Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 14 de julho de 2026

Moçambique - Lucílio Manjate conquista doutoramento com 20 valores e defende mais literatura nas escolas

O escritor, docente e investigador moçambicano Lucílio Orlando Manjate alcançou a classificação máxima (20 valores) na defesa da sua tese de doutoramento na Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo).


A investigação, intitulada “Estudo das representações discursivas das narrativas sobre Magaíza: um contributo para a didáctica da língua portuguesa”, propõe uma mudança na forma como a língua portuguesa é ensinada em Moçambique, defendendo o regresso da literatura ao centro do processo de aprendizagem.

Numa entrevista concedida ao jornal O País, Manjate explica que a pesquisa analisa a forma como diferentes gerações de escritores moçambicanos representaram a figura do Magaíza e demonstra como essas narrativas podem ser utilizadas para melhorar o ensino da língua portuguesa. Para o investigador, a substituição de textos literários por conteúdos institucionais e exercícios gramaticais tem contribuído para as dificuldades de leitura, interpretação e comunicação observadas entre muitos estudantes.

O académico defende que a literatura deve ser usada não apenas para ensinar gramática, mas também para formar cidadãos críticos, alertando ainda para a reduzida presença de escritores moçambicanos contemporâneos nos programas escolares. Na sua perspectiva, uma reforma curricular que valorize a literatura nacional poderá tornar o ensino mais próximo da realidade social e cultural do país.

Além do reconhecimento académico, Lucílio Manjate destacou ao O País que concluiu o doutoramento sem bolsa de estudos, conciliando a investigação com a actividade docente e contando com o apoio da família para superar os desafios do percurso. Após alcançar a nota máxima, o escritor afirma que pretende continuar a desenvolver investigações sobre a figura do Magaíza em diferentes manifestações artísticas, como a música, o cinema e as artes plásticas. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Moçambique - Paulina Chiziane e Mia Couto inspiram tese de doutoramento de docente da UniLicungo em Portugal

Os escritores moçambicanos Paulina Chiziane e Mia Couto tornaram-se tema de uma investigação de doutoramento defendida pelo docente Joel António Tiago, da Faculdade de Educação da Universidade Licungo, na Universidade de Aveiro, em Portugal.


A tese, intitulada “A Identidade Cultural, Política e Religiosa em Paulina Chiziane e Mia Couto”, foi defendida na tarde de 6 de Maio de 2026, no âmbito do Doutoramento em Estudos Literários, especialidade em Literaturas em Língua Portuguesa, sob orientação científica do Professor Doutor António Manuel Ferreira.

Segundo a UniLicungo, a investigação procurou analisar a representação da identidade cultural, política e religiosa de Moçambique através das obras O Sétimo Juramento, de Paulina Chiziane, e Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto.

O estudo teve ainda como objectivo identificar e descrever as principais marcas da moçambicanidade presentes nas obras dos dois autores, explorando questões ligadas à cultura, religião, política e construção da identidade nacional no período pós-colonial.

De acordo com a nota divulgada pela instituição, Joel Tiago destacou que Moçambique apresenta uma riqueza cultural marcada pela coexistência de vários grupos culturais e religiosos, factor que abre espaço para múltiplas abordagens científicas e literárias.

A investigação também abordou o sincretismo religioso presente na sociedade moçambicana, analisando a convivência entre religiões tradicionais africanas e outras crenças, como o cristianismo, islamismo e hinduísmo, elementos frequentemente retratados nas narrativas de Chiziane e Mia Couto.

Além dos Estudos Literários, a tese incorporou contribuições de áreas como Estudos Culturais, Ciências Políticas, Antropologia e Sociologia, reforçando o carácter multidisciplinar da pesquisa.

Com esta conquista académica, a Faculdade de Educação da UniLicungo passa a contar oficialmente com mais um doutor, num feito que a instituição considera importante para o fortalecimento da investigação científica e valorização da literatura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


segunda-feira, 25 de março de 2024

Macau - A comunidade portuguesa não está a diminuir

A investigadora Inês Branco analisou a evolução da comunidade portuguesa, desde 2013 até 2022, e concluiu não haver uma diminuição nem uma desintegração, após a pandemia


A saída dos residentes portugueses do território, durante a pandemia de COVID-19, causou a sensação de que a comunidade estava a diminuir, mas os números mantêm-se estáveis, diz a investigadora portuguesa, Inês Branco. É a principal conclusão do artigo “Conflito intergrupal e desintegração: a comunidade migrante portuguesa em Macau após a pandemia de COVID-19”, apresentado durante as Conferências da Primavera 2024, organizadas pelo Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, entre os dias 7 e 20 de Março.

Publicado na revista Biblos, da Universidade de Coimbra, este trabalho surge na sequência da tese de doutoramento da investigadora, de 2015, em que analisou os usos dos média por imigrantes, durante o processo de integração, focando na comunidade imigrante portuguesa em Macau e na comunidade imigrante nepalesa em Portugal. “Dez anos depois, ‘voltei’ a Macau para perceber o que tinha acontecido com a comunidade migrante portuguesa após a pandemia de COVID-2019”, contextualiza, depois de uma extensa cobertura nos média do território sobre “aquilo que era percebido como uma significativa partida dos portugueses”.

No fim, de acordo com a análise de dados estatísticos, revisão de literatura e entrevistas em profundidade de oito elementos da comunidade portuguesa, as principais conclusões foram: “Os resultados revelaram que as medidas rigorosas implementadas pelo Governo de Macau para alcançar zero casos de COVID-19, aliadas às repercussões do ‘umbrella movement’ em Hong Kong, causaram um conflito intergrupal e a saída de imigrantes portugueses, no entanto, não há evidências que sugiram que a comunidade esteja a diminuir ou em desintegração.”

O que dizem as entrevistas

Para este trabalho, a investigadora entrevistou oito pessoas, entre 2021 e 2022, dos 30 aos 50 anos, incluindo quem tenha permanecido no território e quem tenha abandonado, colocando-lhes três perguntas. “Será que a comunidade portuguesa está a experienciar um declínio da população?”, quis saber Inês Branco. As respostas dos inquiridos revelaram terem partido por medo de perda de liberdade de expressão. Ainda assim, os números não confirmam um declínio. “Não há evidência estatística de que a comunidade esteja a diminuir”, segundo os números do Observatório da Emigração e os dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos de Macau. “A população tem-se mantido estável e 0,3 por cento corresponde ao peso da comunidade portuguesa [na população do território]”, refere, esclarecendo que considerou, para este efeito, apenas “residentes de Macau, nascidos em Portugal e que tenham de facto emigrado”.

“Estará a comunidade a tornar-se menos integrada na região ou a mostrar sinais de desintegração?”, perguntou Inês Branco. De acordo com a investigadora, mantém-se integrada, ainda que com diferenças em relação ao que acontecia há uma década. “Alguns dos entrevistados diziam sentir-se, há dez anos, pessoas de Macau e, neste momento, alguns dizem sentir-se imigrantes portugueses”, exemplifica. “Ainda assim, há provas de que a comunidade continua a ter um papel importante na preservação da identidade de Macau”, diz, referindo: “O Governo Central chinês continua a atribuir um papel significativo, que está diretamente ligado ao papel da comunidade portuguesa enquanto guardiões dessa identidade. Têm sido feitos esforços, por parte do Governo de Macau, para continuar a valorizar a língua portuguesa, como suporte do papel do território, enquanto plataforma sino-lusófona.”

Por último, a terceira questão incidiu sobre o papel da língua portuguesa no território, mas a investigadora também não considera que esteja em declínio. “O português é falado por muito pouca gente no território, a sua importância não é determinada pelo número de falantes em Macau, mas sobretudo pela posição do território enquanto centro de ensino e pesquisa de uma daquelas línguas oficiais, neste caso, a língua portuguesa”, esclarece.

Porque permaneceram no território?

Além de “questões relacionadas com liberdade, percebidas como estando em erosão em Macau”, aqueles que decidiram permanecer no território, apresentam também outras razões. Por um lado, invocam motivações de carácter pessoal, identificando-se como cidadãos de Macau, para além de motivos profissionais, relacionados com a vitalidade da economia do território.

Com os dados estatísticos deste artigo a referirem-se a 2022, é caso para perguntar se poderá haver mudanças quando saírem dados mais recentes. “Da minha percepção, é que também há gente a chegar a Macau, o que acontece é que as dificuldades na atribuição de vistos [e de BIR] pode ser um problema para quem queira lá ficar”, diz.

Ainda assim, realça a investigadora, “não há quaisquer provas de desintegração” e, na verdade, ao longo das centenas de anos que lá se encontra, “a comunidade tem consistentemente demonstrado uma capacidade de adaptação à adversidade”. Luciana Leitão in “Ponto Final”


Macau - Um lugar de convivência harmoniosa entre culturas: realidade ou utopia?

Intitulada “Macau como ideia, metáfora de uma utopia”, a investigação do jornalista português Hugo Pinto defende que, nos últimos anos da administração portuguesa, se formou uma ideia de Macau: o território seria um lugar de coexistência pacífica entre diferentes culturas


No final da década de 1990, criou-se a ideia de que em Macau ocorria uma convivência harmoniosa entre diferentes culturas, transformando, assim, os discursos políticos da época, defende o jornalista Hugo Pinto. Intitulada “Macau como ideia, metáfora de uma utopia”, a tese de doutoramento, ainda numa fase inicial de investigação, foi apresentada, pela primeira vez, nas Conferências da Primavera 2024, organizadas pelo Centro Científico e Cultural de Macau, que decorreram entre os dias 7 e 20 de março, em Lisboa.

Segundo o investigador, esta “idealização ocorreu de forma mais estruturada nas décadas finais da administração portuguesa do território”, um momento que se prestava “a uma interpretação do passado à luz das interrogações do presente, que era marcado, então, pelas incógnitas do futuro.”

Mas, mais do que apenas uma ideia criada, este processo veio a resultar “na transformação de Macau, em certos discursos, como símbolo e exemplo de uma ideia de convivência harmoniosa de diferentes culturas, sendo isto parte da afirmação de uma identidade singular – uma identidade única e diferenciada no contexto da Grande China.”

Uma ideia construída em obras ensaísticas

Não se tratando de uma investigação do domínio da História, salienta Hugo Pinto, mas dos Estudos da Cultura, interessa para este trabalho “a análise das representações culturais e ideológicas de Macau e da sua história a partir de obras ensaísticas”, consideradas ilustrativas e estruturantes de um certo discurso. São elas: “A história e os homens da primeira república democrática do Oriente: biologia e sociologia de uma ilha cívica”, de Almerindo Lessa; “Os extremos conciliam-se – Transculturação em Macau”, de Benjamim Videira Pires; “Segredos da sobrevivência: história política de Macau”, de Wu Zhiliang; “Macau, the imaginary city”, de Jonathan Porter.

Tratando-se de obras das décadas finais da administração portuguesa de Macau, “desses trabalhos sobressai uma visão celebratória de um território entre dois mundos, mas marcado por várias especificidades”, uma ideia que se alastra aos campos mediático, cultural e político.

Para contrapor esta ideia criada, Hugo Pinto analisa alguns trabalhos académicos. “Por exemplo, o estudo ‘Sovereignty at the Edge – Macau and the Question of Chineseness’, de Cathryn Clayton, que, entre outros aspetos, expõe aquilo que a autora considera ser uma reformulação eufemística do passado de Macau, levada a cabo pelo último governo português do território, para justificar um legado histórico fundado nas boas relações luso-chinesas e, assim, estimular a adesão a uma determinada identidade de Macau por parte da sua população chinesa, principalmente a nascida no território”, diz.

A definição da identidade de Macau

Hugo Pinto sublinha que, ao longo da história de Macau, “há tradição de narrativas construídas com um determinado objetivo”, com as questões da identidade a assumirem particular relevância.

Nos últimos anos da administração portuguesa, a definição da identidade era uma natural preocupação, por ser considerado “crucial para a sobrevivência de Macau e do seu modo de vida, na iminência da transferência para a administração da República Popular da China”.

Dado o contexto da época, Hugo Pinto defende que nessas obras está “a representação de Macau, enquanto lugar único de encontro pacífico de culturas, num espírito de ecumenismo devedor da vocação universalista do expansionismo português, que se tornou numa das idealizações mais marcantes da cultura portuguesa, e que foi também utilizada como chave de interpretação histórica sobre a presença portuguesa em Macau”.

Nessa representação, há “um processo de idealização” do território, representando, então, “Macau enquanto lugar de encontro pacífico de culturas, um entendimento propagado através de um discurso que vai atravessar épocas e regimes políticos.”

A biografia

Hugo Pinto viveu e trabalhou como jornalista durante 16 anos em Macau, entre 2005 e 2021, alguns dos quais no Ponto Final. Entre 2015 e 2020, esteve envolvido no programa “Falar de Memória”, que contou com a participação do jornalista e investigador João Guedes. Já em Portugal, entre 2020 e 2022, assinou no jornal Ponto Final uma coluna de opinião, onde abordou diversos temas da história de Macau. Em Portugal, integrou a equipa do jornal Observador, e está agora dedicado à investigação, pela Universidade de Lisboa, ao abrigo de uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia, tendo o Centro Científico e Cultural de Macau como instituição de acolhimento. Luciana Leitão – Macau in “Ponto Final”