Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Recomeçar

Começar de Novo
Começar de novo e contar comigo
vai valer a pena ter amanhecido
ter me rebelado, ter me debatido
ter me machucado, ter sobrevivido
ter virado a mesa, ter me conhecido
ter virado o barco, ter me socorrido
Começar de novo e só contar comigo
vai valer a pena ter amanhecido
sem as tuas garras sempre tão seguras
sem o teu fantasma, sem tua moldura
sem tuas escoras, sem o teu domínio
sem tuas esporas, sem o teu fascínio
começar de novo e só contar comigo
vai valer a pena já ter te esquecido


Vitor Martins - Brasil

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Eça


               Eça de Queiroz, moralista ou devasso?                                                                
                                                                               I
            Não foram poucos os críticos e leitores menos desatentos que viram em Eça de Queiroz (1845-1900) um misógino de mão cheia. Motivos não faltam ao longo de sua obra e mesmo em sua correspondência com amigos, especialmente com Ramalho Ortigão (1836-1915). De fato, em muitos de seus romances e contos, são freqüentes palavras pouco lisonjeiras que dirige ao sexo feminino. Sem contar que a suas heroínas quase sempre reserva um final trágico, talvez como forma de punição a quem não soubera superar ou controlar os furores do sexo.
            Entender essa alma angustiada que foi o maior romancista do século XIX português foi o objetivo a que se entregou aquele que já pode ser considerado o maior de seus biógrafos, A. Campos Matos, no ensaio Sexo e Sensualidade em Eça de Queiroz, que teve edição de autor em maio de 2012 e segunda edição revista, de 200 exemplares, em julho, com ilustrações do arquiteto Rui Campos Matos, seu filho.
            Moralista, Eça de Queiroz, observa Campos Matos, era um típico representante de uma burguesia rural e de uma cultura pouco evoluída em relação à mulher. Nem poderia ser diferente. Pode-se até dizer que estava em boa companhia. De acordo com essa mentalidade, toda mulher nasceria com o destino marcado: ménagère ou courtisame, ou seja, dona de casa ou cortesã, como dizia ninguém menos que o filósofo Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), que tanto influenciou as ideias anarquistas que não só queriam subverter a ordem burguesa como a ordem falocrática reservando à mulher um papel de proa nas lutas libertárias. Vá entender a alma humana... Campos Matos observa que não só Proudhon e Eça de Queiroz reservavam à mulher o papel de mènagère, mas igualmente pensadores do quilate de Jules Michelet (1798-1874).
            O ensaísta mostra que, apesar do escândalo que algumas cenas de seus romances causaram – o que poderia denunciar uma personalidade iconoclasta e revolucionária nos costumes –, Eça de Queiroz era mesmo um empedernido conservador nas relações familiares. E cita a passagem de uma carta de Emília de Castro Pamplona (1857-1934), sua mulher, em que esta se queixava da indiferença com que o marido a tratava, dizendo-lhe que não era uma analfabeta e que pelo menos merecia receber um exemplar do jornal que ele acabara de fundar.
                                                                             II
            É claro que Eça de Queiroz sempre buscara para si uma mulher de sólidos sentimentos e princípios – que cuidasse dos filhos e da família, mas que não fosse muito além – e, ao que parece, encontrou tudo isso em Emília que era bem mais jovem que o marido. Mas, para Campos Matos, não há razão nenhuma para que, levando-se em conta esse aspecto, seja o escritor considerado um rematado misógino. Pelo contrário.
            Como casou tarde, aos 40 anos de idade, Eça de Queiroz teve affairs com outras mulheres, inclusive com aquela que ficou conhecida como “a bela desconhecida de Angers”, que justificou um livro de José Augusto França. Essa mulher de quem se conhece apenas as seis fotografias que restaram no espólio do escritor terá tido com ele convívio assíduo de 1879 a 1884, período em que o romancista esteve à frente do consulado de Portugal em Bristol, na Inglaterra. Sabe-se também que o romancista manteve relacionamento com duas jovens nos Estados Unidos durante o tempo em que esteve no consulado em Cuba, como mostra a correspondência reunida por Frank F. Sousa em Cartas de Amor de Anna Canover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz, cônsul de Portugal em Havana (Lisboa, Assírio e Alvim, 1998).
            Houve biógrafos, como João Gaspar Simões (1903-1987), que leram além do que estava escrito em livros e atribuíram a Eça de Queiroz freqüência a prostíbulos, mas são inferências que documento algum pode abonar. Em algumas das fotografias que restaram de sua vida, ele aparece ao lado de moças que pelo trajar só poderiam pertencer à alta burguesia. Além disso, diz Campos Matos, não há indícios de que Eça de Queiroz tenha levado uma vida dissoluta, o que se poderia deduzir se houvesse em seu espólio anotações sobre o uso de remédios como mercúrio e copaíba, que, à época, eram receitados para combater doenças venéreas.
                                                                            III
            Para o ensaísta, não há fundamento que possa sustentar a acusação de que Eça de Queiroz teria aversão ou desprezo pelo belo sexo. E que seria descabido suspeitar desse tipo de comportamento a partir do tratamento que o autor dá às mulheres na ficção, ainda que sejam às dezenas em sua obra os maridos, os amantes e os namorados traídos. Até porque aos homens tampouco reserva qualquer condescendência: na maioria, são predadores – todos em busca de experiências sexuais a qualquer custo, como o padre Amaro, que não hesitava em dizer que preferia confessar só as casadas, obviamente com interesses libidinosos. Nenhum deles é atraído pela qualidade da conversação ou pelos bons sentimentos das mulheres, mas por seus atributos físicos, pela voluptuosidade de suas formas ou mesmo por detalhes insinuantes, como um pé à mostra.
            Há também na ficção eciana tipos declaradamente homossexuais, como o Libaninho, de O Crime do Padre Amaro, e António Moreno, a Antoninha Morena, de A Ilustre Casa de Ramirez, mas que são tipos caricatos, que não recebem nenhum tratamento privilegiado do autor. Pelo contrário. O que, no entanto, leva seus biógrafos a imaginar para Eça de Queiroz uma vida libertina, ao menos até os 40 anos de idade, são as descrições de formas heterodoxas de se praticar o sexo em cenas que envolvem Basílio e Luísa, em O Primo Basílio, no “Paraíso”, um terceiro andar enxovalhado e mal cheiroso, que ficava numa correnteza de casas velhas para os lados do bairro de Arroios, em Lisboa.
            Realmente, é difícil imaginar que nunca o autor tivesse tido a ventura de experimentar in loco toda aquela sorte de paixões carnais. E só tivesse conhecido tudo aquilo de ouvir falar ou lido na literatura libertina da época. Seja como for, não há dúvida que o leitor de Eça de Queiroz que adentrar este ensaio de Campos Matos dele sairá com maior conhecimento das relações amorosas na narrativa queiroziana.
                                                                             IV
            Dono de vasta obra sobre a produção queiroziana, na qual se destacam os dois volumes do Dicionário de Eça de Queiroz (Lisboa: Caminho, 2ª ed., 2000) e a Fotobiografia de Eça de Queiroz (Lisboa: Livros Horizonte, 2008), Campos Matos é autor ainda de Eça de Queiroz-Ramalho Ortigão: retrato da “ramalhal” figura (Lisboa: Livros Horizonte, 2009), A guerrilha literária Eça de Queiroz-Camilo Castelo Branco (Lisboa; Parceria A. Maria Pereira, 2008), Eça de Queiroz, uma biografia (Porto: Afrontamento, 2009), Vie et Oeuvre d´Eça de Queiroz (Paris, La Différence, 2010) e Silêncios, sombras e ocultação em Eça de Queiroz (Porto Alegre, Movimento, 2011), entre outros. De 32 livros que publicou desde 1955, apenas cinco fogem à temática queiroziana. Adelto Gonçalves - Brasil
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SEXO E SENSUALIDADE EM EÇA DE QUEIROZ, de A. Campos Matos. Ilustrações de Rui Campos Matos. Lisboa: edição do autor, 62 págs.,2ª edição revista de 200 exemplares, 2012.
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

domingo, 21 de outubro de 2012

Denúncia

“A casa que o general António Indjai começou a construir perto de Mansoa, com os proveitos do narcotráfico, tem agora várias habitações anexas, estando a tornar-se numa grande tabanca, se não mesmo num quartel privado. A grande novidade, é mesmo ter já incluída uma PISTA DE AVIAÇÃO. Assim não há risco de os carregamentos serem subtraídos por um qualquer rival, no aeroporto, em Bissau, nem divididos os seus proventos por quem não se quer. A via é directa… Um escândalo! Nós vimos, e qualquer um pode vê-lo, pois a casa situa-se ao lado da estrada Mansoa-Bambadinca.” Pasmalu - Guiné Bissau

sábado, 20 de outubro de 2012

Benesses

“O Jornal de Angola apresenta, na sua edição do dia 13 de Outubro, pp. 28, uma lista de pessoas que devem comparecer “nas instalações da Delta Imobiliária na Centralidade do Kilamba …”, “ a fim de procederem à assinatura de contratos e recepção dos apartamentos.”

Num sistema de economia de mercado é questionável este tipo de distribuição administrativa, cujos critérios de beneficiação não são explicados a ninguém. Isso em relação a maioria da lista, onde já cansados de tanto espanto em relação a tanta arbitrariedade neste país, lá estão os nomes de alguns “comentadores” de rádio, televisão e “jornais  de Angola” que em pleno dia das eleições continuavam a malhar no diabo da dos galos “sanguinolentos” agora desavindos e do PRS. Desajeitadamente. Sem que ao Tribunal Constitucional (excepto a Dr.ª Imaculada) fosse permitido, sequer, constatar esta irregularidade material descarada entre outras tantas.

Mas o escândalo (seria escândalo em qualquer país, mesmo africano!) é que na longa lista, estão destacados, com um item bem negritado os “Músicos que participaram na campanha eleitoral”. Nem foi preciso dizer campanha de quem. Francamente! Alguém considera isso normal?

Felizmente, a Comunidade Internacional já começa a mostrar sinais de desaprovação desses excessos. O petróleo não é tudo. Sobretudo, é do país e não de quem está hoje no poder.” Marcolino Moco - Angola


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Opinião


“Constituição a pedido”

“O presidente do BPI, Fernando Ulrich, já classificara a decisão do TC que confirmou a inconstitucionalidade dos confiscos dos subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas de "negativa", "perigosa" e "inaceitável". Agora é o presidente do BCP, Nuno Amado, a clamar que foi "uma decisão muitíssimo infeliz".

A banca (falta conhecer a opinião de Ricardo Salgado, do omnipresente BES, para o ramalhete ficar completo) não só tem enormes responsabilidades na crise como tem sido beneficiária da maior parte dos sacrifícios que, a pretexto dela, vêm sendo impostos aos portugueses. Mas a banca quer mais do que o seu financiamento com a "ajuda" que a 'troika' cobra ao país em desemprego, fome e miséria ou do que a destruição do SNS que alimenta os seus negócios na Saúde, a banca quer também uma Constituição "sua", já que a Constituição da República se revela, pelos vistos, "negativa", "perigosa", "inaceitável" e "muitíssimo infeliz" para os seus interesses.

Nem Ulrich nem Amado o escondem: "É premente alguma revisão da Constituição" (Amado), e a decisão do TC pode "justificar a discussão de uma revisão constitucional, o que até seria positivo" (Ulrich).

Numa democracia que cumprisse os serviços mínimos, os desejos de dois banqueiros valeriam apenas dois votos. Não tardará que vejamos quanto valem num regime do género que se lixem as eleições.” Manuel Pina - Portugal In “Jornal de Notícias”

               Em memória de Manuel António Pina (1943 - 2012)


Bôbô-Fôrro

No âmbito da cooperação bilateral o governo de São Tomé e Príncipe recebeu no dia 17 de Outubro de 2012 do seu homólogo japonês quatro novas salas de aula na escola de Bôbô-Fôrro, bem como carteiras e cadeiras que vão apetrechar o novo equipamento. Além deste novo melhoramento, foi construído o muro exterior e pintado todo o edifício, que vem dar outra motivação aos jovens alunos frequentadores desta escola.

A recuperação da escola de Bôbô-Fôrro vem no seguimento da obra já executada na escola de Guadalupe e integra um conjunto de oito projectos que o governo japonês tem planeado executar no protocolo de cooperação com São Tomé e Príncipe.

Esta obra avaliada em cerca de 72 mil euros vem permitir reduzir a lotação das turmas, melhorando a qualidade do ensino, uma aposta do governo santomense, para no futuro ter uma melhor qualificação dos seus jovens. Baía da Lusofonia

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Grande


Prof. Doutor Nuno Grande

“Mas, ontem, dia 10, dormi triste. Ao princípio da noite, tinha lido uma notícia que me abalou. Na página da necrologia do Jornal de Angola estava estampada a notícia da morte, na cidade do Porto, do meu querido professor do Curso Médico-Cirúrgico dos Estudos Gerais Universitários de Angola, o Professor Doutor Nuno Grande.

O Professor Nuno Grande foi um grande referencial para os estudantes de medicina do período colonial. Não só pela sua competência como docente, mas também pela sua valia como médico. Era ainda um grande humanista. Tenho do Professor Doutor Nuno Grande a melhor memória.

Recordo-me bem do dia em que o conheci. Foi o Gigi Mendonça que me levou ao Teatro Anatómico, para eu tomar contacto com o Curso que decidira seguir, logo que acabasse o Liceu. Depois, o Professor Doutor Nuno Grande deu-me aulas de Anatomia Descritiva. O seu Assistente era o Doutor Cadete Leite, de quem também fiquei amigo. Professores de prestígio no meio académico da época. O Doutor Eira Rebelo. O Doutor Sodré Borges. O velho Professor João de Oliveira e Silva (o Bló), e outros.

Fiquei amigo do Professor Doutor Nuno Grande. Partilhávamos a mesmo visão negativa contra o regime colonial e fascista da época. Com o Professor Nuno Grande, no seu gabinete, no Pavilhão de Anatomia, conversei algumas vezes sobre o regime de Salazar, e do fim inelutável que teria. Um regime fora do tempo que era necessário extinguir. Recebi palavras de solidariedade. Manifestou carinho por mim, quando já me encontrava preso, na cadeia de São Paulo, antes de partir para o Tarrafal.

O Professor Nuno Grande era não só um homem de saber, era também um homem de causas. Sempre ao lado das boas causas – até ao fim da sua vida.

Quando regressei do Tarrafal, passados os anos de afastamento, o Professor Nuno Grande recebeu-me novamente no seu gabinete, e pediu-me que retomasse o meu percurso académico. Disse-me que a Faculdade de Medicina me recebia de braços abertos – que eu passara a ser uma referência para aquela geração. Pensei, repensei… Mas eu já não era o mesmo Justino… Achei que o espaço dos hospitais passaria a ser muito restrito para mim. Eu precisava de mais espaço para fazer intervenção social. Não voltei. Mudei de rumo. Mudei de ciência.

O Professor Nuno Grande foi brilhante como estudante e como professor. Fez tudo com média de 19 valores. Mas era simples e de fácil relacionamento. Veio para Angola como Médico militar e notabilizou-se no Curso Médico-Cirúrgico em Luanda. Chegou a ser Vice-Reitor da Universidade de Luanda – sucedâneo dos Estudos Gerais Universitários de Angola. Quando regressou a Portugal, ao seu querido Porto, fundou o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.

O Professor Nuno Grande também se engajou na política, como um dever de cidadania. Foi mandatário da candidatura da Dr.ª Maria de Lourdes Pintassilgo à Presidência da República Portuguesa em 1985. Foi fundador e presidente da Associação de Desenvolvimento Regional e Intervenção Cívica. Teve um grande empenho no movimento pela despenalização do aborto. Ao nível da acção partidária, esteve muito ligado ao Bloco de Esquerda, mobilizando apoios às suas candidaturas.

Recuando agora aos velhos tempos dos Estudos Gerais Universitários de Angola e à Universidade de Luanda, apetece-me dizer que perdi um professor que soube ser solidário e mestre na intervenção social. É verdade, era mesmo Muito Grande o meu Professor Nuno Grande.” Pinto de Andrade - Angola