partido RN irá organizar também no próximo domingo uma manifestação pública, num local ainda não divulgado, de apoio a Marine Le Pen e contra a "tirania dos juízes", chamada no Brasil de "ditadura do Judiciário".

Se na França, é a "ditadura do Judiciário" que poderá impedir a chegada ao poder da extrema-direita, assim como no Brasil já impediu a candidatura de Bolsonaro em 2026 com a decretação de sua inelegibilidade, é ainda a chamada "ditadura Judiciária" a responsável, nos Estados Unidos, pela anulação em primeira instância de 57 dos discutíveis decretos do presidente Donald Trump. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quarta-feira, 2 de abril de 2025

Internacional - Estudo publicado na Nature revela impacto oculto das atividades humanas na natureza

Um estudo internacional, em que participam Ruben Heleno e José Miguel Costa, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que a vegetação natural carece muitas vezes de espécies que poderiam estar presentes, especialmente em áreas fortemente afetadas pelas atividades humanas. Esta investigação, liderada pela Universidade de Tartu (Estónia), acaba de ser publicada na prestigiada revista Nature.


 

Mais de duas centenas de cientistas da rede de investigação DarkDivNet estudaram plantas em quase 5500 locais, em 119 regiões à volta do mundo. Em cada local, registaram todas as espécies de plantas e identificaram a chamada “diversidade escura”, isto é, a ausência de espécies nativas. Deste modo os investigadores conseguiram compreender todo o potencial de diversidade vegetal em cada local e medir quanto da diversidade potencial estava realmente presente. Esta abordagem revelou o impacto invisível das atividades humanas na vegetação natural.

Em regiões onde o impacto humano é reduzido, os ecossistemas têm normalmente mais de um terço das espécies potencialmente adequadas, estando outras espécies ausentes principalmente devido a fatores naturais, como a dispersão limitada. Em contrapartida, em regiões fortemente impactadas pelas atividades humanas, os ecossistemas têm apenas uma em cada cinco espécies adequadas. As medições tradicionais da biodiversidade, como a simples contagem do número de espécies, não detetaram este impacto porque a variação natural da biodiversidade entre regiões e ecossistemas escondeu a verdadeira extensão do impacto humano.

Em Portugal, a equipa do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC estudou 34 locais na zona centro do país, a maior parte deles fragmentos florestais com vários tipos de perturbação, desde zonas bem conservadas até antigos campos agrícolas abandonados. As espécies presentes e as suas associações foram depois utilizadas para tentar compreender as espécies em falta num local a Norte de Coimbra, onde o grupo de investigação tem vindo a desenvolver trabalhos há mais de dez anos. 

Tal como em Coimbra, nenhuma das 119 regiões incluídas neste estudo permite obter conclusões relevantes quando analisada de forma isolada. No entanto, quando os investigadores juntaram todos os dados, descobriram que a proporção de espécies “em falta” é muito maior em locais onde a presença humana é mais intensa. Mesmo que esses locais continuem a manter todas as condições para suportar a vegetação natural.

O nível de perturbação humana em cada região foi medido através do Índice de Pegada Humana (Human Footprint Index), que inclui fatores como a densidade populacional humana, mudanças no uso do solo (como o desenvolvimento urbano e a agricultura) e infraestruturas (como estradas e caminhos-de-ferro). O estudo concluiu que a diversidade vegetal num local é influenciada negativamente por este índice e pela maioria dos seus componentes numa área circundante, até centenas de quilómetros de distância. 

«Este resultado é preocupante. Por um lado, mostra que os efeitos das atividades humanas, tais como estradas, deflorestação, poluição, entre outros, se estendem muito para lá dos locais que são normalmente entendidos como estando perturbados. Por outro, mostram, pela primeira vez, que as plantas estão com dificuldades em recolonizar locais que seriam perfeitamente adequados para elas. Este é um sinal de alerta para o papel fundamental dos animais selvagens, nomeadamente através da dispersão de sementes, um serviço que parece estar comprometido com o declínio de muitas populações animais», alerta Ruben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida e investigador do CFE e do Laboratório Associado TERRA. 

O estudo destaca a importância de manter e melhorar a saúde dos ecossistemas (incluindo as plantas e os animais), para além das áreas protegidas. Além disso, o conceito de diversidade escura fornece uma ferramenta prática para identificar espécies que deviam estar presentes num determinado local e, desta forma, acompanhar o progresso na restauração de ecossistemas. Universidade de Coimbra - Portugal


Moçambique, África do Sul e Eswatini traçam estratégias para fortalecer turismo na região

Moçambique, África do Sul e Eswatini procuram fortalecer as estratégias de cooperação regional para a promoção e consolidação da imagem da África Austral.  Os três países juntaram-se, nesta segunda-feira, numa conferência de negócios para discutirem os melhores caminhos para tornar a região como um destino turístico a nível internacional.



Moçambique, África do Sul e Eswatini têm sido um destino turístico preferido no contexto internacional. E é a pensar no fortalecimento do turismo, que o Instituto Nacional do Turismo juntou os três países para se procurarem as melhores saídas para os vários desafios. 

O Instituto Nacional do Turismo considera que os desafios no turismo são comuns, como é o caso da simplificação da travessia nas fronteiras, comercialização da oferta comum, assim como garantir que as comunidades das três regiões beneficiem do crescimento do turismo.  Um dos desafios essenciais prende-se também na protecção do património natural e cultural partilhado. 

O sector privado esteve representado no evento, como um dos braços fortes do Governo na promoção do turismo. O Instituto Nacional do Turismo entende que os Governos podem criar os ambientes favoráveis, mas que o verdadeiro turismo é feito pelo sector privado. 

“Enquanto Governo o nosso papel é incentivar, fomentar, promover e com o vosso apoio criarmos os instrumentos necessários para a vossa actuação e dela, naturalmente, vai resultar nos benefícios colectivos no que respeita à criação de emprego, geração de rendimento e de riqueza”.

Moçambique aproveitou a presença da África do Sul e Eswatini para promover as potencialidades turísticas do país. O encontro enquadra-se no projecto Triland, que visa consolidar a imagem da África Austral através de várias iniciativas. Ibraimo Assamo – Moçambique in “O País”


Angola - António Bambi lança livro de provérbios africanos

“Máximas Africanas e os seus valores pedagógicos e morais” é o título do livro do escritor angolano António Bambi lançado no Centro Cultural Manuel Rui, na província do Huambo, uma obra que revela a riqueza que carrega a filosofia das línguas nativas de interpretação na resolução dos problemas

Com 483 páginas, o livro tem mais de 411 adágios em diferentes línguas bantu e foi editado pela Casa Editora Vieira da Silva, em Portugal. A obra vai ser comercializada ao preço de 16 mil kwanzas.

O também pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia revelou que o livro traz provérbios, que chamam a atenção, educam e dão exemplos práticos sobre a vida na comunidade.

António Bambi refere que os africanos ensinavam os seus filhos através de provérbios, chamados de “alusapo” na língua umbundu, uma prática para a orientação da vida dos mais jovens.

“Nós que crescemos neste sistema de ensino, que muitos caracterizam não formal, nem metodológico, aprendemos com provérbios nos ondjangos, onde o seculo ou sobas passava o adestramento social”, disse.

Ao pôr do sol, todos à volta da fogueira, as mamãs traziam o jantar no odjango, os mais velhos aproveitavam aquele momento para dar instruções e gizar tarefas para o dia seguinte, através dos provérbios que carregavam um grande valor pedagógico e moral. “Estas medidas é que nos guiam desde a antiguidade, até aos dias de hoje”.

“Esta obra literária traz ensinamentos importantes para a vida inteira, tem, igualmente, poesias em umbundu e traz rimas ao estilo africano, como por exemplo, ‘kukwete ombili, kukwata umbili’, entretanto, o ombili é (vontade) e umbili é um rato que fica nas margens dos rios, o que se traduz que, se não tiveres vontade não apanhas o rato. O que revela que em línguas africanas a rima existe”, disse. Adolfo Mundombe – Angola in “Jornal de Angola”