Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 6 de março de 2026

Angola - Reverendo Artur Pina brinda leitores com nova obra científica na União dos Escritores Angolanos

O reverendo padre Artur Pina apresentou, recentemente, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, a sua mais recente obra científica intitulada “Libertação e Superação da Violência na Lógica da Filosofia de Eric Weil”


Com a chancela da Mayamba Editora, o livro, o quinto volume do autor, conta com 222 páginas, distribuídas por três capítulos. O primeiro capítulo aborda a fenomenologia da violência, destacando a negação da moral concreta, a revolta do indivíduo contra o absoluto, entre outros aspectos.

O segundo ressalta a filosofia como assunção da vida racional e recusa da violência, com ênfase no diálogo e na discussão, além de sublinhar a universalidade axiológica do indivíduo como forma de rejeição da violência.

Já o terceiro e último capítulo centra-se na educação humanista como via para a superação do instinto de violência no homem, destacando o papel do Estado ético e da filosofia social na educação pública.

A obra resulta da tese de doutoramento do autor, nascida de uma reflexão sobre a sistemática de Eric Weil, particularmente a partir da sua obra Logique de la philosophie, integrada no conjunto dos seus três grandes tratados: Logique de la philosophie, Philosophie politique e Philosophie morale.

Convidado a comentar a obra, o académico Isaac Pax, responsável pela apresentação da obra, defendeu que a educação deve ultrapassar a mera instrução técnica e assumir-se como um processo profundo de humanização, essencial para sociedades que procuram caminhos de paz após longos períodos de conflito.

Na sua intervenção, Isaac Pax fez ainda uma reflexão crítica sobre a violência colonial, afirmando que persiste na burocracia moderna, exemplificada pela histórica proibição do registo de nomes tradicionais. Essa desconexão com a “Kanda” (linhagem/ancestralidade) foi descrita como uma forma de violência simbólica que retira do indivíduo o seu “lugar de poiso”.

De acordo com o académico, a dificuldade de uma libertação plena desde 1975 está ligada à incapacidade de reconhecer e superar essas estruturas de violência cultural e simbólica que continuam a moldar o agir social. Augusto Nunes – Angola in “O País”


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Portugal - Inéditos de Fernando Pessoa em novo livro da U.Porto Press

São textos inéditos de Fernando Pessoa, assinados pelo próprio ou pelos seus heterónimos, e fazem parte do “Espólio de Pessoa” – mais de vinte e sete mil documentos que o poeta português deixou numa arca, encontrada após a sua morte –, catalogado na Biblioteca Nacional de Portugal.


O Espólio de Pessoa encontra-se dividido em envelopes, contendo uma quantidade variável de documentos. Envelopes Filosóficos: Filosofia & Heteronímia, agora coeditado pela U.Porto Press e pelo Instituto de Filosofia da Universidade do Porto (IFUP), dá ao leitor “a oportunidade de ler documentos filosóficos transcritos diretamente do espólio do autor, bem como de publicações que o poeta e pensador publicou durante a sua vida”, assinalam Nuno Ribeiro e Cláudia Souza, dois dos coordenadores deste novo título da coleção Transversal da Editora da U.Porto.

Como explica Maria Celeste Natário, docente do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP), também coordenadora da publicação e autora do Prefácio, estes “Envelopes (…) constituíram base de reflexão para Seminários Abertos de Filosofia em Portugal, que decorreram em 2022”, na FLUP, tendo como convidados os investigadores Nuno Ribeiro, Cláudia Souza e Paulo Borges, “conhecidos hermeneutas da obra pessoana, designadamente no âmbito filosófico”.

Segundo a também coordenadora do Grupo de Investigação “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal” do IFUP, o volume agora publicado “contribuirá para recolocar a obra pessoana no universo da Filosofia”, sendo este “o espaço, por excelência, onde o seu pensamento se inscreve”.

Fernando Pessoa, a Filosofia e os seus “outros eus”

Ao folhear Envelopes Filosóficos: Filosofia & Heteronímia, o leitor encontrará textos filosóficos assinados pelo próprio Pessoa, mas também por Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos – seus conhecidos heterónimos – e ainda “outros eus pessoanos ainda pouco divulgados”: Charles Robert Anon, Horace James Faber, Alexander Search, A. Moreira, Faustino Antunes, Frederick Wyatt, António Mora ou Raphael Baldaya.

Para além de revelar uma faceta menos conhecida da obra de Fernando Pessoa – a dimensão da sua escrita enquanto pensador filosófico – esta publicação mostra que o autor, na redação dos seus textos, “ao mesmo tempo que constrói filosofia, se desdobra noutros eus, isto é, noutras personalidades que pensam, produzem e assinam importantes reflexões filosóficas”, contam Nuno Ribeiro e Cláudia Souza.


Se, por um lado, a Biblioteca Particular do poeta e prosador português é prova da “multiplicidade das suas leituras, que estão na base da sua produção textual”, as suas listas de leituras de índole filosófica são, por outro lado, “testemunho do seu interesse pela Filosofia”, atestando, também, “o vasto conhecimento que tinha dos diversos autores e temas filosóficos”.

Este título está disponível na loja online da U.Porto Press, com um desconto de 10%. Universidade do Porto - Portugal

Sobre os coordenadores

Nuno Ribeiro é investigador do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT, NOVA – FCSH) e autor de mais de 20 edições sobre a obra de Fernando Pessoa publicadas na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Doutorou-se em Filosofia com uma tese sobre o espólio filosófico de Fernando Pessoa intitulada Tradição e Pluralismo nos Escritos Filosóficos de Fernando Pessoa.

Cláudia Souza é doutora em literaturas de língua portuguesa e pesquisadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. É autora de inúmeras edições e ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa publicados na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Publicou mais de 20 edições do espólio de Fernando Pessoa.

Paulo Borges (Lisboa, 1959) é Professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de Filosofia da mesma Universidade. Autor e organizador de 65 livros de ensaio filosófico, aforismos, poesia, ficção e teatro, publicados em Portugal, Espanha e Reino Unido.

Maria Celeste Natário é Professora Associada no Departamento de Filosofia da FLUP, onde se doutorou. Coordena o Grupo de Investigação “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal”, no IFUP, onde tem promovido o diálogo entre Filosofia e Culturas de Língua Portuguesa, bem como o diálogo entre Filosofia e Literatura.




terça-feira, 19 de setembro de 2023

Moçambique - Kulemba realiza terceira edição da Feira do Livro da Beira a partir desta quarta-feira

A Associação Kulemba realiza, a partir desta quarta-feira, a terceira edição da Feira do Livro da Beira (FLIB 2023). Agendada para Livraria Fundza e universidades da cidade, o evento vai juntar autores e leitores de diferentes gerações para a celebrarem Moçambique através da arte literária.


Conforme avança a nota de imprensa, neste dia inaugural, 20 de Setembro, às 14h, a terceira edição da FLIB vai iniciar com a cerimónia de lançamento dos livros Estórias trazidas pela ventania, de Adelino Albano Luís, e Phombe, de Juvenal Bucuane. O evento vai decorrer na Universidade Zambeze. Às 15 horas, na Universidade Católica de Moçambique, será lançado Deixa-me escrever-te, de Timóteo Papel.

À noite desta quarta-feira, quando forem 18 horas, na Livraria Fundza, o professor universitário e filósofo, José Castiano, vai proferir uma palestra subordinada ao tema “O reencontro com munthu: em busca do sujeito reconciliador”. Cruzando a filosofia e a literatura, Castiano vai, inclusive, recorrer a uma abordagem intelectual anteriormente partilhada na sua mais recente publicação em livro: O inter-munthu.

No dia 21, quinta-feira, às 9 horas, na Universidade Católica de Moçambique, o escritor e jornalista Daniel da Costa vai conversar sobre literatura com autores e leitores. Às 10 horas, na Universidade Alberto Chipane, será a vez de Timóteo Papel e Whaskety Fernando trocarem impressões. Por fim, às 14 horas, na Universidade Zambeze, será a vez Mia Couto conversar com a comunidade literária.

No dia 22, sexta-feira, às 9 horas, na Universidade Licungo, José Castiano e Álvaro Vasconcelos farão parte de uma mesa redonda subordinada ao tema “Memória e reconciliação: diálogo entre filosofia e história”. No mesmo horário, no Instituto de Formação de Professores de Inhamizua, Francisco Noa vai interagir com docentes e futuros docentes daquela instituição de ensino. Mais tarde, quando forem 16h30, na Livraria Fundza, Daniel da Costa e Juvenal Bucuane vão dividir a mesa-redonda “Isso aconteceu? Fronteiras entre história e literatura”. Por fim, às 17 horas, na Universidade Aberta ISCED, Mia Couto volta a conversar com autores e leitores.

A FLIB 2023 termina no dia 23, sábado, às 9 horas, na Livraria Fundza, com o lançamento do livro Estórias da paz e reconciliação, uma colectânea de crónicas que reúne textos estudantes universitários que se destacaram na edição do ano passado do Concurso de Crónicas. Por fim, às 11 horas, na Livraria Fundza, serão anunciados os vencedores do Concurso de Fotografia “Eu na Livraria”.

A terceira edição da FLIB 2023 decorre com o lema O reencontro com o munthu: diálogos entre a História, a Filosofia e a Literatura. Portanto, a programação dos quatro dias do evento inclui sessões de conversas, debates, feiras, lançamentos de livros e premiação. In “O País” - Moçambique


domingo, 7 de junho de 2020

Cabo Verde - Comité Olímpico promove conversa aberta sobre Desporto e Olimpismo como filosofia de vida



Cidade da Praia – O Comité Olímpico Cabo-verdiano (COC) promove esta segunda-feira  uma conversa aberta com a presidente da Comissão de Atletas Olímpicas, Isménia Frederico, no quadro do “Mês Olímpico”, sob o lema “Desporto e olimpismo como filosofia de vida”.

“Unidos pelo Espírito Olímpico” é o tema deste ‘live’ na rede social Facebook, com início marcado para às 17:30, no qual a primeira atleta olímpica cabo-verdiana, Isménia Frederico, que continua até hoje a praticar desporto, terá uma conversa descontraída sobre a sua trajectória, visando incentivar à prática desportiva, ligada sempre aos valores que carrega da experiência dos Jogos Olímpicos.

À Inforpress, Isménia Frederico adiantou que se pretende com esta iniciativa aberta a todos os interessados no sistema ‘live’ basear na sua experiência olímpica para ajudar os atletas que se mostrem preocupados emocionalmente com o adiamento dos Jogos Olímpicos Tókio 2020, por causa da pandemia da covid-19.

Considerando que Cabo Verde conta com um grupo de potenciais candidatos residentes na diáspora, deseja com esta conversa incentivar os atletas, sobretudo os olímpicos, para a prática de treinamento em casa, salientando que a alteração dos jogos poderá ser aproveitada para o reforço dos trabalhos e motivação para encarar a pandemia com naturalidade, de forma a superar todos os obstáculos.

“O espírito olimpismo é baseado nisto mesmo. Devemos colocar o nosso corpo em função do sacrifício, do trabalho árduo, como atleta”, considerou Isménia Frederico. In “Inforpress” – Cabo Verde

domingo, 3 de maio de 2020

‘Vida aberta’, de Waldemar José Solha: um discurso utópico

                                                            I
Poeta anárquico, que transita com extrema facilidade pela Filosofia e pela Literatura, aliás, como poucos na atual geração de literatos brasileiros, W. J. Solha (1941) está com novo livro na praça, Vida aberta – Tratado Poético-Filosófico (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2019), que apresenta ao leitor um extenso poema, ou melhor, um discurso utópico, em que procura reconstituir a história da Humanidade e seus muitos saberes e mitos e também os seus numerosos fracassos.

É claro que não se trata de um poema destinado ao grande público, mas ao leitor contumaz, erudito e capaz de reconhecer os muitos nomes citados, que vão de Richard Wagner (1813-1883), Beethoven (1770-1827), Karl Marx (1818-1883), Marlene Dietrich (1901-1992), Albert Einstein (1879-1955), Schopenhauer (1788-1860) e Nietzche (1844-1900) a Baudelaire (1821-1867), Apollinaire (1880-1918), Velázquez (1599-1660) e Júlio Cortázar (1914-1984), entre tantos outros.

Como muito bem observou em resenha que fez desta obra a crítica literária, poeta, contista e ensaísta Alexandra Vieira de Almeida, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), este novo livro de Solha, a exemplo de obras anteriores, faz “a junção entre o coloquial/popular e o erudito, o antigo e o contemporâneo nos matizes que encabeçam os versos do autor”. Por isso, além de nomes consagrados da Literatura Brasileira, como Manuel Bandeira (1886-1968), Augusto dos Anjos (1884-1914 e Ariano Suassuna (1927-2014), são lembrados o escultor Abelardo da Hora (1924-2014), o compositor Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (1904-1997), e o cantor e compositor Alceu Valença, entre muitos outros.

Segundo o poeta e jornalista Linaldo Guedes, autor do texto de apresentação de Vida aberta – Tratado Poético-Filosófico, tudo está praticamente nas páginas da obra de Solha: “cowboys, filme dos Lumière, Rembrandt, Mozart, Gaudi, porco-espinho fazendo sexo, Hawking, Mickey, Buda, Cristo, USP, Becket, Plínio Marcos, Rig Veda, Alcorão, Bíblia, Capitão Marvel, Platão”. Por isso, Guedes adianta que o leitor não precisa saber o que vai fazer com tais referências, mas recomenda: “Deixe-se apenas embalar pelo melhor que a poesia pode produzir: imagens em alta velocidade, ritmo, ironia e sabedoria que é pura magia, ... igual à da fé – do Islã, cristã, pagã, dos judeus – que torna o oco dos templos, “presença” de Deus”, reproduzindo na última parte da frase trechos do poema de Solha.

                                                           II
Como exemplo do trabalho artesanal de Solha, pode-se destacar que Vida aberta começa e, praticamente, termina com imagens de um episódio que é uma metáfora do fim do mundo, muito apropriado a esta época em que a pandemia do coronavírus (covid-19) ameaça e aterroriza a Humanidade: a do conjunto Wallace Hartley Band que tocou até o final, enquanto o luxuoso transatlântico Titanic, símbolo até então do gênio humano, em sua viagem inaugural em 1912, naufragava em águas próximas à Terra Nova, no Canadá, com mais de 1.500 pessoas a bordo.  Eis o trecho final do poema: Daí/ que,/ sem a ansiedade que imaginava típica de minha idade/ e no pique da Wallace Hartley Band que toca até o The... End/ no Titanic,/ sinto-me,/ agora,/ como apache que do desconhecido homem branco/ acha a outra... espora.

A imagem final também é uma repetição da segunda imagem de abertura do poema e funciona como uma metáfora: a do homem (não só branco, pois a escravidão é um fenômeno ocorrido em todas as latitudes) que sempre procurou, em toda a História, subjugar o semelhante, o que, de certo modo, faz até hoje em vários tipos de sociedade. Na imagem do poema, aqui é o homem branco que imaginou cavalgar o índio apache, escoiceando-o com as esporas.

Para que o leitor tenha uma ideia do que o espera, basta reproduzir este trecho que se encontra no miolo do poema: (...) Mas – um dia o deus dos judeus –, se o tema é arranha-céu, ainda/ se pensa em Babel./ O Titanic é uma barca,/ perto da Arca; e cruz,/ mais do que a... Coca-Cola,/ é A/ logomarca!/ O fato é que Deus – como Zeus,/ em sã consciência,/ é imaginário, extraordinário homem/ dotado de onipotência/ mas/ se um já perdeu o emprego,/ um dia o judeu também cai,/ sim,/ do Sinai,/ basta que tudo, a seu respeito,/ seja submetido a estudo./ Jesus, Alegria dos Homens – tirando-se a partitura – não é/ mais do que/ os dólmens./ E toda a arte... da Igreja... irá pro Google, como as obras de Bruegel./ Ricos retratos, opulentas paisagens e naturezas mortas: o burguês holandês do século XVII se liberta da arte sacra/ (que até então o encalacra),/ e assim é a História, que se escreve certo/por linhas tortas (...). (pp. 76/77). 

                                                           III
Publicado em 2018, também pela editora Penalux, A engenhosa tragédia de Dulcineia e Trancoso, na definição de seu autor, não seria um longo poema de versos livres, como Vida aberta, mas um rimance, ou seja, um romance popular, em verso, que se canta ao som da viola, ainda frequente no Brasil, um pequeno canto épico. Mas pode ser considerado também “uma novela de cavalaria para tempos modernos (dentro da lógica nordestina)”, como observa o jornalista Daniel Zanella no texto de apresentação que escreveu para esta obra. Ou ainda “um poema de caráter pluridimensional, artisticamente construído sobre os pilares da experiência e maturidade”, como definiu o escritor João Carlos Taveira, no prefácio.

De fato, W. J. Solha procura reconstruir uma epopeia do século  XXI, mas a partir do Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), e de A pedra do reino, de Ariano Suassuna, sem deixar de evocar o mito de Dom Sebastião (1554-1578), o rei de Portugal, que desapareceu na África, gerando o sebastianismo, espécie de crença messiânica em seu retorno ao país. Portanto, são muitos os significados que podem ser extraídos desta obra de maturidade do autor, mas o que se pode intuir é que seus versos pendem mais para a descrença, ainda que de uma incredulidade discreta.

                                                          IV
Nascido em Sorocaba-SP, Waldemar José Solha (1941) radicou-se em João Pessoa, na Paraíba, a partir de 1962. Além de poeta, teve várias pesagens pelo teatro como autor e diretor de peças e ator. Escreveu textos para "Cantata Pra Alagamar", música de José Alberto Kaplan, 1980, e "Os Indispensáveis", para música de Eli-Eri Moura, apresentada em João Pessoa em 1992. Trabalhou como ator nos filmes O salário da morte, dirigido por Linduarte Noronha e lançado em 1970; Fogo morto, dirigido por Marcus Farias; Soledade, dirigido por Paulo Thiago (ambos de 1975); A canga, de MarcusVilar, em 2001, e Lua Cambará, dirigida por Rosemberg Cariry, em 2002. É autor dos painéis "Homenagem a Shakespeare", de 1997, em exposição permanente no auditório da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba (UFPb), e "A Ceia", de 1989, no Sindicato dos Bancários da Paraíba.

Publicou os romances Israel Rêmora, Prêmio Fernando Chinaglia de 1974 (Rio de Janeiro, Editora Record, 1975), A canga, 2º prêmio Caixa Econômica de Goiás de 1975 (São Paulo, Editora Moderna, 1978; Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984); A verdadeira história de Jesus (São Paulo, Editora Ática, 1979); Zé Américo foi princeso no trono da monarquia (Rio de Janeiro, Codecri,1984); A batalha de Oliveiros, Prêmio INL 1988 (Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1989); e  Shake-up, (João Pessoa, Editora da UFPb, 1997).

Na área de poesia, é autor também de Trigal com corvos (São Paulo, Recanto das Letras, 2004), poema longo publicado pela Editora Palimage, de Portugal, também em 2004, Prêmio João Cabral de Melo Neto 2005 como melhor livro de poesia de 2004; História universal da angústia (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005), coletânea, Prêmio Graciliano Ramos 2006 e finalista do Prêmio Jabuti 2006; e  DeuS e outros quarenta PrOblEMAS (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2015). Adelto Gonçalves – Brasil


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Vida aberta: Tratado Poético-Filosófico, de W. J. Solha. Guaratinguetá-SP: Editora Penalux, 106 págs., R$ 37,00, 2019. A engenhosa tragédia de Dulcineia e Trancoso, de W. J. Solha. Guaratinguetá-SP: Editora Penalux, 98 págs,, R$ 35,00, 2018. E- mail: penalux@editorapenalux.com.br
Site: www.editorapenalux.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Eduardo Lourenço: uma visão do Brasil

                                                            I
Trata-se de iniciativa elogiável o trabalho de organização da obra do pensador português Eduardo Lourenço encetado pela professora Maria de Lourdes Soares, ao escolher entre a sua imensa produção textual as mais significativas páginas que têm o Brasil como tema, reunidas em Do Brasil: Fascínio e Miragem (Lisboa. Gradiva, 2015). São textos de diversas modalidades (ensaio, recensão, discurso, diário, entrevista e até carta) que abrangem o período de 1945 a 2012 e contemplam áreas como Filosofia, Ensino, Literatura, Cinema e as nem sempre pacíficas relações entre Brasil e Portugal.

Esses textos correspondem a cerca de um terço daqueles que integrarão o livro Tempo Brasileiro a sair na série Obras Completas de Eduardo Lourenço, que vem sendo editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, pela qual já saíram três volumes – Heterodoxias (2011), Sentido e Forma da Poesia Neo-realista e outros ensaios (2014) e Tempo e Poesia (2016).

Como observa a professora no prefácio que escreveu para este livro, há mais de seis décadas que “Eduardo Lourenço pensa o Brasil sem perder de vista que reflete sobre a realidade movente de um país multifacetado”. De fato, desde que veio para o Brasil, ainda um jovem de vinte e cinco de idade para trabalhar como professor convidado na Universidade Federal da Bahia, não deixou de se preocupar com o futuro deste país que, ao longo de sua história, tem alternado fases de euforia desmedida, como aquela que pode ser resumida como o “país do futuro”, título de um livro (ensaio) de 1941 do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), e de pessimismo desenfreado como a de agora em que legiões de jovens e aposentados não veem outra saída para as suas vidas que não seja o portão de embarque dos aeroportos de Cumbica ou do Galeão.
           
                                                           II
Um dos mais instigantes artigos é “Sobre Brasil e África: outro horizonte” em que  analisa o livro do historiador brasileiro José Honório Rodrigues (1913-1987) que leva este título, publicado em 1961, uma espécie de libelo contra o colonialismo português, que teria, segundo o professor, o indisfarçável propósito de fundamentar ideologicamente a ação diplomática do Brasil no continente africano, que se deu ao tempo do governo de Juscelino Kubitschek (1902-1976), que compreende o período de 1956 a 1961. Ou seja, com uma “imagem de povo próximo da África”, o Brasil tentaria aparecer como padrinho do processo de descolonização que à época já se afigurava inevitável.

Obviamente, essa estratégia colocava toda a culpa histórica pelo tráfico de escravos nas costas dos portugueses, escamoteando, porém, que eram os fazendeiros da América portuguesa – os brasílicos – e, depois, do Brasil Império, que compravam os negros, incrementando o comércio de carne humana, e que eram as elites africanas que vendiam nas praias os adversários derrotados em guerras internas. Mais: esquecendo que os portugueses não entravam no interior da África, onde o domínio dos negócios pertencia em absoluto aos chefes (sobas) africanos ou aos príncipes mouros (os chamados xerifes que se diziam descendentes de Maomé), que dominavam o tráfico de escravos muito antes da chegada dos lusos ao continente. E que, na África Oriental, bem antes dos portugueses, os franceses já faziam o tráfico de escravos entre Moçambique e suas ilhas do Índico.

Claro está que o colonialismo, tirando-se as suas numerosas vítimas involuntárias, não é uma história de bandidos e mocinhos, mas antes, como diz Lourenço, “uma máquina infernal cujos traumatismos só com dificuldade se reabsorvem”. E que o Brasil até hoje se recusa a admitir que, durante mais de três séculos, a sua realidade e dinamismo histórico foram resultado da “ação e presença portuguesas enquanto ação colonial e colonialista”. Como exemplo, Lourenço lembra que, até hoje, os historiadores não veem de maneira uniforme a História da Literatura Brasileira – para uns, desde a Carta de Pero Vaz de Caminha, tudo o que foi escrito em terras brasileiras seria literatura brasileira, enquanto, para outros, tudo o que se escreveu até a separação em 1822 é literatura colonial.

O ensaísta também ironiza os escritores brasileiros do século XIX que, sob a maré romântica, embora “descendentes dos destruidores de índios” – quer dizer, dos portugueses tornados “brasilienses” – fizeram um apelo ao mito do índio “para fugir a uma paternidade e a uma responsabilidade que obscuramente contrariava o desejo e a vontade da jovem nação independente”. Como se os brasileiros estivessem desde sempre no continente americano e fossem autóctones, nascidos de si mesmos. Ou, então, como tentou defender José de Alencar (1829-1877) no romance Iracema (1865), que o brasileiro seria metade-português e metade-índio, como Moacir, o filho da índia Iracema com o invasor português Martim.
           
                                               III
Em outro texto, “Os príncipes”, de 1992, Lourenço, apesar de admitir um antiportuguesismo latente em certas correntes do pensamento brasileiro, reconhece o carinho especial com que a historiografia do Brasil trata D. João VI (1767-1826) que, a rigor, como príncipe regente, fez da colônia, mais especificamente do Rio de Janeiro, o centro de um poder imperial, invertendo o papel que Portugal desempenhara até 1808.

Na verdade, o que é hoje o Brasil muito deve à Coroa que lhe deu, em 1822, pelas mãos de um príncipe luso, a autonomia sem qualquer conflito, ao contrário do que ocorrera poucos anos antes com México, Argentina e Peru que conseguiram a independência a custo de muito sangue. Aliás, mais para a frente, se a república nascida de um golpe militar, em 1889, tivesse saído antes, certamente, a antiga América portuguesa não seria o que é hoje, mas, sim, a exemplo da América hispânica, um rol de pequenas nações nascidas das ambições de caudilhos regionais.

Mais adiante, em entrevista a Rui Moreira Leite, em 2000, que consta deste livro como anexo, Lourenço condena a teoria do luso-tropicalismo do sociólogo Gilberto Freire (1900-1987), até hoje incensada em certos círculos do Brasil, acusando-a de ter servido como caução ideológica para o regime de António de Oliveira Salazar (1889-1970) – tanto que ele foi o único escritor que o ditador recebeu em palácio – em sua presumível tentativa de fazer em Angola e Moçambique uma “descolonização à brasileira”, ou seja, com a manutenção no poder nas mãos de uma elite branca ou já miscigenada, para evitar o recrudescimento da guerra colonial ou guerra de libertação (expressão utilizada pelos africanos) que se daria entre 1961 e 1974.

Como se sabe, o luso-tropicalismo defende que os portugueses teriam uma especial capacidade de adaptação aos trópicos, não por interesse político ou econômico, mas por empatia inata em razão de sua própria origem híbrida ou de seu contato íntimo com mouros e judeus na Península Ibérica, que redundaria na miscigenação e interpenetração de culturas. Mas, hoje, essa teoria já não é levada muito em consideração, até porque, como diz Lourenço, “esse discurso acaba por ter uma leitura de coisa racial, logo, racismo”. Aliás, essa condenação ao luso-tropicalismo Lourenço já o fizera em artigo de 1961, “A propósito de Freyre (Gilberto)”, também incluído neste livro, considerando-o “um nefasto aventureirismo intelectual, incoerente e falacioso”.

                                                           IV
Eduardo Lourenço, nascido em São Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda, província da Beira Alta, em 1923, concluiu a Licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa em 1946, assumindo em seguida as funções de professor assistente, até 1953. Desse ano até 1958, exerceu as funções de leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier.

Foi ainda leitor nas universidades de Grenoble e Nice, na França. Nesta última universidade, foi maitre-assistant, cargo que manteve até a sua jubilação em 1989. Na França, terra natal de sua esposa, Annie Salomon (1928-2013), viveu por seis décadas. Pela editora Gallimard, de Paris, lançou Une Vie Écrite.

Seu primeiro livro, Heterodoxia I, é de 1949. Com mais de 40 livros publicados, é autor de O Desespero Humanista na Obra de Miguel Torga (1955), Heterodoxia II (1967), Sentido e Forma da Poesia Neo-realista (1968), Fernando Pessoa Revisitado – leitura estruturante do Drama em Gente, (1973), O Labirinto da Saudade – psicanálise mítica do destino português (1978), Fernando, rei da nossa Baviera (1986), Nós e a Europa ou as duas razões (1988), A Europa Desencantada – para uma mitologia europeia (1994), O Esplendor do Caos (1998), Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade (1999), A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia (1999), As Saias de Elvira e outros ensaios (2006) e Paraíso sem Mediação (breves ensaios sobre Eugénio de Andrade (2007), entre outros.

No Brasil, a presença de seus livros é ainda restrita, embora tenha conquistado o Prêmio Camões em 1996. Na sequência, a Companhia das Letras, de São Paulo, publicou Mitologia da Saudade (1997) e A Nau de Ícaro (2001). Em 2016, ganhou a Prêmio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural. É doutor honoris causa pelas universidades do Rio de Janeiro (1995), de Coimbra (1996), Nova de Lisboa (1998) e de Bolonha (2006). De 2002 a 2012, exerceu as funções de administrador não-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Roma. Adelto Gonçalves - Brasil
       
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Do Brasil: Fascínio e Miragem, de Eduardo Lourenço, com organização e prefácio de Maria de Lourdes Soares. Lisboa: Gradiva Publicações, 1ª edição, 269 páginas, 2015, 13,50 euros. E-mail: geral@gradiva.mail.pt  Site: www.gradiva.pt
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sábado, 1 de julho de 2017

Homenagem ao filósofo José Maurício de Carvalho

                                                           I

Se não é o principal filósofo brasileiro hoje, José Maurício de Carvalho (1957), sem dúvida, está entre os mais respeitados não só no Brasil como em Portugal. Por isso, a homenagem que os professores Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz, Adelmo José da Silva e Paulo Roberto Andrade de Almeida lhe fizeram, ao organizar o livro Uma Filosofia da Cultura: escritos em homenagem a José  Maurício de Carvalho (Universidade Federal de São João del Rei-UFSJ, 2016), é mais do que justa. A obra reúne ensaios sobre aspectos de sua extensa obra, além de textos do próprio homenageado e recensões de seus livros. 

Filósofo, psicólogo, pedagogo, pesquisador e articulista, José Maurício de Carvalho, nascido em São João del-Rei-MG, tem se destacado por sua disposição de tornar pública a reflexão filosófica no Brasil, o que o levou naturalmente a se enveredar pelo pensamento filosófico de Portugal. Por isso, seus escritos encontraram sempre grande receptividade na imprensa portuguesa, especialmente no suplemento semanal Das Artes Das Letras, do diário O Primeiro de Janeiro, do Porto, que, extinto em 2008, teria continuidade em maio de 2009 com o quinzenário As Artes entre as Letras, igualmente sob a direção da jornalista Nassalete Miranda.

Mestre e doutor em Filosofia, com estágio de pós-doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Nova de Lisboa, Carvalho aposentou-se recentemente como professor titular de Filosofia Contemporânea do Departamento de Filosofia da UFSJ. Atualmente, é professor do Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves (Iptan), membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Academia de Letras de São João del-Rei e da Academia Mantiqueira de Letras. Publicou 30 livros e capítulos em outras l5 obras, além de mais de uma centena de artigos em revistas e jornais.

                                               II
Um dos mais instigantes ensaios deste livro é “Sampaio Bruno e o Brasil mental”, do próprio homenageado, redigido para o congresso A Obra e o Pensamento de Sampaio Bruno, realizado na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, entre os dias 4 e 6 de novembro de 2015. Nesse texto, Carvalho lembra que o filósofo portuense Sampaio Bruno (1857-1915), considerado o fundador da Filosofia portuguesa, autor do livro O Brasil Mental (1898), apesar de seu esforço na tentativa de reaproximar a intelectualidade portuguesa da brasileira, não “enxergou as novidades nem viu valor nas considerações filosóficas da Escola do Recife que ele avaliou com o mesmo desdém com que condenou a ignorância de seus compatriotas do quadro intelectual brasileiro”.

Para Carvalho, as críticas de Bruno a Tobias Barreto (1839-1899) e aos seus continuadores da Escola do Recife acabaram não sendo exatas, porque Bruno parece entender as posições de Silvio Romero (1851-1914) como uma continuação de Tobias, sem notar a inflexão que o culturalismo sociológico de Romero representou em relação à herança do mestre. Segundo Carvalho, havia na Escola do Recife outros pensadores importantes como José Soriano de Souza (1833-1895) e João Mendes Júnior (1856-1922), que não foram contemplados nas análises de Bruno.

O volume traz também o ensaio “Sampaio Bruno e o Brasil culto”, do professor doutor António Braz Teixeira, da Universidade Autônoma de Lisboa, que, a exemplo do trabalho de Carvalho, foi escrito para o congresso em homenagem a Sampaio Bruno, o que significa que, ao tempo, cada autor desconhecia o texto do outro e, portanto, não constitui uma contestação ao que o filósofo brasileiro escreveu.

Neste trabalho, Braz Teixeira preferiu destacar a preocupação de Bruno em chamar a atenção da “gente culta de Portugal para as obras literárias, filosóficas, históricas, políticas de nossos irmãos brasileiros”. E para a benevolência do filósofo portuense em relação à extensa crítica com que Euclides da Cunha (1866-1909) reagiu ao livro O Brasil Mental em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, nos dias 10, 11 e 12 de julho de 1898, pois, um decênio mais tarde, não se recusaria a prefaciar a penúltima obra do autor de Os Sertões (1902), o volume de ensaios Contrastes e confrontos, publicado por uma editora portuguesa em 1907, dois anos antes da morte do escritor brasileiro.

Já o professor doutor José Esteves Pereira, da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em “José Maurício de Carvalho e os caminhos da moral moderna: notas breves”, reconhece que homenageado é hoje “um dos mais lúcidos intérpretes da realidade político-cultural luso-brasileira”, observando que suas reflexões sobre o tradicionalismo, tomando como referência Pascoal José de Melo Freire (1738-1798) e José da Gama e Castro (1795-1873) ou ainda o mineiro José Severiano de Resende (1871-1931), vieram a abrir novos campos de pesquisa sobre o tema.

                                               III
Na impossibilidade de se referir aos demais ensaios sobre a obra do filósofo mineiro – de autoria de Antônio Paim, Ricardo Vélez Rodríguez, Paulo Roberto Andrade de Almeida, Adelmo José da Silva, Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz e Selvino Antônio Malfatti –, ressalte-se o texto “José Maurício de Carvalho e a pesquisa do pensamento luso-brasileiro”, de Anna Maria Moog Rodrigues, da Academia Brasileira de Filosofia e do Instituto Luso-brasileiro de Filosofia, que acompanha a trajetória do homenageado desde os idos da década de 1980, quando este se apresentou como candidato ao curso de doutoramento no Departamento de Filosofia da Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Na abertura desse texto, diz a professora Anna Maria que “inteligente, diligente, determinado, eficiente e objetivo são características que se podem atribuir sem exageros a José Mauricio de Carvalho enquanto estudioso e pesquisador das ideias”.

Diz ainda a filósofa que Carvalho foi introduzido no estudo do pensamento português pela obra do historiador de ideias Joaquim de Carvalho (1892-1958), sobre o qual escreveu o livro História da Filosofia e Tradições Culturais: um Diálogo com Joaquim de Carvalho (Porto Alegre, ediPUCRS, 2001). De Joaquim de Carvalho, o filósofo disse que foi quem o ajudou “a perceber o filosofar como um diálogo com o passado”.

Delfim Santos (1907-1966) foi outro pensador que se tornou um guia para Carvalho no estudo do pensamento português. Foi tema de sua tese para o concurso de professor titular, que resultou no livro A Filosofia da Cultura: Delfim Santos e o Pensamento Contemporâneo (Porto Alegre, ediPUCRS, 1999).

Conhecendo profundamente a trajetória do pensamento português, através da leitura das obras dos escritores moralistas portugueses da chamada Segunda Escolástica, Carvalho, segundo Anna Maria, pôde entender a contribuição da Contra-Reforma católica na cultura luso-brasileira para, a partir daí, elaborar um novo esquema interpretativo do desenvolvimento temático da moralidade luso-brasileira desde a Renascença até o século XVIII. Adelto Gonçalves - Brasil     

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Uma Filosofia da Cultura: escritos em homenagem a José Maurício de Carvalho, de Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz, Adelmo José da Silva e Paulo Roberto Andrade de Almeida (organizadores). São João del-Rei-MG: Universidade Federal de São João del-Rei, 312 págs., 2016. E-mail: segra@ufsj.edu.br Site: www.efsj.edu.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br 

sábado, 25 de março de 2017

Congresso Internacional Filosofia e Literatura: entre Portugal e Macau

Durante quatro dias, três instituições de ensino superior de Macau vão acolher o Congresso Internacional Filosofia e Literatura, um evento que reunirá mais de 20 académicos e oradores para analisar a lusofonia enquanto utopia criadora. O congresso decorrerá entre os dias 27 e 30 deste mês para, a partir de 4 de Abril, o tema ser desenvolvido em Portugal

A terceira edição do “Congresso Internacional Filosofia e Literatura: entre Portugal e Macau” reunirá na próxima semana na RAEM mais de 20 oradores que, através de diferentes comunicações em várias instituições académicas, pretendem responder à questão “Lusofonia, utopia criadora?”.

O ponto de partida dá-se na segunda-feira no Instituto Internacional de Macau, com uma sessão de boas-vindas. A primeira intervenção caberá a Maria Antónia Espadinha, no Instituto Politécnico de Macau (IPM), sobre as “Tradições, Mitos e Costumes Chineses”.

Ao Jornal Tribuna de Macau, a vice-reitora da Universidade de São José, explicou que a sua intervenção, ainda que sumária, pretende explicar quais os “aspectos dessas superstições, mitos urbanos ou não, que se espelham na literatura de Macau em língua portuguesa”.

Para isso, serão dados exemplos dos textos de Deolinda da Conceição e de Henrique de Senna Fernandes. “Os mitos e as próprias superstições também estão ligados à filosofia e muitas dessas crenças, também associadas à religião, têm a ver com o confucionismo”, rematou Maria Antónia Espadinha.


Por outro lado, o poeta Camilo Pessanha será também referenciado nas duas intervenções de Adelto Gonçalves e Celina Veiga Oliveira. Em particular, serão discutidos os temas “O Poema de Forma Livre: oito elegias chinesas, de Camilo Pessanha” e “Camilo Pessanha e o abismo chinês”, respectivamente.


As sessões no IPM terminam com três sessões a cargo de Ilda Teresa de Castro, Vítor Rua e Vera Borges, docente na USJ que irá descortinar o “mito na definição de uma poética especificamente portuguesa” nomeadamente no momento das Descobertas.

“Desde a pedra angular que Os Lusíadas constituem, há uma linha de inquirição, na poesia que em português se escreve, identificando o movimento histórico e mítico das Descobertas com a própria natureza da poesia”, apontou Vera Borges ao Jornal Tribuna de Macau.

“Em poetas como Sophia de Mello Breyner, Ruy Cinnatti, Manuel Alegre, Fernanda Dias e Sales Lopes, encontramos elementos de uma poética particular, celebratória do olhar e de uma luz inaugural, decorrente dos Descobrimentos. Essa poética específica, que explora as afinidades entre discurso poético e mapeamento ou cartografia, representação por analogia, translação exata e invenção do real, devolver-nos-á à questão da identidade própria”, concluiu a docente.

No dia 29, o congresso chega à Universidade de Macau (UM) com sessões a partir das 09:30 até às 14:30 nas quais serão abordadas as “Representações culturais da lusofonia a partir de Macau”, “A literatura como forma de conhecimento do outro”, entre outras.

A última sessão em Macau realiza-se na USJ. A 9 de Maio, o congresso “viaja” até Portugal, para ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

A utopia na escrita africana

Uma das últimas intervenções em Macau estará a cargo de Inocência Mata. “A minha comunicação vai ser sobre a escrita da utopia nas literaturas africanas, particularmente na literatura angolana. Vou falar sobre a escrita como forma de expressão e reflexão que visou novos valores, racionalidades e éticas”, disse a docente da UM ao Jornal Tribuna de Macau.

A comunicação de Inocência Mata será a única, em todo o congresso no território, a fazer uma incursão pela literatura de África. “Vou apresentar a utopia como uma posição estruturante dos sistemas literários africanos, com particular incidência na literatura angolana do século XIX”, acrescentou.

Para a docente, este encontro de vários académicos é pertinente na medida em que se pretende “trazer outros pedaços da literatura portuguesa” para um diálogo entre a filosofia e a literatura.

Segundo revelou, a quarta edição deste evento poderá realizar-se em Goa. Contudo, ainda não há certezas concretas sobre essa possibilidade.

“Será para pôr em diálogo através da relação entre literatura e filosofia os vários mundos da língua portuguesa. A mais-valia é precisamente trazer Macau como um elemento estruturante desse mundo da língua portuguesa”, concluiu Inocência Mata.

A Comissão Organizadora do evento integra o professor Carlos Ascenso André, do Instituto Politécnico de Macau, a professora Inocência Mata, da UM, Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau e Maria Antónia Espadinha, vice-reitora da USJ. Estas sessões surgem no seguimento do Congresso Internacional Errâncias de um Imaginário, no Brasil, em Portugal e em Cabo Verde, bem como da publicação de um livro electrónico “Congresso Internacional de Língua Portuguesa: Filosofia e Poesia” e do Congresso Internacional Filosofia e Literatura: Fidelino de Figueiredo. Catarina Almeida –Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

segunda-feira, 4 de março de 2013

Totalitarismo

                                                                A sedução totalitária (*)                                                                                                                                                                                     
                                                                                     I
            Por que o século XX foi um período tão propício a experiências totalitárias? Sabe-se que Hitler, Mussolini, Stalin, Franco, Salazar, Vargas e outros ditadores menos cotados ou conhecidos não chegaram ao poder e muito menos governaram sozinhos, contando com o apoio não só de grandes homens de negócios, que sustentaram as maiores ignomínias praticadas contra seres humanos, em troca de interesses pessoais e, muitas vezes, mesquinhos, como do homem comum, o das ruas, o homem-massa, conforme o definiu o pensador espanhol Ortega y Gasset (1883-1955).

            Examinar a  gênese  do pensamento  totalitário e as razões que  o levaram a  encantar multidões foi o que motivou a XIII Semana de Filosofia, realizada em 2010 na Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), em Minas Gerais. São os 12 estudos apresentados durante esse seminário que estão reunidos em Poder e Moralidade: o totalitarismo e outras experiências antiliberais na modernidade (São Paulo, Annablume/UFSJ, 2012), com apresentação e organização do filósofo e psicólogo José Maurício de Carvalho, professor titular de Filosofia Contemporânea do Departamento de Filosofia da UFSJ, doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro.

            Em poucas palavras, os estudos revelam que o totalitarismo é adversário do homem livre, ou seja, daquele que se percebe responsável por seu destino histórico, que escolhe e é capaz de sustentar responsavelmente suas opções, como assinala o professor José Maurício de Carvalho na apresentação que escreveu para este volume. Isso não significa que nos regimes ditos liberais não existam focos de totalitarismo, como sabe muito bem quem já trabalhou em redações de jornais e revistas e viu de perto grandes empresas e autoridades públicas procurarem asfixiar a liberdade de pensamento à custa de pressões econômicas. Sem contar que a chamada liberdade de imprensa quase sempre é a liberdade do dono do jornal de publicar o que quiser, mas não a do empregado jornalista.

                                                           II
            Para o professor Selvino Antonio Malfatti, da Universidade Federal de Santa Maria, do Rio Grande do Sul, o fenômeno totalitário é uma experiência relativamente recente na história política do Ocidente e constitui um desvio de rota da moralidade ocidental. Em seu estudo “Moralidade e Política no Totalitarismo”, Malfatti diz que o fenômeno é resultado da falência dos valores humanos e da descrença na capacidade do homem de se organizar sozinho.

           Essa  é  uma ideia muito  antiga e  que, ao  final de 1797, por  exemplo, serviu  para  o intendente-geral de Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, organizar uma sessão da Nova Arcádia na grande sala da Real Casa Pia, no Castelo de São Jorge, em Lisboa, em homenagem ao aniversário de D. Maria, em que o acadêmico Manuel Bernardo de Sousa e Melo, presidente do encontro, defendeu “a solidez interna das monarquias reais” e condenou “a fraqueza das fórmulas republicanas”. Dirigindo-se ao príncipe regente D. João, o acadêmico dizia que “os homens não nascem bons e, por isso, onde quer que vão levam consigo a depravação de origem”.

           Dizia mais: “Portanto, os  homens  levarão  consigo a  depravação, a  ambição, o ódio, a sensualidade, o ciúme, a vingança; enfim, levarão as paixões, estes ímpetos precipitados do nosso ânimo, estes monstros domésticos do nosso coração, mais indomáveis que feras exteriores, pois, desenfreados e livres, não respeitam outro direito que o da força nem conhecem outras virtudes mais que as suas mesmas satisfações”. Era o que o intendente queria que o príncipe regente ouvisse para justificar mais repressão, como se lê em Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003, p. 241), deste articulista.

           Muitos anos mais tarde, do outro lado da Europa, em São Petersburgo, um morador de um prédio que fica no cruzamento da rua Koppuznetchny com a rua Dostoevskaia, antiga Iamskaïa, não muito distante da igreja do Ícone de Nossa Senhora de Vladimir, escreveria que “nada de grandioso se pode esperar do homem”, seguindo na mesma linha do acadêmico Sousa e Melo.  Esse morador chamava-se Fiodor Dostoievski (1821-1881) e ninguém como ele retratou com tanta fidelidade a humanidade em toda a sua miséria e degradação.

          Esse pensamento deve ter ficado na alma das gerações que os sucederam. Se o Portugal joanino e o Portugal salazarista como a Rússia czarista e a Rússia soviética eram países atrasados e com altos índices de analfabetismo, a conclusão a que se poderia chegar é que constituíam terreno fértil para a sedução do totalitarismo. Mas como explicar que a Alemanha, já desenvolvida à época e com altos índices de alfabetização, também se tenha deixado atrair pela insânia nazista?

                                                           III
          Diz o professor Malfatti que, em troca da adesão, o totalitarismo oferece uma ideologia que se propõe a explicar toda a vida da sociedade. “Todos devem professar a ideologia como se fosse uma fé religiosa”, diz o professor. “O ditador, rodeado de uma pequena parcela da população, submete o resto. Para tanto”, diz, “cria um partido, único evidentemente, dirigido por ele à frente de fanáticos seguidores. O passo seguinte é instaurar um sistema de terrorismo policial que invade e vasculha toda vida pública e privada dos indivíduos. O outro passo é o controle dos meios de comunicação para que só a ideologia oficial seja ouvida. Tudo isso permeado por ideais salvacionistas”. E acrescenta: “Os líderes soviéticos no período stalinista e os chefes do nazismo estavam imbuídos de que estavam cumprindo uma missão para a humanidade”.

        De fato, durante a ditadura militar (1964-1985) no Brasil, uma parte dos torturadores e de seus financiadores imaginava que estava colocando o País a salvo da ameaça comunista, mas a maior parte fazia o serviço sujo não só por sadismo e mau-caratismo como para se aproveitar de vantagens pessoais e oportunidades que se ofereciam com o saque dos despojos das vítimas.

                                                           IV
         Já José Maurício de Carvalho e Vanessa da Costa Bessa, da UFSJ, em “Totalitarismo e ética em Ortega y Gasset”, defendem que a recusa do homem-massa em assumir a sua vida é o sangue que impulsiona os governos totalitários que a Europa produziu no século passado. Para os autores, as ideias de Ortega y Gasset ainda permitem entender o fenômeno, embora o mundo de hoje seja outro e pior, pois assolado por violência urbana, pelo crime organizado associado ao tráfico de drogas, fanatismo religioso convertido em terrorismo e ameaças de desequilíbrio ecológico.

         Seja como for, para os autores, continuamos a viver um tempo de massas, tal como definiu Ortega y Gasset. Por isso, dizem, os riscos de nos depararmos com novas propostas totalitárias não estão afastadas de todo enquanto a responsabilidade com a construção do futuro não for retomada e o medo da liberdade não for vencido. “O risco é real porque poucas vezes na história humana os Estados Nacionais possuíram informações e controles tão completos da vida de seus cidadãos”, acrescentam.

        Pior ainda no Brasil de hoje em que se vive uma época de desmoralização da representação parlamentar, tal qual na Espanha pré-franquista. E essa desmoralização se dá pelos muitos parlamentares, que, em troca de vantagens pessoais e de grupos, acabam virando despachantes de contraventores, facilitadores de grandes negócios à custa do erário público – aliás, desde os tempos coloniais, o caminho mais fácil para o enriquecimento rápido. Desmoralizado o Parlamento, o caminho fica aberto à tentação totalitária. Eis aqui bem depositado o ovo da serpente. Adelto Gonçalves - Brasil
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PODER E MORALIDADE: O TOTALITARISMO E OUTRAS EXPERIÊNCIAS ANTILIBERAIS NA MODERNIDADE, de José Maurício de Carvalho (organizador). São Paulo: Annablume/Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), 232 págs., 2012, R$ 40,00. E-mail: dfime@ufsj.edu.br Site: annablume.com.br
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 (*) Texto publicado na Revista Estudos Filosóficos, do Departamento de Filosofias e Métodos da Universidade Federal de São João del Rei-MG, nº 9, 2012, p. 171-173.
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 Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br