Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Angola - 25 em cada 100 jovens com mais de 5 anos nunca frequentou a escola

Número ascende A 7,6 milhões de pessoas. Os indicadores do Censo 2024 destapam a falta de investimento, e até de cuidado, na implementação de políticas públicas para melhorar o desempenho do sistema de educação, que é essencial para dotar a população de ferramentas que ajudam a quebrar ciclos de pobreza e de exclusão social


Os resultados do recenseamento geral da população e da habitação realizado em 2024, apesar das dúvidas sobre a qualidade da informação recolhida, trazem vários indicadores e pistas para entender melhor o País. No caso da educação, mesmo considerando alguma evolução em determinados segmentos, o Censo 2024 revela que, entre os 31,4 milhões de angolanos com mais de 5 anos, mais de 7,6 milhões nunca frequentaram uma escola. São quase 25 em cada 100 cidadãos acima dos 5 anos (24,2%).

Entre o elevado número de pessoas que nunca viram uma carteira escolar ou um professor, 4,4 milhões são mulheres, enquanto 3,2 milhões são homens, o que assinala uma disparidade de género no acesso à educação, em prejuízo do sexo feminino. Segundo os cálculos do Expansão, tendo em conta os resultados do Censo 2014, a proporção de pessoas que nunca frequentaram um estabelecimento de ensino aumentou na última década: passou de 22,5% (4,7 milhões entre 20,8 milhões de cidadãos com mais de 5 anos) para os referidos 24,2% apurados em 2024.

A mesma realidade verifica-se entre os 5 e 18 anos, onde a percentagem da população fora do sistema de ensino "aumentou em 12 pontos percentuais entre 2014 e 2024, passando de 22%, em 2014, para 34%, em 2024". "O maior aumento verifica-se no grupo etário 12-14 anos", admite o Instituto Nacional de Estatística no relatório final do Censo 2024.

"São factores como a pobreza, a falta de infraestruturas escolares nas zonas rurais, barreiras culturais, desigualdade de género e as limitações no acesso à educação, especialmente em áreas remotas, que justificam esta situação", explica Lando Pedro, professor universitário e especialista em Educação. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Moçambique - Memba: Pobreza e desigualdade estão por trás da insurgência?

Em Moçambique, o distrito de Memba, em Nampula, voltou a ser palco de ataques de grupos armados. Um investigador liga a nova vaga de violência à pobreza extrema e às desigualdades sociais numa zona que já era apontada como corredor de recrutamento para a insurgência de Cabo Delgado. A crise humanitária cresce, enquanto o governo diz estar a reforçar meios militares e prepara o regresso gradual das famílias.


Os primeiros ataques em Memba, no posto administrativo de Chipene, aconteceram em Setembro de 2022, com mortos e destruição. Depois de um período de relativa calma, a violência reapareceu de forma esporádica e intensificou-se nas últimas semanas, empurrando populações inteiras para fora das suas aldeias.

O académico Wilson Nicaquela diz que há sinais de criação de células armadas na fronteira com Cabo Delgado: “Memba foi um dos centros de recrutamento de terroristas que engrossaram as fileiras lá do lado de Cabo Delgado. E é do conhecimento de todos que muitos dos terroristas que foram pressionados de Cabo Delgado preferiram mudar-se de lá e/ou simularam o abandono das suas fileiras. Depois regressaram às zonas de origem”, disse.

Memba tem potencial turístico e recursos naturais, com destaque para reservas de petróleo. Em 2017, segundo noticiou a VOA, a Petrona, uma empresa da Malásia, era apontada como a empresa que iniciaria a prospecção e a exploração de uma área entre Pemba e Memba. Sobre isso, não há informações mais actualizadas. Ainda assim, falta quase um pouco de tudo. A precariedade e falta de infra-estruturas associadas aos difíceis acessos rodoviários são alguns dos maiores problemas que tiram o sossego às populações.

Wilson Nicaquela entende que além dos recursos naturais, com destaque para a provável ocorrência dos hidrocarbonetos, a pobreza extrema e as desigualdades sociais são uma das causas do terrorismo na região.

Mas também há um outro elemento a considerar; uma mensagem política. “Embora o modo de actuação seja similar, no caso de Memba eu acho que tem outras mensagens; uma é a de vincular à pessoa da Presidente da Assembleia da República [Margarida Talapa, nascida na região] e outra de chamar atenção de que se o poder político acha que eles estão confinados, têm condições de alastrar a guerra e ir ao encontro de outros espaços geográficos. Acham que a Presidente da Assembleia tem essa competência necessária para decidir resolver os problemas por iniciativa própria”, disse.

Os recentes ataques já causaram pelo menos uma dezena de mortes e forçaram o deslocamento de mais de 80 mil pessoas, de acordo com dados recentes. Muitos dos deslocados internos foram acolhidos em Alua.

Mariano Saíde Salimo é uma das vítimas deslocadas da região de Mazua, distrito de Memba, acolhido em Alua. Lamenta a situação que se vive na região. Mas a dor aumenta com a fome e as precárias condições que passam para sobreviver diante das incertezas.

“Somos muitos, outros estão nas aldeias. Mesmo se trouxessem três camiões de produtos, podem não resolver. Assim estamos espalhados, numa casa pode encontrar 60 a 70 pessoas”.

Messias Cassimo é um outro deslocado. Saiu de Namajuba junto com a família à procura de abrigo seguro. “Queimaram todas as casas que estão lá, infelizmente ninguém ficou. Estamos a pedir ajuda em alimentação e construção de casas”, pediu.

Apesar disso, a população que foge dos terroristas quer voltar para dar continuidade à sua vida e Mariano Saíde Salimo reforça apelos.

“Nós estamos a pedir ao governo que nos ajude, queremos voltar a casa. Mas aqui [em Alua] receberam-nos bem e agradecemos”, exortou.

As autoridades governamentais continuam a mobilizar apoio para os deslocados nos centros transitórios de deslocados. Na semana passada, um grupo de deputados liderados pela respectiva presidente foi entregar em Alua mais de 60 toneladas de produtos alimentares.

O governador de Nampula, Eduardo Abdula, garantiu que as forças de defesa e segurança trabalham para perseguir e tirar fora de combate os terroristas e que, nesta semana, a região poderá acolher os primeiros regressados.

“Durante a primeira semana de Dezembro, começam a regressar e os primeiros a voltar sou eu e os jornalistas. Vamos entrar lá e vamos trabalhar lá. Eu não vos levaria se não houvesse condições”, assegurou.

Na passada quinta-feira, o governador de Nampula ofereceu às forças armadas de Moçambique drones para uso na perseguição e combate ao terrorismo, nas regiões afectadas na província de Nampula.

“Há traidores dentro das comunidades”, diz governador

No decurso de uma visita a zonas afectadas pelo terrorismo, o governador de Nampula Eduardo Abdula chamou a atenção para possíveis infiltrados entre os residentes. “Há traidores dentro das comunidades, por isso precisamos de maior vigilância”, comentou. Mais de 10 mil pessoas fugiram em dois dias de Memba, Nampula, devido a ataques de grupos terroristas, elevando a 82 mil deslocados desde 11 de Novembro, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Até 23 de Novembro, o total de deslocados ascendia a 14.172 famílias (71.983 pessoas), segundo o relatório anterior da OIM. A província de Cabo Delgado, também no norte de Moçambique, rica em gás, é alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 5 de Outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Deutsche Welle”


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Timor-Leste - Organizações da sociedade civil apoiam estudantes contra injustiças

Várias organizações da sociedade civil de Timor-Leste juntaram-se ontem ao terceiro dia de protesto dos estudantes universitários em Díli para denunciar as injustiças sociais que permanecem no país


“Também nós conhecemos e sentimos as injustiças no nosso país”, disse à Lusa Pipitu Kadalak, coordenador da comunidade LGBTQ timorense, após um discurso público na manifestação em frente ao Parlamento Nacional. “Vejo que o povo não vive bem. Trabalhei anteriormente na PLAN Internacional, em áreas rurais, e constatámos que muitas pessoas vivem em situação de pobreza, muitas não têm acesso a água potável, não têm acesso a infraestruturas de qualidade, nem a uma educação adequada. Isto constitui uma grande falha do Estado, que afirma ter compromisso com o desenvolvimento, mas na realidade não apresenta resultados”, lamentou o activista.

O coordenador da comunidade LGBTQ criticou também os deputados por não apresentarem resultados das suas ações de fiscalização.  “Os deputados dizem que fiscalizam junto do povo, mas onde estão os resultados? Isso é o que exigimos”, afirmou Pipitu Kadalak.  “Enquanto eles [os deputados] não eliminarem as pensões vitalícias e não melhorarem as condições de vida da população, nós continuaremos firmes ao lado dos estudantes”, disse.

Também junto dos estudantes estava a organização que luta pelos direitos das pessoas com necessidade especiais. “Timor-Leste transformou-se num Estado falhado. As escolas estão degradadas, em ruínas, não há professores suficientes, o setor da saúde enfrenta dificuldades, a agricultura está fragilizada e a taxa de má nutrição aumenta. Eles não veem isso?”, questionou Justino da Costa, representante do movimento de pessoas com necessidades especiais.

Justino da Costa também declarou apoio aos estudantes universitários para “formar uma força de resistência contra a injustiça no país”. “É preciso acabar com as pensões vitalícias para pôr fim ao poder abusivo e alocar esses recursos para setores estratégicos”, disse Justino da Costa, salientando que o subsídio dado às pessoas com deficiência é de 60 dólares.

O diretor executivo da Associação HAK, organização não-governamental de defesa dos direitos humanos, Feliciano da Costa, também deixou críticas aos deputados por discutirem assuntos que apenas defendem os seus interesses.  “Caros elementos da PNTL que estão aqui presentes, com uniformes já gastos e salários que os governantes nunca se preocuparam em rever. Mesmo assim, pedem aos polícias que vos garantam segurança”, disse Feliciano da Costa.

Feliciano Costa falou também em defesa do mar de Timor-Leste, lamentando a falta de condições para o seu patrulhamento.  “Se possível, comprem barcos para a Polícia Marítima, para que possam sobreviver e equipem-nos com uniformes”, disse aos deputados e aos governantes timorenses, pedindo-lhes que na discussão do próximo Orçamento de Estado se foquem na segurança, educação, saúde e infraestruturas básicas.

O terceiro dia de protestos dos estudantes universitários timorenses, o dia com o maior número de pessoa, está a decorrer sem incidentes. Os jovens estão também a receber apoio dos cidadãos timorenses, que estão a contribuir com água e alimentos. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Guiné-Bissau - Análise do Capital Humano

O capital humano é um pilar fundamental do crescimento sustentável e da redução da pobreza. Inclui os conhecimentos, as competências e a saúde que os indivíduos acumulam ao longo das suas vidas, permitindo-lhes atingir o seu potencial como membros produtivos da sociedade. Para melhorar o capital humano e acelerar o crescimento económico e o desenvolvimento, a Guiné-Bissau deve dar prioridade aos esforços para garantir a saúde e a educação das crianças

O reforço do capital humano é essencial para os esforços de redução da pobreza na Guiné-Bissau e para impulsionar o crescimento sustentável do país a longo prazo. Os investimentos na saúde, nutrição e educação são fundamentais para permitir que os indivíduos atinjam o seu pleno potencial e contribuam para a produtividade económica.

No entanto, os indicadores atuais do Índice de Capital Humano revelam perdas de capital humano na Guiné-Bissau, o que leva a uma redução da produtividade económica.

Embora a taxa de sobrevivência das crianças desde o nascimento até aos cinco anos seja de 94,4%, cerca de 33% das crianças entre os 6 e os 11 anos nunca frequentaram a escola e as taxas de conclusão do ensino primário são baixas (27% em média), principalmente devido à elevada taxa de reprovação. Tanto a taxa de sobrevivência das crianças com menos de cinco anos como o desempenho escolar são diretamente afetados pela subnutrição, que também tem um impacto direto na produtividade do trabalho.

A taxa de mortalidade na Guiné-Bissau diminuiu de 18,7 para 13,6 por 1000 pessoas-ano entre 2000 e 2019, mas a taxa de sobrevivência dos adultos ainda é baixa, 83%, e a mortalidade materna é elevada.

Constrangimentos transversais como os desafios climáticos, as desigualdades de género, a fragilidade e a governação impedem o reforço e a preservação do capital humano. As alterações climáticas afetam dramaticamente áreas como a segurança alimentar, a água potável e o saneamento, a saúde e a educação. A desigualdade de género tem implicações importantes para a saúde, a educação e as oportunidades económicas das mulheres e das raparigas.

Vulnerabilidades económicas e desafios de proteção social

A economia da Guiné-Bissau depende fortemente da agricultura como principal setor económico, o que torna o país suscetível a choques e fatores externos. Uma parte significativa da força de trabalho está envolvida em atividades do setor informal, que carecem de segurança no emprego, estabilidade e acesso a benefícios essenciais. A combinação de salários baixos e de oportunidades de emprego limitadas conduziu a uma crise de pobreza generalizada, que se agrava nas zonas rurais e que, em grande medida, não é mitigada pela proteção social. A taxa de pobreza entre os trabalhadores das zonas rurais é de 60,0%, em comparação com 23,5% nas zonas urbanas.

Os mecanismos de proteção social na Guiné-Bissau têm uma cobertura limitada em relação à dimensão dos grupos populacionais a que se destinam. A cobertura dos dispositivos de proteção social contributiva é extremamente baixa, principalmente devido à pequena dimensão do setor formal da economia. Os programas de assistência social são extremamente limitados - o financiamento complementar dos doadores é essencial - causando baixa cobertura, fragmentação e potencial de duplicação.

Ações-chave para melhorar o capital humano

  • Melhorar o acesso aos cuidados de saúde e reforçar a qualidade dos mesmos.
  • Melhorar a nutrição das mulheres grávidas e das crianças com menos de cinco anos para evitar efeitos negativos no seu desenvolvimento físico e cognitivo.
  • Expandir os programas de desenvolvimento da primeira infância.
  • Melhorar o desempenho dos professores e garantir a disponibilidade de materiais de ensino e aprendizagem.
  • Prestar apoio ao rendimento das famílias vulneráveis através de transferências monetárias, juntamente com medidas de acompanhamento.
  • Desenvolver medidas de inclusão económica para apoiar os agregados familiares pobres e com formação académica desempregados nas zonas rurais.
  • Investir em instituições reforçadas para direcionar adequadamente os esforços mencionados acima, nomeadamente um registo social nacional.

Aceda ao relatório do Banco Mundial aqui. Banco Mundial


quinta-feira, 10 de abril de 2025

Timor-Leste - Desigualdades contribuem para exclusão das mulheres, diz relatório

As desigualdades continuam a afectar as mulheres em Timor-Leste o que contribui para a pobreza e para a exclusão baseada no género, segundo um relatório temático sobre análise de género apresentado em Díli



O relatório foi feito a partir dos dados do Censo da População e Habitação de 2022 do Instituto Nacional de Estatística timorense com o apoio de várias agências do sistema das Nações Unidas.

O documento refere que o casamento precoce continua a ser uma preocupação com 12% das mulheres, com idades entre os 20 e os 24 anos, a terem casado antes dos 15 anos e 4,9% antes dos 18.

Segundo o relatório, os agregados familiares chefiados por mulheres, que representam cerca de 17,8% do total, são mais pobres e a dupla responsabilidade de cuidados diminui as suas oportunidades económicas. “A intersecção entre a pobreza, a exclusão do mercado de trabalho e as vulnerabilidades de género sublinha a marginalização contínua das mulheres, especialmente as dos grupos mais desfavorecidos”, salienta o documento.

Apesar de a esperança de vida à nascença para as mulheres ser maior, 69,2 anos, a taxa de mortalidade materna mantém-se elevada com 413 mortes por 100.000 nascimentos.

Apenas 59,2% das mulheres rurais receberam assistência qualificada no parto, em comparação com 91,8% nas zonas urbanas, refere o relatório. “Estas disparidades são ainda moldadas pelas variações no nível de educação materna e na riqueza dos agregados familiares”, pode ler-se no documento.

Em relação à educação, o relatório releva avanços com mais raparigas do que rapazes a frequentarem o ensino primário, secundário e universitário. Mas, mesmo com o aumento no acesso à educação, persistem disparidades na literacia com 33% das mulheres a nunca terem frequentado a escola, o que reforça os ciclos geracionais de pobreza e marginalização.

O relatório destaca que um dos “fatores mais críticos que impulsiona a pobreza baseada no género é a fraca participação das mulheres na força de trabalho”.

A taxa de participação na força de trabalho para as mulheres é de apenas 29,7%, o que significa que por cada 100 homens a trabalhar há apenas 70,9 mulheres. “As mulheres estão desproporcionalmente envolvidas em emprego vulnerável (50,1%), em comparação com os homens (39,2%), o que muitas vezes pode estar associado à falta de benefícios sociais, salários mais baixos e condições de trabalho inseguras”, sublinha o documento.

Aquela disparidade é ainda mais agravada pela responsabilidade tradicional de cuidado, que continua a ser assumida por mulheres e que as limita no acesso ao emprego formal e oportunidades económicas.

Para a secretária de Estado da Igualdade de Timor-Leste, Elvina de Sousa Carvalho, o relatório não é apenas um conjunto de dados estatísticos, mas um “espelho que reflete a realidade”. “Mostra-nos que apesar de progressos importantes, ainda há muito por fazer para garantir que todas as mulheres e raparigas possam alcançar o seu pleno potencial em todas as dimensões da vida”, afirmou a responsável governamental. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Timor-Leste - Pobreza e insegurança alimentar persistem como desafios, diz Taur Matan Ruak

O antigo primeiro-ministro timorense Taur Matan Ruak afirmou, em entrevista à Lusa, que a pobreza multidimensional, a má nutrição e a insegurança alimentar persistem como desafios em Timor-Leste e que “preocupam tanto os líderes como a população timorense”

“A pobreza multidimensional, no meu tempo, estava em 48,3%. Análise é feita em três grandes aspectos a educação, o rendimento da população e a saúde. Segundo, temos 47% de má nutrição, sobretudo entre as raparigas em idade produtiva e as crianças, quase metade da população, e o terceiro desafio é a insegurança alimentar”, afirmou Taur Matan Ruak, que liderou o Governo timorense entre 2018 e 2023.

Em relação à insegurança alimentar, o líder do Partido de Libertação Popular (PLP), actualmente na oposição, salientou que Timor-Leste vive “com base de importações”, principalmente do arroz que é a base alimentar dos timorenses.

“Em 2018, quando entrei para o Governo, o consumo de arroz em Timor-Leste estava em 137 mil toneladas por ano, a nossa produção era de 37 mil toneladas. Um défice de 100 mil toneladas”, afirmou o também antigo Presidente timorense.

Referindo que durante o seu Governo conseguiu duplicar a produção de arroz com alguns incentivos, Taur Matan Ruak considerou que há ainda um “longo caminho” a percorrer.

“Pior ainda é que o actual Governo em vez de subsidiar a produção, subsidia o consumo, mas na base das importações. É gravíssimo. Não há incentivos, a população tem dificuldades, não tem capital para investir”, disse.

Outro grande desafio para o também antigo chefe das forças de defesa do país, é o “desemprego”.

“Quanto eu entrei estava a 11%, conseguimos reduzir para 9%, mas isso deu-se com a saída dos jovens para a Austrália, Coreia do Sul, Inglaterra, Irlanda. Isso ajuda bastante”, afirmou.

Taur Matan Ruak disse que actualmente as remessas dos timorenses que vivem no estrangeiro representam a segunda maior entrada de dinheiro no país, a seguir ao petróleo.

“Estes são grandes desafios de Timor-Leste e tudo depende da forma como vamos conduzir o nosso país”, considerou o antigo primeiro-ministro.

Questionado sobre as críticas feitas ao actual Governo relativas à falta de investimento em áreas consideradas cruciais para o desenvolvimento, Taur Matan Ruak explicou que durante a altura que liderou o país realizou várias reformas, incluindo na justiça e finanças públicas.

“Vendo a situação actual do país, um dos grandes problemas que a nossa população tem é a falta de rendimentos e introduzimos programas sociais com o objectivo de ajudar a população a médio prazo, enquanto o Governo criava condições para criar mais emprego e desenvolver a economia do país”, explicou.

“Praticamente esses programas foram eliminados. Falo do programa Bolsa Mãe, que tem como objectivos combater a má nutrição, fazer circular o dinheiro nas comunidades e obrigar as senhoras grávidas a serem acompanhadas nas clínicas ou hospitais”, disse.

Outro programa, segundo Taur Matan Ruak , era a cesta básica, que visava estimular a produção local.

“Também acabaram com isso. Ora, o Governo tem uma orientação que é a prioridade para megaprojectos, como o Tasi Mane, e no meu Governo a prioridade era o cidadão e isso tem três grandes prioridades, que é primeiro investir na saúde, ter uma população saudável, segundo é no rendimento da população e terceiro na ciência, tecnologia e informação, investir na educação”, afirmou.

Taur Matan Ruak criticou também a falta de planeamento sistematizado, consistente e detalhado e o “improviso”.

Greater Sunrise é causa nacional

O antigo primeiro-ministro timorense Taur Matan Ruak afirmou que o projecto de gás Greater Sunrise é uma “causa nacional”, mas não se pode ter a “ilusão” de que vai resolver os grandes desafios do país.

“É uma causa, naturalmente, mas vamos ver quais são os resultados do estudo. O desejo existe, todos queremos que venha para Timor. Mas pensar que vindo para Timor já resolve todos os problemas seria ilusão. Também beneficiamos da produção do Bayu-Udun e ainda estamos a braços com os nossos grandes desafios”, disse Taur Matan Ruak.

Localizado no Mar de Timor, a cerca de 250 quilómetros a Sul de Timor-Leste, o Bayu-Udun é um campo de condensado de gás, que, segundo o Governo timorense, deve terminar a produção este ano.

Quando as operações terminarem, o Governo timorense pretende estabelecer uma parceria comercial estratégica para voltar a desenvolver o campo, mas para captura e armazenamento de carbono.

O Greater Sunrise, localizado a 140 quilómetros a Sul de Timor-Leste e a 450 quilómetros de Darwin, foi descoberto em 1974 e possui recursos de 5,1 trilhões de pés cúbicos de gás e 226 milhões de barris de condensado, segundo dados da Timor Gap, empresa estatal petrolífera.

Contudo, o seu desenvolvimento tem estado envolto num impasse, com Díli a defender a construção de um gasoduto para o Sul do país e a Woodside, segunda maior parceira do consórcio, a inclinar-se para uma ligação à unidade já existente em Darwin, na Austrália.

O consórcio é constituído pela timorense Timor Gap (56,56%), a operadora Woodside Energy (33,44%) e a Osaca Gás Australia (10,00%).

O acordo de fronteira marítima permanente entre Timor-Leste e a Austrália determina que o Greater Sunrise é um recurso partilhado entre os dois países e terá de ser dividido, com 70% das receitas para Timor-Leste no caso de um gasoduto para o país, ou 80% se o processamento for em Darwin.

Para tentar ultrapassar o impasse, o consórcio de exploração determinou a realização de um estudo sobre o desenvolvimento daquele campo de gás, que já foi concluído, mas cujo resultado ainda não foi divulgado.

Melhor reconciliação é a que “sai do coração”

O antigo primeiro-ministro timorense Taur Matan Ruak afirmou que a melhor reconciliação é a que “sai do coração”, referindo-se à recente indignação social provocada com um convite ao líder das milícias para participar nas celebrações da declaração da independência.

“Vão ter de deixar o tempo se encarregar um bocadinho, enquanto moral e psicologicamente as pessoas não estão preparadas, não para a generalidade da reconciliação, mas para facções muito concretas, o caso do Eurico Guterres”, disse Taur Matan Ruak.

O Presidente timorense, José Ramos-Horta, convidou o antigo líder da milícia Aitarak para participar nas celebrações do 49.º aniversário da declaração unilateral da independência, que se assinalou na quinta-feira em Oecussi, provocando a indignação social.

Eurico Guterres liderou a milícia Aitarak, responsável por vários ataques em Timor-Leste e pela destruição de Díli, após o referendo de 1999, que determinou o fim da ocupação da Indonésia e a restauração da independência, em 20 de Maio de 2022.

“É louvável que um Presidente da República o tenha feito, mas a sociedade não está preparada, não é que não queiram, não estão preparados. Isso significa deixar mais um bocadinho, que o tempo ajuda a apaziguar melhor”, salientou Taur Matan Ruak.

Segundo o também líder do PLP, a “melhor reconciliação é a que sai do coração”. “É um processo interno, o externo pode influenciar, mas o interno é que determina”, afirmou.

Em relação aos acontecimentos ocorridos em 1999, Taur Matan Ruak disse que houve casos que a população ultrapassou, mas “há casos que ainda estão muito fresquinhos”.

“Não é que as pessoas não queiram, ainda não estão preparadas, para eles é cedo demais. Mas é sempre um acto louvável, mas é preciso ser muito cauteloso para depois gerir todo este problema emocional”, acrescentou. In “Ponto Final” - Macau com “Lusa”


sexta-feira, 14 de junho de 2024

Cabo Verde – Segundo o Banco Mundial a pobreza deverá continuar a descer

A pobreza deverá continuar a descer nos próximos anos em Cabo Verde, mas o crescimento económico vai favorecer quem tem mais rendimentos, por causa da inflação nos alimentos, prevê o Banco Mundial no mais recente estudo sobre o país

“Apesar das previsões de que a pobreza diminua entre 2024 e 2026, o crescimento não deverá ser particularmente favorável aos mais pobres”, lê-se na Atualização Económica 2024, consultada pela Lusa.

Segundo o Banco Mundial, prevê-se que a pobreza desça de 15,1% em 2023 para 14,9% da população em 2024 e 14,2% em 2025. No entanto, “o efeito do crescimento económico na redução da pobreza deverá continuar a ser atenuado pela inflação, em especial nos produtos alimentares”, prevendo-se que se mantenha alta, a 4,3% e 3,4% em 2024 e 2025, respectivamente”. Ou seja, a inflação nos alimentos vai estar acima da inflação global esperada que é de 2,7% e 2,1% nos mesmos anos.

Analisando o impacto, o banco conclui que o crescimento económico per capita em Cabo Verde vai estagnar, podendo ser mais elevado apenas “entre famílias mais ricas”.  Além disso, no caso das famílias abaixo do limiar da pobreza, a taxa de crescimento de 2024 deverá ser das mais baixas dos últimos anos – e das previsões até 2026.

O nível de pobreza é calculado de acordo com o valor internacional de 3,65 dólares por pessoa, por dia, em paridade com o poder de compra de 2017, utilizando o Inquérito às Despesas e Receitas Familiares (IDRF).

O IDRF já foi feito por quatro vezes em Cabo Verde: 1988/89, 2001/02, 2015 e 2023. O Instituto Nacional de Estatística (INE) prevê publicar os resultados de 2023 até final do mês.

O boletim de Atualização Económica 2024 do Banco Mundial sobre Cabo Verde defende uma aposta na economia ligada ao mar (destacando a aquacultura) para combater a dependência do turismo.

No sector do turismo, em particular, defende-se uma “maior sustentabilidade, inclusão e diversificação”, com “alojamentos complementares” para permitir a diversificação turística em mais nichos e ilhas, regular o acesso sustentável a áreas ecologicamente sensíveis.

O documento mantém a previsão de crescimento médio de 4,7% para Cabo Verde entre 2024 e 2026 e aponta para uma taxa de inflação de 2% até final de 2025 (foi de 1,3% em 2023).

O rácio dívida pública/PIB deverá melhorar, de 113,8% em 2023 para 102,1% em 2026, mas continua a ser crucial a gestão dos riscos fiscais relacionados com empréstimos às empresas públicas e garantias.

Problemas domésticos ao nível dos transportes, redes de logística e energia têm impedido que o efeito de crescimento do turismo se estenda a outros setores de economia, lê-se no documento. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


terça-feira, 2 de maio de 2023

Moçambique - A Paróquia de Santa Cecília de Ocua, na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado

Sabe onde fica a 552ª paróquia da Arquidiocese de Braga? Fica muito longe, a mais de 11 mil quilómetros de distância. É na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, a região mais pobre de Moçambique, que vamos encontrar a Paróquia de Santa Cecília de Ocua


É aí também que está Fátima Castro jovem leiga missionária portuguesa procura “mudar os pequeninos mundos de alguém”.

Desde Outubro de 2014 que a Arquidiocese de Braga apadrinhou a paróquia de Ocua, situada na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

O projecto Salama tem levado até Ocua vários jovens missionários leigos e também sacerdotes. Eles são uma presença solidária numa região marcada pela pobreza e, desde 2017, também pela violência do terrorismo.

A 552ª paróquia da Arquidiocese de Braga é mesmo um mundo à parte. São 98 comunidades, sem electricidade nem água canalizada. A pobreza está presente em todo o lado, em todos os rostos.

Fátima Castro, uma jovem missionária leiga portuguesa oriunda de Santo Emilião, uma pequena aldeia do concelho de Póvoa de Lanhoso, está em Ocua desde agosto de 2021. “Vivo esta experiência como uma humilde tentativa de viver o Evangelho. Cedo percebi que não iria mudar o mundo, mas que podia mudar os pequeninos mundos de alguém”, explica.

Fátima faz um balanço positivo desta experiência, destacando a importância da presença junto dos que mais sofrem, dos que não têm quase nada nem ninguém. “Aprendi que, às vezes, o mais importante é estar. Estar com outro e ser para o outro. Mais do que fazer muitas coisas, procuro ser presença, ser ajuda, ser porto de abrigo, ser a mão estendida para ir ao encontro…”

Desde o final de 2017 que Cabo Delgado vive em sobressalto por causa dos ataques terroristas. Têm sido anos de violência, com mais de 4 mil mortos e quase um milhão de deslocados. Fátima Castro encontra todos os dias pessoas com olhos suplicantes por comida, mães inquietas com o choro de fome dos seus filhos. Fátima Castro sabe todos os dias como é difícil a vida em Ocua, a 160 km da cidade de Pemba. “É frequente, nos últimos tempos, chegarem à missão bebés que são alimentados com farinha de milho nos primeiros meses de vida, porque as mamãs não conseguem amamentar porque também não têm o que comer. Uma das mamãs já não comia há dois dias! Os papás vão apanhando todo o tipo de folhas para conseguir sobreviver e alimentar a família. Muitas crianças enganam a fome roendo pau de mandioca seca ou chupando cana-de-açúcar.”

Ocua é um ponto quase imperceptível no mapa. À sua volta há ainda lugares mais minúsculos, mas onde vivem pessoas. Esta é uma zona rural, demasiado distante da cidade, das coisas mais básicas. “Em Ocua a electricidade pública ainda não chegou e só encontramos água nos poços comunitários”, relata a missionária de Póvoa de Lanhoso. “Ao poço da missão chegam-nos mais de 50 mamãs todos os dias para tirar água. Este é o retrato de toda a paróquia.

O meio de subsistência deste povo passa pelo trabalho nas machambas (hortas) onde, em tempos ‘abastados’, conseguem cultivar mandioca, milho, feijão e gergelim. Mas não será a realidade deste ano. As pragas e o período das chuvas foram tão intensos que muitas das colheitas estão a apodrecer.” Ser missionária em Ocua significa ter coragem e disponibilidade, ter os braços sempre abertos.

“Cada dia é um novo dia e lá vou encontrando forças para cuidar, com caridade, das preocupações e do olhar deste povo que expressa, tantas vezes, um grito silenciado pelas dificuldades enfrentadas. É um olhar de sofrimento. De dor. De incerteza pelo dia de amanhã.” Fátima Castro gosta de citar São João Paulo II, gosta de dizer que a solidariedade prova que nenhum povo está sozinho ou abandonado. “Neste cantinho da Diocese de Pemba, vou sentindo que há muitas pessoas que não só abraçam as causas, mas tornam-se parte delas, até porque quando falamos de sofrimento humano não olhamos a raças, religiões, cores, etnias… somos todos irmãos.” In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Brasil - Tem 32 milhões de crianças e adolescentes na pobreza, alerta Unicef


No Brasil, pelo menos 32 milhões de adolescentes vivem na pobreza, nas suas múltiplas dimensões: rendimento, educação, trabalho infantil, residência, água, saneamento e informação. Isto representa 63% do total.

É o que indica a pesquisa “As Múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil”, apresentada pelo Fundo de Infância das Nações Unidas no país.

Políticas públicas para crianças e adolescentes

Com a chegada de novos dirigentes em todo o país, a Unicef alerta para a urgência de priorizar políticas públicas com recursos suficientes voltadas a crianças e adolescentes.

A chefe de Políticas Sociais, Monitoramento e Avaliação, Liliana Chopitea, afirma que a pobreza na infância e na adolescência vai para além do rendimento.

Para ela, estar fora da escola, viver em casas precárias, não ter acesso a água e saneamento, não ter uma alimentação adequada, estar em trabalho infantil e não ter acesso à informação são privações que fazem com que crianças e adolescentes estejam na pobreza multidimensional.

Segundo Chopitea, na maioria das vezes, essas privações se sobrepõem, agravando os desafios enfrentados pelos jovens. Por isso, para ela, é urgente o Brasil olhar para a pobreza de forma ampla, e colocar a infância e a adolescência no orçamento e no centro das políticas públicas.

Pobreza multidimensional

O estudo foi realizado pela Unicef, com apoio da Fundação Vale. Para a análise, foram utilizados dados oficiais relacionados a sete dimensões: rendimento, educação, trabalho infantil, residência, água, saneamento e informação.

Além disso, foi realizada uma análise específica sobre o rendimento para alimentação. Os resultados revelam um cenário preocupante. O último ano com informações disponíveis para todos os indicadores é 2019, quando havia 32 milhões de adolescentes de até 17 anos privados de um ou mais desses direitos. Para os anos seguintes, só há dados de educação e rendimento, incluindo rendimento para alimentação – e todos pioraram.

Em 2021, a percentagem de crianças e adolescentes que viviam em famílias com rendimento abaixo da linha de pobreza monetária extrema, menos de US$ 1,9 por dia, alcançou o maior nível dos últimos cinco anos: 16,1%, contra 13,8%, em 2017.

No caso da alimentação, o contingente de menores sem rendimento necessário para alimentação adequada passou de 9,8 milhões, em 2020, para 13,7 milhões, em 2021, um salto de quase 40%. Já na educação, após anos em queda, a taxa de analfabetismo dobrou de 2020 para 2022, chegando em 3,8%.

Situação vulnerável

A pobreza multidimensional impactou mais quem já vivia em situação mais vulnerável, como negros e indígenas, e moradores das regiões Norte e Nordeste, agravando as desigualdades no país.

Entre crianças e adolescentes negros e indígenas, 72,5% estavam na pobreza multidimensional em 2019. O número cai para 49,2% entre brancos e amarelos. Seis estados registavam mais de 90% de crianças e adolescentes em pobreza multidimensional, todos no norte e nordeste.

A principal privação que impacta crianças e adolescentes é a falta de acesso a saneamento básico. São 21,2 milhões de jovens nesta situação. Em seguida, 20,6 milhões tem privação de rendimento e mais de 6 milhões não possuem acesso à informação.

A falta de residência adequada impacta 4,6 milhões de menores. Também são mais de 4 milhões sem educação e outras 3,4 milhões sem acesso à água potável. Por fim, 2,1 milhões estão expostas ao trabalho infantil.

Recomendações

Para Liliana Chopitea, os desafios estão inter-relacionados e é necessário a formulação de políticas públicas que beneficiem não só as crianças e os adolescentes diretamente, mas também mães, pais e responsáveis, especialmente os mais vulneráveis.

A Unicef ainda recomenda a priorização de investimentos em políticas sociais e a ampliação na oferta de serviços e benefícios às crianças e adolescentes mais vulneráveis.

Para o fundo da ONU, também é importante fortalecer o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e implementar medições e o monitoramento das diferentes dimensões da pobreza e suas privações por um órgão oficial do Estado.

Agenda pública

A Unicef também destaca a promoção da segurança alimentar e nutricional de gestantes, crianças e adolescentes, garantindo o direito humano à alimentação adequada e reduzindo o impacto da fome e da má nutrição nas famílias mais empobrecidas.

Ainda faz parte das recomendações do fundo da ONU a urgência da retomada da aprendizagem, em especial da alfabetização, além da priorização da agenda de água e saneamento para o desenvolvimento e implementação de políticas públicas.

O levantamento da Unicef apoia a implementação de formas de identificar precocemente as famílias vulneráveis a violências, incluindo trabalho infantil e o fortalecimento de oportunidades no ambiente escolar e na transição de adolescentes para o mercado de trabalho. ONU News – Nações Unidas com “Unicef Brasil”


 

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Reino Unido – Aumenta a pobreza

O aumento da pobreza no Reino Unido está a levar pessoas a alimentarem-se com ração, enquanto outras aquecem comida no radiador de aquecimento ou com velas.

A denúncia foi feita por Mark Seed, director de um projecto comunitário de alimentação em Trowbridge, no leste de Cardiff, capital do País de Gales.

Análise da BBC dos dados do Censo britânico de 2021 indica que seis das comunidades mais carentes do País de Gales, uma das quatro nações que compõem o Reino Unido, estão naquele distrito.

No entanto, ONG advertem que famílias em dificuldades não se encontram apenas em áreas há muito associadas à pobreza e pede que as políticas se concentrem nas pessoas, e não nos lugares.

A situação em Cardiff retrata um cenário desafiador que muitos enfrentam no Reino Unido por causa do aumento da inflação – relatos como o de Seed somam-se aos de muitos outros cidadãos que vivem em diferentes partes do país.

Quase um terço das mães ou pais solteiros está a deixar de comer uma das refeições do dia para sobreviver, segundo um levantamento recente do grupo Which? sobre as famílias mais atingidas pela crise inflacionária no país.

Membros de três em cada 10 famílias monoparentais entrevistados disseram que evitam uma refeição como resultado do aumento dos preços dos alimentos. No total, a mesma situação ocorre em 14% dos domicílios que participaram do estudo.

“As famílias em todo o Reino Unido estão a enfrentar dificuldades devido ao aumento do custo de vida, sendo as famílias monoparentais as mais afectadas pela crise”, disse Rocío Concha, directora de política e activismo da Which? ao jornal britânico The Guardian.

“Arco da pobreza”

Trowbridge fica no que Seed chama de “arco da pobreza” de leste a oeste de Cardiff. Muitas pessoas na cidade galesa de Cardiff estão a lutar para comer e aquecer-se neste inverno devido à inflação, diz Seed, que cometa “ainda fico impressionado com as pessoas a comer ração”.

“[Há] pessoas que tentam aquecer a comida no radiador ou com uma vela. São histórias verídicas chocantes”, acrescenta.

“Cardiff é uma cidade próspera, mas tem bolsões de pobreza que são simplesmente inaceitáveis”, diz Seed, que relata que as pessoas não ganham o suficiente para pagar pelo essencial.

A crise inflacionária só agravou a situação. “[As pessoas] dizem-nos que trabalham todas as horas que podem”, explica.

The Pantry, o banco de alimentos administrado por Seed, oferece comida de boa qualidade a preços muito baixos para mais de 160 pessoas.

Uma delas é Elizabeth Williams, de 54 anos, que diz que o projecto “faz uma grande diferença” e aproxima as pessoas, mas admite que a sua situação está muito difícil. “Normalmente, tento não gastar para melhorar as coisas na minha casa”, referiu.

Ela e o companheiro não trabalham, enquanto o filho, que mora com eles, trabalha muitas horas. “Mesmo com meu filho a trabalhar e a contribuir, é difícil, porque ele também tem que viver e tem necessidades. Tem vários problemas de saúde e está a aguardar uma cirurgia”, explicou.

Durante décadas, o oeste de Gales e a região dos vales receberam financiamento adicional da União Europeia (UE) porque estavam entre as regiões mais pobres da Europa, mas Cardiff não era incluída porque, em termos de padrão de vida médio, não é considerada uma região carente.

Victoria Winckler, directora da ONG galesa The Bevan Foundation, alerta sobre os perigos de estereotipar grandes áreas ou cidades como carentes ou prósperas. “O estereótipo é que Cardiff é próspera e os vales são pobres, mas os números mostram que não é bem assim”, salientou.

“Há áreas de Cardiff que são prósperas, sim, mas também há áreas bastante significativas da capital galesa onde as pessoas não vivem tão bem”, acrescenta.

Para a organização, é fundamental que os supermercados garantam que os preços sejam fáceis de comparar e que haja variedade de oferta para diferentes orçamentos.

“Como os preços continuam a subir, é fundamental que todas as pessoas tenham acesso a alimentos saudáveis e acessíveis para elas e suas famílias”, acrescenta Concha, da Which?.

Os últimos dados oficiais mostram que a inflação de alimentos no Reino Unido atingiu 16,4% em Outubro, o nível mais alto desde 1977.

Isso deve-se principalmente ao forte aumento de produtos da cesta básica, como leite, manteiga, queijo, massas e ovos.

Os domicílios monoparentais e os aposentados destinam parcela maior dos seus rendimentos à alimentação, electricidade e gasolina, cerca de 30%. Para casais com filhos, esse percentual cai para 25%, segundo cálculos oficiais.

No entanto, todas as famílias estão a gastar significativamente mais do que no ano passado em produtos essenciais.

Uma mulher de 40 anos disse aos entrevistadores que nalgumas semanas mal consegue alimentar os filhos. Outra pessoa acrescentou: “Não estou a comer adequadamente para poder alimentar e vestir os meus filhos e ainda ter o suficiente para (pagar pela) electricidade.”

Segundo dados revelados esta semana pela Confederação da Indústria Britânica, a economia do Reino Unido caminha para uma contração de 0,4% no próximo ano devido à inflação e ao receio das grandes empresas em investir. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”

 

terça-feira, 30 de março de 2021

CPLP - Reunião ministerial aprova plano para combate ao trabalho infantil 2021-2025


Cidade da Praia – A XIV reunião dos Ministros do Trabalho e Segurança Social realizada hoje, por vídeo-conferência, recomendou o reforço das estratégias nacionais de redução da pobreza e aprovou o plano de trabalho para o combate ao trabalho infantil 2021-2025.

O encontro, que acontece sob a presidência de Cabo Verde e que contou com a participação de quase todos os nove países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), teve como tema “Covid-19 e o mundo do trabalho” e serviu para abordar e concertar posicionamentos no combate aos impactos devastadores da pandemia no mundo do trabalho.

Segundo a ministra da Justiça e do Trabalho de Cabo Verde, Janine Lélis, todos os países tiveram a oportunidade, a partir das suas intervenções, de descrever as suas políticas, as medidas que tomaram para proteger o rendimento das famílias, os postos de trabalho e a saúde das pessoas.

“Resulta unânime que nós todos devemos, cada vez mais, estender os pisos de protecção social para que os nossos países, a nossa comunidade possa responder da melhor forma aos desafios, agora mais expressivos por causa da covid, e por causa do que a covid-19 trouxe para o mundo do trabalho”, explicou.

De entre as recomendações constantes de uma declaração final, a governante cabo-verdiana destacou o reforço das estratégias nacionais para o desenvolvimento de medidas para a redução da pobreza, a promoção de políticas sociais e políticas activas de emprego.

O plano de trabalho para o combate ao trabalho infantil 2021-2025, conforme explicou, foi aprovado como forma de promover o engajamento de todos os países da comunidade na luta contra o trabalho infantil em linha daquilo que se mostra necessário fazer, tendo em conta os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o comprometimento que todos têm em relação à OIT.

Outras recomendações vão no sentido de também reforçar a cooperação e concertação político-diplomática, e de desenvolver as acções de cooperação técnica entre os países, tendo sido instruído o Secretariado Técnico Permanente no sentido de avaliar a possibilidade de reactivar um centro de informação de protecção social.

“Foi entendido aqui que temos boas práticas a partilhar e que seria muito bom a possibilidade de criar esse centro de informação, por forma a que todos possam ter, ao mesmo tempo, um nível de informação sobre as medidas que estão sendo desenvolvidas nos vários países da comunidade para que a gente possa nesta via, de troca de informações e partilha de dados, fazer melhor a favor dos nossos povos”, sustentou.

Igualmente foi mandatado ao secretariado técnico a criação de um grupo de trabalho para promover uma reflexão sobre o Conselho Económico e Social da CPLP, uma entidade que, na perspectiva de Janine Lélis, poderá ser de “grande valia” na medida em que poderá servir de fórum de concertação social a nível da comunidade.

“Será um parceiro social para nos ajudar naquilo que seria a definição das melhores políticas públicas neste sentido”, disse, indicando ainda que houve consenso sobre a necessidade da ratificação da convenção multilateral da segurança social da CPLP, um projecto que já vem de algum tempo, e cuja ratificação se faz necessária para sua aplicabilidade.

Da parte cabo-verdiana, que detém a presidência da CPLP, participou, para além da ministra da Justiça e do Trabalho, Janine Lélis, o ministro da Saúde e Segurança Social, Arlindo do Rosário. In “Inforpress” – Cabo Verde


 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Macau - Língua portuguesa faz parte do plano de assistência a Congjiang para erradicação da pobreza


A Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) participa, desde 2018, no Plano de Erradicação da Pobreza do Conselho de Estado, centrando a sua acção na comarca de Congjiang, na província de Guizhou, um dos locais da China onde se tem verificado a existência dos níveis mais elevados de pobreza.

Curiosamente, o ensino da língua portuguesa faz parte da ajuda prestada pela RAEM. Trata-se de um projecto organizado pela Direcção de Serviços de Educação e Juventude e passa pelo envio de professores de Macau que, durante três semanas, terão como objectivo despertar o interesse dos alunos de Congjiang pelo Português.

A intervenção será efectuada em Maio de 2021, em quatro graus de ensino, do primário ao pré-universitário. Depois serão seleccionados os 30 melhores alunos, que receberão um convite para se deslocarem a Macau, para participarem num curso de Verão de língua e cultura portuguesa, com a duração de três semanas.

No princípio, foi assim

Claro que o ensino da língua portuguesa não passa de um pequeno aspecto no âmbito da ajuda que a RAEM tem prestado à comarca de Congjiang. Desde Maio de 2018, 27 acordos de assistência foram já assinados e implementados entre Macau e Congjiang, nas áreas da educação, saúde, turismo, indústria, trabalho, formação de quadros, etc.

E, na verdade, a assistência prestada pela RAEM tem dado os seus frutos. Congjiang tem uma área de 3244 quilómetros quadrados e conta com 385330 habitantes, sendo que 94,8% pertencem às minorias étnicas Miao e Dong. Em finais de 2017, o número de pessoas consideradas pobres ascendia a 72316, ou seja, 21% da população. Ora, em 2019, a incidência de pobreza em Congjiang havia descido já para 3,6% e para isso muito contribuiu a assistência prestada pela RAEM, em coordenação com o Gabinete de Ligação do Governo Central em Macau (GL).

Só em 2018, na área educacional, a Fundação Macau proporcionou 30 milhões de yuans para a construção de uma escola primária, que viria a ser concluída em 2019 e que se encontra já em funcionamento. Na mesma área, também a Companhia de Construção Estatal da China doou 5 milhões de yuans para a edificação de uma escola primária, isto para além de outras 10 escolas e centros de saúde que contaram com a ajuda da Cruz Vermelha de Macau.

Na área do emprego, foram recrutados 429 trabalhadores para exercerem a sua profissão na RAEM, cada um pertencente a um agregado familiar diferente, no sentido de proporcionar a cada família uma melhoria substancial do seu rendimento. Também o GL financiou a ajuda a 3000 estudantes de famílias carenciadas, por três anos consecutivos, num total de 1,5 milhão de yuans por ano; e a Fundação Macau criou um programa de bolsas de estudo, no valor de 100 mil patacas/ano cada, que permitiu a deslocação e permanência em Macau de estudantes do ensino superior originários de Congjiang.

Na área económica, o Instituto de Promoção e Investimento de Macau (IPIM) convidou diversas empresas de Congjiang para participarem em feiras internacionais, tendo resultado na assinatura de 35 contratos.

Na área do turismo, a China Travel Service e a China International Travel Service, sediadas em Macau, promoveram a deslocação a Congjiang de mais de cinco mil visitantes e foi também promovido o primeiro Festival de Arte de Luz e Sombras Macau-Congjiang, que atraiu mais de 30 mil pessoas.

O ano das infra-estruturas

2019 foi um ano em que a assistência se centrou em infra-estruturas, de modo a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos de Congjiang. Sob a liderança do GL, foi custeada e implementada a colocação de 560 lâmpadas, no valor de 1,7 milhão de yuans, alimentadas a energia solar, em cinco das mais pobres aldeias da comarca.

Além disso, o GL conseguiu obter da sociedade de Macau 6,64 milhões de yuans para a renovação de casas velhas em más condições, tendo recuperado um total de 715 habitações, em 10 aldeias de minorias étnicas. Também os casinos da RAEM contribuíram com cerca de dois milhões de yuans, aplicados na ajuda a camponeses, nomeadamente na renovação de estruturas como pátios, estradas e iluminação pública.

Por seu lado, a Fundação Macau proporcionou consultas médicas e operações a 193 pessoas com cataratas e forneceu 450 aparelhos de audição a gente necessitada, além de doar sete ambulâncias. Já a DSEJ criou um programa de treino para mais de 300 professores do ensino pré-primário, o que implicou a deslocação a Congjiang de especialista e, posteriormente, convidou 40 professores a deslocarem-se a Macau para a frequência de cursos especializados.

Também o Instituto Cultural da RAEM não quis ficar de fora destas iniciativas e convidou Congjiang para participar na Parada Internacional de Macau e no Festival de Artes de Macau o que, juntamente com a realização de um vídeo promocional em cantonês, feita pelos Serviços de Turismo, proporcionou um melhor conhecimento de Congjiang por parte da população de Macau.

Apesar da pandemia

Já neste ano, a ajuda a Congjiang foi reforçada pela realização de uma vídeo-conferência que juntou elementos do Gabinete de Ligação, do governo de Macau e do governo da província de Guizhou, no fim da qual foram assinados mais nove acordos de assistência.

Assim, foi acordada uma recolha de fundos na RAEM para o estabelecimento de 320 postos de assistência social para famílias necessitadas e sem rendimento estável. O projecto, lançado em Junho deste ano, já recolheu, entre Junho e Setembro a soma de 512 mil yuans.

Por outro lado, Macau comprou produtos agrícolas a Congjiang, como cogumelos secos, piri-piri e óleos, no valor de 2,5 milhões de yuans, beneficiando 2830 unidades familiares. O grupo Galaxy doou 1 milhão de yuans para a implementação de estações de tratamento sanitário em 21 aldeias, o que foi já realizado.

Mais escolas têm igualmente sido construídas com fundos de Macau, bem como mais ajuda na área da saúde tem sido implementada, nomeadamente com a doação de 200 aparelhos auditivos e 100 cadeiras-de-rodas eléctricas. Além disso, só em Agosto, foram instalados, em casas familiares, mais de 1000 esquentadores eléctricos.

Recentemente, o IPIM convidou oito empresas de Congjiang a participarem na Feira Internacional de Macau, onde assinaram vários acordos de exportação dos seus produtos.

No total, desde 2018, a RAEM já disponibilizou, em dinheiro e materiais, cerca de 120 milhões de yuans, como forma de contribuir para a erradicação da pobreza em Congjiang, além de contribuir com assistência cultural e intelectual para a elevação das condições de vida na comarca.

Guizhou, a província mais pobre da China

A província de Guizhou tem sido um dos principais cenários da batalha do Governo Central para a erradicação da pobreza, tendo merecido a especial atenção do presidente Xi Jinping, que a referiu em numerosas ocasiões. Desde 2012, data da realização do 18º Congresso do Partido Comunista Chinês em que foi estabelecida como meta, o plano de erradicação da pobreza em Guizhou fez com que o número de 9,23 milhões de pobres tenha decrescido para cerca de 300 mil em 2019, ou seja, de 26,8% da população total da província para 0,85%.

Em Guizhou, uma província montanhosa com acessos difíceis, habitada sobretudo por minorias étnicas, existiam 66 comarcas consideradas pobres. Em 2019, apenas 9 eram ainda classificadas como tal. Uma das estratégias passou pela construção de estradas que ligam comunidades rurais, dantes isoladas, numa geografia montanhosa que dificultava os acessos e a comunicação entre as diversas comunidades. No total foram construídos 77 mil quilómetros de estradas.

Com o mesmo objectivo, foi também implementado um projecto de recolocação de cerca de 1,8 milhão de pessoas, a maior de toda a China, além de ter sido promovida a modernização agrícola e desenvolvidos novos métodos de trabalho, o que levou a um enorme crescimento da produção.

Este ano, apesar da pandemia e de graves inundações, o plano continuou a as nove comarcas referidas conseguiram também ultrapassar, este Novembro, o nível de pobreza. Resta agora, segundo as autoridades, prosseguir na investigação de eventuais deficiências na execução dos planos, consolidar a produção de alta qualidade e assim eliminar desta província o estado de pobreza que há milhares de anos afligia a sua população. In “Hoje Macau” - Macau