Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Whisner Fraga: contos perpassados por sentimento de revolta

                                                                    I

Depois de lançar, em 2020, O que devíamos ter feito, contos (Editora Patuá), o romancista, contista, poeta e crítico literário Whisner Fraga (1971) chega ao seu décimo-segundo livro com Usufruto de demônios (Ofícios Terrestres Edições, 2022), em que se mantém fiel ao gênero, depois de experiências bem-sucedidas em outras modalidades textuais.

A obra, composta por 64 narrativas curtas, a maioria com menos de uma página, todas escritas em letra minúscula, mas com uma linguagem sensível e poética, é uma das primeiras a ter como pano de fundo o trágico período da pandemia de coronavírus (covid-19) em que estão presentes “o horror, o negacionismo, o isolamento social e a perplexidade ante o cinismo fascista”, como observa o poeta, professor e crítico literário Gabriel Morais Medeiros, mestre em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no posfácio que escreveu para este livro.

Como já ressaltou o jornalista e escritor Hugo Almeida, nesta coletânea, “atravessa os contos um sopro de revolta, por vezes recheada de candura”, mas sem deixar de manifestar o inconformismo diante da indiferença e do deboche dirigido aos mortos pelas autoridades da época, especialmente o principal mandatário, que sempre ficou indiferente ao genocídio que ocorria com a proliferação da peste e a falta de vacinas e pronto-atendimento às vítimas, como se lê na narrativa que leva por título “ele acompanha aviões”:

“(...) é como se setecentas mil pessoas tivessem sido apagadas – e se fossem vinte boeing deletados de suas rotas, em um único dia?, cadentes, se tornassem quebra-cabeças em pastos?, será que assim eles se comoveriam?”

 

                                                                    II

O fantasma da pandemia, porém, não percorre todas narrativas, limitando-se às três primeiras. Nas demais, o que se pode observar é a desesperança da velhice, o desespero diante da possibilidade de se morrer diante de um moleque que na rua agita um revólver, exigindo do passante a entrega do dinheiro, do celular e do relógio, o drama do morador de rua que “garimpa algumas moedas no semáforo e logo as troca por pinga” ou ainda a decepção sentida por uma jovem autora diante da má vontade com que teria sido recebida sua obra por resenhistas desde o primeiro livro:

          “(...) eles são assim, leem a primeira página, lambiscam resenhas chinfrins e se vendem por essas trivialidades (...)”.

 Na maioria das narrativas, o que se observa é o recurso ao monólogo interior ou ao fluxo de consciência, como se o narrador desfiasse um novelo da memória ou tecesse os acontecimentos de forma extrospectiva, ainda que mergulhado na introspecção e sem perder a cadência da prosa poética.

Alguns contos são datados, ou seja, é possível localizá-los em 2014, época da realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, em que praticamente teve início a orquestração por meio das redes sociais dos protestos contra a presidente eleita que funcionaram como uma preparação para o golpe parlamentar de 2016 que redundaria na eleição de um candidato de orientação nazifascista.

Outros contos não deixam de funcionar como crítica à mentalidade fascista que parece insuflada por algumas empresas privadas preocupadas em manter a maioria da população à beira da miséria absoluta ou mesmo condenada ao desaparecimento, como no caso da política desencadeada contra remanescentes indígenas. Ou ainda contra a mentalidade nefasta de arquitetos que não se recusam a imaginar meios de produzir uma arquitetura hostil, que procura dificultar a vida dos moradores de rua.

Enfim, são contos perpassados por um sentimento de revolta que se justifica diante de um futuro que se projetava cada vez mais tenebroso. E ainda parece ameaçador.

 

                                                                   III

Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, Whisner Fraga é formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia. Em Engenharia Mecânica, fez também mestrado na mesma universidade e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Mas, atraído pelas Letras, curso que iniciou, mas não concluiu, ainda durante o mestrado, publicou o livro de contos Seres e sombras (edição de autor, 1997). Durante o doutoramento, publicou o seu segundo livro de contos, Coreografia dos danados (Edições Galo Branco, 2002), título inspirado em verso de Augusto dos Anjos (1884-1914). Concluiu o doutoramento em 2003 e, desde então, prestou concurso para a docência e vem lecionando para jovens e adultos. Ao mesmo tempo, atua como crítico literário em jornais impressos e sites dedicados à literatura. Também resenha obras de literatura contemporânea no canal Acontece nos Livros, no YouTube.

É autor ainda de A cidade devolvida, contos (Editora 7 Letras, 2005); As espirais de outubro, romance (Nankin, 2007), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Abismo poente, romance (Ficções Editora, 2009), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; O livro da carne, poemas (Editora 7 Letras, 2010); Sol entre noites, romance (Ficções Editora, 2011), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Lúcifer e outros subprodutos do medo, contos (Editora Penalux, 2015), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; A verdade é apenas uma versão dos fatos (Editora Penalux, 2017); e  O privilégio dos mortos, romance (Editora Patuá, 2019);

Participou de antologias como Os cem menores contos brasileiros do século (Editora Ateliê, 2018), organizada por Marcelino Freire; e Geração zero zero: fricções em rede (Editora Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, alemão e árabe e publicados em antologias. Adelto Gonçalves - Brasil

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Usufruto de demônios, de Whisner Fraga, com posfácio de Gabriel Morais Medeiros. Campinas-SP: Ofícios Terrestres Edições, 86 páginas, R$ 50,00, 2022. Site: www.oficiosterrestres.com.br  E-mail: oficiosterrestreseditora@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




quarta-feira, 17 de agosto de 2022

“Usufruto de demônios”, a lapidação da dor

Nos anos 1970/80, o escritor Ricardo Ramos (1929-1992) era considerado nos meios literários o maior conhecedor do conto brasileiro contemporâneo. Como sempre houve, hoje existem vários grandes leitores de contos de autores nacionais. Entre os primeiros está Whisner Fraga (Ituiutaba-MG, 1971; vive em São Paulo), também um grande contista, a exemplo do filho de Graciliano Ramos (1892-1953). Desde que criou o canal Acontece nos Livros, no YouTube, há seis anos, Whisner já comentou cerca de 200 obras de ficção, a maioria contos de escritores brasileiros, principalmente publicados por pequenas editoras. Whisner acaba de lançar o seu 12º livro, Usufruto de demônios (Ofícios Terrestres Edições), volume de minicontos, alguns editados em vídeos no YouTube. Em 2020, ele havia lançado O que devíamos ter feito (Patuá), contos originais, poéticos e por vezes cruéis. Na nova coletânea, prevalecem o tom e o tema da dor, como da pandemia da Covid-19, mas agora ainda mais incisivos, em narrativas lapidadas, concisas. Atravessa os contos um sopro de revolta, por vezes recheada de candura.

“É um livro que insiste, que continua a insistir no dizer do colapso, persiste em manter em evidência aquilo que ainda não passou: seja a devastação biológica, sejam suas consequências econômicas, subjetivas e sociais”, escreve no posfácio o editor Gabriel Morais Medeiros. Mas não se trata de uma literatura panfletária, acrescenta, “e por isso, sempre sedutora”. De fato, são contos de palavras medidas, enxutas, cortantes, como as dez linhas de “a quina do equilíbrio”, talvez o melhor conto do volume. Um texto afiado de dor e doação extrema de pai a filho, fatias de desespero e amor.

Do mesmo nível, “nossa terra” (o sorriso, o “temor” e o “arrebatamento” de uma criança diante dos primeiros mistérios da vida). Há várias outras histórias dolorosas em que narrador, personagens e leitor enfrentam de mãos dadas medo, dor, susto, ansiedade, pânico, tudo desfrutado por demônios. Esse clima prevalece em quase todos os 70 textos do volume, a maioria com menos de uma página, muitos com poucas linhas, esmeradas linhas. Alguns das dezenas de textos maiúsculos do livro (curioso: o autor não use letras maiúsculas), sempre com títulos instigantes: “cuidado com o embrulho na calçada”, “a dor”, “surpresa”, “rodoviária”, “embuste”, “eclosão”, “profilaxia de muros”, “germinação”, “a decomposição do aço”, “todo sinal”, “a menina que ri”, “duelo”, “a guerra nas unhas do abismo”, “onde estará o pai?”, “dois profissionais não se amam”, “ela está no quarto”. Etc. etc.

De certa forma, e ressalvada a diferença entre os gêneros poesia e conto, vale para as narrativas de Usufruto de demônios o que Mário de Andrade (1893-1945) escreveu sobre o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) no artigo “A raposa e o tostão”, de O empalhador de passarinho (Livraria Martins Editora, 2ª edição, 1955): “[...] um escritor culto, um esteta, que sabe o dinamismo de um ritmo, o segredo de adequação de uma forma ao seu conteúdo, o valor da expressão linguística exata, e o perigo de uma palavra em falso, capaz de sacrificar uma mensagem”. Whisner Fraga adota esse cuidado desde o título da coletânea.

O escritor detalha em vídeo no Acontece nos livros o sinuoso e consciente percurso da definição do título Usufruto de demônios. Didático, em linguagem simples, Whisner como que orienta novos autores e candidatos à carreira literária. Ao usar a preposição de, em vez de dos, ele parece ter preferido não destacar o sutil “segredo de adequação” citado por Mário de Andrade. O genérico “de” exclui o sentido digamos religioso de “demônios”, que nos contos não são os capetas do inferno além-túmulo ainda pregados por certas crenças, mas os transformam em símbolo, em metáfora de tudo e todos que infernizam a vida na Terra. Como esse novo volume de contos, de dor cristalizada, lapidada, Whisner Fraga segue em trajetória ascendente. Hugo Almeida - Brasil


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Whisner Fraga é autor, entre outros livros, dos romances As espirais de outubro (Nankin, 2007) e O privilégio dos mortos (Patuá, 2019), dos contos Abismo poente (Ficções, 2009), Lúcifer e outros subprodutos do medo (Penalux, 2017), O que devíamos ter feito (Patuá, 2020). Participa das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, (Ateliê Editorial, 2018), organização de Marcelino Freire, e Geração zero zero (Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira, que mapeou os melhores escritores brasileiros surgidos no início deste século. Whisner tem textos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Engenheiro mecânico com doutorado pela USP, é professor titular do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.

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Hugo Almeida (1952), mineiro residente em São Paulo desde 1984, é autor de mais de dez livros de ficção, entre eles o romance Mil corações solitários, Prêmio Bienal Nestlé-1988, que teve três edições pela Scipione, o infantojuvenil Viagem à Lua de canoa (PNBE-2011), lançado pela Nankin em 2010, e os contos Certos casais (Laranja Original, 2021). Tem inédito o romance Vale das ameixas. Organizou as coletâneas de contos Nove, novena: variações (Olho d’Água, 2016) e Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020), selecionado pelo PNLD de 2021. Jornalista pela UFMG e doutor em Literatura Brasileira pela USP, Almeida organizou Osman Lins: o sopro na argila (Nankin, 2004), que reúne ensaios de dezoito osmanianos, como Modesto Carone e Sandra Nitrini.