Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Portugal - Estudante da Universidade de Coimbra recebe Prémio ABB por avanços em método para síntese e reconstrução 3D a partir de imagens

O trabalho premiado tem aplicação em cirurgia minimamente invasiva para tratamento e diagnóstico de lesões articulares


O estudante Nelson Forte Simão, do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), recebeu o “Prémio ABB” referente ao ano letivo 2024/2025, atribuído pela multinacional ABB.

A cerimónia de entrega decorreu no passado dia 14 de abril, na Sala do Conselho da Unidade Central da FCTUC, no Polo II, e reconheceu o trabalho desenvolvido pelo estudante na dissertação de mestrado intitulada “3D Ellipsoid Splatting for Cameras with Radial Distortion: Applications in Arthroscopy”.

O trabalho premiado tem como motivação a artroscopia, que recorre à introdução de uma câmara através de uma pequena incisão para diagnosticar e tratar lesões articulares de forma minimamente invasiva. Apesar das suas vantagens, estes procedimentos colocam desafios significativos ao cirurgião devido à visibilidade e acesso limitados.

Além disso, a utilização de câmaras com distorção radial - o chamado efeito “olho de peixe” - dificulta a aplicação de algoritmos de Inteligência Artificial e Visão por Computador que possam vir a apoiar o médico durante a intervenção.

Neste contexto, Nelson Simão desenvolveu uma abordagem inovadora para aplicar 3D Gaussian Splatting (3DGS) a imagens com efeito de “olho de peixe”. O método proposto permite modelar simultaneamente a luz e a geometria tridimensional da cena, bem como gerar novas vistas artroscópicas, o que abre novas perspetivas para aplicações em navegação cirúrgica e educação clínica.

O trabalho foi supervisionado por João Pedro Barreto, Professor Associado do DEEC da FCTUC, e contou com a coorientação de Michel Antunes, gestor de Investigação e Desenvolvimento na S&N Orion-Prime, S.A., uma empresa de tecnologia médica com origem na atividade de investigação da universidade.

Para Mário do Ó, Líder da área de negócio Motion e Membro do Board da ABB Portugal, "o Prémio ABB é uma forma de reconhecer e valorizar o talento e a excelência académica em áreas tecnológicas críticas para o futuro da indústria. O trabalho desenvolvido demonstra o enorme potencial da investigação aplicada, com impacto direto em áreas tão exigentes como a saúde. Esta iniciativa reforça também a ligação da ABB ao meio académico, ao promover a inovação e contribuir para a formação de profissionais preparados para responder aos desafios tecnológicos do futuro".

O “Prémio ABB” distingue anualmente o estudante do mestrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da FCTUC que obtenha a classificação mais elevada numa dissertação nas áreas de Automação Industrial, Controlo Automático, Robótica, Domótica e Acionamentos/Variação de Velocidade. O prémio, no valor de mil euros, inclui ainda a possibilidade de realização de um estágio remunerado na empresa. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Portugal - Investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inovam no estudo das doenças inflamatórias do intestino

Sofia Barros e Inês Alves vão receber duas ECCO Grant de 80 mil euros para desenvolverem projetos focados na Doença de Crohn, entre outras patologias


As investigadoras Sofia Barros e Inês Alves, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) foram distinguidas com duas ECCO Grant, atribuídas pela European Crohn’s and Colitis Organisation (ECCO). As duas cientistas vão receber um financiamento de 80 mil euros, cada uma, para desenvolverem projetos inovadores focados na Doença de Crohn e nos mecanismos imunológicos associados à Doença Inflamatória Intestinal.

O projeto de Sofia Barros propõe uma abordagem terapêutica inovadora para o tratamento da Doença de Crohn, uma doença inflamatória crónica que pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal.

A investigação assenta no desenvolvimento de uma terapia oral de dupla ação, combinando dois fármacos – budesonida, para o controlo da inflamação, e teduglutida, para promover a regeneração epitelial – administrados através de nanopartículas responsivas a espécies reativas de oxigénio. Este sistema permite a libertação localizada dos fármacos nas zonas de inflamação intestinal, aumentando a eficácia terapêutica e reduzindo os efeitos secundários.

“Esta distinção representa o reconhecimento do trabalho que tenho vindo a desenvolver e dá-me condições para consolidar a minha linha de investigação em novas abordagens terapêuticas para a Doença de Crohn”, sublinha Sofia Barros, do grupo «Nanomedicines & Translational Drug Delivery», liderado por Bruno Sarmento.

Já o projeto de Inês Alves centra-se na compreensão dos mecanismos imunológicos precoces que conduzem ao desenvolvimento da Doença Inflamatória Intestinal, que inclui Doença de Crohn e Colite Ulcerosa.

Resultados recentes obtidos pelo grupo «Immunology, Cancer & Glycomedicine» do i3S, liderado por Salomé Pinho, demonstram que alterações específicas nos açúcares presentes à superfície das células intestinais (glicanos) podem desencadear respostas imunes prejudiciais vários anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas clínicos da doença.

Com esta ECCO Grant, Inês Alves pretende identificar quais as células imunes responsáveis pelo reconhecimento desses açúcares e caracterizar os anticorpos envolvidos nesse processo, abrindo caminho à identificação de novos biomarcadores no sangue, que permitam uma deteção mais precoce da doença, a monitorização da sua progressão ou mesmo a sua prevenção.

“Esta distinção representa uma oportunidade única para aprofundar o conhecimento da Doença de Crohn e desenvolver novas abordagens de diagnóstico e prevenção, com impacto direto na qualidade de vida dos doentes”, destaca a investigadora. Universidade do Porto - Portugal


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Internacional - Cientistas estabelecem diagnóstico mais antigo de doença genética utilizando ADN de indivíduo pré-histórico de há mais de 12 mil anos

Um novo estudo, liderado por Daniel Fernandes, investigador do Centro de Investigação de Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), relata o diagnóstico mais antigo de uma doença genética em seres humanos anatomicamente modernos — e redefine a nossa visão sobre doenças raras na pré-história.

Através da combinação de técnicas de vanguarda na análise de ADN antigo e genética clínica contemporânea, uma equipa de investigação internacional e multidisciplinar estabeleceu o diagnóstico de ADN mais antigo de uma patologia genética num indivíduo pré-histórico, datado de há mais de 12 mil anos.

Publicado na revista New England Journal of Medicine, o estudo demonstra que os avanços nas técnicas de ADN antigo vão além do mapeamento de populações e migrações humanas, permitindo, igualmente, estabelecer diagnósticos genéticos raros em restos ósseos de indivíduos que viveram há vários milénios.

Esta investigação centra-se num notável enterramento do Paleolítico Superior, com mais de 12 mil anos, descoberto em 1963 na Grotta del Romito, uma gruta no sul de Itália. Dois indivíduos foram depositados em conjunto, num abraço. Um adolescente com encurtamento severo dos membros (Romito 2), jazia envolvido pelos braços de um adulto (Romito 1).

De acordo com os investigadores, não foram encontrados sinais de trauma em nenhum dos esqueletos. O esqueleto de Romito 2 apresentava uma estatura severamente reduzida (110 cm), sugerindo uma patologia esquelética rara denominada displasia acromesomélica. Contudo, tal diagnóstico não poderia ser confirmado de forma definitiva apenas através da análise osteológica. Curiosamente, a estatura da adulta Romito 1 (145 cm) era também inferior à média da altura adulta daquela era.

A equipa extraiu ADN do ouvido interno, uma das fontes mais fiáveis de preservação de ADN em esqueletos antigos. As evidências genéticas esclareceram, inicialmente, duas questões fulcrais. Contrariamente às hipóteses anteriores, comprovou-se que tanto Romito 1 como Romito 2 eram do sexo feminino. Num achado que acrescenta uma perspetiva crucial à interpretação do enterramento, a análise de ADN revelou, também, que eram familiares de primeiro grau — possivelmente, mãe e filha.

Em Romito 2, foi identificada uma variante homozigótica (duas cópias) no gene NPR2, que desempenha um papel vital no crescimento ósseo. Este achado genético confirmou o diagnóstico de displasia acromesomélica do tipo Maroteaux, uma condição hereditária raríssima caracterizada por uma deficiência de crescimento severa e um encurtamento acentuado dos membros.

Os dados de Romito 1 sugerem que esta era possivelmente portadora de uma cópia anómala do gene NPR2, o que constitui uma causa genética de baixa estatura moderada. Estas descobertas em indivíduos pré-históricos coincidem perfeitamente com as características clínicas de doentes modernos com uma ou duas cópias anómalas do referido gene.

«Podemos agora aplicar a ciência da análise de ADN antigo para confirmar mutações específicas e, por extensão, variantes genéticas particulares. Esta abordagem e estes métodos podem não só fornecer uma cronologia confirmada para a idade mínima de certas condições genéticas raras, como também levar à descoberta de variantes anteriormente desconhecidas. Espero que este seja o início de um novo campo de investigação que combine a especialização da genética médica, da paleogenómica e da antropologia biológica», considera Ron Pinhasi, investigador da Universidade de Viena, Áustria.

Daniel Fernandes, investigador do CIAS/FCTUC e primeiro autor do estudo, ressalva que «revelar que estes indivíduos eram ambos do sexo feminino e familiares de primeiro grau transforma este enterramento num estudo genético familiar. Embora a cobertura de ADN para o indivíduo mais velho fosse limitada, a sua estatura mais baixa reflete provavelmente um estado heterozigótico da mutação NPR2 — proporcionando uma perspetiva rara sobre como um único gene afetou diferentes membros da mesma família pré-histórica».

Do ponto de vista médico, os resultados lançam uma nova luz sobre o campo das doenças raras na história humana. Para além do feito técnico, as descobertas transmitem uma mensagem humana. Apesar das severas limitações físicas, Romito 2 sobreviveu até ao final da adolescência ou idade adulta — sugerindo cuidados sociais contínuos numa comunidade de caçadores-recoletores há mais de doze milénios.

O estudo destaca como as ferramentas desenvolvidas para a genética clínica moderna podem iluminar a história humana, unindo a medicina, a genómica e a arqueologia — e lembrando-nos de que as doenças raras, e as pessoas que com elas vivem, sempre fizeram parte da narrativa humana. Universidade de Coimbra - Portugal


domingo, 5 de outubro de 2025

Brasil – Cantor Milton Nascimento diagnosticado com demência

O famoso autor de clássicos como “Canção da América” e “Maria Maria”, de 82 anos, e que também sofre de Parkinson desde 2023, recebeu o diagnóstico da nova doença em junho

O cantor e compositor Milton Nascimento, um dos mais conhecidos representantes da chamada Música Popular Brasileira, foi diagnosticado com demência com corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa sem cura, disse fonte familiar.

A informação foi avançada por um dos seus filhos, Augusto Nascimento, em entrevista à revista Piauí.

O famoso autor de clássicos como “Canção da América” e “Maria Maria”, de 82 anos, e que também sofre de Parkinson desde 2023, recebeu o diagnóstico da nova doença em junho, depois da família ter consultado especialistas sobre mudanças significativas no comportamento do músico.

Segundo Augusto Nascimento, que também é empresário do cantor, no início deste ano o pai começou a mostrar-se esquecido, com menos apetite, a fixar o olhar num único ponto e a repetir os mesmos comentários com poucos minutos de diferença.

Em abril, após uma série de exames, os médicos constataram que o seu estado cognitivo tinha piorado, mas ainda não tinham chegado a um diagnóstico.

Em maio, depois de consultar e receber a aprovação dos médicos, pai e filho cumpriram um sonho e realizaram uma viagem de caravana de cerca de 4000 quilómetros pelos estados do Arizona, Utah, Idaho, Wyoming e Montana, nos Estados Unidos.

O diagnóstico da doença foi confirmado após o regresso de ambos dessa viagem.

Um dos tipos mais comuns de demência

A família de Milton Nascimento informou que, com exceção da entrevista concedida por Augusto, não fará qualquer outro pronunciamento sobre o assunto.

A demência com corpos de Lewy, um dos tipos mais comuns de demência, combina sintomas semelhantes aos do Alzheimer com distúrbios motores associados ao Parkinson.

Milton Nascimento retirou-se dos palcos em 2022 com a conclusão da digressão intitulada precisamente “A Última Sessão de Música”.

No início deste ano desfilou com a escola de samba Portela, uma das mais populares do Carnaval do Rio de Janeiro, que lhe prestou homenagem.

Antes da digressão de despedida, o cantor já vinha a enfrentar problemas de saúde, agravados pela diabetes e por complicações cardíacas, com recorrentes hospitalizações, numa das quais teve de ser submetido a um cateterismo.

O cantor e guitarrista gravou 34 discos e apresentou-se com dezenas de grupos e músicos de outros países, como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter, Mercedes Sosa, Fito Páez, Peter Gabriel, James Taylor, Sting, Paul Simon, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Duran Duran.

Milton Nascimento é detentor de cinco prémios Grammy, entre os quais um em 1997 para melhor álbum de música mundial com o disco “Nascimento” e outro em 2000 para melhor álbum na categoria pop contemporâneo brasileiro com “Crooner”. In “Contacto” – Luxemburgo com “Lusa”


segunda-feira, 20 de maio de 2024

Internacional - Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto / UCIBIO recebe financiamento para acelerar diagnóstico de infeções bacterianas

Projeto internacional visa melhorar a identificação bacteriana e o diagnóstico de infeções através de uma metodologia rápida, fácil e mais barata


Luísa Peixe e Ângela Novais, respetivamente, líder e investigadora do grupo BacT_Drugs Lab da Unidade de Ciências Biomoleculares Aplicadas (UCIBIO-FFUP), sediada na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP), acabam de garantir um importante financiamento de agências internacionais para desenvolver, validar e implementar, a uma escala internacional, a espectroscopia de infravermelho com transformada de Fourier (FTIR). Trata-se de uma técnica inovadora que promete revolucionar a forma como é feita a identificação diagnóstico de infeções por bactérias multirresistentes.

Este projeto, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates através do programa Grand Challenges 2022, tem como objetivo principal implementar a metodologia num laboratório pediátrico de microbiologia no Bangladesh. A rápida identificação dos principais patogénicos em hemoculturas é um dos objetivos prioritários, possibilitando resultados mais rápidos no apoio ao diagnóstico, tratamento e controlo da infeção.

O apoio agora concedido pela European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID) tem como objetivo validar a utilização da metodologia para a identificação precisa e mais rápida de estirpes de Escherichia coli multirresistentes.

O projeto, que integra a equipa FFUP/UCIBIO, decorre de uma parceria a London School of Hygiene and Tropical Medicine no Reino Unido, e a Child Health Research Foundation, do Bangladesh, contando ainda com a colaboração da Perkin-Elmer na cedência de equipamentos de FT-IR aos parceiros envolvidos.

Conta com parceiros de institutos de Saúde Pública de referência na Europa, nomeadamente o Statens Serum Institute (Copenhaga, Dinamarca) e o National Institute for Public Health and the Environment (Bilthoven, Holanda) com a finalidade de implementar nestes centros uma metodologia rápida e eficiente para a deteção de surtos e para o controlo da infeção por E. coli multirresistentes.

Espectroscopia de FTIR: uma técnica para acelerar o diagnóstico de infeção por bactérias

Alvo de investigação por Luísa Peixe e Ângela Novais, desde há alguns anos, a aplicação de espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier (FTIR) permite identificar bactérias, como se tratasse de impressões digitais. Através do espectro dos microrganismos, é possível compará-lo com outros previamente identificados e encontrar uma identidade. Este processo permite acelerar o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento.

Existem tecnologias alternativas, mas quererem recursos especializados e a resposta não é tão rápida. A proposta da equipa FFUP/UCIBIO, através da aplicação da técnica de espectroscopia da FTIR, permite uma redução significativa do tempo de resposta para o diagnóstico (atualmente vários dias), proporcionando informação relevante em menos de 24 horas.

O trabalho desenvolvido até agora permitiu já identificar surtos relevantes em hospitais portugueses, o primeiro dos quais relacionado com uma Klebsiella pneumoniae multirresistente que afetou vários pacientes no Hospital Santos Silva em Gaia, em 2015. Atualmente, a metodologia está a ser implementada em tempo real no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.

Estes projetos permitirão alavancar a metodologia desenvolvida e a sua utilização na Europa. Universidade do Porto - Portugal

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Brasil - Em busca de biomarcadores para diagnosticar malária placentária

Formas mais eficientes de diagnosticar a doença em gestantes podem ajudar a evitar abortos, partos prematuros e baixo peso ao nascer


Um projeto desenvolvido no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP tem o objetivo de buscar marcadores para o diagnóstico da malária placentária, forma específica de infecção em que o parasita causador da doença se aloja na placenta da gestante. A malária é uma doença parasitária causada pelos protozoários Plasmodium vivax e P. falciparum. É transmitida aos seres humanos através da picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles. Porém, ao nascer, os mosquitos não carregam em si os plasmódios. Eles se infectam ao picar uma pessoa já infectada e que não está em tratamento.

A pesquisa é desenvolvida pela pós-doutoranda do ICB Jamille Gregório Dombrowski, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo ela, o trabalho surgiu da necessidade de busca de formas mais eficientes de diagnosticar a doença em grávidas. “Quando o parasita infecta a gestante e atinge a placenta, o diagnóstico para malária placentária só poderá ser feito no momento do parto. Quando chega a esse ponto, não há muita margem para ação: o bebê já nasceu com baixo peso, ou a mulher teve um aborto, ou um parto prematuro”, explica a pesquisadora. Dessa forma, a pesquisa é focada em identificar novos biomarcadores para diagnosticar a doença ainda durante a gestação.

O projeto Identification of Predictive Biomarkers of Placental Dysfunction in Malaria é desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro, sob supervisão do professor Claudio Marinho, do Departamento de Parasitologia do ICB. Durante a última edição do Congresso de Pós-doutorandos da USP, que ocorreu nos dias 17, 18 e 19 de outubro, a pesquisadora recebeu menção honrosa no Prêmio Pós-Doc USP, na categoria Ciências da Saúde. O projeto premiado é fruto de trabalhos anteriores da pesquisadora com a malária durante a gravidez.

Uma consequência adversa grave da malária gestacional, a malária placentária ocorre quando o protozoário causador da doença deixa de circular apenas no sangue periférico e se aloja na placenta da gestante, atingindo também esse órgão. Apesar de não representar todos os casos, a infecção é frequente — estudos mostram que ela pode afetar mais de 50% das gestantes infectadas.

A pós-doutoranda explica a diferença entre os parasitas. O Plasmodium vivax, prevalente aqui no Brasil, não adere ao tecido placentário, ao contrário do Plasmodium falciparum, espécie que gera manifestações mais graves. “O parasita fica aderido ao tecido placentário, o que dificulta a sua eliminação e pode causar um intenso processo inflamatório, o principal motivo dos efeitos adversos que nós observamos nesses quadros.”

Sobre a incidência atual da malária no Brasil, Jamile Dombrowski menciona um estudo publicado pelo grupo na revista Lancet Americas, que apresenta um levantamento realizado entre 2004 e 2018, o qual demonstra que a grande maioria dos casos de malária gestacional no Brasil se concentra na região amazônica. “Sabemos que é uma região com poucos recursos e, apesar de já termos o diagnóstico e o tratamento de forma precoce nas infecções convencionais, estamos observando que ainda há esses efeitos adversos nas gestantes, que representam cerca de 5,8% dos casos de malária entre as mulheres em idade fértil no Brasil”, esclarece.

O diagnóstico funciona de duas maneiras. No caso da malária gestacional, o exame é idêntico ao das pessoas em geral: por microscopia (gota espessa – padrão ouro) através da coleta de sangue por punção digital da paciente. No caso da malária placentária, o exame é feito com a coleta do sangue placentário para análise por microscopia e confirmado por histologia — análise do tecido afetado —, e necessita de um profissional altamente qualificado para realizar a coleta adequada de uma amostra da placenta logo após o parto, conservá-la e analisá-la em laboratório. Há também a opção de diagnóstico por biologia molecular. Esta alternativa, contudo, é inviável nas regiões mais afetadas pela doença, por ser uma técnica de alto custo, que necessita de infraestrutura especializada.

Biomarcadores

Uma possibilidade, investigada pela pesquisadora no trabalho premiado, seria buscar no próprio sangue periférico das gestantes proteínas que indiquem alterações, causadas pela infecção, na formação e desenvolvimento da placenta. O estudo acompanhou 600 mulheres durante todo o período gestacional, concentrando-se na primeira infecção, quando esta ocorre no primeiro ou no segundo trimestre da gravidez. Após coletado o sangue, foi feita a separação do plasma, que foi analisado utilizando técnicas diversas para detecção de biomarcadores. “A ideia, ao final, é encontrar e padronizar um conjunto de biomarcadores que possam ser facilmente mensurados durante os exames de pré-natal, utilizando os equipamentos encontrados na rede pública de saúde, para o diagnóstico precoce das alterações ou lesões placentárias associadas à infecção na gestação”, explica.

Do painel de 30 biomarcadores, já foram obtidos os resultados de 15. O objetivo é reduzir o escopo a uma combinação de até cinco, com base em parâmetros diversificados de alterações e lesões placentárias, e por fim utilizá-los no diagnóstico. A mensuração deve ser concluída até o fim deste ano, e o estudo, até maio do ano que vem.

A pesquisadora destaca a importância das atividades do congresso, que viu como uma oportunidade para “sair da bolha” e conhecer o que outros pós-doutorandos estão fazendo. Sobre as atividades, ela ressalta as que tiveram como tema o financiamento de pesquisa e a mobilidade na carreira. “Foi muito bom ter entendido que a nossa carreira pode seguir por diversos caminhos. Também gostei das apresentações sobre as formas de financiamento de pesquisa no Brasil, e da oportunidade de ouvir, num mesmo ambiente, representantes das principais agências de fomento e canais de financiamento da ciência.” Felipe Parlato – Brasil in “Jornal da Universidade de São Paulo”


sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Internacional - Estudo desenvolve equações que preveem e podem ajudar no diagnóstico mais precoce da diabetes

Um estudo internacional, em que participa Aristides Machado-Rodrigues, investigador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e Luísa Macieira, docente da Faculdade de Medicina da UC (FMUC), publicado na Nature Medicine, desenvolveu equações que preveem e podem ajudar no diagnóstico precoce e mais preciso da diabetes.

Este artigo científico vem mostrar ainda que a utilização de um único biomarcador no rastreio da diabetes, a glicose em jejum, subestima o seu impacto na saúde das nossas populações. 

A diabetes, sendo uma doença crónica, pode causar inúmeras complicações de natureza cardio-metabólica, tanto ao nível das complicações microvasculares como macrovasculares. O diagnóstico precoce pode permitir um tratamento menos invasivo e capaz de evitar o seu desenvolvimento ou agravamento.

Segundo Aristides Machado-Rodrigues, também docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEF-UC), atendendo a que ambos os marcadores de rastreio, glicose em jejum e a hemoglobina glicada (HbA1c), são preditores do risco de diversas complicações de saúde e da mortalidade, «a confiança em apenas um biomarcador pode subestimar ou atrasar o diagnóstico da diabetes em algumas populações e, consequentemente, aumentar o risco das complicações de natureza metabólica e cardiovascular».

«Os dados da presente investigação mostram que este assunto é especialmente relevante em países de estatuto socioeconómico baixo e médio, onde as dificuldades de recursos tornam a glicose em jejum como a metodologia mais comum de diagnóstico, possivelmente porque a avaliação da hemoglobina glicada nos remete para equipamentos e reagentes mais dispendiosos e, até, porque a normalização do processo laboratorial da HbA1c requer técnicos especializados e nem sempre estão amplamente disponíveis», revela Aristides Machado-Rodrigues, coautor do estudo.

Luísa Macieira, chama a atenção para o facto de «cerca de 12% dos participantes terem diagnóstico prévio de diabetes ou este ter ocorrido durante os estudos, demonstrando assim a dimensão do problema à escala global com impacto aos mais diversos níveis, desde o individual, ao familiar, social, político e económico entre outros». Adicionalmente, constatou-se, uma vez mais, que «um índice de massa corporal (IMC) aumentado está ligado ao diagnóstico prévio de diabetes e àqueles que foram diagnosticados com diabetes durante os estudos», refere a docente da FMUC.

Os investigadores que representam a UC neste estudo dão ainda enfoque à necessidade de rastreios com início ainda em idade pediátrica, sobretudo aos indivíduos de risco (IMC e perímetro da cintura aumentados, bem como a massa gorda aumentada), o que possibilitaria a deteção precoce do problema que é a diabetes e o qual pode estar presente no individuo durante longo período antes de ser diagnosticado.

A investigação, realizada por um consórcio liderado pelo Imperial College London e que envolveu cerca de 400 investigadores, analisou dados de 2000 a 2021 relativos ao diagnóstico da diabetes de 117 estudos internacionais, correspondendo a 601307 adultos (56% mulheres), com uma idade média de 50 anos, dos quais 327554 possuíam dados completos da glicose em jejum e da HbA1c. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Portugal - Cientistas comprovam eficácia de técnicas óticas no diagnóstico precoce de cancro

Um estudo desenvolvido por uma equipa multidisciplinar da Universidade de Coimbra (UC) demonstrou que métodos de espectroscopia vibracional, técnicas não invasivas e altamente sensíveis, são eficazes na deteção precoce de cancro, a segunda causa de morte a nível mundial.

O estudo, designado “VIBSonCANCER – Diagnóstico de Cancro a Nível Molecular por Espectroscopia Vibracional”, é liderado por Luís Batista de Carvalho e Maria Paula Marques, da Unidade de I&D “Química-Física Molecular” da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Financiado pelo Programa Operacional do Centro, Portugal 2020 e União Europeia, através do FEDER, com 240 mil euros, o projeto tem a colaboração dos polos de Coimbra (IPO Coimbra) e do Porto (IPO Porto) do Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil.

De uma forma geral, o projeto focou-se no desenvolvimento de métodos óticos de diagnóstico que podem usar radiação de laser ou de infravermelho (as chamadas espectroscopias de Raman e de infravermelho), com o objetivo de auxiliar os médicos na deteção precoce de cancro e avaliação de margens cirúrgicas.

Isto porque as atuais técnicas de diagnóstico, as designadas técnicas histopatológicas, se baseiam em alterações morfológicas, ou seja, na forma das células e no seu ambiente, o que permite ao patologista determinar se elas estão normais, displásicas (alteradas) ou neoplásicas (cancerígenas). As técnicas propostas no VIBSonCANCER, além de não serem invasivas, permitem obter informação química para além da morfológica, sendo que as alterações a nível químico podem preceder as variações da forma celular. Esta informação adicional pode ser essencial para o médico poder efetuar um diagnóstico rigoroso e precoce da doença.

«As nossas técnicas não substituem as atuais, nem o pretendem fazer. O que nós queremos é fornecer informação que não é possível obter por outros métodos. Com as técnicas espectroscópicas nós analisamos a composição química, ou seja, utilizamos na mesma um microscópio ótico, mas também outro tipo de equipamento que permite visualizar, mais do que a morfologia, a composição química. Ora, quando há alterações celulares, esta composição química varia primeiro do que a forma, por isso, facilita o diagnóstico precoce», afirma Maria Paula Marques.

Enquanto atualmente só é possível avaliar a um nível morfológico, a técnica proposta pela equipa da FCTUC permite ver e analisar «alterações de composição química, por exemplo, de proteínas ou de lípidos. Trata-se de uma técnica que já entrou na clínica de alguns hospitais em países como os Países Baixos, a Inglaterra e o Canadá, em estudos piloto», esclarece a docente da FCTUC.

Para avaliar a eficácia da espectroscopia vibracional, a equipa testou várias amostras de tecidos, as designadas amostras cirúrgicas que são retiradas a doentes com o seu consentimento, e também amostras de margens cirúrgicas, ou seja, tecido em torno dos tumores que já não será maligno. Os resultados foram muito positivos, demonstrando o elevado potencial destes métodos. «Conseguimos detetar diferenças de composição química entre o tecido maligno e não maligno. E dentro dessas diferenças, há alguns constituintes celulares e do tecido que variam mais, os chamados marcadores. Testámos vários tipos de tecido maligno e não maligno, como, por exemplo, de cancro de mama, de língua, de próstata e de colo do útero», frisa a cientista.

Com os biomarcadores, a equipa vai poder apurar as técnicas, de modo a que sejam facilmente analisadas por qualquer clínico, mesmo que não seja espectroscopista, e poderem ser usadas no bloco operatório, por exemplo, para avaliar margens cirúrgicas intraoperativamente, ou quando se retiram biópsias fora do bloco, para distinguir se um tumor é maligno ou não. As margens cirúrgicas, explica Maria Paula Marques, representam um «grande problema para os cirurgiões. Quando retiram um tumor, os cirurgiões nunca podem ter a certeza absoluta da margem cirúrgica, sendo passível de erro. Atualmente, a percentagem de erro nessas margens tem valores ainda demasiado elevados».

Em suma, conclui a cientista, este projeto pretende contribuir para o «desenvolvimento de técnicas de espectroscopia vibracional de vanguarda. A nossa abordagem aplica métodos mais sensíveis e não invasivos para detetar cancro precocemente de uma forma rápida, uma vez que a deteção precoce permite um maior sucesso da quimioterapia ou de outro tratamento, uma maior sobrevida e um melhor prognóstico de tipos de cancro que são muitas vezes difíceis de diagnosticar em fases muito iniciais, como é o caso do cancro do pulmão».

Tendo em vista a translação da tecnologia para a clínica, os cientistas estão já a desenvolver um protótipo, esperando que estes métodos de diagnóstico mais rigorosos e não invasivos tenham um impacto importante no sucesso da quimioterapia e contribuam para o desenvolvimento de tratamentos personalizados com melhores prognósticos.

Para além de Luís Batista de Carvalho e Maria Paula Marques, a equipa inclui as investigadoras Ana Batista de Carvalho, Inês Pereira dos Santos, Adriana Mamede, Mariana Vide Tavares e o Dr. Paulo Figueiredo (IPO Coimbra). Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 12 de abril de 2022

Portugal - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e Instituto Português de Oncologia do Porto Francisco Gentil descobrem método inovador para diagnosticar cancro renal


Uma equipa de investigadores e médicos do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto e do Instituto Português de Oncologia do Porto Francisco Gentil (IPO Porto), identificou biomarcadores em plasma que podem permitir o diagnóstico precoce de carcinoma de células renais, a forma mais comum de cancro do rim. Uma descoberta que aumenta, significativamente, as probabilidades de os doentes receberem um tratamento curativo no tempo adequado.

No estudo publicado na revista ‘Cancers’, os autores demonstram como conseguiram, pela primeira vez, analisar a presença de de microRNAs  – pequenas moléculas de RNA que não levam à produção de proteínas, mas que estão envolvidas em múltiplos processos fisiológicos – em amostras de plasma de doentes de cancro renal.

Conseguiram-no através da utilização de uma tecnologia de ponta utilizada para a quantificação de material genético, o ‘digital droplet PCR’ (ddPCR), que é mais sensível, robusta, rápida e económica do que as técnicas convencionais.

A deteção combinada no plasma de um aumento do microRNA hsa-miR-155-5p e de uma diminuição do microRNA hsa-miR-21-5p, moléculas que já foram detetadas previamente pela mesma equipa de investigadores em amostras de tecido, permitiu diagnosticar 82,66% dos doentes com cancro renal, registando uma precisão acima dos 70%.

O trabalho, desenvolvido durante dois anos, incluiu 124 amostras de doentes com carcinoma de células renais e permitiu a identificação de tumores em estadio localizado (confinado ao órgão) com uma sensibilidade de quase 90%, o que poderia reduzir os falsos negativos, permitindo avançar com um tratamento (cirurgia) de índole curativa. Foi possível, também, identificar os doentes com o subtipo de carcinoma renal mais comum e um dos mais agressivos, o ‘carcinoma de células claras’, nos quais uma deteção precoce é de grande importância.

Resultados com aplicação clínica

Segundo explica José Pedro Sequeira, primeiro autor do trabalho e Mestre em Oncologia pelo ICBAS, “os resultados obtidos têm um grande potencial para serem aplicados na clínica”, acrescentando que “agora será necessário completar o estudo com mais amostras, com a sua realização em vários centros hospitalares e com populações diferentes para, posteriormente, se poder avançar com a utilização desta técnica para deteção precoce da doença”.

Para Carmen Jerónimo, docente do ICBAS, diretora do Centro de Investigação do IPO-Porto e uma das principais responsáveis pela descoberta, este é um “estudo de translação, que poderá permitir a deteção de tumores renais numa fase muito inicial de desenvolvimento, aumentando a probabilidade de cura dos doentes e a sua esperança e qualidade de vida”.

Sobre os microRNAs

Os microRNAs (miRNAs) são pequenas moléculas de RNA não codificantes que regulam a tradução dos genes (produção de proteínas) através do silenciamento ou degradação de RNAs mensageiros (mRNAs).

Os miRNAs estão envolvidos em muitos processos biológicos, incluindo diferenciação e proliferação de células, metabolismo, morte celular ou inflamação, e na fisiopatologia de muitas doenças. Vários estudos sugerem que os miRNAs presentes no sangue podem funcionar como biomarcadores de diagnóstico e prognóstico de várias doenças, incluindo diferentes tipos de cancro. Begoña Pérez / ICBAS – Portugal in “Universidade do Porto”


 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Portugal - Descoberta da Universidade de Coimbra possibilita avanço importante no diagnóstico da Esclerose Múltipla

Um estudo liderado pelo investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra (UC), Carlos Duarte, mostra que é possível classificar um doente com Esclerose Múltipla (EM) com 80% de certeza, avaliando um conjunto de oito proteínas específicas.


A descoberta resulta de cerca de 15 anos de investigação na área dos biomarcadores (indicadores de determinadas patologias), e só foi possível devido a uma estreita colaboração entre o CNC, o Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), o departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e ainda o laboratório de Neurobiologia Molecular do I3S (Universidade do Porto).

A Esclerose Múltipla, uma doença inflamatória e degenerativa que afeta o sistema nervoso central (SNC), é difícil de diagnosticar, devido à diversidade de sintomas, semelhança com outras doenças inflamatórias do SNC e ausência de indicadores específicos para a doença, ou seja, de um método de diagnóstico específico. Cerca de 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de EM, sendo que em Portugal estima-se que a doença afete mais de 8 mil pessoas.

Neste estudo, foram utilizadas amostras de líquido cefalorraquidiano (LCR) de doentes com Esclerose Múltipla e de doentes com outras doenças inflamatórias do sistema nervoso central. O LCR é um líquido presente entre o crânio e o cérebro e também na medula espinhal, que atua como um amortecedor, servindo de proteção. Além disso, contém um grande número de moléculas produzidas, libertadas e processadas a partir do SNC, o que faz deste líquido uma janela única para o estudo de doenças do sistema nervoso.

Numa primeira fase da investigação, recorrendo a estas amostras biológicas, em contexto laboratorial, «foi identificado um grupo de proteínas que permitiu distinguir corretamente 80-90% das amostras de doentes com EM. Posteriormente, após uma análise estatística exaustiva, oito proteínas obtiveram lugar de destaque, uma vez que, quando avaliadas em conjunto, permitiram classificar e categorizar com 80% de confiança os doentes com Esclerose Múltipla. Estas oito proteínas definem agora um novo painel de biomarcadores para a EM», explicam Carlos Duarte, coordenador do estudo e professor catedrático da FCTUC, e Ivan Salazar, primeiro autor do estudo e investigador do CNC-UC.


Os resultados, publicados na revista Journal of Neuroinflammation, concluem os investigadores, «constituem um avanço significativo para o desenvolvimento de novas estratégias de diagnóstico, ou prognóstico, para a Esclerose Múltipla. Além do mais, contribuem também para a avaliação de novas estratégias terapêuticas para esta doença».

Este estudo foi financiado pela National Multiple Sclerosis Society (EUA), Biogen (EUA) e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) (Portugal). Universidade de Coimbra - Portugal




 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Portugal - Projeto de investigação permite detetar doença de Alzheimer numa fase precoce

Um projeto de investigação liderado pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica no Porto, no domínio da Inteligência Artificial, pode revolucionar o diagnóstico da doença de Alzheimer, mesmo quando ainda não existem sintomas. Desenvolvido em colaboração com o Hospital de São João, no Porto, as faculdades de Medicina e de Engenharia da Universidade do Porto e o Instituto Politécnico de Bragança, este projeto surge num contexto em que a OMS estima que existam 35,6 milhões de pessoas com doença de Alzheimer (DA) no mundo, sendo que o número tende a duplicar até 2030 e a triplicar até 2050.

A tecnologia Neuro SDR foi testada em 38 pacientes do serviço de Neurologia do Hospital de São João, no Porto. Pedro Miguel Rodrigues, investigador do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia (CBQF/ESB/UCP) da Católica no Porto, explica “criamos um algoritmo que utiliza como fonte de informação 19 elétrodos que captam tensões elétricas que, num adulto, variam entre 30 e 50 milivolts, num espaço temporal de 30 e 45 minutos.” Os elétrodos estão numa touca que é colocada pelo médico ao utente. Essa touca está ligada a uma interface que pode ser acedida através de computador, que capta a informação e no espaço de cerca de 5 segundos a torna visível no ecrã.

Pedro Miguel Rodrigues refere que “um diagnóstico precoce abre portas para melhores resultados ao nível das terapias, mas também constitui um poderoso auxiliar em questões relacionadas com a salvaguarda da integridade pessoal e financeira dos portadores de Alzheimer, assim como em assuntos relacionados com profissões de risco e cartas de condução, por exemplo.”

Este projeto conta com mais de seis anos de desenvolvimento, permitindo contornar a difícil deteção desta patologia, aperfeiçoar algoritmos e desvendar o desenvolvimento da doença em diagnósticos primeiramente inconclusivos. “A solução criada incorpora um algoritmo de inteligência artificial com uma capacidade de precisão de diagnóstico a rondar os 98% para casos assintomáticos e/ou precoces da doença. E, por conseguinte, estamos numa fase em que precisamos de parceiros para conseguirmos que o protótipo saia do laboratório e possa ser disponibilizado em larga escala,” conclui Pedro Miguel Rodrigues.

Alguns dos resultados deste projeto podem ser consultados “Lacsogram: A New EEG Tool to Diagnose: Alzheimer’s Disease”, publicado recentemente na revista IEEE Journal of Biomedical and Health Informatics. Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica - Portugal

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Portugal – Universidade de Coimbra obtém autorização pioneira para distribuição do Gálio-68, um isótopo essencial para o diagnóstico do cancro


A ICNAS-Produção, empresa da Universidade de Coimbra (UC), obteve autorização de distribuição do GalliUC, uma formulação de Gálio-68 produzido em aceleradores de partículas (ciclotrões), que vai revolucionar o uso deste isótopo para o diagnóstico do cancro.

A autorização foi concedida pelo INFARMED e é a primeira na Europa para o Gálio-68 e a primeira a nível mundial para um processo deste tipo, tendo inclusive obrigado à elaboração de uma nova monografia da Farmacopeia Europeia especialmente dedicada à produção de Gálio-68 em ciclotrões.

O Gálio-68 é um isótopo utilizado em exames PET (Tomografia por Emissão de Positrões) para o diagnóstico oncológico, nomeadamente em tumores neuroendócrinos e no cancro da próstata. Até agora, a única forma de obter este isótopo era através de equipamentos denominados geradores de gálio, dispositivos dispendiosos e com capacidade de produção bastante limitada. Por este motivo, existe uma escassez deste produto a nível mundial e, por vezes, os doentes têm de esperar vários meses até conseguirem realizar os seus exames.

Para o Reitor da Universidade de Coimbra, Amílcar Falcão, a autorização agora obtida representa «mais um passo para a afirmação da dimensão internacional do trabalho que é desenvolvido pela UC na área das ciências nucleares aplicadas à saúde».

Em Portugal, a ICNAS-Produção distribui, desde 2013, radiofármacos para PET preparados a partir de Gálio-68 produzido em geradores. Recentemente, resultado da sua investigação, a Universidade de Coimbra desenvolveu um processo de produção de Gálio-68 baseado em ciclotrões, o que possibilita «aumentar até 10 vezes a capacidade diária de produção, permitindo assim suprir as necessidades dos hospitais em relação a este isótopo essencial», destaca Antero Abrunhosa, investigador e Gerente da ICNAS-Produção.

O conceito desenvolvido pela UC, acrescenta, «é fortemente inovador, já que se propõe distribuir o isótopo, cabendo ao hospital cliente fazer a reconstituição do radiofármaco antes do exame. Para além de substituir os onerosos geradores, esta estratégia permite a flexibilidade de cada hospital ou clínica preparar o radiofármaco que mais lhe convém, de acordo com as suas necessidades clínicas em cada dia».

Este novo processo de produção de Gálio-68 foi patenteado pela UC e licenciado à multinacional belga IBA Radiopharma Solutions, líder europeu no fabrico de ciclotrões, que o vai comercializar em todo o mundo. «O retorno do licenciamento da patente (royalties), bem como da distribuição dos isótopos e radiofármacos, é integralmente destinado a suportar as atividades de investigação desta área na UC», conclui Antero Abrunhosa. Universidade de Coimbra - Portugal



 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Macau - Universidade de Macau desenvolve sistema rápido de distinção entre Covid-19 e pneumonia comum

O estudo desenvolvido por Wong Pak Kin e Yan Tao foi publicado pela revista científica internacional Chaos, Solitons & Fractals e apresenta uma solução mais rápida na detecção e distinção de cinco tipos de pneumonias diferentes, nomeadamente a Covid-19. O sistema de diagnóstico automático é baseado num algoritmo de processamento e análise de imagens digitais



A Universidade de Macau (UM) desenvolveu um sistema inteligente que pode distinguir com sucesso a pneumonia causada pelo novo tipo de coronavírus (Covid-19) de outros tipos de pneumonia mais comuns. Com recurso a um algoritmo de processamento e análise de imagens digitais, os investigadores da UM conseguiram aumentar significativamente a velocidade de diagnóstico.

A infecção por Covid-19 é normalmente confirmada através de um teste de reacção de polimerização em cadeia com transcrição reversa (RT-PCR, na sigla em inglês). No entanto, estes testes apresentam ainda algumas limitações, nomeadamente a escassez de kits, a quantidade de tempo necessário e a elevada taxa de falsos negativos.

“Perante as limitações dos RT-PCR no sentido de assegurar um diagnóstico imediato e diminuir as probabilidades de propagação do vírus, muitos especialistas propuseram o uso da tomografia computadorizada do tórax como meio de diagnóstico de casos suspeitos de infecção por Covid-19, uma vez que, através deste processo, é possível detectar infecções do pulmão e da caixa torácica durante o primeiro estágio da doença”, refere a Universidade de Macau em comunicado.

Os especialistas da UM assinalaram que “o diagnóstico por tomografia computadorizada do tórax tem um elevado grau de precisão e pode fornecer mais informações clínicas”, mas referiram também que as imagens tomográficas “requerem uma identificação manual dos recursos radiográficos”. “O rápido crescimento no número de pacientes com Covid-19 e a necessidade de cada paciente submeter-se a várias tomografias (mais de 100 cortes por tomografia) levaram à acumulação de um grande número de imagens, apresentando, por isso, um enorme desafio aos radiologistas, especialmente nas áreas mais atingidas pela pandemia”, indicou a Universidade de Macau.

Para ultrapassar estes problemas, Wong e Yan Tao trabalharam com investigadores e especialistas de instituições da província de Hubei na recolha dos dados de 206 pacientes com RT-PCR positivo para a Covid-19 e as respectivas 416 tomografias. Para além disso, os investigadores da Universidade de Macau recolheram também dados de 412 pacientes diagnosticados com outros tipos de pneumonia e as respectivas tomografias computorizadas.

“Tendo como base as imagens das tomografias computadorizadas do tórax recolhidas, os investigadores da Universidade de Macau desenvolveram um sistema de diagnóstico automático baseado num algoritmo de processamento e análise de imagens digitais. Os resultados da verificação demostraram que, após receber uma quantidade limitada de dados, o sistema de diagnóstico inteligente podia distinguir com sucesso a pneumonia causada pela Covid-19 de outros tipos comuns de pneumonia”, indica o estudo.

De acordo com as conclusões dos investigadores da Universidade de Macau, a capacidade de diagnóstico do sistema desenvolvido é comparável à de radiologistas experientes, mas com uma “velocidade de diagnóstico quase 60 vezes mais rápida”. “Isso traz uma nova solução viável para a detecção da covid-19”, disseram os investigadores.

Perante os resultados do estudo, a equipa do professor Wong espera agora expandir as funções do sistema. “Estão a trabalhar para desenvolver um algoritmo de diagnóstico para os vários tipos de pneumonia multi-tipo, assim como um novo algoritmo para previsão específica da pneumonia por covid-19, que deve ser concluído brevemente”, pode ler-se no comunicado.

Ainda segundo o mesmo documento divulgado pela UM, o sistema inteligente será capaz de distinguir pulmões normais de pulmões infectados com cinco tipos comuns de pneumonia, prevendo ainda a gravidade da condição dos pacientes com covid-19.

O artigo relacionado, intitulado ‘Distinção automática entre Covid-19 e Pneumonia comum com recurso a uma rede neural convolucional em várias escalas de tomografias computadorizadas de tórax’, foi publicado pela revista científica Chaos, Solitons & Fractals um mês depois de ter sido concluído. O professor Wong Pak Kin, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Macau, e Yan Tao, aluno de doutoramento do Departamento de Engenharia Eletromecânica, assinam o estudo. Eduardo Santiago – Macau in “Ponto Final”


eduardosantiago.pontofinal@gmail.com

segunda-feira, 16 de março de 2020

Macau - Diagnosticado novo caso importado de infecção por novo tipo de coronavírus

O Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus informou ontem que foi diagnosticado em Macau um novo caso importado de infecção por novo tipo de coronavírus. De acordo com um comunicado do organismo ao final da noite de ontem, a doente, de 26 anos de idade, é uma trabalhadora não-residente de nacionalidade coreana.

No dia 30 de Janeiro saiu de Macau com o namorado para visitar familiares no Porto, tendo regressado à RAEM via Hong Kong às 0h30 de 14 de Março. Por ter tosse e febre, recorreu ao Centro Hospitalar Conde de São Januário para se submeter ao teste de ácido nucleico que acabou por confirmar o novo tipo de coronavírus. Actualmente, a paciente permanece em isolamento no hospital em situação clínica “considerada normal”.

O namorado, de nacionalidade portuguesa, “é considerado como caso de contacto próximo e os Serviços de Saúde estão a investigar outras pessoas com contacto”. O Centro de Coordenação apelou aos passageiros que tenham viajado no voo EK380 de Dubai para Hong Kong no dia 13 de Março para contactarem o Centro de Coordenação através do número de telefone 28700800 para acompanhamento. In “Ponto Final” - Macau

quarta-feira, 11 de março de 2020

Brasil - Planos de saúde terão de cobrir exames para novo coronavírus

Os planos de saúde terão de cobrir os exames para avaliar a infecção do novo coronavírus (Covid-19). A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) incluirá o procedimento no rol dos obrigatórios para custeio pelas operadoras.

A informação foi adiantada em entrevista coletiva do Ministério da Saúde. No início da noite, a ANS divulgou nota confirmando a decisão em caráter extraordinário.

A diretoria do órgão optou pela medida em reunião realizada hoje, com representantes de planos de saúde e de entidades representativas do setor de saúde suplementar. A agência informou que ainda está disciplinando quais serão os tipos de teste, os protocolos e o prazo para as operadoras se adequarem à determinação.

Ainda de acordo com a ANS, o tratamento para a doença já é garantido aos pacientes com casos confirmados de infecção. Mas a cobertura depende da segmentação dos planos do paciente.

Kits para diagnóstico do coronavírus

No início de março, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) começou a distribuir kits para o diagnóstico do Covid-19 para laboratórios do Rio de Janeiro. A princípio o exame só era realizado em três estados – São Paulo, Pará e Goiás. Os laboratórios das regiões Norte (Amazonas, Pará e Roraima), Nordeste (Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe), Sudeste (Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais), Centro-Oeste (Distrito Federal e Mato Grosso do Sul) e Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) receberão os kits e serão capacitados até o fim do mês.

Os kits foram desenvolvidos no Brasil pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP). Já a capacitação será conduzida pelo Laboratório de Vírus Respiratório e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

A Fiocruz tem capacidade de produzir de 25 mil a 30 mil testes por semana, e o ritmo deve atender à demanda estabelecida pelo Ministério da Saúde.

Além de testes para coronavírus, a Fiocruz vai entregar aos laboratórios kits para identificar os vírus Influenza A e B, o que contribui para o diagnóstico diferencial, quando a confirmação de um vírus descarta a suspeita de outro. Jonas Valente com Vinícius Lisboa – Brasil in “Agência Brasil”