Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné Equatorial - Concurso Literário Feminino reforça a formação das suas participantes com uma oficina sobre bem-estar emocional ministrado pela UNICEF

O evento contou com a presença do Diretor Geral de Centros Culturais, Bibliotecas e Imagem, como parte do programa de treino do concurso


A Biblioteca Nacional da Guiné Equatorial acolheu um novo dia de formação da II Edição do Concurso Literário Feminino da Guiné 2026, com foco na promoção do bem-estar emocional e do desenvolvimento pessoal das participantes.

A oficina foi conduzida por Cristina Matos, especialista da UNICEF Guiné Equatorial, que compartilhou com os participantes ferramentas focadas no autocuidado, fortalecimento da autoestima, gestão das emoções e criação de ambientes seguros e saudáveis, aspectos considerados fundamentais para o seu crescimento pessoal e académico.

A atividade contou com a presença do Diretor-Geral dos Centros Culturais, Bibliotecas e Imagem, que transmitiu uma mensagem de apoio e motivação aos participantes, destacando o papel da cultura, da literatura e da educação como elementos essenciais para a formação de uma juventude preparada e comprometida com o desenvolvimento da Guiné Equatorial.

Durante o evento, a equipa organizadora expressou a sua gratidão à UNICEF Guiné Equatorial pela colaboração no desenvolvimento do workshop e, em particular, à sua representante, Shelly, pelo apoio a esta iniciativa. Agradeceram também o apoio do Ministério da Informação, Imprensa, Cultura e Turismo para a realização do evento.

Os organizadores também expressaram a sua gratidão pelo apoio contínuo de pais, professores, tutores e colaboradores, enfatizando que a educação dos jovens é um investimento fundamental para o futuro do país. Catalina Nchama – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Angola - Nelson Soquessa lança duas obras literárias na cidade de Malanje

A Mediateca Provincial Rei Ngola Kiluanji, em Malanje, acolherá, na Sexta-feira, dia 07 do mês em curso, a sessão de lançamento e autógrafos das obras “Os Segredos do Jardim das Almas” e “Clíticos no Português Contemporâneo: Angolano, Brasileiro e Europeu”, da autoria do escritor e docente universitário Nelson Soquessa


A sessão que juntará leitores, académicos, estudantes, entidades públicas, religiosas e amantes da literatura terá início a partir das 15 horas, com a intervenção de convidados, a que se seguirá o momento de diálogo entre o autor e o público, culminando com a assinatura de autógrafos.

O autor da obra, Nelson Soquessa, em conversa esta segunda-feira, 03, com O País, garantiu que o lançamento dos dois volumes marcará a celebração da produção intelectual angolana.

Convidado a comentar sobras as obras, referiu que o volume Os Segredos do Jardim das Almas, por exemplo, apresenta uma narrativa marcada por reflexões sobre os dramas sociais, os valores humanos e os desafios da sociedade contemporânea.

O livro tem o prefácio de Gabriel Caia, historiador e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade de Évora, e conta com 117 páginas distribuídas por 13 capítulos complementares. Surge como um manifesto profundo sobre a Identidade Angola na, explorando as complexas relações entre o Estado e a Igreja.

O autor enfatizou que o volume foi escrito num período de vulnerabilidade pessoal, propondo uma crítica à desigualdade e uma renovação necessária no sistema educacional e literário do país. In “O País” - Angola


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Angola - Lançamento de romance marca estreia de trilogia

O romance “Juras Cor de Sangue”, de co-autoria de Marta Teixeira Lopes e Edgar Ginga Sombra, que acaba de chegar ao mercado literário benguelense, inspirado em factos, marca o início de uma trilogia que aborda temas como amor, lealdade, confiança e as consequências das promessas


A co-autora Marta Teixeira Lopes explicou, ao Jornal de Angola, que o livro tem 143 páginas, distribuídas por oito capítulos, acrescentando que, numa primeira fase, estão disponíveis 100 exemplares para a comercialização em Benguela, estando previstos lançamentos nas províncias de Luanda e do Huambo.

Segundo a mesma, Juras Cor de Sangue nasceu de um convite de Edgar Ginga Sombra, que lhe apresentou uma história inspirada em factos. A partir desse enredo, os dois autores desenvolveram personagens, conflitos e perfis psicológicos, e transformaram a narrativa numa obra de ficção.

“O romance acompanha a história de três jovens bolseiros angolanos que procuravam construir os seus sonhos na África do Sul e retrata um triângulo amoroso, marcado por promessas, lealdade, confiança e traição. O título simboliza a intensidade dos compromissos assumidos pelos protagonistas e as consequências da quebra dessas promessas”, explicou.

A co-autora destacou que a publicação da obra só foi possível após cerca de cinco anos de revisões e aperfeiçoamento até encontrarem uma editora com políticas favoráveis à edição do livro.

Marta Teixeira Lopes revelou que a paixão pela escrita surgiu ainda na infância, motivada pelo gosto pela leitura. Sem acesso a livros literários, começou por ler a Bíblia e obras académicas.

“O primeiro contacto com um romance aconteceu durante o ensino médio por incentivo de um professor de Língua Portuguesa. Foi uma experiência que despertou o meu interesse pelo género literário”, sublinhou.

A autora iniciou o seu percurso na literatura através da poesia, tendo participado em antologias nacionais e internacionais. Foi também curadora da página brasileira Sen-Sasions, na Sual divulgava os seus poemas e conquistou reconhecimento entre leitores e escritores de língua portuguesa. Juceila Dias – Angola in “Jornal de Angola”


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Contos feitos de memória, reflexão e ficção

Obra mais recente do professor Flávio R. Kothe reúne narrativas que expõem dúvidas e perplexidades dos personagens

                                                                                                  

                                                                                  I

Se como disse o saudoso professor, ensaísta e crítico Massaud Moisés (1928-2018), em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Editora Cultrix, 2004), o conto deve ter ênfase antes na ação, antes no conflito que nos participantes, enquanto a narração representa papel menor, aparecendo apenas para abreviar o desfile de acontecimentos secundários ou anteriores à ação principal, os trinta contos que compõem O bem-te-vi e a folha amarela (São Paulo, Editora Cajuína, 2026), do professor Flávio R. Kothe, cumprem esse papel. São textos que partem da memória do autor, de seus primeiros anos e de sua vida profissional, mas que não deixam de adentrar as searas da ficção e da reflexão, para, através do desvelar do novelo da memória,  percorrer os caminhos da parte íntima dos personagens.

Foram escritos entre 2023 e 2025, muitos ainda no período da pandemia de covid-19 (2020-2023), em que as pessoas foram obrigadas a evitar a frequência a lugares fechados e até mesmo a sair de casa, época marcada no Brasil também pela reascensão do nazifascismo caboclo, favorecido pela difusão de suas ideias nas redes sociais que acabaram por encontrar terreno fértil entre os néscios, de que os acampamentos à frente de quartéis foram o mais estúpido dos exemplos. Como diz Kothe no texto de apresentação, os contos estão divididos em três blocos: o primeiro abrange narrativas de temas diversos, com ênfase nos tempos sombrios da infância do autor, enquanto o terceiro tem bichos como personagens e o do meio reservado para vivências à época do regime militar (1964-1985).

Uma infância marcada por silêncios e deslocamentos à vida adulta é o que o leitor vai encontrar logo no quarto conto, “O capote”, em que o narrador, a pretexto de recuperar vestígios de sua meninice como descendente de imigrantes alemães, revivifica o clima que havia entre aqueles que se haviam estabelecido no Sul do Brasil e, às escondidas, usavam como língua usual o Hochdeutsch, numa época em que o idioma, a cultura e a identidade daquele povo estavam sendo perseguidos e menosprezados, depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a derrota das forças do ditador Adolfo Hitler (1889-1945). O menino de cinco anos vivia no hotel dos seus avós paternos, do qual o pai era gerente e a mãe garçonete, e assistia à passagem de hóspedes que, geralmente, vinham da região do Hunsrück, da margem esquerda do rio Reno tomada pelos franceses, e da beira do rio Oder, na Prússia Ocidental, ameaçada por poloneses e russos.

 

                                                    II

Já no extenso conto, de 19 páginas, que leva por título “Tainá”, marcado pelo diálogo entre um experiente professor e sua bela orientanda, a narrativa, que está intimamente ligada à vida profissional do autor, articula-se rumo a um desfecho inesperado, mas coerente com o todo da fabulação. Segue um parágrafo em que o narrador descreve a personagem:

 “(...) Tainá era uma das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Ela não era só bonita: refluía ao seu redor uma feminilidade no ar, como se deusa fosse. Era uma deusa: bastaria eu ajoelhar e baixar a cabeça, já ela ficaria no ar”.

Tal como os demais, este conto percorre zonas de tensão em que o íntimo e o histórico se entrelaçam, com o autor partindo visivelmente do vivido para construir histórias que se afastam do real imediato, convergindo para um único objetivo: oferecer ao leitor, com uma linguagem concisa e atraente, aspectos do dia a dia que são conhecidos do homem comum, mas que muitas vezes ficam encobertos. Como a ênfase é colocada no conflito passivo entre os participantes, o diálogo predomina na trama do conto.

Narrado em primeira pessoa, como de hábito neste gênero de prosa, a narrativa transcorre como uma confidência melancólica: sabemos intimidades de alguém, mas sabemos muito mais do narrador. A narração, por sua vez, representa papel menor: aparece para abreviar o desfile de acontecimentos secundários ou anteriores à ação principal. Paralelamente, a descrição de seres e coisas tende a um segundo plano e, assim, a narrativa articula-se rumo a um desfecho inesperado e pouco usual nesse tipo de narrativa, mas coerente com o todo da fabulação. Ou seja, o começo da narrativa determina o desenlace.

 

               III

No conto seguinte, “O busto e a muiraquitã”, igualmente extenso, de 19 páginas, o que se vê é também uma inspiração que vem da vida profissional do autor, a ponto de constituir uma espécie de depoimento, tantas são as coincidências quanto a lugares e situações que acompanham o fio narrativo, como se o professor-narrador buscasse o máximo de fidelidade na captação de episódios por certo rememorados. E, assim, o leitor vai conhecer o quão difícil também foi a vida, no ambiente universitário, para aqueles que não compactuavam com as diretrizes do regime militar (1964-1985) que infelicitou a nação e produziu tantas vítimas (muitas fatais).

O narrador percebe que, desde o começo, quando fazia a sua graduação, há 50 anos ou mais, sequer fora sondado para ser professor nas universidades, pois, para o sistema, por suas ideias contrárias à barbárie instalada pelas baionetas, já seria uma espécie de leproso, alguém que “a ditadura não amava”. Repelido por aqueles que já o conheciam, teve de procurar trabalho onde não o conheciam. E, assim, trocou o Sul pela capital federal, Brasília, dando início a um périplo que incluiria várias universidades europeias.

Já no conto “Gói (meu impaciente paciente)” é narrado por um psicoterapeuta que, entre os seus clientes, tinha alguém que nunca havia conseguido se tornar professor nas universidades públicas de São Paulo, o que o forçara a se mudar de Estado.  Embora bem-preparado e titulado, com boas provas, era sempre reprovado nos concursos para docente, provavelmente porque, sem saber, havia participado de jogos de cartas marcada.

A parte final da obra está reservada a seis contos em que os personagens principais são bichos, nos quais o contista redescobre a liberdade de inventar, como se lê no texto de apresentação do autor. Naquele texto que dá título ao livro, um bem-te-vi conversa com uma folha amarela, enquanto o pano de fundo é um idoso agonizante. No final, o bem-te-vi murmura: “Alguns idosos preferem morrer porque não aceitam as mudanças que estão ocorrendo: são contra o celular, a inteligência artificial, a internet. Acham que são diferentes só porque estão desatualizados: o mundo não merece a presença deles”.

 

                                                   IV

Enfim, são contos em que o autor procura mergulhar na introspecção, desenterrando do inconsciente muitas reminiscências não só de suas aventuras ou contratempos pessoais, mas também de pessoas que, com certeza, conheceu e com as quais deve ter conversado ou participado de suas intermitências, como se dá no conto “O pintor e o monge”, em que o narrador, um jornalista, conta as peripécias que vivera para entrevistar um pintor que assassinara alguém em legítima defesa e, no fim da vida, vivia recluso num mosteiro católico, embora fosse adepto do deus de Baruche Spinoza (1632-1677), ou seja, da própria natureza.

Nascido e crescido em Santa Cruz do Sul, na região central do Rio Grande do Sul, Kothe reconhece que este é um livro muito santa-cruzense, pois vários dos temas vieram de sua vivência naquela cidade. Lá, ele ainda tem irmãos, primos e sobrinhos e confessa que mantém o costume de começar o dia lendo a Gazeta do Sul, o jornal local. “A cidade é, para mim, mais importante que outras cidades maiores em que vivi, como Porto Alegre, São Paulo, Berlim, Rostock”, garante. “O que eu relembro não é, no entanto, apenas algo que exalte a cidade, ainda que eu tenha procurado lembrar eventos engraçados, peculiares. Ressuscito vidas pretéritas que já desapareceram na cidade, mas continuam significativas”, acrescenta.



                V                           

Flávio René Kothe (1946) é licenciado em Letras, mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), com livre-docência pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de Campinas. Fez estágios de pós-doutoramento nas universidades de Yale, nos Estados Unidos, Heidelberg, Berlim, Konstanz, Bonn e Frankfurt, na Alemanha. Lecionou também na PUC, de São Paulo, e na Universidade Federal de Goiás (UFG).

Perseguido pela ditadura, perdeu o cargo na Universidade de Brasília (UnB), mas, 15 anos depois, anistiado, conseguiu retornar à instituição, onde é pesquisador sênior e professor titular aposentado de Estética. Foi professor visitante na Universidade de Rostock, na Alemanha, onde conseguiu refúgio por cinco anos, fugindo de seus perseguidores, e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Europa, teve como interlocutores alguns dos maiores nomes da Filosofia, da Literatura e de outras Ciências Humanas. Em seu retorno à UnB, trabalhou com as disciplinas de Teoria Literária, Literatura Comparada, Tradução, Narrativa Trivial e Cânone Brasileiro.

Dedica-se, sobretudo, a questões de Estética, Arte Comparada e Semiótica da Cultura. Atualmente, coordena o Núcleo de Estética, Hermenêutica e Semiótica e é editor da Revista de Estética e Semiótica, que está no Portal de Periódicos da UnB. Foi presidente da Academia de Letras do Brasil, em Brasília, por três períodos (seis anos), e é editor da revista impressa da instituição, de publicação semestral.

Dono de vasta obra que inclui mais de 60 livros e mais de 600 trabalhos publicados nos gêneros romance, novela, contos, poesia, tradução e ensaios, entre os seus últimos títulos (todos publicados pela Editora Cajuína) estão também: Casos do acaso (contos, 2018), Literatura e sistemas intersemióticos (ensaios, 2019), Fundamentos da Teoria Literária (ensaios, 2019), Segredos da concha (contos, 2019), Sem deuses mais (poesias, 2019), Benjamin & Adorno: confrontos (ensaios, 2020), O Cânone Colonial (ensaios, 2020), O Herói (ensaios, 2022), Rio do Sono (contos, 2023), Crimes no campus (novela, 2023), Alegoria, aura e fetiche (ensaios, 2023) e O Cânone Imperial (ensaios, 2025).

Foi pioneiro no Brasil em estudos sobre semiótica da cultura, poesia hermética, hermenêutica, Escola de Frankfurt, formalismo russo e Círculo Bakhtine, que define o grupo de intelectuais russos liderados pelo filósofo Mikhail Bakhtine (1895-1975) que, no começo século XX, revolucionaram os estudos da linguagem e da literatura. Além de Walter Benjamin (1892-1940), traduziu obras de Theodor Adorno (1903-1969), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Karl Marx (1818-1883), Paul Celan (1920-1970), Franz Kafka (1883-1924), Heinrich Mann (1871-1950), Patrick Süssekind (1949) e outros. Adelto Gonçalves - Brasil

_________________________

O bem-te-vi e a folha amarela, contos, de Flávio R. Kothe. São Paulo: Editora Cajuína, 1ª edição, 318 páginas, R$ 120,00, 2026. Site: www.cajuinaeditora.com.br E-mail: contato@editoracajuina.com.br

______________________________

Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


domingo, 2 de agosto de 2026

Alemanha - Livro sobre Lisboa na Segunda Guerra apresentado na cidade de Berlim

A embaixada de Portugal em Berlim recebe, no próximo dia 22 de setembro, às 18h00 (hora local), o lançamento do livro “Lissabon 1941 – Stadt der Spione, Hafen der Hoffnung”, de Alexander Smoltczyk, numa sessão que contará com a presença do autor


A obra conduz os leitores à Lisboa da década de 40 do século XX, reconstruindo o ambiente vivido na capital portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial, quando a cidade acolhia milhares de refugiados, diplomatas e agentes secretos.

Partindo das histórias de figuras como Hannah Arendt, Heinrich Mann, Marc Chagall, Josephine Baker e Ian Fleming, Alexander Smoltczyk retrata Lisboa como um dos mais improváveis palcos da Europa naquele período.

A entrada na sessão é livre, sendo, no entanto, necessária pré-inscrição através do endereço de correio eletrónico camoes.berlim@mne.pt.

Recorde-se que a embaixada de Portugal fica na Kurfürstenstr. 57, em Berlim, com entrada pela Derfflingerstr. 12. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


sábado, 1 de agosto de 2026

Cabo Verde - Emanuel Spencer apresenta o livro “Entre Duas Ilhas” em São Vicente

“Entre Duas Ilhas” é o título do primeiro livro de Emanuel Spencer apresentado esta quinta-feira, 30, na ilha de São Vicente. O livro “Entre Duas Ilhas” é uma viagem de memórias, de vivências e de sentimentos que unem duas ilhas, dois mundos e um só coração. A apresentação do livro teve lugar na Esplanada do Hotel Porto Grande


Segundo o autor, o livro resultou de um percurso de vida invulgar, vivido entre a informática, à docência, a intervenção cívica e uma crescente paixão pela escrita.

“Foi nos primeiros passos da Internet em Cabo Verde e, mais tarde, nas plataformas digitais, que descobri o prazer de transformar ideias em palavras, até perceber que escrever era, para mim, muito mais do que um exercício literário. Era uma forma de preservar memórias, de agradecer às pessoas que marcaram o meu caminho e de contribuir para um diálogo mais sereno sobre o futuro do nosso país”, salienta.

O autor explica que, ao escrever este livro, procurou transformar uma vida repartida entre duas ilhas numa homenagem a Cabo Verde e às pessoas que lhe dão alma. “Mais do que contar histórias, quis dar voz aos pescadores, agricultores, professores, músicos, emigrantes, trabalhadores anónimos e a tantos outros que, longe dos holofotes, ajudam diariamente a construir, silenciosamente, a identidade do nosso arquipélago. São eles os verdadeiros protagonistas desta obra, que é a principal razão de ser destas páginas”.

Emanuel Spencer conta que este livro começou a ser escrito nas suas caminhadas matinais. “Quase sempre acompanhado por um pequeno leitor de MP3, deixo que a morna e a coladeira conduzam o meu pensamento, enquanto o mar, o vento e as melodias de Cabo Verde vão dando forma às palavras”.

Por isso, indica que as páginas acolhem também pequenos excertos de mornas e coladeiras que, ao longo de décadas, ajudaram a contar a história e a alma do nosso povo. “Muitas vezes é nesse instante que surge, inesperadamente, a imagem de um caranguejo, personagem discreto que me acompanha em silêncio, como se viesse recordar-me que as melhores histórias nascem quase sempre das coisas mais simples”.

Conforme o autor, Entre Duas Ilhas é uma obra que convida o leitor a viajar pelas memórias, pela cultura, pelas gentes e pelos valores de Cabo Verde, tendo São Nicolau e São Vicente como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre a identidade, a memória e o futuro de Cabo Verde.

“Ao longo das suas páginas cruzam-se histórias, contos, memórias, episódios de humor, cartas e reflexões sobre a cidadania, a educação, a amizade, a emigração, a política, a tecnologia e os desafios do país, sempre com a convicção de que as palavras podem despertar consciências, preservar memórias e fortalecer o sentido de comunidade”, relata.

Neste sentido, espera-se que o leitor termine esta viagem Entre Duas Ilhas com um olhar mais atento sobre Cabo Verde, mais próximo das suas raízes e mais confiante na capacidade do nosso povo para construir um futuro melhor.

“Se este livro conseguir despertar uma memória esquecida, reconciliar alguém com a sua terra ou inspirar um gesto de cidadania, sentirei que todas estas páginas cumpriram plenamente a sua missão”, frisa.

O autor disse que gostaria que este livro despertasse em cada leitor a consciência de que o futuro de Cabo Verde não pode continuar a ser deixado exclusivamente nas mãos dos seus governantes.

“Pertence, antes de mais, a cada cidadão. Só uma cidadania activa, participativa e exigente será capaz de elevar a qualidade da nossa democracia e de inspirar uma acção política à altura dos desafios do país”, refere.

Emanuel Spencer afirma que está convencido de que esta é uma das maiores responsabilidades da nossa geração. “Caso contrário, dificilmente Cabo Verde voltará a irradiar toda a claridade intelectual, cultural e cívica que os Claridosos sonharam para as nossas dez ilhas e dezasseis ilhéus, quando fizeram da cultura, do pensamento e da consciência cívica uma luz orientadora para o futuro da nação”. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Angola - Poeta Elsa Major lança livro no Memorial Dr. António Agostinho Neto

Depois da apresentação em Portugal, a poeta Elsa Major regressa ao país para o lançamento oficial da sua mais recente obra intitulada “Faro e Enigmas - Poesia”, cuja sessão ocorreu no Memorial Dr. António Agostinho Neto, um dos mais importantes espaços de promoção da cultura e da memória nacional


Publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.Club, Faro e Enigmas - Poesia afirma-se como uma das mais significativas obras poéticas da autora, reunindo poemas em que o amor, a memória, a espiritualidade, a identidade e a paisagem se cruzam numa escrita profundamente sensorial. Inspirada pelo Namibe, pelo Atlântico e pelo Deserto do Kalahari, Elsa Major propõe uma poesia que convida à contemplação e à reflexão sobre a condição humana.

A sessão de lançamento contou com a participação de convidados especiais, entre os quais Conceição Cristóvão, Agnela Barros e o escritor e investigador João Fernando André, cuja presença reforça a dimensão literária do encontro.

O livro conta com o apoio de várias instituições e órgãos de comunicação social, entre os quais a Rádio Escola 88.5 FM, o Sistema Akwa Kisanji, a Rádio MFM 91.7 e outros parceiros culturais.

Depois da excelente recepção em Lisboa, onde a obra reuniu escritores, académicos, diplomatas e leitores num momento de celebração da literatura, Faro e Enigmas chega agora a Luanda para um encontro, de acesso livre, com o público angolano, num regresso particularmente simbólico da autora às suas raízes e ao universo cultural que inspira grande parte da sua criação poética.

Mais do que um lançamento literário, esta apresentação constituiu uma celebração da poesia contemporânea e da crescente afirmação das vozes femininas na literatura nacional, reforçando o papel do livro como espaço de diálogo entre memória, identidade e futuro.

Elsa Major é uma poeta, escritora e professora angolana, natural da província do Namibe e licenciada em Linguística pelo Instituto Superior de Ciências da Educação da Universidade Agostinho Neto.

Destaca-se no panorama da literatura lusófona pela ligação à tradição oral e expressão feminina, com as obras Sensações, Emoções e Impressões, Versos Confessos e Faro e Enigmas. É co-autora em várias antologias e colectâneas da lusofonia, incluindo os volumes de Poiesis, Janelas do Universo e Eclética I. In “Jornal de Angola” - Angola


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Japão - Nos bastidores da obra-prima de mistério "A Devoção do Suspeito X"

Keigo Higashino, um dos principais escritores de mistério do Japão, faleceu. Pedimos a Yoshiyuki Hatori, editor-chefe da revista literária "All Yomimono", onde a sua obra-prima "A Devoção do Suspeito X" foi publicada em série, que relembrasse o verdadeiro carácter do autor e o fascínio pelas suas obras


As únicas palavras que me vêm à mente agora são "um gigante caiu". Alguns podem achar essa uma maneira antiquada de pensar, mas para alguém que esteve envolvido com a publicação de romances por tanto tempo, esta expressão parece a mais adequada. Keigo Higashino, um autor de best-sellers que deixou mais de 100 obras e cujas vendas acumuladas ultrapassam facilmente 100 milhões de exemplares, não só liderou o cenário de romances de entretenimento no Japão, como também conquistou muitos leitores em mercados globais como os Estados Unidos e a China, faleceu repentinamente neste verão.

Nunca trabalhei diretamente com o Sr. Higashino, nem tive uma relação particularmente próxima com ele, mas como membro da editora que publica a sua obra mais representativa, a "Série Galileu", tive a oportunidade de estar na sua presença. Com gratidão por essa gentileza e um profundo sentimento de perda com o falecimento de um autor tão grandioso, escrevi este humilde texto.

"Vou te mostrar um truque que ninguém jamais imaginou."

A obra-prima de Higashino e um marco da ficção policial japonesa, A Devoção do Suspeito X, foi publicada na All Yomimono, uma revista literária da editora Bungei Shunju. Como editor-chefe durante a publicação em série, eu aguardava ansiosamente as cerca de 30 páginas de manuscrito que chegavam mensalmente, mas também sentia uma certa ansiedade em relação aos imprevisíveis desdobramentos da trama. Certo dia, quando encontrei Higashino numa festa ou bar em Ginza e compartilhei as minhas impressões sobre a publicação em série, ele disse-me estas palavras.

"Vou mostrar-vos um truque que ninguém jamais imaginou, nem no passado nem no presente", disse, com o rosto repleto de confiança e convicção.

A essência de um mistério reside no seu artifício, e a confiança de um escritor deriva da ambição de conceber um artifício que ninguém poderia ter previsto e de surpreender os amantes do mistério em todo o mundo.

Fiquei encantado. A verdade é que não só eu e o editor responsável, mas toda a editora no Bungei Shunju tínhamos grandes esperanças de que esta obra finalmente lhe rendesse o Prémio Naoki. Na época, Higashino já era um autor de grande sucesso, mas, quando se tratava do Prémio Naoki, ele havia sido indicado diversas vezes, sem nunca conseguir vencer.

O resultado foi de tirar o fôlego. Um matemático solitário usa todo o seu intelecto para lutar contra o seu amigo e rival da faculdade, um físico genial (o renomado Professor Galileu), a fim de encobrir um assassinato cometido por uma mãe e filha que moravam na casa ao lado. A chave do seu plano era cometer outro assassinato para encobrir o primeiro. Fiquei completamente estupefato com esse truque inesperado e cativado pela perfeição do mistério.

Contudo, o fascínio desta obra não termina aí. O cerne do mistério reside no maior enigma: por que um matemático cometeria um assassinato por um vizinho com quem apenas trocara cumprimentos? Esse mistério contém o tema profundo da obra. Parafraseando Higashino, o maior mistério é o coração humano, e o verdadeiro encanto desta obra-prima reside na profunda compreensão da natureza humana que convence o leitor dessa mensagem.

A Devoção do Suspeito X ganhou, com muita alegria, o Prémio Naoki. Eu estava a moderar a reunião do comité de seleção, e até mesmo os escritores veteranos que até então haviam sido relativamente críticos das obras de Higashino a elogiaram bastante, e Yumie Hiraiwa, que a apreciava desde o início, entusiasmou-se com a profundidade do mundo criado no romance. Essa foi a primeira incursão de Higashino em conquistar um público mais amplo, e ele rapidamente ascendeu ao posto de um dos principais concorrentes. Nos 20 anos seguintes, ele jamais abandonou essa posição. Algo assim nunca havia acontecido antes.

Na exibição de pré-estreia de A Devoção do Suspeito X

Antes disso, sua coletânea de contos "Detetive Galileu" havia sido adaptada para um popular drama televisivo estrelado por Masaharu Fukuyama. Após ganhar o Prémio Naoki, A Devoção do Suspeito X finalmente foi adaptado para o cinema. Na exibição privada para os envolvidos com o filme, eu estava sentado ao lado de Higashino. No final, quando a "devoção" desesperada do matemático se mostrou inútil, e ele uivou e chorou como um animal, fiquei completamente devastado. Não só não consegui conter as lágrimas (havia muitos colegas mais jovens por perto), como acabei soluçando alto, envergonhado. No meu choque, deixei escapar algo que não deveria ter dito a Higashino.

"Consegue assistir sem pestanejar, não é?"

Respondeu Higashino com um sorriso irónico.

"Seria estranho se eu chorasse."

O filme A Devoção do Suspeito X foi um enorme sucesso, arrecadando quase 5 mil milhões de ienes nas bilheteiras. Acredito que o romance original, incluindo as edições de bolso, tenha vendido bem mais de 3 milhões de cópias. Desde então, inúmeros livros da série foram publicados e adaptados para o cinema, tornando-se um pilar de receita para a Bungei Shunju. O volume final da série, Memória Eterna, tem lançamento previsto para o dia 05 de agosto. Gostaria de saborear o mundo desta obra final com profunda lembrança.

Fresco por fora, mas quente por dentro.

Acho que a impressão geral que se tem de Higashino é que ele é descolado e elegante. Além disso, ele é bonito. Aliás, quando Higashino e Masaharu Fukuyama estavam sentados juntos num bar em Ginza, nós, que estávamos ao redor, cochichávamos uns com os outros.

"Não sou inferior a Fukuyama."

Contudo, em bares noturnos onde estava rodeado apenas pelos seus editores mais próximos, ele transformava-se num verdadeiro nativo de Osaka, fazendo todos ao seu redor rirem com o seu entusiasmo e espírito prestativo. O Sr. Higashino tomava goles de uísque com gelo, e nós ficávamos extasiados com sua vasta gama de assuntos e a sua inteligência em contar histórias, como se o tempo tivesse parado para nós. As nossas conversas às vezes estendiam-se até as 2, 3 ou até mesmo 4 da manhã. Ele parecia tranquilo e sereno, mas era uma pessoa que nunca deixava de demonstrar consideração pelos outros e oferecer palavras de encorajamento.

Talvez por isso, ele também fosse um mestre da oratória. O seu grande antecessor, o escritor de romances de viagem e mistério Kyotaro Nishimura, faleceu, e uma cerimónia em sua memória foi realizada em Atami, onde ele morava. De pé no palco, diante de muitos profissionais do ramo editorial, Higashino concluiu o seu elogio fúnebre com estas palavras.

"Durante os primeiros 10 anos após a minha estreia, os meus livros não venderam nada. A única razão pela qual consegui publicar livros foi porque o Sr. Nishimura tinha um grande público leitor e estava enriquecendo a editora. Se me permitem a ousadia, agora assumirei esse papel. Por favor, apoiem todos os escritores que estão a lutar para sobreviver."

Enquanto escrevo isto, as palavras memoráveis ​​de Higashino continuam a vir-me à mente. No funeral de Masako Bando, que tinha quase a minha idade, ele esforçou-se ao máximo para expressar em palavras o quão talentosa escritora Bando era. Fiquei profundamente comovido com a genialidade dos seus elogios e com a profundidade da sua tristeza pela morte da sua colega escritora.

Ele faleceu aos 68 anos. Enquanto lamentamos a sua morte prematura, considerando o imenso poder que possuía para deixar um legado tão vasto de obras-primas, é inevitável pensar que ele vivia num ritmo duas vezes mais acelerado que o de uma pessoa comum. Há algum fundamento para essa ideia, já que editores próximos sabiam que, quando ele se machucava praticando snowboard, desporto que tanto amava, os seus ferimentos cicatrizavam com uma velocidade impressionante. O próprio Sr. Higashino parecia achar isso estranho e disse o seguinte:

"Mesmo quando eu era criança, as lesões cicatrizavam muito rápido. Acho que minhas células provavelmente se dividem mais rápido do que as de outras pessoas."

O genial autor, que utilizou o conhecimento científico para criar uma obra-prima da ficção policial, faleceu tão repentinamente quanto o vento. O mundo editorial está agora em profundo luto. Yoshiyuki Hatori – Japão in “Nippon”

_____________

Keigo Igashino. (04 de fevereiro de 1958, Ikuno-ku, Osaka - 23 de julho de 2026, Japão), é um dos mais destacados autores japoneses da atualidade, tendo já sido publicado em 14 países.

Os seus bestsellers foram galardoados com vários prémios, incluindo o Mystery Writers of Japan Award e o Prémio Naoki, e obtiveram reconhecimento nacional e internacional com as subsequentes adaptações cinematográficas e televisivas.

A Pequena Loja dos Grandes Milagres, publicado pela “Presença”, já vendeu mais de 15 milhões de exemplares em todo o mundo. In “Wook”




segunda-feira, 27 de julho de 2026

A globalização no Brasil do século XVIII

Obra reúne textos do historiador inglês Kenneth Maxwell que mostram a influência da independência dos EUA na Conspiração de Minas em 1789

                                                                       

                                                             I

Exatamente no ano que marca o 250º aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, a 4 de julho de 1776, o professor e historiador britânico Kenneth Maxwell acaba de lançar Globalização do Século XVIIIa Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor, 2026), obra que  mostra como aquele acontecimento desencadeou uma série de movimentações políticas no mundo, em especial no Império português que se abalou com a aspiração de súditos que, em 1788 e 1789, sonharam com a separação de Minas Gerais e outras capitanias da América Portuguesa. Como se sabe, a chamada revolução americana começou em 1765 e durou até 1783, mas o marco principal foi a Declaração de Independência que selou a separação das treze colônias do domínio britânico.

Em sua mais recente obra, que sai por uma editora inglesa com edições impressas em Português, Inglês e Francês,  Maxwell demonstra que a fundação dos Estados Unidos não se limitou à Filadélfia, mas que a experiência republicana acabou por influenciar no mundo  espíritos que já não se conformavam com o predomínio dos ideais monárquicos. E isso se deu inspirado numa coletânea de documentos constitucionais norte-americanos no idioma francês, que à época predominava como língua universal, originalmente reunidos pelo diplomata, escritor, jornalista, cientista e empresário Benjamin Franklin (1706-1790) como ferramenta de propaganda.

Trata-se do livro Recueil des Loix Constitutives des Etats-Unis, volume de 1778 organizado por Franklin com traduções das constituições americanas —, elaborado em Paris para convencer os ministros do rei francês Luís XVI (1754-1793), deposto em 1792, de que os Estados Unidos dispunham de uma ordem constitucional coerente e exportável. Foi essa coletânea que acabou trazida para o Brasil por dois ex-estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra, uma por José Álvares Maciel (1760-1804) e outra por José Pereira Ribeiro (1765-1798), que, ao que se supõe, teria sido levada para fora de Minas Gerais à época das prisões dos conspiradores, em junho de 1789, para Pernambuco, onde pode ter influenciado a revolta federalista de 1817.

Seriam edições piratas com as indicações de “Filadélfia” e “Suíça”, que correram entre as mãos de estudantes brasileiros formados em Coimbra, Montpellier, Bordeaux e Birmingham. Dessa coleção, que trazia a Declaração de Independência, constava também a Constituição da Pensilvânia, de 1776, que surgia como modelo para a república que os conspiradores mineiros planejavam instituir. Dessa coleção, resta hoje um exemplar preservado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, a antiga Vila Rica, aquele que foi comprado por Álvares Maciel em Birmingham por dois xelins.

É de se ressaltar que, para a época, aquela seria uma constituição de inspiração muito radical, pois previa até a liberdade para os escravos, o que logo haveria de suscitar entre os escravocratas a ideia segundo a qual essa medida iria causar muitos prejuízos, já que eles haviam construído suas fortunas às custas dos escravizados. É de se notar que se trata de argumento que, hoje em dia, ainda é exercitado pelas classes dominantes diante da possibilidade de o Congresso Nacional aprovar a escala 5x2, que prevê cinco dias de trabalho e dois de folga (geralmente nos fins de semana) para os trabalhadores.

Seja como for, como diz Maxwell, os conspiradores viam na Declaração de Independência e nos demais documentos recolhidos na Recueil um modelo de revolta colonial bem sucedida, bem como uma estrutura moderna para a formação das instituições que um governo republicano poderia criar depois do êxito da rebelião.

 

                                                   II

Com base em décadas de pesquisas em arquivos no Brasil, em Portugal, na França, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Maxwell reconstrói uma densa rede atlântica de mediadores — incluindo Franklin e Thomas Jefferson (1743-1826) em Paris, estudantes brasileiros como José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788) e José Álvares Maciel e conspiradores como os poetas Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) e Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), que teriam interpretado a coletânea de maneira um tanto equivocada, adaptando-a à situação local de endividamento, escravidão e crise imperial.

Na verdade, segundo o brazilianist, os insurgentes haviam avaliado muito mal as prioridades dos Estados Unidos, ao esperar que houvesse um apoio prático da nova nação norte-americana às suas aspirações. Afinal, Jefferson havia concluído que os interesses dos Estados Unidos eram mais bem servidos por um acordo com Portugal do que pelo incentivo a uma aventura arriscada na América do Sul. “A demanda de Portugal por arroz e cereais era um mercado para a produção norte-americana, especialmente para as exportações da Virgínia”, observa o historiador.

Num dos textos reunidos em sua obra, “As propostas constitucionais”, o historiador explica que a conspiração havia sido desmantelada antes mesmo da denúncia do arrematante de contratos Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819). E lembra que, para aproveitar a explosão da insatisfação dos colonos, a revolta estava marcada para o dia da imposição da “derrama”, uma operação fiscal que previa a cobrança forçada de impostos atrasados imposta pela Coroa, na tentativa de garantir que 20% do ouro extraído, o chamado quinto, atingissem uma cota mínima anual de 100 arrobas, o que deixava a elite local à beira do pânico.

Como ressalta Maxwell, o governador Luís Antônio Furtado de Castro (1754-1830), visconde de Barbacena, porém, temeroso diante das possíveis consequências da medida, não seguiu as instruções de Martinho de Melo e Castro (1716-1795), ministro da Marinha e Ultramar de Portugal, desistindo de impor a “derrama”. Isso levou Silvério, um dia depois do adiamento da “derrama”, a procurar Barbacena para denunciar a conspiração. Em troca, queria aquilo que o levara a apoiar inicialmente os conspiradores: receber em troca o perdão de suas dívidas com o Erário.

Obviamente, por trás dos conspiradores, estavam mesmo os interesses pecuniários de Silvério e de João Rodrigues de Macedo (1739-1807), outro grande arrematante de contratos, em se livrar das dívidas com a Coroa. Explica-se: numa espécie de privatização, os dois arrematantes faziam o trabalho de recolher os tributos, mas sempre se “esqueciam” de repassar o dinheiro para a Coroa, tornando-se grossos devedores (termo da época). Aliás, para o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1742-1809), Silvério teria sido o “motor” da conspiração, aquele que imaginara a separação da capitania de Minas Gerais porque queria se livrar de suas grandes dívidas.

 

                                                           III

Maxwell destaca ainda uma profunda contradição que havia entre os conspiradores, que, em suas conversações e nas primeiras anotações sobre como funcionaria a futura república, invocavam os direitos humanos universais, embora fossem frequentemente os beneficiários da escravidão. E lembra: “Alguns argumentavam que os escravos deveriam ser libertados para se tornarem defensores da Nova República. Outros apontavam o problema econômico: se os escravos fossem libertados, os proprietários ficariam sem ninguém para trabalhar nas minas”, observa, lembrando que a solução imaginada seria a de libertar apenas “negros e mulatos nascidos no país”. Obviamente, “uma medida incompleta que revelou o profundo abismo entre seus ideais e seus interesses”, acrescenta o historiador.

Enfim, a nova obra de Maxwell merece uma leitura essencial e especial de quem se interessa em conhecer a verdadeira história do Brasil, que, adaptada aos dias de hoje, pode mostrar também que os brasileiros não devem mesmo esperar dos atuais governantes dos Estados Unidos nenhuma ação de boa vontade, mas apenas medidas que visam a explorar a matéria-prima e as riquezas da terra sul-americana, para cujo objetivo não prescindem nem mesmo de medidas arbitrárias como invadir os demais países e até aprisionar os seus principais dirigentes.

   

                                                           IV

Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos (DRCLAS), da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Columbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa em Columbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S. Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

Foi ainda Herodotus fellow no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e Guggenheim fellow e membro do Conselho de Administração da The Tinker Foundation, Inc. e do Conselho Consultivo da Fundação Luso-Americana. Também é membro dos Conselhos Consultivos da Brazil Foundation e da Human Rights Watch Americas. Fez  bacharelado e mestrado no St. John's College, na Universidade de Cambridge, e mestrado e doutorado na Universidade de Princeton. É colaborador regular do site Second Line of Defense (www.SLDinfo.com).

Publicou também A Devassa da Devassaa Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808 (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1978), Marquês de Pombal – Paradoxo do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1996), A Construção da Democracia em Portugal (Oeiras, Portugal, Editorial Presença, 1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (Hove, Eats Sussex, Inglaterra, Psychology Press, 2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1999),  Mais malandros – ensaios tropicais e outros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 2005); Kenneth Maxwell on Global Trendsan historian of the 18th century looks at the contemporary world (Londres, Robbin Laird, editor, 2023), Brazil in a Changing World Order (Londres, Robbin Laird, editor, 2024); Perspectives on Portuguese History (Londres, Robbin Laird, editor, 2025); e The Tale of Three Cities (Londres, Robbin Laird, editor, 2025),  entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

_______________________

Globalização do Século XVIII – A Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (18th Century Globalization – The American Revolutionary Ideal Comes to Brazil  / 18e siècle Mondialisation – Le Point de transit intellectuel français), de Kenneth Maxwell. Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor, edições impressas em Português, Inglês e Francês, 201, 199 e 176 páginas, R$ 113,38 (Amazon), 2026.

______________________________

Adelto Gonçalves  (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002); Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2023), publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sábado, 25 de julho de 2026

Cabo Verde - Liliane Reis apresenta “Memórias da Aurora” na Cidade da Praia

A artista multidisciplinar e designer cabo-verdiana Liliane Reis inaugurou esta quinta-feira, 23, na Cidade da Praia, a sua terceira exposição, intitulada “Memórias da Aurora”, depois de ter apresentado as obras na cidade do Mindelo. As obras ficarão patentes ao público até 6 de Agosto, na Livraria Nhô Eugénio


Segundo a autora, esta exposição surgiu da sua jornada interior para contar a sua aurora, o seu equilíbrio interior. “A escrita começou simplesmente por despertar a escritora em mim e as ilustrações, a artista, mas, depois, quando vi que já tinha uma colecção consistente, lancei-me o desafio de fazer a exposição”.

A exposição reúne poesia e ilustração. Além dos quadros clássicos, inclui também desenhos e livros que proporcionam uma experiência vintage, produzidos em edição limitada de apenas 23 exemplares.

“Cada livro foi feito manualmente, segundo métodos de ilustração antiga. Fiz todos os desenhos e tentei proporcionar essa experiência, para que não fosse apenas um livro, mas também uma experiência sensorial”, relata.

O livro, feito à mão pela autora, conta com apenas 23 exemplares. Cada unidade inclui um marcador de livro único, uma peça artística criada pela autora, assinada e acompanhada de uma dedicatória especial para o comprador.

“Cada marcador é uma peça de arte única, que faz parte também da exposição. O livro é uma experiência de viagem para um universo vintage, porque hoje em dia temos tanto acesso ao digital que nos esquecemos da memória simples de tocar e ler um livro. Por isso, a experiência do livro é única, não apenas pelo conteúdo, mas por todos os detalhes do seu design”, realça.

Os livros são também acompanhados de postais com todas as peças da exposição, assinados pela autora. “A exposição propõe um encontro imersivo entre ilustração, poesia e design, reunindo diferentes linguagens artísticas numa experiência sensorial que atravessa a imagem, a palavra e o som”.

Durante a inauguração, será também apresentado o livro de autor Memórias da Aurora, uma edição bilingue (inglês e português), artesanal e experimental, concebida e produzida manualmente pela autora.

Ao longo da exposição, decorrerão ainda pequenos eventos paralelos ligados ao processo criativo, à poesia, ao design e à experimentação da autora. No dia 30 de Julho, realiza-se um workshop exclusivo para despertar o artista que existe dentro de nós.

“O workshop pretende despertar o artista que existe em cada um de nós, através de exercícios criativos que promovam a ligação com a emoção e a transformação dessa emoção numa forma de expressão, quer através do desenho, quer das palavras”, realça.

Em relação ao workshop, a autora informa que as inscrições são limitadas devido ao espaço disponível. A iniciativa é aberta ao público em geral.

No dia 6 de Agosto, realiza-se a sessão de encerramento da exposição, durante a qual será lançada a obra poética de Liliane Reis O Nascer do Sol, em língua cabo-verdiana, que complementa o livro principal da exposição.

Natural de São Vicente, Liliane Reis conta que, desde muito cedo, teve interesse por desenhar, pintar, cantar e dançar.

Liliane Reis frisa que escolheu ser designer porque é extremamente criativa. “E acho que também é uma forma de dar vida a essa criatividade”.

Na sua mensagem final, a artista salienta que, por vezes, as pessoas pensam que a arte é apenas pintar. “Mas a arte é uma forma de expressão. E expressamos essa arte no nosso dia-a-dia de diferentes formas”.

“Venham visitar e tenham a experiência de ver os desenhos ao vivo e de apreciar o detalhe de cada ilustração, porque cada linha é uma emoção, uma história, uma poesia e o despertar da aurora”, convida.

Liliane Reis é uma artista multidisciplinar cabo-verdiana, com origens na ilha de Santo Antão, criada na Cidade da Praia e marcada pela vivência entre Cabo Verde e Portugal.

A sua prática atravessa a ilustração, a poesia, a mixed media e o design, explorando emoções, memórias, identidade e a relação entre o eu e o todo. Interessa-se pelos detalhes e pelas pequenas nuances da experiência humana, construindo narrativas através da imagem, da palavra e do som. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”