Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 2 de maio de 2026

Macau - Rodrigo Leal de Carvalho e o difícil acesso às suas obras

Num congresso online de homenagem à vida e obra de Rodrigo Leal de Carvalho, falou-se sobre aquele que é considerado um dos grandes ficcionistas do território pelos investigadores da área. E mencionou-se que a literatura de Macau é pouco valorizada, tornando-se difícil encontrar os livros da península asiática

Com a literatura de Macau, em língua portuguesa, a ter pouco destaque fora da região, é difícil ter acesso às obras dos escritores do território, como Rodrigo Leal de Carvalho. Os investigadores Dora Gago, Lola Xavier, David Brookshaw, Mónica Simas e Pedro d’Alte, em conjunto com o editor do autor, Rogério Beltrão Coelho, juntaram-se online num congresso, no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, projecto impulsionado pelo historiador Rogério Miguel Puga, para discutir a obra e a vida do ficcionista do território.

O programa começou com a apresentação de Dois Olhares sobre a Obra de Rodrigo Leal de Carvalho, de Dora Gago e Anabela Freitas. “É o único livro que fala só sobre Rodrigo Leal de Carvalho — permite compreender melhor, valorizar e dar mais visibilidade à literatura de Macau em língua portuguesa”, divulgando e estudando a obra deste ficcionista. Trata-se de um livro que Lola Xavier, professora da Universidade Politécnica de Macau, considera particularmente importante, dado que as literaturas africanas e de Macau “continuam a ser vistas como periféricas”, havendo, por isso, pouca informação.

Rodrigo Leal de Carvalho era juiz e viveu grande parte da sua vida em Macau, referindo-se a esta como como a sua “pátria de adopção”, conforme citado no livro de Dora Gago e Anabela Freitas, numa entrevista. Com o maior número de romances escritos sobre Macau, a sua obra retrata o território, no século XX, e “quase todos os livros têm uma fundamentação real” ou são inspirados em cenas verdadeiras, “manipuladas, em alguns casos, ao interesse romanesco” da história, reflecte Lola Xavier.

A professora da Universidade Politécnica de Macau identifica algumas das características da escrita e temáticas encontradas na obra de Rodrigo Leal de Carvalho, como a visão positiva em relação aos macaenses, o retrato da mulher gentil e feminina, o território como espaço de encontro de culturas e a miscigenação.

O magistrado “discreto”, que não aceitava críticas

O editor do romancista, Rogério Beltrão Coelho, responsável pela Livros do Oriente, conheceu-o, pela primeira vez, em 1992, e quis publicá-lo. “Entre hesitações do autor e ultrapassada a vontade de usar um pseudónimo”, em Janeiro de 1993, nasce o Requiem por Irina Ostrakoff. “Estávamos perante um romance histórico, romance-saga ou romance psicológico, no qual eram interceptados factos históricos, tudo com uma rara qualidade literária”, descreve o editor, esclarecendo que se tratava de um apelo à situação dolorosa dos refugiados. Um livro que lhe valeria, no ano seguinte, um prémio do Instituto Português do Oriente, vindo, posteriormente, a ser traduzido para chinês e para búlgaro.

Nos títulos que se seguiram, nota-se a “ligação visceral a Macau, que é sempre apaixonada e irónica, sem deixar de exercer a crítica”. Elogiando a sua capacidade de recriar ambientes, usando uma linguagem moderna, Beltrão Coelho destaca o “levantamento das personagens” e a análise psicológica.

Como temperamento, Beltrão Coelho descreve-o como discreto, tanto que nunca ninguém pensou que pudesse ser autor de Requiem por Irina Ostrakoff, dado o comportamento “conservador, tímido e reservado”. Por isso, no dia do lançamento, havia muita curiosidade e expectativa, tratando-se este “do mais concorrido lançamento de sempre de um livro em Macau”, com 300 pessoas a acorrerem.

Nos outros títulos, que sempre contaram com uma larga presença de pessoas nos seus lançamentos, mantinha sempre “a preocupação com o estatuto de magistrado discreto” e era exigente com a discrição das capas. “Ia tendo um colapso quando apresentei a capa do Romance de Yolanda”, que era apelativa, mas, receoso do que os seus pares iriam dizer, viria a sair “com outra bela capa inofensiva”.

Em 2007, lançou As Rosas Brancas do Surrey, o seu último livro, em que a “escrita retoma a tradição de folhetim”, numa colaboração entre o jornal Ponto Final e a Livros do Oriente.

Na última Feira do Livro em que se cruzou com o autor, Leal de Carvalho chegou a falar com Beltrão Coelho sobre um enredo para um futuro romance. “Passados anos ainda insisti, mas sem resposta e, recentemente, perguntei junto da família por um romance inédito”, declara. Mas disso não há conhecimento.

No fim da apresentação, Beltrão Coelho, deixa a pergunta no ar. “Não será Leal De Carvalho o mais importante escritor que se refere ao Extremo Oriente”, na senda de um Rudyard Kipling ou de um Somerset Maugham?

Descrevendo-o ainda como um homem “teimoso”, com dificuldade em aceitar comentários, refere que tinha muitos amigos em Macau, deixando uma “obra notável”. “As pessoas de Macau viam nele as histórias que eles próprios conheciam e que estavam ali relatadas”, diz, esclarecendo que muito do que era escrito tinha por inspiração pessoas ou eventos nos quais esbarrou, no decurso do trabalho como magistrado. “No caso da Irina, aconteceu quando foi preciso dar vazão ao seu espólio”, recorda.

As características literárias

Pedro d’Alte, docente na Universidade Politécnica de Macau, destacou a importância de Rodrigo Leal de Carvalho, identificando-o como o autor do território com mais romances editados.

Como principais características, o professor refere que as obras demonstram “contornos de comunicação intercultural”, havendo, ao longo dos seus livros, muitas vezes, “várias explicações sobre questões de linguagem, com a presença de frases ou expressões em cantonense ou mandarim e inglês, que contribuem para criar uma esfera de exotismo”.

Além disso, destaca o investigador, Leal de Carvalho inclui, na sua obra, personagens femininas densas que contribuem para a construção da história local, com um narrador confiável.

Falta, porém, “contrariar a redoma literária”, diz, referindo-se ao desconhecimento generalizado que existe sobre a literatura de Macau. “Enquanto não tivermos estas obras a serem estudadas para exame, dificilmente vamos cumprir o propósito lusófono, pelo menos naquilo que têm de mais positivo”, diz.

Fernandes e Carvalho: o duopólio da ficção literária

David Brookshaw, professor da Universidade de Bristol, recorda que conheceu Leal de Carvalho em 1999, identificando-o como “um dos romancistas mais prolíficos de Macau”, a par de Henrique de Senna Fernandes”. Para o investigador britânico, os dois autores constituíam “o duopólio da ficção literária” naquele território.

Entre as principais diferenças entre ambos, Brookshaw destacou as fontes. “Para Fernandes, as fontes situavam-se no romantismo de meados de século XIX, enquanto, para Carvalho, no realismo que se seguiu”, diz.

Além disso, Fernandes defendia a identidade macaense, revelando uma noção da “futura família com visões mais progressistas”, enquanto mantinha “um valor moral permanente por eventos históricos” e Carvalho “inspirava-se nos grandes escritores do realismo e no estudo do sistema patriarcal contra um pano de fundo em que as suas personagens eram vítimas de grandes eventos históricos”. No fundo, “a manutenção da família patriarcal produtiva, embora mais liberal, de Fernandes, transforma-se na família desintegrada de Carvalho.”

Por outro lado, a professora brasileira Mónica Simas reflecte ainda sobre as personagens comuns nos vários romances do autor, contribuindo para o cruzamento de histórias. “É como se o escritor estivesse a prolongar a sua estada e chegada através de uma única narração”, diz.

Já Dora Gago optou por abordar as identidades transplantadas na obra deste escritor, neste congresso. “O conceito de identidade transplantada implica um sujeito arrancado do seu contexto de origem, que se tenta reescrever no espaço”, esclarece. “Macau sob administração portuguesa é um espaço paradoxal — um enclave colonial na China e refúgio de milhares de deslocados”, afirma, acrescentando: “Nos romances, Macau é porto de abrigo, território de marginalidade social e laboratório de convivência e multiculturalidade.”

Organizado pelo Centro de Humanidades (CHAM) e Centro de Estudos Ingleses, de Tradução e Anglo-Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e pela Universidade de Veneza – Ca’Foscari, este congresso online, de homenagem ao romancista e juiz, Rodrigo Leal e Carvalho, que morreu, no dia 24 de Janeiro, aos 93 anos, insere-se no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, promovido por Rogério Miguel Puga. Luciana Leitão – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Macau – Conferência “A Missão Cultural para o Desenvolvimento e a Construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”

O académico português Rogério Miguel Puga, da Universidade Nova de Lisboa, é um dos oradores convidados da conferência que arranca este domingo, intitulada “A Missão Cultural para o Desenvolvimento e a Construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, promovida pelo Governo. Ao HM, o investigador revela que vai abordar sobretudo “o papel pioneiro de Macau nas relações sino-ocidentais desde o século XVI”, um ponto diferenciador face às restantes cidades que integram o projecto político de Pequim



Muito se fala do projecto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau como o próximo hub tecnológico do sul da China, à semelhança de Silicon Valley, nos Estados Unidos. Contudo, o Governo da RAEM decidiu olhar para o projecto desenvolvido pelo Governo Central de uma perspectiva cultural, ao organizar a conferência “A Missão Cultural para o Desenvolvimento e a Construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. A iniciativa é da Direcção dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional, liderada por Mi Jian, e tem lugar entre este domingo e a próxima quarta-feira, dia 14.

Um dos convidados portugueses é Rogério Miguel Puga, académico da Universidade Nova de Lisboa (UNL) que se tem debruçado nos últimos anos sobre o estudo da história e cultura de Macau e que vai falar da importância que o território tem para a história e cultura da zona da Grande Baía.

Ao HM, o investigador adiantou o tema da sua palestra. “Falarei sobre o papel pioneiro de Macau nas relações sino-ocidentais desde o século XVI, sobretudo até à fundação de Hong Kong pelos britânicos”. À data, o pequeno território no sul da China teve um papel “primordial como porta de entrada dos ocidentais na China e de saída de chineses, onde, nessa câmara de descompressão cultural, se habitavam as costumes e línguas ocidentais”.

Macau desempenhou esse papel “único” até ao século XIX, possuindo uma importante história no contexto do Delta do Rio das Pérolas, na China, em Portugal (a nível nacional) e a nível internacional, pois “a partir do ano de 1700 chega a Companhia das Índias Inglesas e no final do século XVIII os norte-americanos”.

Primeira em quase tudo

Não é por acaso que Pequim deseja que Macau desempenhe um papel primordial no contexto da Grande Baía, dando um enorme destaque político ao seu posicionamento. Rogério Miguel Puga recorda que foi em Macau que começou quase tudo o que estava ligado ao Ocidente.

“Foi através do território que se introduziu a medicina ocidental na China, onde houve o primeiro hospital e a primeira universidade ocidentais na China, teve o primeiro farol ocidental e a primeira imprensa ocidental. Aliás, os marcos históricos das relações sino-ocidentais até 1842 envolvem sempre Macau”, recorda.

O Templo de Kun Iam foi o local escolhido para a assinatura do primeiro tratado sino-americano, algo que aconteceu “na mesa de pedra que ainda lá está”. O território acolheu também o primeiro museu na China, organizado por ingleses e americanos, “a primeira biblioteca em língua inglesa e foi o espaço feminino do comércio ocidental na China, pois as mulheres ocidentais não podiam entrar na China”.

Estas ficavam então estabelecidas em Macau, “onde ajudavam a cuidar dos negócios dos maridos quando eles subiam a Cantão, como aconteceu com Rebecca Kinsman, cujo marido está sepultado no Cemitério Protestante de Macau”.

Neste sentido, o académico português considera que “a dimensão histórica e cultural da Grande Baía, nomeadamente no que diz respeito às relações sino-ocidentais, não pode ser esquecida, e este congresso é prova de que não está a ser”. “Macau foi pioneiro nas relações exteriores da China e tem uma relação especial com Portugal, podendo reclamar a si esse papel simbólico”, acrescentou.

“Uma posição ímpar”

Tendo em conta todo este manancial histórico, Rogério Miguel Puga defende que o Governo deve fomentar o relacionamento de Macau com o espaço lusófono, pois o território foi “o primeiro espaço-fronteira de contacto contínuo com ocidente, onde sempre houve tolerância cultural”. Deve-se, por isso, “estimular as relações com os países lusófonos e continuar a rentabilizar, em termos de património e de turismo cultural, a dimensão portuguesa do passado histórico da cidade. Como, aliás, tem sido feito”.

Questionado sobre a preservação da cultura macaense face a outras expressões culturais da China, Rogério Miguel Puga adiantou que devem ser aproveitadas as “especificidades culturais e históricas, como RAEM da China, para destacar a sua identidade própria no seio da China multicultural e diversificada”.

Macau “é uma cidade-fronteira e de contacto desde o século XVI, virada para o mar, que nasceu da pesca e do comércio internacional, logo é um símbolo essencial e antigo da Grande Baía e da actual Rota da Seda, é um Janus cultural, como alguém já lhe chamou”.

No que diz respeito a Hong Kong, Rogério Miguel Puga acredita que existem “objectivos idênticos, comuns”. “Deve ser levado a bom porto os objectivos do desenvolvimento sustentável da Grande Baía, também através das relações e dos negócios com o estrangeiro. Deve existir um papel local, regional, nacional e internacional, como Macau sempre teve”, frisou.

Outras áreas abordadas

O HM contactou a Direcção dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional no sentido de saber a lista completa de oradores. O organismo dirigido por Mi Jian esclareceu que foram convidados para o evento “60 académicos, incluindo dois portugueses”. Até ao fecho da edição, não o HM não conseguir confirmar a identidade do outro convidado português.

A conferência irá debruçar-se sobre áreas como a história, filosofia, religião, política, Direito, linguagem, arte e literatura nas nove cidades que compõem a iniciativa da Grande Baía.

O Governo de Macau justifica a realização desta conferência com o facto de Macau “ter uma missão muito explícita e específica que é diferente de outras cidades da Grande Baía”, uma vez que o próprio projecto do Governo Central tem a missão de se desenvolver “na base do intercâmbio e cooperação onde a cultura chinesa é a base e diversas culturas coexistem”.

Além disso, este papel constitui “uma afirmação das raízes profundas de Macau no que diz respeito ao seu estatuto cultural e histórico”, sendo que Pequim “depositou grandes expectativas para o próximo papel que Macau irá desempenhar no intercâmbio cultural global e na integração”.

A direcção de serviços liderada por Mi Jian relembra ainda que “a história única de Macau formou uma ecologia cultural muito especial”, existindo não apenas uma forte presença da cultura chinesa, mas também de um multiculturalismo “baseado na cultura Ocidental, que tem vindo a espalhar-se”.

A realização desta conferência tem como objectivo “responder à confiança e expectativa do país” e também demonstrar “as características humanísticas únicas e o charme da coexistência multicultural de Macau”, sem esquecer a promoção do conceito de “construir uma comunidade com um futuro partilhado em mente”. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”