Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 2 de março de 2024

Internacional - Estudo sugere que há no mundo mais de mil milhões de pessoas obesas

Um estudo internacional em que participam Cristina Padez, Daniela Rodrigues e Aristides Machado Rodrigues, investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), sugere que há mais de mil milhões de pessoas no mundo que vivem atualmente com obesidade.


De acordo com esta investigação, publicada na revista The Lancet, estas tendências, juntamente com o declínio da prevalência de pessoas com baixo peso desde 1990, fazem da obesidade a forma mais comum de subnutrição na maioria dos países.

«A análise dos dados globais estima que entre as crianças e adolescentes do mundo, a taxa de obesidade em 2022 era quatro vezes superior à taxa de 1990. Em Portugal, em 2022, a prevalência de obesidade em crianças e adolescentes era de 6% nas meninas e 9% nos rapazes. Entre os adultos, a taxa de obesidade mais do que duplicou nas mulheres e quase triplicou nos homens. No total, 159 milhões de crianças e adolescentes e 879 milhões de adultos viviam com obesidade em 2022», revelam os coautores do estudo, acrescentando que, em Portugal, a prevalência de obesidade nas mulheres era de 23% e nos homens de 22%, nesse ano.

Entre 1990 e 2022, a proporção de crianças e adolescentes do mundo que foram afetados pelo baixo peso diminuiu cerca de um quinto nas raparigas e mais de um terço nos rapazes. Em Portugal, o valor de baixo peso/magreza foi de 1% nas meninas e 3% nos rapazes, em 2022. A proporção de adultos em todo o mundo que foram afetados pelo baixo peso baixou para mais de metade durante o mesmo período. Em Portugal, nesse mesmo ano, os valores foram de 2% nas mulheres e nos homens.

Como explicam os investigadores do CIAS, «a obesidade e o baixo peso são formas de desnutrição e são prejudiciais à saúde das pessoas de várias maneiras. Este último estudo fornece uma imagem altamente detalhada das tendências globais em ambas as formas de desnutrição nos últimos 33 anos».

«É muito preocupante que a epidemia de obesidade, que era evidente entre adultos em grande parte do mundo em 1990, se reflita agora em crianças e adolescentes em idade escolar. Ao mesmo tempo, centenas de milhões de pessoas ainda são afetadas pela subnutrição, especialmente em algumas das partes mais pobres do mundo. Para combater com sucesso ambas as formas de desnutrição, é vital melhorar significativamente a disponibilidade e o preço acessível de alimentos saudáveis e nutritivos», alerta o professor Majid Ezzati, do Imperial College London, autor sénior deste artigo.

Foram mais de 1500 os investigadores que contribuíram para este estudo, que analisou o índice de massa corporal (IMC) para compreender como a obesidade e o baixo peso mudaram em todo o mundo entre 1990 e 2022. Os investigadores analisaram medidas de peso e altura de mais de 220 milhões de pessoas com cinco anos ou mais (63 milhões de pessoas com idades entre cinco e 19 anos e 158 milhões com 20 anos ou mais), representando mais de 190 países.

«Os adultos foram classificados como obesos se tivessem IMC maior ou igual a 30kg/m2 e classificados como abaixo do peso se o IMC fosse inferior a 18,5kg/m2. Entre crianças em idade escolar (cinco a nove anos) e adolescentes (10 a 19 anos), o IMC utilizado para definir obesidade e baixo peso depende da idade e do sexo, pois há aumento significativo de altura e peso durante a infância e a adolescência», concluem.

Este novo estudo foi conduzido pela NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC), em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para além dos investigadores da FCTUC, participaram também Anabela Mota Pinto, Luísa Mavieira e Lélita Santos da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e do Centro Hospitalar de Coimbra (CHUC). Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Portugal - Investigadora da Universidade de Coimbra distinguida com Prémio Maria de Sousa

Daniela Rodrigues, investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), é hoje distinguida com o Prémio Maria de Sousa, no valor de 30 mil euros, no âmbito do seu projeto UPSEE Health – Experiência sensorial dos espaços urbanos e o impacto na saúde.

Segundo a investigadora, este projeto pretende «expandir a compreensão de como os jovens são expostos, experimentam e interagem com os lugares urbanos, e de como é que essa experiência se associa ao seu estilo de vida e à sua saúde».

Para Daniela Rodrigues, ser uma das premiadas desta segunda edição do Prémio BIAL «significa não só um reconhecimento, por parte de colegas da área da Saúde, do trabalho que tenho desenvolvido nos últimos anos, nomeadamente sobre o papel do estilo de vida (ativo e sedentário) como determinante da obesidade infantil em Portugal, mas serve também como uma chamada de atenção para o papel da atividade física como uma estratégia para a prevenção e promoção de saúde».

Como tal, o UPSEE Health pretende analisar a experiência sensorial dos jovens adultos, por exemplo o bem-estar, felicidade, ansiedade ou stress, mas também os comportamentos de atividade física e sedentarismo dos mesmos ao longo do dia e, ainda, interpretar os padrões de variação na atividade física e sedentária de acordo com o ambiente, nomeadamente a experiência social, física, sensorial e emocional.

Neste novo estudo, Daniela Rodrigues escolheu como foco os jovens adultos, por duas principais razões, nomeadamente porque «estão num período crítico para a fixação de atitudes e comportamentos, que possivelmente estarão presentes na vida adulta», e também por existirem «poucos estudos sobre como os jovens experienciam e interagem com o ambiente ao seu redor».

Para a concretização do UPSEE Health será utilizado um novo método que concilia e analisa diversos fatores, designadamente um «Dispositivo Sensorial Móvel (MSD), que mede sinais vitais, localização, movimento/aceleração; uma aplicação móvel inovadora, que regista a experiência em lugares, local de nascimento, alimentação, exercícios, hábitos de sono; medidas antropométricas, como a estatura, o peso e a circunferência abdominal e ainda, uma análise das características do espaço, por exemplo elementos naturais, mobiliário urbano», explica a investigadora da FCTUC.

No final do projeto, que terá um estágio no Health Research Institute, da Universidade de Limerick, na Irlanda, a investigadora espera, em colaboração com outros colegas da área, «trazer uma reflexão sobre os efeitos dos ambientes urbanos no estilo de vida dos jovens. É fundamental que Portugal adote políticas de saúde mais focadas na promoção da saúde e prevenção da doença», alerta.  

O Prémio Maria de Sousa, promovido pela Ordem dos Médicos e pela Fundação BIAL, visa galardoar e apoiar até cinco jovens investigadores científicos portugueses, com idade igual ou inferior a 35 anos, em projetos de investigação na área das Ciências da Saúde, incluindo obrigatoriamente um estágio num centro internacional de excelência.

Este galardão foi criado com o intuito de homenagear a médica e investigadora Maria de Sousa. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 8 de junho de 2021

Portugal - Estudo avalia o impacto dos dispositivos eletrónicos no sono das crianças

Embora os dispositivos eletrónicos sejam mais prevalentes nas casas de famílias portuguesas com maior estatuto socioeconómico, a disponibilidade desses equipamentos no quarto da criança é mais comum em famílias mais desfavorecidas, com impactos negativos no sono das crianças. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Sleep Medicine.

Este paradoxo pode refletir fatores sociais e ambientais ao invés de financeiros. Uma explicação avançada no artigo científico é a possibilidade de as famílias de baixo estatuto socioeconómico terem menos conhecimento sobre os problemas de saúde associados ao uso excessivo de dispositivos com ecrã, menos tempo para supervisionar seus filhos ou menos oportunidades de envolvê-los em atividades extracurriculares.

O estudo foi conduzido por uma equipa do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e teve por objetivo identificar a disponibilidade de diferentes dispositivos eletrónicos (televisão, computador, tablet, etc.) em casa e no quarto das crianças portuguesas de acordo com a condição socioeconómica, de modo a analisar as associações entre essa disponibilidade e o tempo de ecrã e o sono das crianças nos dias de semana e fim de semana.

A investigação, que utilizou dados de 8430 crianças, com idades entre os 3 e 10 anos, de escolas públicas e privadas das cidades do Porto, Coimbra e Lisboa, revela que os dispositivos eletrónicos disponíveis em casa, especialmente no quarto, diminuíram significativamente o tempo de sono das crianças.

Independentemente da idade, sexo, ou do tipo de equipamento, o tempo despendido em frente ao ecrã «é sempre mais elevado em crianças de famílias de menor posição socioeconómica», explica Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico, explicitando que entre crianças dos 3 aos 5 anos de idade, «ter uma televisão e um tablet no quarto foi associado a maior tempo ecrã. Entre crianças de 6 a 10 anos de idade, ter dispositivos no quarto (televisão, laptop e tablet) foi associado a maior tempo de ecrã e a menos horas de sono principalmente nos dias de aula».

Segundo Daniela Rodrigues, as conclusões do estudo mostram que «ter um equipamento no quarto da criança não está relacionado com uma maior disponibilidade do equipamento em casa (nem com maior disponibilidade financeira)» e alertam para a necessidade de «desenvolver estratégias eficazes para minimizar o acesso ao dispositivo na hora de dormir. O tempo excessivo em frente ao ecrã e a menor duração do sono têm importantes implicações na saúde das crianças». Além disso, o uso generalizado de dispositivos móveis e a «popularização de dispositivos eletrónicos no quarto são provavelmente responsáveis pelo aumento substancial do tempo de ecrã na infância ao longo dos anos», refere a investigadora do CIAS.

«Com a pandemia de COVID-19 as crianças foram obrigadas a passar mais tempo em casa e ficaram mais dependentes de equipamentos eletrónicos (para uso educacional, social, etc.), pelo que é urgente aplicar estratégias de gestão do uso destes equipamentos na hora de deitar. Especial atenção deve ser dada a crianças socioeconomicamente mais desfavorecidas por estarem em maior risco, como encontrado neste trabalho», finaliza.

O estudo mostra ainda que, apesar de a televisão ainda exercer efeitos consideráveis sobre o tempo de sono das crianças, os dispositivos móveis podem começar a ter um impacto maior no sono do que os dispositivos tradicionais.

O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), pelo COMPETE 2020, Portugal 2020 e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER). Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Portugal - Estudo conclui que um em cada três pais interpreta mal o peso dos seus filhos

Um estudo publicado no American Journal of Human Biology revela que 32,9% dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos, praticamente um em cada três, (30,6% subestimam e 2,3% sobrestimam).

Conduzido por Daniela Rodrigues, Aristides Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), o estudo teve dois grandes objetivos: analisar a concordância entre o estatuto nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas; observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade.

A investigação, que pretendeu ainda avaliar se a perceção que os pais têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características das crianças e socioeconómicas, envolveu 793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre 6 e 10 anos).

«Verificámos que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou. A subestimação foi substancialmente maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e, principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado», diz Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da FCTUC.

E é nas classes sociais mais baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças, especialmente das meninas: «ter pais com menor estatuto socioeconómico e mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso dos filhos, principalmente entre as raparigas», nota a investigadora.

No que se refere ao objetivo de observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores verificaram que «pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e mental, não só na infância mas que permanecem na idade adulta».

Ponderando as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Daniela Rodrigues defende que «é urgente ajudar os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade dos filhos para que possam recorrer à ajuda dos profissionais de saúde e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida da criança».

«O primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o estatuto nutricional da criança», acrescenta.

No artigo publicado, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os resultados do estudo. «Os pais podem não saber identificar o que é excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a apresentar a obesidade no seu extremo. Por outro lado, numa altura em que a prevalência de excesso de peso e obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem “normalizar” o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram nas crianças que os rodeiam», afirma a Investigadora da FCTUC.

«Acreditamos ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social, evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade», conclui.

O artigo, intitulado “Parental misperception of their child's weight status and how weight underestimation is associated with childhood obesity”, pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal