Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Angola - Escritoras defendem valorização da literatura infantil diante de crise crescente

Já foi o tempo em que o livro e a literatura infantil, numa data simbólica como a de hoje, 2 de Abril, faziam o deleite das crianças nas escolas, nos centros infantis, no ambiente familiar, nas avenidas e nos parques de diversão do país, onde cada uma procurava mostrar ao público as suas habilidades nos recitais, na leitura e na interpretação, nos contos, nos concursos de redacção e nas brincadeiras


Para trás, ficaram apenas lembranças de um princípio criativo e pedagógico que muito contribuiu para o amplo sucesso de muitas crianças da época no domínio da leitura e no desenvolvimento do seu género por parte de autores, de promotores, de familiares, de encarregados de educação e de núcleos de desenvolvimento de leitura pública.

Hoje, lamentavelmente, estas acções pedagógicas e de entretenimento deixaram de fazer parte do roteiro dos petizes e do cronograma institucional do Estado, sendo relegado para o segundo plano, situação que tem interferido negativamente na sua capacidade de desenvolvimento cognitivo.

Curiosamente, pouco ou nada tem sido feito por parte das instituições de direito para replicar as iniciativas que anteriormente despertavam os piôs, para que o livro se tornasse um amigo inseparável no seu seio, assim como da família. Mas, apesar de tudo, algumas iniciativas do fórum privado (pessoal, colectiva) vêm registando um pouco pelo país adentro, com parcos recursos, apenas para agradar os miúdos, enquanto as instituições de direito fazem-se passar despercebidos em relação ao assunto. Augusto Nunes – Angola in “O País”




sexta-feira, 20 de março de 2026

Macau - Luís Gonzaga Gomes, uma “figura incontornável” do diálogo cultural luso-chinês

Faz precisamente hoje 50 anos que faleceu Luís Gonzaga Gomes, figura multifacetada da sociedade e cultura de Macau no século XX. Ao longo da sua vida, o reputado sinólogo em língua portuguesa, também professor, escritor, jornalista e poliglota, contribuiu para o enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês


Assinalando a efeméride, o Jornal Tribuna de Macau registou alguns testemunhos sobre o ilustre macaense. “Foi um defensor do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau”, realça João Guedes, jornalista e investigador. “Admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”, confessa Jorge Rangel, aluno. “Difícil era adivinhar a sabedoria gigante que estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais do que as palavras”, frisa Beatriz Basto da Silva, historiadora. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário Luís Gonzaga”, destaca José Carlos Canoa, professor.

Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907 e faleceu a 20 de Março de 1976, portanto há exactamente meio século. Figura multifacetada da sociedade e cultura local no século XX, foi professor, tradutor, filólogo, escritor, investigador, historiador, etnógrafo, sinólogo, jornalista, bibliotecário e arquivista, museólogo e coleccionador de arte. Ocupou vários cargos, entre os quais o de conservador do Museu Luís de Camões, director da publicação Arquivos de Macau, director-bibliotecário da Biblioteca Central de Macau e presidente da Comissão Administrativa do Leal Senado.

Para além disso, desempenhou funções em organismos da sociedade civil, nomeadamente presidente do Rotary Clube, secretário do Círculo de Cultura Musical e do Círculo Cultural e também director da Emissora de Macau, correspondente da Agência ANI, e chefe de redacção e administrador da revista Renascimento.

Luís Gonzaga Gomes começou a escrever aos 14 anos, quando frequentava o Liceu de Macau, onde foi aluno de Camilo Pessanha e colaborou no jornal A Academia. Deu aulas no ensino primário durante 24 anos, ao mesmo tempo que aprofundou os seus conhecimentos da língua chinesa.

Ao longo da vida, trabalhou muito no sentido do enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês, efectuando traduções e compilações, com destaque para uma tradução de “Os Lusíadas” contados às crianças.

Um conjunto de artigos com mais de 30 volumes publicados e cerca de duas dezenas de jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, “atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuir para o intercâmbio cultural luso-chinês”, como mencionou a antiga professora macaense Graciete Batalha no prefácio do livro Macau Factos e Lendas.

Segundo testemunhos da época, um dos quais relatado pelo Padre Manuel Teixeira, que com ele privou, “além da sua actividade profissional, nos tempos livres, Luís Gonzaga Gomes representou Macau em jogos de ténis diante de Hong Kong, tocou violino, participou como cantor em concertos e programas de rádio e adaptou e foi actor em peças radiofónicas”.

No entanto, era conhecido por ser uma pessoa solitária, dedicada aos seus trabalhos de investigação. “Ele foi o melhor e o mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia no pó dos Arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento”. “Era um verdadeiro anacoreta”, escreveu Manuel Teixeira.

Reconhecimento menor do que merecia

O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma rua de Macau situada na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, conhecida pela sua localização central perto do Jardim das Artes e da Universidade Politécnica. O ilustre macaense viu também o seu nome atribuído à Escola Secundária Luso-Chinesa, a qual ostenta a imagem do escritor à entrada do edifício localizado na Avenida Sidónio Pais, perto da Praça do Tap Seac.

Em 1977, terá sido colocado o seu busto numa sala do extinto Museu Luís de Camões e, em 1984, outro seria erguido no Jardim de S. Francisco de onde seria por sua vez retirado.

“Ambas as obras tinham sido esculpidas por Oseo Acconci, artista italiano que emparceirava então com Luís Gonzaga Gomes no restrito universo da cultura local do pós-guerra”, diz o jornalista e investigador João Guedes.

Em jeito de introdução, faz referência aos cinco anos da “Guerra do Pacífico”, durante os quais Macau se viu envolvido “numa vertigem festiva e exuberante tão extemporânea quanto contrastava com o drama bélico em que se submergia a província de Guangdong”. Porém, essa vertigem, assinala, “não era o culminar de um século de desenvolvimento por vezes frenético, mas sempre febril, mas antes o limiar de um inexorável percurso descendente que perdurou por décadas exaurindo-se lentamente na crise”.

De um “brilhante” entreposto entre a China e o Ocidente que tinha sido, Macau “deixava-se agora afogar no marasmo e no cansaço em que o filósofo francês Bernard Henry Levy o iria encontrar quando visitou a cidade e as ilhas vinte anos mais tarde, em finais dos anos setenta do século, mergulhado na lassidão”, descreve.

A cultura, “uma das áreas universalmente sempre mais afectadas pelas crises, não ficou de fora e também embarcou na procura de outros mundos”. Os que ficaram, sublinha João Guedes, “não foram muitos”. Entre eles contava-se Luís Gonzaga Gomes, que, embora “capaz de muito nas áreas das letras e da cultura em geral, era-lhe, porém, impossível carregar sozinho sobre os ombros tão despovoado universo”.

Por isso “o que viria a fazer, e foi muito, dispersou-o talvez demais, o que contribuiu, sem dúvida, para que o reconhecimento da posteridade fosse menor do que deveria ter sido e não maior do que merecia”, admite.

Defensor do ensino da língua chinesa

Citando alguns excertos de um artigo publicado pelo professor Fernando Ulisses Mendonça Serafim, o produtor de programas sobre História de Macau, emitidos na televisão local, refere que a posição de director do Arquivo Histórico que Luís Gonzaga Gomes assumiu, terá contribuído para a unanimidade dos estudiosos da historiografia do território o considerarem figura incontornável “para quem pretendia criar alguma reconstituição da aventura portuguesa em Macau, sem avaliar o quanto foi importante para a visualização das mazelas da Macau do seu tempo, bem como para a leitura desse riquíssimo espaço de interacção entre as culturas chinesa e portuguesa”.

O mesmo académico brasileiro afirmou também que Luís Gonzaga Gomes foi um intelectual cujo rigor ajudou a estabelecer uma identidade macaense em termos documentais e científicos. Coligiu algumas “lendas e narrativas” correntes na Macau do seu tempo, “trabalho que terá evidenciado o quanto o mito, representado por tais narrativas, pode ter auxiliado na fixação identitária”.

João Guedes destaca a toponímia de Macau, “que dedicou nome a Luís Gonzaga Gomes numa via pública da cidade”, e também a criação de um prémio escolar, para além da escola com o seu nome.

Depois de tudo isto, expressa, “resta ainda assinalar que, ao longo da sua vida, foi um defensor do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau, conceito pioneiro que desencadeava então notórios preconceitos e acesos debates”.

Concluindo, interroga-se: “Depois de tudo, qual a razão da pequenina constelação do universo da cultura de Macau ter relegado Luís Gonzaga Gomes para as luzes de menor grandeza de imerecida segunda fila?”.

Reservado, mas com diálogo “enriquecedor”

O Jornal Tribuna de Macau ouviu outras histórias, acontecimentos e testemunhos pessoais contados por investigadores e também por um aluno de Luís Gonzaga Gomes.

“Conheci-o pessoalmente quando, ainda aluno da Escola Primária Oficial, ia duas ou três vezes por semana à sua residência, para as lições de violino que recebia da sua irmã, professora Margarida Gomes”, começou por dizer Jorge Rangel. “Antes e depois das lições, procurava, sempre que possível, falar com ele e admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte chinesa e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”, contou.

O actual presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), em cuja sede se pode encontrar a sala Luís Gonzaga Gomes, lembra os tempos em que era aluno do sinólogo no liceu. “Embora reservado, pude manter com ele um diálogo sempre interessante e enriquecedor, sobre Macau, a arte e a cultura chinesa, a música e, sentindo nele momentos raros de visível entusiasmo, sobre o movimento rotário internacional e sobre os projectos que desenvolveu abnegadamente em variados organismos locais”.

Já na universidade, em Portugal e no estrangeiro, Jorge Rangel continuou a contactá-lo, “trocando alguma correspondência e publicações e visitando-o durante as férias”.

O antigo membro do Governo local salienta que, depois de cumprido o seu serviço militar nos Açores e na então Guiné Portuguesa, regressou a Macau em 1975, meses antes do falecimento de Luís Gonzaga Gomes. “Pude participar nas homenagens que lhe foram prestadas, pelo Governo, pelo Leal Senado e pelo Rotary Clube, de que fomos ambos presidentes”, frisou.

Oito anos depois, a 20 de Março de 1984, o antigo deputado da Assembleia Legislativa (AL) teve “o privilégio de presidir à instalação do busto de Luís Gonzaga Gomes no Jardim de S. Francisco e fazer o elogio, juntamente com a professora Graciete Batalha, daquele que foi um dos mais insignes filhos desta terra”.

Também como responsável pela Educação e Cultura no mandato do Governador Almeida e Costa, Jorge Rangel recorda que Luís Gonzaga Gomes interveio “decisivamente” no lançamento do ensino secundário luso-chinês e na criação da Escola Luso-Chinesa que ostenta o seu nome. Mais tarde, já no âmbito do IIM, coordenou sessões de apresentação de obras republicadas de Luís Gonzaga Gomes ou de trabalhos sobre a sua vida e obra.

Para além disso, “envolvi-me, muito empenhadamente, em 2007, nos actos comemorativos do centenário do seu nascimento, quando foram realizadas várias sessões evocativas, reactivado o cenáculo que ostenta o seu nome e inaugurado um salão com o seu nome na sede do IIM, onde funciona presentemente o Centro de Estudos da Diáspora e da Identidade Macaense”, menciona.

Jorge Rangel considera importante que Macau, os organismos culturais e as associações macaenses continuem a promover uma ampla divulgação da sua obra junto das novas gerações. “Recordá-lo-ei sempre, com saudade e admiração”, vinca.

Anonimato como “zona de conforto”

Beatriz Basto da Silva fala também do contacto pessoal e profissional que manteve com a figura que agora é lembrada por altura do meio século desde o seu falecimento. “A figura de Luís Gonzaga Gomes ficou-me gravada nos poucos anos que tive ocasião de com ele privar em Macau (1970-1976)”, confessa.

A historiadora nota que o ilustre macaense ficou conhecido entre os seus amigos e conterrâneos por ser poliglota, investigador, escritor, melómano, professor. “Mas talvez esses amigos não possuam um cartão de visita seu, recebido em troca do meu quando nos conhecemos”. “Guardo-o com estima”, enfatiza.

A antiga deputada na AL considera que Luís Gonzaga Gomes “era uma pessoa discreta no trato, como se o anonimato fosse para ele uma zona de conforto”, adiantando que “difícil era adivinhar a sabedoria gigante que estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais do que as palavras”, sendo na solidão que “rompia fronteiras e viajava pelo mundo”.

A música era, apenas e só, admitida como sua companhia. “Estudava, escrevia o fruto das suas investigações, correspondia-se em várias línguas com especialistas das mais variadas áreas, consultava catálogos para encomendar aquilo que, na sua modéstia, lhe falecia”, apontou.

Quando Beatriz Basto da Silva aceitou, “por motivos vários”, assumir a missão de dirigir o Arquivo Histórico, criado em 1979, contou com a “presença tutelar” do professor António da Silva Rego, “sem o qual me sentiria, como diz Virgílio na ‘E-neida’, a nadar sozinha no imenso abismo”. Mas, o “erudito professor achara tudo simples, tudo se foi fazendo e a obra cresceu”, revela.

Não contando com instalações apropriadas, foi cedido o salão enorme da Mansão de Sir Robert Ho Tung onde outrora Luís Gonzaga Gomes, como presidente do Círculo de Cultura Musical, organizava concertos.

Como eco desses “gloriosos tempos” restava o piano, solitário, num canto do estrado/palco e o vazio que foi sendo preenchido com estantes metálicas que foram acomodando as caixas com documentos e os fundos arquivísticos solicitados aos diversos serviços. “Alguns vinham cobertos de poeira sedimentada pela humidade onde tinham estado esquecidos, ou meio-desfeitos pela formiga branca, pedindo urgente desinfestação”, recorda.

Àquelas acomodações provisórias, acrescenta, sucedeu um novo edifício, entretanto recuperado no Tap Seac, e só nessa altura foi entregue ao espólio e à guarda do Arquivo a rica biblioteca pessoal de Luís Gonzaga Gomes. “As peças eram tão numerosas que numa primeira impressão, necessariamente sincrónica, só percebemos que se abria uma luz intensa para o estudo da História de Macau”, sustenta a investigadora.

Sob o título de “Bibliografia Macaense”, o escritor publicara em 1973, na Imprensa Nacional de Macau, a obra que serviria de “Bíblia” para identificar o acervo recém-chegado. “Um verdadeiro tratado indispensável para acompanhar a documentação arquivística: fundos, tratados nacionais e internacionais, documentos avulsos, enfim, ficou claro que o Arquivo só existia com aquela Biblioteca e que esta era um verdadeiro ‘farol’ para o Arquivo”, afirma Beatriz Basto da Silva.

Assinala também que foram atribuídas cotas, verificadas que a maioria das entradas na “Biblioteca Macaense” correspondia fisicamente aos livros da colecção particular que “tínhamos em nossas mãos” e que o “insigne macaense tratou com mestria de documentar este legado”.

Esta experiência pessoal, observa, “só é partilhada porque a vivenciei”, sendo “um profundo preito de homenagem a Luís Gonzaga Gomes, um macaense ímpar que ocupou a tão breve (68 anos) vida fazendo render com generosidade os seus eclécticos talentos”.

Obra lega uma visão de Macau e suas gentes

Antes de falar de Luís Gonzaga Gomes, José Carlos Canoa, docente de português no Instituto Português do Oriente, em Macau, revelou ao JTM que uma das razões que o trouxe para o território, “foi vir no encalço do rasto de Luís de Camões”, adiantando que tinha iniciado em 2017 um projecto de investigação sobre um comentador da obra do Poeta.

Entretanto, como editor do “Luís de Camões – Directório de Camonística” “conheci em Lisboa Eduardo Ribeiro, estimado nesta região e principal investigador da ‘verdade historiográfica’ de ‘Camões em Macau’ (2012, 2.ª ed. 2020), mais do que provada nos seus estudos”, salientou.

“Como também estava em contacto com um familiar aqui a leccionar na academia e com quem diariamente conversava sobre a recepção da obra camoniana, foi sem hesitações que fiz as malas e apanhei o avião”, relata.

Nos primeiros dias, “com reiteradas romagens ao jardim da Gruta de Camões, de dia e à noite, ao percorrer os ‘diversos mirantinhos que estão ligados entre si por um complexo labirinto de apertados arruamentos cobertos de limugem que sobem, descem e se encurvam em espreguiçadas rampas, ou se entretêm no jogo de xadrez ou se deixam inebriar pela capitosa fragrância que dimana de mil e uma variedades de flores e de plantas que ali proliferam com exultadora exuberância’ (descrição de Luís Gonzaga Gomes na lenda de ‘A rocha dos cinco metais’), não me surpreenderia nada, então, se me cruzasse com o próprio santo do lugar, o compositor de Os Lusíadas”.

José Carlos Canoa esperava “reconhecê-lo a cada esquina dos arruamentos mais antigos”. Daí em diante, prossegue, todas as ‘curiosidades de Macau antiga’ e as ‘efemérides da história de Macau’ como o 10 de Junho, me iriam remeter para ou materializar a presença de Camões”. “É aí que surge o sortilégio da obra escrita, posteriormente também da vida, de Luís Gonzaga Gomes”, conta.

Este outro Luís, “cujo nome e também o do seu pai (Francisco Xavier) está representado numa das estátuas de bronze de santos jesuítas na fachada das Ruínas de São Paulo, viria a ser o meu cicerone ideal”. “Para descobrir mais acerca de Camões e para ir conhecendo aos poucos Macau”, reflecte.

“Além de ter redigido o ‘Vocabulário cantonense-português, português-cantonense’, de ter consagrado muito do seu precioso tempo ao ‘Catálogo dos manuscritos de Macau’ e à ‘Bibliografia macaense’”, o incansável cronista das “páginas da história de Macau é ainda uma figura charneira para portugueses arribados à região” como o próprio José Carlos Canoa. “Através de Luís Gonzaga Gomes somos introduzidos no universo de ‘Contos chineses’, Lendas chinesas de Macau, Festividades chinesas, Arte chinesa, enfim, nos relatos breves das chinesices de uma civilização antiquíssima”.

Mormente, prossegue, “a obra de Luís Gonzaga Gomes lega-nos uma visão de Macau e das suas gentes em prosa breve, de espantoso fulgor colorido e visual, em muito semelhante ao universo reconfigurado nos romances de Henrique de Senna Fernandes e à rimada e informada poesia de J. J. Monteiro”. “Três distintos escritores, um mesmo amor: Macau”.

Na sua perspectiva, Luís Gonzaga Gomes é, pois, “um excelente anfitrião de Macau, recebendo-nos como outrora Lourenço Pereira Marques acolhera os seus visitantes e amigos na propriedade onde está a Gruta de Camões, na colina do Patane”.

Do mesmo modo, esta “extraordinária figura da vida cultural macaense”, que nas décadas de 60 e 70 foi conservador do Museu Luís de Camões (aberto ao público em 1960), sócio fundador do Instituto Luís de Camões e principal director do meio de comunicação desse Instituto, o “Boletim do Instituto Luís de Camões”, irá ser o meu objecto de interesse e entusiamo nos estudos camonianos em Macau”, referiu ainda o docente.

Aproximação ao poeta Luís Vaz de Camões

José Carlos Canoa recorda a tradução para o cantonês de “Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo”, considerando-a “uma referência pioneira na aproximação à obra do poeta português pela cultura chinesa”.

O membro da Rede Camões na Ásia & África lembra também que, em 1972, Luís Gonzaga Gomes publicou no número especial da revista Garcia de Orta um número comemorativo do 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, “o seu mais interessante texto camoniano: “Representação iconográfica da gruta de Camões de Macau”, estudo que continua e amplia um seu anterior publicado na revista Mosaico (“Camões em Macau”).

A abordagem de Luís Gonzaga Gomes “acontece no domínio da história da arte”, assinala, destacando que, no artigo da revista, “inventaria e descreve a iconografia camoniana em Macau, pois desde o séc. XVIII que ‘a fama e a beleza do sítio onde está situada a Gruta de Camões inspiraram vários artistas’”. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário Luís Gonzaga”, expressa.

Em Junho deste ano, o professor do IPOR estará presente em Lisboa na “IX Reunião Internacional de Camonistas: O tempo de Camões, Camões no nosso tempo” promovida pela Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500 anos do Nascimento de Camões. “Levarei comigo Luís Gonzaga Gomes, o seu estudo iconográfico sobre a Gruta de Camões – e com ele, Macau”, garante.

A terminar, revela que o professor Vítor Serrão divulgou recentemente nas redes sociais uma nova gravura da Gruta de Camões. Nela está representada uma cena em que uma figura humana está sentada no habitual banco de pedra junto à gruta. Frequentemente são figuras chinesas que lá se encontram sentadas em repouso. Agora, acentua, “o imprevisto é ser o próprio Camões sentado a ler junto aos penedos que o seu talento de poeta afamou”.

Para os mais românticos, ele está “com saudades da pátria, medita na gruta, interrompendo a escrita.” Esta “efabulação é mais uma representação iconográfica do lugar, criada nos finais do século XIX, que oferecemos agora à memória de Luís Gonzaga Gomes, o camonista que mais escreveu sobre este tema”, conclui.

Aluno de Pessanha e Silva Mendes

Tendo crescido no seio de uma família muito ligada à cultura, Luís Gonzaga Gomes (conhecido por Inho Gomes ou, simplesmente, Inho, entre parentes e amigos) foi, desde muito cedo, “influenciado por todo aquele ambiente familiar que o rodeava”, pode ler-se no livro Baixa do Monte, publicado por Manuel Basílio.

O investigador macaense escreve que, terminado o ensino primário, Gonzaga Gomes prosseguiu os seus estudos no Liceu, onde teve, como professores, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, José da Costa Nunes, Mateus António de Lima e outros distintos docentes e, por isso, recebeu sólida formação académica.

“Apesar de ter concluído o 7º ano do Liceu com boas notas, não seguiu para o ensino superior, tendo passado o resto da vida como um verdadeiro autodidacta em várias matérias e línguas, designadamente a língua chinesa”, salienta Manuel Basílio.

Segundo a sua investigação, “não restam dúvidas de que Luís Gonzaga Gomes foi um homem erudito”. No entanto, “sempre foi um indivíduo muito reservado, de poucas palavras, por isso, convivia com poucas pessoas e deve ter passado dias difíceis ou amargurados, nos últimos anos da sua vida, vivendo com muita angústia, à medida que os dias iam passando, pois, a ideia da morte perseguia-o”, constata.

Também António Aresta, professor e investigador, destaca no seu livro Figuras de Jade a obra de Luís Gonzaga Gomes. “Pela vastidão e amplitude dos seus interesses intelectuais, artísticos, musicais, linguísticos ou historiográficos, ele pode ser considerado como um homem do renascimento, não obstante a sua personalidade demandar recato, simplicidade e algum gosto ascético”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Notícias de Macau”




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Portugal - Casa dos Livros celebra 50 anos da morte de Agatha Christie

A mostra "Mistérios em Exposição: a Dama do Crime nos Espólios da Casa dos Livros" está patente ao público até 8 de maio. Entrada livre


Em 2026, assinalam-se os 50 anos do falecimento da eterna Dama do Crime. Para destacar esta efeméride, a Casa dos Livros | Centro de Estudos da Cultura em Portugal da Universidade do Porto apresenta, pela primeira vez, uma exposição bibliográfica dedicada a narrativas de mistério e dedução, centrando-se exclusivamente na obra de Agatha Christie (1890-1976).

Dos espólios incorporados na Casa dos Livros, apenas três contêm obras desta escritora inglesa: as bibliotecas Ana Luísa Amaral, Maria Virgínia Monteiro e Vasco Graça Moura. Representam, no entanto, um pequeníssimo núcleo face ao conjunto de obras de mistério incorporadas nestes acervos.

A maioria dos livros exibidos na mostra Mistérios em Exposição: a Dama do Crime nos Espólios da Casa dos Livros pertence à Biblioteca Ana Luísa Amaral e foi publicada pela Livros do Brasil, editora das célebres coleções Vampiro e Vampiro Gigante, que marcaram gerações de leitores portugueses.

Esta é então uma oportunidade para desvendar os enigmas Hercule Poirot, Miss Marple, Tommy e Tuppence, entre outros personagens que imortalizaram o nome de Agatha Christie.

Um desafio para os visitantes

Como em qualquer bom mistério, nem tudo é o que parece. Como tal, os visitantes da exposição são desafiados a olhar com atenção redobrada: ao terminar de ler as legendas ou o catálogo, devem tentar resolver um enigma que ficou aí escondido. O segredo? 36 letras. Dispersas ou camufladas, quando reunidas, formam uma das frases mais representativas de uma das obras da autora.

Estará o visitante à altura da perspicácia de Miss Marple ou das “pequenas células cinzentas” de Hercule Poirot? Uma questão para responder de 10 de fevereiro a 8 de maio, na Casa dos Livros.

Com entrada livre, Mistérios em Exposição: a Dama do Crime nos Espólios da Casa dos Livros pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 10h30 às 12h30 e das 14h30 às 17h30. Universidade do Porto - Portugal


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Brasil – Entre os 200 anos do nascimento e os 134 anos da morte de D. Pedro II que heranças ficaram?

Historiadores apontam várias 'heranças' do império de D. Pedro II no Brasil atual


Exilado na Europa depois do golpe militar que proclamaria a República no Brasil em 1889, Dom Pedro II, nasceu a 02 de dezembro de 1825, segundo e último imperador brasileiro, redigiu um documento em Cannes, no sul da França, que é visto como seu testamento político.

Intitulado Fé de Ofício, o texto foi o último ato público do monarca deposto. Dom Pedro II morreria em 05 de dezembro de 1891.

Escrito de próprio punho, o documento está datado de 23 de abril daquele ano — e foi publicado no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, na edição de 28 de maio.

Neste 02 de dezembro, quando se recorda o segundo centenário do nascimento do único imperador brasileiro nascido no Brasil — e alguém que foi chefe de Estado do país independente em praticamente um quarto de sua história, 49 dos 203 anos, reler esta carta é compreender um pouco qual era a nação que Pedro II imaginava ter ajudado a construir.

Se consideramos também o período de regência, quando ele já tinha sido aclamado imperador mas não governava, foram 58 anos sob a coroa de Pedro II.

É praticamente consenso entre estudiosos de sua biografia que o monarca imaginava um Brasil que alcançaria o progresso por meio da ciência e da tecnologia.

Ele também almejava uma nação com instituições políticas e sociais sólidas e demonstrava crer em um futuro republicano, em que o governo seria representativo e o exercício da cidadania por parte dos brasileiros seria mais próximo do universal.

Fé de Ofício deixa pistas interessantes para este pensamento.

Para o ex-imperador, era preciso proteger a economia do país frente à concorrência estrangeira, "até o período do seu próspero desenvolvimento".

E embora se autoclassificasse como alguém que tinha "sentimento religioso", entendia que cabia ao Estado apenas a inspeção "quanto à moral e à higiene, devendo pertencer a parte religiosa às famílias e aos ministros das diversas religiões".

Destacou também a importância do investimento em educação, sobretudo criando e desenvolvendo instituições de ensino superior.

"Igreja livre no Estado livre", pontuou. "Mas isso quando a instrução do povo pudesse aproveitar de tais instituições".

Pedro II acreditava na imigração como ferramenta para o melhor "aproveitamento das terras" e defendia a criação de "um observatório astronômico" no país.

Lembrou que era importante investir no exército e na marinha, "a fim de que estivéssemos preparados para qualquer eventualidade, embora contrário às guerras". "Buscava, assim, evitá-las", sentenciou.

Posicionou-se contrário à pena de morte, enfatizando que acreditava na regeneração do ser humano.

Defendeu eleições livres para os cargos públicos e concursos para postos no judiciário e na administração estatal. Mas acreditava que somente os alfabetizados deveriam poder votar.

Demonstrou sensibilidade às pautas da habitação e da fome, ressaltando a importância de projetos que zelassem pela "sorte física do povo, sobretudo em relação a habitações salubres e a preço cômodo e à sua alimentação".

No documento, Pedro também defendeu a importância das artes, da organização de dioceses para a Igreja Católica e de expedições científicas que se dedicassem a estudar o Brasil.

Especialistas concordam que, mesmo sendo ele próprio um monarca, Dom Pedro II via no regime republicano o futuro do Brasil. Mais exatamente, em um modelo inspirado no que vigorava nos Estados Unidos, independente e República desde 1776.

"Ele considerava que a República era um desenvolvimento natural do sistema político", explica à BBC News Brasil o pesquisador e escritor Paulo Rezzutti, autor da biografia D. Pedro II - A História Não Contada.

"Mas ele achava que o Brasil não estava pronto para ela, precisava de uma melhora na estrutura administrativa antes de dar esse passo."

"Ele é visto por muitos de seus biógrafos como um imperador republicano", comenta à BBC News Brasil a historiadora Bruna Gomes dos Reis, pesquisadora na Universidade Estadual Paulista e professora no Serviço Social da Indústria (Sesi).

"Pessoas que conviveram com ele notavam que ele tinha um espírito bastante republicano. E ele imaginava um certo governo republicano para o Brasil", afirma à BBC News Brasil o historiador Silas Luiz de Souza, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Há diversos registros de comentários de Pedro II no sentido de reconhecer que o regime republicano seria o melhor para um desenvolvimento do sistema político.

"Porém, o republicanismo dele comportava-se mais como um espírito", compara Reis.

"Ele se fazia presente em ações como como a liberdade de imprensa, o amor à pátria, na sua busca pela 'civilização' por meio dos estudos, das artes e da ciência e em lampejos de nacionalismo".

Era um pós-iluminista, defensor da razão. Nesse ponto, o republicanismo parecia se enquadrar melhor em sua própria ideologia.

"Ele era adepto das ideias liberais vindas do Iluminismo, com defesa das liberdades individuais", situa Souza.

"Apesar disso, seu espírito republicano não tocava sua carne", ressalta Reis. "Ou melhor: não tocava nas estruturas políticas e econômicas do Brasil."

A historiadora comenta, por exemplo, que o último imperador brasileiro "desfrutou do poder moderador" até o fim do império. Era aquele instrumento criado no Estado brasileiro por seu pai, Pedro I, que desequilibrava o princípio da tripartição dos poderes entre executivo, legislativo e judiciário, porque situava o imperador como um quarto poder sobreposto aos outros.

O historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, cobra um pouco de cuidado ao situar Pedro II como "republicano".

"Soa um pouco anacrônico", pondera ele, à BBC News Brasil.

"Embora ele tenha escrito algumas cartas e interpretado a realidade como a inevitabilidade de um regime republicano na história do Brasil, […] associá-lo à pecha de um monarca republicano não cabe em um mundo em que muitas monarquias ainda estavam de pé."

Além disso ele lembra que Pedro teve um reinado longevo e com o exercício do poder moderador. Ambas essas características destoam de uma postura dita republicana.

Mas Missiato reconhece que havia pitadas de republicanismo em seu governo, com "a ideia de maior liberdade religiosa", "críticas à escravidão" e a instituição de órgãos públicos "para a formação do bem comum".

Pedro II também foi beneficiado, como lembra a historiadora Reis, pelas "riquezas produzidas pela escravidão, sem mover-se em direção à transformação desses aspectos que poderiam acelerar a construção da república".

"Ele acreditava que a fase monárquica era necessária para o amadurecimento nacional, e que o regime republicano apareceria em algum momento, como resultado do processo natural de desenvolvimento nacional", esclarece Reis.

Em anotação feita por Pedro II em 31 de dezembro de 1861, ele ressalta que "a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador".

A imprensa da época — que o imperador fazia questão de deixar sob livre funcionamento, sem censurá-la oficialmente — extravasava o estranhamento que seu perfil causava dentro de um regime monárquico.

"Nas cortes da Europa vai passando, republicano, ateu, darwinista e não sei que mais", publicou a Gazeta de Notícias em 19 de agosto de 1883.

"Ele olhava para as Américas e via as repúblicas sendo formadas. Os Estados Unidos tinham já uma força muito grande naquele período", comenta Missiato.

O historiador lembra que Pedro II estava atento a discussões, principalmente europeias, sobre a formação de esfera pública nas sociedades, com maior participação cidadã. E demonstrava simpatia a isso.

Como pontua a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz no livro As Barbas do Imperador: D. Pedro II, Um Monarca nos Trópicos, o titular do trono brasileiro "era dado a novidades […] e a palavra progresso, para ele, vinculava-se à ciência e ao intelecto".

Certamente por isso, a seu modo, o monarca investiu em educação e conhecimento. Era assim que ele enxergava as bases para um país que, no futuro, seria republicano.

"Dom Pedro via a si mesmo como um homem da ciência", diz Rezzutti. "Desde a infância ele considerava os estudos mais prazerosos que as brincadeiras, e esse amor continuou pela vida inteira."

"Ele mandava adquirir equipamentos científicos na Europa, estudou astronomia e matemática avançada e foi um incentivador da fotografia no Brasil, sendo um dos primeiros fotógrafos amadores do país", enumera o biógrafo.

"Também se tornou patrono de diversas instituições científicas e culturais, entre elas o Instituto Pasteur, que graças à sua proteção acabou sendo inaugurado aqui antes do que na França, e a Escola de Minas, criada em Ouro Preto há exatamente 150 anos, em 1875, por iniciativa do imperador."

Também se insere no período de sua coroa a fundação do Colégio Pedro II, em 1837 — na época, sob regência.

O mesmo se aplica ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), mais antiga e tradicional entidade de fomento de pesquisa do país, criado em 1838. Pedro II era um entusiasta do organismo.

Se quando foi criado o instituto, o imperador ainda era menor de idade, durante seu reinado ele investiu no desenvolvimento do mesmo.

"Foi um dos maiores financiadores [da instituição]", diz Souza.

"Tinha uma relação íntima, participando de eventos, fazendo palestras."

Esta imagem do monarca curioso e apaixonado pelo saber não foi uma construção tardia, póstuma, erguida a partir do mito do rei morto. Era algo já presente em seus tempos contemporâneos.

"Muitos cientistas e intelectuais deixaram suas observações sobre a admiração que sentiam a respeito do interesse dele pelas ciências", frisa Rezzutti.

Pai da teoria da evolução, o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) declarou que "o imperador faz tanto pela ciência que todo sábio é obrigado a demonstrar a ele o mais completo respeito".

Já o escritor francês Victor Hugo (1802-1885) comparou o monarca brasileiro ao romano Marco Aurélio — ícone do "rei filósofo".

Claro que também havia críticos notáveis — o abolicionista Luiz Gama (1830-1882), por exemplo.

"Ele dizia que Dom Pedro praticava um liberalismo bastante curto, tacanho", pontua o historiador Souza.

Isto porque o imperador não descuidava dos interesses da elite de sua época — uma elite basicamente constituída por latifundiários e escravocratas, a quem qualquer mudança intempestiva de rumos significava um desfavorecimento.

A historiadora Reis interpreta essa postura de Pedro II como parte do "processo de amadurecimento nacional para receber o regime republicano".

Para isso, ele entendia ser preciso preparar e "educar" os cidadãos.

"Para além dos esforços empregados no desenvolvimento tecnológico, como a implantação do telégrafo, das linhas de ferro, e na invenção de uma nação civilizada, a partir da criação do IHGB, ainda que para um pequeno grupo de brasileiros, Pedro II portava-se como um líder capaz de guiar o Brasil a esse destino, com seu verniz iluminista e moderno", contextualiza a professora.

Contudo, ela ressalva que o próprio imperador não deu um passo decisivo para a República.

"Na prática, o imperador optou por aguardar para ver aquilo que o Brasil poderia se tornar", afirma. "Se a nação não estava pronta o suficiente para se tornar República, não seria por meio de suas ações que isso seria alterado."

Nação do futuro

Mas Rezzutti volta ao documento Fé de Ofício para pensar sobre o Brasil que Pedro vislumbrava como uma nação do futuro.

"Por meio desse texto, é possível compreender qual era o país que Dom Pedro imaginava e que lutou para implantar", diz.

"Entre as diretrizes pelas quais ele afirma ter se interessado enquanto governou, estão o desenvolvimento da indústria nacional; a instrução livre, tendo considerado no estabelecimento de universidades fora dos grandes centros do sudeste; a exploração das riquezas naturais; o melhoramento das Forças Armadas para fins exclusivamente defensivos; a higiene pública, para livrar o Brasil das epidemias; a abolição da pena de morte; a liberdade política; e o melhoramento das comunicações e transportes", enumera o pesquisador.

Há diretrizes interessantes, se observadas de forma anacrônica. Por exemplo: a vocação pacífica das armas brasileiras. Sobretudo ao longo do século XX, o país foi gradualmente ganhando destaque global com um papel contrário ao da guerra.

O Brasil virou a nação da diplomacia, do soft power. E isto transcende ao mundo em episódios que vão desde a participação brasileira na fundação da Organização das Nações Unidas (ONU) até esforços recentes com envio de tropas para missões de paz.

Outro ponto do testamento político de Pedro II que ecoa hoje é quando ele menciona a higiene pública.

Com todos os problemas inerentes principalmente ao fato de ser um instituto público que depende dos cofres de um país em desenvolvimento, o Sistema Único de Saúde (SUS), criado a partir da Constituição de 1988, é visto como modelo mundial de acesso universal e gratuito aos serviços de saúde.

"Além disso, uma herança da visão que Dom Pedro tinha de como o Brasil deveria ser está na democracia, com eleições regulares e liberdade de pensamento e de imprensa. Por mais que tenha sido atacada ao longo dos anos, essa ideia sobrevive e ainda está na base do sistema político brasileiro", acredita Rezzutti.

"Da época de Dom Pedro II, sobreviveram muitas instituições que ainda são importantes para a vida econômica e cultural brasileira", complementa o pesquisador. "Entre elas, estão a própria Escola de Minas, o Colégio Pedro II, criado originalmente para a formação de uma elite política e intelectual, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro."

Quando ele defendia uma abertura maior aos imigrantes europeus, contudo, aos olhos de hoje é inevitável que a ideia soe com contornos racistas.

Seu ideal civilizatório era alinhado ao pensamento elitista e eurocêntrico de então. Pedro II não só se inspirava nos pensamentos que vinham do velho continente, mas também patrocinou políticas imigratórias que, sob a motivação de substituir a mão de obra do escravizado de origem negra, também tinha o viés de "embranquecer" o brasileiro.

"Ele entendia que trazer pessoas da Europa podia ajudar no progresso do país", explica Souza. "Isso acabou configurando a sociedade brasileira atual, com tantos grupos étnicos distintos."

Outros legados do período imperial sobreviveram ao tempo e implicaram na consolidação do Brasil contemporâneo.

É o caso da própria unidade territorial.

O Brasil poderia, assim como a América Espanhola, ter se esfacelado em diversas pequenas repúblicas. Isso não ocorreu principalmente porque havia um projeto de nação, conduzido por ambos os imperadores, que privilegiava um território robusto, grande, imenso.

Nesse sentido, o historiador Missiato lembra que houve um papel importante do governo imperial ao sufocar revoltas separatistas que pipocavam no território.

Disso também ficou a centralização do poder.

"Com certeza ele foi o líder mais importante da história do Brasil", acredita Missiato.

"Alguns aspectos da sociedade brasileira se formaram ou se fortaleceram no Segundo Reinado e não desapareceram até hoje", diz a historiadora Reis.

"Como a unidade territorial, as bases do Estado nacional, a busca pela liderança na América Latina e o afastamento cultural dos outros países latino-americanos." In “Correio Braziliense” – Brasil com “BBC News Brasil”


terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Angola - Rainha Njinga Mbandi do Ndongo e Matamba morreu há 361 anos

Faz hoje 361 anos desde que morreu Njinga Mbandi, Rainha do Ndongo e da Matamba, a 17 de Dezembro de 1663



Nasceu em 1582, na região do Ndongo, cujo território abrangia regiões das actuais províncias de Malanje, Cuanza-Norte, Bengo, Luanda e parte dos territórios do Cuanza-Sul, Lunda-Norte, Bié e Uíge.

Njinga Mbandi foi uma importante estrategista militar e política durante a presença portuguesa nas regiões correspondentes à actual Angola.

A Rainha Njinga reinou por 37 anos e tornou-se uma heroína na História de Angola, sendo até hoje lembrada pelos seus feitos. Uma das principais ruas de Luanda, onde se situa a sede da Edições Novembro, leva o seu nome e, na mesma cidade, encontra-se uma estátua no Largo do Kinaxixi. A principal universidade pública de Malanje leva igualmente o seu nome.

Primeiros anos

A Rainha Njinga é filha de Ngola Kiluanje Kia Samba e de Guenguela Cacombe, da etnia ambundo, uma das escravas do seu pai e sua concubina favorita.

De acordo com a lenda, o parto da sua mãe Guengela foi complicado, pois Njinga nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço (em quimbundo Kujinga significa torcer ou girar). Tal facto, na crença local, era de que a pessoa seria alguém poderosa e orgulhosa.

Quando tinha cerca de dez anos, o pai tornou-se o Rei (Ngola) do Ndongo.

Ela sempre foi muito favorecida pelo pai, por se destacar entre as filhas do Rei e não ser herdeira ao trono, facilitando uma maior dedicação à jovem, sem despertar atritos com os irmãos “homens”.

Durante o seu crescimento, Njinga foi treinada nas artes militares e políticas na corte do pai, chegando a servi-lo como conselheira jurídica e diplomata com os portugueses. Além disso, foi ensinada por missionários portugueses a ler, escrever e falar português.

Na juventude de Njinga, o Reino do Ndongo passava por muitas crises internas, devido a rivais políticos do Rei e forças externas, devido às ameaças portuguesas. Os portugueses chegaram ao Ndongo no século XV e foram inicialmente um aliado no comércio atlântico de escravos. Porém, em 1571, o Rei Sebastião de Portugal ordenou a subjugação e conquista do Reino do Ndongo. Os imbangalas, que foram um grupo de guerreiros nómadas inimigos do Reino do Ndongo, juntaram-se aos portugueses na mesma época. Os imbangalas desejavam a posse de terras no Ndongo, já os portugueses queriam capturar nativos para vender como escravos.

Muitos nativos do Ndongo se aliaram aos portugueses e isso fez os tributos ao Rei diminuírem. Quando o pai de Njinga se tornou Rei, em 1593, o Reino já estava há mais de dez anos em guerra.

Sucessão

Em 1617, o Rei Ngola Kiluanje morre e Ngola Mbandi, irmão de Njinga, sucede-lhe no trono. Njinga e o irmão sempre foram rivais e Ngola Mbandi se tornou paranóico de que o filho recém-nascido da irmã poderia um dia assassiná-lo, por isso ordenou que a criança fosse morta e Njinga fosse esterilizada. Temendo pela sua vida ou pelo ressentimento pelo seu filho, Njinga fugiu para a região da Matamba, onde permaneceu exilada até que o irmão o chamou outra vez, em 1621, para servir como embaixatriz do Ndongo em Luanda. A escolha do Rei devia-se ao facto de que não conseguia combater os portugueses com a força e decidiu pedir ajuda da irmã que falava, escrevia e lia em português e era uma exímia diplomata para tratar a paz com os portugueses.

Viagem para Luanda

Njinga aceitou e em 1622 viajou para Luanda, ao encontro de João Correia de Sousa, governador português. Enquanto outros líderes do Ndongo se vestiram com trajes ocidentais, Njinga optou por utilizar vestimentas tradicionais, com a intenção de demonstrar a sua não submissão aos portugueses. Segundo a história, quando Njinga chegou ao salão onde conversaria com o governador, não havia cadeiras para os líderes africanos, mas apenas uma almofada no chão onde se sentariam, numa posição de submissão ao governador. Foi quando Njinga Mbandi ordenou que um dos seus soldados se posicionasse de de joelhos e braços no chão para que ela se sentasse nas costas como uma cadeira, ficando assim cara a cara com o governador. Ela era uma negociadora feroz e fez um acordo com os portugueses, obtendo em troca a abertura da rota de comércio e o estudo e conversão ao cristianismo dos governantes do Ndongo. Os portugueses retirariam as suas tropas e reconheceriam o Ndongo como um Estado soberano, sem precisar de pagar um tributo anual e nem prestar vassalagem a Portugal.

Em Luanda, onde ficou cerca de um ano, foi baptizada, adoptando o nome cristão de Ana de Sousa, em homenagem à sua madrinha Ana de Sousa, esposa do governador João Correia de Sousa, que também serviu como padrinho de baptismo.

Reinado e conflitos

Após a paz com os portugueses, o entendimento com os imbangalas ruiu e uma nova guerra instalou-se. O Rei Ngola Mbandi fugiu de Cabassa com a sua corte e alguns seguidores. Os portugueses não estariam dispostos a prosseguir com a paz conseguida com o Ndongo se o Rei estivesse exilado e não convertido.

Como resultado, a paz entre os portugueses e o Ndongo, alcançada por Njinga Mbandi, foi anulada e os mesmos continuaram a invadir as terras nativas e a capturar africanos como escravos.

Em 1624, o Rei Ngola Mbandi morre de causas misteriosas (alguns afirmam envenenamento e outros um suicídio). Antes de morrer, o Rei deixou clara a vontade de que Njinga Mbandi o sucedesse. Ela foi entronizada pouco depois do funeral do irmão.

Ngola Mbandi tinha um rival na corte do Ndongo, Hari, que se opunha a uma liderança feminina e por isso jurou vassalagem aos portugueses. Com a ajuda dos guerreiros jagas (imbangalas) de Cassange e de aliados do Ndongo, Hari conseguiu a deposição de Njinga, que fugiu para Luanda. Depois disso, juntou seguidores e capturou a Rainha de Matamba, assumindo esse posto e reunindo um grande exército na região. Logo depois, retornou ao Ndongo e reassumiu o trono.

Ao reassumir o trono, ela enfrentou uma forte oposição da aristocracia que não a queria como soberana. Njinga utilizou da genealogia para se legitimar no trono, porém ainda foi desconsiderada, pois tanto ela quanto o irmão falecido Ngola Mbandi eram filhos do Rei com escravas concubinas.

Diz-se que Njinga nunca foi capaz de se legitimar como governante do Ndongo por ser mulher, já que esse requisito era visto como inadequado para o cargo. Por causa disso, em algum momento, na década de 1640, a Rainha se “tornou um homem”, que era um costume comum para governantes mulheres, já que não eram reconhecidas como legítimas soberanas. Ela passou a vestir-se com trajes masculinos e a liderar com sucesso ofensivas contra portugueses, jagas e outros inimigos políticos.

Últimos anos de reinado e morte

Em 1656, Njinga Mbandi conhece os missionários capuchinhos e se converte ao cristianismo, pela segunda vez, e também permitiu que missionários entrassem no reino para converter os nativos à religião a que inicialmente se opunha.

Em 24 de Novembro de 1657, os portugueses decidem cessar a guerra e os planos de conquista do Ndongo e Matamba, numa carta ratificada pelo rei D. Afonso VI. Após a paz, ela tentou reconstruir a nação devastada pela guerra. Conseguiu desenvolver Matamba como uma potência comercial na região, uma porta de entrada para a África Central. Ela se opôs a que a princesa imbangala Njinga Mona a sucedesse como soberana após a sua morte, por isso, no tratado de paz, pediu para que os portugueses ajudassem a sua família a permanecer no trono.

Na falta de um herdeiro que a sucedesse, fez a sua irmã Mucambu casar-se com João Guterres Ngola Kanini. Esse casamento, porém, não foi permitido pelos missionários capuchinhos, já que Ngola Kanini já tinha uma esposa em Ambaca.

Nos últimos anos, Njinga Mbandi tentou reassentar ex-escravos fugidos das fazendas europeias no seu reino. Apesar dos esforços para destroná-la, em especial pelo líder imbagala Cassange, também sofreu tentativas dos portugueses para matá-la. Entretanto, apesar de tudo, Njinga morreu pacificamente em Matamba, aos 82 anos, a 17 de Dezembro de 1663. Foi sucedida pela irmã Mucambu, que reinou até à sua morte, em 1666. In “Jornal de Angola” - Angola


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Universidade do Porto celebra centenário da primeira viagem aérea de Portugal a Macau

Inauguração de mostra na Casa Comum e concerto de Banda da Força Aérea na FEUP são dois dos eventos programados para a tarde/noite de 15 de maio



Em 1924, Portugal participou na grande aventura de voar, realizando, com êxito, o primeiro raide aéreo Portugal-Macau. A viagem, a bordo do “Pátria”, realizou-se entre 7 de abril e 20 de junho. Para assinalar este êxito, a Universidade do Porto vai promover um programa de atividades, a decorrer no dia 15 de maio e com entrada livre para toda a comunidade.

As celebrações vão abrir com a inauguração, pelas 16h30, na Casa Comum (à Reitoria), de Portugal na aventura de voar, uma mostra que reúne, entre outros objetos, a hélice do “Pátria”, alguns troféus que a viagem arrecadou e vários painéis com texto e fotografias da época que contextualizam a história deste marco da aviação nacional.

A inauguração da mostra será antecedida de uma atuação da Banda da Força Aérea. Segue-se um painel de conferências que contará com a presença de Isabel Morujão (Universidade do Porto- CITCEM), Carlos Mouta Raposo (Diretor do Museu do Ar), Cátia Miriam Costa (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa), Paulo Lage (FEUP) e Armando Malheiro da Silva (Universidade do Porto – CITCEM).

Pelas 21h30, haverá um concerto pela Banda da Força Aérea Portuguesa, no Anfiteatro da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP).

A mostra Portugal na aventura de voar ficará patente ao público até finais de junho.

A viagem de esmolas

Em 1922, o centenário da Independência do Brasil foi assinalado com a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, protagonizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. O sonho da aviação portuguesa era colocar Portugal no rumo da modernidade, competindo com as potências estrangeiras que, por essa altura, financiavam voos de longo alcance.

O voo de longo curso a Macau não teve financiamento do Governo. Brito Paes, Sarmento de Beires e o alferes mecânico Manuel Gouveia fizeram a viagem com um avião adquirido em segunda mão, em França. A compra foi custeada pelo dinheiro de um prémio oferecido a Beires e Paes por Charles Bleck (como resultado da primeira tentativa que fizeram de viagem aérea à Madeira, onde só não aterraram por causa do intenso nevoeiro sobre a ilha); e por uma subscrição pública aberta pelo Aeroclube de Portugal para completar o pagamento, a que se seguiram outras iniciativas para recolha de fundos: campeonatos de futebol, récitas, leilões, venda de livros, espetáculos de teatro e de música, etc.

O país mobilizou-se para apoiar esta viagem, numa altura política e socioeconomicamente adversa, o que levou os aviadores a classificarem este raide como uma viagem “de esmolas”. O avião escolhido foi um Breguet XVI, um antigo bombardeiro noturno de guerra, que transportava até 550 kg de bombas.

Já depois de dois terços do percurso percorrido, o “Pátria” sofreu um acidente ao aterrar de emergência na Índia. Para a sua substituição, foi, novamente, o povo português que pagou a compra do segundo avião na Índia, igualmente usado, que completaria a viagem até Macau.


Após o sucesso do raide, os três aviadores foram apoteoticamente recebidos pelas comunidades portuguesas de Macau, Hong Kong e Changai. No regresso para Portugal, de barco, fizeram diversas paragens em comunidades portuguesas na América, onde foram festejados. Em Lisboa, durante dias, os aviadores foram aclamados como heróis e condecorados com a Ordem de Torre Espada de Valor, Lealdade e Mérito pelo Presidente da República. Universidade do Porto - Portugal




domingo, 25 de fevereiro de 2024

Timor-Leste assinala Dia Internacional da Língua Materna

Díli – O Dia Internacional da Língua Materna é celebrado anualmente a 21 de fevereiro, este ano sob o tema Educação multilingue como pilar da aprendizagem intergeracional. A efeméride visa chamar a atenção para a necessidade de se traçarem políticas de educação multilingue e inclusiva, por forma a garantir a preservação das línguas maternas.

Estima-se que existam mais de 30 idiomas em Timor-Leste, sendo que metade destes corre o risco de desaparecer. Segundo os Censos da População de 2010, há várias línguas em risco de extinção, como, por exemplo, o Makua, que conta apenas com 56 falantes, o Atauran, com 147 falantes, o Adabe, com 181 falantes, o Nanaek, com 297 falantes e o Isni, com 703 falantes.

Para o Coordenador da Divisão da Cultura da Comissão Nacional para a UNESCO de Timor-Leste (CNTLU), Augusto Salsinha, as línguas maternas fazem parte da identidade de um país, por isso, devem ser preservadas.

“A maioria dos jovens do suco de Ulmera, em Liquiçá, fala tokodede, mambas e tétum. Apenas oito famílias, cujos membros têm mais de 50 anos, falam manetlan, isto faz com que esta língua se vá extinguir a curto prazo”, informou o dirigente à Tatoli, no Bairro Pité, em Díli.

Augusto Salsinha referiu que, numa tentativa de se preservar as línguas maternas, desde 2020, a CNTLU produziu livros bilingues, em tétum e nas línguas mambae, bunaq, bekais, makalero, naweti, dadua e manetlan, acrescentando que ainda, este ano, a comissão lançará livros escritos em Lolein, Lacalei e Isni.

O responsável explicou ainda que para a elaboração de livros nas mais variadas línguas, a equipa da CNTLU recolhe informação através de entrevistascom os chamados lian nain (donos da palavra), nas quais são contadas lendas, orações e costumes tradicionais. Após isso, a informação recolhida é compilada e, grande parte dela, é traduzida para tétum.

“Não podemos traduzir tudo para tétum, porque há frases muito específicas, como orações em receções e eventos culturais, que não podem ser traduzidas para que não percam a força espiritual de acordo com as crenças locais”, explicou Augusto Salsinha.

Segundo o dirigente, a comissão recebe anualmente cerca de 25 mil dólares americanos da UNESCO e 10 mil da Secretaria de Estado da Arte e Cultura (SEAC).

Para a Diretora do Instituto Nacional de Linguística, Rosa Tilman, a efeméride permite que as comunidades poliglotas reflitam sobre a preservação das suas línguas maternas. Na opinião da dirigente o lançamento de livros naquelas línguas assume especial importância, uma vez que estes “são uma herança para as futuras gerações e uma referência para aqueles que queiram aprender as línguas”.

Questionada sobre o desenvolvimento e a preservação das línguas maternas em Timor-Leste, Rosa Tilman disse que, relativamente ao tétum, esta se está a desenvolver bastante nas zonas rurais, pois as comunidades mantêm tradições orais na vida quotidiana.

Já o Diretor Interino da Direção Nacional do Património Cultural da SEAC, Claudino Cabral, referiu que “na base das várias línguas maternas no país esteve a influência de falantes da melanésia e da austronésia.

Claudino Cabral referiu que, este ano, a SEAC disponibilizou cerca de 29 mil dólares americanos para atividades de preservação do património cultural na língua Fatuluku no município de Lautém. Afonso do Rosário – Timor-Leste in “Tatoli”