Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Timor-Leste - Culinária da Indonésia ganha espaço no país reforçando laços de amizade

A chef aprendeu a cozinhar com a mãe indonésia e ao chegar a Timor-Leste passou a vender pratos típicos com especiarias que foram caindo no gosto dos timorenses. De encomendas esporádicas, Egha passou a fornecer serviços de buffet a eventos


Uma chef mudou-se para o país vizinho, Timor-Leste, com o marido por causa do trabalho dele. Ao dividir o tempo aprendendo o novo idioma e um ritmo de vida diferente, ela decidiu dedicar-se ao que sabia fazer melhor, cozinhar os pratos aprendidos com a mãe na Indonésia.

Esta é a história de Egha, que conta ter aprendido a cozinhar antes mesmo de saber nomear os temperos que usava.  Ela lembra que foi muito incentivada pelo marido para abrir o próprio restaurante, mas após chegar a Timor-Leste, ele veio a falecer, de repente. E Egha voltou para a Indonésia.

Pratos esgotados para o almoço

Depois de um tempo de luto, a chef percebeu que o seu lugar era em Díli, onde ao lado do marido, descobrira a sua vocação. Arrumou as malas e retornou à capital timorense para realizar o sonho de recomeçar a vida fazendo o que fazia melhor: cozinhar. No início, vendia a comida para vizinhos e amigos, mas logo depois a produção teve de aumentar pela procura popular.

Egha cresceu tanto que abriu o próprio negócio de buffet integral. Ali, ela fornece pratos indonésios como o ayam krispi, ou frango frito crocante, além de pratos rotativos que na maioria dos dias, acabam esgotados na hora do almoço.

A história de Egha parece-se com a de muitos migrantes que tiveram os seus negócios afetados na época da pandemia da Covid-19. Muitos que haviam construído vidas tranquilas e estáveis ​​de repente viram-se sem trabalho e sem opções.

Egha decidiu abrir as portas da sua cozinha e começou a acolher outros migrantes que haviam perdido os seus empregos e não tinham para onde ir. Ela ofereceu trabalho, compartilhou os seus conhecimentos e deu a eles uma oportunidade para recomeçar.

Gado-gado, sucesso do público

Ao ser perguntada pela Organização Internacional para Migrações, OIM, ela diz que se há algum prato que melhor captura a alma deste warung, é o gado-gado.

À primeira vista, parece uma salada simples: legumes, ovos cozidos, tofu frito e tempeh. Mas o prato completa-se com o seu molho de amendoim – rico, cremoso, quente e perfumado – que transforma cada elemento em algo maior do que a soma das suas partes.

O nome gado-gado significa “mistura-mistura” em indonésio. Não existe uma única versão definitiva. O prato muda dependendo dos ingredientes disponíveis. Diferentes ingredientes, texturas e origens são reunidos sob o mesmo molho. Cada etapa importa e cada ingrediente desempenha o seu papel.

Hoje, Egha emprega cerca de 10 pessoas no seu warung, muitas delas migrantes. O trabalho sustenta a sua família, bem como as famílias daqueles que trabalham com ela. Para muitos funcionários, é mais do que um local de trabalho. É um lugar de pertença, onde podem reconstruir as suas vidas e apoiarem-se uns aos outros. Andrea Empamano - Organização Internacional para Migrações ONU News 


sexta-feira, 3 de abril de 2026

África - Preços do cacau afundam 65% em apenas dois anos

A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta mundial, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais


A evolução recente do preço do cacau nos mercados internacionais tem sido marcada por uma forte correcção, com quedas acumuladas na ordem dos 65% em cerca de dois anos, depois de um período de máximos históricos que alimentou expectativas de escassez prolongada. Depois de um pico de 11.675 USD/ton que aconteceu em Dezembro de 2024, o preço nos mercados internacionais tem vindo a cair até ao mínimo de 2798 USD/Ton em Janeiro deste ano, tendo no I trimestre de 2026 valorizado ligeiramente. Esta inversão reflecte, em primeiro lugar, um ajustamento entre oferta e procura, após um ciclo de forte valorização impulsionado por choques climáticos na África Ocidental e por constrangimentos logísticos globais.

Com a normalização parcial das colheitas, sobretudo na Costa do Marfim, e a reposição de stocks por parte das grandes indústrias transformadoras, os preços começaram a ceder, num movimento também influenciado pela desaceleração do consumo em mercados-chave, como a Europa e EUA, pressionados por inflação e perda de rendimento disponível. A isto junta-se a componente financeira, com investidores a reduzirem posições especulativas em commodities agrícolas, acelerando a trajectória descendente das cotações. É neste contexto de volatilidade que se reafirma a centralidade da África Ocidental no mercado mundial do cacau.

A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais, mas também expõe o mercado a ciclos de instabilidade, dado que qualquer perturbação climática ou fitossanitária nestes países tem impacto imediato na oferta global.

Apesar deste domínio africano, começa a desenhar-se uma reconfiguração gradual do mapa produtivo, com a América Latina a ganhar protagonismo. O Equador destaca-se como o principal produtor fora de África, consolidando uma estratégia assente na qualidade, nomeadamente no segmento de cacau fino e de aroma, destinado a nichos premium da indústria do chocolate. Peru, República Dominicana e Colômbia seguem o mesmo caminho, ainda que com volumes mais modestos, mas com maior incorporação de valor. Esta aposta evidencia uma tentativa de fugir à lógica tradicional de exportação de matéria-prima, procurando capturar uma fatia mais significativa da cadeia de valor.

Já a Indonésia, que no passado ocupou posições cimeiras no ranking mundial, enfrenta actualmente uma trajectória mais errática. Continua a ser o maior produtor asiático, mas tem perdido competitividade devido ao envelhecimento das plantações, à menor renovação tecnológica e a problemas de produtividade, factores que têm limitado o seu peso relativo no mercado global.

Apesar da diversidade crescente de produtores, o destino do cacau mantém-se altamente concentrado. A esmagadora maioria da produção mundial é exportada para a Europa, onde se localizam as principais indústrias de transformação e fabrico de chocolate. Este desequilíbrio estrutural evidencia uma clivagem persistente: os países produtores, maioritariamente em África e na América Latina, continuam dependentes da exportação de cacau em bruto, enquanto o valor acrescentado é capturado nas economias industrializadas, perpetuando uma relação desigual numa das cadeias agroindustriais mais relevantes à escala global. Hermenegildo Ferreira – Angola in “Expansão”


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Timor-Leste - Bolseiros da Bolsa Sander Thoenes assumem compromisso de honrar legado do jornalista holandês morto no país

Quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia são os primeiros bolseiros da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e independente. Após uma formação intensiva nos Países Baixos e encontros com instituições e redações de referência, os participantes assumem o compromisso de honrar o legado do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999


Nas duas primeiras semanas de fevereiro deste ano, quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia, selecionados entre cerca de uma centena de candidatos, integraram a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e de interesse público, perpetuando a memória do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999.

Uma das selecionadas, Antónia Kastono Martins, jornalista e diretora do Diligente, em Timor-Leste, que destacou a importância da experiência. “É uma experiência muito rica, onde aprendi coisas novas, nomeadamente ferramentas e técnicas para melhorar o trabalho de investigação. Isso é muito importante para mim e para o nosso órgão de comunicação social, que pretende investir mais em reportagens investigativas”, afirmou.

Também Juan Robin, jornalista do Narasi, um conhecido órgão de comunicação social da Indonésia, sublinhou que o programa reforçou o seu sentido de responsabilidade perante o público. “Através da verificação de factos e de uma investigação informativa rigorosa e abrangente, conseguimos evitar a desinformação”, acrescentou.

A bolsa destacou igualmente a importância da ética e da responsabilidade no contexto digital. Retyan Sekar, jornalista do Kumparan, na Indonésia, salientou que ser jornalista na era digital exige uma postura crítica perante as novas ferramentas.

“Ser um jornalista responsável na era digital não significa apenas responsabilizar o poder, mas também utilizar a inovação digital, como a Inteligência Artificial, com pensamento crítico e responsabilidade ética”, partilhou.

“Para mim, esta bolsa de estudo é uma oportunidade para aprimorar as minhas competências de verificação de factos e de pensamento crítico, sempre que decidir produzir conteúdos para a minha plataforma”, afirmou Ricardo Valente Araújo, fundador da Gen Z Talk Timor-Leste, que cria conteúdos exclusivos dirigidos a jovens.

O legado de Sander Thoenes

Sander Thoenes foi um jornalista holandês que trabalhava na Indonésia em 1999 para o Financial Times, jornal britânico de referência.

Após 98,5% dos timorenses terem votado pela independência no referendo de 30 de agosto de 1999, foi destacado para cobrir a situação em Timor-Leste no período pós-consulta popular.

Os dias que se seguiram ao referendo ficaram marcados pelo medo e pela violência — um período conhecido como Setembro Negro. Registaram-se assassinatos, incêndios generalizados e deportações forçadas para a Indonésia. Sander Thoenes, então com apenas 30 anos, tornou-se uma das vítimas dessa tragédia.

Enquanto muitos procuravam fugir do conflito, Sander Thoenes, juntamente com outros jornalistas internacionais, deslocou-se para o território. Estiveram em Díli antes do referendo, mas foram expulsos logo após a votação devido à tensão que se seguiu. No entanto, com a entrada das forças australianas, os jornalistas aproveitaram para regressar ao território.

Thoenes chegou a Díli a 21 de setembro de 1999. No mesmo dia, pediu a um timorense que o conduzisse pela cidade, passando por Becora, considerada uma das zonas mais perigosas por ser um centro de presença militar indonésia. Apesar do alerta do condutor, decidiu avançar e acabou por ser morto em Becora, Díli.

“Percebemos que também podem silenciar-nos”

Para Step Vaessen, jornalista da Al Jazeera e amiga de Sander Thoenes, a sua morte representou um dia negro para o jornalismo.

“Foi um ponto de viragem para mim, porque percebi então que, enquanto jornalistas, não somos intocáveis. Eu achava que estava apenas a fazer o meu trabalho, a escrever uma história, e que não fazia parte da história. Mas, de repente, percebemos que também podem silenciar-nos, até para sempre”, confidenciou, recordando que também era jovem na altura.

Step Vaessen foi a primeira a propor a criação da bolsa, considerando que muitas pessoas ainda desconheciam a história do colega. Para si, a iniciativa pretende manter viva a memória de Sander Thoenes e dar continuidade ao seu legado, formando novos jornalistas comprometidos.

“Temos agora quatro a quem quisemos dar esta responsabilidade de continuar este trabalho. Há muito a discutir entre nós, porque temos de nos esforçar nesta carreira.”

Inspirados pela coragem e pelo impacto

Para Antónia Martins, a bolsa reforçou a necessidade de continuar a escrever com coragem, realizando investigações de forma cautelosa, ética e sustentada nas ferramentas adquiridas durante a formação.

Juan Robin afirmou que o legado de Sander Thoenes é claro: “produzir reportagens ousadas, impactantes e de grande relevância”. O próprio jornalista venceu recentemente um prémio com um vídeo-reportagem que expõe como a mineração de níquel na Indonésia é justificada em nome do bem público e da transição verde, quando, na prática, serve para extrair riqueza para elites, à custa da vida das populações, da saúde pública, do ambiente e da própria democracia.

Também Retyan Sekar afirmou sentir-se inspirada pela coragem de Sander Thoenes e motivada para se adaptar às mudanças no setor, “mantendo-me fiel a um jornalismo baseado em factos, na empatia e no interesse público”.

Ricardo compromete-se também a continuar a procurar a verdade e a produzir conteúdos escritos.

“Queremos mostrar às novas gerações de jornalistas o quão importante é continuar a nossa profissão e manter-nos fiéis aos factos, independentes, corajosos e firmes, tal como Sander Thoenes”, concluiu Step Vaessen.

Formação nos Países Baixos e contacto com instituições

Esta foi a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa da Foreign Policy Community of Indonesia, em colaboração com a Embaixada do Reino dos Países Baixos na Indonésia e a RNW Media.

Durante cinco dias, os bolseiros participaram num curso sobre jornalismo ético, impactante e corajoso no Centro de Formação em Media da RNTC, nos Países Baixos. Tiveram ainda oportunidade de visitar a Câmara Baixa dos Estados Gerais, órgão legislativo neerlandês, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde aprofundaram o conhecimento sobre o funcionamento do sistema político do país.

Os jovens jornalistas visitaram igualmente a Associação de Jornalistas Holandeses (NVJ) e reuniram-se com repórteres experientes na área da investigação, nomeadamente dos meios independentes Investico e Follow the Money.

O programa incluiu ainda visitas a órgãos de comunicação social de referência nos Países Baixos, como a NOS, serviço público de radiodifusão, e o de Volkskrant, jornal privado de circulação nacional e grande influência.

A experiência foi enriquecida pelo encontro com a família de Sander Thoenes, Peter e Eveline. Para Ricardo Araújo, este foi o momento mais inspirador, ao ouvir a história e os valores do jornalista holandês. As oportunidades de trocar ideias com jornalistas holandeses também lhe pareceram interessantes.

Juan Robin, por sua vez, destacou o momento de apresentação das ideias para futuros projetos com impacto público. “É memorável, porque consegui aplicar diretamente o valor da coragem de Sander Thoenes, algo que não pratico todos os dias”, partilhou. O jornalista espera poder produzir mais conteúdos de impacto, apesar dos desafios que a imprensa indonésia enfrenta atualmente.

O momento que mais inspirou Antónia Martins foi conhecer a história de um média independente e privado, dedicado exclusivamente à investigação. No início, não produzia notícias diárias, mas conseguiu sobreviver e atualmente conta com dezenas de jornalistas, publicando um artigo investigativo por dia. “O desafio deve ser enorme, mas mantiveram-se fiéis ao modelo que escolheram e conquistaram a confiança do público que os apoia, permitindo-lhes continuar a investigar e a escrever”, observou a jornalista.

Retyan Sekar também partilhou o seu momento mais memorável, quando conheceu os jornalistas de Timor-Leste e a família de Sander Thoenes. “Estamos ligados pela história, pela responsabilidade e, felizmente, por valores partilhados. É incrível pensar que este programa consegue reunir-nos, vindos de todos os cantos do mundo e de diferentes gerações, por causa do legado de um jornalista. Aquele momento fez-me perceber o quão poderoso pode ser o jornalismo na construção de ligações humanas.” In Diligente” – Timor-Leste


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Indonésia - Fé e diversão criam polémica no mundo islâmico

Uma música, um palco e um vestido sensual foram suficientes para acender um debate nacional sobre os limites entre a fé e a diversão.


Em Banyuwangi, (Java Oriental), foi montado um palco para celebrar Isra’ Mi’raj, uma das noites mais sagradas do Islão, que comemora a viagem do Profeta Maomé de Meca à Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, e a sua ascensão ao céu. O local era destinado a sermões e orações.

No dia 16 de Janeiro, o que se seguiu aos sermões e orações foi algo completamente diferente: uma cantora de dangdut, de vestido justo, subiu ao palco, com as ancas a balançar ao ritmo animado da dança moderna no dialecto Osing, e um homem juntou-se para dançar e dar-lhe gorjeta.

Alguém filmou tudo. Em poucas horas, o vídeo espalhou-se pelas redes sociais, incomodando muitas pessoas.

O Isra’ Mi’raj é solene, enquanto as apresentações de dangdut prosperam na proximidade física e na interacção com o público. Para os críticos, os dois mundos colidiram.

Os organizadores insistiram que não houve desrespeito. Muhammad Hadiyanto, chefe da comissão local, disse que, antes do início da música, o programa religioso terminara e os clérigos tinham saído. A apresentação, segundo o próprio, apenas tinha como objectivo entreter os membros da comissão durante a limpeza.

O pedido de desculpas pouco fez para aplacar a indignação. Os líderes religiosos consideraram-no uma falha moral.

“Este incidente é profundamente lamentável”, disse Sunandi Zubaidi, vice-presidente do Conselho de Ulemás da Indonésia (MUI) de Banyuwangi. “A nobreza da dakwah (pregação islâmica) foi manchada por acções que não reflectem os valores islâmicos.”

Alertou que os acontecimentos sagrados não devem ser misturados com actos que conduzam à imoralidade, incluindo a exposição da aurat (partes íntimas do corpo segundo o Islão), a dança erótica e o ikhtilat (mistura entre homens e mulheres). Advertiu mesmo que tais acções podem constituir blasfémia.

O parlamento fez eco da preocupação. O deputado Singgih Januratmoko disse que a questão atinge o cerne da forma como a sociedade protege a santidade da religião. “A alegação de que o entretenimento ocorreu após o evento principal não resolve a questão por si só”, frisou, defendendo que, “do ponto de vista religioso, o cenário, os símbolos e o contexto são indissociáveis”.

A polícia disse que não foi cometido qualquer crime, mas confirmou-se que o espectáculo não constava na licença do evento.

Os organizadores devem compreender a natureza de um evento e garantir que as apresentações estão alinhadas com o seu conceito e público. Para ocasiões religiosas, isto pode significar seleccionar estilos de “música religiosa”, como conjuntos de percussão, cantores com vestes modestas ou canções religiosas, observou Said.

“Quando um vídeo se torna viral, as pessoas só vêem o que acontece no palco. Não vêem a preparação nos bastidores – a coordenação, os briefings, os avisos. No entanto, a reacção do público é muitas vezes: ‘Porque é que o dangdut é assim?’”, acrescentou.

O dangdut, um dos géneros musicais mais populares da Indonésia, é construído sobre ritmos hipnóticos, semelhantes aos da tabla, e mistura percussão indiana, melodias malaias e frases árabes. Surgiu na década de 1930 e ganhou destaque na década de 1950, durante a campanha cultural anti-ocidental do Presidente Sukarno, que restringiu os filmes de Hollywood, mas permitiu o cinema hindi. Na década de 1960, começaram a aparecer cantores locais, embora o género se tenha mantido intimamente ligado às aldeias e classes sociais mais baixas.

Na década de 1970, o indonésio Rhoma Irama, o “Rei do Dangdut”, electrificou o dangdut com guitarras e influências do rock, inspiradas em bandas como os Deep Purple, levando o género para além das comunidades rurais. Renomeou o seu grupo, Soneta, como “A Voz do Muçulmano”, fundindo o dangdut com temas islâmicos, introduziu a separação de géneros em palco e substituiu elementos do rock por desempenhos com temática religiosa.

Os primeiros concertos foram recebidos com hostilidade, com pedras e sandálias atiradas para o palco. Inicialmente, a MUI (Municipal Indonesia University) declarou haram – proibido pela lei islâmica – cantar versículos do Alcorão, mas posteriormente endossou o trabalho da lenda do dangdut.

Tal como outras formas de arte musical indonésia, como o jaipongan e campursari, o dangdut tem incorporado cada vez mais letras com conotação sexual e danças sensuais, movimentos que testam limites na maior nação de maioria muçulmana do mundo.

“Esta arte existe porque há um público para ela. A questão não é o gosto, mas o local. Num evento religioso, diria que este tipo de desempenho é altamente inapropriado, indecente e impróprio” concluiu o etnomusicólogo Endo Suanda. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Macau - Mercado português de visitantes foi o que mais cresceu em 2025

A RAEM registou em 2025 um acréscimo de cerca de 14% nos visitantes internacionais, incluindo mais de 14.300 oriundos de Portugal, mercado que teve o maior crescimento anual, ao subir 43,5%. No entanto, a China Continental aumentou o seu peso nas entradas de visitantes, passando a representar 72,4% do total


Os esforços de diversificação dos visitantes em Macau produziram alguns resultados em 2025, com os mercados internacionais a registarem uma subida de 13,7% em termos anuais. Segundo os dados actualizados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), Macau recebeu 2.755.474 visitantes internacionais, o que corresponde a 6,88% do total, uma percentagem que, todavia, ficou aquém dos 6,93% do ano anterior, devido ao crescimento acima da média do mercado da China Continental.

Portugal foi responsável pelo maior aumento entre os visitantes internacionais, embora o seu peso continue a ser quase inexpressivo no contexto geral do turismo de Macau. Ao longo de 2025, o território recebeu 14.331 visitantes de Portugal, número que ilustra um acréscimo homólogo de 43,5% e equivale a 0,04% do total. Desde 2008, quando começaram a ser compilados os registos das origens dos visitantes, o número mais elevado de entradas portuguesas foi atingido em 2017 (16.259).

Os Serviços de Turismo também retiraram dividendos da aposta no Sudeste Asiático, sobretudo junto dos visitantes das Filipinas (540.284), Indonésia (208.043), Malásia (188.977) e Tailândia (185.963), que cresceram 9,5%, 13,6%, 3,9% e 38,1%, respectivamente, face a 2024, compensando a quebra de 1,7% no mercado de Singapura (117.165).

Excluindo a Grande China, a Coreia do Sul foi a principal fonte de visitantes, com 547.638 (+11,3%). A DSEC destaca ainda os casos do Japão (159.455), EUA (162.460) e Índia (114.040), devido aos acréscimos de 26,1%, 9,8% e 9,8%, respectivamente.

No cômputo geral de 2025, o número de entradas de visitantes na RAEM totalizou 40.069.360, mais 14,7% em termos anuais, atingindo um novo recorde absoluto. Os dados incluem 23.524.943 excursionistas (+24,6%) e 16.544.417 turistas (+3,1%) num ano em que o período médio de permanência dos visitantes foi de 1,1 dias, menos 0,1 dias do que em 2024, devido ao reforço da proporção das excursões.

Os visitantes do Interior da China aumentaram 18,5% para 29.017.164, representando 72,4% do total, mais 2,3 pontos percentuais do que em 2024. Este crescimento foi fomentado pelos portadores de visto individual (15.440.699), que subiram 25,7%.

Já os visitantes de Hong Kong (7.300.582) e Taiwan (996.140) aumentaram 1,7% e 19,4%, respectivamente.

Preços dos quartos de hotéis caíram 3,5% em 2025

O preço médio dos quartos de hotéis em Macau desceu 3,5% para cerca de 1353 patacas em 2025, face ao ano anterior, segundo dados da Associação de Hotéis publicados no site dos Serviços de Turismo. Em 2024, os preços tinham subido 3,1% para 1402 patacas. No ano passado, a quebra foi impulsionada pelos quartos de cinco estrelas, cujo preço médio desceu 5% para 1513 patacas, bem como pelas unidades de três estrelas, onde se registou uma diminuição de 2,4% para 936 patacas. Em sentido contrário, os quartos de quatro estrelas encareceram 0,7%, para 1124 patacas. O preço médio tem em conta informações de 48 hotéis, incluindo 27 de cinco estrelas, 14 de quatro estrelas e sete de três estrelas. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


sábado, 13 de dezembro de 2025

Timor-Leste - Discute fronteiras marítimas e acordo para o Greater Sunrise

A discussão das fronteiras marítimas com a Indonésia e a exploração do Greater Sunrise são assuntos que vão dominar Timor-Leste em 2026, ano em que também deverão começar a ser conhecidos candidatos para as presidenciais de 2027


A exploração do campo de gás Greater Sunrise, localizado a 150 quilómetros de Timor-Leste e a 450 quilómetros de Darwin, tem estado envolto num impasse, com as autoridades timorenses a defenderem a construção de um gasoduto para a costa sul do país e a australiana Woodside a defender uma ligação à unidade já existente em Darwin.

O consórcio para a exploração daquele campo é constituído pela timorense Timor Gap (56,56%), a operadora Woodside Energy (33,44%) e a Osaca Gás (10,00%).

O impasse levou a ‘joint venture’ a solicitar um estudo conceptual elaborado pela empresa britânica Wood, que confirmou que a viabilidade do desenvolvimento do Greater Sunrise em Timor-Leste, é essencial para o Governo desenvolver o projeto Tasi Mane.

O Tasi Mane é um projeto que prevê a construção de infraestruturas para desenvolver a indústria petrolífera, nomeadamente a construção em Natarbora de um polo para uma refinaria, um complexo petroquímico e uma unidade de gás natural liquefeito e no Suai um centro logístico para apoiar a exploração e produção de petróleo e gás no Mar de Timor.

As pretensões dos timorenses ganharam um novo ímpeto no final deste ano, depois da assinatura entre o Ministério do Petróleo e Recursos Minerais de Timor-Leste e a Woodside Energy de um acordo de cooperação para realizar estudos e atividades para desenvolver o conceito de Gás Natural Liquefeito no país.

O acordo representa um marco significativo nos esforços de longa data entre Timor-Leste e a Woodside para desbloquear o valor dos campos de gás de Greater Sunrise.

No âmbito do acordo, vão ser realizados estudos para o projeto de Gás Natural Liquefeito em Timor-Leste com capacidade de produzir cerca de cinco milhões de toneladas por ano, incluindo fornecimento de gás para uso doméstico e uma unidade para extrair hélio.

Segundo o Governo, a implementação daquele projeto pode gerar mais de 78 mil milhões de dólares em impostos diretos e ‘royalties’ para o país e mais de 17.000 postos de trabalho.

No próximo ano também vão prosseguir as negociações das fronteiras marítimas com a Indonésia, que tiveram início este ano.

Timor-Leste deu início, em agosto, à primeira ronda formal de negociações da fronteira marítima com a Indonésia, após mais de uma década de diálogo informal, encontros exploratórios e trocas de informação técnica, mas segundo o primeiro-ministro timorense começou efetivamente na semana passada. A fronteira terrestre entre os dois países ainda não está concluída, faltando delimitar um pequeno trecho em Oecussi.

No próximo ano também se devem começar a conhecer os candidatos às eleições presidenciais de 2027, numa altura em que Timor-Leste debate alterações à Constituição para aplicar no país o sistema de Governo presidencialista, em substituição do actual semipresidencialismo de pendor parlamentar.

As alterações à Constituição de Timor-Leste têm de ser aprovada por maioria de dois terços dos 65 deputados em efetividade de funções no Parlamento Nacional.

Em 2026, Timor-Leste vai assinalar também o 35.º aniversário do massacre do cemitério de Santa Cruz, cujas imagens correram mundo e foram determinantes para o processo que terminou com a ocupação indonésia. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


sábado, 27 de setembro de 2025

Angola e Indonésia reforçam cooperação bilateral com assinatura de acordo

Angola e a Indonésia rubricaram, em Nova Iorque, um memorando de entendimento sobre o Estabelecimento de uma Comissão Conjunta para a Cooperação Bilateral


O instrumento jurídico foi assinado pelo chefe da diplomacia angolana, Téte António, e o seu homólogo da Indonésia, Sugiono, de acordo com uma nota do Ministério das Relações Exteriores.

Na ocasião, as partes manifestaram o interesse em expandir e fortalecer as relações e a cooperação bilaterais de forma duradoura e sustentada, estando convencidos da necessidade de uma cooperação mais e eficaz, com base em princípios de igualdade, benefício mútuo e pleno respeito pela soberania de cada país.

As Partes estabelecem por meio deste instrumento, uma Comissão Conjunta para a Cooperação Bilateral, para facilitar a consulta e cooperação entre os dois países em várias áreas de questões bilaterais, regionais e globais, que podem incluir os campos político, económico, comercial, cultural e técnico, bem como outros campos de interesse comum. In “Jornal de Angola” - Angola


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Timor-Leste – Primeiro-ministro diz que a Indonésia está comprometida com o direito internacional

Xanana Gusmão afirmou que a Indonésia está comprometida com o direito internacional no âmbito da fronteira marítima com Timor-Leste. O primeiro-ministro timorense disse que as autoridades indonésias vão negociar com “boa-fé”

O primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, disse que a delegação da Indonésia está comprometida com o direito internacional para discutir a fronteira marítima com Timor-Leste.

“O representante da Indonésia, Laurentius Amrih Jinangkung, chefe da delegação indonésia que veio iniciar as discussões, afirmou que têm vontade de participar com boa-fé, de acordo com o direito internacional, para que possamos alcançar algo que reforce ainda mais a nossa amizade”, afirmou o primeiro-ministro.

Xanana Gusmão falava aos jornalistas após saudar a delegação enviada pelo Presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, para dar início formal à primeira ronda de negociações da fronteira marítima entre os dois países.

O primeiro-ministro recordou que as negociações formais sobre a fronteira marítima têm lugar após mais de uma década de diálogo informal, encontros exploratórios e trocas de informação técnica.

“Este pedido já tinha sido feito por nós há muito tempo, mas a Indonésia manteve a sua posição, sustentada no direito internacional, de que a terra comanda o mar. Só recentemente, após a tomada de posse do Presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, quando me encontrei com ele, foi possível obter a concordância para começarmos estas negociações”, explicou Xanana Gusmão.

A fronteira terrestre entre os dois países ainda não está concluída, faltando delimitar um pequeno trecho em Oecussi, enclave timorense na parte indonésia da ilha de Timor.

O chefe do Governo manifestou esperança de que as discussões entre as duas delegações possam trazer benefícios para ambos os países.

“Esperamos que estas discussões agora iniciadas não sejam demasiado rápidas nem excessivamente demoradas, mas realizadas no tempo certo e que sejam muito positivas para todos nós”, acrescentou.

A delegação da Indonésia, composta por 24 membros, é chefiada por Laurentius Amrih Jinangkung, director-geral de Direito Internacional e Tratados do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, acompanhado pelo embaixador da Indonésia em Timor-Leste, Okto Dorinus Manik.

A delegação de Timor-Leste é liderada pela directora executiva do Gabinete da Fronteira Terrestre e Marítima, Elizabeth Exposto, acompanhada pelo embaixador de Timor-Leste na Indonésia, Roberto Soares.

Timor-Leste alcançou em Março de 2018 um acordo com a Austrália, assinado na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, na presença do secretário-geral António Guterres, que estabeleceu as fronteiras marítimas entre os dois países no Mar de Timor. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quarta-feira, 21 de maio de 2025

Timor-Leste – Presidente da República propõe criação de universidade conjunta com a Indonésia

O Presidente timorense, José Ramos-Horta, propôs a criação de uma universidade conjunta entre Timor-Leste e a província indonésia de Nusa Tenggara Timur (NTT), que inclui a parte ocidental da ilha de Timor.



“Hoje aproveito a oportunidade para publicamente propor uma nova era de cooperação entre Timor-Leste, a Indonésia, em geral, e a província de NTT, em particular. Proponho a criação de uma universidade técnica de alta qualidade que atravessa a nossa fronteira terrestre comum, um campus universitário com faculdades, edifícios e equipamentos, partilhados, geridos por ambos os nossos países em ambos lados da fronteira”, afirmou Ramos-Horta.

O chefe de Estado discursava na cerimónia para assinalar o 23.º aniversário da restauração da independência, que decorreu no Palácio da Presidência, em Díli, e contou com a participação dos membros do Governo, parlamento e corpo diplomático, entre outros. Presentes estiveram também um representante do general Agus Subiyanto, chefe das Forças Armadas da Indonésia e o brigadeiro-general João Xavier Barreto Nunes, comandante regional das Forças Armadas da Indonésia para a Região Oriental.

Defendendo o reforço dos laços históricos, familiares, culturais, sociais e económicos com a NTT, o Presidente salientou que a universidade, em língua inglesa (língua oficial da Associação das Nações do Sudeste Asiático) seria vocacionada para as ciências e tecnologia, agricultura, gestão de recursos hídricos, energias renováveis, ambiente e empreendedorismo.

“Uma universidade que poderíamos chamar ‘Timor Island International University’ [Universidade Internacional da Ilha de Timor], cofinanciada pelos governos timorense e indonésio, com a participação de universidades selecionadas em ambos os países, e apoiadas por parceiros estrangeiras que queiram associar-se a este projecto”, disse José Ramos-Horta.

Na intervenção, o chefe de Estado timorense pediu também para se avançar para uma “nova era” simplificada e digitalizada, com a eliminação das barreiras que “impedem ou atrasam o desenvolvimento”.

“Eliminação de qualquer tipo de barreiras e obstáculos, de ordem comercial, legal, administrativo e institucional, ao intercâmbio cultural, ao estabelecimento de negócios, à criação de indústrias e ao movimento de cidadãos, em especial trabalhadores e estudantes”, salientou. O Presidente pediu também às autoridades indonésias a emissão automática de vistos a estudantes correspondendo ao período do ciclo de estudos, em vez da obrigatoriedade anual de renovação de visto. In “Ponto Final” - Macau


sexta-feira, 14 de março de 2025

Timor-Leste - Transferência de pacientes para hospital em Atambua gera controvérsia

A possibilidade de encaminhar pacientes timorenses para tratamento em Atambua, Indonésia, está a gerar forte polémica em Timor-Leste. Enquanto o Presidente da República, José Ramos-Horta, defende a medida como uma alternativa viável para reduzir custos, várias entidades consideram-na uma vergonha nacional e um sinal da degradação do sistema de saúde do país



A eventualidade do governo encaminhar pacientes timorenses para tratamento no Hospital Geral Regional Gabriel Manek, em Atambua, Indonésia, está a gerar forte controvérsia em Timor-Leste. O Presidente da República, José Ramos-Horta, defende a medida como uma solução para reduzir custos, mas deputados da oposição e especialistas alertam para a perda de soberania e a falta de investimento no sistema de saúde nacional. Críticos classificam a decisão como uma “vergonha nacional”, questionando a transparência do acordo e a qualidade dos serviços médicos na Indonésia.

A discussão intensificou-se após o Primeiro-Ministro, Xanana Gusmão, ter afirmado que a recomendação partiu de Ramos-Horta e que a parceria com o hospital indonésio permitiria reduzir os elevados custos dos tratamentos no exterior, nomeadamente em Singapura e na Malásia.

A medida levanta críticas entre vários setores da sociedade, que consideram inaceitável que o Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), o maior hospital de Timor-Leste, seja ultrapassado por uma unidade distrital indonésia. Para muitos, esta decisão demonstra a degradação do sistema de saúde nacional e a falta de investimentos para o melhorar.

A deputada Maria Angelina Sarmento, do Partido Libertação Popular (PLP), criticou a decisão, considerando que a transferência de pacientes para Atambua “diminui a dignidade de Timor-Leste”. Para a deputada, a medida transmite a ideia de que os recursos humanos e a qualidade do HNGV são inferiores aos de um hospital municipal indonésio.

“Timor-Leste deveria ter apostado num hospital de nível internacional dentro do país. Se continuarmos a depender de hospitais estrangeiros, estaremos apenas a fortalecer os sistemas de saúde dos outros enquanto o nosso permanece atrasado”, afirmou.

Preocupações com transparência e qualidade dos serviços

Além da questão da soberania, surgem dúvidas sobre a transparência nos acordos bilaterais e a qualidade dos serviços médicos em Atambua. A deputada da FRETILIN, Nurima Ribeiro Alkatiri, manifestou preocupação com a falta de investimento nos hospitais e centros de saúde nacionais.  “O foco deveria ser o fortalecimento do nosso próprio sistema de saúde, em vez de transferências para outros países, que perpetuam a fragilidade do setor”, destacou.

Nurima Alkatiri acrescentou que, embora o governo justifique a decisão com o alto custo dos tratamentos no estrangeiro, não está claro porque se optou por Atambua, um local que, segundo declarações do próprio Presidente da Indonésia, enfrenta dificuldades em responder às necessidades locais.

“Se Atambua tem falta de recursos para os próprios cidadãos, como poderá garantir assistência adequada aos pacientes timorenses?”, questionou.

O académico e jurista Armindo Moniz também levantou dúvidas sobre a qualidade dos serviços prestados no hospital indonésio, explicando que Atambua é classificado como hospital de grau C, enquanto o HNGV deveria, teoricamente, ter uma classificação superior.

“Se estamos a transferir pacientes do nosso hospital nacional para um hospital de classe C, isso significa que o HNGV é um hospital de classe D? Se for esse o caso, o nosso sistema de saúde está numa situação gravíssima”, alertou.

Desigualdade no acesso à saúde

Outro ponto de crítica diz respeito à desigualdade no acesso aos serviços de saúde. Segundo Moniz, a transferência para Atambua destina-se apenas aos mais pobres, sob o pretexto de reduzir custos, enquanto os líderes políticos continuam a viajar para tratamentos de luxo no estrangeiro.

“Se o governo quer cortar despesas, porque não reduz os salários dos assessores, ministros e deputados, ou elimina subsídios injustificados dos membros do Parlamento Nacional?”, questionou.

Maria Angelina Sarmento criticou o governo, alertando que “o Estado está a falhar no seu dever de garantir assistência médica digna aos cidadãos”.

Deputados da oposição têm criticado repetidamente a falta de investimento na saúde, especialmente nos debates sobre o Orçamento Geral do Estado (OGE). Segundo Maria Angelina Sarmento, o governo rejeitou propostas para reforçar o orçamento do setor, canalizando verbas para infraestruturas que beneficiam apenas alguns grupos.

“O setor da saúde continua subvalorizado porque o governo não reconhece as pessoas como o fator mais importante. Um país que não investe no bem-estar do seu povo está a comprometer o seu próprio futuro”, alertou Maria Angelina. A deputada reforçou que um investimento adequado no setor da saúde contribuiria não só para a melhoria do bem-estar da população, mas também para o crescimento económico.

“A solução não passa apenas por reduzir os custos com tratamentos no exterior. O problema real é a incapacidade e falta de vontade do governo em criar um sistema de saúde eficiente dentro do país”, frisou Nurima Alkatiri.

Propostas para um sistema de saúde mais autossuficiente

A oposição defende que, em vez de depender de hospitais estrangeiros, o governo deveria investir na criação de centros especializados em oncologia e cardiologia no país, uma necessidade reconhecida, mas que não recebeu qualquer alocação orçamental para 2025. “Essa era uma promessa do governo, mas agora parece que deixou de ser prioridade”, lamentou Nurima Alkatiri.

Além disso, a deputada propõe modernizar e equipar os hospitais nacionais e regionais para garantir um atendimento de qualidade; reforçar a formação e retenção de médicos timorenses, promovendo a especialização dentro do país; garantir o fornecimento contínuo de medicamentos e equipamentos médicos; implementar programas de prevenção e diagnóstico precoce para reduzir a necessidade de tratamentos dispendiosos e criar parcerias com universidades e hospitais estrangeiros para capacitar profissionais timorenses.

Maria Angelina Sarmento também pediu uma avaliação rigorosa das decisões da junta médica, denunciando alegados interesses financeiros de alguns elementos do Ministério da Saúde na seleção de pacientes para tratamento no exterior. “Há relatos de que certas pessoas influenciam as transferências para hospitais estrangeiros por interesses privados. Isto deve ser investigado”, afirmou.

Questionadas sobre as dívidas do governo a hospitais estrangeiros, as deputadas afirmaram que é obrigação do executivo encontrar soluções rápidas, de forma a não prejudicar ainda mais os pacientes timorenses que necessitam urgentemente desses tratamentos no exterior. Antes de estabelecer novos acordos de transferência de pacientes, o governo deve primeiro resolver as dívidas pendentes.

Caso haja suspeitas de irregularidades nos pagamentos, Maria Angelina Sarmento defendeu que “primeiro devem ser resolvidos os pagamentos pendentes e, depois, iniciada uma investigação para identificar eventuais responsáveis que possam estar a transformar esta situação numa oportunidade de negócio para interesses privados”, afirmou.

As deputadas sublinharam que o Parlamento Nacional tem o dever de fiscalizar e que esse papel deve ser exercido através de audiências com o Ministério da Saúde e outras instituições relevantes. No entanto, denunciaram que “a maioria parlamentar tem defendido o governo cegamente, mesmo quando são evidentes as falhas graves que têm ocorrido no setor e as suas consequências. Desta forma, a fiscalização tem-se tornado um mero cumprimento de burocracias, cujos relatórios muitas vezes não refletem os problemas identificados durante as audiências e inspeções, enfraquecendo assim o impacto que poderiam ter e que é necessário”, lamentaram.

Em 2024, a bancada da oposição do PLP apresentou uma denúncia ao Ministério Público sobre a adjudicação direta à empresa Salimagu para o fornecimento de medicamentos ao Instituto Nacional de Farmácia e Produtos Médicos. No entanto, até ao momento, o problema continua por resolver.

Armindo Moniz realçou que o governo precisa de alocar um orçamento adequado para melhorar os recursos e as infraestruturas de saúde. Segundo ele, isso permitiria reduzir a necessidade de enviar pacientes para o exterior e ajudaria a desenvolver um sistema de saúde autossuficiente no país. “O HNGV tem recursos humanos suficientes, mas os equipamentos precisam de mais atenção. O governo deveria cortar verbas de ministérios irrelevantes e eliminar subsídios desnecessários aos membros do governo e do Parlamento Nacional. Isso tem de acabar”, defendeu.

Além disso, Moniz recomendou que o Primeiro-Ministro, Xanana Gusmão, faça uma remodelação governamental e coloque profissionais qualificados à frente do setor da saúde. “Deveria demitir a Ministra da Saúde, Élia Amaral, e nomear alguém com verdadeira capacidade para liderar o setor. Esta é uma questão técnica e deve ser conduzida por um profissional competente”, concluiu.

Ramos-Horta defende medida, Xanana promete avaliação

José Ramos-Horta justificou a proposta alegando que a transferência para Atambua permitiria uma resposta mais rápida e acessível às necessidades dos pacientes, especialmente quando o HNGV não tem equipamentos disponíveis ou estes estão avariados. “É mais barato enviar os pacientes para Atambua do que para Jacarta ou Singapura”, afirmou o Presidente da República.

O Primeiro-Ministro, Xanana Gusmão, por sua vez, garantiu que a decisão ainda será avaliada e que o governo entrará em contacto com a Ministra da Saúde, Élia dos Reis Amaral, para examinar as condições do hospital antes de encaminhar pacientes.

“O Presidente disse que há técnicos qualificados lá. Se há doenças que não conseguimos tratar aqui, devemos analisar a experiência deles. Não podemos continuar a gastar milhões todos os anos em Singapura ou na Malásia”, explicou Xanana.

O chefe do governo também mencionou que Timor-Leste firmou uma parceria com Brunei Darussalam para formar profissionais de saúde timorenses em diversas especialidades, o que poderá reduzir a dependência externa no futuro. “No caso da cardiologia, por exemplo, se conseguirmos especializar os nossos médicos, não precisaremos mais de enviar pacientes para Singapura ou Austrália”, concluiu.

A decisão do governo continua a gerar divisões. Enquanto a liderança defende a transferência como uma solução económica, a oposição e especialistas defendem que sem investimentos urgentes no sistema de saúde nacional, a dependência de hospitais estrangeiros só irá agravar-se. Rilijanto Viana – Timor-Leste inDiligente


segunda-feira, 10 de março de 2025

Timor-Leste - Jovens pianistas brilham em competições internacionais e preparam-se para novos desafios

Ainda muito jovens, Abílio António de Araújo Jr. e Afonso Rufino Abílio de Araújo têm acumulado sucessos em competições artísticas internacionais.



Os pianistas Abílio António de Araújo Jr., de 14 anos, e Afonso Rufino Abílio de Araújo, de 8 anos, destacaram-se, entre fevereiro e março deste ano, em competições realizadas na Indonésia, e garantiram a qualificação para atuar em eventos de prestígio em Banguecoque, na Tailândia, a 26 e 27 de março, e em Hanói, no Vietname, em julho.

Foram ainda convidados a competir em Pequim, na China, em abril, mas, devido a compromissos escolares, não poderão participar.

Abílio Araújo Jr., filho mais velho do economista e empresário timorense Abílio Araújo, conquistou o primeiro lugar na competição nacional Perfect Tone, realizada em Jacarta, a 2 de março. Já Afonso Araújo brilhou na Ronda Preliminar do Festival Internacional de Artes para Estrelas em Ascensão 2025, também em Jacarta, a 23 de fevereiro, garantindo a sua presença na ronda final, que acontecerá na capital vietnamita.

Desde a primeira participação em competições, os filhos do músico e compositor timorense Abílio Araújo têm conquistado vários títulos e viajado pelo mundo, demonstrando o seu talento.

A estreia ocorreu em outubro de 2023, na Rhapsodie.co: Volume 1, realizada no Centro de Convenções da Indonésia, em Jacarta Ocidental. Abílio Jr. alcançou o terceiro lugar, enquanto Afonso recebeu a 1.ª Comenda na categoria do Conselho Associado das Escolas Reais de Música.

As vitórias abriram portas para novas oportunidades. No ano passado, ambos participaram no 11.º Festival Internacional de Artes Performativas para Jovens de Hong Kong e Competição de Música, onde conquistaram distinções e medalhas de ouro.

Um mês depois, Abílio Jr. conquistou o ouro na categoria de Piano Romântico, e Afonso garantiu o diamante no Festival de Música Rhapsodie Indonésia 2024. Com estas conquistas, qualificaram-se como finalistas para a 8.ª Competição Internacional de Música Ásia-Egeu 2024, que ocorreu em agosto, em Taiwan.

Em julho de 2024, participaram no Festival Internacional de Música e Artes Performativas 2024, realizado no Pullman Legian Beach Bali, na Indonésia. Afonso venceu o primeiro prémio na sua categoria, enquanto Abílio Jr. conquistou a platina.

Em outubro passado, regressaram à Rhapsodie.co: Volume 2, onde Abílio Jr. alcançou a 1.ª Comenda nas suas categorias, e Afonso ficou em segundo lugar. Apesar da agenda repleta de compromissos, os irmãos optaram por oferecer um concerto de Natal no Palácio da Presidência, em Díli, em vez de competirem em Tóquio, no Japão.

Além das competições na Tailândia e no Vietname, os jovens pianistas participarão, em abril, no Festival Nacional de Piano da Indonésia.

Desafios e sonhos dos jovens pianistas

Os pais, entusiastas da música e das artes, têm investido na formação dos filhos e acreditam que este é apenas o início de uma jornada promissora no cenário musical internacional.

Foi também do pai, Abílio Araújo, que herdaram o gosto pela música. “Quando o pai toca piano, sentimos que todas as emoções se libertam, como uma chuva miudinha a cair suavemente”, disse Abílio Jr. em declarações ao Diligente.

Representar Timor-Leste em competições internacionais é algo que ambos encaram com responsabilidade. “Sentimos que carregamos o peso do nosso país nas mãos e que devemos brilhar para Timor-Leste sair vitorioso”, explicam.

Além do peso de representar o país, a pressão antes das competições é inevitável, mas os irmãos desenvolveram estratégias para lidar com o nervosismo. “Sentir ansiedade é normal, principalmente quando competimos contra outros pianistas talentosos. Para nos acalmarmos, repetimos para nós mesmos: ‘Dá o teu melhor’.”

Sobre a experiência mais marcante que já tiveram, ambos concordam: “Viajar para Hong Kong foi inesquecível”. Abílio Jr. encantou-se pelo ambiente. Já Afonso queria muito visitar a Disneyland.

Conciliar os estudos com os ensaios diários é um desafio, mas ambos aprenderam a organizar-se: “Precisamos de saber dividir bem o tempo. Assim, conseguimos ensaiar sem prejudicar a escola”.

Quanto aos sonhos, Afonso tem um objetivo claro: “Quero aprender a tocar todas as valsas de Chopin”. Abílio Jr. tem um desejo mais ambicioso: “Quero dominar a música de Rachmaninoff. A sua música é dramática, mas incrivelmente bela”.

E se pudessem escolher qualquer palco do mundo para atuar? A resposta é imediata: “O Concurso Internacional de Piano Frederic Chopin, em Varsóvia, na Polónia. É a competição mais prestigiada do mundo. Queremos um dia chegar lá”. Antónia Martins – Timor-Leste in Diligente


domingo, 16 de fevereiro de 2025

Indonésia - A Pirâmide de Gunung Padang pode reescrever a história

As escavações megalíticas de Gunung Padang, na Indonésia, podem levar a uma descoberta sensacional capaz de virar de cabeça para baixo as ideias modernas sobre a história da civilização humana. De acordo com os dados mais recentes, esta estrutura pode ser a pirâmide mais antiga do mundo, com cerca de 25.000 anos, o que é significativamente mais antigo que as famosas pirâmides egípcias de Gizé.



Gunung Padang, antes considerada uma colina natural, é uma estrutura de várias camadas criada por mãos humanas. Uma pesquisa liderada pelo geólogo Danny Hilman Natawijaya mostrou que as pessoas começaram a modificar ativamente a colina há cerca de 25.000 a 14.000 anos. Em vários períodos históricos, foram ali realizadas obras de construção, incluindo a instalação de pedras assentadas como tijolos e melhorias na alvenaria.

Se a idade da pirâmide de Gunung Padang for confirmada, a descoberta desafiará as teorias existentes sobre a origem e o desenvolvimento das civilizações, em particular a ideia de que tecnologias de construção complexas só surgiram após o desenvolvimento da agricultura.

De particular interesse são as câmaras escondidas encontradas dentro da estrutura, que podem conter artefatos ou sepulturas que podem lançar luz sobre a cultura e a tecnologia dos antigos construtores. In “Oreanda-Novosti” - Rússia


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Timor-Leste - Governo paga parte da dívida a hospitais no estrangeiro

O vice-primeiro-ministro de Timor-Leste, Mariano Assanami Sabino, afirmou ontem que o Governo timorense já pagou parte das dívidas a hospitais da Malásia, Indonésia e Singapura, que recebem doentes timorenses. “No início deste ano, pagámos as dívidas aos hospitais de Singapura, Malásia e Indonésia, num montante total superior a 12 milhões de dólares [11,4 milhões de euros]”, disse à Lusa o vice-primeiro-ministro.



Questionado sobre a informação de que a dívida do Governo timorense a hospitais nos três países totaliza os 30 milhões de dólares (28,6 milhões de euros), Mariano Sabino esclareceu que, neste momento, a dívida não ultrapassa os 20 milhões de dólares (19,1 milhões de euros). “Já pagámos quase metade das dívidas que tínhamos. Agora, aguardamos que o Ministério da Saúde realize auditorias adequadas e verifique corretamente as evidências e os recibos, para que possamos continuar a pagar”, explicou. Mariano Assanami falava no parlamento, à margem da discussão da Conta Geral do Estado de 2023.

O vice-primeiro-ministro também assegurou que o Governo está a estudar mecanismos para melhorar as condições do Hospital de Lahane, em Díli, de forma a possibilitar o tratamento de pacientes com casos menos graves em Timor-Leste. Mas, salientou, os casos graves continuarão a ser enviados para tratamento no estrangeiro. “Estamos a olhar para o futuro e queremos reduzir custos, mas temos de garantir as condições necessárias para salvar vidas e gerir bem estes casos”, acrescentou.

Muitos cidadãos timorenses recebem anualmente tratamento no estrangeiro devido à incapacidade do sistema de saúde do país para realizar determinados procedimentos e tratamentos. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”