Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livro de acordar o leitor: “A vizinha das sete cordas”

Todos os textos de Hugo Almeida, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral

O recente livro de Hugo Almeida, A vizinha das sete cordas (São Paulo: Sinete, 2026), é composto de 15 contos, distribuídos em três partes: Dentro de Casa, Fora de Casa e Além – Tributo a três eternos. Nessa última parte, o tributo é dedicado a três grandes escritores brasileiros: Osman Lins, Clarice Lispector e Manuel Bandeira.

Em verdade, todos os textos de Hugo, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral. Há uma rede de epígrafes, começando com Lima Barreto, Lord Bulwer Lytton e Ivan Lins, abordando crimes, erros, desgraça e perdão, e se espalham praticamente em cada conto, ocorrendo, inclusive, uma epígrafe (ou hipógrafe?) no final do texto “Ponto cego”, com versos de Jorge de Lima: “surdo-mudo/ cegara. / Agora vê”.

Creio que esses versos e o título do conto indicam bem a sensação que uma primeira leitura vai despertar nos leitores dessa coletânea (que conta com o lúcido prefácio de Eltânia André). A obra é repleta de pontos cegos, assim como se o autor valesse de um palimpsexto sentido para captar movimentos, sensações, lugares, crueldades e afetos disseminados ao longo das narrativas.

Em termos de afeto, sinto-me honradamente contemplado, pois, em meio a tantas dedicatórias, Hugo Almeida lembra-se de meu humilde nome no final de “Assim de touca e máscara?”, conto que recebe epígrafe de belo verso do poema “Maçã”, de Manuel Bandeira e sua intricada trama joga com antiguidade romana, reminiscências bíblicas, Chopin, Mallarmé, Dalí, Lorca, Tasso e taça de vinho, sem omitir um pintor de origem espanhola, seria Carlos Alonso? O que gosto desse e de demais textos é a força poética que insufla as narrativas, pois o autor põe a poesia em bom lugar, daí “verso, poema, pedra preciosa” são elementos estruturantes, irrigando de lirismo, mas sem evitar os impactos desumanizantes que são denunciados. No conto alusivo a Manuel Bandeira, “O poeta e a estrela da manhã”, lê-se que, na esteira de Mallarmé, “escrever poesia é fazer música com a dor” (p.144).

O leitor não pode dormir de touca: há muitos toques intertextuais, paratextuais e outros que tais. Por exemplo, em “O casal do farol”, Hugo toca em tema que sempre me atraiu, desde que li “Os faroleiros”, conto de Urupês, de Monteiro Lobato. E não costumo perder filmes ambientados em faróis. No conto de Hugo, com epígrafe do recorrente Osman Lins, que empresta nomes de suas personagens para os protagonistas são designados por dois nomes: Alex (fora da lei) e Sóstrato (que remete ao arquiteto e engenheiro que projetou o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo). O casal é formado por ele e por Nancy, que também é chamada de Bárbara. Nomes tirados de textos de Osman, o mentor de Hugo. Nesse conto, em que o homem é ilha e mulher é arquipélago, dramatizam-se amor, isolamento, desencontro.

O número sete assinala a trama do conto que dá título ao livro, curiosa história das vizinhas Elvira e Mira, nomes que remetem ao olhar e ao comportamento humano, em sua ordem e desordem. A epígrafe de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos dá o tom irônico que pontuará o texto: “Sim, está tudo certo. / Está tudo perfeitamente certo”.

Uso de uma expressão de José Miguel Wisnik para afirmar que Hugo Almeida é dos escritores que dão “pérolas aos poucos”, uma vez que sua erudição e prodigalidade em saltos de longa distância de um texto para outros não dão vida fácil para leitores muito acomodados. E o leitor tem todo o direito de gostar mais de um conto do que de outro. Por exemplo, além dos já citados, entre os quinze contos impressionou-me “Nas nuvens”, primor de minimalismo, pegada para uma narrativa fantástica, simbologia bíblica com a Estrela de Belém, os nove meses da gravidez de Maria (as datas 22 de março e o Natal), o casal que sai da casa para um apartamento e é atraído pela maquete.

Em tempos de Copa do Mundo, é de se ler e de se rir de “Influxologia alemã”, neologismo criado para referir-se ao absurdo de um juiz que decide invalidar os impiedosos 7 x 1 que os alemães aplicaram no selecionado nacional, no Mineirão, em 2014. O humor também pontua “Dona Justina”, em que aparece pela segunda vez um personagem chamado Túlio, não sei se Hugo pensou num personagem de Avalovara, de Osman, ou se viu no seu significado de “o que cria ou dá origem às coisas”. Como sou chegado a um trocadilho, prefiro brincar com “entulho”, levando para uma metáfora dos fragmentos que povoam nossa memória, nosso inconsciente, que abruptamente surgem na criação ou na fruição da ficção.


Vale a pena acordar para os textos desse admirável escritor mineiro, nascido em Nanuque (nome de morador da serra) em 1952, mas saiu de lá ainda bebê, viveu nove anos na Bahia e 22 em Belo Horizonte. Mora em São Paulo desde 1984. A vizinha das sete cordas é o seu 17º livro e 5º de contos. Hugo Almeida é autor dos romances Mil corações solitários (5ª edição) e Vale das ameixas (2ª), e do ensaio livre A voz dos sinoso sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, todos também publicados pela Editora Sinete.  Caio J. Maciel – Brasil

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A vizinha das sete cordas (contos), de Hugo Almeida, Editora Sinete, 152 páginas, R$ 60,00. Disponível nos sites da editora e na Amazon.

https://link.amazon/B0gvagtCi

e www.editorasinete.com.br

E-mail: editorasinete@gmal.com. Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Caio Junqueira Maciel, professor e escritor, é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor, entre outros, dos ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, dos poemas Pele de jabuticaba e do romance Um estranho no Minho, sobre o período em que viveu em Portugal.




terça-feira, 14 de abril de 2026

“A bala dos desarmados”, histórias dentro da História

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra permeia os 14 contos do quinto livro do escritor mineiro Francisco de Morais Mendes

 

I

Ao contrário do que pensava Guimarães Rosa, como expressa no título Primeiras estórias, há um bom tempo os estudos literários não distinguem estória de história; a primeira seria ficção e a segunda, fato. Ficção ou realidade, será sempre história. A lembrança vem a propósito do quinto livro de Francisco de Morais Mendes (Belo Horizonte, 1956), A bala dos desarmados (Sinete, 2025), em que a criação ficcional está embebida da História, como ocorre em grandes obras, seja romance, conto ou poema.

Com enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor. Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que conseguem essa proeza, a de estimular a imaginação do leitor.

Conto não é um gênero fácil, ao contrário do que pensam muitos autores e leitores, imaginando que se trata somente da quantidade de páginas. São esclarecedoras as palavras de Gabriel García Márquez no Prólogo de Doce cuentos peregrinos: “O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, extensão, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar [...] O conto, por sua vez, não tem começo nem fim: ou toma forma ou não. E se desanda [...], é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo”.

Autor multipremiado de novelas e contos fortes, densos e originais, Francisco de Morais Mendes sabe muito bem disso – e seus contos nunca desandam, desde o início tudo está bem encaminhado. O escritor mineiro encara a literatura com seriedade e paixão. Não tem pressa. Com a obra anterior, o brilhante Sacrifício e outros contos, conquistou o Prêmio Autor 2018, em Lisboa, onde foi publicado pela Gato Bravo em 2019 e no Brasil pela Jaguatirica em 2021. Há escritores que estreiam com ótimo livro e aos poucos vão se diluindo, em evidente declínio do vigor narrativo, do apuro estético e da escolha e condução dos temas. Alguns, se fossem times de futebol, já teriam caído para a Série B (antiga Segunda Divisão) ou C, sem chances de retorno, mas seguem na mídia e no gosto de leitores pouco exigentes. A inércia da fama. Não é o caso do autor de A bala dos desarmados. Ao contrário, ele se aprimora livro a livro – e é admirado por bons leitores.

 

II

Acompanho a ascensão literária de Morais Mendes desde a estreia, com Escreva, querida (1996), e tive a honra e o privilégio de escrever a orelha de A bala dos desarmados, a sua melhor coletânea de contos ou novelas. Apresentar com seriedade um excelente livro exige mais de uma leitura, mas numa orelha, espaço reduzido, pode-se apenas apontar alguns de seus incontáveis méritos; muitos deles não são abordados devido à limitação das estreitas abas e do prazo, em geral curto, de entrega do texto à editora. Além disso, a releitura de uma obra de real valor literário torna-se mais prazerosa, pois revela aspectos não percebidos antes. É o que dizia Osman Lins de outra maneira, mais elaborada: “As qualidades mais valiosas de um livro são como que secretas e se revelam aos poucos, sempre com parcimônia”. E, como detalhou a escritora e tradutora paulista Maria de Lourdes Teixeira em Esfinges de papel, a releitura é mais prazerosa do que a leitura “porque nos proporciona maior aprofundamento do tema e do pensamento do autor, maior captação dos processos utilizados, bem como satisfação artística mais lenta e mais saboreada, já que não nos aguça a curiosidade a visão global do assunto e sim os meandros e interstícios da obra em si”.

Vou tentar apresentar a seguir algumas das preciosidades dos contos de A bala dos desarmados; todos primorosos, obras-primas, já adianto. Interligados, eles se desdobam no tempo e espaço e se comunicam, como fazem pelas raízes as árvores numa floresta, fato comprovado pela ciência, e como ocorre nas histórias de autores engenhosos. Desejo trazer pontos além dos que apontei na orelha, mas não posso deixar de ressaltar o que ali destaquei: a recorrente falta de ar (às vezes metafórica) em vários contos, reflexo do clima sufocante que o Brasil viveu há alguns anos.

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra, mote natural dos grandes escritores, já se evidencia no primeiro conto, de título bem apropriado, “Incerta viagem”. Como no poema de Baudelaire, “O convite à viagem”, a leitura de um livro é sempre um novo convite. No entanto, em A bala dos desarmados trata-se de uma viagem distante daqueles versos idílicos do autor de As flores do mal (“Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor”). No início o narrador aventa a possibilidade (e suas terríveis, trágicas consequências) de uma duradoura pane mundial em computadores, celulares e na internet. Mas a história deriva para uma questão pessoal do narrador, um escritor, em diálogo tenso com uma leitora que dizia ter conhecido uma personagem dele. Ele refuta, a mulher seria inventada. No fim, leva um susto de efeito reverso. Surpresa também para o leitor. Instigante e deliciosa ficção dentro da ficção. A História acolhe a história.

Da questão pessoal do personagem-narrador do primeiro conto, o escritor nos traz, na segunda história, “Ar”, os anos angustiantes do pós-eleições de 2018, quando as famílias se esfacelavam e o Brasil apodrecia “como um animal morto largado numa poça de água suja”. Enquanto caminha ao encontro de uma amiga, a personagem Malu pensa na carta que escreveria à família ou ao tio e lembra-se da frase que ouviu do pai ao telefone, “justo ele, sempre tão comedido, tão calmo, perdendo as estribeiras com o tio: você votou na minha morte”. É nesse conto, vigorosa história dentro da História, que o autor cita um trecho de Avalovara, de Osman Lins, epígrafe-bússola do livro: “A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.

A arma física aparece no conto seguinte, “Hóspedes”, também angustiante história, embora de outra natureza. Um casal em Varsóvia prepara-se para embarcar de volta ao Brasil quando um trágico imprevisto acontece. A mulher se desespera e, sem entender o polonês nem falar outro idioma, sai atrás do marido que não voltara da descida rápida ao térreo do prédio em que estavam. Solidário com a mulher angustiada, na cidade vazia, de madrugada, o leitor ganha de brinde do autor frases singelas, cenas poéticas, como esta: “a luminosidade da rua aumentou com as nuvens descobrindo a lua”. Desde o primeiro parágrafo, o lírico e o fatídico estão lado a lado, como em outras narrativas.

 

III

Em várias histórias de A bala dos desarmados, Francisco de Morais Mendes evoca com propriedade, além de Osman Lins, diversos escritores, poetas e filósofos, como Drummond, Georges Perec, Philip Roth, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Tales de Mileto e Walter Benjamin. O diálogo mais explícito dos narradores ocorre com Julio Cortázar, no conto “Jardim das plantas”, o quarto do volume. Um árabe queria conhecer de perto um axolote, que antes acreditava ser invenção do escritor argentino, e embarca para Paris com a mulher e filhos, cada um com um objetivo. Na volta, recomeça a guerra civil no país deles, não nomeado. Com ajuda de amigos e visto diplomático, o homem refugia-se em Paris na esperança de conseguir emprego e depois levar a mulher e os filhos, mas começa na França “uma perseguição violenta” contra refugiados; ele perde o contato com a família. A história de Antígona, de Sófocles, reverbera no conto. “Às vezes penso que a Europa é isto: alguém tentando enterrar um corpo”, diz o personagem-narrador, que, numa grande sacada metalinguística do escritor, pede ajuda ao leitor para reencontrar a família.

Com o despistante título de “Corredores” e a menção genérica de topônimos – rua, avenida, parque, rio –, esse conto de forte tensão, desgeograficado que é, pode ter como cenário qualquer grande cidade do Brasil ou exterior. Em todo o labiríntico percurso de dois homens, um fugindo do outro, o leitor se pergunta que perseguição é aquela. Também o perseguidor tenta descobrir o que o perseguido pensa. Ofegantes, ambos procuram ar, a exemplo de pessoas hospitalizadas, sem oxigênio, em Manaus nos irrespiráveis meses de 2020. Inútil tentar prever o fim da história.

Depois de um passeio no Jardim Botânico de Londres, em 2018, Ivan e Elisa resolvem visitar o Museu Imperial da Guerra, guarnecido por dois canhões e um bonito jardim, no meio do caminho do ônibus deles. Por sugestão de uma amiga, o casal se interessa pela trincheira ali montada, mesmo sem gosto por instrumentos bélicos e mais para evitar a chuva que começava. Imaginava uma passagem rápida. Esse é o resumo do início do impressionante “Um olhar, uma foto”.

Logo o casal começa a sentir a “atmosfera de um tempo sombrio, opressivo”, o ambiente “sufocante” (a falta de ar que paira no livro) e “o cheiro do medo”. As imagens dos horrores da guerra mergulham os visitantes no silêncio. “Me faz lembrar um texto de Walter Benjamin”, diz Ivan à mulher. “Os soldados voltavam mudos da guerra de trincheiras. Incapazes de falar daquela experiência.” O que mais impressiona os visitantes, porém, é a foto de 1941 de uma adolescente judia “sentada no calçamento” no centro da barbárie, vítima de conterrâneos, “simpatizantes do nazismo”. Tinha acabado de ser violentada. É vívida e dolorosa a descrição que Francisco de Morais Mendes faz da imagem da moça. “[...] a mão gesticula. O gesto e o olhar dirigem-se a alguém com um grito.” Mais tarde, o casal procura na internet – onde “nenhuma certeza fica de pé por mais de quinze minutos” – informações sobre a foto e encontra contradições. Fica no ar a dúvida quanto à autenticidade da imagem, de filme ou da vida? Mas a dor é real.

No sétimo conto, “A visita”, de percurso bem diferente do do casal em Londres, Valéria, uma professora de Ciências prestes a completar 60 anos, inspeciona sozinha, num feriado, as obras do apartamento da família onde espera comemorar o aniversário dentro de três semanas. Seu nome significa forte, valente, cheia de saúde; e o sete é o número da criação, signo da mudança. Enquanto percorre os cômodos, lembra-se da evolução das descobertas, ideias e máquinas e de instrumentos que proporcionam comodidade e conforto à raça humana, especialmente nas moradias. Mais uma vez, Morais Mendes insere a História na história ou vice-versa. Como toda pessoa que resolve reformar a casa ou o apartamento, Valéria encontra problemas no ritmo das obras e no descuido de alguns trabalhadores, mas ela também comete deslizes e, sem a quem recorrer, no meio daquele pesadelo, passa a lutar contra “as garras do desespero”.

A exemplo dos personagens de “Corredores”, mesmo em pânico, a professora “tenta se acalmar, dominar a respiração [a recorrente falta de ar], para retomar o controle”. Nessa narrativa, Morais Mendes remete o leitor, de maneira sutil, a “O tempo dos sinais” –, sem citar esse conto do seu Onde terminam os dias (2011), de “histórias absurdas”, segundo Valéria, que se arrepende de não ter  ficado em casa lendo-o. Na história, uma moça, com “o carro parado num sinal de trânsito, prendeu os dedos cheios de anéis nos cabelos e não conseguiu se soltar”; ficou ali, “como se imobilizada num quadro de Edward Hopper”. O leitor atento capta o recado: é o retrato da solidão, diferente, mas faz lembrar a garota de “Um olhar, uma foto”. Raízes.

 

IV

O oitavo conto, “A caminho do grande espetáculo”, é simbólico desde o título e a ordem dele no volume. Oito, o número do equilíbrio cósmico. O símbolo matemático do infinito é o oito deitado, a lemniscata, a eternidade. Pai e filho caminham, no meio de uma aflita multidão mas sem alvoroço, rumo a um enorme estádio para assistir ao “grande espetáculo”. Os caminhantes, imersos nessa aura metafísica, mas também na realidade concreta e na solidão coletiva, enfrentam a pressão do tempo e do espaço. A arte e sua mágica, a energia aglutinada das pessoas. O som ao redor é o rumor da multidão semovente, os passos e a respiração coletivos “enchem o mundo”, como num verso de Jorge de Lima. A caminhada, espécie do rio de Heráclito, pode ser a trajetória humana, com seus percalços e mistérios; ou o nascimento e a busca do desconhecido, a volúpia por algo grandioso etc. etc. As interpretações são múltiplas. Tem-se a impressão de que o conto foi escrito de um jorro só. Considero “A caminho do grande espetáculo” a maior obra-prima do livro. Antecipo em 75 anos o meu voto para um futuro Ítalo Moriconi, que terá outras treze opções em A bala dos desarmados na organização da antologia de contos brasileiros do século XXI.

Em “Feliz aniversário, Wainer”, nona história do livro, Pedro Rocha, viúvo hospitalizado com Covid, recebe a visita de um casal de filhos no dia em que completa 85 anos. Humberto testa a memória do pai que logo terá alta. Ele prova se lembrar de tudo ao contar um segredo que nem sua mulher soube. Não, não se trata de adultério.

“Vocês são filhos leais, que eu amo, e é de lealdade e de amor que eu vou falar”, diz o homem, segurando a atenção dos filhos e do leitor.  Trata-se “uma história de amor e de amizade”.

O amigo é o Wainer do título do conto. Era um rapaz alegre, os dois amigos inseparáveis, ambos de 14 anos, faziam aniversário no mesmo dia, com diferença de três meses. Ao lado de Pedro, Wainer foi vítima da covardia do chefe de um grupo de uns dez garotos. Depois disso, isolou-se “numa cápsula de tristeza e silêncio”. Pedro Rocha continua: “Eu comecei a afundar junto com Wainer, mas tínhamos uma natureza diferente: eu não conseguia ficar muito tempo no fundo, precisava subir para respirar. Quanto a ele, metia-se cada vez mais no atoleiro”. Como em outros contos, no meio da tensão da história, surgem frases assim: “Uma revoada de pássaros em algazarra atraiu seu olhar [de Pedro Rocha] para a janela”. Pouco depois, diz: “Olha como o azul é bonito antes do anoitecer”. Mais adiante: “Tardia, despontava a lua cheia e imensa”. O que aconteceu com Wainer? Já adulto, Pedro Rocha reconhece quem humilhou o amigo. E o que ele fez? Isso o leitor vai saber ao ler esse conto de veio policial.

O conto seguinte, “Fora de época”, esmerada recriação de “Mistério em São Cristóvão”, saiu antes na coletânea Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020, organizada por mim e selecionada pelo PNLD/MEC-2021), em comemoração dos 60 anos de Laços de família e do centenário da autora. Francisco de Morais Mendes situa sua versão no “Rio de 2018, sob intervenção militar”. O narrador não imagina que naquele ano, ao contrário do que acontece com os garotos do conto clariciano, “alguém consiga atravessar alguns quarteirões com uma máscara sem aparecer na internet com o corpo cheio de balas”. Na republicação, o autor cortou penduricalhos dispensáveis, como travessões e verbos dicendi nos diálogos. Poliu uma joia lapidada.

 

V

Em “Névoa”, décimo primeiro conto do volume, fica ainda mais claro que A bala dos desarmados, livro circular, articula-se no conjunto, textos interligados pelas raízes, “um sonho embrulhado dentro de outro, como se viessem de um novelo de fio duplo, embora avancem em direções distintas”. História kafkiana, policial, o personagem duplicado Aristides Bastos Caldeira, ABC ou Bastos, “tropeça nas dobras do sono”. Também nessa narrativa o autor homenageia Clarice Lispector numa paráfrase do título de um livro dela: “Uma nuvem pesada impede a consciência de compreender onde estivera de noite”. A exemplo de outras histórias da coletânea, a comunicação entre as pessoas revela-se precária. Sonho e realidade juntos, história e História. Que cada leitor decifre o enigma do conto, o mistério de ABC (“acham que matei alguém”).

Também a história seguinte, “Rastros”, é marcada pela violência e pelo medo. Ao tentar socorrer uma mulher desconhecida que está sendo agredida por um homem na rua, Glauco bate a cabeça numa árvore, é socorrido pela mulher e mete-se numa grande encrenca. Acaba no pronto-socorro (“o médico disse que foram sete pontos, isso lhe traria sorte”), tenta voltar para casa, mas encontra-se com o agressor, que o aguardava. O que acontece em seguida deixa-o apavorado, leva o homem no porta-malas, em longas voltas por ruas, avenidas e vielas de Belo Horizonte (“que não davam trégua”), sem saber o que fazer com “o cadáver”. O sujeito estaria mesmo morto? “Quando é que se deixa de ser assassino?”, Glauco pergunta-se. Roda sem rumo até perceber que “o carro ia deixando um rastro na noite”. Em meio àquela angústia do personagem, na direção do residencial Estrela Dalva, o narrador nos traz isto: “Havia uma lua no céu e uma canção de carnaval que falava na estrela Dalva, a lua tonta de tanto esplendor”. Num ritmo narrativo veloz, personagem e leitor, assustados, têm o batimento cardíaco acelerado. Que conto!

Numa noite chuvosa, sem pleno controle de atos e palavras, Soraia visita de surpresa, talvez por efeito colateral da solidão, um ex-caso ou ex-namorado, Jamil. Noite de azar para ele. Conto de número 13, em certos trechos “Chuva” pode ser lido como uma referência à fotografia de Itabira que dói na parede do poeta mineiro (“Confidência do itabirano”, Sentimento do mundo) ou à narrativa “Um ponto no círculo”, de Nove, novena, de Osman Lins. A mulher impressiona-se com um quadro na parede do apartamento de Jamil e num momento tem “vontade de entrar nele e ficar lá dentro. Quietinha”, noutro, na instabilidade psíquica, diz ter estado dentro do quadro e o considera “uma bela duma bosta”. Além de humor e inquietação, parece atravessar o conto a marcha de carnaval “Bloco da solidão”, de Evaldo Gouveia, notabilizada pela voz de Jair Rodrigues.

No último texto da coletânea, “Estado bruto”, título de duplo sentido, ecoa o monólogo do personagem de O inominável, de Samuel Beckett. Mesmo sendo uma história policial – a revelação de segredos de um crime –, o conto não deixa de ser também um balanço da vida do narrador-personagem, “agora uma espécie de ninguém, de um nada, embora vivo”, “um corpo sem voz”, cujo rosto “é uma máscara de indiferença”, segundo o médico que o assiste. Em alguns momentos, o texto tem algo da verve de Machado de Assis, como aqui: “A oposição atiçava a fogueira com o combustível da intriga”. O homem confessa: “Tínhamos de proteger o governador dos ataques e nos proteger da ida do governador. Alimentávamos a imprensa com migalhas, para demonstrar a boa vontade do governo em elucidar o caso”. Mais tarde, o personagem se distanciou “um pouco da máquina corrosiva do poder”. Uma instigante novela e, tal como o personagem-narrador, nas variadas versões, o leitor imagina “hipóteses, possibilidades”. Fecha-se o círculo com o conto inicial, “Incerta viagem”.

Como vimos, as narrativas de A bala dos desarmados evidenciam a circularidade do livro. O leitor encontra, em cada uma delas, duas ou mais histórias, desvio ou ampliação da primeira, personagens aflitos à beira do abismo existencial, em diversas camadas de perplexidade, trafegando entre os aflitivos episódios, entre as histórias e a História. Não é essa a fonte da boa ficção?

O autor como que convida o leitor a decifrar o enigma ou os enigmas dos contos, todos escritos com serenidade, sem nenhuma loquacidade, sempre em linguagem precisa, sóbria, com trechos poéticos, mas sem pirotecnia estilística. Histórias sem lances rocambolescos. E com humor. Em síntese: no coração do livro pulsam, com a riqueza da boa ficção, a vida e suas mistérios, a política e a questão social. É preciso destacar ainda a caprichada edição gráfica e a impecável revisão. Há razões de sobra para Francisco de Morais Mendes e A bala dos desarmados serem mais lidos, conhecidos e reconhecidos. Hugo Almeida - Brasil

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A bala dos desarmados, contos, de Francisco de Morais Mendes, São Paulo: Sinete, 2025, 192 páginas, R$ 60,00. Disponível na editora e na Amazon. Site: editorasinete.com.br

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Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e escritor, é autor de vários livros, dentre eles os romances Vale das ameixas e Mil corações solitários. Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

“Mil Corações Solitários”: O Silêncio que Respira

O título do romance de Hugo Almeida não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas


Comecei a ler Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida, como quem se aproxima de uma casa antiga – uma casa feita de ecos e memória, onde o ar carrega vozes que nunca deixaram de falar. Antes mesmo da primeira página, senti que havia um ritmo próprio: algo na linguagem respirava. Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a pele; livros cuja matéria é silêncio e cuja vibração se sustenta nas pausas. O romance de Hugo Almeida pertence a essa linhagem rara: obras que escutam. 

Desde as primeiras linhas, percebe-se que há um subterrâneo sustentando cada gesto do enredo. Não se trata apenas de personagens, mas de pulsações. Hugo escreve com o ar entre os verbos, confiando na força das suspensões, dos intervalos em que o sentido se forma antes de ser dito. Sua escrita entende que o silêncio não é ausência, mas presença que excede a palavra; e que, às vezes, é o silêncio que conduz o leitor.

Níobe, a figura central, encarna esse modo de existir. Suas cartas à mãe não são confissões, nem busca de explicação – são respiração. Escrever, para ela, é um modo de impedir que o tempo a dissolva. Há uma coragem particular na forma como tenta sustentar a própria vida através da linguagem; como transforma o gesto da escrita em contenção e sobrevivência. A carta, para Níobe, é abrigo e limite: o mesmo movimento que a ampara é o que a aprisiona dentro de si. Hugo captura essa ambivalência com precisão sutil, sem dramatização: apenas deixando que a dor se mova na página sem ser violentada pelo excesso.

À volta dela, Gamaliel – personagem construído com uma delicadeza ética rara. Seu silêncio não é indiferença, mas impossibilidade. Um silêncio que pesa, que guarda uma densidade própria, que devolve a Níobe uma sombra de si mesma. Entre os dois há um amor suspenso, feito de gestos que quase se completam, de presenças que se roçam sem se fundir. Hugo trata essa relação com pudor narrativo: não invade, não explica demais, apenas observa com compaixão.

A estrutura epistolar cumpre, no romance, uma função dupla e profunda. Ao mesmo tempo em que cria um espaço íntimo, expõe aquilo que só a solidão pode formular. As cartas de Níobe ecoam tradições distintas – Flaubert, Clarice Lispector, Raduan Nassar – mas Hugo desvia desses modelos ao não usar a carta como descoberta interior. Aqui, a carta é o próprio lugar onde o sujeito continua existindo. Níobe não escreve para compreender o que sente, mas para continuar sentindo; sua escrita é o gesto que impede o apagamento. 

Existe, em todo o romance, uma contenção formal que o dignifica. Hugo não desperdiça sílabas: escolhe cada palavra como quem escolhe uma pedra para não romper o silêncio da água. Seu texto se aproxima de uma música de câmara: pausas calculadas, nuances mínimas, ecos que se entrelaçam. Essa contenção é estética, mas também ética – não invadir o interior dos personagens é tratá-los com respeito.

O título – Mil Corações Solitários – não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas: fragmentos de vidas que batem em ritmos distintos, mas que se reconhecem no silêncio. Cada personagem carrega uma possibilidade interrompida, um rumor de vida que poderia ter sido outra. E é nesse rumor que reside a beleza do romance: a melancolia que se sustenta não na dor explícita, mas naquilo que resta. 

Níobe atravessa a narrativa como tempo encarnado. Sua escrita percorre o passado e o presente, tentando recompor uma memória ameaçada pela ausência. Há nela uma sabedoria antiga: a de quem compreende que o amor, para durar, precisa aprender a existir mesmo quando não há reciprocidade imediata. Suas cartas são mapas íntimos, tentativa de manter viva a chama de uma existência muitas vezes invisível. 

E é justamente essa invisibilidade que o romance ilumina: a solidão como condição de escuta. Hugo propõe que só quem aprendeu a estar só consegue ouvir verdadeiramente. Seu livro aposta na lentidão, na presença, na atenção – e essa aposta é política, no melhor sentido. Em tempos de cacofonia, escrever com silêncio é um gesto de resistência.

Há uma dimensão corpórea na leitura. Em certo ponto, percebi que não lia mais com os olhos: lia com a pele. O texto altera a respiração do leitor, desacelera o olhar, reorganiza o espaço interno. Poucas obras conseguem produzir esse efeito – o de transformar o estado de consciência de quem lê. Neste romance, o silêncio não é apenas tema: é método, é atmosfera, é corpo. 

Quando a narrativa chega ao fim, o silêncio que permanece não é vazio. É um silêncio pleno, como o que fica após uma confidência verdadeira. O leitor sai do livro não com respostas, mas com uma companhia. O romance continua respirando depois de fechado; permanece como uma presença que não se impõe, mas que não se retira. 

Mil Corações Solitários é um livro raro: delicado sem ser frágil, rigoroso sem ser árido, emocional sem ser sentimentalista. Acredita no amor como forma de lucidez – e talvez seja essa a sua grande revelação. Quando o amor se torna lucidez, o silêncio se torna luz. Lara Vaz-Tostes - Brasil

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida. 4ª edição. São Paulo: Editora Sinete, 228 páginas, R$ 65,00, 2025. Site: https://www.editorasinete.com.br ; E-mail: editorasinete@gmail.com

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Lara Passini Vaz-Tostes – Natural de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, onde nasceu a 04 de Maio de 1998, é escritora, advogada pela UFMG (2022) e pesquisadora. Autora de O Lugar que Não Existe (mas sou eu) (Minimalismos, 2025) e Por dentro, onde os nomes nascem (Terra da Garoa, 2025) e outros livros. Desenvolve pesquisas nas interseções entre literatura, ética e escuta, com ênfase em Dostoiévski e filosofia da linguagem. Publica poesia, contos e ensaios críticos em revistas e portais literários.


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Uma obra na linhagem dos grandes escritores

“Mil corações solitários”, livro que marca a estreia de Hugo Almeida como romancista, é novamente reeditado e chega à quarta edição                                                                                  

 

                                                           I

Trinta e sete anos depois da primeira edição publicada pela Editora Scipione, de São Paulo, o romance Mil corações solitários, de Hugo Almeida, que conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987, este com o título de Carta de navegação, chega a sua quarta edição, agora pela Editora Sinete, também de São Paulo. As outras duas edições saíram pela Scipione, em 1991 e 1994. A obra, desta vez, traz posfácio do escritor mineiro Ronaldo Cagiano, radicado em Portugal, bem como um adendo, uma carta do autor, notícias e artigos sobre o romance, em ordem cronológica.

Para Cagiano, trata-se de “uma obra de tamanha força imagética e carga semântica” que significa “um alento e um frescor no meio do lixo literário ungido pelo mercado editorial”. De fato, é um livro que mantém o seu vigor, assumindo-se como um romance diferenciado em que o autor se vale de várias técnicas ficcionais, utilizando outras formas de prosa, como monólogo, diálogos e entrevista, e poesia, sem deixar de fluir o fluxo de consciência.

Em breves palavras, o que se pode acrescentar é que a obra conta a sofrida história de vida de Níobe, por meio de cartas que ela escreve, num estilo livre e até num português pouco culto, mas fiel à personalidade da personagem (com o tempo, a linguagem e a personalidade dela ganharam vigor), sobre a infeliz e decepcionante existência que passa a levar depois do casamento com Gamaliel Carvalho, um tipo silencioso e enigmático (mais tarde parece ser alguém ligado à polícia ou aos ditadores da época), mas que poderia lhe dar uma sobrevivência garantida, como assim imaginou o pai dela, ao forçá-la a se casar com ele.

Para sobreviver àquele casamento abusivo e sem saída, cuja consumação no leito demorou tempos para se dar, Níobe escreve essas cartas dirigidas à própria mãe, o que continuou a fazer mesmo depois da morte da genitora, como se continuasse a ter contato com ela no além. Para se ter uma ideia do estilo sóbrio, seguro e inventivo de Hugo Almeida, basta a leitura deste trecho:

          “(...) Mãezinha é assim mesmo, o homem demora para dormir sem roupa com a mulher depois que casa? Ele vai esperar quanto tempo? Me responda logo porque eu não tenho ninguém aqui para conversar sobre essas coisas e aí nem pensei em perguntar porque eu nem sabia que isso ia acontecer. Eu não sabia mesmo era de nada como agora. Papai decidiu tudo rápido, nem adiantou eu bater o pé a Senhora lembra. Mas eu aceito ser casada mas só que eu não vivo ainda assim como mulher casada, quer dizer nem mulher de verdade eu não sou até agora.

 

                                                          II

Fosse como fosse, um dia, haveria a consumação do ato carnal e Níobe seria mãe de René e Ana, que constituiriam também parte das rememorações da vida insípida que ela continuaria a viver com Gamaliel, este sempre enfurnado em seu escritório, homem de mentalidade arredia, que só podia oferecer à mulher uma casa vazia de sentimentos. Como diz José Carlos Garbuglio, professor aposentado de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), em texto publicado nas abas das três primeiras edições do livro e reproduzido no adendo da quarta, “as cartas constituem um longo monólogo” com o mundo imaginário da personagem.

Porém, mais que isso, a obra, fragmentária e perpassada por momentos poéticos, oferece flagrantes de um Brasil que ficou no passado, como o suicídio do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e outros episódios marcantes da história brasileira dos anos 50 até o início dos anos 80 do século passado, que marca a abertura política depois de 21 anos de uma ditadura civil-militar (1964-1985) que só infelicitou e atrasou o desenvolvimento da Nação.          

Avalizado por dois grandes prêmios literários, com esta obra, como observa a escritora, ensaísta e psicanalista Ana Cecília Carvalho, no texto de apresentação que consta da “orelha” do livro, Hugo Almeida “alcança a linhagem de grandes escritores brasileiros contemporâneos”. O que, de fato, tem sido confirmado pelos seus mais recentes livros, como o romance Vale das ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024; reeditado agora em 2025), que tem elos com a obra do escritor Osman Lins (1924-1978).

É de se ressaltar que o romancista e contista Hugo Almeida é autor da tese de doutoramento “Osman Lins: a chama grega do cárcere Brasil”, defendida em 2005 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, sob a orientação do professor doutor Valentim Aparecido Facioli (1942-2024), em que analisa aspectos até então pouco estudados de A rainha dos cárceres da Grécia (1976).

Já o romancista e crítico literário Álvaro Cardoso Gomes, professor titular da FFLCH-USP, que participou do júri do Prêmio Nestlé de 1988, em recente recensão do livro publicada no site Baía da Lusofonia, de Lisboa, observou que “Hugo Almeida talvez seja o escritor brasileiro que manifesta em sua obra os sinais mais visíveis da ruptura do convencional na prosa, de certa forma, dando continuidade aos experimentos geniais de Osman Lins, em Nove, Novena e Avalovara”. Para o professor, com este romance inovador, o autor, ao emular com ironia a escrita sentimental dos folhetins, “irrompeu no panorama da literatura brasileira moderna com audácia e coragem, dando assim um vigor novo à nossa ficção”.

 

                                                          III

Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952), jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1976, é autor também de Certos casais, contos (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), e A voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins (São Paulo, Editora Sinete, 2024), seu décimo sexto livro e o primeiro de estudos literários.    

Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira, Hugo Almeida nasceu em Nanuque, em Minas Gerais, mas deixou a cidade natal antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, na Bahia, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), reedição de Mais rápido do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1988), livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011. Depois, viveu um ano em Alagoinhas, também na Bahia, e, aos 9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde viveu 22 anos e estreou na literatura com Globo da morte, contos (Edição Alternativa, 1975).

Também publicou Em teu seio Liberdade, contos (São Paulo, EMW Editores, 1985), a novela juvenil Porto Seguro, outra história (São Paulo, Nankin Editorial, 2005), os infantis Todo mundo é diferente (São Paulo, Lê Editora, 1996), Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo, Editora Ícone, 2000), e Que dia será o dia? (São Paulo, Nankin Editorial, 2007), além da novela Meu nome é Fogo (Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009), de Menino anjo capeta beija-flor (Ananindeua-PA, Edições 1/4, 2019) e dos infantojuvenis Cinquenta metros para esquecer, contos (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e de Minha estreia no crime – Estação 111, romance (São Paulo, Lê Editora, 1997), inspirado do massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São Paulo.

É um dos participantes da antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Organizou e prefaciou Osman Lins: o sopro na argila (2004), ensaios; e com Rosângela Felício dos Santos organizou Quero falar de sonhos, reunião de artigos do autor de Avalovara (São Paulo, Hucitec Editora, 2014).

Organizou as coletâneas de contos Nove, novena: variações (São Paulo, Olho d’Água, 2016), que reúne narrativas inspiradas na obra de Osman Lins, e Feliz aniversário, Clarice: contos inspirados em Laços de família (Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020), obra da romancista e contista Clarice Lispector (1920-1977), que foi incluída no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Cultura, de 2021, para o ensino médio. Profissionalmente, sempre trabalhou como jornalista, com longa carreira na redação do jornal O Estado de S. Paulo. Mantém o site https://hugoalmeidaescritor.com.br. Adelto Gonçalves – Brasil

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Mil corações solitários, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 4ª edição, 228 páginas, R$ 65,00, 2025. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A palavra que sagra e que sangra nos contos de Francisco de Morais Mendes

Os quatorze contos de A bala dos desarmados, de Francisco de Morais Mendes (São Paulo: Editora Sinete, 2025) representam um dos pontos altos da Literatura Brasileira contemporânea. São narrativas diretamente dialogando com o mundo atual da ciência, da tecnologia, da política e com os universais temas humanos.

No dizer de Hugo Almeida, nas orelhas, são textos magistrais e, de acordo com Shelley, é erro vulgar distinguir poetas e prosadores. Sim, pois vejo no apurado trabalho de linguagem de Francisco de Morais Mendes o refinamento de um artesão poeta, que trata a palavra com lavor e louvor. Vou até mais adiante: vejo esses quatorze contos como um grande soneto, em que as narrativas, por mais variadas que sejam, exibem um harmonioso entrelaçamento, coesão semântica, temática, estrutural entre os quartetos e sonetos da composição clássica do gênero lírico.

A ênfase na palavra já parte da epígrafe, extraída de Avalovara, de Osman Lins. Aí se lê que “a palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos, capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres.” Vê-se aí o caráter crítico e encantador da palavra, e é o que vemos ao longo das 14 narrativas, algumas das quais efetivam um incisivo corte no período pandêmico em que houve um desgoverno no país. Certos contos me sugerem o prolongamento de um verso de João Cabral de Melo Neto que se refere ao movimento de um homem dentro de um pesadelo.

Em minha leitura, trato cada conto como um verso, que conversa com outros versos. Por exemplo, se no primeiro texto, “Incerta viagem”, o protagonista-escritor cita Carlos Drummond de Andrade, o mesmo vai acontecer no último conto, “Estado bruto” que, por si só, seria quase um soneto perfeito se fosse dividido em 14 partes, em vez de 12. Nessa história, um dos protagonistas cita Drummond, sintomaticamente o soneto “Oficina Irritada”, do livro Claro Enigma, peça metalinguística que trata da ambiguidade joco-séria do fazer poético.

Ademais, em suas narrativas, o autor faz recorrentes enlaces intertextuais e até mesmo intratextuais, pois há um conto em que a protagonista evoca um texto de outro livro do Chico, sobre uma moça está parada no sinal e prende os dedos cheios de anéis no cabelo. E há elos com outros autores, até mesmo nos nomes de alguns personagens, como um tal de Cobra que me lembra o romance de Jaime Prado Gouvêa, O altar das montanhas de Minas. (Por falar em Minas, há dois contos do Chico em que ruas de Belo Horizonte são facilmente reconhecidas, embora haja espaços até internacionais).

Autores da estima do contista vão aparecendo nos textos, como Hemingway, Rubem Fonseca, Cortázar, Hopper, Perec, Walter Benjamin, Nietzsche, Luiz Vilela (não explícito, mas creio que há algo dele em “Chuva”), Clarice Lispector – aliás, que magnífica releitura o texto “Fora de época”, de um dos mais misteriosos contos de Clarice, “Mistério em São Cristóvão”. A rede intertextual se amplia com músicas como a de Belchior, cuja letra emaranha-se com o enredo de “Hóspedes”, e há algo de selvagem, nome de uma das composições de Camargo Guarnieri, que se entreouve na incrível história contada em “Rastros”. Há também filmes, como O escafandro e a borboleta, dialogando com “Estado bruto”, Philomena, citado em “Feliz aniversário, Wainer”. E até desconfio que Luis Buñuel esteja sendo aludido no conto final, em que há um casal com nomes de Luís e Bruna. E a densidade dos filmes do cineasta mexicano de certa forma ocorre em contos do Chico, como o estranho enredo de “A visita”, que me inspirou até este soneto, composto com fragmentos do conto.

A luz da tarde cai pelos vitrais

E Valéria visita o apartamento.

Quase pronta a reforma, e o encantamento

Da quase sexagenária é demais.

 

Os prodígios da eletricidade,

Quanto progresso da marcenaria

Mas algo pode foder a alegria,

É o absurdo que a nossa vida invade.

 

O espaço se transforma em pesadelo,

Para quê tanta ciência e zelo

Pra celebrar o dia em que se nasce?

 

Desolada, Valéria olha em volta,

É preciso calma e não revolta

E uma chave de boca que gritasse.

Caio Maciel - Brasil

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A bala dos desarmados, de Francisco de Morais Mendes. São Paulo: Editora Sinete, 189 páginas, R$ 60,00, 2025. www.editorasinete.com.br 

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Caio Junqueira Maciel é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor dos livros de ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula. Como poeta, entre outros títulos, escreveu Pele de jabuticaba. Autor do romance Um estranho no Minho, fruto do período em que viveu em Portugal.


 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A Solidão Compartilhada

Ou as almas solitárias de Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida

           

Em 1988, fui convidado pela então Fundação Nestlé de Cultura a participar como jurado do Prêmio Nestlé de Literatura, na época, uma prestigiosa premiação que, ao longo dos anos, veio revelando grandes autores da poesia e da prosa brasileiras.

Quando recebi em casa mais ou menos 150 originais datilografados (à época, os escritores ainda usavam máquina de escrever), que enchiam parte da minúscula sala de meu apartamento de então, fui tomado pelo desânimo. Tinha que partilhar meu escasso e precioso tempo de professor e escritor com a que me pareceu penosa tarefa de escolher entre tantas histórias aquelas que mereceriam os prêmios de primeiro, segundo e terceiro lugares do concurso. Assentado em almofadas, lápis a mão, comecei a trabalhar, lendo com rigor os originais e fazendo anotações críticas à margem dos textos, para que pudesse me orientar ao fim do processo de análise. Não demorou para eu perceber que a maioria dos livros era ruim, não só pela escrita tatibitate, sem obedecer às regras elementares da gramática, mas também pelo conteúdo do que se pretendia narrar.

Já ao ler as primeiras linhas de alguns deles, veio-me à cabeça a famosa e irônica frase de Paul Valéry sobre o incipit dos maus romances, que costumavam se iniciar com “A marquesa saiu às cinco horas”, determinando assim o que se esperar do resto, enquanto promessa de má e superada literatura. De fato, aqueles romances que devia ler, para poder escolher os três melhores, primavam, na maioria dos casos, pela ruindade: eram histórias de redenção pelo amor, como as que se estampavam nas páginas da revista Sabrina, uma publicação que se vendia em bancas de jornal, de amor erótico, primando pelos palavrões a dar ênfase ao sexo pelo sexo, como nos piores filmes da série Emanuelle, eram narrativas regionalistas, com fundo social, emulando, por baixo, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz. E todos demonstrando a falta de cuidado com a linguagem – o sujeito no plural e o verbo do predicado no singular, frases nominais irrompendo do nada nas narrativas, a presença obsedante da primeira pessoa, em confissões de estados de espírito particulares.

Em sendo assim, foi fácil me livrar de um autêntico lixo, bastando pôr os olhos na primeira frase “Era um dia ensolarado...”, “Jennifer sentia-se muito só naquele entardecer...”, “O caboclo cavoucou com o enxó o solo árido da catinga...”. E a pilha dos descartáveis ia aumentando num canto da saleta, enquanto, sobre a mesa, em destaque, alguns poucos descansavam. Mas nada que entusiasmasse, até que...

...até que fui premiado com a leitura de um romance com o original título Mil Corações Solitários e o pseudônimo Nathanael e cujo início indiciava, ao mesmo tempo, uma síntese e uma busca:

 

Teia

 

Níobe olha a mão, Ana esquece o filho, René ergue a xícara, Gamaliel dorme. Zero grau.

 

Uma receita

 

Primeira frase a mais custosa. (Pudesse manejar bico de pássaro, graveto por graveto.) Talvez seja esta a palavra: the key. É como se, vítima à frente, se ofertasse boa semente de uma conversa comprida, sem adeus. Desta forma, o sopro de um texto, duma história. Um tigre comparou o título a uma piscada ao leitor. Perfeito. Só que, após a imagem, vem o verbo. Sedução concluída? Falta pouco. Título e primeira frase: ou se mergulha naquilo ou larga de vez. (Mil Corações Solitários. 4ª ed., São Paulo: Sinete, 2025, p. 15)


Mas o que me deixou bastante impressionado também foi o fato de o primeiro capítulo ser intitulado com a expressão “É o fim”, apontando para uma aparente idiossincrasia em que, temporalmente, no início da história, já se prenunciava o seu término. Ainda: como sempre foi de praxe em meu hábito de leitura, movido pela curiosidade, procurei folhear o romance, ao acaso, e notei que este era feito de módulos narrativos numerados, alguns curtíssimos, formados de uma só frase, outros mais longos, fragmentos de diálogos soltos, missivas em itálico, talvez para acentuar seu caráter bem pessoal. Mais adiante, com a leitura rigorosa do livro, na ordem em que se me oferecia, percebi que a coisa era mais complexa, ou seja, a narrativa era costurada, obedecendo ao princípio de uma narração “sem fio”, como nos melhores e mais inspiradores experimentos surrealistas.

Mesmo assim, logo me inteirei do chamado plot, do enredo propriamente dito, que tem sua abertura concentrada numa família, formada pela inocente, e por causa disso mesmo, ignorante Níobe, casada por imposição do pai com Gamaliel Carvalho, um homem taciturno, seco, fechado em seus hábitos. Desse conluio sem amor, nascem os filhos Ana e René, que contracenam com outros personagens que terão sua importância à medida que a história se desenvolve. Habitando um país desumano e sem identidade, andam por cidades, onde os viadutos foram construídos apenas para que os carros passem embaixo, num flagrante desvio de função, em que o humano sempre fica em secundaríssimo plano. “Divorciados da realidade, da vida nacional e do mundo, da questão política. Nada entendem, nada conhecem.” O que os leva a serem apenas sobreviventes, viajantes solitários e sem rumo.

Mas o curioso é que a trama não flui placidamente como as águas correntes de um rio. Pelo contrário, o que o leitor tem diante de si é uma sequência de peças de um jogo, em que os espaços em branco, junto com os espaços manchados da escrita, exigem ser preenchidos não só pelo autor da obra (afinal quem é o autor da obra?), mas pelo(s) leitor(es) que, para aplacar a solidão oferta pelo ato da leitura: – eu – livro – outros eus – deseja(m) comungar com sujeitos diferentes de sua(s) própria(s) pessoa(s), para ter uma compreensão mais abrangente – e, portanto, mais significativa – do mundo. Tais sujeitos seriam os responsáveis por revelar e sobrevalorizar a transcendência das narrativas, que existem apenas para dar sentido ao caos da realidade, do mundo. E esse caos é representado, entre outras coisas, pelo background do romance, o pano de fundo, no caso, os idos do Golpe de 64, entrevisto, em meio a fragmentos, mas mostrando sua importância, ao interferir de maneira oblíqua e dissimulada nas vidas desencontradas dos personagens.

É bem verdade que este sempre foi o pressuposto das narrativas de todos os tempos, somente que, na tradição literária convencional, esta tentativa de dar sentido ao sem-sentido, à desordem, implicou criar um constructo de tal maneira organizado que entre a realidade e sua representação cavou-se um abismo, pois, nelas, domesticava-se a vida, a tal ponto que se reduziam ou se aprisionavam as pulsões fundamentais para a compreensão do humano. Vem daí que, na modernidade, o que se procurou fazer foi pôr de lado a narração psicológica ou realista, para dar força, volume a essas pulsões. Um autor como Édouard Dujardin, em 1888, em seu romance Les lauriers sont coupés (Os loureiros estão cortados), que teve grande influência sobre Joyce, foi quem primeiro utilizou do fluxo de consciência, para representar o que se passaria no complexo mundo da consciência dos seres. Daí as frases aparentemente soltas, em longos solilóquios, procurando expressar o caos da interioridade. Mais adiante, Proust, com sua busca do tempo perdido, Joyce, com sua labiríntica reconstrução da cidade mítica de Dublin, Virgínia Woolf, com o ensimesmamento da sua Miss Dalloway, buscando aprisionar os momentos iluminados da existência, levarão bem adiante esses experimentos, influenciando uma vasta gama de escritores da Europa e das Américas.

Nessa superação do tradicional/convencional, acontece uma extraordinária revolução, pois os autores agora não visam a encarcerar o fluxo vital para mostrá-lo como uma borboleta presa a um alfinete, mas, sim, aproximar o leitor o máximo dele, como se o contemplasse no momento mesmo de sua eclosão. É o que se nota de modo exemplar no monólogo de Molly Bloom, de Ulisses, em que a figura feminina, num longo fluxo, tenta libertar a sua voz da prisão do narrador em terceira pessoa, fazendo com que o leitor a ouça ao vivo, no momento em que a parte consciente da mulher cede espaço para a manifestação de seus desejos secretos e volições. Dá-se desse modo a recuperação de instantes mágicos, autênticas epifanias, que revelam o que há de mais essencial numa existência, que o peso material da existência, somando-se à tirania da consciência, da razão, sufocou ou tentou sufocar. É o que acontece com o jovem de Em Busca do Tempo Perdido, que tenta recuperar um tempo mágico, imemorial, não pelo esforço da memória voluntária, mas da involuntária que traz à tona da vida puras sensações – visuais, olfativas, táteis – que o ajudam a reerguer o iluminado palácio das recordações. E o elemento deflagrador disso tudo é uma prosaica madeleine mergulhada numa xícara de chá, cujo gosto, ligado ao olfato, faz que o diáfano passado se imponha vivamente ao personagem ancorado num presente anódino.

Inúmeras são as técnicas romanescas utilizadas na modernidade para representar essas tendências, a mais conhecida de todas, como vimos, o stream of counsciosness. Mas podemos pensar também na questão da polifonia, vozes que, substituindo o narrador princeps, propõem-se a expor diferentes pontos de vistas, conflitantes ou não, dos acontecimentos e também diferentes linguagens, desde o discurso elevado até o popular e o chulo e, sobretudo, o diálogo entre diversos autores, com a apropriação “indébita” de discursos, como acontece no chamado dialogismo. Nesse último recurso, percebe-se que os autores não se fecham mais em ilhas, pois, por vezes, procuram estabelecer frutíferos diálogos entre autores da tradição clássica e moderna, por meio de empréstimos de estilemas e mesmo de temas. É o caso, entre muitos outros, do escritor português Almeida Faria que, exemplarmente, incorpora em seu discurso narrativo versos ou reflexões de Camões, Bocage, Drummond e Guimarães Rosa, na composição da sua Tetralogia Lusitana.

O romancista e contista Hugo Almeida talvez seja o escritor brasileiro que manifesta em sua obra estes sinais mais visíveis da ruptura do convencional na prosa, de certa forma, dando continuidade aos experimentos geniais de Osman Lins, em Nove, Novena e Avalovara. Com este romance inovador, Mil Corações Solitários, ao emular com ironia a escrita sentimental dos folhetins, irrompeu no panorama da literatura brasileira moderna com audácia e coragem, dando assim um vigor novo à nossa ficção. Seu romance, como também em Vale das Ameixas (Sinete, 2024), ao pôr de lado os traços mais confortáveis da tradição – o enredo linear, a exploração do tempo cronológico, a descrição estática dos personagens, a recuperação, por meio de flash-backs, de instantes do passado que tentam explicar o presente – é composto de uma variada gama de materiais: esboços de narrativas, diálogos soltos, correio amoroso, cartas, anúncios, notícias de jornal, descrições cartográficas, questões sobre a Física, e, por isso mesmo, mais desorienta do que oferece um sentido, na medida em que busca representar em seu aparente caos o caótico que impera no real.

O título hiperbólico serve para acentuar, enfatizar um sentimento fundamental do ser humano, qual seja, aquele que entra em contradição com a essência do homem, no caso, a solidão. O romance de Hugo trata dela, como se fosse uma entidade ou uma divindade, ao condensar, em vidas exemplares, o esfacelamento das relações de afetos e, sobremaneira, de amor, pois, embora seus personagens vivam juntos – em círculos familiares e de amizade, em organizações de trabalho –, experimentam o ato de ficar a sós em mais alto grau. Desse modo, a estrutura do romance, em vez de apresentar uma linha contínua narrativa, apenas registra pequenos quadros, enumerações de nomes e coisas díspares, descrições cartográficas, que servem para mimetizar esta separação entre as pessoas. Ao cabo, elas se procuram, sem saber que, ao fim de seu périplo existencial, terminam por se ausentar de si mesmas, encerradas nesta Geena, para que foram condenadas ao nascer. Essa falta de comunicação entre os seres ou a comunicação que se dá com a interferência do ruído, tem sua manifestação mais elevada nas cartas que Níobe envia a mãe, mesmo depois do que esta morre. Como não há diálogo possível com o frio e distante marido que lhe foi imposto e que, inclusive, a submete aos suplícios dos estupros cotidianos, encontra na mãe morta um eco para sua própria voz que se alteia, para tentar entender e dar um mínimo significado para uma existência pobre da perspectiva espiritual e sem a presença gratificante e amorosa do Outro. Nesse desamparo de Níobe, verifica-se que certas regras da vivência humana acabam sendo subvertidas, pois, enquanto “a vida é a angústia, o desconhecido. A morte, o alívio, a revelação”. Daí o fato de ela ter que se corresponder com uma morta, seu espelho em negro, sua semelhante, sua irmã.

Mas é preciso levar em consideração que não só os personagens é que experimentam navegar num mar de escolhos, que dificultam o encontro de um porto, pois também os destinatários do romance enfrentam o mesmo problema. Movendo-se entre fragmentos, bombardeados por vozes que se sucedem, se alternam de página para página, deslocam-se os leitores, sem jamais ter o aporte de uma voz onipresente e onisciente que os oriente, pois ele é coagido a participar da construção do romance, a preencher os “brancos” entre as manchas negras, de modo que o equilíbrio da composição se ofereça por meio de sua imaginação também criadora. E, como se poderá observar, eles terão que pôr de lado o conforto de ter um guia, uma espécie de Beatriz, para entrar nesse labirinto de significados, sem a esperança, porém, de chegar ao Paraíso. Puras sensações, por vezes, é que servem de fio-condutor na narrativa, como no exemplo da imagem recuperada da avenida Brasil “ – mau cheiro, barulho e calor – trouxe o deputado à terra”, enquanto, por sua vez, Ana bebe solitária a paisagem. Aliás, esse adjetivo – “solitária” – se oferece várias vezes ao longo do romance, como a especificar o que determina o quid do ser humano – não as experiências iluminadoras e significativas do amor, mas as da solidão plena, fria, em que diferentes sujeitos procuram o Outro, não para experimentar sentimentos comuns, mas apenas para negá-lo. E aqui se entende, portanto, a hipérbole do título em toda sua dimensão: os seres afogam-se na solidão, pois vivem a vida, sem estímulos ou motivos significativos, o que faz que passem a ver a existência como fragmentos desassociados ou como um chão composto por fragmentos de ladrilho, sem unidade e sem o mínimo de transcendência. Álvaro Gomes - Brasil

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida. 4ª edição. São Paulo: Editora Sinete, 228 páginas, R$ 65,00, 2025.

Site: https://www.editorasinete.com.br

E-mail: editorasinete@gmail.com

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Álvaro Cardoso Gomes é Professor Titular da Universidade de São Paulo (USP), romancista e crítico literário. Autor dos romances Os rios inumeráveis (1997), Concerto Amazônico (2008), Panarquia (2021) e O evangelho segundo Satã, a sair em breve pela Editora Contra o Vento, do Grupo Alta Books. Publicou os ensaios A Poesia como Pintura (2015), O Simbolismo: uma revolução poética (2016) e dezenas de outros livros.