Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Contos feitos de memória, reflexão e ficção

Obra mais recente do professor Flávio R. Kothe reúne narrativas que expõem dúvidas e perplexidades dos personagens

                                                                                                  

                                                                                  I

Se como disse o saudoso professor, ensaísta e crítico Massaud Moisés (1928-2018), em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Editora Cultrix, 2004), o conto deve ter ênfase antes na ação, antes no conflito que nos participantes, enquanto a narração representa papel menor, aparecendo apenas para abreviar o desfile de acontecimentos secundários ou anteriores à ação principal, os trinta contos que compõem O bem-te-vi e a folha amarela (São Paulo, Editora Cajuína, 2026), do professor Flávio R. Kothe, cumprem esse papel. São textos que partem da memória do autor, de seus primeiros anos e de sua vida profissional, mas que não deixam de adentrar as searas da ficção e da reflexão, para, através do desvelar do novelo da memória,  percorrer os caminhos da parte íntima dos personagens.

Foram escritos entre 2023 e 2025, muitos ainda no período da pandemia de covid-19 (2020-2023), em que as pessoas foram obrigadas a evitar a frequência a lugares fechados e até mesmo a sair de casa, época marcada no Brasil também pela reascensão do nazifascismo caboclo, favorecido pela difusão de suas ideias nas redes sociais que acabaram por encontrar terreno fértil entre os néscios, de que os acampamentos à frente de quartéis foram o mais estúpido dos exemplos. Como diz Kothe no texto de apresentação, os contos estão divididos em três blocos: o primeiro abrange narrativas de temas diversos, com ênfase nos tempos sombrios da infância do autor, enquanto o terceiro tem bichos como personagens e o do meio reservado para vivências à época do regime militar (1964-1985).

Uma infância marcada por silêncios e deslocamentos à vida adulta é o que o leitor vai encontrar logo no quarto conto, “O capote”, em que o narrador, a pretexto de recuperar vestígios de sua meninice como descendente de imigrantes alemães, revivifica o clima que havia entre aqueles que se haviam estabelecido no Sul do Brasil e, às escondidas, usavam como língua usual o Hochdeutsch, numa época em que o idioma, a cultura e a identidade daquele povo estavam sendo perseguidos e menosprezados, depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a derrota das forças do ditador Adolfo Hitler (1889-1945). O menino de cinco anos vivia no hotel dos seus avós paternos, do qual o pai era gerente e a mãe garçonete, e assistia à passagem de hóspedes que, geralmente, vinham da região do Hunsrück, da margem esquerda do rio Reno tomada pelos franceses, e da beira do rio Oder, na Prússia Ocidental, ameaçada por poloneses e russos.

 

                                                    II

Já no extenso conto, de 19 páginas, que leva por título “Tainá”, marcado pelo diálogo entre um experiente professor e sua bela orientanda, a narrativa, que está intimamente ligada à vida profissional do autor, articula-se rumo a um desfecho inesperado, mas coerente com o todo da fabulação. Segue um parágrafo em que o narrador descreve a personagem:

 “(...) Tainá era uma das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Ela não era só bonita: refluía ao seu redor uma feminilidade no ar, como se deusa fosse. Era uma deusa: bastaria eu ajoelhar e baixar a cabeça, já ela ficaria no ar”.

Tal como os demais, este conto percorre zonas de tensão em que o íntimo e o histórico se entrelaçam, com o autor partindo visivelmente do vivido para construir histórias que se afastam do real imediato, convergindo para um único objetivo: oferecer ao leitor, com uma linguagem concisa e atraente, aspectos do dia a dia que são conhecidos do homem comum, mas que muitas vezes ficam encobertos. Como a ênfase é colocada no conflito passivo entre os participantes, o diálogo predomina na trama do conto.

Narrado em primeira pessoa, como de hábito neste gênero de prosa, a narrativa transcorre como uma confidência melancólica: sabemos intimidades de alguém, mas sabemos muito mais do narrador. A narração, por sua vez, representa papel menor: aparece para abreviar o desfile de acontecimentos secundários ou anteriores à ação principal. Paralelamente, a descrição de seres e coisas tende a um segundo plano e, assim, a narrativa articula-se rumo a um desfecho inesperado e pouco usual nesse tipo de narrativa, mas coerente com o todo da fabulação. Ou seja, o começo da narrativa determina o desenlace.

 

               III

No conto seguinte, “O busto e a muiraquitã”, igualmente extenso, de 19 páginas, o que se vê é também uma inspiração que vem da vida profissional do autor, a ponto de constituir uma espécie de depoimento, tantas são as coincidências quanto a lugares e situações que acompanham o fio narrativo, como se o professor-narrador buscasse o máximo de fidelidade na captação de episódios por certo rememorados. E, assim, o leitor vai conhecer o quão difícil também foi a vida, no ambiente universitário, para aqueles que não compactuavam com as diretrizes do regime militar (1964-1985) que infelicitou a nação e produziu tantas vítimas (muitas fatais).

O narrador percebe que, desde o começo, quando fazia a sua graduação, há 50 anos ou mais, sequer fora sondado para ser professor nas universidades, pois, para o sistema, por suas ideias contrárias à barbárie instalada pelas baionetas, já seria uma espécie de leproso, alguém que “a ditadura não amava”. Repelido por aqueles que já o conheciam, teve de procurar trabalho onde não o conheciam. E, assim, trocou o Sul pela capital federal, Brasília, dando início a um périplo que incluiria várias universidades europeias.

Já no conto “Gói (meu impaciente paciente)” é narrado por um psicoterapeuta que, entre os seus clientes, tinha alguém que nunca havia conseguido se tornar professor nas universidades públicas de São Paulo, o que o forçara a se mudar de Estado.  Embora bem-preparado e titulado, com boas provas, era sempre reprovado nos concursos para docente, provavelmente porque, sem saber, havia participado de jogos de cartas marcada.

A parte final da obra está reservada a seis contos em que os personagens principais são bichos, nos quais o contista redescobre a liberdade de inventar, como se lê no texto de apresentação do autor. Naquele texto que dá título ao livro, um bem-te-vi conversa com uma folha amarela, enquanto o pano de fundo é um idoso agonizante. No final, o bem-te-vi murmura: “Alguns idosos preferem morrer porque não aceitam as mudanças que estão ocorrendo: são contra o celular, a inteligência artificial, a internet. Acham que são diferentes só porque estão desatualizados: o mundo não merece a presença deles”.

 

                                                   IV

Enfim, são contos em que o autor procura mergulhar na introspecção, desenterrando do inconsciente muitas reminiscências não só de suas aventuras ou contratempos pessoais, mas também de pessoas que, com certeza, conheceu e com as quais deve ter conversado ou participado de suas intermitências, como se dá no conto “O pintor e o monge”, em que o narrador, um jornalista, conta as peripécias que vivera para entrevistar um pintor que assassinara alguém em legítima defesa e, no fim da vida, vivia recluso num mosteiro católico, embora fosse adepto do deus de Baruche Spinoza (1632-1677), ou seja, da própria natureza.

Nascido e crescido em Santa Cruz do Sul, na região central do Rio Grande do Sul, Kothe reconhece que este é um livro muito santa-cruzense, pois vários dos temas vieram de sua vivência naquela cidade. Lá, ele ainda tem irmãos, primos e sobrinhos e confessa que mantém o costume de começar o dia lendo a Gazeta do Sul, o jornal local. “A cidade é, para mim, mais importante que outras cidades maiores em que vivi, como Porto Alegre, São Paulo, Berlim, Rostock”, garante. “O que eu relembro não é, no entanto, apenas algo que exalte a cidade, ainda que eu tenha procurado lembrar eventos engraçados, peculiares. Ressuscito vidas pretéritas que já desapareceram na cidade, mas continuam significativas”, acrescenta.



                V                           

Flávio René Kothe (1946) é licenciado em Letras, mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), com livre-docência pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de Campinas. Fez estágios de pós-doutoramento nas universidades de Yale, nos Estados Unidos, Heidelberg, Berlim, Konstanz, Bonn e Frankfurt, na Alemanha. Lecionou também na PUC, de São Paulo, e na Universidade Federal de Goiás (UFG).

Perseguido pela ditadura, perdeu o cargo na Universidade de Brasília (UnB), mas, 15 anos depois, anistiado, conseguiu retornar à instituição, onde é pesquisador sênior e professor titular aposentado de Estética. Foi professor visitante na Universidade de Rostock, na Alemanha, onde conseguiu refúgio por cinco anos, fugindo de seus perseguidores, e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Europa, teve como interlocutores alguns dos maiores nomes da Filosofia, da Literatura e de outras Ciências Humanas. Em seu retorno à UnB, trabalhou com as disciplinas de Teoria Literária, Literatura Comparada, Tradução, Narrativa Trivial e Cânone Brasileiro.

Dedica-se, sobretudo, a questões de Estética, Arte Comparada e Semiótica da Cultura. Atualmente, coordena o Núcleo de Estética, Hermenêutica e Semiótica e é editor da Revista de Estética e Semiótica, que está no Portal de Periódicos da UnB. Foi presidente da Academia de Letras do Brasil, em Brasília, por três períodos (seis anos), e é editor da revista impressa da instituição, de publicação semestral.

Dono de vasta obra que inclui mais de 60 livros e mais de 600 trabalhos publicados nos gêneros romance, novela, contos, poesia, tradução e ensaios, entre os seus últimos títulos (todos publicados pela Editora Cajuína) estão também: Casos do acaso (contos, 2018), Literatura e sistemas intersemióticos (ensaios, 2019), Fundamentos da Teoria Literária (ensaios, 2019), Segredos da concha (contos, 2019), Sem deuses mais (poesias, 2019), Benjamin & Adorno: confrontos (ensaios, 2020), O Cânone Colonial (ensaios, 2020), O Herói (ensaios, 2022), Rio do Sono (contos, 2023), Crimes no campus (novela, 2023), Alegoria, aura e fetiche (ensaios, 2023) e O Cânone Imperial (ensaios, 2025).

Foi pioneiro no Brasil em estudos sobre semiótica da cultura, poesia hermética, hermenêutica, Escola de Frankfurt, formalismo russo e Círculo Bakhtine, que define o grupo de intelectuais russos liderados pelo filósofo Mikhail Bakhtine (1895-1975) que, no começo século XX, revolucionaram os estudos da linguagem e da literatura. Além de Walter Benjamin (1892-1940), traduziu obras de Theodor Adorno (1903-1969), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Karl Marx (1818-1883), Paul Celan (1920-1970), Franz Kafka (1883-1924), Heinrich Mann (1871-1950), Patrick Süssekind (1949) e outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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O bem-te-vi e a folha amarela, contos, de Flávio R. Kothe. São Paulo: Editora Cajuína, 1ª edição, 318 páginas, R$ 120,00, 2026. Site: www.cajuinaeditora.com.br E-mail: contato@editoracajuina.com.br

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sábado, 18 de julho de 2026

Moçambique - Marracuene acolhe lançamento de “Coelhinho Enfeitiçado”, obra de Bora Chung traduzida por três criadoras moçambicanas

A primeira livraria do distrito de Marracuene, a Livroteca, recebe no próximo sábado, 18 de Julho, às 10h00, o lançamento da edição moçambicana de “Coelhinho Enfeitiçado”, da escritora sul-coreana Bora Chung. Publicada pela Editora Trinta Zero Nove, a obra ganha uma edição especial que destaca o trabalho de três mulheres moçambicanas responsáveis pela tradução, ilustração e narração do audiolivro, aproximando os leitores nacionais de uma das mais conceituadas vozes da literatura coreana contemporânea.


Finalista do prestigiado International Booker Prize, “Coelhinho Enfeitiçado” reúne dez contos que cruzam o terror, o realismo mágico, a ficção científica e o surrealismo para abordar temas como a solidão, a memória, o trauma, o amor e a condição humana. A edição moçambicana conta com tradução directa do coreano para português por Sandra Tamele, ilustração da capa assinada por Jesse Jane e narração do audiolivro por Camila “Kami” do Castelo, valorizando o talento nacional em diferentes áreas da criação artística.

O lançamento decorrerá em formato de conversa, reunindo as três criadoras para partilharem os bastidores do processo editorial e os desafios de transportar uma obra entre diferentes linguagens, da tradução à ilustração e da interpretação vocal. A sessão incluirá ainda a leitura de um excerto do livro e contará com a participação especial da Embaixada da Coreia em Maputo, que disponibilizou hanboks, trajes tradicionais coreanos, para a ocasião.

Com esta publicação, a Editora Trinta Zero Nove reforça o seu compromisso de promover a tradução literária, ampliar o acesso à literatura mundial e incentivar formatos como o audiolivro. O evento assinala igualmente mais um marco para a Livroteca, que continua a afirmar-se como um espaço de promoção da leitura, do diálogo intercultural e da valorização da criação literária em Moçambique. In “Moz Entretenimento” - Moçambique




sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livro de acordar o leitor: “A vizinha das sete cordas”

Todos os textos de Hugo Almeida, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral

O recente livro de Hugo Almeida, A vizinha das sete cordas (São Paulo: Sinete, 2026), é composto de 15 contos, distribuídos em três partes: Dentro de Casa, Fora de Casa e Além – Tributo a três eternos. Nessa última parte, o tributo é dedicado a três grandes escritores brasileiros: Osman Lins, Clarice Lispector e Manuel Bandeira.

Em verdade, todos os textos de Hugo, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral. Há uma rede de epígrafes, começando com Lima Barreto, Lord Bulwer Lytton e Ivan Lins, abordando crimes, erros, desgraça e perdão, e se espalham praticamente em cada conto, ocorrendo, inclusive, uma epígrafe (ou hipógrafe?) no final do texto “Ponto cego”, com versos de Jorge de Lima: “surdo-mudo/ cegara. / Agora vê”.

Creio que esses versos e o título do conto indicam bem a sensação que uma primeira leitura vai despertar nos leitores dessa coletânea (que conta com o lúcido prefácio de Eltânia André). A obra é repleta de pontos cegos, assim como se o autor valesse de um palimpsexto sentido para captar movimentos, sensações, lugares, crueldades e afetos disseminados ao longo das narrativas.

Em termos de afeto, sinto-me honradamente contemplado, pois, em meio a tantas dedicatórias, Hugo Almeida lembra-se de meu humilde nome no final de “Assim de touca e máscara?”, conto que recebe epígrafe de belo verso do poema “Maçã”, de Manuel Bandeira e sua intricada trama joga com antiguidade romana, reminiscências bíblicas, Chopin, Mallarmé, Dalí, Lorca, Tasso e taça de vinho, sem omitir um pintor de origem espanhola, seria Carlos Alonso? O que gosto desse e de demais textos é a força poética que insufla as narrativas, pois o autor põe a poesia em bom lugar, daí “verso, poema, pedra preciosa” são elementos estruturantes, irrigando de lirismo, mas sem evitar os impactos desumanizantes que são denunciados. No conto alusivo a Manuel Bandeira, “O poeta e a estrela da manhã”, lê-se que, na esteira de Mallarmé, “escrever poesia é fazer música com a dor” (p.144).

O leitor não pode dormir de touca: há muitos toques intertextuais, paratextuais e outros que tais. Por exemplo, em “O casal do farol”, Hugo toca em tema que sempre me atraiu, desde que li “Os faroleiros”, conto de Urupês, de Monteiro Lobato. E não costumo perder filmes ambientados em faróis. No conto de Hugo, com epígrafe do recorrente Osman Lins, que empresta nomes de suas personagens para os protagonistas são designados por dois nomes: Alex (fora da lei) e Sóstrato (que remete ao arquiteto e engenheiro que projetou o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo). O casal é formado por ele e por Nancy, que também é chamada de Bárbara. Nomes tirados de textos de Osman, o mentor de Hugo. Nesse conto, em que o homem é ilha e mulher é arquipélago, dramatizam-se amor, isolamento, desencontro.

O número sete assinala a trama do conto que dá título ao livro, curiosa história das vizinhas Elvira e Mira, nomes que remetem ao olhar e ao comportamento humano, em sua ordem e desordem. A epígrafe de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos dá o tom irônico que pontuará o texto: “Sim, está tudo certo. / Está tudo perfeitamente certo”.

Uso de uma expressão de José Miguel Wisnik para afirmar que Hugo Almeida é dos escritores que dão “pérolas aos poucos”, uma vez que sua erudição e prodigalidade em saltos de longa distância de um texto para outros não dão vida fácil para leitores muito acomodados. E o leitor tem todo o direito de gostar mais de um conto do que de outro. Por exemplo, além dos já citados, entre os quinze contos impressionou-me “Nas nuvens”, primor de minimalismo, pegada para uma narrativa fantástica, simbologia bíblica com a Estrela de Belém, os nove meses da gravidez de Maria (as datas 22 de março e o Natal), o casal que sai da casa para um apartamento e é atraído pela maquete.

Em tempos de Copa do Mundo, é de se ler e de se rir de “Influxologia alemã”, neologismo criado para referir-se ao absurdo de um juiz que decide invalidar os impiedosos 7 x 1 que os alemães aplicaram no selecionado nacional, no Mineirão, em 2014. O humor também pontua “Dona Justina”, em que aparece pela segunda vez um personagem chamado Túlio, não sei se Hugo pensou num personagem de Avalovara, de Osman, ou se viu no seu significado de “o que cria ou dá origem às coisas”. Como sou chegado a um trocadilho, prefiro brincar com “entulho”, levando para uma metáfora dos fragmentos que povoam nossa memória, nosso inconsciente, que abruptamente surgem na criação ou na fruição da ficção.


Vale a pena acordar para os textos desse admirável escritor mineiro, nascido em Nanuque (nome de morador da serra) em 1952, mas saiu de lá ainda bebê, viveu nove anos na Bahia e 22 em Belo Horizonte. Mora em São Paulo desde 1984. A vizinha das sete cordas é o seu 17º livro e 5º de contos. Hugo Almeida é autor dos romances Mil corações solitários (5ª edição) e Vale das ameixas (2ª), e do ensaio livre A voz dos sinoso sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, todos também publicados pela Editora Sinete.  Caio J. Maciel – Brasil

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A vizinha das sete cordas (contos), de Hugo Almeida, Editora Sinete, 152 páginas, R$ 60,00. Disponível nos sites da editora e na Amazon.

https://link.amazon/B0gvagtCi

e www.editorasinete.com.br

E-mail: editorasinete@gmal.com. Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Caio Junqueira Maciel, professor e escritor, é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor, entre outros, dos ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, dos poemas Pele de jabuticaba e do romance Um estranho no Minho, sobre o período em que viveu em Portugal.




terça-feira, 14 de abril de 2026

“A bala dos desarmados”, histórias dentro da História

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra permeia os 14 contos do quinto livro do escritor mineiro Francisco de Morais Mendes

 

I

Ao contrário do que pensava Guimarães Rosa, como expressa no título Primeiras estórias, há um bom tempo os estudos literários não distinguem estória de história; a primeira seria ficção e a segunda, fato. Ficção ou realidade, será sempre história. A lembrança vem a propósito do quinto livro de Francisco de Morais Mendes (Belo Horizonte, 1956), A bala dos desarmados (Sinete, 2025), em que a criação ficcional está embebida da História, como ocorre em grandes obras, seja romance, conto ou poema.

Com enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor. Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que conseguem essa proeza, a de estimular a imaginação do leitor.

Conto não é um gênero fácil, ao contrário do que pensam muitos autores e leitores, imaginando que se trata somente da quantidade de páginas. São esclarecedoras as palavras de Gabriel García Márquez no Prólogo de Doce cuentos peregrinos: “O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, extensão, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar [...] O conto, por sua vez, não tem começo nem fim: ou toma forma ou não. E se desanda [...], é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo”.

Autor multipremiado de novelas e contos fortes, densos e originais, Francisco de Morais Mendes sabe muito bem disso – e seus contos nunca desandam, desde o início tudo está bem encaminhado. O escritor mineiro encara a literatura com seriedade e paixão. Não tem pressa. Com a obra anterior, o brilhante Sacrifício e outros contos, conquistou o Prêmio Autor 2018, em Lisboa, onde foi publicado pela Gato Bravo em 2019 e no Brasil pela Jaguatirica em 2021. Há escritores que estreiam com ótimo livro e aos poucos vão se diluindo, em evidente declínio do vigor narrativo, do apuro estético e da escolha e condução dos temas. Alguns, se fossem times de futebol, já teriam caído para a Série B (antiga Segunda Divisão) ou C, sem chances de retorno, mas seguem na mídia e no gosto de leitores pouco exigentes. A inércia da fama. Não é o caso do autor de A bala dos desarmados. Ao contrário, ele se aprimora livro a livro – e é admirado por bons leitores.

 

II

Acompanho a ascensão literária de Morais Mendes desde a estreia, com Escreva, querida (1996), e tive a honra e o privilégio de escrever a orelha de A bala dos desarmados, a sua melhor coletânea de contos ou novelas. Apresentar com seriedade um excelente livro exige mais de uma leitura, mas numa orelha, espaço reduzido, pode-se apenas apontar alguns de seus incontáveis méritos; muitos deles não são abordados devido à limitação das estreitas abas e do prazo, em geral curto, de entrega do texto à editora. Além disso, a releitura de uma obra de real valor literário torna-se mais prazerosa, pois revela aspectos não percebidos antes. É o que dizia Osman Lins de outra maneira, mais elaborada: “As qualidades mais valiosas de um livro são como que secretas e se revelam aos poucos, sempre com parcimônia”. E, como detalhou a escritora e tradutora paulista Maria de Lourdes Teixeira em Esfinges de papel, a releitura é mais prazerosa do que a leitura “porque nos proporciona maior aprofundamento do tema e do pensamento do autor, maior captação dos processos utilizados, bem como satisfação artística mais lenta e mais saboreada, já que não nos aguça a curiosidade a visão global do assunto e sim os meandros e interstícios da obra em si”.

Vou tentar apresentar a seguir algumas das preciosidades dos contos de A bala dos desarmados; todos primorosos, obras-primas, já adianto. Interligados, eles se desdobam no tempo e espaço e se comunicam, como fazem pelas raízes as árvores numa floresta, fato comprovado pela ciência, e como ocorre nas histórias de autores engenhosos. Desejo trazer pontos além dos que apontei na orelha, mas não posso deixar de ressaltar o que ali destaquei: a recorrente falta de ar (às vezes metafórica) em vários contos, reflexo do clima sufocante que o Brasil viveu há alguns anos.

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra, mote natural dos grandes escritores, já se evidencia no primeiro conto, de título bem apropriado, “Incerta viagem”. Como no poema de Baudelaire, “O convite à viagem”, a leitura de um livro é sempre um novo convite. No entanto, em A bala dos desarmados trata-se de uma viagem distante daqueles versos idílicos do autor de As flores do mal (“Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor”). No início o narrador aventa a possibilidade (e suas terríveis, trágicas consequências) de uma duradoura pane mundial em computadores, celulares e na internet. Mas a história deriva para uma questão pessoal do narrador, um escritor, em diálogo tenso com uma leitora que dizia ter conhecido uma personagem dele. Ele refuta, a mulher seria inventada. No fim, leva um susto de efeito reverso. Surpresa também para o leitor. Instigante e deliciosa ficção dentro da ficção. A História acolhe a história.

Da questão pessoal do personagem-narrador do primeiro conto, o escritor nos traz, na segunda história, “Ar”, os anos angustiantes do pós-eleições de 2018, quando as famílias se esfacelavam e o Brasil apodrecia “como um animal morto largado numa poça de água suja”. Enquanto caminha ao encontro de uma amiga, a personagem Malu pensa na carta que escreveria à família ou ao tio e lembra-se da frase que ouviu do pai ao telefone, “justo ele, sempre tão comedido, tão calmo, perdendo as estribeiras com o tio: você votou na minha morte”. É nesse conto, vigorosa história dentro da História, que o autor cita um trecho de Avalovara, de Osman Lins, epígrafe-bússola do livro: “A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.

A arma física aparece no conto seguinte, “Hóspedes”, também angustiante história, embora de outra natureza. Um casal em Varsóvia prepara-se para embarcar de volta ao Brasil quando um trágico imprevisto acontece. A mulher se desespera e, sem entender o polonês nem falar outro idioma, sai atrás do marido que não voltara da descida rápida ao térreo do prédio em que estavam. Solidário com a mulher angustiada, na cidade vazia, de madrugada, o leitor ganha de brinde do autor frases singelas, cenas poéticas, como esta: “a luminosidade da rua aumentou com as nuvens descobrindo a lua”. Desde o primeiro parágrafo, o lírico e o fatídico estão lado a lado, como em outras narrativas.

 

III

Em várias histórias de A bala dos desarmados, Francisco de Morais Mendes evoca com propriedade, além de Osman Lins, diversos escritores, poetas e filósofos, como Drummond, Georges Perec, Philip Roth, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Tales de Mileto e Walter Benjamin. O diálogo mais explícito dos narradores ocorre com Julio Cortázar, no conto “Jardim das plantas”, o quarto do volume. Um árabe queria conhecer de perto um axolote, que antes acreditava ser invenção do escritor argentino, e embarca para Paris com a mulher e filhos, cada um com um objetivo. Na volta, recomeça a guerra civil no país deles, não nomeado. Com ajuda de amigos e visto diplomático, o homem refugia-se em Paris na esperança de conseguir emprego e depois levar a mulher e os filhos, mas começa na França “uma perseguição violenta” contra refugiados; ele perde o contato com a família. A história de Antígona, de Sófocles, reverbera no conto. “Às vezes penso que a Europa é isto: alguém tentando enterrar um corpo”, diz o personagem-narrador, que, numa grande sacada metalinguística do escritor, pede ajuda ao leitor para reencontrar a família.

Com o despistante título de “Corredores” e a menção genérica de topônimos – rua, avenida, parque, rio –, esse conto de forte tensão, desgeograficado que é, pode ter como cenário qualquer grande cidade do Brasil ou exterior. Em todo o labiríntico percurso de dois homens, um fugindo do outro, o leitor se pergunta que perseguição é aquela. Também o perseguidor tenta descobrir o que o perseguido pensa. Ofegantes, ambos procuram ar, a exemplo de pessoas hospitalizadas, sem oxigênio, em Manaus nos irrespiráveis meses de 2020. Inútil tentar prever o fim da história.

Depois de um passeio no Jardim Botânico de Londres, em 2018, Ivan e Elisa resolvem visitar o Museu Imperial da Guerra, guarnecido por dois canhões e um bonito jardim, no meio do caminho do ônibus deles. Por sugestão de uma amiga, o casal se interessa pela trincheira ali montada, mesmo sem gosto por instrumentos bélicos e mais para evitar a chuva que começava. Imaginava uma passagem rápida. Esse é o resumo do início do impressionante “Um olhar, uma foto”.

Logo o casal começa a sentir a “atmosfera de um tempo sombrio, opressivo”, o ambiente “sufocante” (a falta de ar que paira no livro) e “o cheiro do medo”. As imagens dos horrores da guerra mergulham os visitantes no silêncio. “Me faz lembrar um texto de Walter Benjamin”, diz Ivan à mulher. “Os soldados voltavam mudos da guerra de trincheiras. Incapazes de falar daquela experiência.” O que mais impressiona os visitantes, porém, é a foto de 1941 de uma adolescente judia “sentada no calçamento” no centro da barbárie, vítima de conterrâneos, “simpatizantes do nazismo”. Tinha acabado de ser violentada. É vívida e dolorosa a descrição que Francisco de Morais Mendes faz da imagem da moça. “[...] a mão gesticula. O gesto e o olhar dirigem-se a alguém com um grito.” Mais tarde, o casal procura na internet – onde “nenhuma certeza fica de pé por mais de quinze minutos” – informações sobre a foto e encontra contradições. Fica no ar a dúvida quanto à autenticidade da imagem, de filme ou da vida? Mas a dor é real.

No sétimo conto, “A visita”, de percurso bem diferente do do casal em Londres, Valéria, uma professora de Ciências prestes a completar 60 anos, inspeciona sozinha, num feriado, as obras do apartamento da família onde espera comemorar o aniversário dentro de três semanas. Seu nome significa forte, valente, cheia de saúde; e o sete é o número da criação, signo da mudança. Enquanto percorre os cômodos, lembra-se da evolução das descobertas, ideias e máquinas e de instrumentos que proporcionam comodidade e conforto à raça humana, especialmente nas moradias. Mais uma vez, Morais Mendes insere a História na história ou vice-versa. Como toda pessoa que resolve reformar a casa ou o apartamento, Valéria encontra problemas no ritmo das obras e no descuido de alguns trabalhadores, mas ela também comete deslizes e, sem a quem recorrer, no meio daquele pesadelo, passa a lutar contra “as garras do desespero”.

A exemplo dos personagens de “Corredores”, mesmo em pânico, a professora “tenta se acalmar, dominar a respiração [a recorrente falta de ar], para retomar o controle”. Nessa narrativa, Morais Mendes remete o leitor, de maneira sutil, a “O tempo dos sinais” –, sem citar esse conto do seu Onde terminam os dias (2011), de “histórias absurdas”, segundo Valéria, que se arrepende de não ter  ficado em casa lendo-o. Na história, uma moça, com “o carro parado num sinal de trânsito, prendeu os dedos cheios de anéis nos cabelos e não conseguiu se soltar”; ficou ali, “como se imobilizada num quadro de Edward Hopper”. O leitor atento capta o recado: é o retrato da solidão, diferente, mas faz lembrar a garota de “Um olhar, uma foto”. Raízes.

 

IV

O oitavo conto, “A caminho do grande espetáculo”, é simbólico desde o título e a ordem dele no volume. Oito, o número do equilíbrio cósmico. O símbolo matemático do infinito é o oito deitado, a lemniscata, a eternidade. Pai e filho caminham, no meio de uma aflita multidão mas sem alvoroço, rumo a um enorme estádio para assistir ao “grande espetáculo”. Os caminhantes, imersos nessa aura metafísica, mas também na realidade concreta e na solidão coletiva, enfrentam a pressão do tempo e do espaço. A arte e sua mágica, a energia aglutinada das pessoas. O som ao redor é o rumor da multidão semovente, os passos e a respiração coletivos “enchem o mundo”, como num verso de Jorge de Lima. A caminhada, espécie do rio de Heráclito, pode ser a trajetória humana, com seus percalços e mistérios; ou o nascimento e a busca do desconhecido, a volúpia por algo grandioso etc. etc. As interpretações são múltiplas. Tem-se a impressão de que o conto foi escrito de um jorro só. Considero “A caminho do grande espetáculo” a maior obra-prima do livro. Antecipo em 75 anos o meu voto para um futuro Ítalo Moriconi, que terá outras treze opções em A bala dos desarmados na organização da antologia de contos brasileiros do século XXI.

Em “Feliz aniversário, Wainer”, nona história do livro, Pedro Rocha, viúvo hospitalizado com Covid, recebe a visita de um casal de filhos no dia em que completa 85 anos. Humberto testa a memória do pai que logo terá alta. Ele prova se lembrar de tudo ao contar um segredo que nem sua mulher soube. Não, não se trata de adultério.

“Vocês são filhos leais, que eu amo, e é de lealdade e de amor que eu vou falar”, diz o homem, segurando a atenção dos filhos e do leitor.  Trata-se “uma história de amor e de amizade”.

O amigo é o Wainer do título do conto. Era um rapaz alegre, os dois amigos inseparáveis, ambos de 14 anos, faziam aniversário no mesmo dia, com diferença de três meses. Ao lado de Pedro, Wainer foi vítima da covardia do chefe de um grupo de uns dez garotos. Depois disso, isolou-se “numa cápsula de tristeza e silêncio”. Pedro Rocha continua: “Eu comecei a afundar junto com Wainer, mas tínhamos uma natureza diferente: eu não conseguia ficar muito tempo no fundo, precisava subir para respirar. Quanto a ele, metia-se cada vez mais no atoleiro”. Como em outros contos, no meio da tensão da história, surgem frases assim: “Uma revoada de pássaros em algazarra atraiu seu olhar [de Pedro Rocha] para a janela”. Pouco depois, diz: “Olha como o azul é bonito antes do anoitecer”. Mais adiante: “Tardia, despontava a lua cheia e imensa”. O que aconteceu com Wainer? Já adulto, Pedro Rocha reconhece quem humilhou o amigo. E o que ele fez? Isso o leitor vai saber ao ler esse conto de veio policial.

O conto seguinte, “Fora de época”, esmerada recriação de “Mistério em São Cristóvão”, saiu antes na coletânea Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020, organizada por mim e selecionada pelo PNLD/MEC-2021), em comemoração dos 60 anos de Laços de família e do centenário da autora. Francisco de Morais Mendes situa sua versão no “Rio de 2018, sob intervenção militar”. O narrador não imagina que naquele ano, ao contrário do que acontece com os garotos do conto clariciano, “alguém consiga atravessar alguns quarteirões com uma máscara sem aparecer na internet com o corpo cheio de balas”. Na republicação, o autor cortou penduricalhos dispensáveis, como travessões e verbos dicendi nos diálogos. Poliu uma joia lapidada.

 

V

Em “Névoa”, décimo primeiro conto do volume, fica ainda mais claro que A bala dos desarmados, livro circular, articula-se no conjunto, textos interligados pelas raízes, “um sonho embrulhado dentro de outro, como se viessem de um novelo de fio duplo, embora avancem em direções distintas”. História kafkiana, policial, o personagem duplicado Aristides Bastos Caldeira, ABC ou Bastos, “tropeça nas dobras do sono”. Também nessa narrativa o autor homenageia Clarice Lispector numa paráfrase do título de um livro dela: “Uma nuvem pesada impede a consciência de compreender onde estivera de noite”. A exemplo de outras histórias da coletânea, a comunicação entre as pessoas revela-se precária. Sonho e realidade juntos, história e História. Que cada leitor decifre o enigma do conto, o mistério de ABC (“acham que matei alguém”).

Também a história seguinte, “Rastros”, é marcada pela violência e pelo medo. Ao tentar socorrer uma mulher desconhecida que está sendo agredida por um homem na rua, Glauco bate a cabeça numa árvore, é socorrido pela mulher e mete-se numa grande encrenca. Acaba no pronto-socorro (“o médico disse que foram sete pontos, isso lhe traria sorte”), tenta voltar para casa, mas encontra-se com o agressor, que o aguardava. O que acontece em seguida deixa-o apavorado, leva o homem no porta-malas, em longas voltas por ruas, avenidas e vielas de Belo Horizonte (“que não davam trégua”), sem saber o que fazer com “o cadáver”. O sujeito estaria mesmo morto? “Quando é que se deixa de ser assassino?”, Glauco pergunta-se. Roda sem rumo até perceber que “o carro ia deixando um rastro na noite”. Em meio àquela angústia do personagem, na direção do residencial Estrela Dalva, o narrador nos traz isto: “Havia uma lua no céu e uma canção de carnaval que falava na estrela Dalva, a lua tonta de tanto esplendor”. Num ritmo narrativo veloz, personagem e leitor, assustados, têm o batimento cardíaco acelerado. Que conto!

Numa noite chuvosa, sem pleno controle de atos e palavras, Soraia visita de surpresa, talvez por efeito colateral da solidão, um ex-caso ou ex-namorado, Jamil. Noite de azar para ele. Conto de número 13, em certos trechos “Chuva” pode ser lido como uma referência à fotografia de Itabira que dói na parede do poeta mineiro (“Confidência do itabirano”, Sentimento do mundo) ou à narrativa “Um ponto no círculo”, de Nove, novena, de Osman Lins. A mulher impressiona-se com um quadro na parede do apartamento de Jamil e num momento tem “vontade de entrar nele e ficar lá dentro. Quietinha”, noutro, na instabilidade psíquica, diz ter estado dentro do quadro e o considera “uma bela duma bosta”. Além de humor e inquietação, parece atravessar o conto a marcha de carnaval “Bloco da solidão”, de Evaldo Gouveia, notabilizada pela voz de Jair Rodrigues.

No último texto da coletânea, “Estado bruto”, título de duplo sentido, ecoa o monólogo do personagem de O inominável, de Samuel Beckett. Mesmo sendo uma história policial – a revelação de segredos de um crime –, o conto não deixa de ser também um balanço da vida do narrador-personagem, “agora uma espécie de ninguém, de um nada, embora vivo”, “um corpo sem voz”, cujo rosto “é uma máscara de indiferença”, segundo o médico que o assiste. Em alguns momentos, o texto tem algo da verve de Machado de Assis, como aqui: “A oposição atiçava a fogueira com o combustível da intriga”. O homem confessa: “Tínhamos de proteger o governador dos ataques e nos proteger da ida do governador. Alimentávamos a imprensa com migalhas, para demonstrar a boa vontade do governo em elucidar o caso”. Mais tarde, o personagem se distanciou “um pouco da máquina corrosiva do poder”. Uma instigante novela e, tal como o personagem-narrador, nas variadas versões, o leitor imagina “hipóteses, possibilidades”. Fecha-se o círculo com o conto inicial, “Incerta viagem”.

Como vimos, as narrativas de A bala dos desarmados evidenciam a circularidade do livro. O leitor encontra, em cada uma delas, duas ou mais histórias, desvio ou ampliação da primeira, personagens aflitos à beira do abismo existencial, em diversas camadas de perplexidade, trafegando entre os aflitivos episódios, entre as histórias e a História. Não é essa a fonte da boa ficção?

O autor como que convida o leitor a decifrar o enigma ou os enigmas dos contos, todos escritos com serenidade, sem nenhuma loquacidade, sempre em linguagem precisa, sóbria, com trechos poéticos, mas sem pirotecnia estilística. Histórias sem lances rocambolescos. E com humor. Em síntese: no coração do livro pulsam, com a riqueza da boa ficção, a vida e suas mistérios, a política e a questão social. É preciso destacar ainda a caprichada edição gráfica e a impecável revisão. Há razões de sobra para Francisco de Morais Mendes e A bala dos desarmados serem mais lidos, conhecidos e reconhecidos. Hugo Almeida - Brasil

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A bala dos desarmados, contos, de Francisco de Morais Mendes, São Paulo: Sinete, 2025, 192 páginas, R$ 60,00. Disponível na editora e na Amazon. Site: editorasinete.com.br

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Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e escritor, é autor de vários livros, dentre eles os romances Vale das ameixas e Mil corações solitários. Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br



terça-feira, 31 de março de 2026

Moçambique - Whaskety Fernando lança o seu livro “Inventar o mundo na língua” na cidade da Beira

Inventar o mundo na língua é o título do quarto livro de Whaskety Fernando, do género conto, chancelado pela Mapeta Editora, lançado na cidade da Beira, no Centro Cultural Português. A apresentação esteve a cargo do académico Cristóvão Seneta.


Neste livro de contos, entre personagens condenadas, doentes, errantes ou simplesmente humanas, Whaskety Fernando inventa um mundo onde quase tudo é ficção, excepto a própria ficção, essa experiência íntima e reconhecível que cada leitor já viveu ou poderá viver. Os contos movem-se num território simbólico, filosófico e social, onde a realidade é questionada e o imaginário se transforma em reflexo.

Inventar o mundo na língua convida-nos à reflexão sobre os limites entre o real e o inventado, propondo uma leitura inquietante, lúcida e profundamente humana.

Saiba mais sobre Whaskety Fernando e Cristóvão Seneta

Whaskety Fernando nasceu na Munhava, cidade da Beira, onde vive. Começou a publicar os seus textos na página “Diálogo”, do jornal Diário de Moçambique. Foi finalista do Prémio Literário Fernando Leite Couto com a novela “Noites de desassossego” (não publicado). É autor dos livros Os últimos animais (2023), romance, O prazer ao chorar de dor (2024), poesia, e Tratado sobre noite (2025), poesia.

Cristóvão Seneta, Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, é docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade Zambeze. Tem publicação científica dispersa, incluindo um livro baseado no estudo que desenvolveu para o mestrado, capítulos de livros, artigos e vários prefácios para livros literários e ensaísticos. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


segunda-feira, 23 de março de 2026

Contos que procuram entender a alma

Nova obra de Eltânia André reúne dez narrativas que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas

         

                                                              I

Com sensibilidade e argúcia para entender não só a alma feminina como a masculina, a romancista e contista Eltânia André, psicóloga de formação, premia o público-leitor com um novo livro de contos, Decomposição dos pássaros (Setúbal - Portugal / Cotia-SP, Editora Urutau, 2025), que reúne dez textos que confirmam a qualidade de uma prosa que se confirma e evolui a cada volume publicado.

Como observa o romancista Luiz Ruffato, um dos grandes nomes da ficção brasileira, no texto de apresentação, as personagens desta obra “são homens e mulheres ordinárias vivendo situações corriqueiras, nas quais nos reconhecemos como seres falhos que aspiram a alguma redenção – pois Eltânia André consegue insuflar dimensão metafísica a seus enredos”.

De fato, alguns dos protagonistas destas histórias são pessoas que vivem na contramão da sociedade, excluídos da sociedade de consumo, que, sem alternativas, acabam por aceitar a probabilidade de sobrevivência que a contravenção oferece, como o personagem Siri, do conto “Márrio-Riomar: um nome todo água”, que tinha aquele apelido por andar “ziguezagueando sem rumo certo pelas ruas”, que sempre andava “com os bolsos cheios de droga ainda para distribuir”. E quem conta a história de Siri é uma mulher batalhadora, que, igualmente para sobreviver, não hesitou em “pegar pesado no volante” de um caminhão, ainda que tivesse de “ouvir brincadeirinhas ou piadas bestas, num tempo em que bullying era apenas uma palavra estrangeira”.

 

                                                              II

Um desses contos, que leva o extenso título “Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho”, conta a história de Astrogildo (ou Walter) que saiu do triângulo das Minas Gerais para cumprir um trajeto até o famoso reino da Bulgária, depois de renunciar ao curso de Direito e especializar-se em Engenharia Nuclear. “Exausto de tanto cindir átomos e de fazer maracutaias, virou de cabeça para baixo a biblioteca de Assurbanípal da Babilônia, e ganhou fama de astrólogo-surrealista. Incluiu em sua biografia que traficou diamantes, atravessou mares nadando crawl, deflorou filhas de políticos, especializou-se no jogo de bisca e em soluções imaginárias para equações de complexidades múltiplas”, diz a autora.

Por aqui se tem uma ideia do estilo maduro de Eltânia André, que, no citado conto, faz uma homenagem ao escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), imitando com fidelidade o seu estilo, que se notabilizou por uma ficção associada ao surrealismo, ao absurdo (nonsense) e ao misticismo, entre outas qualificações

Já em “Decomposição dos pássaros”, um dos textos mais curtos e que dá título à obra, a autora se utiliza da metáfora de buscar pássaros para explorar as jornadas pessoais de personagens como o menino Josué, que “disfarçava, mas não controlava o rancor que sobrepunha ao amor pela mãe – que fez de tudo por ele, criando-o sozinha, após a morte precoce do marido”.

Outro conto em que a autora explora as angústias, as memórias, o trágico e o poético da vida humana é “Sob o som das matracas” em que a personagem rememora a história do avô, que havia participado da chamada Revolução de 32, “um fiasco nacional”, em que se viu “brasileiro matando brasileiro”, tudo em nome de interesses das elites regionais.

Outro conto que se destaca é aquele que encerra o volume e que tem por título “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira”, em que igualmente se vê uma homenagem a Campos de Carvalho. A narrativa conta a história de uma mulher que perdeu a visão às vésperas de completar doze anos, acutilada por um tio bêbado, que lhe arrancou os olhos “no auge do delírio persecutório”. E que teve um destino semelhante ao de Baba Vanga (1911-1996), uma búlgara cega, mística e fisioterapeuta, que se tornou muito conhecida na Europa Oriental por suas habilidades de clarividência e precognição, ou seja, por suas habilidades paranormais.

Se “Netanyahu, Putin, Trump... não frequentaram o seu radar premonitório”, como diz a autora, a Baba Vanga brasileira, mesmo vivendo num grotão próximo a Cataguases, no interior de Minas Gerais, também se notabilizou por suas previsões, chegando a ser capa da revista O Cruzeiro e veio a receber a visita da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977). Até que “saiu de moda e seguiu esquecida. Morreu como viveu: na miséria”.

Como se vê, este livro guarda narrativas – na maior parte, curtas, mas densas – que atraem o leitor não só pelo lirismo e pelo estilo refinado como por situações que o leitor médio nem sempre percebe na vida cotidiana, mas que cativam pelo corte vertical das personagens, que são desvendadas pela psicologia, com finas observações sobre a alma humana. Esse fluxo dramático no interior das personagens é sempre marcado por um humor cético e uma ironia disfarçada, com desenlaces inesperados e enigmáticos, que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas.

 

                         III

Nascida em Cataguases, cidade-ícone da Literatura Brasileira, localizada no interior do Estado de Minas Gerais, Eltânia André (1966) fez, em sua terra natal, os estudos primário e secundário, tendo trabalhado na indústria têxtil. Tem graduação em Administração de Empresas e em Psicologia, com pós-graduação em Saúde Pública e Psicopatologia na Universidade de São Paulo (USP).

Morou em Belo Horizonte, onde trabalhou numa concessionária de veículos, e, em São Paulo, onde, como psicóloga concursada, atuou no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), da vizinha cidade de São Bernardo do Campo. Tem trabalhos e participações em diversos jornais, revistas e suplementos culturais e em várias antologias. Depois de viver experiências traumáticas com a violência urbana que marca a vida numa cidade grande como São Paulo, Eltânia André hoje mora em São Pedro do Estoril, aldeia da freguesia de Cascais e Estoril, perto de Lisboa. Vive em Portugal há nove anos.

É dona de uma obra que já se destaca entre os autores da Literatura Brasileira: Meu nome agora é Jaque (contos, Belo Horizonte, Editora Rona, 2007), seu livro de estreia; Manhãs adiadas (contos, São Paulo, Dobra Editorial, 2012); Duelos (contos, São Paulo, Editora Patuá, 2018); Para fugir dos vivos (romance, São Paulo, Editora Patuá, 2015); Diolindas (romance, São Paulo, Editora Penalux, 2016), escrito em parceria com Ronaldo Cagiano; Terra dividida (romance, São Paulo, Editora Laranja Original, 2020); Diário dos mundos (romance, Editora Laranja Original, 2020), escrito em parceria com Letícia Soares; e Corpos luminosos (contos, Editora Urutau, 2022). O projeto “Céu na Boca”, de sua autoria, foi um dos vencedores em 2022 do Prêmio Maria Carolina de Jesus de Literatura produzida por mulheres. E o “Mulheres de Gimonde” foi selecionado para a bolsa literária “Criar Lusofonia 2024”, romance que está sendo desenvolvido na aldeia de Gimonde, em Trás-os-Montes, com conclusão prevista para o último trimestre de 2026. Adelto Gonçalves – Brasil

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Decomposição dos pássaros, de Eltânia André, com texto de apresentação de Luiz Ruffato. Cotia-SP-Brasil/Barreiro-Setúbal-Portugal: Editora Urutau, 96 páginas, R$ 55,00, 2025. Site: contato@editoraurutau.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (São Paulo, Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo - 1788-1797 (São Paulo, Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Moçambique - Lançamento de “Novas Vozes, Novas Estórias” celebra vencedores do Prémio Literário Carlos Morgado 2025

Chega ao público a 3.ª edição da antologia Novas Vozes, Novas Estórias, que reúne os 10 melhores contos de novos autores moçambicanos distinguidos na edição 2025 do Prémio Literário Carlos Morgado (PLCM).


Organizado pela Fundação Carlos Morgado e pela Catalogus, o prémio recebeu, em 2025, um total de 203 contos provenientes de diferentes pontos do país, um número que confirma o seu alcance nacional e a crescente relevância no panorama literário moçambicano.

A cerimónia de lançamento da antologia terá lugar na terça-feira, 10 de Março, às 17h30, no Business Lounge by Nedbank, em Maputo. No mesmo evento será oficialmente lançada a edição 2026 do prémio, marcando a abertura de um novo ciclo de candidaturas, que decorrerá de Março a Maio de 2026.

Autores publicados na edição 2025

A antologia apresenta textos de:

  • Omar Mahando António
  • Arquilito Silambo
  • Solange Guambe
  • Zaida Abacar
  • Daniel dos Santos
  • Argentina Guirrugo
  • Atumane Taibo
  • Pedro Mucheu
  • Alex Gujamo
  • Delton Lisboa

A obra propõe um retrato plural do Moçambique contemporâneo, explorando diferentes contextos sociais, experiências individuais e perspectivas ficcionais. O objectivo mantém-se claro: incentivar a criação literária, descobrir novos talentos e fortalecer a cultura do livro no país.

O Prémio Literário Carlos Morgado é instituído pela Fundação Carlos Morgado, organizado pela Catalogus, com o suporte da MGC – Matola Gas Company.

Com esta iniciativa, os promotores consolidam o seu papel na dinamização do sector editorial e no incentivo ao surgimento de novas vozes na literatura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique