Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Portugal - Obra de Yao Jingming aborda intercâmbio literário sino-luso

As relações culturais entre a China e Portugal, com ênfase na literatura, são analisadas em profundidade por Yao Jingming, ou Yao Feng, numa nova obra que será lançada terça-feira no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa


O auditório do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, vai acolher uma sessão de lançamento do livro “O Encontro dos Extremos: Intercâmbio Literário entre a China e Portugal”, de Yao Jingming, no próximo dia 11, terça-feira, pelas 18:00 (hora portuguesa). A obra, editada pela Gradiva, será apresentada pela investigadora Ana Cristina Alves, antiga docente da Universidade de Macau (UM), do então Instituto Politécnico de Macau e da Escola Portuguesa de Macau.

“O Encontro dos Extremos: Intercâmbio Literário entre a China e Portugal é uma obra de grande fôlego sobre as relações culturais entre os dois países, com especial incidência sobre o domínio da literatura. Aqui são referidos os primeiros portugueses, escritores ou missionários que escreveram sobre a China e as suas gentes”, sublinha o CCCM na antevisão do evento.

Neste livro, o tradutor, professor universitário e também poeta Yao Feng relata a história dos autores portugueses que, ao longo de 500 anos, escreveram sobre a China, incluindo Fernão Mendes Pinto na Peregrinação (obra do século XVI), ou Álvaro Semedo, padre jesuíta que escreveu sobre o império chinês.

“Contudo, se os portugueses sempre escreveram muito sobre o Reino do Meio, o carácter dos chineses, os seus usos e costumes, poucos foram os chineses que escreveram sobre Portugal”, observa o CCCM, acrescentando que, “além disso, a tradução de obras de autores portugueses para chinês e de autores chineses para português continua muito reduzida”.

Nesse contexto, acentua, Macau assumiu “uma posição de destaque”, servindo de ponto de passagem para vários escritores. “Apesar de não existirem provas suficientes sobre a vida de Camões em Macau, este facto merece ser abordado e investigado, bem como a referência a Camilo Pessanha e à sua tradução de As Elegias Chinesas”, pode ler-se ainda na mesma nota.

Com esta obra, e embora ainda haja “muito por escrever e ainda mais por partilhar”, o autor pretende “abrir uma porta para que a história deste intercâmbio literário se estreite e continue”.

Yao Jingming nasceu em Pequim em 1958. Doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Fudan, exerceu funções de vice­presidente do Instituto Cultural de Macau e director do Departamento de Português da UM, da qual se aposentou como professor emérito em 2024. Além de se dedicar à tradução literária, escreve crónicas, faz crítica literária e já publicou 15 obras de poesia e crónicas, em chinês e português.

Traduziu vários poetas portugueses para chinês, nomeadamente Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Florbela Espanca e Nuno Júdice. Como investigador na área da literatura portuguesa, publicou “O Encontro dos Extremos: Intercâmbio Literário entre a China e Portugal” e dezenas de ensaios sobre Fernão Mendes Pinto, Camões, Eça de Queirós, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa.

Yao recebeu o Prémio de Poesia Rougang, o Prémio de Poesia Changyao e o Prémio da Literatura de Macau, entre outros. Em 2006, foi distinguido com a medalha da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, concedida pelo Presidente da República Portuguesa. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

China - A comoção na literatura de José Luís Peixoto chegou a 250 milhões de pessoas

Depois da morte do pai, He Shuai leu “Morreste-me”, de José Luís Peixoto, em directo no programa O Leitor, da CCTV3, que tem uma audiência de cerca de 250 milhões de espectadores. O escritor português contou ao Ponto Final o episódio e as suas repercussões, que fez com que haja agora uma editora chinesa a querer avançar para a publicação individual do livro


O pai de He Shuai, He Ming, foi diagnosticado com um cancro nos pulmões em 2016 e, nesse momento, lançou a si próprio um desafio: correr 100 maratonas. Em Junho de 2020, He Ming morreu tendo completado 61 maratonas. O filho propôs-se a terminar o desafio do pai e vai correr as restantes maratonas. He Shuai foi depois ao programa chamado O Leitor, que passa na CCTV3, ler “Morreste-me”, livro de José Luís Peixoto. O momento foi visto por cerca de 250 milhões de pessoas. “Números como estes são absolutamente avassaladores, difíceis de imaginar”, assinalou o escritor português ao Ponto Final.

“Morreste-me’ foi um livro que escrevi sobre a morte do meu pai, que fala desse luto e, por isso, foi muito impactante para mim assistir à leitura de uma tradução desse livro por He Shuai e aperceber-me de como tudo isso estava presente na sua leitura e tinha conseguido chegar a uma realidade que, à partida, se imagina tão remota”, indicou José Luís Peixoto.

O programa em causa está entre os mais populares da televisão chinesa e consiste em leituras feitas por pessoas muito famosas na China ou, como aconteceu no caso de He Shuai, de pessoas com histórias assinaláveis. He Shuai leu no programa a tradução para mandarim de “Morreste-me” feita na Universidade de Macau, através da coordenação de Yao Feng e que foi publicado na íntegra na revista chinesa World Literature Magazine.

O autor foi contactado em Novembro por uma das tradutoras do seu livro, que o avisou de que He Shuai o tinha lido na televisão chinesa, e mais tarde foi contactado pela produção de O Leitor para que enviasse um vídeo em resposta a He Shaui, com a leitura de um excerto do livro em português. A participação de José Luís Peixoto no programa acabou por ser incluída numa edição especial com os melhores momentos do ano.

O escritor contou que o momento fez até com que a editora Foreign Language Teaching and Research Press queira avançar para a publicação do livro a título individual. “Para além da oportunidade de toda esta repercussão, fico muito satisfeito com essa oportunidade, uma vez que a tradução do meu romance Galveias está a ser concluída e deverá ser publicada por essa mesma editora já em 2021”, notou.

José Luís Peixoto assumiu ainda que a “circulação da literatura portuguesa na China está muito atrás do que seria desejável e do que é a realidade da difusão de outras literaturas europeias”. No entanto, o escritor diz que há razões para optimismo e deixa elogios ao director do departamento de Português da Universidade de Macau: “Por um lado, hoje, há bastante mais universidades na China a ensinar a língua portuguesa do que acontecia há alguns anos. Por outro lado, há o trabalho incansável de indivíduos como Yao Feng, uma figura basilar nas relações literárias entre estas duas culturas”. Além disso, “é de referir o Festival Literário de Macau, que promove justamente essa vontade de aproximação e cumpre um papel muito importante”, acrescentou José Luís Peixoto.

“Morreste-me”, o relato do luto após a morte do pai, foi editado em 2000 e foi o texto que deu a conhecer José Luís Peixoto no panorama da literatura portuguesa. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”

andrevinagre.pontofinal@gmail.com


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Macau – Oficina criativa de poesia no Museu de Arte de Macau

O poeta Yao Feng foi convidado pelo MAM para fazer uma oficina criativa de poesia, no dia 24 de Agosto, inspirada na pintura da exposição “Poesia Lírica – Trabalhos de Artistas de Macau e Portugal”, patente até 4 de Novembro. O evento será em chinês, mas fica a sugestão da visita para quem ainda não foi



Graças à poesia, você morreu sem a morte. Graças à poesia, você encontrou uma lâmpada para suportar o peso da sombra. A poesia é o único que lhe resta, sendo uma possibilidade dentre as impossibilidades”. As palavras de Yao Feng são um excerto da poesia que escreveu, inspirada no quadro sobre a vida do poeta português Camilo Pessanha, pintado pelo artista e arquitecto local Carlos Marreiros.

O poema é um exemplo do que vai acontecer na oficina criativa de “Poesia inspirada na Pintura”, marcada para dia 24 de Agosto, no Museu de Arte de Macau (MAM), e apresentada por Yao Feng, pseudónimo artístico do professor Yao Jingming, também director do departamento de português da Universidade de Macau.

A ideia partiu do MAM, que convidou o conhecido poeta e professor a lançar um repto em língua chinesa aos Amigos do Museu, para que se inspirem num dos quadros da exposição “Poesia Lírica – Trabalhos de Artistas de Macau e Portugal”, patente ao público desde 13 de Julho até 4 de Novembro de 2019, e escrevam um poema alusivo ao tema da pintura escolhida. Ou mais, não há limite. Os textos devem ser enviados por email para o Museu até dia 21 de Agosto.

Yao Feng fará a triagem dos trabalhos na preparação do workshop de dia 24, onde irá procurar despertar, incentivar e orientar a veia criativa dos participantes, num encontro de ideias e sensibilidades que pode até ser o início de uma forma diferente de se estar vida. “Acho que cada pessoa é um poeta potencial, essa capacidade poética pode estar a dormir em cada pessoa, mas então basta acordá-la”, respondeu o professor ao HM.

A inspiração é, por vezes, o que falta. Daí a iniciativa do MAM, em que Yao Feng vai orientar os participantes “no uso da sua imaginação, despertada pelas obras de que mais gostaram, para criarem poemas integrando as conotações da pintura na poesia, expressando sentimentos induzidos pela arte”, conforme divulga a organização do evento.

Poetas e pintura

Sob o tema “Poesia Lírica”, a exposição integrou o 2º “Encontro em Macau – Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, apresentando mais de 90 obras destacadas da colecção MAM, criadas por 60 autores que se estabeleceram ou exibiram os seus trabalhos em Macau – chineses, macaenses e portugueses – desde a década de 1980.

São pinturas a óleo, acrílicos e aguarelas, gravuras de técnica mista, esculturas e instalações “que reflectem a criatividade dos artistas contemporâneos, bem como ricas conotações culturais chinesas e portuguesas”. A singularidade da mostra é a inclusão de sete poemas, da autoria de quatro poetas locais, que estabelecem uma relação com as obras expostas. O MAM convidou, na altura, além de Yao Feng, também Wong Man Fai, Ling Gu e Un Sio San, estando os poemas igualmente em exibição nas línguas chinesa e portuguesa.

“Quatro palavras sobre Camilo Pessanha” foi a proposta de Yao Feng para a exposição, partindo da pintura de Carlos Marreiros sobre o poeta simbolista português, nascido em 1867, que viveu e trabalhou no território entre 1894 e 1926, onde viria a falecer. O poema é sobre fases da vida – que passam pelas palavras “amor”, “mar”, “arte” e “poesia” – do renomado autor de “Clepsidra”, obra traduzida para chinês pelo próprio professor.

Milagre da poesia

O workshop de poesia a partir da pintura será uma continuação desta ideia do MAM, que se estende agora à população interessada. É a primeira vez que Yao Feng faz uma oficina criativa com o Museu, mas o exercício não difere muito do que acontece na sua sala de aulas. “De facto, já tenho feito isto com os meus alunos, eu gosto sempre de dar um tema, ou uma palavra que seja muito usada e nada criativa, para que os alunos escrevam uma frase ou um verso, mas com uma linguagem criativa”, dá como exemplo.

É que “a palavra é capaz de fazer milagres”, descrever e tornar “uma coisa muito comum, muito banal, numa coisa fantástica”. Como acredita e gosta de partilhar com os seus formandos, “na poesia o improvável pode acontecer”.

O workshop é gratuito, organizado em língua chinesa, e terá um limite de 20 participantes. A inscrição deverá ser feita online no sítio electrónico do Museu. A comunidade portuguesa pode, também, aproveitar a sugestão e visitar a mostra em busca de inspiração poética.

“Aprender a observar, a olhar o mundo com olhos poéticos, também é importante para o dia a dia, porque traz novidades, traz mais beleza para a nossa vida pessoal”, é a proposta deixada por Yao Feng. Raquel Moz – Macau in “Hoje Macau”