Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 17 de maio de 2026

Portugal - Antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz presente na conferência promovida pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda

O antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz considera que a “Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade que Portugal desfrutava em Macau”, alertando para a necessidade de as autoridades portuguesas terem mais presença na RAEM


Foi na palestra “Oriente e Ocidente – o Mundo em 2026”, que decorreu na sexta-feira em Lisboa, que o antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz deixou um alerta para o crescente peso que a Espanha está a ganhar no relacionamento com a China e, consequentemente, com Macau.

“Em Macau e na ilha de Hengqin todas as associações e institutos que conheço tinham como objecto o comércio e relações económicas entre a China e países de língua portuguesa, e agora em todos foi acrescentado Espanha, ou países de língua espanhola”, referiu no evento promovido pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda (ANRS).

“Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade de que Portugal desfrutava em Macau”, acrescentou António Martins da Cruz, falando da mais recente visita oficial de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo da RAEM, a Portugal e Espanha.

“Desde Dezembro de 1999 que há uma tradição do Chefe do Executivo de Macau vir a Lisboa na primeira viagem que faz, mas, pela primeira vez, depois de Lisboa, foi a Madrid, onde até ficou mais umas horas do que tinha estado em Lisboa.”

À margem destas declarações, António Martins da Cruz disse ao HM que não acredita, porém, que haja uma grande mudança ou transição a curto prazo no relacionamento entre Macau e Portugal, com Espanha pelo meio. Mas o que é certo é que o país “passou a estar ao mesmo nível de Portugal sem nunca ter estado em Macau”, defendeu, referindo-se ao papel na administração do território e histórico que Portugal detém.

“Portanto, é uma coisa que pode afectar as empresas portuguesas”, frisou o responsável, que acredita que as autoridades de Macau, com este novo cenário, “estão contentíssimas, porque é mais um interlocutor”. No caso de Portugal, o que deve fazer para contornar esta questão é “intensificar as relações e aproveitar melhor Macau como plataforma, dando mais importância a Macau, e levando lá mais membros do Governo”.

António Martins da Cruz, que preside ao conselho de administração da OVIA – Oeiras Valley Investment Agency, tem sido, ele próprio, presença frequente na RAEM, declarando que vai novamente a Macau em Junho “com o secretário de Estado da Economia da Madeira”. “A Madeira interessa-se por Macau. Vou na qualidade de presidente da assembleia-geral da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira”, explicou.

Aproveitar a Grande Baía

António Martins da Cruz entende que “as empresas portuguesas devem aproveitar melhor a plataforma de Macau para o mercado da Grande Baía, que tem cerca de 80 milhões de habitantes e mais de 25 por cento do PIB [Produto Interno Bruto] chinês”, sendo “a zona mais rica da China”.

Porém, não deixou de destacar limitações no mercado interno de Macau. “Infelizmente, chegamos a Macau e nem há distribuidores de vinho e cerveja. E não há por uma razão: há 20 anos, os macaenses faziam isso e é preciso encontrar chineses que façam isso agora. Chegamos a Macau, e além do Banco Nacional Ultramarino e de dois ou três bancos, o que há? Três ou quatro empresas só. E temos de encontrar as nossas empresas e saber aproveitar as coisas, e daí partirmos para a Grande Baía.”

Não ouvir Bruxelas

Na sessão de sexta-feira não faltaram algumas farpas ao posicionamento que a União Europeia (UE) tem tido no relacionamento com a China, incluindo Portugal. “Esperemos que a UE ouça mais vezes as vozes do entendimento necessário e útil com a China ao invés de alguns que chegam, às vezes, de instituições de Bruxelas, para não dizer o nome do Parlamento Europeu, que por vezes dificultam o diálogo e acordos.”

António Martins da Cruz destacou que a “Europa tem, neste momento, outras preocupações e, sobretudo, uma indefinição total” em matéria de política externa. “A aproximação com a China passa por uma definição de políticas externas, mas não nos podemos esquecer do seguinte: temos 27 países na UE e, provavelmente, há seis ou sete que têm políticas externas. Os restantes têm políticas regionais”, destacou.

Martins da Cruz destacou “hesitações da Europa nas relações com a China”, relatando o exemplo de 2019, quando a UE, “por proposta da Comissão Europeia, aprovou uma posição estratégica, definido a China de três maneiras: um parceiro para a cooperação económica e negociação, um competidor económico e um rival sistémico”. “Ou seja, cabe quase tudo nesta indefinição propositada”, frisou, considerando que “continuaram as hesitações” em relação à China, sem se terem definido nunca “os riscos concretos” do relacionamento com o país.

Tal permite, na visão do antigo embaixador e ministro, “que cada um dos 27 Estados-membros definam, eles próprios, qual o conceito e critério de risco” neste relacionamento.

António Martins da Cruz entende que o caso da Huawei e da rede 5G, e o facto de ter merecido “diferente tratamento de diferentes países europeus é exemplo de que a Europa tem concepções diferentes de risco com a China”. “Até pensamos que algumas instituições em Bruxelas se esquecem que o comércio entre a UE e a China representa 29,6 por cento do comércio global e que a Europa importa da China 500 milhões de mercadorias por ano. Para termos uma ideia, o comércio entre a Europa e a China são 2 milhões por minuto. Se estivermos duas horas fechados nesta sala, o comércio entre a Europa e a China é de 240 milhões de euros. E há muitas capitais da Europa que têm tendência a esquecer isto.”

No contexto dos 27 países que fazem parte da UE, “Portugal tem todas as condições para ser o criador de dinâmicas positivas e aproveitando melhor a plataforma de Macau”, além de “facilitar investimentos chineses e reforçar as nossas linhas de comércio e de exportações para a China”.

O antigo embaixador lembrou ainda o facto de Portugal ter sido “um dos poucos países da UE que assinou com a China, na última visita do Presidente Xi Jinping, um memorando sobre a participação de Portugal na Nova Rota da Seda”.

Martins da Cruz realça estratégias de longo-prazo de Pequim

A conferência protagonizada por António Martins da Cruz aconteceu no mesmo dia em que terminou a visita à China do presidente norte-americano Donald Trump. O antigo embaixador defendeu que serão necessários “alguns dias ou semanas para ler os sinais dos resultados dessa visita”, devendo o relacionamento entre os Estados Unidos da América (EUA) e China ser analisado “sob os prismas estratégico, político e económico”. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”


quinta-feira, 26 de março de 2026

Moçambique - Governo quer ciência ao serviço do desenvolvimento dos países da CPLP

A primeira-ministra desafia os investigadores a desenvolverem pesquisas científicas viradas ao desenvolvimento económico, social e cultural do país. As declarações foram feitas, em Maputo, por Benvinda Levi, durante a abertura da conferência de Jovens Investigadores da CPLP.


Maputo acolhe, de 25 a 27 de Março, a quarta Conferência de Jovens Investigadores da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, um evento com o objectivo de promover o uso da ciência na governação.

Cristina Molares, presidente da Associação de Jovens Investigadores da CPLP, fala do evento como uma oportunidade para pôr a ciência a serviço do desenvolvimento.

“A ciência e a política muitas vezes encontram-se em tensão e conflito. No entanto, sem ciência não há desenvolvimento sustentável. É essencial compreender que todos partilhamos um objetivo comum. Ultrapassar as dificuldades crónicas e contribuir para uma África muito marcada de desgraças. Até agora usamos as políticas sem a ciência. Não está a dar certo. Devemos passar a pôr a ciência a nosso favor, mas desta vez, não a ciência importada”, defendeu.

A primeira-ministra, que esteve em representação do Presidente da República, desafiou os jovens investigadores a usarem a ciência para o desenvolvimento do país.

“Que as vossas pesquisas e investigações não se limitem apenas a relatórios académicos e teóricos, pois devem propor soluções práticas e concretas que contribuam para a melhoria da vida social e económica das comunidades, concorrendo, desta forma, para o desenvolvimento sustentável e inclusivo dos nossos países”, disse Benvinda Levi.

No domínio da inovação tecnológica, Levi deixou apelos aos pesquisadores.

“Hoje a inteligência artificial aparentemente resolve todos os problemas, mas é preciso também ver os desafios que ela nos coloca, os riscos que ela traz. Facilita-se a vida, mas não resolve tudo.”

O presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, reafirmou, por seu turno, a aposta da edilidade na valorização do conhecimento como motor de desenvolvimento.

Rasaque Manhique falava na abertura da IV Conferência de Jovens Investigadores da CPLP-ÁFRICA, um evento que decorre até sexta-feira, sob o lema “Diversidade cultural, inovação digital e saberes ancestrais: construindo futuros sustentáveis em África”.

Nos três dias da conferência, haverá apresentação de 60 trabalhos de jovens da CPLP, virados para as pesquisas para o desenvolvimento. Inalcídio Uamusse – Moçambique in “O País”


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Portugal - Defendida maior ligação entre Casa de Macau e Casa de Goa

Decorreu ontem em Lisboa a conferência “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que analisou o papel de ligação que as entidades podem ter na diáspora goesa e macaense. Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau, destaca a importância de criar pontes com a Casa de Goa pelo “paralelo de representatividade de luso-descendentes”


Que papel podem ter a Casa de Macau e a Casa de Goa, em Lisboa, tendo em conta o desfilar do tempo e os desenvolvimentos trazidos pelas novas gerações das comunidades macaense e goesa? É certo que Macau e Goa há muito deixaram de fazer parte do antigo império português, mas os laços socioculturais permanecem. A pensar nisso, decorreu ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a palestra “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que procurou traçar respostas para os desafios do futuro.

Ao HM, Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau em Lisboa, declarou que “seria interessante que as pontes entre a Casa de Macau e a Casa de Goa pudessem também ser equacionadas num paralelo da sua representatividade dos luso-descendentes e das culturas mestiçadas”, tendo em conta que as duas entidades “são pilares fundamentais para a representatividade dessas comunidades”.

O responsável, ele próprio macaense, destaca “as similitudes da sua gastronomia, crioulo e festividades” entre as duas comunidades. Seria, assim, “interessante aliar as pequenas representações dos gigantes do mundo asiático, representadas pela simbologia do Dragão e do Elefante, como elementos estruturantes para um diálogo entre Portugal e a Ásia, queiram as vontades políticas e institucionais”.

Na visão de Carlos Piteira, as duas casas “reforçam a herança legitimada do diálogo entre o Ocidente e o Oriente, e as relações seculares de Portugal com estes países, muitas vezes ignorada e esquecida pelos poderes oficiais e institucionais”.

Já Pedro Colaço, da direcção da Casa de Goa, destaca a importância de preservar a memória da presença portuguesa tanto em Goa como nos restantes territórios de Damão e Diu. “Foram 450 anos de história, no caso de Macau foram mais umas décadas, e procuramos acompanhar a actual cultura goesa. Uma das partes mais importantes do nosso trabalho é fazer uma ponte entre Goa e Lisboa, e diariamente contactamos com artistas, músicos e membros da comunidade, é esse o nosso papel”, descreveu ao HM. Pedro Colaço deu o exemplo do concerto que vai decorrer a 8 de Março na Fundação Oriente, em Lisboa, intitulado “Oscar Castellino – Voz de Ópera de Goa e Piano com Rodrigo Ayala”.

De resto, a Casa de Goa, actualmente sem sede própria, procura, tal como a Casa de Macau, atrair novos sócios, sobretudo das novas gerações, a fim de dar continuidade ao projecto, para que a Casa se mantenha “como um polo de união dos goeses e, cada vez mais, dos amigos de Goa”.

Acompanhar a história

A Casa de Macau foi fundada em Lisboa em 1966 e tem acompanhado diversas fases não só da história de Portugal como do relacionamento do país com Macau e a China.

“A existência da Casa de Macau marca, sem dúvida, um paralelo com a própria história de Portugal por mais de 70 anos. Macau foi a ‘pérola do Oriente’ para o Estado Novo e viveu as turbulências do período revolucionário de Abril 1974, adaptando-se e consagrando-se como a ‘ponte entre o Ocidente e Oriente'”. Por fim, depois da transição para a República Popular da China, tem-se assistido à reorganização [de Macau] como território central na ligação, a partir da China, com os países da língua portuguesa.”

Carlos Piteira descreveu ainda que a Casa de Macau tem acompanhado “a história dos tempos, alargando a visão da presença portuguesa neste território”. Além disso, teve uma tarefa “não menos importante”, por ter “cristalizado, protegido e perpetuado a comunidade macaense em Portugal e no mundo”.

Actualmente, a Casa de Macau tem desenvolvido diversas actividades que levam mais sócios à Avenida Gago Coutinho, onde está situada, e cujo edifício foi recentemente alvo de obras de restauro. Todas as quartas-feiras há almoços de comida macaense com a Chef Tina, natural de Macau, decorrendo também sessões de cinema e palestras.

A missão da Casa é, actualmente, “realizar actividades de divulgação de Macau e da cultura macaense”, dando-se “apoio e dinamização de estudos e trabalhos de teor científico sobre Macau, macaenses” e fazendo-se também a “interligação institucional com as demais entidades ligadas a Macau, Portugal e Casas de Macau na diáspora”.

Quem é de Goa e quem não é

Pedro Colaço explicou que a comunidade goesa em Lisboa “tem mais facilidade em falar com a restante diáspora indiana” em Portugal, tendo em conta que, por exemplo, “a ligação é muito antiga” com a comunidade hindu.

“Temos pena que às vezes não se fale mais [da comunidade], ao nível dos meios de comunicação, porque é uma parte importante da história portuguesa”, lamenta o responsável, lembrando figuras bem destacadas no país, como António Costa, que foi primeiro-ministro português, ou Narana Coissoró, antigo presidente da Casa de Goa e ex-deputado do CDS-PP. “Há figuras mais notórias, mas no geral a comunidade goesa inseriu-se muito bem e é conhecida por ser uma comunidade bastante instruída”, lembrou ainda, lamentando que em Portugal não se consiga fazer uma distinção entre comunidades de origem indiana.

“Uma coisa que é preocupante é o desconhecimento que existe em relação às comunidades. Hoje em dia há uma grande pressão devido à imigração e depois mistura-se tudo”, destaca Pedro Colaço, lembrando que há um sentimento forte em ser-se goês, nomeadamente na ligação ao catolicismo e a uma cultura muito própria por oposição a comunidades do Indostão que, actualmente, estão muito presentes em Portugal.

“A comunidade goesa é tão miscigenada que metade da minha família, ou mais, não aparenta ser goesa, mas eu, por acaso, aparento. Há um sentimento de ser goês, algo que nos une. As outras comunidades da diáspora indiana são, muitas vezes, confessionais, têm uma religião associada, enquanto a comunidade goesa é, na sua maioria, católica, mas cada um vai à sua igreja, está muito espalhada”, apontou.

O futuro é um desafio

Pedro Colaço fala num “futuro desafiante” para a Casa de Goa. “Estou agora no segundo mandato, a direcção mudou de presidente, e uma das coisas que se tem tentado fazer é trazer jovens para os órgãos sociais. Agora temos três ou quatro membros mais novos, abaixo dos 40 anos. Também temos tentado alargar a Casa a não goeses.”

Neste ponto, há semelhanças com a Casa de Macau, que também tem procurado alargar o leque de sócios a chineses ou portugueses que não pertençam à comunidade. Pedro Colaço adianta que, com o passar dos anos, as coisas mudaram.

“Há 30 anos a comunidade era muito grande, mas neste momento, e tal como todas as instituições, temos de nos alargar. Há muitas pessoas que gostam muito de Goa e que sabem muito do território, talvez até mais do que eu, e são esses que têm de ser puxados”, assumiu.

Actualmente, a Casa de Goa tem 500 associados e, mesmo sem sede, procura fazer actividades, nomeadamente em parceria com a Fundação Oriente. É publicado um boletim mensal. Deixaram de ter sede devido às obras do metro em Lisboa, o que tem dificultado a agenda da Casa.

“Estamos no processo de arranjar uma nova sede, e é algo que tem constituído um constrangimento, mas procuramos fazer o máximo de actividades possível e, mensalmente, temos sempre actividades”, rematou Pedro Colaço. Andreia Silva – Portugal in “Hoje Macau”


segunda-feira, 30 de junho de 2025

Ásia - Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas dá luz verde a criação de Associação das Comunidades Luso-Asiáticas

As comunidades asiáticas com raízes portuguesas encontraram-se em Díli para recordar o passado e projetar o futuro. Um futuro que contará com a Associação das Comunidades Luso-Asiáticas – APCA, que recebeu luz verde com a assinatura da Declaração de Díli



A 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC, em inglês), em Díli, sob o tema ‘Unidos na Diversidade – Desafios e Oportunidades de um Legado Secular’, terminou com a assinatura da Declaração de Díli – Criação da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas – APCA, uma rede de pessoas e comunidades, em que a partilha e a diversidade servem um objetivo comum.

O evento de três dias, de 27 a 29 de junho, teve início na sexta-feira e foi projetado para ser um espaço de partilha e de preservação da língua, da história e da cultura de países asiáticos com rastos portugueses.

A APCC reúne comunidades de oito países – Malásia, Myanmar, Sri Lanka, Tailândia, Índia, Indonésia, China e Timor-Leste. A primeira conferência foi em 2016, em Malaca, na Malásia. O objetivo foi claro desde o início: estabelecer valores históricos, despertar as pessoas para o peso da herança cultural lusófona e iniciar uma cooperação económica entre comunidades.

Criar a associação, como explicou o presidente da República Democrática de Timor-Leste, José Ramos-Horta, é uma forma de reconhecer o valor de comunidades luso-asiáticas, geralmente ignoradas e desvalorizadas, e dar voz a possíveis diálogos com governos e instituições internacionais.

“É uma promessa e um compromisso de preservar, registar e capacitar. Apoiará [a associação] a investigação, a educação e a sustentabilidade económica. Ajudará a proteger as histórias e identidades de pessoas cujas culturas são mistas, complexas e orgulhosas”, salientou.

Acrescentou que a associação visa honrar o passado e projetar o futuro a partir de um legado comum. “Isso inclui documentar histórias orais, apoiar festivais culturais e fortalecer o desenvolvimento liderado pela comunidade.”

João Paulo Oliveira e Costa, professor da Universidade Nova de Lisboa, observou que cada comunidade apresenta uma realidade diferente: algumas são isoladas, outras são muito fortes e numerosas e algumas estão bem implantadas no seu território, como é o caso das Flores.

Mesmo que nem todos falem português, para o professor, a cultura é aquilo que une as comunidades na conferência, e aí há sempre aspetos em comum. “Há um conjunto de traços culturais, desde a culinária ao folclore, além de histórias semelhantes”, salientou, referindo também o cristianismo como um elemento que serviu para a consolidação e resistência destas comunidades em meios onde a maior parte das pessoas não é católica.

“A língua portuguesa não é praticada da mesma maneira em todos os grupos. De qualquer forma, é uma memória também e, em muitas comunidades, ainda faz parte do dia-a-dia, já que é fácil encontrar pessoas que falam fluentemente português em Goa ou aqui em Timor. No Sri Lanka, já não é bem assim”.

União na diversidade

Earl Barthelot, presidente do Grupo “Burgher Folks”, de Batticaloa, no Sri Lanka, falou no português crioulo, a versão antiga do português, que foi sofrendo alterações ao longo dos tempos. “Quando os portugueses conquistaram o Sri Lanka, não trouxeram mulheres de Portugal, casaram-se com locais e fizeram negócios, levando coisas do Sri Lanka para Portugal, através de Goa, na vizinha Índia”

A língua que era utilizada nos negócios foi sofrendo alterações, estruturais e gramáticas, até pelo contacto com as duas línguas principais do Sri Lanka: o cingalês e o tâmil. O português crioulo não é usado todos os dias, mas as pessoas conseguem dizer, por exemplo: ‘estou a tomar café’ – ‘eu avora teat boe”.

A descendência portuguesa no Sri Lanka é muito pequena e não há um número exato de pessoas. O chefe do grupo calcula que existam sete mil pessoas no seu distrito. Muitas delas mantêm-se em contacto através de eventos sociais, familiares ou na igreja.

Em Malaca, a história é diferente. Marina Linda Danker, dona do grupo cultural português de Malaca – DomMarina –, contou que são descendentes dos portugueses de 1511 e conservam a língua portuguesa de Malaca, dos séculos XVI e XVII.

Sem livros e limitados ao uso do inglês e do malaio na escola, conseguiram manter a língua portuguesa, praticando todos os dias em casa com os familiares. A proximidade das 118 famílias, na mesma localidade, também ajuda nessa comunicação em língua portuguesa. Quando cumprimentam alguém, dizem algo como, ‘que sorte, tá bom?’, equivalente a ‘estás bem?’; quando oferecem comida, ‘bem, comi’; ou convidam alguém para dançar, dizendo ‘bem juntado, bem nos balar’; ‘onde tu vai?’, quando perguntam a alguém para onde vai. Além disso, dizem ‘boa tarde, bom meio-dia, boa noite’ e ‘muito agradecida’. O português, curiosamente, acaba por ser uma língua secreta, falada entre os membros da comunidade naquela região.

“Vivemos numa aldeia onde todos são portugueses e católicos romanos. Praticamos todas as nossas tradições, incluindo as que estão ligadas à religião. Os números, um, dois, três, e até alimentos e temperos dizemos em português: cebola, gengibre”, explicou, acrescentando que há outras comunidades que podem já não falar português por viverem isoladas e não conseguirem usar a língua todos os dias.

Marina Danker mostrou-se feliz por participar na conferência. “Queremos unir o nosso povo para aprender a língua e a cultura. Queremos saber o que os outros têm de igual e quais são as diferenças. Portugal dominou Malaca por 130 anos e mantém-se a influência na cultura”, exemplificou.

O grupo DomMarina faz viver a cultura através das roupas tradicionais, da comida, de conversas, de exposições e de festivais anuais.

A comunidade em Jacarta, na Indonésia, já não fala português, uma vez que o Papia Tugu, a língua crioula falada pelos portugueses nos arredores de Jacarta, é considerada extinta. “O português crioulo que temos não é o português moderno, nem autêntico. Chama-se Papia Tugu”, explicou Guido Quiko, líder comunitário na aldeia portuguesa de Tugu e do grupo musical Tugu Keroncong. É o grupo musical que acaba por manter o legado do Papia Tugu, através de canções escritas naquele crioulo português-javanês.

Em Jacarta, dizem ‘yo kere bebe’ (eu quero beber) e ‘yo kere pasa’ (quero dar uma volta). Como não usam a língua todos os dias e por falta de vocabulário, os resquícios da língua portuguesa foram desaparecendo, misturando-se com línguas das regiões da Indonésia, desde meados do século XVIII.

“Temos apenas algumas canções compostas pelos nossos pais: Kaprinyo, Gatumatu, Yankagaleti e Meninabobo. Estas são as que ainda cantamos com frequência. Mas o nosso conhecimento da língua não é suficiente para manter uma conversa”. As canções – Kaprinyo, Gatumatu, Yankagaleti e Meninabobo – foram tocadas ao longo da conferência em Díli.

A comunidade foi formada por cerca de 800 pessoas de descendência portuguesa em Malaca, que foram capturadas pelos holandeses em 1641 e, dois anos depois, exiladas em Batávia (nome dado pelos holandeses à atual cidade de Jacarta), numa aldeia que se passou a chamar Tugu, cujo nome é retirado da palavra ‘português’.

“Em Batávia, em 1661, os holandeses impunham duas condições a quem quisesse viver na região: converter-se ao catolicismo ou ao protestantismo e substituir os apelidos portugueses por apelidos holandeses”, contou Guido Quiko.

Os 23 chefes de família concordaram e permaneceram no sudeste de Batávia, agora Kampung Tugu, acabando por casar com outros clãs daquela região. Existem seis clãs no local: Andris, Cornelis, Mihils, Abraham, Brone e Quiko. O último é o único clã de origem portuguesa, o resto é da Holanda.

A música Keroncong surgiu pela falta de divertimento naquele local, já que viviam isolados. Para ter entretenimento, tinham de caminhar 23 km, desde a vila Tugu, até à cidade de Atuwa.

Criaram um instrumento musical, de cordas, com a forma de um cavaquinho, que ficou conhecido como ‘macina’. “Tem o formato de uma pequena viola e, quando tocado, emite um som metálico ‘chong chong’ [tenta reproduzir o som], então chamaram-lhe keroncong”. Foi assim que surgiu a música keroncong na Indonésia, com a qual a comunidade se divertia depois do trabalho, ou durante o dia, a pescar ou a caçar.

Quando os holandeses ouviram que havia eventos musicais naquela aldeia isolada, foram lá, juntaram as pessoas, e levaram instrumentos musicais europeus. Mais tarde, foi instituída uma Orquestra em 1925: ‘Orkes Pusaka Keroncong Moresko Tugu’, que agora se chama Tugu Keroncong.

A comunidade luso-asiática em Jacarta não recebe apoio ou atenção por parte do Governo, pois são uma minoria, sem grande expressão num país/arquipélago tão grande como a Indonésia. Nesse sentido, nem as línguas crioulas, como o português, são reconhecidas. Guido Quiko não fala português crioulo, mas conta que o seu falecido avô falava um pouco.

Além da língua, há tradições culturais: a tradição de Rabu-Rabu (tradução literal de quartas-feiras) e a tradição de Mandi-Mandi (banhos). A Rabu-Rabu é celebrada a 1 de janeiro – os músicos tocam música pelas ruas da aldeia de Tugu para desejar um ‘Feliz Ano Novo’. A Mandi-Mandi acontece no primeiro domingo de janeiro e é o dia que as pessoas pedem desculpas umas às outras, ao som de músicas de keroncong. A música é reconhecida como património cultural imaterial da Indonésia.

Timor-Leste como ponto de encontro

A 4.ª Conferência da APCC serviu ainda para destacar o papel de Timor-Leste como a única nação asiática que tem o português como língua oficial. O facto de ser membro da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), de estar associado aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de estar já com um pé na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ainda dá mais peso ao papel de Timor-Leste na região.

Ter português como língua oficial faz de Timor-Leste “um farol para todas as comunidades de língua portuguesa que existem na Ásia”, além de ser uma marca de distinção que reforça a individualidade do povo timorense, segundo o professor João Paulo Oliveira e Costa.

O professor destacou ainda a importância de Timor-Leste como ponto de ligação entre as comunidades luso-asiáticas, por ser o único Estado de língua oficial portuguesa da Ásia. “Aquilo que temos todos em comum é partilharmos um passado e aspirarmos a um presente em que podemos estar juntos e apoiarmo-nos mutuamente.” Antónia Martins – Timor-Leste in Diligente


Ásia - Marca deixada pelos portugueses “não foi apagada”, diz Ramos-Horta

O Presidente de Timor-Leste considera que a marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada e que as comunidades luso-asiáticas espalhadas pela região são a “prova viva desta verdade incontornável”. O chefe de Estado falava na sessão de abertura da quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, que terminou ontem


O Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, afirmou que a marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada e que as comunidades luso-asiáticas espalhadas pela região são a “prova viva desta verdade incontornável”.

“A marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada pelo tempo. As nossas comunidades são a prova viva desta verdade incontornável. O resultado é algo que perdura: o nascimento de comunidades simultaneamente europeias e asiáticas”, disse José Ramos-Horta.

O chefe de Estado falava na sessão de abertura da quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, que terminou ontem, com a participação de comunidades do Sri Lanka, Malaca (Malásia), Myanmar, Macau, Tailândia, Goa (Índia) e das Flores e Jacarta (Indonésia).

De acordo com Ramos-Horta, aquelas comunidades não estão apenas “ligadas a Portugal”, mas também umas às outras, porque os “portugueses administraram os seus territórios asiáticos com um sentido de interligação”. “Laços culturais, administrativos e religiosos uniam Goa e Malaca, Flores e Sri Lanka. Durante um período, Timor chegou a ser administrado pelo Governador de Macau”, disse, explicando que a igreja também teve um papel central naquela ligação. A igreja, segundo o Presidente, trouxe a fé, mas também a “educação formal, escrita e disciplina espiritual”.

Lembrando que as comunidades descendentes de portugueses na Ásia são “frequentemente invisíveis nas narrativas nacionais” e “esquecidas pelos manuais escolares”, o Presidente salientou a importância de se juntarem para lembrar, mas [também] para reinventar”.

“Esta conferência dá-vos espaço para reflectir sobre o passado”, mas também, continuou o chefe de Estado, para uma “oportunidade de moldar o próximo capítulo da história”, que será discutido com a proposta da Declaração de Díli, que foi aprovada este domingo, e com a criação da Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia. “Esta associação será mais do que uma rede de pessoas e comunidades. É uma promessa e um compromisso: preservar, registar e capacitar. Reconhecer o valor das comunidades muitas vezes marginalizadas ou esquecidas”, disse José Ramos-Horta.

Segundo o Presidente, a Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia dará voz às comunidades lusófonas com governos e instituições internacionais, apoiará a investigação e a sustentabilidade económica, mas também ajudará a proteger as histórias e identidades dos povos.

Numa mensagem, lida pela embaixadora portuguesa em Díli, Manuela Bairos, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, manifestou o apoio do Governo português aos objetivos da conferência, a disponibilidade para acolher um encontro em Portugal, bem como “acompanhar os esforços de institucionalização do projecto que a conferência de Díli se propõe a promover”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


sexta-feira, 27 de junho de 2025

UCCLA - Conferência “Espaços de Integração Política e Migrações” na Câmara de Lisboa

No âmbito do Ciclo de Conferências “Desafios Atuais da Imigração Lusófona: Portugal e União Europeia”, vai ter lugar no dia 3 de julho, às 14h30, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho de Lisboa, a última conferência subordinada ao tema “Espaços de Integração Política e Migrações: EU e CPLP”.


Esta conferência - moderada pela Professora Doutora Isabel Estrada Carvalhais, Universidade do Minho - contará com as intervenções de:

- Dra. Sónia Almada (AIMA - Agência para a Integração, Migrações e Asilo);

- Dr. Paulo Mendes (Fundador da unOffice e da Associação de Imigrantes dos Açores);

- Dr. Hugo Seabra (Fundação Calouste Gulbenkian);

- Professora Doutora Emellin de Oliveira (CEDIS, NOVA School of Law);

- Dra. Princesa Peixoto (UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa).

O encerramento do Ciclo de Conferências terá as intervenções de:

- Professor Doutor João Peixoto (Vice-Reitor da Universidade de Lisboa);

- Dr. Luís Álvaro Campos Ferreira (Secretário-Geral da UCCLA);

- Eng. Carlos Moedas (Presidente da Câmara Municipal de Lisboa).

Estas conferências, organizadas pela Universidade de Lisboa e pela UCCLA, pretendem ser um espaço de diálogo e partilha de experiências, promovendo uma reflexão crítica sobre as dinâmicas da imigração no espaço lusófono.

A entrada é livre.

Morada:

Câmara Municipal de Lisboa

Paços do Concelho

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Timor-Leste acolhe 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas em Díli

De 27 a 29 de junho de 2025, Timor-Leste vai acolher a 4.ª edição da Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC), no Centro Convenções de Díli, na capital, Díli. Este importante evento cultural regional celebra o legado duradouro da herança portuguesa em toda a Ásia.



A conferência bienal, com duração de três dias, é organizada pelo IX Governo Constitucional de Timor-Leste, em parceria com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O tema da 4.ª Conferência da APCC em 2025 é “Unidos na Diversidade: Desafios e Oportunidades de um Legado Secular”.

O Primeiro-Ministro, Kay Rala Xanana Gusmão, dará as boas-vindas a Timor-Leste aos grupos que representam a Comunidade Portuguesa de Malaca (Malásia), os Burghers Portugueses de Batticaloa (Sri Lanka), os Bayingyis do Vale Mu (Mianmar), as Paróquias de Conceição, Sta. Cruz e Nossa Senhora do Rosário (Tailândia), Macau (China), Goa (Índia), os Tugu Mardijkers de Jacarta e os Larantuqueiros/Topasses da ilha das Flores (Indonésia). Esta conferência reunirá também académicos, investigadores, líderes culturais, artistas e dignitários do mundo lusófono para partilhar os resultados dos seus estudos e diversas experiências.

A APCC foi originalmente fundada em Malaca, na Malásia, em 2016, com o objetivo de reunir comunidades que mantêm a sua herança portuguesa e laços culturais em toda a região asiática. Timor-Leste foi representado pelo então Ministro do Planeamento e Investimento Estratégico, Xanana Gusmão, que participou como convidado de honra e aproveitou a oportunidade para desafiar os organizadores a considerarem a possibilidade de acolher uma futura edição do APCC em Díli.

O programa de três dias da 4.ª Conferência APCC inclui palestras, mesas redondas, exposições culturais, apresentações académicas e apresentações culinárias e culturais.

Um marco importante da conferência será a assinatura da Declaração de Dili, que formaliza a criação da Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia (APCA), uma nova plataforma regional dedicada à cooperação cultural, preservação do património e partilha de conhecimento.

Este importante encontro de diversos grupos com uma história comum reafirma o compromisso de Timor-Leste, enquanto único país de língua portuguesa na Ásia, em preservar as ligações a um património cultural que pode fortalecer os laços entre as nações asiáticas e as nações de língua portuguesa.

A primeira Conferência da APCC, realizada em Malaca em 2016, teve como objetivo estreitar laços, promover a língua e a cultura portuguesas e incentivar a colaboração duradoura entre as comunidades de ascendência portuguesa na Ásia. Este evento marcante reuniu delegados de países como a Austrália, a China e Timor-Leste.

O programa completo da 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC) pode ser consultado aqui. Governo de Timor-Leste


segunda-feira, 23 de junho de 2025

Angola - Especialistas analisam diversidade do português e das línguas nacionais

Os linguistas Miguel Lubuato e Peres Sassuco, bem como os académicos Reinaldo Tomás e Khilson Khalunga analisaram, na quinta-feira, em Luanda, a diversidade linguística angolana falada por diferentes etnias, com grande importância cultural e histórica para o país


Os especialistas abordaram diversas temáticas durante a conferência sobre as “Línguas Angolanas”, realizada no auditório da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Jean Piaget.

O linguista Miguel Lubuato abordou o tema “O kimbundu e os 50 anos da Independência de Angola: avanços e retrocessos”. Durante a dissertação, o especialista explicou que, actualmente, o kimbundu é falado por cerca de três a quatro milhões de pessoas.

O académico referiu que se existe a pretensão de ter um país inclusivo e com um maior número de falantes das diversas línguas Bantu, é necessário que as políticas públicas sejam abrangentes e consistentes a fim de as línguas nacionais não desaparecerem como forma de preservar a identidade cultural de um povo.

Se o país não tiver políticas públicas abrangentes e consistentes, alertou o especialista, não só o kimbundu, como também as demais línguas correm o risco de extinção.

A literatura, explicou, é uma das áreas da ciência que permite a renovação das línguas angolanas, mas existe pouca produção. Porém, referiu, é necessária uma maior produção literária, porque quando se faz o uso dos idiomas nas artes, há renovação das palavras.

O kimbundu, disse, actualmente, é reconhecido institucionalmente como uma língua nacional, e surgiram várias iniciativas para a padronização e documentação do idioma, mas houve uma limitação a estes avanços.

“Estes avanços foram limitados por retrocessos estruturais e sociais por causa da centralização do português como língua de ensino. O kimbudu, apesar da sua importância cultural, permanece em desvantagem”, enfatizou.

Miguel Lubuato aplaudiu a iniciativa do Tribunal Constitucional em traduzir a Constituição da República em oito línguas nacionais e, de igual modo, os órgãos de Comunicação Social, como a Televisão Pública de Angola (TPA) e a Rádio Nacional de Angola (RNA) que transmitem programas em línguas nacionais.

O linguista e professor Peres Sassuco dissertou sobre o “Sistema de Classe e Prefixos Nominais em bantu: uma abordagem morfológica do cokwe”, ao passo que o académico Khilson Khalunga analisou a questão “Sistema de Classe e Prefixos Nominais do Dialecto Kiphala: uma abordagem morfológica”, moderados por Leonilde António.

O professor Reinaldo Tomás dissertou sobre a “Multifuncionalidade dos Morfemas Prefixados no Léxico das Línguas Angolanas”.

Valorização e preservação

O coordenador do Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litteragris, Hélder Simbad, explicou que o encontro serviu para analisar o panorama das línguas angolanas, valorização e preservação. “A língua portuguesa não ajuda a solucionar todos os nossos problemas, mas, também, não pensamos em banir o português, simplesmente pretendemos dar outro estatuto aos diferentes idiomas que temos em Angola”, clarificou.

Hélder Simbad disse que a União dos Escritores Angolanos (UEA), a Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto e a Universidade Jean Piaget se juntam a esta iniciativa do Litteragris. Armindo Canda – Angola in “Jornal de Angola”


quarta-feira, 11 de junho de 2025

UCCLA - Conferência "O Estado e a Conflitualidade Violenta em África"

Vai ter lugar, no dia 16 de junho, entre as 11 e as 13 horas, a conferência sobre "O Estado e a Conflitualidade Violenta em África", no auditório da UCCLA.


A sessão - coorganizada pelo Clube de Lisboa e pela UCCLA - contará com a intervenção do consultor para as questões de paz e segurança, João Bernardo Honwana, e moderação do especialista em assuntos africanos, Fernando Jorge Cardoso.

A conferência terá transmissão, em direto, no Facebook da UCCLA :

https://www.facebook.com/UniaodasCidadesCapitaisLinguaPortuguesa/

A entrada é livre

João Bernardo Honwana

É consultor independente para questões de paz e segurança. Nas Nações Unidas foi representante do Secretário-geral das Nações Unidas na Guiné-Bissau, diretor das Divisões África 1 e África 2 no Departamento para Assuntos Políticos, enviado do Secretário-Geral para Madagáscar e para o Malawi e Chefe da Missão das Nações Unidas no Mali. Honwana foi distinguido com a Cátedra Sérgio Vieira de Mello na Escola de Diplomacia e Relações Internacionais da Universidade de Seton Hall e é Conselheiro Sénior em Mediação do Kroc Institute for International Peace na Universidade de Notre Dâme nos Estados Unidos. Antes de se juntar às Nações Unidas, João Honwana foi Comandante da Força Aérea de Moçambique e das Tropas de Defesa Antiaérea depois de ter sido formado como piloto de caças e caças bombardeiros na antiga União Soviética. Honwana é graduado do Royal College of Defence Studies (Reino Unido) e possui um Mestrado em Estudos Estratégicos do King’s College, Universidade de Londres.


segunda-feira, 2 de junho de 2025

UCCLA - Conferência “Desafios do Emprego”

No âmbito do Ciclo de Conferências “Desafios Atuais da Imigração Lusófona: Portugal e União Europeia”, vai ter lugar, no dia 11 de junho, às 14h30, no auditório da UCCLA, a conferência surdinada ao tema “Desafios do Emprego”.


Esta conferência - moderada pelo Professor Doutor Pedro Gois, da Universidade de Coimbra - contará com as intervenções de:

- Professor Doutor Bernardo Sousa (Garantia Jovem);

- Professora Doutora Cátia Batista (Nova SBE);

- Dra. Ana Paula Costa (Casa do Brasil);

- Dra. Mariana Hancock (CEPAC - Centro Padre Alves Correia).

Estas conferências, organizadas pela Universidade de Lisboa e pela UCCLA, pretendem ser um espaço de diálogo e partilha de experiências, promovendo uma reflexão crítica sobre as dinâmicas da imigração no espaço lusófono.

A entrada é livre.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Portugal - Universidade de Coimbra promove conferência sobre o Espaço

O Observatório Geofísico e Astronómico (OGA) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) vai dinamizar, em colaboração com Space Generation Advisory Council (SGAC), uma conferência sobre o Espaço, no próximo dia 17 de maio, no Convento de S. Francisco, em Coimbra.


  

A SGAC é uma organização internacional sem fins lucrativos ligada às Nações Unidas que reúne estudantes e jovens profissionais do setor espacial há 25 anos. Com presença em mais de 160 países, a SGAC promove o desenvolvimento da próxima geração de líderes da indústria através de eventos globais que estimulam a inovação, o networking e a colaboração entre os diversos intervenientes do setor.

Pela primeira vez em Portugal, o SGAC vai promover um encontro interativo que promete ser uma oportunidade única para explorar os desafios e as oportunidades da indústria espacial, através de palestras inspiradoras, discussões envolventes e workshops práticos. Este evento visa destacar o setor espacial português, com foco nos principais atores da indústria nacional e proporcionar aos estudantes e jovens profissionais oportunidades de networking e contacto direto com o universo do SGAC. 

Além disso, esta iniciativa pretende, ainda, estimular o debate, a partilha de ideias e o desenvolvimento de competências relacionadas com o setor, através de um programa que relaciona o Espaço com todas as áreas de estudo e inclui palestras motivadoras conduzidas por especialistas do setor espacial, como Nuno Peixinho e Ricardo Gafeira, investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço de Coimbra. 

Esta é uma oportunidade imperdível para todos os que desejam contribuir para o futuro da indústria espacial, em Portugal e além-fronteiras. Mais informações e inscrições aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


sábado, 23 de novembro de 2024

“A língua portuguesa está a ser duramente atacada na sua própria pátria”

“Pacemaker” ou “marca passo”? “Sponsor” ou “patrocinador”? A inserção de vocábulos de origem estrangeira na língua portuguesa divide opiniões e foi precisamente sobre esta temática que Jorge Madeira Mendes, antigo tradutor da Comissão Europeia, se debruçou durante a sua intervenção na conferência Portugal+ Londres, organizada pelo Bom Dia

Atualmente a residir em Portugal mas com muitos anos de emigração repartidos entre Moçambique, Luxemburgo ou Bélgica, Madeira Mendes sempre se assumiu como um defensor da língua portuguesa e aproveitou a experiência de uma vida inteira dedicada à tradução para deixar um alerta: “A língua portuguesa está a ser duramente atacada na sua própria pátria”.

Para sustentar o ponto de vista que norteou a intervenção designada de “A língua portuguesa na diáspora”, Jorge Madeira Mendes argumentou que “hoje, talvez por contágio da globalização ou snobismo, o português importa muitos termos, sobretudo de língua inglesa”.

Na ótica do antigo tradutor da Comissão Europeia, “o português é uma língua com personalidade”, pelo que “não precisa de importar muitos termos”. “Mas isto não é uma crítica, sobretudo à língua inglesa”, esclareceu. “Acho que a língua inglesa, do Reino Unido, é a língua mais bonita do mundo. Eu gosto do inglês e o que digo aqui é sem desprimor. O problema está no português”, frisou.

Presença habitual nas escolas portuguesas, Madeira Mendes diz ser frequentemente questionado pelos mais jovens sobre que língua externa se deve aprender primeiro. A sua resposta é perentória: “Digo sempre que é importante aprender inglês e espanhol, mas para mim é ainda mais importante que aprendam uma outra, o português, que é uma língua muito mal aprendida”.

Para o orador, “uma língua é um organismo vivo” e deve evoluir, não adiantando, por isso, “remar contra a maré”. Trata-se também “de uma forma de identidade”, pelo que “se a tendência geral da humanidade fosse falar a mesma língua, há muitos milénios que já o estava a fazer”.

No caso da língua portuguesa, “é preciso fazer um esforço para mantermos a nossa identidade”. Sei que é difícil “arranjar um substituto para ‘software’, mas o mesmo já não acontece com ‘sponsor’, por exemplo. Há que fazer este pequeno esforço”. “No Brasil, por exemplo, utiliza-se o termo ‘marca passo’ e em Portugal prefere-se o ‘pacemaker’. E eu pergunto: qual o termo que faz mais sentido? Nem toda a gente fala inglês, portanto é legítimo não saber o que é um ‘pacemarker’. Agora, se falarmos em ‘marca passo’, é lógico, é um termo facilmente compreendido. Isto é apenas um exemplo de como muitas das vezes os donos da língua fazem pouco para a defender”, rematou. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Emirados Árabes Unidos – Universidade de Coimbra organiza fórum em Abu Dhabi sobre o papel da robótica no futuro da qualidade de vida das pessoas

O Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) da Universidade de Coimbra integra a organização do fórum “Robots for a Better Tomorrow: Wellbeing Through Advanced Technology”, inserido na “International Conference on Intelligent Robots and Systems (IROS 2024)”, a decorrer em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, até sexta-feira, dia 18 de outubro.


Paulo Menezes, professor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC) e investigador no ISR, além de membro da organização, vai também moderar este fórum sobre o papel da robótica na qualidade de vida.

A IROS é uma das maiores e mais importantes conferências de investigação em robótica do mundo, atraindo investigadores, académicos e profissionais da indústria de todo o mundo. Fundada em 1988, a IROS fornece uma plataforma para a comunidade internacional de robótica trocar conhecimentos e ideias sobre os últimos avanços nesta área.

“Robótica para o Desenvolvimento Sustentável” é o tema da edição deste ano, que se foca em destacar o papel da robótica na consecução de metas de sustentabilidade. A IROS 2024 conta com mais de 4 mil inscritos e um conjunto distinto de oradores em áreas que vão desde a robótica humanoide, à ética, passando pela utilização da robótica na medicina.

Esta conferência tem como objetivo destacar investigadores emergentes e profissionais, que apresentam as suas contribuições para o desenvolvimento sustentável através de palestras plenárias, workshops, sessões técnicas, competições e fóruns interativos.

Para mais informações consultar o sítio da IROS 2024. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 18 de abril de 2024

Brasil - Aposta na “diplomacia indígena” para a COP30

Em entrevista para a ONU News, a ministra dos Povos Indígenas destaca a preparação de jovens lideranças para incidência direta com negociadores. Defendeu a inclusão da demarcação de territórios no acordo final da conferência e disse que esse é um passo indispensável para que o Brasil cumpra compromissos climáticos


Como país anfitrião, o Brasil está a atuar para que a Cúpula do Clima da ONU de 2025, a COP30, tenha a “maior e melhor participação indígena”. A declaração foi feita pela ministra dos Povos Indígenas, durante a sua participação no Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, em Nova Iorque.

Sonia Guajajara afirmou que, do ponto de vista dos povos tradicionais, o resultado mais importante da COP30 seria o “reconhecimento formal” da importância do conhecimento e dos territórios indígenas na resposta aos desafios do clima.

Demarcação de terras

“O Ministério dos Povos Indígenas está com essa iniciativa de formação de jovens indígenas e é o que nós estamos chamando de diplomatas indígenas, para que possam fazer uma incidência direta com os negociadores no momento ali da tomada de decisões. Acho que é muito importante essa orientação, esse olhar dos povos indígenas. Estamos pautando que as demarcações de territórios possam fazer parte também dos acordos dos textos oficiais, como parte dessa solução para a crise climática”.

Sonia Guajajara disse que é preciso incluir “a regularização fundiária dos territórios indígenas” como parte das medidas dos Compromissos Nacionalmente Determinados apresentados pelo Brasil para cumprir o Acordo do Clima de Paris.

“O alcance dessa meta não será possível se não incluir a demarcação das terras indígenas. É uma conta que já está dada, que já está feita. E como o Brasil tem um passivo muito grande de territórios ainda a serem reconhecidos, nós estamos com esse planeamento de avançar com a demarcação das terras indígenas para o alcance da meta de redução do desmatamento”.

Eliminação do garimpo ilegal

A preparação para a COP30 envolve ainda a criação de um comité internacional com representação de povos indígenas de várias partes do mundo, liderado pelo Brasil. O objetivo é reunir essas diversidades para fortalecer o “posicionamento dos indígenas como guardiões da Mãe Terra” e “maiores protetores da biodiversidade”.

Em relação à situação no estado do Pará, onde será realizada a COP30, Sonia Guajajara mencionou que o ministério está a planear ações de eliminação do garimpo ilegal das terras indígenas dos povos Munduruku e Kayapó. Destacou a preocupação com a eventual extração de minerais para a transição energética.

“Os grandes líderes mundiais estão a discutir a necessidade e as medidas para fazer essa transição. Mas não se está a haver muita adesão em ceder, em abrir mão de determinadas explorações. O Brasil tem discutido muito para fazer essa transição energética. Nós, do Ministério dos Povos Indígenas, temos defendido o processo de consulta. É muito importante que agora a Convenção 139 seja de facto implementada para garantir o consentimento livre prévio informado dos povos indígenas”.

É preciso “reflorestar mentes”

Citando o facto de que os povos indígenas representam apenas 5% da população mundial, mas protegem 82% da biodiversidade que ainda resta no planeta, a ministra disse que ameaçar os direitos indígenas significa ameaçar a biodiversidade.

“Nós não podemos ter vida no planeta se não há uma biodiversidade viva. Então é muito importante de olhar para os povos indígenas e entender a importância dos povos e dos territórios indígenas protegidos. Porque onde tem indígena a presença indígena é certeza de água limpa, de alimentação sem veneno, de floresta em pé da biodiversidade protegida. Então, como não considerar tudo isso?”

Sonia Guajajara declarou que é o momento de “reflorestar mentes”, criando uma mudança de comportamento, pensamento e projetos para que o futuro não esteja totalmente comprometido. ONU News – Nações Unidas