Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 19 de abril de 2026

Portugal - Imigrantes pagam centenas por cursos de português com certificados inválidos

Imigrantes que não falam português estão a pagar largas centenas de euros por cursos de Português Língua de Acolhimento (PLA), com o objetivo de conseguirem a nacionalidade, mas alguns dos certificados passados não são válidos

A prova de conhecimento de língua portuguesa, que se obtém com o aproveitamento de um nível A2 do curso de PLA, dispensa o imigrante de fazer a “prova da nacionalidade” e por isso a sua procura tem aumentado, assim como as fraudes nesta área.

“Tem aumentado o número de fraudes que vamos tendo conhecimento e que afetam sobretudo pessoas muito vulneráveis”, afirmou à Lusa a diretora do Centro de Avaliação e Certificação de Português Língua Estrangeira (CAPLE), uma unidade orgânica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Segundo Nélia Alexandre, algumas instituições privadas cobram milhares de euros por formações online, como o caso de um imigrante que pagou cerca de 6000 euros por um curso alegadamente certificado, mas que na realidade não tinha qualquer valor.

Os casos chegam ao CAPLE através dos próprios lesados, convencidos que cabe a este centro a sua fiscalização, uma vez que é a única entidade portuguesa que avalia e certifica as competências escritas e orais em português como língua estrangeira.

Contudo, a responsabilidade sobre o desenvolvimento dos cursos PLA é das entidades que os promovem: Os estabelecimentos de ensino da rede pública, a rede de centros do Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP) e a rede de Centros Qualifica, o que se traduz no envolvimento de várias tutelas.

Com o crescimento da imigração em Portugal, sobretudo de cidadãos que não falam português, aumentou a procura destes cursos, com a oferta a não ser suficiente.

A falta de formadores dificulta a resposta, o que em parte se deve à legislação que obriga a que estes docentes sejam da área da língua portuguesa, como disse à Lusa a diretora do Departamento de Formação Profissional do IEFP, Luz Pessoa e Costa.

Atentas a esta procura, algumas empresas e associações privadas que estabelecem protocolos com as entidades oficiais cobram os valores que entendem por cursos que, em determinadas situações, não conduzem a um conhecimento mínimo do português e terminam com um certificado que não faz prova para efeitos de pedido de concessão de autorização de residência permanente, de concessão de estatuto de residente de longa duração e de nacionalidade portuguesa, o que estes imigrantes procuram.

A agência Lusa falou com vários imigrantes que pagaram largas centenas de euros para frequentar cursos de PLA, sobretudo online, porque os gratuitos tinham listas de espera de vários meses e receavam não conseguir a nacionalidade devido ao apertar das regras da imigração em Portugal.

Apesar de a lei determinar que a formação termina com a obtenção de um certificado, o que estes imigrantes procuram na esmagadora maioria dos casos, há registo de situações em que os diplomas não têm qualquer valor para o efeito pretendido.

“Já fomos contactados pela AIMA por esta ter dúvidas sobre determinados certificados de cursos, alegadamente promovidos pelo IEFP. Os casos que eram falsificações e com o uso indevido do símbolo do instituto foram encaminhados para o Ministério Público”, revelou Luz Pessoa e Costa.

Estas situações lesaram, sobretudo, os formandos que ficaram com um certificado sem validade para a aquisição da nacionalidade portuguesa e sem o dinheiro que pagaram pela formação.

Nélia Alexandra garante que, quando chegam ao CAPLE denúncias de situações irregulares, das mesmas dá conta à AIMA, ao IEFP e à ANQEP.

À AIMA, por exemplo, enviou, por email, à respetiva secção da Língua Portuguesa, correspondência e imagens a suportar as acusações, afirmou.

Contactada pela Lusa, a AIMA disse não ter registo de denúncias de situações fraudulentas, esclarecendo que não existe “um mecanismo oficial de reporte de fraude sob a sua responsabilidade”.

E indicou que “a qualidade dos cursos é da responsabilidade das respetivas entidades promotoras e das entidades que as tutelam”.

Isto apesar de a AIMA coordenar, desde 2021, o Grupo de Trabalho PLA, que tem como objetivos a monitorização e a avaliação dos cursos PLA, entre outros.

Em relação aos cursos de PLA ministrados por estabelecimentos de ensino da rede pública, fonte do gabinete do ministro da Educação, Ciência e Inovação disse que as situações de fraude que são reportadas à ANQEP dizem respeito a custos e à obtenção de certificados em entidades que não se enquadram nas entidades promotoras previstas na legislação.

E acrescentou que todas as situações de fraude “são objeto de análise pelas entidades competentes, podendo conduzir à revisão de procedimentos, cessação de protocolos, devolução de apoios financeiros ou outras medidas legalmente previstas”.

“Sempre que as denúncias contenham indícios suscetíveis de configurar a prática de ilícitos, nomeadamente de natureza criminal, as mesmas poderão ser encaminhadas para o Ministério Público, para efeitos de averiguação, nos termos legais aplicáveis”, adiantou. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

China - Ensino do português no país continua a crescer

O ensino do português na China continental registou um crescimento acelerado nos últimos 20 anos. Há 25 universidades chinesas que ensinam português, abrangendo mais de 1500 estudantes. No entanto, o rápido aumento da oferta está a dificultar a vida aos profissionais da área, habituados outrora a receberem propostas de trabalho mesmo antes de terminarem o curso



Num dos edifícios da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim (Beiwai), quase cem alunos e ex-alunos, oriundos de toda a China, aguardam por um exame de português, um projecto de vida que atrai cada vez mais chineses. “Espero conseguir com este certificado [CAPLE, Centro de Avaliação de Português Língua Estrangeira] ter mais oportunidades de emprego”, explica à agência Lusa Zelma, que viajou deste Tianjin, cidade portuária a 120 quilómetros de Pequim, ilustrando a crescente competitividade no mercado de trabalho para licenciados em português, língua que, até há pouco, significava emprego certo na China.

A mais antiga licenciatura em língua portuguesa da República Popular da China foi criada em 1961, precisamente na Beiwai. Durante quase vinte anos, aquele curso foi o único do género no país e, até ao final da década de 1990, surgiu apenas mais um, em Xangai. No entanto, o ensino do português no continente chinês registou um crescimento acelerado nos últimos 20 anos, coincidindo com o retorno de Macau à soberania de Pequim, que confiou à região o papel de plataforma comercial com os países lusófonos.

A evolução das trocas comerciais entre a China e a lusofonia, que só em 2018 se cifraram em 147 354 milhões de dólares, um aumento de 25,31%, em termos homólogos, geraram uma crescente necessidade em formar quadros para trabalhar com os países de língua portuguesa.

Hoje, não contando com Macau e Hong Kong, há 25 universidades chinesas que ensinam português, abrangendo mais de 1500 estudantes. No entanto, o rápido aumento da oferta está a dificultar a vida aos profissionais da área, habituados outrora a receberem propostas de trabalho mesmo antes de terminarem o curso.

“Para quem tem apenas licenciatura, encontrar emprego na China tornou-se difícil”, diz Isabel, que entrou em 2008 para o curso de português da Universidade Normal de Harbin, no Nordeste da China, e tirou depois uma pós-graduação na Universidade de Macau. “Optei por estudar português porque na altura havia escassez de profissionais com conhecimentos da língua”, recorda. “Mas, nos últimos anos, o mercado tornou-se mais competitivo”.

Para os recém-licenciados que rumam a Pequim ou Xangai, as duas principais metrópoles do país, e que estão entre as cidades com mais alto custo de vida do mundo, o salário inicial varia entre 7000 e 8000 yuan. Um intérprete simultâneo chinês – português e vice-versa pode receber até 10 mil yuan por dia de trabalho, geralmente a acompanhar delegações de empresários ou visitas oficiais, mas trata-se de uma tarefa ocasional e executada apenas pelos profissionais mais experientes. Já quem está disposto a rumar a África “continua a ter muitas oportunidades”, conta Isabel.

Em Angola ou Moçambique, um intérprete e tradutor numa das centenas de empresas chinesas que ali operam na construção de infra-estruturas, sector energético ou mineração, recebe por ano entre 200 mil e 400 mil yuan, segundo estimativas da agência Lusa, com base em ofertas de emprego difundidas em portais chineses.

A maior exigência no mercado de trabalho levou a Beiwai a elevar este ano o seu Departamento de Estudos de Língua Portuguesa ao estatuto de faculdade, visando complementar o ensino da língua com conhecimentos “mais aprofundados” sobre os países lusófonos e “aumentar o intercâmbio internacional”, diz à agência Lusa a directora, Patrícia Jin.

“É um passo natural, que nos permite ter mais recursos, mais possibilidades e mais alunos e professores”, explica. “Com esta evolução, abriremos mais cadeiras, em cinco áreas de estudo: linguística, tradução, literatura, ciência política, economia e comércio”, detalha.

Entre os licenciados, há também quem opte por reforçar o seu curriculum com um mestrado em Portugal ou no Brasil. Zelma, por exemplo, vai em breve começar um mestrado na Universidade de Lisboa, permitindo-lhe também conhecer melhor um país cuja História aprendeu ainda no ensino secundário. “Fui sempre aluna da área das Humanidades e sempre gostei muito de História, conheço bem o período dos Descobrimentos”, conta. João Pimenta – China “Agência Lusa” in “Ponto Final”