Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Borges, sob o olhar de Emir Rodríguez Monegal

A ausência de uma tradução em português desta biografia do escritor argentino é uma prova da indigência cultural brasileira                                

                                                                                    

                                                               I

Uma prova da assustadora indigência cultural que assola o País é o fato de a publicação de Borges: una biografía literaria (Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 1987), do crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), nunca ter despertado o interesse de uma editora brasileira. Um processo de emburrecimento coletivo que, nos últimos tempos, só se tem acelerado com a invasão dos meios digitais, cujo exemplo dos mais representativos é o fato de a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), que sempre publicou obras importantes, ter sido extinta como editora de livros impressos em 2021.

Trata-se de uma obra que procura contar a história de vida do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), constituindo uma experiência das mais inauditas, pois foge a todos os padrões que se conhece. Foi lançada originalmente em inglês (Jorge Luis Borges: a literary biography), pela editora norte-americana E. P. Dutton, de Boston, em 1978, em tradução do jornalista uruguaio Homero Alsina Thevenet (1922-2005), realizada a pedido do autor, e ganhou em 1983 uma tradução em francês. Depois de lançada pela editora mexicana, a obra ainda recebeu segunda edição em 1990. E, hoje, constitui uma raridade que só se encontra à venda no site da empresa de tecnologia e comércio eletrônico Amazon, a um preço estratosférico.    

De fato, ao contrário das grandes biografias que geralmente abordam a vida e a obra de um escritor já falecido, este livro de Rodríguez Monegal foi escrito ao tempo em que o biografado estava vivo. Curiosamente, o biógrafo, mais jovem 22 anos, faleceu em 14 de novembro de 1985, antes do biografado, que morreu a 14 de junho de 1986. Por isso, em algumas partes do livro, fala-se de Borges como se ele estivesse vivo. Além de recuperar entrevistas que o escritor deu ao longo da vida, inclusive uma que concedeu ao grande jornalista brasileiro Leo Gilson Ribeiro (1920-2007), publicada pela revista Veja, em 26/7/1970, o biógrafo conversou pessoalmente com a mãe de Borges, em 1971. Sem contar que foi amigo pessoal de Borges, que, inclusive, citou-o em seu conto La otra muerte, que faz parte do livro El Aleph (1949).

 

                                                              II

A obra começa por mostrar os primeiros anos de Borges, que em criança era chamado de Georgie pelos familiares e amigos, sem deixar de fazer um retrospecto a respeito de seus antecedentes, entre os quais um bisavô materno, o coronel Manuel Isidoro Suárez (1799-1846), lembrado como “o herói da batalha de Junín” por ter comandado tropas de cavalaria peruanas e colombianas em suas guerras de independência, passando por seus genitores, o advogado e professor Jorge Guillermo Borges (1874-1938) e a tradutora Leonor Rita Acevedo Suárez (1876-1975), que ainda viviam com os pais quando Georgie nasceu. A preocupação dos pais de Georgie teria sido principalmente com os olhos do rebento, já que a cegueira era endêmica na família. De fato, essa debilidade acabaria por perseguir Borges, principalmente a partir dos 40 anos de idade.   

O pai de Borges se aposentara cedo devido a uma cegueira quase total e, em 1914, decide passar uma temporada com a família na Europa, instalando-se em Genebra, depois de fugazes passagens por Londres e Paris. Na Suíça, o futuro escritor descobre a literatura francesa, especialmente Victor Hugo (1802-1885), Émile Zola (1840-1902), Voltaire (1694-1778), Gustave Flaubert (1821-1880), Guy de Maupassant (1850-1893) e Charles Baudelaire (1821-1867), e a inglesa, além de aprender alemão e ler filósofos famosos como Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Por meio de uma tradução em alemão, descobre também o poeta norte-americano Walt Whitman (1809-1892), que o haveria de impressionar sobremaneira, a ponto de passar a imitá-lo, como confessa em sua autobiografia.

Cinco anos depois, a família se radica em Mallorca, na Espanha, transferindo-se depois para Sevilha, onde ele começa sua vida literária, que haveria de se intensificar ao mudar-se para Madrid, onde conheceria muitos poetas, especialmente Rafael Cansinos Asséns (1883-1964), que seria seu mestre, e Guillermo de Torre (1900-1971), que haveria de se casar com sua irmã, a artista plástica e crítica de arte Norah Borges (1901-1998). Em 1921, retorna a Buenos Aires e passa a participar de um grupo de poetas sob a liderança do escritor Macedonio Fernández (1874-1952), companheiro de estudos de seu pai, Jorge Guillermo, que também tivera aspirações literárias.  A essa época, o pai começa a escrever uma novela, que não agradaria muito ao filho, que já passara a ter projetos literários próprios. Viviam numa casa localizada na rua Bulnes, não muito distante do bairro de Palermo, onde o futuro escritor passou a desenvolver o hábito de caminhar pelas ruas de Buenos Aires, só ou na companhia de amigos.

 

                                                        III

Em 1923, publica, em edição de autor, Fervor de Buenos Aires, reunindo poemas que escrevera nos dois anos anteriores, com capa de Norah Borges. A partir daí, sua carreira literária deslancha, com a publicação de outros livros, como Luna de enfrente (1925), poemas, e Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928), três livros de ensaios que excluirá de suas Obras completas (1952). Por essa época, abandona o estilo neobarroco de sua juventude para aproximar-se do classicismo que haverá de marcar a sua obra na maturidade. Mas ainda encontra ânimo para escrever uma biografia de Evaristo Carriego (1883-1912), poeta popular argentino que costumava visitar aos domingos a casa de seus pais quando ele era criança.

Nos anos 30, ainda produz outro livro de ensaios, Discusión (1932), e conhece o escritor Adolfo Bioy Casares (1914-1999), que seria seu discípulo e amigo fraterno. Já em 1933 a revista Megáfono dedica um número a sua obra, com artigos de escritores latino-americanos e espanhóis. Já consagrado como poeta e ensaísta, publica resenhas de livros, traduções e relatos supostamente autobiográficos. De 1935, é o seu livro Historia universal de la infamia, coletânea de narrativas que já haviam sido publicadas na revista Crítica, de Buenos Aires.

 

                                                     IV

Como observa Rodríguez Monegal, na véspera do Natal de 1938, já morto o pai em consequência de uma hemiplegia em função de um acidente vascular cerebral (AVC), o poeta, prejudicado por sua visão já falha, bate a cabeça numa janela, sofrendo um ferimento que infeccionou e produziu uma septicemia que quase lhe custaria a vida. A partir daí, segundo o biógrafo, começa a escrever narrativas francamente fantásticas. E passa a depender da ajuda de sua mãe, tal como fizera seu pai, já que se vai ficando gradualmente cego.

Em 1941, publica El jardín de los senderos que se bifurcan, narrativas fantásticas, e Antologia poetica argentina, com Bioy Casares e Silvina Ocampo (1903-1993), além de fazer traduções, nos quais se inclui a que fez de Las palmeras salvajes, do norte-americano William Faulkner. Em 1942, publica Seis problemas para don Isidro Parodi, contos policiais, com Bioy Casares, sob o pseudônimo H. Bustos Domecq, No ano seguinte, sai Poemas, que reúne sua obra poética até essa data.

Um episódio curioso da vida de Borges que Rodríguez Monegal recolhe é aquele em que, ao tempo do governo populista e autoritário de Juan Domingo Perón (1895-1974), o poeta é destituído de seu cargo na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, sendo “promovido” a inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais, o que o levaria a pedir demissão do emprego público. Para sobreviver, passaria a fazer conferências e ditar cursos, sendo por isso vigiado por agentes da polícia política. Dá à luz outros livros em colaboração com Bioy Casares e, em 1947, publica, por sua própria conta, Nueva refutación del tiempo, ensaio fundamental em que argumenta que o tempo é uma ilusão e que seria recolhido em Otras inquisiciones (1952).

Com a queda de Perón em 1955, o novo governo nomeia Borges diretor da Biblioteca Nacional, atividade que divide com a função de professor de literatura inglesa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, a partir de 1956. Escreve outros livros em colaboração com Bioy Casares, mas logo terá de abandonar a escritura, em razão de sua cegueira crescente.

Com isso, lentamente começará a aprender a compor textos de memória e a ditá-los para “familiares, amigos, colaboradores, entrevistadores, críticos e até inimigos”. Mesmo quase cego, começa a ficar conhecido em todo o mundo ocidental e é convidado a dar um curso na Universidade de Texas, em Austin, em 1962. No ano seguinte, aparecem nos Estados Unidos e Inglaterra dois livros seus em tradução: Ficciones e Labyrinths. Ainda em 1962, profere conferências em Inglaterra, Escócia, França, Espanha e Suíça. E continua a publicar livros, alguns em colaboração com Bioy Casares e María Esther Vázquez (1937-2017), que fora sua namorada no início dos anos 60 e que também publicou uma biografia do poeta dez anos depois de sua morte (Borges: esplendor y derrota).

 

                                                     V

A 21 de setembro de 1967, aos 68 anos, casa-se com a escritora Elsa Astete Millán (1910-2001), então viúva, que conhecera em sua juventude, quando ela tinha 17 anos, e que deixara de ver por mais de trinta anos. Aliás, apesar de solteirão, Borges, embora tímido, segundo o biógrafo, teria acumulado várias aventuras amorosas. Rodríguez Monegal ressalta que, na maior parte de sua obra, o sexo não aparece, ou melhor, “assim como o sexo está tecido na textura de seus sonhos, também está na textura das citações com que emascara sua voz privada”.   

Naquele ano viaja com sua mulher para os Estados Unidos, onde dá várias conferências. Em 1968, o casal vai até Israel, onde o poeta dita conferências em Tel Aviv. No retorno, em 1969, é homenageado por escritores argentinos pela passagem de seus 70 anos. Em 1970, publica El informe de Brodie, contos. Naquele ano, em outubro, divorcia-se de Elsa. Visita o Brasil para, em São Paulo, ganhar um prêmio oferecido pelo governo do Estado. Em enquete feita pelo jornal italiano Corriere della Sera obtém mais votos como candidato ao Prêmio Nobel do que o premiado escritor russo Alexander Solzhenitsyn (1928-2008). Aliás, a Academia Sueca nunca lhe distinguiria com o prêmio, o que só haveria de contribuir para o desprestígio da instituição.

Faria novas viagens aos Estados Unidos, Europa e Israel, onde receberia o Prêmio Jerusalém em 1971. Em 1975, publicaria três obras fundamentais: El libro de arena, contos fantásticos; La rosa profunda, poemas; e Prologos, que reúne textos de apresentação que escrevera para livros de outros autores. Nesse ano, morre aos 99 anos sua mãe, depois de uma agonia de dois anos.  Até então, ela “passara a ser os seus olhos”. Por essa época, o poeta teria conhecido a escritora Maria Kodama (1937-2023), que passaria a trabalhar como sua secretária. Com ela, viaja para visitar a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. A partir daí, as viagens, as homenagens, os prêmios, os simpósios, os doutorados honoris causa e novos livros haveriam de se multiplicar.

A 27 de março de 1983, o jornal La Nación, de Buenos Aires, publica o relato “Agosto 25, 1983” em que profetiza o seu suicídio nessa data. Mas não cumpre o prometido, tendo respondido mais tarde a um jornalista que não o fizera “por covardia”. Nesse mesmo ano, visita a Espanha em companhia da secretária Maria Kodama e do biógrafo Emir Rodríguez Monegal para dar conferência na Universidad Internacional Menéndez Pelayo e receber a Gran Cruz de Alfonso El Sabio. Por fim, em 26 de abril de 1986, casa-se com Maria Kodama no Paraguai e o casal instala-se em Genebra, mas, pouco depois, em 14 de junho, o escritor morre de câncer hepático.  Maria Kodama seria a única titular de seus bens após a sua morte.

           

                                                              VI


Nascido na cidade de Melo, Emir Rodríguez Monegal, um dos mais influentes críticos literários do século XX, atuou a partir de 1969 como professor de literatura contemporânea latino-americana na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Em Montevidéu, foi professor de literatura no Instituto Artigas e no Instituto Alfredo Vázquez Acevedo. Recebeu bolsa de estudos na Universidade de Cambridge por parte do governo britânico. Além da biografia de Borges, publicou obras sobre figuras literárias fundamentais da literatura hispano-americana como os chilenos Andrés Bello (1781-1865) e Pablo Neruda (1904-1973) e os uruguaios Horacio Quiroga (1878-1937) e José Enrique Rodó (1871-1917).

Foi também jornalista profissional, tendo sido editor da seção literária da revista Marcha, de Montevidéu, de 1944 a 1959. Entre 1966 e 1968, foi fundador e editor de Mundo Nuevo, revista literária em espanhol publicada em Paris, que chamou a atenção internacional para os escritores que compuseram o que ficou conhecido como o "boom do romance latino-americano": Gabriel García Márquez (1927-2014), Carlos Fuentes (1928-2012), Mario Vargas Llosa (1936-2025), José Donoso (1924-1996) e outros. Também ajudou a lançar as carreiras de escritores como Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Severo Sarduy (1937-1993) e Manuel Puig (1932-1990), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Borges, una biografía literaria, de Emir Rodríguez Monegal. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 477 páginas, R$ 2.398,00 (Amazon), 1987. 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br






quarta-feira, 14 de maio de 2025

Uruguai – Biografia de José Pepe Mujica: o tupamaro que esteve 12 anos preso e chegou a Presidente

José "Pepe" Mujica, ex-presidente e uma das figuras mais históricas da política uruguaia recente, morreu em Montevidéu após lutar contra um cancro do esófago e outros problemas de saúde que o levaram a aposentar-se parcialmente da vida pública em 2024.

Tinha 89 anos. Ativista, guerrilheiro Tupamaro, legislador, ministro, segundo presidente de esquerda do país e uma figura que transcendeu fronteiras. A sua pregação de austeridade e as suas capacidades de comunicação renderam-lhe reconhecimento mundial, sendo até mesmo rotulado como "o presidente mais pobre do mundo". 

Foi um dos grandes nomes da esquerda uruguaia, ao lado de Líber Seregni, Tabaré Vázquez e Danilo Astori, entre outros.

Aceda à biografia de José “Pepe” Mujica aqui, num trabalho do jornal El Pais. Um vídeo da responsabilidade de Mateo Vázquez, Faustina Bartaburu, Florencia Cruz e Florencia Traibel. InEl Pais” - Uruguai


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Uruguai - Pepe Mujica: ‘Meu ciclo já terminou’

Designado "o presidente mais pobre do mundo", Mujica liderou os destinos do Uruguai entre 2010 e 2015, tornando aquele país num dos pioneiros na adoção de medidas progressistas como o aborto, o casamento homossexual ou a legalização do canábis, que foi mesmo uma novidade à escala mundial



O ex-presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, sempre foi conhecido pela franqueza nas suas palavras. O tom combativo com que aborda os problemas sociais da América Latina repete-se quando Mujica fala de si mesmo. Desta vez, o uruguaio voltou a tratar com franqueza sobre o seu estado de saúde. “Estou morrendo”, afirmou, ao comentar o avanço de um cancro do esôfago em entrevista ao jornal uruguaio Búsqueda

“Meu ciclo terminou. Sinceramente, estou morrendo. O guerreiro tem direito ao descanso”, sintetizou Mujica, de 89 anos. O cancro do ex-mandatário foi diagnosticado em maio de 2024. Apesar dos tratamentos realizados até agora, o tumor espalhou-se.

José Mujica está sentado no sofá da sala da sua fazenda em Rincón del Cerro. Da mesma residência deu várias entrevistas nas últimas semanas, e dezenas nos últimos anos, aos meios de comunicação mais prestigiados do mundo e a pessoas de países remotos interessadas na sua figura. Desta vez o diálogo começa no final. “Estou morrendo”, diz ele. Os seus olhos estão cheios de lágrimas. A poucos metros de distância, a sua esposa, Lucía Topolansky, cozinha em silêncio, embora pareça muito angustiada. Antes de falar, Mujica continua com a explicação que os médicos lhe deram: “O cancro no esôfago (que ele anunciou ter em 29 de abril de 2024) está alastrando ao meu fígado. Eu não paro com nada. Porquê? Porque sou um homem idoso e porque tenho duas doenças crónicas. “Não há espaço para tratamento bioquímico ou cirurgia porque o meu corpo não aguenta”.

Médica pessoal confirmou diagnóstico adverso de José Mujica

O seu estado “não mudou nem vai mudar num curto espaço de tempo, a situação vai continuar, por quanto tempo não sei dizer”, disse Raquel Pannone.

A médica pessoal de José Mujica, Raquel Pannone, confirmou que o ex-presidente pediu para abandonar os tratamentos médicos depois que se descobriu que o cancro do esôfago, que ele sofre metástase para o fígado.

A médica deu entrevista coletiva nesta quinta-feira, após Mujica declarar à Busqueda que o cancro havia avançado a ponto de não ter mais volta. “O que eu peço é que vocês me deixem em paz. Não me peçam mais entrevistas ou qualquer outra coisa. O meu ciclo acabou. Honestamente, estou morrendo. E o guerreiro tem direito ao seu descanso”, disse o ex-guerrilheiro e líder histórico do Movimento de Participação Popular (MPP), que governou o Uruguai entre 2010 e 2015. InBusqueda” – Uruguai com “Carta Capital”


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Suíça - Descendentes de emigrantes exigem passaporte suíço

O direito à cidadania suíça é baseado no princípio da origem, sendo também herdado por quem nasce no exterior. Apesar disso, milhares de descendentes de cidadãos suíços que deixaram o país acabaram perdendo a sua nacionalidade. Uma petição quer mudar isso agora



Dylan Kunz, 23 anos, é descendente de emigrantes suíços. No século 19, os seus bisavós suíços emigraram dos cantões de Solothurn e da Turgóvia para a Argentina. Os seus avós eram cidadãos suíços e quatro dos seus cinco tios também são suíços. O seu pai Ruben e ele próprio, contudo, não são suíços. O seu pai, sem saber, perdeu a cidadania por não ter estado atento aos prazos exigidos para mantê-la.

Somente em 2021, quando o pai de 63 anos entrou em contato por e-mail com a Embaixada da Suíça em Buenos Aires, é que a família recebeu a informação de que ele não seria cidadão suíço. “Foi uma decepção enorme para toda a família e especialmente para o meu pai, pois ele passou a vida inteira a acreditar ser suíço”, conta Dylan. Entender que não era bem assim foi uma situação um pouco embaraçosa: “O meu pai e eu sempre dizíamos que a ‘a Suíça é o melhor país do mundo e que éramos suíços”, relata.

O registo do nascimento nunca chegou à Embaixada

A família Kunz sempre partiu do princípio de que Ruben, pai de Dylan, da mesma forma que os seus irmãos mais velhos, teria sido registado na Embaixada da Suíça na Argentina dentro do prazo regular. No entanto, em 1958, por ocasião do nascimento de Ruben, numa época na qual não havia e-mails, o correio argentino transportava as correspondências em parte por cavalos e carroças, não sendo, portanto, totalmente confiável. Os comunicados do nascimento de Ruben Kunz, bem como de um dos seus irmãos, registado na mesma época, não chegaram à Embaixada suíça, como concluiu a família decepcionada.

A legislação suíça determina que se uma pessoa não for registada na representação diplomática do país nem estiver inscrita no registro civil oficial até aos 25 anos de idade (em 1958, vigorava ainda o limite de 22 anos), ela perderá a cidadania. Esse foi o caso de Ruben Kunz em 1980, quando completou 22 anos.

Depois disso, ele poderia, teoricamente, dentro de um prazo de dez anos, ter entrado com um requerimento para ser novamente naturalizado. Essa oportunidade foi, porém, também perdida – visto que Ruben sempre partiu do princípio de que seria suíço. Hoje, ele tem apenas uma opção, caso queira naturalizar-se novamente: viver permanentemente na Suíça durante três anos. Isso, contudo, não é uma hipótese realista: “Para muitos de nós, que vivemos na Argentina, esse caminho é financeiramente impossível, além de que seria difícil poder trabalhar na Suíça do ponto de vista do direito de permanência”, diz Dylan.

Quando a cadeia é interrompida

Diante disso, o passaporte suíço é negado não apenas ao pai de Dylan, mas também aos seus descendentes. “Há aqui uma dependência em cadeia”, diz Barbara von Rütte, especialista em Direito Civil. Quando a cadeia é interrompida, torna-se cada vez mais difícil reaver a cidadania suíça. “Quanto mais próximo o momento da perda, maior a probabilidade de recuperar a nacionalidade”, explica.

O caso de Ruben e Dylan Kunz não é único. Nas últimas décadas, milhares de descendentes de emigrantes suíços devem ter tido o mesmo destino. “O Direito Civil suíço é muito marcado pelo princípio do jus sanguinis”, diz Von Rütte. Isso significa que a cidadania é transmitida por origem, não importando qual o local de nascimento da pessoa em questão. “A lei estipula que a cidadania suíça pode ser transmitida de geração em geração, quando a solicitação é feita”, alerta a especialista.

Um grande número de descendentes de emigrantes suíços considera os requisitos de transmissão da cidadania suíça muito rigorosos. Por isso, um coletivo, que tem Dylan Kunz à frente, lançou uma petição e colheu assinaturas de cerca de 110 cidadãos suíços e suíças no exterior, bem como de 11.500 descendentes de emigrantes suíços. O documento foi encaminhado ao Parlamento em julho de 2024.

“Nós, descendentes, somos discriminados”

“Pedimos ao Parlamento que reveja e reforme a lei que regulamenta a cidadania suíça, para que os descendentes de suíços no exterior até à quinta geração possam requerer a nacionalidade com mais facilidade. Essa reforma deve simplificar os procedimentos e reduzir as exigências burocráticas”, consta do texto da petição. O Direito Civil suíço discrimina os descendentes de cidadãos suíços no exterior ao impor restrições específicas à manutenção da cidadania, aponta o documento.

“Até ao início do século 20, a Suíça era um país de emigrantes”, diz Von Rütte. Portanto, há hoje muitos suíços de quinta ou sexta geração no exterior. Muitos acabaram perdendo a cidadania por diversas razões. Outros, contudo, conseguiram mantê-la e passá-la para os seus familiares.

Questiona-se se seria de facto tão difícil procurar uma Embaixada ou Consulado antes dos 25 anos de idade. “Esse não é um problema atual, mas histórico”, pontua Eduardo Puibusque, responsável pelo encaminhamento da petição em nome do grupo “Nacionalidade Suíça Para Descendentes“. Se hoje é evidente que os comunicados são rápidos e as informações chegam com agilidade, isso nem sempre foi assim.

Muitos perderam a cidadania por falta de informação

“É preciso considerar que a maioria dos emigrantes suíços não vivia em cidades, mas se estabelecia no campo”, lembra Puibusque. A Argentina é um país enorme, com grandes distâncias, sendo “ainda hoje difícil cortar o país de fora a fora”, observa. A ausência de conhecimento, resultante da falta de acesso a fontes de informação, levou, durante muitos anos, à perda da cidadania suíça “e isso não aconteceu apenas em áreas rurais”, comenta Puibusque. Entre outras coisas, ele refere-se às várias mudanças nas leis aprovadas ao longo das décadas.

O próprio Puibusque teve de lutar para reaver a sua cidadania suíça, pois a sua mãe a havia perdido na década de 1940, quando se casou com um cidadão argentino.

Puibusque teve sorte ao beneficiar de uma determinação transitória na lei da cidadania suíça, que permitiu a ele e à irmã que recuperassem os seus passaportes suíços. No entanto, os seus três filhos e seis netos não têm acesso à nacionalidade suíça. “Quando a minha condição de cidadão suíço foi finalmente reconhecida, os meus três filhos já haviam ultrapassado o limite de idade ‘arbitrariamente’ estabelecido”, diz ele. Para muitos descendentes, o acesso à cidadania suíça só pode ser recuperado a duras penas.

A petição reivindica que isso seja modificado. A recuperação da cidadania – de preferência até à quinta geração de parentes consanguíneos – por parte dos descendentes suíços no exterior deveria ser facilitada sem maiores obstáculos, tais como a idade ou as condições financeiras.

“Antigamente havia mais disposições transitórias que facilitavam a recuperação da cidadania suíça”, diz Von Rütte. Elas afetavam sobretudo quem havia perdido a sua cidadania devido à discriminação de género. Essas disposições foram se tornando de difícil compreensão, de forma que foram consolidadas e resumidas em 2017. “Isso também foi feito com a crença de que a maioria dos casos, afetados pelas disposições, acabaram sendo resolvidos no decorrer do tempo.”

No entanto, esse não parece ser o caso: “Somos tios, tias, filhos, filhas, netos”, diz Kunz. Todo o mundo perdeu a cidadania suíça. “Não queremos beneficiar nos do facto de sermos naturalizados outra vez, trata-se da nossa identidade e da nossa ligação com o país de origem”, conclui. Melanie Eichenberger – Suíça in “Swissinfo”


sábado, 12 de novembro de 2022

Uruguai - Nona edição do Festival Internacional de Guitarra de Maldonado

De 16 a 19 de novembro tem lugar a nona edição do Festival Internacional de Guitarra de Maldonado, no Uruguai. Este ano, o festival vai decorrer em diferentes locais de Maldonado, como em San Carlos, Punta del Este, Piriápolis e, mesmo, em Maldonado. Haverá vários concertos, masterclasses, uma palestra/lançamento de livro e a apresentação de um documentário


Este evento, que é organizado pela Direção-Geral de Cultura do Município de Maldonado e pelo Diretor Artístico e Pedagógico, Ricardo Barceló, irá contar com entrada gratuita em todas as atividades.

O Festival Internacional de Guitarra de Maldonado nasceu em 2011, fruto de uma iniciativa conjunta do guitarrista Ricardo Barceló e da Direção-Geral de Cultura do Maldonado, com o objetivo de “promover o interesse pela guitarra clássica, um instrumento de raízes profundas nacionais e regionais, bem como o gozo da música em geral”.

Desde a sua criação, grandes guitarristas reconhecidos internacionalmente passaram pelo Festival, como Álvaro Pierri, Eduardo Fernández, Jorge Cardoso, Juan Carlos Laguna, José Miguel Moreno, Juan Falú, Oscar Herrero, Daniel Wolff e Laura Young, entre outros músicos com vasta experiência.

Segundo apurámos, ao longo das últimas oito edições “têm havido várias atividades que enriqueceram significativamente a vida cultural da região, como master classes, conferências, exposições, cursos na construção de antigos instrumentos de cordas depenados – cuja realização abriu a porta ao estudo e ao desenvolvimento próspero da profissão lúdica no Departamento de Maldonado -, e o Concurso Internacional de Guitarra “Ciudad de Punta del Este””.

O nono Festival Internacional de Guitarra de Maldonado, que celebra atualmente os seus 11 anos de existência, contará com os intérpretes David Chapman (Equador/EUA), Sergio Fernández Cabrera (Uruguai), Rui Fernandes (Portugal) e Gaëlle Solal (França). Este ano o Festival recebe também o apoio do Instituto Camões, da Embaixada de Portugal no Uruguai, da Savarez, da Wallonie-Bruxelles International e da California State University Stanislaus.

Ricardo Barceló é guitarrista e compositor. Nasceu no Uruguai, mas tem também nacionalidade espanhola. Viveu por muitos anos em Madrid, mas, vive, há 25 anos, em Braga, Portugal.

É formado no Conservatório Real de Música de Madrid, mestre em Interpretação pela Escola Superior de Música e Dança de Roterdão, doutorado em Música pela Universidade de Aveiro. Ganhou os prémios “Alirio Díaz” (Sevilha, 1987) e “Abel Carlevaro” (Madrid, 1990). Foi laureado no Concurso de Composição Clássica de Guitarra Hispano-Luso “Ciudad de Badajoz”, em 2006.

É autor dos livros “La Digitación Guitarrística”; “20 Piezas Fáciles para dos y tres guitarras”; “Adestramento técnico para guitarristas” e “O Sistema Posicional na Guitarra”, e também de obras para guitarra e música de câmara, além de revisões e digitações de vários compositores. As suas obras têm sido editadas pela Real Musical, Lemoine, Carisch, Diputación de Badajoz; AvA; Labirinto, NEA e Editorial Diego Marín. É coautor da primeira tradução para castelhano, publicada em Portugal, do “Método para Guitarra” de Fernando Sor, e do livro “Canto para tocar. Toco para Cantar”. A maior parte dos seus artigos aparecem em revistas internacionais especializadas em música, tais como Il Fronimo, Roseta, Revista Portuguesa de Educação Artística, Sexto Orden, Soundboard e Revista Musical Chilena.

Gravou os CD “Aromas de Sefarad”, com o “Trío Sefarad; “Por las calles de Maldonado”, com composições próprias para guitarra solista e duos com guitarra; “Máscaras”, e “Música latinoamericana del siglo XX para guitarra”, com o patrocínio do FONAM. Além de manter atividade internacional como intérprete de guitarra clássica e docente em masterclasses, é convidado frequentemente para integrar júris e participar em conferências sobre temas ligados à história da interpretação guitarrística.

É Diretor Artístico do Festival Internacional de Guitarra de Maldonado – Uruguai, e organizador dos Encontros Internacionais de Música em Tibães – Braga. Professor na Licenciatura em Música – Guitarra clássica e Música de Câmara – do Departamento de Música da Universidade do Minho, em Braga – Portugal, e no Mestrado em Ensino de Música da mesma universidade. É Formador acreditado pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua e investigador no Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM). In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


sexta-feira, 18 de março de 2022

Brasil - Modelo de cooperação Norte-Galiza do Eixo Atlântico aplicado na fronteira com o Uruguai


O município de Santana do Livramento, na fronteira do Brasil com o Uruguai, inaugurou o primeiro gabinete de cooperação transfronteiriça do Mercosul, projeto apoiado pelo Eixo Atlântico destinado a ações piloto de atuação conjunta.

A cerimónia, que decorreu na quarta-feira, contou, entre outros, com a participação do Secretário-Geral do Eixo Atlântico, Xoan Vázquez Mao, da prefeita de Santana do Livramento, e o intendente de Rivera, Uruguai, localidades-fronteira que formam uma cidade única com mais de 191 mil habitantes.

Apesar de fazerem uma vida em comum, estes municípios, esclarece o Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular em comunicado, não podem partilhar serviços ou investimentos devido à ausência de um quadro jurídico como os existentes na União Europeia.

A criação deste gabinete decorre de um projeto proposto à União Europeia em 2020 pelo Eixo Atlântico que, com a parceria da Prefeitura de Santana Livramento, pretende desenvolver ações piloto no âmbito da cooperação transfronteiriça, o que no Mercosul denominam cooperação binacional, sob a denominação “Fronteira da Paz Sustentável”, projeto cofinanciado no âmbito das “ações exteriores da União Europeia”.

Para além da criação do primeiro Gabinete de Cooperação Transfronteiriça do Mercosul – organização intergovernamental económica constituída pelo Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela – o projeto contempla a elaboração da primeira Agenda Urbana binacional e a criação de um plano de modernização da coleta de resíduos.

Este plano, indica o Eixo Atlântico, contempla ações de caráter social para a profissionalização da coleta de resíduos sólidos, tarefa geralmente exercida pelas populações em situação de vulnerabilidade social da sociedade e que será desenvolvida pela Agência de Ecologia Urbana do Eixo Atlântico, cujos especialistas prestam assessoria às autoridades locais na modernização da gestão de resíduos sólidos.

O Eixo Atlântico refere ainda que estas ações inserem-se no contexto das estratégias de internacionalização que está a desenvolver para se posicionar, tanto na América Latina como na Ásia, e para promover a transferência de conhecimento e de boas práticas de cidades europeias e de especialistas galegos e portugueses que participam no projeto.

Ainda durante esta semana, o Eixo Atlântico vai realizar reuniões com Mercocidades e com dois ministros do governo do Uruguai, dado o interesse que este projeto despertou no Mercosul.

Na agenda incluiu-se ainda uma reunião com a Agência Brasileira de Cooperação.

Entre os temas tratados nas reuniões mantidas na quarta-feira no Brasil, está a realização no próximo ano do Primeiro Congresso de Fronteiras do Mercosul, evento no qual se espera contar com a participação dos presidentes do Brasil e do Uruguai, a presidente e o vice-presidente do Eixo Atlântico e de altos dirigentes da Comissão Europeia.

Da mesma forma, o Eixo Atlântico reuniu com Mercocidades (rede de Cidades do Mercosul) e com municípios brasileiros e uruguaios, que levantaram a possibilidade de apresentar novas iniciativas similares no âmbito de editais publicados pela União Europeia ou com o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Por sua vez, a Agência Brasileira de Cooperação levantou a possibilidade de replicar este projeto em outras fronteiras do Brasil.

A presença do Eixo Atlântico, organismo que agrega vários municípios portugueses e galegos, e a sua contribuição de conhecimento ocorre há seis anos, a pedido de municípios do Brasil, Uruguai e Argentina, onde o Secretário-Geral participou estes anos em reuniões com membros do governo da Argentina e com presidentes do Paraguai, Uruguai e Argentina. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


 

terça-feira, 20 de julho de 2021

Em defesa do Mercosul

São Paulo - Criado há 30 anos, o Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela (atualmente suspensa), é fruto da redemocratização dos seus países-membros e foi concebido com a intenção de fortalecer a economia e o bem-estar das populações. A ideia era criar uma área de livre-comércio, mesmo com imperfeições, gerando um grande mercado comum, com os produtos do bloco podendo circular livremente, com consequente barateamento de custos e aumento do consumo por meio do estabelecimento de uma tarifa externa comum (TEC).

Dificuldades da economia global, porém, acabaram por afetar os países da região e hoje se discute a reformulação dos acordos que levaram à criação do Mercosul e a perspectiva de alianças fora do bloco, como a União Europeia.

De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores, entre 2011 a 2020, o Brasil exportou US$ 54,9 bilhões a mais do que importou dos demais países do bloco, com uma pauta em que prevaleceram produtos industrializados e alimentos. É de se registrar que, nesse período, o superávit comercial perdeu apenas para a China, país para o qual o Brasil exportou US$ 158,3 bilhões a mais do que importou, sendo que as vendas para o país asiático estão concentradas em poucos produtos, especialmente ligados ao agronegócio e à indústria extrativa, que fornecem reduzido valor agregado.

O produto interno bruto (PIB) do Mercosul chegou a US$ 4,4 trilhões em 2019, o que o coloca como a quinta maior economia do mundo. Isso não é pouco. Portanto, é importante que este bloco se mantenha unido para viabilizar a retomada da economia dos seus países-membros. Ocorre que essas nações têm perfis diferentes, tanto em termos de política econômica e saúde fiscal quanto em orientação ideológica, o que atrapalha o seu desenvolvimento.

O governo brasileiro, assim como o uruguaio, por exemplo, defende medidas de modernização com mudanças de regras para destravar acordos bilaterais, ou seja, dar maior liberdade de negociação aos países-membros para negociar com outros blocos ou países. Entre as medidas propostas pelo ministro da Economia do Brasil, estão a redução da TEC do Mercosul e o fim da regra que exige unanimidade para a tomada de decisões. Neste caso, o governo argentino é totalmente contrário.

A melhor saída, porém, seria pensar coletivamente, proporcionando maior unidade ao bloco. Ocorre que a redução unilateral das tarifas possivelmente reforçaria uma já existente competição não isonômica em razão de problemas crônicos de competitividade.

Segundo estimativas do Ministério de Economia, um acordo entre Mercosul e União Europeia poderá representar um incremento no PIB de US$ 87,5 bilhões a US$ 125 bilhões em 15 anos, ao garantir para produtos nacionais acesso a insumos de elevado teor tecnológico e com preços mais baixos. A redução de barreiras, a maior segurança jurídica e a transparência das regras também irão facilitar a presença do Brasil nas cadeias globais, com geração de mais investimentos, emprego e renda.

Ocorre, porém, que o acordo está paralisado, à espera de um anexo com pautas e compromissos ambientais que sequer foram negociados. O que se sabe é que parte do acordo foi assinada em junho de 2019, após 20 anos de negociações, e que hoje o texto tramita entre revisões e traduções e aguarda a ratificação de parlamentares europeus, que já adiantaram que, da forma como está, não será ratificado.  

Entre essas reivindicações, por exemplo, está a de garantir que as cadeias de produção de produtos destinados à exportação sejam limpas, ou seja, sem qualquer origem de desmatamento ou destruição ambiental. Não devemos, porém, confundir o Brasil com seu presidente atual. Ele vai passar, mas o acordo vai ficar. Liana Martinelli - Brasil

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Liana Lourenço Martinelli, advogada, pós-graduada em Gestão de Negócios e Comércio Internacional, é gerente de relações institucionais do Grupo Fiorde, constituído pelas empresas Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Internacional. E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Mercosul: a hora da virada

São Paulo – A nomeação do ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto Franco França, em substituição a Ernesto Araújo, abre perspectivas para uma fase de recuperação do Mercosul, bloco criado em 1991 pela assinatura do Tratado de Assunção e que hoje reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e outros países associados. Como se sabe, depois de um período de crescimento, o Mercosul passa hoje por uma fase de incertezas, acentuada pelos problemas causados pela pandemia de coronavírus (covid-19), depois que o Brasil deixou de ser o principal parceiro comercial da Argentina, país que, até há poucos anos, estava entre os três principais mercados de produtos brasileiros no exterior.

Hoje, o lugar da Argentina é ocupado pela Holanda, que vem comprando principalmente soja, petróleo e combustíveis. Em contrapartida, a China passou a ocupar o posto de principal parceiro da Argentina. Reverter essa tendência é um dos maiores desafios que o novo ministro terá à frente da pasta. Para tanto, deverá deixar de lado quaisquer afinidades ou repulsas ideológicas com governos dos países parceiros, mirando apenas nos resultados comerciais. E esquecer as públicas divergências entre os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, que só contribuem para obscurecer um ambiente já turvo.

É de se lembrar que o Mercosul, de 2011 a 2020, constituiu um mercado quase cativo do Brasil, ou seja, o País exportou US$ 54 bilhões a mais do que importou dos demais parceiros do bloco, com uma pauta diversificada, que ia de produtos manufaturados a alimentos e commodities. Em uma década, o superávit comercial foi inferior apenas ao acumulado com a China, país para o qual o Brasil exportou US$ 158 bilhões a mais do que importou, com a diferença de que a pauta de exportações com a nação asiática está limitada a poucos produtos, especialmente soja e minério de ferro.

Para se ter uma ideia da importância do Mercosul, basta lembrar que o Produto Interno Bruto (PIB) do grupo está ao redor de US$ 5 trilhões, o que lhe garante a posição de quinta maior economia do planeta. Não é pouco. O Mercosul vende 63% da soja mundial e é o maior exportador de carne bovina e de frango, milho e café, o que, na verdade, sempre constitui um grande obstáculo à concretização de um acordo de livre-comércio com a União Europeia, em razão do lobby dos produtores agrícolas europeus, que o veem como uma real ameaça aos seus interesses.

Já para os parceiros do Mercosul, o Brasil exportava majoritariamente produtos industrializados, em especial automóveis. Isso significa que, quando essas transações caem, a indústria brasileira definha, com reflexos negativos na geração de renda para as famílias, impostos, ciência e tecnologia. Apesar disso, o governo brasileiro demorou a se mobilizar para reverter esse quadro, na tentativa de devolver ao Mercosul a importância que sempre teve no comércio exterior brasileiro.

Com a indicação de França para a chefia do Ministério das Relações Exteriores, aparentemente, esse imobilismo chegou ao final, pois o novo ministro, como ficou claro em seu discurso de posse, é um quadro formado dentro de uma visão pluralista e universalista que deu ao País grandes diplomatas, como Oswaldo Aranha (1894-1960), San Tiago Dantas (1911-1964), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), José Aparecido de Oliveira (1929-2007), Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010) e Alberto da Costa e Silva (1931), entre outros.

Segundo França, “não há modernização sem mais comércio e investimentos, sem maior e melhor integração às cadeias globais de valor”, o que significa que, daqui para a frente, o País terá uma política externa com um sentido universalista, “sempre guiado pela proteção de nossos legítimos interesses”. Em outras palavras: França pode abrir novos caminhos para o comércio exterior brasileiro, “sem preferências desta ou daquela natureza”. Só se espera que o principal mandatário não venha a atrapalhar esses planos. Adelto Gonçalves – Brasil

 

Adelto Gonçalves, jornalista, é assessor de imprensa do Grupo Fiorde, constituído pelas empresas Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Internacional (trading company). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Uruguai – O país de sucesso no combate à covid-19 na América do Sul

Especialistas afirmam que acção rápida do governo, um sistema de saúde eficaz e uma testagem precoce ajudaram o país na contenção do vírus. O bom resultado permitiu que 250 mil alunos retornassem às aulas em 29 de junho; desde maio, o Uruguai tem menos de 10 novos casos por dia



O “segredo do sucesso do Uruguai contra a Covid-19”. Este é o título de um artigo de opinião, publicado no blog do Fundo Monetário Internacional, FMI, na passada segunda-feira.

As economistas Natasha Che e S. Pelin Berkmen, que assinam o artigo, afirmam que o Uruguai tomou as medidas certas que levaram aos baixos níveis de contaminação. Desde maio, o país sul-americano regista menos de 10 novos casos por dia.



Faixa etária

A tendência contraria o movimento da curva da Covid-19 na América Latina, que tornou-se o epicentro da pandemia, segundo a Organização Mundial da Saúde, OMS.

Para as economistas do FMI, o governo do Uruguai agiu rápido ao anunciar uma emergência nacional, cancelar eventos públicos, fechar as fronteiras e impor quarentena obrigatória a todos os viajantes de países com números altos da infecção. Estas medidas foram tomadas duas semanas antes dos primeiros casos serem notificados no país, o que ocorreu em meados de março.


Uma das maiores preocupações das autoridades era com os cidadãos de mais de 65 anos de idade, considerados população de risco. O Uruguai é o país com maior número de pessoas nesta faixa etária, na América Latina.

Campanhas

Por causa do bom resultado, 250 mil alunos puderam retornar às aulas em 29 de junho.

O país jamais decretou o confinamento obrigatório. Para as especialistas, o sucesso da contenção do vírus é resultado de um pacote de medidas levadas a cabo. Entre elas, uma campanha de consciencialização sobre higiene e cuidados de saúde. Logo no início, o governo uruguaio formou um conselho de médicos e cientistas que coordenou acções com o sector privado. O acesso às escolas e centros comerciais foi fechado pelo governo federal, que iniciou a testagem e rastreamento para evitar a propagação da Covid-19.

As autoridades locais também incentivaram o uso de máscaras, um dos primeiros países da América Latina a fazê-lo, e na área da comunicação, os uruguaios contam com atualizações diárias e um aplicativo de telemóvel para manterem-se informados.

O FMI ressalta que o “aplicativo móvel Coronavírus UY permite o monitoramento de casos e emite alertas se o usuário entrar em contato próximo com pessoas que testaram positivo.”

Políticos reduziram seus salários

Para ajudar, o presidente do país, integrantes do gabinete e funcionários públicos de alto escalão decidiram reduzir os seus salários para financiar o fundo, que também contou com apoio de todos os partidos políticos uruguaios.

O blog finaliza lembrando que a assistência médica de qualidade no Uruguai, onde a saúde representa mais de 20% dos gastos do governo contra a média de 12% da América Latina tem disso fundamental para controlar o novo coronavírus.

Um outro pilar foi o auxílio ao desemprego para socorrer os trabalhadores afectados pelas consequências económicas da pandemia. Para as autoras do artigo, a baixa densidade populacional, especialmente na capital uruguaia Montevidéu também ajudou a manter o vírus sob controle. In ONU News – Nações Unidas



sexta-feira, 5 de junho de 2020

Brasil - Entre 30 países que receberão fundos da FAO para biodiversidade

Foram alocados US$ 176 milhões para 24 projetos coordenados pela agência da ONU. O projeto do Brasil e Uruguai será na Lagoa Mirim, localizada na fronteira, e que é habitat de milhões de aves migratórias



A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, saudou o recebimento de um fundo de US$ 176 milhões para executar projetos de biodiversidade em 30 países. A iniciativa inclui o Brasil, a única nação de língua portuguesa no grupo.

Reversão

O dinheiro foi destinado à FAO pelo Conselho da Global Environment Facility, uma organização parceira.

Ao todo, serão executados 24 projetos para adaptação à mudança climática, promoção de sistemas sustentáveis de alimentação, salvaguarda de águas internacionais e reversão da degradação do solo.

A proteção da biodiversidade é o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente, marcado nesta sexta-feira.

Os programas querem mitigar o impacto das crises ambientais globais sobre a produtividade e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas em cinco continentes.

Fronteira do Brasil com Uruguai

Além do Brasil, a iniciativa inclui Nicarágua, Guiné, Quênia, Uzbequistão, Uruguai, Iêmen e Jordânia, entre outros.

Segundo a FAO, Brasil e Uruguai deverão utilizar os recursos do programa para gerenciar a Lagoa Mirim, localizada na fronteira entre os dois países. O sítio de água doce atrai milhões de aves migratórias.

Iniciativas similares ocorrem entre Camboja e Vietname para promover a pesca sustentável e ajudar a reduzir a captura em excesso de estoques de atum.



Extinção

Todos os projetos serão executados e financiados em parceria com os governos que participam da iniciativa incluindo México, Marrocos, Peru, Indonésia, Argélia, Geórgia, Turquia, Tuvalu e Tailândia, entre outros.

Desde que se tornou parceira da instituição em 2006, a FAO já apoiou mais de 130 governos na implementação de 200 projetos no valor de quase US$ 1 bilhão.

Até o momento, a cooperação da Global Environment Facility com a FAO já beneficiou 5 milhões de pessoas criando 350 mil empregos nas comunidades rurais.

A agência afirma que essas iniciativas ajudaram a proteger quase 200 ecossistemas marinhos e mil variedades de plantações e espécies animais da extinção. ONU News – Nações Unidas

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Mercosul: que futuro?

A decisão do governo argentino de abandonar as negociações para a ratificação do Acordo de Livre-Comércio com a União Europeia, assinado no ano passado, deixou o Mercosul em xeque, pois, sem a assinatura de um dos quatro sócios – os demais são Brasil, Uruguai e Paraguai –, o tratado não terá validade. O governo argentino do novo presidente Alberto Fernández também não aprova as negociações para a assinatura de novos tratados de livre-comércio com a Coreia do Sul, Índia, Líbano e Cingapura, que vinham em andamento, sob a alegação de que, diante do caos mundial previsto em função da pandemia do coronavírus (covid-19), o melhor é aguardar para ver o tamanho da encrenca.

É o que se pode depreender do comunicado expedido pelo Ministério das Relações Exteriores daquele país, que prevê um “quadro desolador”, já que as organizações internacionais estimam queda do produto interno bruto (PIB) nos países mais desenvolvidos, uma queda repentina no comércio global de até 32% e “um impacto imprevisível na sociedade”. Em contrapartida, Brasil, Uruguai e Paraguai não admitem paralisar as negociações com aqueles países, já que há mecanismos legais que amparam a continuidade das tratativas sem a participação da Argentina.

Isso se dá porque, apesar dos insistentes alertas dos especialistas, o Mercosul não soube criar os mecanismos necessários para que o bloco blindasse a questão comercial da influência político-partidária, tanto de esquerda como de direita. Foi assim ao tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve à frente do governo brasileiro por 13 anos e meio e está sendo agora com o presidente Alberto Fernández, peronista de centro-esquerda, que, desde que assumiu, sempre se mostrou contrário à participação argentina no Mercosul. 

Seja como for, sem a Argentina, o Mercosul nunca será o mesmo. E parece caminhar em direção a sua flexibilização. Se esse for o caminho, nada melhor que o governo brasileiro aproveite o momento para buscar maior acesso à inovação e às tecnologias das cadeias produtivas globais, o que só será possível a partir do relaxamento das regras que proíbem os parceiros do bloco de assinar acordos bilaterais sem a aprovação dos demais. Nesse caso, se Paraguai e Uruguai, que têm governos afinados com o governo brasileiro, concordarem, os três parceiros ficam livres para buscar um relacionamento comercial mais aberto com outras nações.

Obviamente, se o governo brasileiro tivesse à frente do Itamaraty um diplomata especializado em comércio exterior, a situação não teria chegado a esse ponto, já que a Argentina até 2019 constituía o terceiro mais importante parceiro comercial  do Brasil no mundo e o principal na América Latina, respondendo por 5% das exportações brasileiras, atrás somente de China e Estados Unidos. E não se pode jogar fora um mercado como esse por causa de questiúnculas político-ideológicas, ainda que aquele país esteja à beira de entrar em moratória.

É claro que, mesmo sem a Argentina, o Mercosul pode continuar e manter os acordos vigentes com Índia e Israel e ratificar os tratados com Palestina, Egito e a União Aduaneira de Países do Sul da África (Sacu), bem como levar a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), que reúne 13 países latino-americanos, a se tornar uma área de livre-comércio, o que equivale a dizer sem tarifas. O que se espera é que o governo brasileiro leve adiante esse processo com a participação do setor privado, pelo menos com consultas à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Já seria bastante. Milton Lourenço – Brasil


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Milton Lourenço é presidente do Grupo Fiorde (Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Exterior) e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agentes de Cargas, Comissárias de Despachos e Operadores Intermodais (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br