Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 17 de abril de 2023

Macau - Escola Portuguesa de Macau, 25 anos de um “tremendo sucesso”

Faz amanhã 25 anos desde que foi lançada a primeira pedra da Escola Portuguesa de Macau (EPM). De lá para cá, foram anos de “tremendo sucesso” com cada vez mais qualidade e cada vez mais alunos, aponta José Luís Sales Marques, administrador da Fundação EPM. Manuel Machado, director da instituição de ensino, destaca a importância da EPM enquanto garantia da presença cultural portuguesa na RAEM


Foi a 18 de Abril de 1998 que foi lançada a primeira pedra da Escola Portuguesa de Macau (EPM), herdeira de três instituições de ensino em língua portuguesa: a Escola Primária Oficial, a Escola Comercial e o Liceu de Macau. Faz amanhã, então, 25 anos desde que surgiu a instituição. Por ocasião da cerimónia, estiveram em Macau o então primeiro-ministro português António Guterres e o ministro da Educação da altura, Marçal Grilo, além do governador da região, Vasco Rocha Vieira.

Antes, no dia 9 de Abril de 98, tinha sido criada a Fundação Escola Portuguesa de Macau, resultado da colaboração entre o Estado Português, a Fundação Oriente e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, que cedeu o edifício da Escola Comercial Pedro Nolasco – actualmente extinta – para a instalação da EPM.

No dia 21 de Agosto de 1998, a EPM passou a fazer parte do sistema educativo de Macau como instituição educativa particular sem fins lucrativos, tendo recebido o alvará da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ).

Na altura, a EPM recebeu os alunos provenientes de escolas que foram extintas antes da transferência de soberania de Macau, como a secção portuguesa do Colégio de Santa Rosa de Lima, a Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva (Central), o Colégio D. Bosco, o Liceu de Macau e a Escola Comercial Pedro Nolasco.

25 anos de um “tremendo sucesso”

José Luís Sales Marques, administrador da Fundação EPM, fez, ao Ponto Final, um balanço muito positivo destes 25 anos da instituição, comentando que “a escola tem sido um tremendo sucesso”. “Quando se começou com a escola, havia quem duvidasse da sua capacidade de sobreviver nos primeiros anos da RAEM. Todavia, passados 25 anos, o que a escola neste momento está a enfrentar são exactamente problemas relativos ao seu crescimento”, disse, apontando para a falta de espaço que, nos últimos tempos, a instituição tem sentido. Neste momento, a EPM tem cerca de 700 alunos.

Segundo foi noticiado no passado mês de Março, a EPM poderá ter de rejeitar matrículas das crianças para 2023-2024, uma vez que, segundo indicou na altura Manuel Machado, director da escola, não há capacidade para albergar todos os alunos. Em Setembro, quando começar o novo ano lectivo, a EPM só poderá acrescentar 60 a 70 alunos, o que poderá ser insuficiente para a continuidade das crianças de cinco anos que neste momento frequentam o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes e que poderão querer prosseguir os estudos na EPM. A ampliação da EPM só poderá avançar com o apoio do Governo português, mas o Ministério da Educação de Portugal não dá resposta aos pedidos, atrasando o processo, informou a TDM Rádio Macau.

Em 2019 tinha sido anunciado que a EPM teria um novo polo na Zona A dos Novos Aterros, no entanto, a hipótese caiu por terra no final de 2022. Nessa altura, Sales Marques considerou que seria “completamente irrealista” construir novas instalações para o estabelecimento de ensino, sendo que a intenção actual passa apenas por ampliar as instalações existentes na Avenida do Infante D. Henrique.

Agora, Sales Marques referiu que a procura pelo ensino que é leccionado na EPM leva a que a prioridade da Fundação seja encontrar soluções “que estão a ser estudadas para a ampliação das actuais instalações”.

O número de alunos e o crescente interesse no estabelecimento de ensino é resultado da qualidade do ensino, justificou Sales Marques, notando que a EPM tem estado “muito bem posicionada nos rankings” de ensino. Recorde-se que a EPM tem liderado o ranking de escolas portuguesas no estrangeiro.

Um outro factor que contribui para o sucesso da EPM é, na opinião de Sales Marques, o facto de este ser um estabelecimento de ensino internacional, ainda que não seja considerada uma escola internacional. O administrador da Fundação destaca a composição do corpo docente da instituição, o tipo de ensino que “permite o acesso a qualquer universidade do mundo”, e a própria língua portuguesa, “que tem um elevado estatuto internacional”. Além disso, “o ensino de inglês é de excelente qualidade”.

Há cada vez mais encarregados de educação – dentro e fora do espectro da comunidade portuguesa de Macau – que procura a EPM, apontou Sales Marques, concluindo: “Essa é uma realidade que nos coloca mais desafios, mas são desafios positivos, que vale a pena enfrentar”.

Balanço “bastante positivo”

“O balanço é bastante positivo”, comentou Manuel Machado. Ao Ponto Final, o director da instituição lembrou que, quando começou a funcionar, o estabelecimento propôs-se a “assegurar o ensino do currículo português, em língua portuguesa, aos inúmeros jovens lusos que aqui se encontravam com os seus familiares”.

Notando que, entre 98 e o final da década de 2000 a população discente decresceu na “sequência da ida para Portugal de muitas famílias”, ressalvou que, desde o ano lectivo 2009/2010, “a tendência começou a inverter-se e o número de estudantes, tem vindo a aumentar desde então”. “A alteração do projecto educativo, e do próprio currículo, entre outros factores, contribuíram para um progressivo aumento da procura da escola por parte de alunos e encarregados de educação”, salientou Manuel Machado.

“Como tenho afirmado frequentemente, a EPM tem vindo a ser procurada por jovens de diferentes nacionalidades”, afirmou, contabilizando 20 diferentes nacionalidades entre os alunos matriculados este ano na instituição. “Devemos estar orgulhosos uma vez que esta procura é a prova do reconhecimento da qualidade do serviço educativo oferecido pela EPM. É, pois, o melhor balanço que podemos fazer em vésperas de mais um aniversário desta instituição”, frisou.

Para o director da EPM, a importância da instituição reside em dois vectores: “a continuidade de um ensino de qualidade que permita o prosseguimento de estudos em qualquer universidade portuguesa, mas também internacional, tal como tem vindo a acontecer ao longo dos anos; e assegurar a presença cultural portuguesa na RAEM, contribuindo para manter a secular relação entre os povos português e chinês, entre as suas culturas, com superior respeito e exaltação das mesmas”.

Manuel Machado concluiu apontando que o principal desafio para o futuro é que a EPM continue a manter-se na RAEM “enquanto instituição de ensino de prestígio, merecedora da procura e consideração das diversas comunidades que aqui vivem”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”



sexta-feira, 24 de junho de 2022

O dia em que Macau derrotou uma superpotência mundial foi há 400 anos

Foi há precisamente 400 anos que Macau conseguiu derrotar a Holanda, uma superpotência mundial em ascensão, arruinando o sonho holandês de ter acesso ao mercado do interior da China. O 24 de Junho de 1622 foi um feito de Macau e que merece ser celebrado por toda a comunidade de Macau, defende José Luís Sales Marques


Foi a 24 de Junho de 1622 que Macau conseguiu evitar uma invasão da Holanda. O dia em que uma pequena potência comercial derrotou as forças de uma superpotência mundial aconteceu há precisamente 400 anos. A história e o contexto histórico foram recordados ao Ponto Final por José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau.

Salientando que não é historiador, apenas um interessado pela história de Macau, Sales Marques lembra que, no início do século XVII, Macau era uma pequena potência comercial, com um papel relevante no comércio que se desenvolvia nesta região do globo. “Macau era um ponto central, uma cidade portuária muito importante nas redes de comércio asiático e não só, porque a partir daqui as rotas e mercadorias e especiarias chegavam à Europa e outras partes do mundo”, diz, ressalvando que, pelo contrário, as capacidades de defesa da cidade eram relativamente fracas, havendo apenas um pequeno troço edificado da Fortaleza do Monte.

A Holanda, pelo contrário, começou a escalar o ranking das potências mundiais depois de se ter rebelado contra Espanha. Os espanhóis começaram a cortar o acesso às redes de especiarias que chegavam à Holanda e, em resposta, a República dos Países Baixos foi à procura dessas fontes. Os holandeses fizeram-se ao mar interessados nos produtos e riquezas do Oriente, mas desinteressados em estabelecer territórios ou criar colónias. Pelo caminho, saquearam navios espanhóis e portugueses até que encontraram Macau.

Macau era vista como um ponto de acesso ao mercado do interior da China e, por isso, passou a ser uma prioridade para os holandeses. A Holanda concentrou todos os esforços na tomada de Macau e começaram a tentar entrar no território nos primeiros anos do século XVII, em 1601, 1603, 1604 e 1607 – sempre sem sucesso.

Em 1622 fizeram então uma tentativa real de invasão, mas fracassaram. “Talvez tenha havido uma sobreavaliação das suas próprias forças e uma certa sobranceria relativamente àquilo que seriam as capacidades de defesa de Macau”, nota Sales Marques.

Na altura vivia-se um período de transição na China da Dinastia Ming para a Dinastia Qing e, por isso, uma parte das forças de Macau estava no continente ao serviço da Dinastia Ming. “Havia uma força relativamente pequena de europeus e de locais. Havia poucas centenas de escravos e locais. Havia uma diferença de força e de poder de fogo impossível de comparar”, comenta o antigo presidente do Leal Senado.

A sobranceria terá sido tal que os holandeses rejeitaram o apoio de Inglaterra, com quem tinham uma aliança. Havia dois barcos ingleses acostados ao largo de Macau cujo auxílio foi dispensado por parte das forças holandesas. “Não queriam dividir o espólio do saque”, justifica Sales Marques.

“Havia uma desproporção enorme de forças e apesar de tudo foram derrotados”, assinala, frisando que “esta foi a maior derrota dos holandeses no extremo oriente”. A derrota na batalha de Macau, contra todas as expectativas, teve o condão de lhes tirar a possibilidade de entrarem no continente chinês.

O sonho holandês de aceder ao mercado da China esbarrou em Macau.  “Eles conseguiram depois instalarem-se na Ilha Formosa, durante uns tempos, mas nunca conseguiram pôr os pés em Macau, mesmo neste período de grande ascensão da Holanda como primeira potência mundial”, frisa.

O 24 de junho, 400 anos depois

Este foi, na opinião de José Luís Sales Marques, não apenas um feito dos portugueses, mas sim um “feito de Macau”. Estará a comunidade chinesa alheada deste feito? “Nós se calhar nunca nos preocupámos em explicar isso devidamente”, diz Sales Marques, acrescentando que “as celebrações estiveram sempre ligadas a uma presença institucional portuguesa”.

Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam recordar com mais interesse a data, o presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau diz não saber o que é que as autoridades pensam. “Ou se calhar nem pensam porque para eles pode ser já uma coisa do passado”, diz. No entanto, nota que tem havido um interesse acrescido da parte de associações chinesas que se têm associado às celebrações do 400.º aniversário da data: “Eles realmente estão a procurar divulgar a verdadeira história e aquilo que se passou despido de preconceitos”.

O Arraial de São João, que habitualmente serve também para comemorar o 24 de Junho, não se realiza há três anos consecutivos. “O Arraial de São João começou a ser uma coisa popular e uma parte da população chinesa frequentava com todo o gosto. Este era um dia que era para ser celebrado pela cidade, por todas as comunidades de Macau”, lembra.

Este ano, as comemorações deste marco histórico também foram canceladas devido ao surto de Covid-19 em Macau. Poderá a data vir a esquecer-se no seio da comunidade? “Espero que não”, responde Sales Marques, concluindo: “Espero que, com a adesão dos jovens chineses que estão ligados a associações que querem conhecer melhor a história de Macau, se compreenda melhor as características e importância dessa data”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”