Obra
mais recente do professor Flávio R. Kothe reúne narrativas que expõem dúvidas e
perplexidades dos personagens
I
Se como disse o saudoso professor,
ensaísta e crítico Massaud Moisés (1928-2018), em Dicionário de Termos
Literários (São Paulo, Editora Cultrix, 2004), o conto deve ter ênfase
antes na ação, antes no conflito que nos participantes, enquanto a narração
representa papel menor, aparecendo apenas para abreviar o desfile de
acontecimentos secundários ou anteriores à ação principal, os trinta contos que
compõem O bem-te-vi e a folha amarela
(São Paulo, Editora Cajuína, 2026), do professor Flávio R. Kothe, cumprem esse
papel. São textos que partem da memória do autor, de seus primeiros anos e de sua
vida profissional, mas que não deixam de adentrar as searas da ficção e da reflexão,
para, através do desvelar do novelo da memória,
percorrer os caminhos da parte íntima dos personagens.
Foram escritos entre 2023 e 2025, muitos ainda no período
da pandemia de covid-19 (2020-2023), em que as pessoas foram obrigadas a evitar
a frequência a lugares fechados e até mesmo a sair de casa, época marcada no
Brasil também pela reascensão do nazifascismo caboclo, favorecido pela difusão
de suas ideias nas redes sociais que acabaram por encontrar terreno fértil
entre os néscios, de que os acampamentos à frente de quartéis foram o mais
estúpido dos exemplos. Como diz Kothe no texto de apresentação, os contos estão
divididos em três blocos: o primeiro abrange narrativas de temas diversos, com
ênfase nos tempos sombrios da infância do autor, enquanto o terceiro tem bichos
como personagens e o do meio reservado para vivências à época do regime militar
(1964-1985).
Uma infância marcada por silêncios e deslocamentos à vida
adulta é o que o leitor vai encontrar logo no quarto conto, “O capote”, em que
o narrador, a pretexto de recuperar vestígios de sua meninice como descendente
de imigrantes alemães, revivifica o clima que havia entre aqueles que se haviam
estabelecido no Sul do Brasil e, às escondidas, usavam como língua usual o Hochdeutsch,
numa época em que o idioma, a cultura e a identidade daquele povo estavam sendo
perseguidos e menosprezados, depois do fim da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945), com a derrota das forças do ditador Adolfo Hitler (1889-1945). O
menino de cinco anos vivia no hotel dos seus avós paternos, do qual o pai era
gerente e a mãe garçonete, e assistia à passagem de hóspedes que, geralmente,
vinham da região do Hunsrück, da margem esquerda do rio Reno tomada pelos
franceses, e da beira do rio Oder, na Prússia Ocidental, ameaçada por poloneses
e russos.
II
Já no extenso conto, de 19 páginas, que leva por título
“Tainá”, marcado pelo diálogo entre um experiente professor e sua bela
orientanda, a narrativa, que está intimamente ligada à vida profissional do
autor, articula-se rumo a um desfecho inesperado, mas coerente com o todo da
fabulação. Segue um parágrafo em que o narrador descreve a personagem:
“(...) Tainá era uma
das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Ela não era só bonita: refluía
ao seu redor uma feminilidade no ar, como se deusa fosse. Era uma deusa:
bastaria eu ajoelhar e baixar a cabeça, já ela ficaria no ar”.
Tal como os demais, este conto percorre zonas de tensão em
que o íntimo e o histórico se entrelaçam, com o autor partindo visivelmente do
vivido para construir histórias que se afastam do real imediato, convergindo
para um único objetivo: oferecer ao leitor, com uma linguagem concisa e
atraente, aspectos do dia a dia que são conhecidos do homem comum, mas que
muitas vezes ficam encobertos. Como a ênfase é colocada no conflito passivo
entre os participantes, o diálogo predomina na trama do conto.
Narrado em primeira pessoa, como de hábito neste gênero de
prosa, a narrativa transcorre como uma confidência melancólica: sabemos
intimidades de alguém, mas sabemos muito mais do narrador. A narração, por sua
vez, representa papel menor: aparece para abreviar o desfile de acontecimentos
secundários ou anteriores à ação principal. Paralelamente, a descrição de seres
e coisas tende a um segundo plano e, assim, a narrativa articula-se rumo a um
desfecho inesperado e pouco usual nesse tipo de narrativa, mas coerente com o
todo da fabulação. Ou seja, o começo da narrativa determina o desenlace.
III
No conto seguinte, “O busto e a muiraquitã”, igualmente
extenso, de 19 páginas, o que se vê é também uma inspiração que vem da vida
profissional do autor, a ponto de constituir uma espécie de depoimento, tantas
são as coincidências quanto a lugares e situações que acompanham o fio
narrativo, como se o professor-narrador buscasse o máximo de fidelidade na
captação de episódios por certo rememorados. E, assim, o leitor vai conhecer o
quão difícil também foi a vida, no ambiente universitário, para aqueles que não
compactuavam com as diretrizes do regime militar (1964-1985) que infelicitou a
nação e produziu tantas vítimas (muitas fatais).
O narrador percebe que, desde o começo, quando fazia a sua
graduação, há 50 anos ou mais, sequer fora sondado para ser professor nas
universidades, pois, para o sistema, por suas ideias contrárias à barbárie
instalada pelas baionetas, já seria uma espécie de leproso, alguém que “a
ditadura não amava”. Repelido por aqueles que já o conheciam, teve de procurar
trabalho onde não o conheciam. E, assim, trocou o Sul pela capital federal,
Brasília, dando início a um périplo que incluiria várias universidades
europeias.
Já no conto “Gói (meu impaciente paciente)” é narrado por
um psicoterapeuta que, entre os seus clientes, tinha alguém que nunca havia
conseguido se tornar professor nas universidades públicas de São Paulo, o que o
forçara a se mudar de Estado. Embora
bem-preparado e titulado, com boas provas, era sempre reprovado nos concursos
para docente, provavelmente porque, sem saber, havia participado de jogos de
cartas marcada.
A parte final da obra está reservada a seis contos em que
os personagens principais são bichos, nos quais o contista redescobre a
liberdade de inventar, como se lê no texto de apresentação do autor. Naquele texto
que dá título ao livro, um bem-te-vi conversa com uma folha amarela, enquanto o
pano de fundo é um idoso agonizante. No final, o bem-te-vi murmura: “Alguns
idosos preferem morrer porque não aceitam as mudanças que estão ocorrendo: são
contra o celular, a inteligência artificial, a internet. Acham que são
diferentes só porque estão desatualizados: o mundo não merece a presença
deles”.
IV
Enfim, são contos em que o autor procura mergulhar na
introspecção, desenterrando do inconsciente muitas reminiscências não só de
suas aventuras ou contratempos pessoais, mas também de pessoas que, com
certeza, conheceu e com as quais deve ter conversado ou participado de suas
intermitências, como se dá no conto “O pintor e o monge”, em que o narrador, um
jornalista, conta as peripécias que vivera para entrevistar um pintor que
assassinara alguém em legítima defesa e, no fim da vida, vivia recluso num
mosteiro católico, embora fosse adepto do deus de Baruche Spinoza (1632-1677),
ou seja, da própria natureza.
Nascido e crescido em Santa Cruz do Sul, na região central do Rio Grande do Sul, Kothe reconhece que este é um livro muito santa-cruzense, pois vários dos temas vieram de sua vivência naquela cidade. Lá, ele ainda tem irmãos, primos e sobrinhos e confessa que mantém o costume de começar o dia lendo a Gazeta do Sul, o jornal local. “A cidade é, para mim, mais importante que outras cidades maiores em que vivi, como Porto Alegre, São Paulo, Berlim, Rostock”, garante. “O que eu relembro não é, no entanto, apenas algo que exalte a cidade, ainda que eu tenha procurado lembrar eventos engraçados, peculiares. Ressuscito vidas pretéritas que já desapareceram na cidade, mas continuam significativas”, acrescenta.
V
Flávio René Kothe (1946) é licenciado em Letras, mestre e doutor
em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo
(USP), com livre-docência pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de
Campinas. Fez estágios de pós-doutoramento nas universidades de Yale, nos
Estados Unidos, Heidelberg, Berlim, Konstanz, Bonn e Frankfurt, na Alemanha.
Lecionou também na PUC, de São Paulo, e na Universidade Federal de Goiás (UFG).
Perseguido pela ditadura, perdeu o cargo na Universidade de
Brasília (UnB), mas, 15 anos depois, anistiado, conseguiu retornar à
instituição, onde é pesquisador sênior e professor titular aposentado de
Estética. Foi professor visitante na Universidade de Rostock, na Alemanha, onde
conseguiu refúgio por cinco anos, fugindo de seus perseguidores, e na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Europa, teve como
interlocutores alguns dos maiores nomes da Filosofia, da Literatura e de outras
Ciências Humanas. Em seu retorno à UnB, trabalhou com as disciplinas de Teoria
Literária, Literatura Comparada, Tradução, Narrativa Trivial e Cânone Brasileiro.
Dedica-se, sobretudo, a questões de Estética, Arte Comparada
e Semiótica da Cultura. Atualmente, coordena o Núcleo de Estética, Hermenêutica
e Semiótica e é editor da Revista de Estética e Semiótica,
que está no Portal de Periódicos da UnB. Foi presidente da Academia de Letras
do Brasil, em Brasília, por três períodos (seis anos), e é editor da revista
impressa da instituição, de publicação semestral.
Dono de vasta obra que inclui mais de 60 livros e mais de
600 trabalhos publicados nos gêneros romance, novela, contos, poesia, tradução
e ensaios, entre os seus últimos títulos (todos publicados pela Editora
Cajuína) estão também: Casos do acaso (contos, 2018), Literatura
e sistemas intersemióticos (ensaios, 2019), Fundamentos
da Teoria Literária (ensaios, 2019), Segredos da
concha (contos, 2019), Sem deuses mais (poesias,
2019), Benjamin & Adorno: confrontos (ensaios,
2020), O Cânone Colonial (ensaios, 2020), O Herói
(ensaios, 2022), Rio do Sono (contos, 2023), Crimes
no campus (novela, 2023), Alegoria, aura e fetiche
(ensaios, 2023) e O Cânone Imperial (ensaios, 2025).
Foi pioneiro no Brasil em estudos sobre semiótica da
cultura, poesia hermética, hermenêutica, Escola de Frankfurt, formalismo russo
e Círculo Bakhtine, que define o grupo de intelectuais russos liderados pelo
filósofo Mikhail Bakhtine (1895-1975) que, no começo século XX, revolucionaram
os estudos da linguagem e da literatura. Além de Walter Benjamin (1892-1940),
traduziu obras de Theodor Adorno (1903-1969), Friedrich Nietzsche (1844-1900),
Karl Marx (1818-1883), Paul Celan (1920-1970), Franz Kafka (1883-1924),
Heinrich Mann (1871-1950), Patrick Süssekind (1949) e outros. Adelto
Gonçalves - Brasil
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O bem-te-vi
e a folha amarela, contos, de Flávio R. Kothe. São Paulo:
Editora Cajuína, 1ª edição, 318 páginas, R$ 120,00, 2026. Site:
www.cajuinaeditora.com.br E-mail:
contato@editoracajuina.com.br
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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola
e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona Brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil
perdido (Lisboa, Editorial
Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia
Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em terras d´el-Rei na São
Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os
vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981;
Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo
Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros.
Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global
Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e
nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br