Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 9 de agosto de 2026

A baronesa do Forte Coimbra

Minha filha, Letícia, questionou-me o porquê de somente ela ter sido registrada com um dos sobrenomes da família de seu pai, o Portocarrero. É mesmo belo esse Portocarrero de origem espanhola, ligado às regiões de Castela e da Estremadura. Significa algo como “porto”: passagem e “carrero”: carreiro, caminho de carros. As rodas das carroças sulcando as antigas estradas ibéricas.


Em Mato Grosso do Sul, Portocarrero lembra um episódio da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da América Latina. O Paraguai se opôs à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, num confronto mortífero, de dor e destruição. Combates, fome, doenças. Países esgotados espiritual e financeiramente. Esse foi o saldo da cruenta guerra.

O tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero (1818-1893) foi enviado para inspecionar o Forte Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, município de Corumbá. Esse forte foi construído em 1775, no período colonial, pelos portugueses, para proteger a fronteira oeste e controlar a navegação. Todo branco, imponente, cercado por grossas muralhas, onde pousam garças e tuiuiús. Dos mirantes avista-se a paisagem pantaneira. As ilhas de camalotes com flores roxas que descem o rio. É patrimônio histórico e destino turístico.

Era o princípio da guerra. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864, surgiu a poderosa esquadra do coronel paraguaio, Vicente Bárrios: 11 navios de guerra, 29 peças de artilharia, 3200 homens. No forte, a guarnição brasileira possuía dois canhões, 250 pessoas, entre elas, 115 soldados e civis, 70 mulheres, crianças e 10 indígenas guaicurus. Portocarrero assume a defesa. Quando recebeu um ultimato para render o forte, recusou-se a capitular e declarou que resistiria “até o último cartucho”. Seguiram-se dois dias de intenso bombardeio. Foi nesse momento que se levantou a liderança de sua esposa, a uruguaiana Ludovina Portocarrero (1825-1912). Ludovina organizou parte das mulheres para fabricarem buchas de munição com pedaços de suas saias. Algumas cozinhavam. Outras escalavam na escuridão da noite as íngremes barrancas para buscar água em latas. Outras ainda prestavam assistência aos feridos. Nenhuma gritava. Nenhuma chorava. Mantinham, firmes, o moral dos soldados. Entre as heroínas, a maioria anônimas, destacaram-se duas mulheres do povo, as negras Aninha Cangalha e Maria Fuzil.

Ludovina, cheia de fé (e a fé move os obstáculos), retirou a faixa de comandante do uniforme do marido e a colocou aos pés da imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do forte. Confiou simbolicamente o governo daquelas vidas a algo sobrenatural, extraordinário. Depois, deu ordem ao soldado músico, o Verdeixas, para subir no ponto mais alto da muralha e mostrar a imagem. O gesto abalou a sensibilidade religiosa dos paraguaios. Todos aplaudiam, deliravam, bradavam vivas. Uma verdadeira comoção. Enquanto isso, a população de Corumbá, em pânico, fugia pelas matas. Muitos foram massacrados. Portocarrero ordena a retirada durante a noite, numa embarcação chamada “Amambaí”. Ninguém ficou para trás. O barco não fez barulho, não soltou faíscas, não bateu remos nas pedras. Envolto na bruma, sumiu na correnteza do rio.

Anos mais tarde, Ludovina e Portocarrero receberam das mãos de Dom Pedro II os títulos de Barão e Baronesa do Forte Coimbra. Era 1889, final melancólico do império. Ludovina ficou viúva aos 68 anos. Perdeu oito de seus 15 filhos. Mergulhou em sua digna velhice. Faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.

Descendente direta do casal foi Tônia Carrero (1922-2018), Maria Antonieta Portocarrero Thedim, a sedutora atriz, filha do neto, general Hermenegildo Portocarrero e de Dona Zilda. A estrela de tantos filmes, peças teatrais e novelas. Mais de seis décadas de dedicação à dramaturgia. Morreu de hidrocefalia, aos 95 anos, cercada por filho e netos. Seu brilho permanece. Era azul, divino, de diva.

Por que coloquei o sobrenome Portocarrero em você, filha? Tornei-a LP, Letícia Portocarrero, como era ela, Ludovina Portocarrero. O anagrama LP bordado no linho do enxoval que se encontra até hoje no Forte Coimbra. Uma coincidência? Um chamado? Uma sugestão? Um augúrio? Um legado? Não sei, mas desejo que você tenha a mesma coragem dela para enfrentar as guerras. Raquel Naveira – Brasil in “saojoaodel-rei.blogspot”

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Raquel Naveira (1957), nascida em Campo Grande, formada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (1976), em sua cidade natal, é mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2001), de São Paulo. Graduou-se em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy (1981), da França, e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (1994), onde deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa por 19 anos e aposentou-se.

Residiu no Rio de Janeiro, onde lecionou na Universidade Santa Úrsula e, em São Bernardo do Campo-SP, na Faculdade Anchieta. Deu também aulas na pós-graduação da Universidade Nove de Julho (Uninove), de Comunicação Aplicada na Faculdade de Tecnologia em Hotelaria, Gastronomia e Turismo (Hotec) e na pós-graduação da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Ministrou palestras e cursos em escolas e em várias instituições culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida e Casa Mário de Andrade, em São Paulo. Na Academia Paulista de Letras, participou do Ciclo de Memória da Literatura, discorrendo sobre o trabalho das romancistas Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989) e Stella Carr (1932-2008).

É autora de mais de 40 títulos de poesia, crônicas, ensaios e romances, entre eles: Abadia, poemas (Editora Imago,1996), e Casa de Tecla, poemas, obra indicada ao Prêmio Jabuti de Poesia, pela Câmara Brasileira do Livro. Escreveu o livro infanto-juvenil Pele de Jambo (1996) e o de ensaios Fiandeira (1992).

Publicou os romanceiros Guerra entre irmãos (1993), poemas inspirados na Guerra do Paraguai (1864-1870), e Caraguatá (1996), inspirados na Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, a partir de luta entre posseiros e pequenos proprietários pela posse de um território, livro que inspirou o filme de curta-metragem Cobrindo o Céu de Sombra, monólogo com a atriz Christiane Tricerri.

É autora também de: Via Sacra (1989); Fonte Luminosa (1990); Nunca-Te-Vi (1991); Sob os Cedros do Senhor (1994); Canção dos Mistérios (1994); Mulher Samaritana (1996); Maria Madalena (1996); O Arado e a Estrela (1997); Rute e a Sogra Noemi (1997); Intimidades Transvistas (1997); e Senhora (1999), que recebeu o prêmio Jorge de Lima-Brasil 500 anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e pela União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro, em 2000.

Publicou ainda: Stella Maia e Outros Poemas (2001); Xilogravuras (2001); Maria Egipcíaca (2002); Casa e Castelo (2002); Tecelã de Tramasensaios sobre interdisciplinaridade (2005); Portão de Ferro (2006); Literatura e Drogase outros ensaios (2007); Guto e os Bichinhos (2012); Sangue Português (2012); Álbuns de Lusitânia (2012); e Jardim Fechadouma antologia poética (2016), livro comemorativo dos seus 30 anos de carreira literária, entre outros.

Em 2002, lançou o CD Fiandeiras do Pantanal, em que declama seus poemas, acompanhada por craviola e pela voz da cantora Tetê Espíndola. Fiandeira foi indicado como leitura obrigatória do vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Este livro e mais Jardim Fechado: uma antologia poética foram eleitos como os representativos de Mato Grosso do Sul pelo portal G1.

Nos últimos tempos, lançou Leque Aberto (2020), Romanceiro de Cabeza de Vaca: o andarilho das Américas (2020) e Manacá (2021), crônicas em que mescla em prosa poética tradição e modernidade. Em 2022, publicou No Mundo Encantado de Luciana, infanto-juvenil e, em 2023, Mundo Guaranifragmentos de uma alma da fronteira, obra de memória que está entre a crônica, a novela e o romance e obteve o Prêmio João do Rio, da UBE, do Rio de Janeiro, narrativa que traz à tona o universo da fronteira entre o Brasil e o Paraguai, em que recupera suas vivências com a herança indígena ainda extremante forte na cidade de Bela Vista, na fronteira com o Paraguai, à beira do rio Apa.

Em 2024, lançou Ponto de Fuga & Outros Poemas (São Paulo, Inmensa Editorial), coletânea de poemas originalmente publicados em dez de seus livros, que reúne também peças inéditas, os chamados poemas “vegetais”, gênero que, aliás, já estava presente em obras anteriores.

Pertence à Academia Sul-mato-grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras, de São Paulo, à Academia de Letras do Brasil, de Brasília, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil. Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado-MS, Jornal de Letras-RJ, Linguagem Viva-SP, Jornal da ANE-DF e O Trem-MG, entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Brasil - Adere à Convenção de transportes rodoviários e impulsiona Corredor Bioceânico

Acordo da ONU entra em vigor no país em 30 de julho deste ano e deverá reduzir tempos e custos no movimento transfronteiriço de mercadorias. A adesão do Brasil foi descrita como um sinal da relevância global do tratado


A adesão do Brasil à Convenção Aduaneira sobre o Transporte Internacional de Mercadorias ao Abrigo de Cadernetas, TIR, foi administrada pela Comissão Económica da ONU para a Europa, UNECE.

Este marco foi anunciado como um passo central para reforçar a integração aduaneira e o comércio regional na América do Sul. O tratado entrará oficialmente em vigor no Brasil em 30 de julho de 2026.

Corredor Bioceânico liga Pacífico e Atlântico

Com esta adesão, o Brasil junta-se à Argentina, ao Chile e ao Uruguai, tornando-se o 79.º Estado Parte a nível mundial no acordo da ONU que foi concebido para acelerar o transporte internacional de mercadorias e reduzir custos nas fronteiras.

Segundo dados apresentados, o sistema pode reduzir os tempos de transporte transfronteiriço em até 92% e os custos em até 50%.

A adesão ocorre num momento em que Argentina, Brasil, Chile e Paraguai trabalham para melhorar as condições de trânsito seguro e eficiente de mercadorias ao longo da chamada Rota Bioceânica.

O corredor rodoviário de 2396 quilômetros conecta os portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, ao porto de Santos, no Brasil, passando por Paraguai e Argentina.

O porto de Santos, localizado próximo de São Paulo, foi destacado como o mais movimentado da América Latina, responsável por quase 30% do comércio externo brasileiro, avaliado em US$ 629 mil milhões.

As estimativas indicam que o Corredor Bioceânico poderá transportar mais de 8,6 milhões de toneladas de produtos por ano. Estima-se que o impacto económico supere US$ 3 mil milhões em setores produtivos estratégicos, incluindo agricultura, celulose, indústria de carnes e mineração.

Redução de custos e tempo pode fortalecer competitividade regional

De acordo com as projeções apresentadas, o reforço da conectividade ao longo do corredor deverá reduzir os custos de transporte de carga em 30% a 40% e encurtar os prazos de envio em até 15 dias.

A adesão do Brasil à Convenção TIR foi também associada ao contexto recente de assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, bloco composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Em comunicado, a secretária executiva da UNECE, Tatiana Molcean, afirmou que “a adesão do Brasil à Convenção TIR trará múltiplos benefícios”.

A representante acrescenta que, além de fortalecer a integração aduaneira e comercial regional, a medida deverá “impulsionar o desenvolvimento global e a competitividade internacional das economias sul-americanas”.

Sistema eTIR simplifica procedimentos aduaneiros

A Convenção TIR estabelece um sistema global de trânsito aduaneiro para transporte rodoviário e multimodal de mercadorias, baseado em procedimentos padronizados e mecanismos de segurança.

A UNECE destaca ainda a implementação do sistema eletrónico eTIR, que elimina a necessidade de cadernetas físicas e reduz a burocracia associada ao transporte internacional.

Segundo a UNECE, a digitalização pode diminuir os tempos de espera e as filas nas fronteiras, reduzindo também o impacto logístico e operacional do transporte.

A adesão do Brasil foi descrita como um sinal da relevância global do tratado para criar oportunidades de conectividade e desenvolvimento económico através de mecanismos multilaterais. ONU News – Nações Unidas


quinta-feira, 18 de julho de 2024

Moçambique - Quadros de Fauziya Fliege nos melhores museus da América Latina

A artista plástica moçambicana Fauziya Fliege entra nas colecções dos museus da América Latina, depois de uma intensa temporada de exposições na Costa Rica. As suas obras vão fazer parte das colecções dos melhores museus da América Latina, a começar pelo Museu de Cartago (Costa Rica), o Museu de Afrodescendente da Nicarágua e o Museu do Paraguai.


Tanto no Museu de Cartago como no Museu de Afrodescendente, as obras de Fliege serão recebidas por entidades locais, em cerimónias públicas que contarão com outras personalidades de relevo em diplomacia cultural.

Fauziya Fliege estampa, assim, nos três museus, a herança africana, uma temática predominante na sua criação. A primeira obra, para o Museu de Cartago, ilustra uma mulher com um balde na cabeça, uma caracterização do esforço diário da mulher africana para o sustento do seu lar. A segunda obra, enviada para Nicarágua, fala da dança africana que, mais do que para entretenimento e recriação, a dança é usada para actos de exorcismos, em cerimónias tradicionais de libertação dos maus espíritos e pretexto para o encontro da paz interior.

“Como artista africana, é uma honra por ser, possivelmente, a única artista moçambicana e africana, para além de feminina, a expor num museu em Costa Rica, por isso é uma honra”, destaca Fliege, acrescentando que “não quero me focar apenas na venda de obras, mas também em fazer a minha história, divulgando a nossa cultura, mostrando um pouco de nós, do continente e, claro, do orgulho que tenho do meu país, mas eu também quero que as pessoas tenham conhecimento que eu como artista moçambicana quero mostrar muito da minha cultura”.

Com passagens em vários países africanos, Fliege destaca a necessidade de transportar para as telas vivências e histórias de África e mostrar ao mundo a rica cultura africana. “O facto de alguém ir a uma exposição num desses museus e encontrar obra de uma artista africana e especialmente de Moçambique será um orgulho para o país e para todo o continente”, sublinha.

Fuziya Fliege é uma artista reconhecida na Costa Rica, não só pela sua criação estética, mas também pela sua mão solidária, tendo doado as suas obras para várias organizações naquele país onde se encontra radicada, bem como pela sua participação em iniciativas sociais. José dos Remédios – Moçambique in “O País”




quarta-feira, 3 de abril de 2024

Brasil - Concentra 83% dos casos de dengue nas Américas

Região é foco de preocupação da Organização Pan-Americana da Saúde, pois o número de casos registados até o final de março é três vezes maior que no mesmo período do ano anterior. Factores como aumento da temperatura, o fenómeno El Niño e a rápida urbanização contribuem para a disseminação da doença


A Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, alertou para o aumento de casos de dengue nas Américas. Até 26 de março deste ano, mais de 3,5 milhões de infecções e mais de mil mortes foram relatadas na região.

O diretor da Opas, Jarbas Barbosa, afirmou que "isso é motivo de preocupação, pois representa três vezes mais casos do que os registados no mesmo período de 2023, um ano recorde com mais de 4,5 milhões de casos registados na região". 

Casos espalham-se de forma preocupante

A dengue está em alta em toda a América Latina e Caribe, porém, os países mais atingidos são o Brasil, com 83% dos casos, Paraguai com 5,3% e Argentina com 3,7%. Estas três nações concentram 92% dos casos e 87% das mortes.

Este aumento é atribuído à maior estação de transmissão no hemisfério sul, quando o mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, prospera devido ao clima quente e chuvoso.

No entanto, Barbosa alertou que também há “um aumento de casos em países como Barbados, Costa Rica, Guadalupe, Guatemala, Martinica e México, onde a transmissão costuma ser maior no segundo semestre".

O diretor da Opas também observou a presença do mosquito vetor e casos em novas áreas geográficas, levantando preocupações de que alguns países podem não estar preparados para enfrentar um aumento na transmissão.

Eventos climáticos extremos e urbanização

Vários factores ambientais e sociais contribuem para a disseminação da dengue, incluindo o aumento das temperaturas, eventos climáticos extremos e o fenómeno El Niño.

O rápido crescimento populacional e a urbanização não planeada também desempenham um papel crucial, pois as condições precárias de habitação e serviços inadequados de água e saneamento geram criadouros do mosquito por meio de objetos descartados que podem coletar água.

A Opas mantém uma vigilância rigorosa da dengue na região e emitiu nove alertas epidemiológicos nos últimos 12 meses, fornecendo orientações essenciais aos Estados-Membros sobre prevenção e controle da enfermidade.

A presença dos quatro sorotipos da dengue na região aumenta o risco de epidemias e formas graves da doença. A circulação simultânea de dois ou mais sorotipos de dengue foi observada em 21 países e territórios das Américas.

Letalidade estável

Barbosa enfatizou a importância de ações imediatas para prevenir e controlar a transmissão da dengue e evitar mortes, destacando que "apesar do aumento recorde de casos em 2023, a taxa de letalidade da dengue na região permaneceu abaixo de 0,05%". Ele observou que o facto "é muito encorajador, considerando os picos de casos desde então".

Esta conquista foi possível graças ao apoio da Opas aos países desde 2010 por meio de uma estratégia abrangente de controlo da dengue e de outras doenças transmitidas por mosquitos. Essa atuação inclui o fortalecimento da vigilância, do diagnóstico precoce e do tratamento oportuno, e tem contribuído significativamente para salvar milhares de vidas.

O diretor da Opas pediu esforços intensificados para eliminar os criadouros do mosquito, aumentar a preparação nos serviços de saúde para o diagnóstico precoce e manejo clínico oportuno. Outro ponto destacado por ele foi o trabalho contínuo para educar a população sobre os sintomas da dengue e sobre quando procurar atendimento médico imediato.

Segundo Barbosa, "enfrentar o problema da dengue é uma tarefa de todos os sectores da sociedade". ONU News – Nações Unidas


domingo, 30 de abril de 2023

Brasil - A megaestrada que ligará o país ao Chile cruzando o ‘inferno verde’ no Paraguai

“É um novo Canal do Panamá”. É assim que Egon Neufeld descreve o corredor bioceânico, um gigantesco projeto de infraestrutura que tentará ligar a costa do Oceano Pacífico no Chile com a costa atlântica no Brasil

Neufeld, um rico proprietário de vastas terras no Paraguai, diz que a rodovia – que terá cerca de 2200 quilómetros e cortará Argentina, Brasil, Chile e Paraguai – facilitará a vida dos fazendeiros e camponeses da região no transporte de gado e na exportação de produtos de exportação aos portos que estão no Atlântico e no Pacífico.

Os governos de cada um dos países envolvidos no projeto manifestaram apoio, mas o presidente paraguaio, Mario Abdo, foi um de seus principais impulsores. Cada país tem a responsabilidade de cumprir alguns trechos e prazos, porém não está claro qual é o prazo final para a conclusão do projeto.

Cerca de 525 quilómetros dessa nova rodovia passam pela região conhecida como Gran Chaco, uma das principais reservas ambientais do país, povoada por cerrados e zonas húmidas.

É o lar de onças, onças-pardas, tamanduás e milhares de espécies de plantas, um dos lugares de maior biodiversidade do planeta. Estima-se que a rodovia terá cerca de 2200 quilómetros de extensão e o custo aproximado do investimento total é de US$ 10 mil milhões. In “Milénio Stadium” – Canadá com “G1”

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Mercosul: a hora da virada

São Paulo – A nomeação do ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto Franco França, em substituição a Ernesto Araújo, abre perspectivas para uma fase de recuperação do Mercosul, bloco criado em 1991 pela assinatura do Tratado de Assunção e que hoje reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e outros países associados. Como se sabe, depois de um período de crescimento, o Mercosul passa hoje por uma fase de incertezas, acentuada pelos problemas causados pela pandemia de coronavírus (covid-19), depois que o Brasil deixou de ser o principal parceiro comercial da Argentina, país que, até há poucos anos, estava entre os três principais mercados de produtos brasileiros no exterior.

Hoje, o lugar da Argentina é ocupado pela Holanda, que vem comprando principalmente soja, petróleo e combustíveis. Em contrapartida, a China passou a ocupar o posto de principal parceiro da Argentina. Reverter essa tendência é um dos maiores desafios que o novo ministro terá à frente da pasta. Para tanto, deverá deixar de lado quaisquer afinidades ou repulsas ideológicas com governos dos países parceiros, mirando apenas nos resultados comerciais. E esquecer as públicas divergências entre os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, que só contribuem para obscurecer um ambiente já turvo.

É de se lembrar que o Mercosul, de 2011 a 2020, constituiu um mercado quase cativo do Brasil, ou seja, o País exportou US$ 54 bilhões a mais do que importou dos demais parceiros do bloco, com uma pauta diversificada, que ia de produtos manufaturados a alimentos e commodities. Em uma década, o superávit comercial foi inferior apenas ao acumulado com a China, país para o qual o Brasil exportou US$ 158 bilhões a mais do que importou, com a diferença de que a pauta de exportações com a nação asiática está limitada a poucos produtos, especialmente soja e minério de ferro.

Para se ter uma ideia da importância do Mercosul, basta lembrar que o Produto Interno Bruto (PIB) do grupo está ao redor de US$ 5 trilhões, o que lhe garante a posição de quinta maior economia do planeta. Não é pouco. O Mercosul vende 63% da soja mundial e é o maior exportador de carne bovina e de frango, milho e café, o que, na verdade, sempre constitui um grande obstáculo à concretização de um acordo de livre-comércio com a União Europeia, em razão do lobby dos produtores agrícolas europeus, que o veem como uma real ameaça aos seus interesses.

Já para os parceiros do Mercosul, o Brasil exportava majoritariamente produtos industrializados, em especial automóveis. Isso significa que, quando essas transações caem, a indústria brasileira definha, com reflexos negativos na geração de renda para as famílias, impostos, ciência e tecnologia. Apesar disso, o governo brasileiro demorou a se mobilizar para reverter esse quadro, na tentativa de devolver ao Mercosul a importância que sempre teve no comércio exterior brasileiro.

Com a indicação de França para a chefia do Ministério das Relações Exteriores, aparentemente, esse imobilismo chegou ao final, pois o novo ministro, como ficou claro em seu discurso de posse, é um quadro formado dentro de uma visão pluralista e universalista que deu ao País grandes diplomatas, como Oswaldo Aranha (1894-1960), San Tiago Dantas (1911-1964), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), José Aparecido de Oliveira (1929-2007), Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010) e Alberto da Costa e Silva (1931), entre outros.

Segundo França, “não há modernização sem mais comércio e investimentos, sem maior e melhor integração às cadeias globais de valor”, o que significa que, daqui para a frente, o País terá uma política externa com um sentido universalista, “sempre guiado pela proteção de nossos legítimos interesses”. Em outras palavras: França pode abrir novos caminhos para o comércio exterior brasileiro, “sem preferências desta ou daquela natureza”. Só se espera que o principal mandatário não venha a atrapalhar esses planos. Adelto Gonçalves – Brasil

 

Adelto Gonçalves, jornalista, é assessor de imprensa do Grupo Fiorde, constituído pelas empresas Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Internacional (trading company). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

CPLP - Estados-membros dão luz verde a processo de candidatura do Paraguai

 


Lisboa - Os embaixadores dos nove Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deram hoje luz verde à candidatura do Paraguai a observador associado da organização.

Segundo o embaixador de Cabo Verde em Lisboa, país que tem a atualmente a presidência rotativa da CPLP, os representantes dos Estados-membros, reunidos hoje em Lisboa, no habitual encontro do Comité de Concertação Permanente (CCP) da organização, "apreciaram favoravelmente" a candidatura daquele país.

O parecer favorável do CCP representa a "luz verde" para que o processo possa avançar e seguir os passos necessários para depois ser aprovado em Cimeira de Chefes de Estado e de Governo, sublinhou Eurico Monteiro.

O Paraguai entregou o pedido para se tornar observador associado da CPLP em julho último, tal como anunciou na altura o ministro das Relações Exteriores paraguaio.

A intenção, segundo Rivas Palácios, é aproveitar as excelentes relações políticas entre Portugal e o Paraguai para criar possibilidades de investimento no continente, o que faz da CPLP o "melhor caminho" para o investimento paraguaio em África, onde se quer afirmar.

"A CPLP é o melhor caminho para chegar a África, para fazer acordos de associação e alianças económicas", afirmou o chefe da diplomacia paraguaia, numa conferência em que participou o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva.

Desta forma, o Paraguai junta-se a uma lista de outros 12 Estados e organizações internacionais que estão a desenvolver os seus processos para que possam formalizar a adesão, com o estatuto de observador associado, na próxima reunião de chefes de Estado e de Governo, a realizar em Luanda, Angola, em julho do próximo ano, durante a qual deverão ser analisadas as referidas candidaturas.

Os representantes dos Estados-membros da CPLP já tinham também o aval aos processos de candidatura da Índia e Irlanda a observadores associados.

Ao todo, são 13 as candidaturas que deverão ir à próxima cimeira da CPLP: Paraguai, Estados Unidos da América, Espanha, Índia, Irlanda, Canadá, Grécia, Costa do Marfim, Peru, Qatar, Roménia, Organização Europeia de Direito Público (EPLO, na sigla em inglês) e Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB).

Atualmente, a CPLP conta com 18 países observadores associados e uma organização, a OEI -- Organização de Estados Ibero-Americanos.

Os Estados que pretendam adquirir o estatuto de observador associado terão de partilhar os princípios orientadores da CPLP, designadamente no que se refere à promoção das práticas democráticas, à boa governação e ao respeito dos direitos humanos, e prosseguir, através dos seus programas de governo, objetivos idênticos aos da organização, mesmo que, à partida, não reúnam as condições necessárias para serem membros de pleno direito daquela organização, segundo o 'site' oficial daquela comunidade.

Os observadores associados podem participar, sem direito a voto, nas cimeiras e no Conselho de Ministros, sendo-lhes facultado o acesso à correspondente documentação não confidencial, podendo ainda apresentar comunicações desde que devidamente autorizados para o efeito. Além disso, podem ser convidados para reuniões de caráter técnico.

Porém, qualquer Estado-membro da CPLP poderá, caso o julgue oportuno, solicitar que uma reunião tenha lugar sem a participação de observadores.

Os Estados-membros da CPLP são Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. In “Sapo Timor-Leste” com “Lusa”

sábado, 25 de julho de 2020

CPLP - Paraguai entregou pedido para observador associado

O Paraguai entregou em Lisboa um pedido para se tornar observador associado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), anunciou o ministro das Relações Exteriores paraguaio

O anúncio foi feito por António Rivas Palácios ao intervir na conferência “Diálogo Estratégico II” sobre o tema “Forças e Fraquezas da Ibero-América Perante a Crise”, integrado na 10.ª edição do encontro “Triângulo Estratégico: América Latina – Europa – África”, organizado pelo Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas (IPDAL), que decorreu no formato ‘webinar’.

A intenção, segundo Rivas Palácios, é aproveitar as excelentes relações políticas entre Portugal e o Paraguai para criar possibilidades de investimento no continente, o que faz da CPLP o “melhor caminho” para o investimento paraguaio em África, onde se quer afirmar.

“A CPLP é o melhor caminho para chegar a África, para fazer acordos de associação e alianças económicas”, afirmou o chefe da diplomacia paraguaia numa conferência em que participou o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, que, na reunião, não comentou a decisão de Assunção. In “Sapo Timor-Leste” com “Lusa”

sábado, 6 de junho de 2020

Portugal - Exporta programa Simplex para o Paraguai

Os Governos de Portugal e do Paraguai consagraram, em cerimónia digital, um protocolo de cooperação técnica que vai levar, pela primeira vez, o programa Simplex português a um país da região da América Latina e Caraíbas (ALC), contando com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

A Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro, na sua qualidade de alternate Governor do BID, e a Secretária de Estado da Inovação e da Modernização Administrativa, Fátima Fonseca, participaram na sessão, em que estiveram também Pedro Mancuello e Isaac Godoy, respetivamente Vice-Ministro do Comércio e Serviços e Vice-Ministro de PME do Paraguai, a Diretora do Banco na capital paraguaia, Maria Florencia Attademo-Hirt, e as equipas técnicas que implementarão o projeto. Portugal destacou a vontade e a disponibilidade para partilhar a sua experiência no domínio da modernização administrativa e qualidade regulatória, mobilizando para esse efeito especialistas portugueses.

O desenvolvimento do projeto com o Paraguai inclui missões de diagnóstico e assessoria de engenharia de processos organizacionais, estando a prestação a cargo da “AMA- Agência para a Modernização Administrativa” e do JurisAPP – o Centro de Competências Jurídicas do Estado, integrado na Presidência do Conselho de Ministros que implementa o “Programa Custa Quanto”, envolvendo ainda o trabalho de consultores para desenho e implementação de soluções técnicas e informáticas, para além de capacitação de recursos humanos.

O projeto, que assinala assim o seu início, concretiza o objetivo do Governo Português de criar iniciativas a partir de oportunidades oferecidas pela banca multilateral de desenvolvimento, neste caso em resposta àquela que é uma prioridade estratégica do BID de consolidação de uma agenda digital na região da América Latina e Caraíbas. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Mercosul: que futuro?

A decisão do governo argentino de abandonar as negociações para a ratificação do Acordo de Livre-Comércio com a União Europeia, assinado no ano passado, deixou o Mercosul em xeque, pois, sem a assinatura de um dos quatro sócios – os demais são Brasil, Uruguai e Paraguai –, o tratado não terá validade. O governo argentino do novo presidente Alberto Fernández também não aprova as negociações para a assinatura de novos tratados de livre-comércio com a Coreia do Sul, Índia, Líbano e Cingapura, que vinham em andamento, sob a alegação de que, diante do caos mundial previsto em função da pandemia do coronavírus (covid-19), o melhor é aguardar para ver o tamanho da encrenca.

É o que se pode depreender do comunicado expedido pelo Ministério das Relações Exteriores daquele país, que prevê um “quadro desolador”, já que as organizações internacionais estimam queda do produto interno bruto (PIB) nos países mais desenvolvidos, uma queda repentina no comércio global de até 32% e “um impacto imprevisível na sociedade”. Em contrapartida, Brasil, Uruguai e Paraguai não admitem paralisar as negociações com aqueles países, já que há mecanismos legais que amparam a continuidade das tratativas sem a participação da Argentina.

Isso se dá porque, apesar dos insistentes alertas dos especialistas, o Mercosul não soube criar os mecanismos necessários para que o bloco blindasse a questão comercial da influência político-partidária, tanto de esquerda como de direita. Foi assim ao tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve à frente do governo brasileiro por 13 anos e meio e está sendo agora com o presidente Alberto Fernández, peronista de centro-esquerda, que, desde que assumiu, sempre se mostrou contrário à participação argentina no Mercosul. 

Seja como for, sem a Argentina, o Mercosul nunca será o mesmo. E parece caminhar em direção a sua flexibilização. Se esse for o caminho, nada melhor que o governo brasileiro aproveite o momento para buscar maior acesso à inovação e às tecnologias das cadeias produtivas globais, o que só será possível a partir do relaxamento das regras que proíbem os parceiros do bloco de assinar acordos bilaterais sem a aprovação dos demais. Nesse caso, se Paraguai e Uruguai, que têm governos afinados com o governo brasileiro, concordarem, os três parceiros ficam livres para buscar um relacionamento comercial mais aberto com outras nações.

Obviamente, se o governo brasileiro tivesse à frente do Itamaraty um diplomata especializado em comércio exterior, a situação não teria chegado a esse ponto, já que a Argentina até 2019 constituía o terceiro mais importante parceiro comercial  do Brasil no mundo e o principal na América Latina, respondendo por 5% das exportações brasileiras, atrás somente de China e Estados Unidos. E não se pode jogar fora um mercado como esse por causa de questiúnculas político-ideológicas, ainda que aquele país esteja à beira de entrar em moratória.

É claro que, mesmo sem a Argentina, o Mercosul pode continuar e manter os acordos vigentes com Índia e Israel e ratificar os tratados com Palestina, Egito e a União Aduaneira de Países do Sul da África (Sacu), bem como levar a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), que reúne 13 países latino-americanos, a se tornar uma área de livre-comércio, o que equivale a dizer sem tarifas. O que se espera é que o governo brasileiro leve adiante esse processo com a participação do setor privado, pelo menos com consultas à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Já seria bastante. Milton Lourenço – Brasil


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Milton Lourenço é presidente do Grupo Fiorde (Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Exterior) e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agentes de Cargas, Comissárias de Despachos e Operadores Intermodais (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Brasil - Hidrovia Paraguai-Paraná uma alternativa para escoar a safra

"Nueva Palmira é o porto mais ao sul da hidrovia Paraguai-Paraná, a 3442 km de onde a rota transnacional se inicia, em Cáceres, no Mato Grosso,percorrendo cinco países. O capitão do porto, Hebert Marquez, está otimista com a possibilidade de receber mais cargas brasileiras e de outros vizinhos. “Esta é a última escala das barcaças que navegam os rios até os portos de ultramar. Pelo menos três estados do Brasil têm potencial para vender seus produtos utilizando este porto. Convido representantes das zonas produtivas brasileiras a fazer uma reunião de intercâmbio ou uma conferência, porque cremos que a irmandade dos povos vai se construindo com uma notícia, um conhecimento, a oportunidade de um negócio, tudo entrelaçado”.

Cargas vindas do Brasil, no entanto, são tão raras no pequeno porto como os itens de um planeta distante. Os mestres desses caminhos fluviais são os paraguaios – o país guarani tem a terceira maior frota de barcaças do mundo, com 3000 unidades operando nos meandros da Bacia do Prata. “Neste ponto, todos deveríamos nos inspirar no Paraguai. O paraguaio é um bom marinheiro, maneja com facilidade o rebocador e as barcaças. Eles têm uma cultura naval que os outros países da Bacia do Prata não têm. Por necessidade, eles aproveitam o rio muito mais do que nós”, sublinha Marquez.

Se o Paraguai domina as águas da hidrovia, a Argentina detém o maior percentual de cargas. Um estudo da Universidade Federal do Paraná para a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTT), divulgado em 2017, mostra que a Argentina transportava pela hidrovia 64,60 milhões de toneladas de cargas por ano; em segundo lugar, o Paraguai (12,97 milhões de toneladas), depois o Brasil (4,47 milhões de toneladas), Bolívia (1 milhão de toneladas) e Uruguai (52 mil toneladas). Proporcionalmente às cargas transportadas por outros modais, o Brasil, com 0,6%, só não fica atrás do Uruguai, que escoa apenas 0,4% de seus produtos pelo rio. O Paraguai, em contrapartida, movimenta pela hidrovia 76,8% de suas cargas, contra 54,6% da Argentina e 12,9% da Bolívia.



De olho no Oeste do Paraná

Uma obra rodoviária, no Paraguai, pode ser o impulso que falta para que Nueva Palmira finalmente comece a receber commodities agrícolas brasileiras que, dali, seguiriam para Ásia e Europa, pelo Atlântico Sul. A rodovia batizada de “Corredor de Exportação” está sendo construída com financiamento japonês e deve ficar pronta em três anos. Os 147 km de extensão margeiam e interligam o Rio Paraná com zonas de produção, próximo à fronteira com o Brasil.

No percurso da rodovia estão onze portos fluviais, alguns deles, como o Puerto Torocuá, a apenas 100 km da zona fronteiriça do Oeste do Paraná, uma das principais regiões produtoras de grãos do estado. Em um raciocínio simples, a soja do oeste paranaense poderia seguir apenas 200 km até os portos paraguaios e fazer o restante do caminho nas balsas, evitando a viagem de 600 km de caminhão até o Porto de Paranaguá. Um comboio de 16 balsas pode transportar 24 mil toneladas, enquanto por outros modais seriam necessários 686 caminhões ou 300 vagões de trem. O estudo da UFPR para a Antaq demonstrou que o custo do transporte hidroviário é de apenas 25% do rodoviário tomando como base uma viagem de mil quilômetros.

Para o consultor de logística portuária Luiz Henrique Dividino, que durante seis anos dirigiu o Porto de Paranaguá, a saída pelo Paraguai não tem vantagem competitiva para os paranaenses. Dividino diz que o transporte de grãos por hidrovias envolve alguns gargalos operacionais – como o transbordo do caminhão para a barcaça e desta para os navios – que implicam aumento de custos, perdas físicas no manuseio e eventuais perdas de qualidade, devido às intempéries ou contaminação com outros produtos (mistura de soja e milho, por exemplo). “Todo mundo fala que o transporte por caminhão é caro, que é ineficiente. Mas hoje o que vemos na frota de granéis é a melhor geração de caminhão que já existiu, extremamente eficiente. E no Porto de Paranaguá temos o efeito natural do frete de retorno, que no outro caso não existe. Descem 23 milhões de toneladas de granéis para exportação e sobem 10 milhões de toneladas em fertilizantes, cevada e malte, entre outros produtos”, aponta.

O ex-dirigente portuário reconhece que, pontualmente, poderá haver alguns embarques do Oeste do Paraná pela hidrovia Paraguai-Paraná, “que está ali do lado de Cascavel”. “De repente, o operador não tem frete, está com a barcaça parada e decide botar o equipamento para rodar, oferecendo fazer o serviço pelo custo. Se tiver oportunidade, pode aparecer algum negócio. Mas o mercado predominante e cativo é Paranaguá”.

Expedição Safra vai até o extremo sul da Hidrovia Paraguai-Paraná

Paranaguá pode ser imbatível

O sistema de Paranaguá poderia se tornar imbatível, segundo Dividino, se fossem instalados “terminais privados puros”, como em Santos. “Paranaguá hoje tem terminais privados interligados com o cais público. Se tivermos os dois modelos, serão duas figuras disputando o mercado. Daí iríamos tomar carga de São Francisco do Sul, e digo mais, poderíamos trazer o Paraguai de volta para cá”.

Dividino se refere ao fato de que, até o início dos anos 2000, quase toda a safra de grãos do Paraguai era exportada por Paranaguá. O bloqueio das cargas transgênicas, por ordem do então governador paranaense Roberto Requião, fez com que o país vizinho descobrisse sua vocação fluvial. Hoje, 96% do que o Paraguai produz é exportado por hidrovia.

Em outros trechos da hidrovia transnacional, as cargas agrícolas brasileiras começam finalmente a dar o ar da graça. A multinacional argentina Vicentin importou 600 mil toneladas de soja do Mato Grosso do Sul, no ano passado, pelos portos de Murtinho e Ladário, no Brasil, e via Concepción, no Paraguai. No ano anterior tinham sido apenas 185 mil toneladas e, dois antes, míseras 16 mil toneladas.



“Os embarques aumentaram geometricamente. Não iríamos comprar 600 mil toneladas se estivéssemos perdendo dinheiro”, diz Peter J. Graham, diretor do grupo Vicentin. A soja do Mato Grosso do Sul, com teor mais alto de proteína, é levada para ser esmagada e fazer um blend nas indústrias argentinas de Rosário.

Para o diretor-executivo do Movimento Pró-Logística de Mato Grosso e presidente da Câmara de Infraestrutura e Logística de Transportes do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Edeon Vaz Ferreira, ao fim e ao cabo tudo se resume a uma questão de custos. “Dólar por dólar, o transporte de commodities se resolve nos detalhes. Exportar soja do Mato Grosso para a Argentina, a conta não fecha. Teria de haver um frete de retorno, com fertilizante, por exemplo, para as barcaças não voltarem batendo lata em todo o trecho. Já de algumas regiões do Mato Grosso do Sul, isso é possível”, avalia.

As compras de soja do Mato Grosso do Sul para escoamento via hidrovia, até agora, foram feitas exclusivamente pelo grupo Vicentin, mas mostram a viabilidade econômica de uma rota até então inexplorada. “A soja do Mato Grosso do Sul era uma das mais baratas, mas agora até se valorizou com essas exportações. E os produtores estão plantando 5% a mais a cada ano”, diz Peter Graham, da Vicentin.

Veio para ficar

O fato é que a alternativa de escoamento da safra de Mato Grosso do Sul pela hidrovia Paraguai-Paraná veio para ficar. Juliano Schmaedecke, presidente da Aprosoja-MS, diz que só não se exporta mais pelo rio devido à falta de capacidade de embarque nos terminais brasileiros. Uma das empresas que atuam em Porto Murtinho, a FV Cereais, conseguiu licenças ambientais e já começou a ampliar a área do cais. “Vamos ter três operadores portuários e isso é muito bom. Vai trazer mais competitividade para o mercado. Hoje a gente ainda envia soja de caminhão para embarcar lá pelo porto de Rio Grande (RS), que tem mais eficiência e taxas mais baratas. Mas é uma barbaridade descer quase 2 mil quilômetros, tendo portos muito mais perto”, critica Schmaedecke.

Outro gargalo que prejudica o potencial da hidrovia Paraguai-Paraná são os atestados fitossanitários. Por falta de regulamentação e acordo entre os países, a soja brasileira tem de sair em lotes fechados, prontos para embarcar nos navios Panamax. Isso impede que as indústrias formem seus lotes na Bacia do Prata. “Na verdade, essa navegação ainda não está redonda. Para os laudos fitossanitários, é uma quantidade tão grande de documentos que exigem que isso também emperra um pouco essa negociação de venda do Brasil com a Argentina e o Uruguai”, destaca Edeon Ferreira. Segundo Schmaedecke, da Aprosoja, a questão dos laudos fitossanitários está sendo tratada diretamente pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e espera-se para breve uma solução.

Se a saída sul-matogrossense para o rio irá se consolidar, se o caminho fluvial é viável também para o Paraná e o Mato Grosso, se Nueva Palmira vai finalmente receber soja brasileira – todas essas são questões que se resolverão na planilha das empresas de logística e nas obras de infraestrutura dos governos. Cada dólar de redução nos custos, como se vê, tem o potencial de fazer a balança pender para um ou outro lado. In “Gazeta do Povo” -  Brasil

terça-feira, 3 de julho de 2018

América do Sul - Corredor ferroviário bioceânico

SÃO PAULO – A crise de abastecimento a que o País foi atirado pela paralisação de caminhoneiros, ao final de maio, mostrou o quanto o Brasil é refém do modal rodoviário e, principalmente, do óleo diesel, que é o combustível que move a economia nacional. Segundo dados do Instituto de Logística e Suplly Chain (Ilos), mais de 60% de tudo o que é transportado no País viajam em contêineres puxados por carretas ou sobre caminhões, percentual que, nos últimos anos, só tem crescido em razão da falta de investimentos em outros modais.

Ainda segundo o Ilos, entre 2006 e 2016, a participação das rodovias na matriz de transportes avançou de 59% para 62,8%, enquanto, no mesmo período, a fatia das ferrovias recuou de 24% para 21%, por falta de investimentos no setor. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Brasil, que já teve uma malha ferroviária maior que a dos Estados Unidos, tem hoje apenas 3 quilômetros de ferrovia para cada quilômetro quadrado, enquanto aquele país tem dez vezes mais: 30 quilômetros de trilhos para cada quilômetro quadrado.

E mais: dos atuais 28 mil quilômetros de malha passados a concessionárias, apenas 8 mil quilômetros estão em operação. Como ficou em segundo plano no processo de privatização, a situação do transporte de passageiros por trem está em situação ainda mais dramática.

Diante disso, os caminhoneiros fazem o que podem, enfrentando estradas mal conservadas e bem pouco policiadas, o que permite com frequência toda a sorte de imprevistos, inclusive aqueles derivados da violência social. Sem contar os prejuízos para as empresas transportadoras e para os donos das cargas, pois, muitas vezes, o caminhoneiro é obrigado a ficar três dias ou mais parado no cais para descarregar.

Em meio a tantas desditas, aparece agora uma luz no fim do túnel: Brasil, Bolívia, Paraguai e Peru acabam de concluir os entendimentos prévios para um acordo que prevê a construção de um corredor ferroviário entre o Oceano Pacífico (a partir de Puerto de Ilo, no Peru) e o Atlântico (Porto de Santos). Os estudos preliminares, que contam com assessoramento técnico da União Europeia, prevêem investimentos da ordem de US$ 14 bilhões e que a obra estará concluída até 2024.

Os estudos estimam ainda que o corredor bioceânico irá transportar 40 milhões de toneladas, percorrendo 3.755 quilômetros, facilitando principalmente as exportações para a Ásia. Ou seja, essa ferrovia, além de facilitar a tão almejada saída para o mar por parte da Bolívia, vai permitir o desenvolvimento, a exploração e a industrialização dos recursos naturais de todo o continente sul-americano, até porque está prevista ainda a adesão da Argentina e do Uruguai.

Entre outros benefícios, com a participação do trem bioceânico, será possível conduzir a carga desde o Brasil até o porto de Xangai, na China, em 36 dias e 8 horas. Hoje, a demora é de 67 dias e 13 horas. Segundo os estudos, até 2021, o corredor ferroviário terá ainda capacidade para transportar 6,1 milhões de passageiros por ano, número que deverá chegar a 13,3 milhões em 2055. Se o futuro irá confirmar esses números, não se sabe. Mas, até lá, haja otimismo! Milton Lourenço - Brasil



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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

sexta-feira, 4 de maio de 2018

UCCLA - Oscar Maldonado do Paraguai vence Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras



O vencedor da 3.ª edição do Prémio Literário UCCLA - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa foi atribuído ao livro de poesia “Equilíbrio Distante” da autoria de Oscar Ruben Lopez Maldonado, Paraguaio, de 48 anos, que reside em São Paulo, no Brasil.

A obra vencedora foi apresentada no dia 3 de maio, no âmbito das celebrações do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP.

Esta edição contou com 805 candidaturas, oriundas da Alemanha, Angola, Brasil, Cabo Verde, Espanha, Guiné-Bissau, Moçambique, Paraguai, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Relativamente às idades candidaturas: 35% entre os 16 e os 30 anos, 41% entre os 31 e os 50, 21% entre os 51 e os 70, e 3% entre os 71 e os 90 anos. No que respeita ao género 31% são mulheres e 69% são homens.

O Prémio Literário é uma iniciativa conjunta da UCCLA, Editora A Bela e o Monstro e Movimento 2014, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, e tem como objetivo estimular a produção de obras literárias, nos domínios da prosa de ficção (romance, novela e conto) e da poesia, em língua portuguesa, por novos escritores.

O Prémio Literário UCCLA foi lançado em 2015, tendo sido atribuído o prémio vencedor da 1.ª edição ao romance “Era Uma Vez Um Homem” da autoria de João Nuno Azambuja, de Portugal. Na 2.ª edição, o prémio foi entregue à obra “Diário de Cão” de Thiago Rodrigues Braga, de Goiás, Brasil.

sábado, 20 de agosto de 2016

Paraguai – Vida difícil para os jacarés

Milhares de crocodilos encontram-se no leito seco do rio Pilcomayo, Paraguai. Alguns estão mortos, outros estão a morrer e tentando esconder-se debaixo da lama para evitar os ataques dos abutres.

O Pilcomayo secou. Durante a estação seca, de abril a outubro, este fenómeno ocorre ciclicamente "é acentuada pelas alterações climáticas e desmatamento", de acordo com Luz Aida Aquino, directora da organização WWF Paraguai.

Não chove desde abril no Chaco departamento da fronteira do Paraguai e da Argentina. No leito do rio, o solo está seco e gretado.

"Aqui, há normalmente uma fauna rica e abundante", reflecte Luz Aida Aquino. Agora, "os animais começam a morrer de forma maciça. Primeiro o peixe, em seguida, as capivaras (roedores semi-aquáticos) e jacarés (Caimãos da América do Sul). Milhares de jacarés já estão mortos."

O Paraguai, um dos países mais pobres da América do Sul, tem grandes rios e enormes recursos hídricos, mas a fronteira ocidental da Bolívia e Argentina é uma zona particularmente árida.

Os jacarés, chamam-se assim nesta região, têm até três metros de comprimento. Como tradição antiga, a sua caça é tolerada para alimento dos índios Toba, mas a comercialização da pele é proibida.

Uma vez que a espécie é protegida, o jacaré abunda e a seca deste ano, em nada compromete a sobrevivência da espécie.

O rio Pilcomayo nasce nos Andes, atravessa a Bolívia e Argentina, antes de chegar ao Paraguai.

"O curso do Pilcomayo, observa a directora do WWF, é regular no primeiro semestre, depois torna-se nómada". Em alguns lugares, o rio desaparece voltando a aparecer posteriormente.

Os habitantes das margens do Pilcomayo tentam assustar os abutres, que atacam os répteis e mordem com os seus bicos, começando pelos olhos, disse um jornalista da AFP.

- Desastre inevitável –

Uma ONG de defesa do meio ambiente levou recentemente uma delegação de 50 trabalhadores de salvamento, veterinários e agricultores da área para perfurar poços para salvar os jacarés.

"Isto é tudo o que podemos fazer", lamenta Alberto Meza, um dos líderes da delegação, que critica o governo pela falta de interesse por esta problemática.

A perfuração do poço é "para formar lagos para que os animais sobrevivam", diz Óscar Salazar, Director da Comissão Pilcomayo, um organismo estatal responsável pela gestão da bacia do Pilcomayo. Mas a "água é salgada," o que lamenta.

"As mortes dos jacarés ocorrem quando a água está muito baixa como nesta temporada, observou o oficial. O rio parou de fluir em território argentino, 1 km antes de chegar ao Paraguai".

Para ele, o desastre para a vida selvagem agora é "inevitável".

Para os especialistas, transportar os répteis para outras regiões do país seria agora uma catástrofe.

Além dos crocodilos, as fazendas de gado e a fauna local estão sofrendo com a seca.

“A situação não é tão crítica", declarou o Secretário de Estado do Ambiente há um mês atrás, quando os ambientalistas tocaram a sineta de alarme em Maio.

A seca do rio é também devido à falta de manutenção. Troncos e galhos a obstruir e a desviar o seu curso. O rio foi canalizado na Argentina, mas não no Paraguai.

Os rios sul-americanos são especialmente alimentados pelo degelo dos Andes e só após o inverno é que a água abunda no sul. De acordo com o chefe da Comissão Pilcomayo deve aguardar-se as chuvas de Outubro e Novembro para ver o Pilcomayo fluir novamente no Paraguai.

Enquanto isso, a pele branqueada do caimão por desidratação, está esgotada pelo calor e desnutrição.

No leito do rio, devido à pouca água e lama refrescante, os jacarés juntam-se nas zonas húmidas, um hospício prestes tornar-se um cemitério. In “Yahoo” - França