Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 25 de julho de 2026

Catalunha - Lança concurso de escrita em português

O consulado de Portugal em Barcelona convida os interessados a participar na III edição do Concurso de Escrita Criativa em Português na Catalunha, iniciativa que este ano assinala o nascimento da escritora portuguesa Fernanda Botelho


Promovido pelo Instituto Camões, pelo Centro de Língua Portuguesa em Barcelona, pelo consulado de Portugal em Barcelona e pela Universitat Autònoma de Barcelona, o concurso pretende promover a língua portuguesa e divulgar o universo literário em português.

O prazo para a apresentação dos trabalhos decorre entre 27 de maio e 31 de outubro, estando a divulgação da decisão do júri prevista para o final de novembro.

Podem participar estudantes e antigos estudantes do Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Barcelona, estudantes de português na Universitat de Barcelona, Universitat Autònoma de Barcelona, Instituto Guimarães Rosa de Barcelona e Escola Oficial d’Idiomes – Drassanes, independentemente da nacionalidade. O concurso está igualmente aberto a qualquer pessoa residente na Catalunha com conhecimentos de língua portuguesa.

Fernanda Botelho, homenageada nesta edição, é considerada uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Depois de se estrear na poesia, destacou-se como romancista pela originalidade da sua escrita, abordando temas como a condição feminina, a identidade, as relações humanas e as transformações da sociedade portuguesa do pós-guerra.

Criado em março de 2022, o Concurso de Escrita Criativa em Português na Catalunha procura incentivar a criação literária e reforçar a promoção da língua portuguesa junto da comunidade residente na região.

Leia o regulamento completo aqui. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




sábado, 27 de setembro de 2025

São Tomé e Príncipe - Fundação Clarós leva cuidados especializados e esperança

Pela primeira vez em missão médica no país, uma equipa de especialistas da Fundação Clarós, sediada em Barcelona, Espanha, está a prestar assistência clínica e cirúrgica em diversas especialidades, no âmbito de uma iniciativa organizada a convite da Primeira-Dama santomense, Fátima Vila Nova.


Entre os beneficiários está Felquiela da Graça, jovem que há algum tempo padecia de intensas dores dentárias. Recorreu ao serviço de estomatologia do Hospital Dr. Ayres de Menezes, onde foi atendida pela equipa da Fundação. Durante a intervenção, foi extraído o dente responsável pelas dores, proporcionando-lhe alívio imediato.

“Tinha um pouco de medo, mas eles me deram força e consegui extrair o dente. Correu bem”, relatou Felquiela, visivelmente emocionada.

A jovem expressou gratidão pela assistência recebida e sublinhou a relevância de iniciativas médicas deste género para o país.

“Gostaria que continuasse sempre, que pudessem vir várias vezes para ajudar o povo santomense.”

A área de estomatologia continua a exigir um reforço significativo nas ações de prevenção e cuidados básicos, especialmente entre os mais jovens.

“Necessitamos de muito trabalho na área de prevenção para evitar a extração de tantos dentes. As crianças, em particular, apresentam muitos problemas de saúde dental”, alertou Pablo Altuna, médico estomatologista.

Os desafios, contudo, não se restringem à estomatologia. São transversais a várias especialidades médicas, incluindo a saúde mental.

“O grupo de psicólogos atendeu muitos casos de depressão, alcoolismo e outras patologias. Em São Tomé e Príncipe é necessário dedicar muita atenção à saúde mental”, afirmou Pedro Clarós, Presidente da Fundação.

Além das consultas, foram realizadas diversas intervenções cirúrgicas, em resposta a casos clínicos complexos.

“Atendemos situações de lábios partidos, fissuras palatinas, tumores maxilares, tumores de parótida e outras lesões faciais”, enumerou Pedro Clarós.

A missão da Fundação Clarós representa um contributo relevante para o reforço dos cuidados de saúde especializados no arquipélago, num contexto marcado por carências estruturais e elevada procura por assistência médica qualificada. José Bouças – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”


domingo, 11 de agosto de 2024

Suíça - Maternidade é thriller e cria suspense em Locarno

A cineasta catalã Mar Coll, considerada a mãe do cinema novo catalão, baseada num livro da escritora basca Katixa Aguirre, As Mães Não, provoca tensão, angústia e mesmo revolta no público, em especial os pais e mães, com o filme Salve Maria, mostrando o considerado pecado maior - o da mãe que rejeita seu recém-nascido a ponto de desejar que ele morra.


Tanto o livro como o filme se baseiam no infanticídio cometido por uma mãe francesa afogando seus filhos gêmos de dez meses. Mas Mar Coll foi além, transformou seu filme num thriller capaz de fazer os espectadores prenderem a respiração e se remexerem nos seus lugares.

Na narrativa da personagem Maria, jovem mãe com um começo de sucesso como escritora e com uma depressão pós parto, na qual detesta amamentar e ignora o filho, fica sempre presente o risco de chegar ao extremo de matá-lo. Maria parece obcecada com o relato da matricida francesa, noticiado com destaque pela imprensa, a ponto de procurar encontrá-la pessoalmente a fim de saber quais sentimentos a tinham impulsionado ao crime.

Teria Maria também o mesmo impulso ou agia em busca da redação de um livro, prioritário às suas obrigações de mãe?

O filme deve ser entendido como uma provocação ao tema da maternidade instintiva, considerada tabu, pelo qual todas as mulheres são feitas para serem mães, dentro das novas interpretações do ser mulher pelo feminismo pelo qual a maternidade é cultural, em ruptura com a sacralização da maternidade por todas religiões. O livro de Katixa Aguirre trata dessa questão na visão de Doris Lessing e Sylvia Plath.

A cineasta Mar Coll conta ter se interessado pelo livro de Katixa Aguirre logo depois de ser mãe. E deixa claro que para ela ser mãe foi uma boa experiência, mas entende que pode ser um problema para algumas mulheres. Neste caso, a rejeição do bebê por depressão ou outro problema da mãe precisa ser entendido, diz ela, e não ser tratado de maneira injuriosa, violenta e sujeito a punição.

"Posso dizer que este filme é um manifesto, mas não gosto de pensar que seja um filme de tema, mesmo que esteja em causa um assunto controverso e tabu. É certo que existe ternura, amor, cuidado, etc, na maternidade, mas existem também muitos sentimentos obscuros, dos quais se fala pouco. É nesses sentimentos que o meu filme coloca o foco".

E como o filme mostra o pai e marido de Maria nessa situação? Ocupado com seu trabalho, acostumado com a imagem tradicional da mãe, ele não vê e não percebe a situação e sua agravação, apenas se preocupa com o fato de Maria não falar com o bebê. Deixa também de tirar férias parentais para ajudar Maria, abreviando o desfecho da crise. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, convidado pelo Festival de Cinema de Locarno


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Espanha - Luta contra a escassez de água nas ilhas Canárias, Catalunha e Andaluzia

A ilha de Tenerife enfrenta meses ou possivelmente anos de escassez crítica de água, dizem os especialistas


Tenerife está a planear declarar uma emergência hídrica na sexta-feira, já que os reservatórios estão com níveis baixos devido à seca contínua.

Algumas zonas de Espanha e das Ilhas Canárias estão a sofrer graves secas. A presidente do governo de Tenerife, Rosa Dávila, afirma que foi um dos “invernos mais secos da história recente” para a ilha.

Tenerife deverá declarar a emergência hídrica na sexta-feira, após uma sessão plenária. Dávila está confiante de que a iniciativa terá o apoio unânime de todos os partidos políticos, uma vez que “o povo de Tenerife não vê diferenças ideológicas nisto”.

A ilha enfrenta meses ou possivelmente anos de escassez crítica de água, dizem os especialistas.

Tenerife vive um dos invernos mais secos da história

As zonas centrais de Tenerife estão a sofrer uma seca extrema e prolongada, com grave escassez de água que pode continuar durante meses ou mesmo anos, de acordo com relatórios técnicos.

Apesar de ser uma das Ilhas Canárias mais verdes, Tenerife sofreu uma ausência crítica de chuva naqueles que deveriam ser os meses de inverno mais chuvosos - especialmente nas zonas do norte.

Nos últimos anos, a precipitação também diminuiu entre 15 e 40 por cento. A evaporação da água aumentou entre 10 e 25 por cento nas regiões centrais agrícolas da ilha devido às temperaturas mais elevadas.

Este mês de Janeiro registou temperaturas médias de 20,9ºC, tornando-o o mais quente da ilha em 60 anos.

Tenerife declarará emergência de seca

As condições extremas obrigaram o governo local a tomar medidas agora para garantir o abastecimento de água durante os meses secos de verão.

Relatórios locais dizem que a partir de 1 de Fevereiro, os reservatórios estavam com 34,6 por cento da capacidade, em comparação com 52 por cento no mesmo período do ano passado.

Dávila disse que “garantir o abastecimento de água aos cidadãos e ao interior de Tenerife é uma questão essencial que não pode ter preferências políticas”.

O vice-presidente Lope Afonso alertou ainda que a seca terá “graves consequências para o sector agrícola”.

A par da emergência hídrica a declarar na sexta-feira, o Conselho da Água da Ilha de Tenerife e o Ministério do Turismo planeiam lançar campanhas de informação pública.

Estas serão dirigidas aos residentes, mas também aos turistas e visitantes, sublinhando a importância do uso responsável da água.

A seca e o calor extremo provocaram incêndios florestais que devastaram áreas das florestas da ilha em agosto de 2023.

Tenerife luta com escassez de água

Tenerife está a estudar formas de combater a escassez de água, incluindo o aumento da capacidade das estações de tratamento e dessalinização de água para aumentar o abastecimento à agricultura e às habitações.

A ilha não tem rios e tem muito poucas barragens, pelo que depende de fontes subterrâneas para 80 por cento do seu abastecimento.

Outras áreas de Espanha também enfrentam problemas de escassez de água. As autoridades da Catalunha declararam uma emergência de seca em Barcelona no dia 1 de Fevereiro.

A região da Andaluzia restringirá o uso de água no verão em algumas cidades, incluindo Sevilha e Córdoba, a menos que a área veja “pelo menos 30 dias consecutivos de chuva”, segundo o presidente regional. Euronews.green


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Espanha - Seca revela igreja afundada, construída no século XI

“Turistas da seca” visitam a igreja do século XI, que foi submersa há 60 anos


Uma igreja na submersa na vila espanhola de Sant Romà de Sau emergiu das águas de um reservatório.

Inundada há 60 anos para formar o reservatório de Sau, que fornece abastecimento de água essencial à cidade de Barcelona, ​​apenas o topo da torre de três andares da igreja geralmente aparece acima da superfície. Agora, o edifício do século XI está firmemente em terra seca e começou a atrair “turistas da seca”.

“É inacreditável o quanto o nível da água baixou”, diz Sergio Iberico, que visita frequentemente o reservatório.

“Lembro-me de remar aqui e o nível da água estava na janela da torre da igreja.”

Os atuais níveis de água no reservatório de Sau estão em apenas 6% da capacidade. No ano passado, nesta altura, rondavam os 19 por cento e a média de Janeiro é normalmente superior a 90 por cento.

Antonio Rodriguez, que mora perto do reservatório, diz que a queda do nível da água o deixou preocupado consigo mesmo e com sua família.

“A água está a acabar. Já restringi o meu uso de água, só uso o necessário”, afirma. “Mas estamos a ficar sem água.”

A igreja em Sant Romà de Sau é apenas um sinal de uma emergência de seca mais ampla que o país enfrenta.

A seca traz aumento nas contas de água e nos preços dos alimentos

As regiões de Espanha mais atingidas pela seca prolongada são a Andaluzia e a Catalunha – ambas importantes áreas agrícolas e de produção alimentar.

Na Catalunha, a seca já dura há três anos e restam apenas 17% do abastecimento de água da região. Se esse número cair para 16%, o governo da Catalunha terá de declarar o estado de emergência e impor restrições mais rigorosas ao uso da água pelas famílias.

As contas da água já aumentaram e a utilização da água para a agricultura está restringida. Os parques já não são regados, as fontes estão secas e não é permitido encher piscinas privadas.

Algumas academias da região começaram a cobrar uma taxa adicional pelo uso das suas piscinas e algumas fecharam totalmente.

O impacto da seca também se reflecte no aumento do custo das frutas, legumes e azeite em todo o país. O preço do azeite, em particular, atingiu um recorde, aumentando mais de 50 por cento em relação ao ano passado. Muitas lojas espanholas começaram a colocar etiquetas de segurança nas garrafas.

A dessalinização pode resolver o problema da seca em Espanha?

Barcelona também abriga a maior central de dessalinização da Europa, que produz água doce do vizinho Mar Mediterrâneo.

Laia Hernandez Lloret, porta-voz da central, diz que sem ela restrições rígidas de água e um estado de emergência teriam entrado em vigor na região há pelo menos seis meses. Milhões de turistas e residentes de Barcelona não teriam água suficiente.

“De 100 litros de água salgada, obtemos 45 litros de água doce. Neste momento, esta central de dessalinização produz cerca de 20% da água doce de que Barcelona necessita”, afirma o diretor da central de Llobregat, Carlos Miguel.

Mas, acrescenta Miguel, actualmente estão a funcionar a plena capacidade e não conseguem dessalinizar mais água.

É pouco provável que transformar a água do mar em água doce resolva o problema da seca em Espanha. É muito lento, caro e consome muita energia. A menos que a energia provenha de fontes renováveis, a poluição causada pela dessalinização também acelerará as alterações climáticas, o que contribui para a escassez de água.

E, no entanto, enquanto o problema persiste, a Espanha está a planear duas novas centrais de dessalinização nas regiões mais atingidas da Andaluzia e da Catalunha. Euronews.green


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Espanha - Introduz restrições de água à medida que os reservatórios secam

Uma emergência de seca foi declarada em algumas partes da Catalunha, onde as pessoas estão a ser instadas a reduzir o consumo de água


A Catalunha declarou emergência de seca em 24 municípios na semana passada, após a falta de chuvas nos últimos 30 meses.

Os níveis dos reservatórios estão baixos e restrições de água foram impostas por causa da seca. 

O reservatório de Darnius Boadella, no nordeste da Espanha, está com apenas 20% de sua capacidade.

Artur Duran estende a mão à cintura para mostrar o nível de água de que se lembra há dois anos. Então, ainda era profundo o suficiente para navegar. Agora, uma longa seca quase o esvaziou.

"Nunca o vimos tão baixo", disse o morador local de 79 anos à Reuters no reservatório.

A seca está a deixar os reservatórios vazios

As pessoas tomaram banho de sol na margem recém-exposta do reservatório, onde surgiram algumas manchas de erva. Alguns visitantes tentaram remar.

As autoridades da Catalunha impuseram na semana passada novas restrições de uso de água em 22 aldeias ao redor do reservatório, perto da fronteira com a França, já que o aquífero que as abastece também está a esvaziar-se.

A Espanha registou o início de ano mais seco nos primeiros quatro meses de 2023 desde que os registos começaram na década de 1960, com a Catalunha e a Andaluzia, no sul da Espanha, sendo as mais afetadas.

Várias ondas de calor registadas na Espanha e em toda a Europa neste verão pioraram a seca, diminuindo os níveis dos reservatórios à medida que a evaporação e o consumo de água aumentaram, disse Ruben del Campo, porta-voz da agência meteorológica espanhola AEMET.

A Catalunha declara emergência de seca em dezenas de aldeias

As 22 aldeias, mais duas no sul da Catalunha, que totalizam cerca de 25000 habitantes, estão em estado de emergência hídrica.

Isso significa que eles devem reduzir o seu consumo para uma média diária de 200 litros de água por habitante, de um limite anterior de 230.

As autoridades ainda não estão a limitar a água para consumo humano, mas a irrigação para fins agrícolas será amplamente proibida, e o uso de água para fins industriais e recreativos deve cair 25%.

A vila de Agullana, com 900 moradores, vem mantendo o consumo de água abaixo do limite de 200 litros há vários meses, mas o seu prefeito disse que outras medidas serão implementadas.

"Reduziremos a zero a irrigação dos jardins, do campo de futebol, do relvado da piscina, que veremos amarelar como se tivesse queimado", disse Josep Jovell.

Nenhuma água será usada para limpar as ruas, apenas serão varridas, acrescentou. Euronews Green com “Reuters”


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Espanha - A mezzo-soprano moçambicana Mariana Carrilho em concerto no Palácio da Música Catalã

A mezzo-soprano moçambicana vai cantar numa das salas mais emblemáticas de Espanha. Na capital da Catalunha, Mariana Carrilho vai actuar com a conceituada Orquestra de Guitarras de Barcelona, nesta sexta-feira

Donacret

Contextualização. Palau de la Música Catalana ou Palácio da Música Catalã é um dos expoentes máximos da arquitectura modernista catalã. É um edifício projectado por Lluís Domènech i Montaner, com várias salas de concerto. Aliás, por aquelas salas de concertos passaram e passam grandes músicos a nível internacional, tanto da música clássica como da música popular. Trata-se de um espaço com muita história e tradição, conhecido em todo o mundo. Por isso mesmo, Mariana Carilho sente-se muito privilegiada e agradecida por poder actuar num lugar tão emblemático.

Não obstante a importância do local do concerto, para Mariana Carrilho, cantar com a Orquestra de Guitarras de Barcelona no Palau de la Música Catalana já é como estar em casa. E desenvolve: “Começamos a trabalhar juntos em 2019, quando dava os meus primeiros passos na vida profissional, e desde então fomos construindo uma parceria musical sólida. Com a OGB [Orquestra de Guitarras de Barcelona] pude cantar em vários países e palcos europeus e aprendi muito sobre a música espanhola”, contou a artista moçambicana que vive em Espanha há vários anos.

Com a Orquestra de Guitarras de Barcelona, Mariana Carrilho vai actuar num concerto que se vai dividir em duas partes. A primeira parte vai dedicar-se a danças do mundo e a segunda parte à música espanhola, sobretudo a do compositor Manuel de Falla. “Eu participo nesta parte e cantarei várias obras deste, das quais se destaca ‘El Amor Brujo’, uma das suas obras mais conhecidas”.

Dito isso, a mezzo soprano também reconheceu que cantando com a Orquestra de Guitarras de Barcelona aprendeu muito sobre a música espanhola e como expressá-la: sentimentos e nuances. “Agradeço infinitamente ao Sergi Vicente, director da orquestra, que sempre confiou em mim e foi muito generoso na partilha de conhecimentos sobre esta música”.

Segundo disse Mariana Carrilho, no Palau de la Música Catalana vai cantar para duas mil pessoas ao longo de hora e meia. “É um dos palcos mais emblemáticos e com mais tradição onde terei actuado até agora (e acredito ser a primeira cantora lírica moçambicana a actuar neste palco)”.

Quanto à Orquestra de Guitarras de Barcelona, é uma das melhores orquestras de guitarras do mundo e percorre um repertório clássico espanhol de grande virtuosismo. Fundada há 30 anos pelo guitarrista espanhol Sergi Vicente, esta formação orquestral já realizou mais de 700 espectáculos, interpretando um vasto repertório que inclui obras de compositores de todos os períodos da história da música. Ao longo dos anos, mais de 150 guitarristas de várias nacionalidades fizeram parte da Orquestra. José dos Remédios – Moçambique in “O País”


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A Catalunha

O conflito na Catalunha vem de uma aspiração de séculos que, aos interesses de Castela, em prol de uma certa Espanha, se adia sem termo e em contínua agonia.

Bravo povo de Portugal que pôde alcançar a sua soberania e mantê-la, mas bravo povo, também, o da Catalunha que, depois de tanto tempo submisso a um poder distante, não perdeu a sua língua, não deixou de definir a sua cultura e identidade, nunca desconheceu o seu sonho e seu mito.

Leio na Imprensa portuguesa uma mentira acerca dos escritores catalães que terão deixado de usar a língua. De Antònia Vincens ou Joan Margarit até Sebastiá Portell i Clar, para citar apenas alguns vivos e brilhantes, não só usam o catalão como o inscrevem no esplendor literário da Península Ibérica.

Atentar no desejo de autodeterminação da Catalunha não é fazer oposição a Espanha, é ponderar a legitimidade de os povos se reconhecerem como pertença a quem querem pertencer, não exatamente pela inimizade com outros mas pela união que os caracteriza, como se houvesse uma circunscrição emotiva, afetiva, contra a qual não querem e não podem lutar. O mesmo em relação a Portugal. Ninguém nos tirará desta grande e amada Ibéria, feita de povos tão distintos quanto irmanados que se devem orgulhar, a um só coração, de Cervantes e Camões, Machado e Picasso, Miró e Pessoa, de Falla e Amália, Brossa e Paula Rego ou Graça Morais.

A gestão dos conflitos pelos governos em exercício impõe maior prudência do que aquela que se verifica em Espanha com o caso de Barcelona. Apenas por ingenuidade se poderia achar que os grupos independentistas, sobretudo organizados e energizados depois do boicotado referendo de 2016, não teriam já produzido os seus radicais. Estes podem criar-nos sentimentos dúbios em relação à questão, no entanto, contra toda a folia legalista, o ponto fulcral está no que comecei por dizer, que esta é uma aspiração de muitos séculos e não parece caducar. O único modo pacífico, manifesto de grandeza humana, de ultrapassar ao menos por umas gerações o impasse é perguntar à população sua vontade livre, informada. Essa vontade tão inteligente quanto emocional que usamos sempre que está em causa algo mais complexo do que aproveitar mais ou menos de uma qualquer condição. Porque ser português também é essencialmente uma contingência orgulhosa, e acredito muito que o queiramos continuar a ser ainda que nos acenem com uma oportunidade de ganhar algo se vendermos a identidade ao vizinho. É só isso que se torna essencial perguntar. Com maiores ou menores riscos, o que querem os catalães? Alguém pode garantir uma resposta sem o sufrágio de um pleno, limpo, referendo?

O que querem os vários povos até hoje chamados de espanhóis? Podemos nós, portugueses, duvidar da legitimidade de colocar esta pergunta? Não é algo a que estamos respondendo com 800 anos de história? Valter Hugo Mãe – Portugal in "Jornal de Notícias"


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Catalunha - Liberdade para os presos políticos catalães!

O presidente da Generalitat da Catalunha, exilado na Bélgica desde há cinco meses, foi preso domingo, 25 de Março, na Alemanha numa polémica operação que envolveu os serviços secretos espanhóis e alemães, quando regressava da Finlândia, onde deslocou a convite do respetivo Parlamento. Afastado das suas funções pelo governo espanhol, num país cuja justiça mostra uma evidente politização e motivação ideológica, Carles Puigdemont foi reeleito há três meses para o Parlamento da Catalunha, numas eleições de que resultou reforçada, contra todas as expectativas do governo de Madrid, uma maioria favorável à independência da Catalunha, ao direito da região a decidir o seu futuro e à recondução no cargo do presidente da Generalitat. Além de Puigdemont, estão presos preventivamente e sem direito a fiança nove dirigentes independentistas catalães, oito dos quais deputados reeleitos em dezembro, entre os quais se contam a anterior presidente do Parlamento da Catalunha e o vice-presidente da Generalitat. Quatro destes presos estão detidos preventivamente há já cinco meses. Boa mostra do desnorte punitivo do Supremo Tribunal espanhol é a recusa de libertação de um destes presos, Joaquim Forn, membro do governo catalão suspenso, cuja defesa solicitou que pudesse esperar pelo julgamento em liberdade por forma a tratar-se da tuberculose que contraiu na prisão. O juiz Pablo Llarena, autor de todas estas ordens de detenção, recusou tal pedido a pretexto de que o detido podia ser tratado na prisão... O mesmo juiz, que tem, por enquanto, processos abertos contra um total de 22 dirigentes e ativistas políticos catalães, a que se juntam mais de um milhar de autarcas e de diretores escolares que aguardam decisões da justiça sobre a sua colaboração na organização do referendo de 1 de outubro, impediu recentemente que outro dos presos, o dirigente associativo Jordi Sánchez, pudesse defender a sua candidatura à presidência da Generalitat perante o Parlamento catalão, sem que nenhuma sentença lhe tivesse retirado os seus direitos políticos - ao contrário do que a mesma justiça espanhola fez em 1989 com um preso da ETA a que foi permitido sair da cadeia para defender a sua candidatura à liderança do governo basco. Na sexta-feira passada, no mesmo dia em que o Comité de Direitos Humanos da ONU instava "com urgência" o Estado espanhol a "assegurar todos os direitos políticos de Jordi Sánchez", o novo candidato independentista à presidência, Jordi Turull, foi preso em Madrid na véspera de se submeter a uma segunda votação parlamentar. Além de Puigdemont, quatro outros membros do seu governo e duas dirigentes independentistas exilaram-se na Bélgica e na Suíça; contra todos eles o Governo espanhol emitiu um mandato europeu de captura. A última, na passada sexta-feira, foi a líder republicana Marta Rovira que deixou o país acompanhada da sua filha para não se ver impedida de "lhe dar tudo quanto lhe posso dar", deixando a Catalunha com uma "profunda tristeza" por afastar-se "de tanta gente que amo" com quem "partilhei tantas lutas durante tantos anos com um único objetivo: o de mudar a sociedade, torná-la mais justa".



Só as ditaduras, as «democraduras» ou as «dictablandas», têm presos políticos. Só elas prendem dirigentes políticos e associativos legitimamente eleitos como representantes do povo e que nunca usaram da violência política para defender os seus ideais, acusando-os de crimes de "rebelião" e "sedição" para tal interpretando como "violência" o exercício do direito fundamental de manifestação ou de expressão. Podem repetir à saciedade os governantes espanhóis o mantra de que a Espanha é uma "democracia consolidada", mas os seus atos na questão da Catalunha apontam em sentido oposto. Podem muitos governantes europeus virar a cara e fingir não perceber que, independentemente do que pensarem do direito à autodeterminação do povo catalão, é a democracia e os Direitos Humanos que estão em causa, na Catalunha e no conjunto da Espanha! Nós, pelo contrário, não calamos a nossa indignação perante semelhante sanha repressiva disfarçada de legalidade e juntamos a nossa voz a todas e todos aqueles que, na Europa e no mundo, apelam à libertação imediata de Carles Puigdemont e de todos os presos políticos catalães. Que acabem de uma vez por todas práticas políticas e judiciais incompatíveis com o respeito dos direitos cívicos e políticos dos cidadãos catalães e que, como se tem apelado por todo o mundo, se dê lugar à negociação política de um problema político.

27 de março de 2018

Manuel Loff, historiador, professor, Faculdade de Letras da UP
Fernando Rosas, historiador, Instituto de História Contemporânea/NOVA
André Freire, politólogo, professor, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

In "Público" - Portugal

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Internacional - Três mitos sobre o catalão

Este é um artigo por antecipação: como daqui a oito dias é Natal, queria falar já do grande assunto da semana que agora começa: as eleições na Catalunha. Tenho, no entanto, um problema: não faço ideia se vão ganhar os independentistas ou os unionistas. Assim, o melhor é falar daquilo que não vai mudar e que, para dizer a verdade, é o que mais me interessa nesta história toda: o catalão, uma das duas línguas lá da zona.

É por estas e por outras que não compreendo como uns quantos portugueses dizem, meio a brincar meio a sério, que mais valia sermos espanhóis. Tenham juízo.

Ora, o desconhecimento é o melhor adubo dos mitos. Nos últimos meses, tenho ouvido muitos sobre esta língua. Ficam aqui três…

1 - «O catalão não era usado até há pouco tempo.»

Esta é uma impressão que alguns portugueses têm, provavelmente porque só agora repararam na língua… No entanto, a realidade está muito longe dessas distraídas impressões portuguesas.

Não podendo resumir a história duma língua numa crónica, ficam alguns traços largos e necessariamente imprecisos. O catalão foi usado na literatura durante a Idade Média e há alguns grandes vultos da cultura europeia dessa época que escreveram em catalão. Por exemplo, Raimundo Lúlio (em catalão, Ramon Llull) ou Joanot Martorell, autor de Tirant lo Blanc. O certo é que, depois da junção das coroas de Aragão e Castela, o catalão perdeu prestígio e o castelhano foi, durante séculos, a língua usada pelo Estado, pelos escritores e pelas elites quando estavam foram de casa.

O castelhano era a língua visível e a língua da escrita — mas não era a língua materna da grande maioria dos catalães. A língua que se falava dentro da casa dos catalães continuou a ser o catalão (com este ou outro nome).

Pois bem, a partir do século XIX, houve um movimento de afirmação do catalão enquanto língua de prestígio. Recuperou-se o uso literário da língua, enquanto, nas aldeias e nas ruas das cidades, o catalão nunca deixou de ser a língua materna da população — até que a televisão e o ensino massificado durante o século XX espalharam o castelhano.

Hoje, os catalães usam as duas línguas e o catalão é, certamente, mais visível do que na época em que não se usava na escrita; no entanto, sendo hoje uma das línguas oficiais da Catalunha, é menos falado do que há 100 anos, por exemplo. No fundo, o catalão, nos últimos cem anos, aumentou o seu prestígio, mas diminuiu o seu uso.

2 - «O catalão deriva do espanhol.»

O catalão sofre há séculos influência do castelhano — mas não deriva deste último. Dizem os historiadores da língua que o catalão é a evolução particular do latim popular da Marca Hispânica, a zona de fronteira entre o reino dos Francos e o território muçulmano da Península.

O catalão tem, assim, uma origem claramente distinta do castelhano — aliás, algumas palavras denunciam uma fronteira que separa o catalão de todas as outras línguas ibéricas, incluindo o português. Vemos isto, por exemplo, na palavra «medo» (português); «miedo» (espanhol); «por» (catalão); «peur» (francês); «paura» (italiano) — ou então, no verbo «falar» (português); «hablar» (espanhol); «parlar» (catalão); «parler» (francês); «parlare» (italiano).

Não, o catalão não é uma «língua de trapos» e muito menos uma forma errada de falar espanhol — é uma das línguas latinas, oficial em Andorra e em três regiões de Espanha.

3 - «O catalão não serve para nada.»

Algumas pessoas encolhem os ombros ou ficam incomodadas com a insistência dos catalães em falar esta língua. Se o espanhol serve tão bem, para quê esta trabalheira?

Ora, o catalão é a língua que grande parte dos catalães ouviram da boca da mãe. É a língua deles, como o português é a nossa. É a língua em que se sentem confortáveis. É ainda uma língua com tradição literária e língua de cultura — ainda por cima, os catalães não perdem o acesso à cultura em língua castelhana, pois escrevem e falam as duas línguas.

Ou seja, só pode ficar incomodado com o facto simples de haver milhões de catalães que querem falar catalão e ensiná-lo aos filhos quem estiver convencido que o castelhano deve ser a única língua de todos os espanhóis.

Depois, há outra ideia errada que alguns portugueses também defendem. Dizem eles que o catalão só é falado por mania dos independentistas. Pois bem: estes últimos parecem representar, pelos resultados eleitorais dos últimos anos, aproximadamente dois milhões e meio de catalães. Ora, o catalão é língua materna de uns cinco milhões de pessoas (não só na Catalunha, diga-se) e é usado como segunda língua por mais uns quantos milhões. É uma língua falada por mais europeus do que o norueguês, por exemplo. Será o norueguês inútil ou mania dos noruegueses? De certa forma, todas as línguas são uma mania de quem as fala. Nós, portugueses, vejam lá bem, temos a mania de falar português… Os catalães têm a mania de falar catalão — e ainda se atrevem a saber castelhano…

Sim, a língua é uma das bandeiras dos independentistas, mas está longe de se limitar aos círculos que defendem a separação de Espanha. Aliás, julgo que há um consenso muito alargado na sociedade catalã sobre a preservação da língua — um consenso que está longíssimo de existir no que toca à independência…

Mas então, não há problemas com a língua?

Claro que há, mas esses problemas estão, muitas vezes, na cabeça de quem não vive na Catalunha.

Em muitas regiões do nosso reino vizinho, há tendência para desprezar as outras línguas de Espanha. Muitos toleram a sua existência, mas pouquíssimos se interessam por elas. Muitos acham que aprender catalão é inútil e, para dizer a verdade, um pouco suspeito. Esquecem-se que, se a Catalunha é de facto parte de Espanha, isso só pode querer dizer que o catalão é uma língua de milhões de espanhóis e que merece respeito e (será pedir muito?) algum interesse.

Depois, ouve-se muito por Madrid que os catalães não querem aprender castelhano e que o castelhano está em perigo na Catalunha — ora, isto parece-me injusto. Para que o leitor compreenda a injustiça, imagine um madrileno a acusar irritado um catalão de não querer falar castelhano — quando o catalão, na verdade, fala e escreve castelhano fluentemente, enquanto ao madrileno nunca lhe passaria pela cabeça aprender catalão... Temos gente monolingue a acusar gente bilingue de querer ser monolingue.

Sim, eu sei que aquilo que irrita muitos madrilenos é o facto de as crianças que falam castelhano em casa terem de aprender catalão na escola. Mas, bolas, essas crianças ficam a saber falar duas línguas — e assim evita-se a situação que ocorria há 50 anos, em que a sociedade catalã se dividia entre aqueles que falavam castelhano e catalão e aqueles que só falavam castelhano. O objectivo é que todos falem as duas línguas, independentemente da língua de casa e da origem dos pais.

Enfim, uma Espanha em paz consigo própria vai ter de aprender a viver com as línguas faladas por milhões de espanhóis — mais do que tolerá-las, deve assumi-las como suas para que aqueles que falam outras línguas se sintam confortáveis em Espanha. Será possível? Não sei. Mas diria que, se o país vizinho conseguir reinventar-se enquanto Estado plurilingue, o catalão, longe de não servir para nada, terá servido para salvar Espanha…

Dito tudo isto, deixem-me terminar com um desabafo: ainda bem que nós, portugueses, não temos de pedir licença para aprender, ensinar e viver à vontade na nossa língua. É por estas e por outras que não compreendo como uns quantos portugueses dizem, meio a brincar meio a sério, que mais valia sermos espanhóis. Tenham juízo. Marco Neves – Portugal in “Sapo24”


Marco Neves - Tradutor e professor. Escreve no blogue Certas Palavras. Autor do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

domingo, 1 de outubro de 2017

Catalunha – Comércio Internacional

Portugal é o quarto cliente da Catalunha. Trocas comerciais e investimento recíproco têm aumentado. Portugal está em décimo lugar na lista de fornededores da região

A Comunidade da Catalunha tem uma população de 7,5 milhões de habitantes, 16% do total da população espanhola, e com quase 20% do total, é a comunidade que mais contribuiu para o produto interno bruto (PIB) de Espanha.

O PIB médio per capita espanhol foi de 22 780 euros. A Catalunha atingiu 26 996 euros por habitante, o quarto no ranking espanhol e que em termos relativos corresponde a 119% do país.

A Catalunha tem um forte cariz industrial, com base no têxtil, mas desenvolveu em paralelo outros setores como automóvel, plásticos, químicos, farmacêutico, a eletrónica, entre outras. A biotecnologia, energias renováveis ou reciclagem são exemplos de novas indústrias, que par das atividade terciárias das TIC, audiovisuais, logística ou turismo compõem o atual tecido económico catalão.

As exportações da Catalunha ultrapassam os 60 mil milhões de euros e as importações atingem os quase 72 mil milhões de euros e têm estado a aumentar.

 Em termos do ranking de clientes da Catalunha, em 2014, o primeiro lugar foi de França, seguida da Alemanha e da Itália. Portugal ocupa a quarta posição com uma quota de 6,8% sobre o total. Entre os fornecedores Portugal está em décimo lugar, com uma quota de 2,4% sobre o total, numa lista em liderada pela Alemanha, seguida de França e da China

No primeiro semestre 2017, a região autónoma da Catalunha foi o principal exportador de Espanha para Portugal com um total de 2334 milhões de euros, seguida da Comunidade de Madrid com 1502 milhões e em terceiro lugar a Galiza com 1313 milhões. Em relação às vendas de Portugal a Espanha, neste mesmo período o primeiro comprador é a Comunidade de Madrid 1011 milhões, seguida da Galiza com quase 1000 milhões e em terceiro lugar a Catalunha com 836 milhões.

Mais investimento

Em 2016  a Catalunha tinha exportado 4366 milhões de euros, ou seja, 24% do total exportado, que ascendeu a 18188 milhões de euros, com destaque para o vestuário, a indústria química e os veículos de transporte. Em segundo lugar, aparece a Comunidade de Madrid com 2700 milhões de euros.

Em relação às compras espanholas a Portugal, também em 2016, o principal comprador é a Galiza com 1924 milhões, seguida da Catalunha com 1.684 milhões e em terceiro lugar a Comunidade de Madrid com 1586 milhões. O valor global das transações entre os dois países em 2016 foi de 28787 milhões de euros. Mais de 50% do total é destas três comunidades.

Nos últimos anos a Catalunha concentrou 17% do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) em Espanha, em consonância com as sedes sociais das principais empresas. De Portugal chegou 3,4% do total do IDE no país, sendo que deste 3%, foi para a Catalunha. A comunidade catalã investiu 3,9% do total espanhol em Portugal.

Em relação ao investimento catalão em Portugal, existem vários como a SEAT, Bimbo, Nutrexpa, Panrico, Freixenet, entre outros, mas, o principal investidor é o grupo financeiro La Caixa, com um importante investimento no banco BPI. Entre as empresas portuguesas sediadas na Comunidade da Catalunha estão por exemplo o Grupo Amorim, Barbosa e Almeida, CIN Indústria, Endutex, Grupo Pestana, Inapa, José de Mello Saúde, Logoplast ou Sonae. In “Semanário Sol” - Portugal

sábado, 23 de setembro de 2017

Catalunha – Francisco Franco, o ditador, regressou vitorioso

O processo de independência do povo catalão, promovido através da convocatória ao voto em 1 de outubro e suportado pela lei do referendo e pela lei da transitoriedade, encontrou uma incalculável resistência do governo presidido por Mariano Rajoy, cujas medidas confirmam que a Constituição de Francisco Franco continua em vigor na sua essência.



O ditador governou o país com uma mão de ferro. Dados aproximados indicam que cerca de 150 mil pessoas morreram entre 1936 e 1943, de acordo com documentos desclassificados e vários historiadores, em tempos da guerra civil e violência generalizada, sofrida tanto por republicanos como por outros opositores e membros de organizações políticas e sindicais.

Numa aplicação duma estratégia política, cultural, social, económica e laboral, aplicaram-se multas, apreensão de activos, arresto de contas bancárias, despedimentos, desqualificação laboral e profissional. Anulou-se a liberdade de expressão mediante a censura aos meios de comunicação social, juntamente com a proibição de reunião e a prisão ou a morte como medidas imparáveis. A repressão era a bandeira.

Em coerência com tal legado, Mariano Rajoy ordenou um pacote repressivo que inclui a obrigação para os autarcas investigados por assegurarem o referendo, comparecer perante juízes e procuradores sob pena de sanções. De igual modo, suspende a autonomia financeira da Catalunha e controla as suas contas, exigindo que os bancos controlem estritamente todos os movimentos do governo catalão e condicionem o pagamento de salários a milhares de funcionários públicos, servidores públicos e fornecedores.

Além disso, a Guarda Civil apreendeu milhares de cartazes de propaganda da Generalitat, notificações para as assembleias de voto e registos de eleitores, tudo no quadro de registos em empresas de distribuição, tipografias e comunicação social, bem como fez detenções arbitrárias.

Não é necessário grande esforço para recordar o regime fascista quando as forças de segurança confiscam urnas, votos e propaganda, fecham sítios de informação sobre o referendo e, até mesmo proíbem actos a favor da consulta, são medidas destinadas a atemorizar. Cabe recordar que o Tribunal Superior da Justiça da Catalunha solicitou à TV3, a televisão pública catalã, que limite a sua informação sobre o referendo de autodeterminação.

A Generalitat, por sua vez, insistiu na continuação do processo e interpôs recurso ao Supremo Tribunal espanhol para evitar a perda de sua autonomia financeira. Oriol Junqueras, vice-presidente do sistema autonómico catalão, expõe que o congelamento de contas tem por objetivo acabar com a autonomia da Catalunha, uma decisão que só poderia ser tomada pelo artigo 155 da Constituição, o que exigiria um debate prévio e uma votação de maioria absoluta no Senado. Juntamente com a comunidade catalã, muitos sectores da Espanha apoiam a luta pelos direitos civis na Catalunha, aos quais são adicionados avisos dos líderes internacionais sobre o caminho que este processo pode levar se não se recorrer à prudência.

Num país onde o neoliberalismo ou o capitalismo selvagem se instalou nos seus limites extremos, especialmente a partir do ex-primeiro-ministro Felipe González - caminho ractificado com Rajoy - e onde estima-se que cinquenta e oito mil novos ricos e um milhão e quatrocentos mil novos pobres são o resultado dos últimos quatro anos, seria preciso perguntar o que aconteceria agora.

No caso da votação for impedida através da violência do Estado, é muito provável que a situação interna se agrave e obrigue a um estado de excepção, recolher obrigatório e mais agressão, devido à resposta previsível dos cidadãos catalães. Como se sabe, os resultados da consulta, antes da repressão de Rajoy, poderiam ter negado a independência; agora é possível que um sector maioritário o aprove, dado os atropelos contra a população, a sua liberdade e os seus direitos.

Também é possível que uma percentagem que se opõe à independência não vá votar, e aumentará com aqueles que temem pelas suas vidas e das suas famílias e as sanções da máquina estatal.

Se a situação ficasse incontrolável, também poderia acontecer que, cooptando o PSOE, o Artigo 155 da Constituição Nacional seria activado para suspender a autonomia da Catalunha e remover todos os poderes transferidos pelo Estado, deixando-a indefesa financeiramente e sem poder real. Tudo isso agravaria a escalada repressiva e consequências imprevisíveis.

Independentemente do resultado, todas as pessoas têm o direito de manifestar o seu próprio pensamento, que pode ser aprovado ou não. Um governo inteligente deve ter a capacidade de concordar com a autonomia em vez de provocar a separação real. Certamente, os catalães, na maioria das vezes, nunca queriam chegar a uma situação extrema como a que levou muitos não-independentistas a considerar seriamente essa alternativa, depois de serem atacados por um governo central que até viola o seu direito ao salário. Assim, o único caminho razoável, próprio de estadistas sérios, é entrar num diálogo para avançar com projectos que garantam o bem-estar da Espanha e a justa autonomia da Catalunha.

Quando algumas cidades amanhecem com cartazes que mostram o ditador Franco pedindo para não votar no referendo independentista, parece ser que um regime herdeiro do franquismo renasceu novamente das cinzas. Carlos Santa María – Chile in “RT”

Tradução "Baía da Lusofonia"

As declarações e opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor


Carlos Santa María – Director e Professor na Universidade Católica de Valparaíso - Chile, Doutor em Filosofia e Educação pela Universidade de Barcelona, especialista em Estudos Latinoamericanos, Educação e Investigação pela Universidade de Nariño - Colômbia, Psicólogo Social na UNAD – Colômbia. Conferencista, palestrante, escritor, 18 livros publicados em geopolítica, pedagogia e desenvolvimento humano, fundador da Associação de Trabalhadores Sociais e da Comissão de Direitos Humanos - Colômbia

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Portugal ou Espanha: qual é a nação mais antiga?

Nos recentes debates sobre o referendo catalão, tem aparecido nas bocas dos defensores da unidade espanhola esta espantosa frase: «Espanha é a nação mais antiga da Europa!» Normalmente, a frase é dita como ataque ao independentismo catalão, que — na óptica espanhola — está a tentar destruir o país mais antigo da Europa.

1. A história simplificada da nossa tribo

Ora, na verdade, dos três países independentes da nossa península (Andorra, Espanha e Portugal), o mais recente é, precisamente, Espanha... Andorra é um principado desde o século XIII, antes da união dinástica entre Castela e Aragão. E Portugal... Bem, todos sabemos que Portugal já existia por essa altura. Espanha, por mais voltas que se dê, não é a nação mais antiga da Europa. Nem sequer consegue ser a nação mais antiga da península... Bolas, nem a Andorra consegue ganhar.

Se assim é, donde vem aquela estranha frase? E como é que o próprio Mariano Rajoy consegue dizer isto sem que os seus ouvintes reclamem pelo erro crasso? Na verdade, poucos espanhóis parecem importar-se com tal dislate. Mas porquê?

Bem, primeiro, quando alguém diz qualquer coisa a favor da nossa tribo em particular (clube, partido, nação), o sentido crítico fica um pouco embotado. É muito humano.

Depois, enfim, a História que temos na cabeça é um pouco mais maleável do que pensamos e depende do nosso sentido de identidade. O passado — ou aquilo que lembramos e esquecemos desse mesmo passado — é um campo de batalha. E a forma espanhola de olhar para o passado encontra por lá uma nação anterior ao Estado.

2. A Catalunha já foi independente?

Quando falo em campo de batalha, não falo da história feita pelos historiadores (embora também aí haja muita batalha), mas das narrativas simplificadas com que contamos o percurso das nossas nações. Nós, por cá, gostamos de contar esta narrativa muito simplificada: tornámo-nos independentes em 1143 e, a partir daí, andámos a defendermo-nos das invasões espanholas e a descobrir o mundo — e lá conseguimos chegar até aos dias de hoje com a nossa independência intacta.

Pois, por estes dias, é interessante olhar para as histórias simplificadas que estão na cabeça de espanhóis e catalães. Já vimos que, para muitos espanhóis, a sua nação é mais antiga do que todas as outras — apesar de não ser. E os catalães, como contam o seu passado?

Contam desta maneira: a Catalunha foi o centro duma antiga coroa, com sede em Barcelona, que chegou a ter um império no Mediterrâneo e foi independente até 1714 — quando o pérfido rei de Castela invadiu aquele que era também um dos seus reinos e impôs as leis de Castela. Reparem que esta data (1714) é mais recente que a data da união de Inglaterra à Escócia. Para o sentimento nacional catalão, a perda da independência foi ontem! O que estão a fazer agora é a recuperar o que foi deles de direito, como antiga nação europeia.


Já os espanhóis mais centralistas contam outra história: a Catalunha é uma mera região duma antiga coroa medieval (a Coroa de Aragão) que, sem dramas e voluntariamente, se juntou a Castela no final do século XV, fazendo renascer a nação espanhola que, lá no fundo, tem origem na antiga Hispânia romana e no reino dos Visigodos. Virá daí — digo eu — essa estranha afirmação, desmentida por tantos factos, de que Espanha é a mais antiga nação da Europa.

Os dramas, na cabeça dos espanhóis, foram criados pelos separatistas — que terão aparecido, por magia, nas últimas décadas.

3. Confronto de Histórias

Portanto, na cabeça dum nacionalista catalão, a Catalunha é uma nação antiga, com uma História, uma língua e um território — e só em 1714 perdeu a independência.

Na cabeça dum nacionalista espanhol, a Catalunha nunca foi independente e é uma região duma nação antiquíssima, reconstituída no século XV e que, no fundo, já vinha da antiga nação visigoda.

Todas estas formas de contar a História são maneiras de olhar para os mesmos acontecimentos. Mas, atenção: não caio na tentação de achar que todas estas leituras são igualmente válidas. Há narrativas históricas mais simplistas do que outras. Dizer que Espanha é a nação mais antiga da Europa parece-me ser uma forma especialmente errada de olhar para a História.

Depois, se virmos bem, todas estas histórias são um pouco anacrónicas. As guerras e as dinastias eram assuntos de gente nobre e os povos tinham pouca noção de pertencerem a esta ou àquela nação ou a este ou àquele Estado — ao contrário do que acontece hoje em dia, em que todos nós sabemos de que país somos. Antes do século XIX, cada pessoa era da sua terra, tinha a sua maneira de falar própria da região, orava a um deus — e nessas roupagens encontrava a sua tribo...

No século XIX, os vários nacionalismos reinventaram a história, cada um à sua maneira. Essas histórias reinventadas foram transmitidas às populações através da escolarização, da literatura e por todos os mecanismos que hoje são naturais. A tribo de cada um começou a ser a tal nação, que ora é defendida pelo Estado, ora por elites sempre à espreita de criar o seu próprio Estado. Este processo pode parecer especialmente simples num país como Portugal — mas é complicadíssimo noutras paragens — basta olhar para as notícias que vêm de Barcelona.

Não há volta a dar: vivemos com essas histórias nacionais na cabeça. São mitos que fazem parte do que somos. O grande problema é quando essas histórias entram em confronto, como acontece aqui mesmo ao lado. A solução? Não a tenho. Mas talvez o pior que possamos fazer seja acreditar piamente nestas histórias e não hesitar um pouco antes de atirar as nossas declarações superlativas à cara dos outros. Por isso, faça o que fizer com a vontade catalã de votar, talvez fosse aconselhável a Mariano Rajoy não andar a espalhar por aí uma Espanha que, de tão antiga, mais parece um fantasma. Marco Neves – Portugal in “24Sapo”


Marco Neves - Autor do romance de aventuras A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra e Paz). Tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa. Escreve no blogue Certas Palavras.